Resenha de Nameja gredzens: O Último Rei Pagão

     Em fevereiro de 2018 foi lançado um novo filme letão tratando de um tema de interesse garantido para qualquer um com laços com a Letônia: o anel de Nameisis, ou Namejs.

     Diz uma historieta popular na Letônia que no final do século XIII, por ocasião das cruzadas levadas a cabo pelos alemães no Báltico, Nameisis/Namejs, um rei dos Zemgálios – uma das tribos componentes do povo letão – usava um anel peculiar. Ao fugir dos alemães para as florestas do sul de Zemgale e no norte da Lituânia, todos os homens da tribo passaram a usar um anel igual, a fim de confundir os invasores. Com o tempo, o anel se tornaria um símbolo de etnicidade entre todos os letões no mundo.

     Esta história é uma construção moderna, tendo sido popularizada pelo romance Nameja gredzens de Aleksandrs Grīns, publicado em 1929. Como tantas outras supostas “tradições” em outros países (por exemplo, os tartans escoceses e irlandeses), autores nacionalistas modernos deram para seu povo símbolos que remetem ao passado para trazer um senso de identidade e pertencimento àqueles no futuro. (Aos interessado no tema, ou aos que estão duvidando do que acabamos de afirmar, recomendamos a leitura de “A invenção das tradições”, do historiador britânico Eric Hobsbawn).

     Desta forma, evidentemente o filme possui um atrativo a mais para os letões de hoje, entre os quais nos incluimos. Nosso entusiasmo inicial, no entanto, logo se tornou em  decepção.

     Seu diretor é Aivars Gruba, conhecido pela direção de diversos filmes e, principalmente, “Rīgas sargi” – os Defensores de Riga, de 2007, que trata sobre a luta travada pela independência da Letônia após 1918, com o final da Primeira Guerra Mundial. Com este curriculum, não é de se admirar que o diretor tenha experiência e interesse em trazer temas nacionais para a grande tela.

     A fotografia e a cinegrafia do filme são apuradas. As tomadas aéreas, em particular, trazem imagens estonteantes de florestas e pântanos da Letônia (provavelmente algumas das tomadas de pântanos tenham sido feitas na reserva nacional de Ķemeri) muitas vezes cobertos pela neblina, e as construções, de forma geral, são executadas com domínio impecável da técnica.

Mas os elogios ao filme já podem parar praticamente neste único parágrafo.

Tomada dos créditos iniciais de “The pagan king”.

     Uma primeira surpresa ao se assistir o filme é que o mesmo se passa inteiramente em inglês, ainda que hajam versões com legendas em letão e russo e uma versão dublada. Os interessados em ter mais contato com elementos genuínos nacionais já têm um início conturbado, portanto. Essa escolha da língua provavelmente influenciou o casting do filme, a começar pelo ator principal, que interpreta Nameisis. Edvin Endre, um ator de origem sueca, é mais conhecido internacionalmente por seu papel apagado na série Vikings, na qual foi o detestável personagem Erlendur.

Edvin Endre como “Erlendur” na série “Vikings”.

     Lauga, sua esposa, é interpretada pela mais agradável lituana Aistė Diržiūtė, enquanto que o vilão principal, Max von Buxhoeveden, pelo britânico James Bloor. Causa estranheza imediata, portanto, que um filme com temática tão letã não possua um letão dentre seus três personagens principais, ainda que os tenha em personagens secundários e terciários.

     A origem estrangeira do elenco não traz grandes acréscimos ao filme. Em relação ao filme anterior citado de Aivars Grauba, nota-se a diferença; se então parte considerável dos atores era de mais idade, formada ainda dos tempos da União Soviética e atuante no cinema letão (como os memoráveis Jānis Reinis e Elita Klaviņa nos papéis principais), de uma rica tradição cinematográfica que remonta a nomes como Serguei Eisenstein, o novo elenco é de atores internacionais da lista B, capazes de falar inglês, mas não necessariamente de entregar uma boa performance.

     As interpretações são, no mínimo, sofríveis, a começar pelo principal vilão, “Max”, um personagem monocromático que efetua maldades inomináveis a cada segundo com pouca justificativa para tanto que não seja o fato de ser o antagonista. Todos os maus recursos usados para caracterização de vilões em filmes B estão presentes, dos risos maléficos, olhos esbugalhados de raiva, súbitos assassinatos sem justificativa e uso de xingamentos e palavras de baixo calão constante.

Max, com sua expressão vilanesca padrão

     Os heróis principais não se salvam muito. Isto se deve não apenas à inabilidade dos autores, mas também à péssima escrita. Os diálogos são sofríveis, o texto é sofrível, os personagens são sofríveis, quando não terríveis. A divisão entre mocinhos e bandidos é monocromática; os alemães, cristãos, são 100% maus, e como tal se comportam. De fato, a primeira cena com diálogos do filme traz o papa de Roma, subitamente matando outra pessoa ao fazer tramóias com seu filho bastardo Max, que quer para si o território de Zemgale.

O papa matando subitamente alguém sem maiores explicações com uma facada na barriga,
aos 03:12 do filme. Max, seu filho bastardo, e os cavaleiros em volta parecem não notar.

     O vilão Max, já citado a pouco, é a ideia quintessencial trazida no filme de quão maus eram os alemães cruzados, apresentados sem qualquer nuance ou tentativa de credibilidade. Em uma cena próxima dos atos finais, por exemplo, há um único bom cristão, um monge de aspecto doentio, irmão do vilão Max (a prole do papa no filme parece ser imensa), que é encarado com ironia pelos demais por querer evangelizar os pagãos.

     Ao procurar impedir a luta entre alemães e zemgálios, ele é flechado pelos próprios alemães sem maiores problemas. Um uso no mínimo desonesto da parte do diretor das fontes escritas disponíveis, ignorando, por exemplo, os relatos da Crônica de Henri da Livônia e o exemplo de seu próprio personagem principal, que demonstra uma preocupação com o aspecto religioso das empreitadas, e apresenta outros seus antecessores que inclusive perderam a vida nas mesmas.

     Há de se notar que a casa dos Buxhoeveden de fato existiu (ainda que não Max, que provavelmente foi baseado pobremente em indivíduos que lutaram na guerra de zemgálios e lituanos contra os cruzados do final do século XIII) e teve de fato papel sangrento na conquista das tribos bálticas, mas dificilmente justifica a narrativa pobre em questão.

     Há de se notar que os cruzados alemães do filme dificilmente fazem jus ao poderio militar dos reais cruzados ocidentais, principalmente, mas não apenas compostos de alemães e escandinavos, que possuíam bestas, armas de sítio e cavalaria, enquanto que no filme usam arcos e armas simples em sua maioria e são bastante inábeis em combate. Em uma cena no pior estilo holywood (bolywood daria mais certo para descrevê-la), o herói Nameisis, preso pelos cruzados e amarrado, dá conta facilmente – sozinho e amarrado, repetimos – de toda a tripulação do barco, libertando-se e voltando para a terra a nado.

     Os zemgálios, por sua vez, com exceção de algumas tentativas de matizá-los, com conflitos internos, são apresentados de forma generosa quando não estão envolvidos em tramóias para derrubar o rei; usualmente sorridentes, agradáveis, exemplos de nobres selvagens praticando rituais puros que infelizmente não têm muita habilidade poĺitica.

     A retratação religiosa dos zemgálios deve muito à Dievturība, um movimento moderno que alega reconstruir a religião tradicional dos povos bálticos, mas que apresenta um resultado anacrônico e altamente idealizado.

     Uma exceção que merece ser citada aqui é a aparição de um “xamã”. Alguns autores pressupõem, parcialmente baseados na descrição de crônicas, da existência de um tipo de sacerdotes conhecidos como “Krive”, “Tulissones” ou “Ligaschones” dentre os povos bálticos, que poderia se assemelhar aos xamãs eurasiáticos, com seus tambores e ritos.

O “Krive” em “The pagan king”

     Não há menção qualquer no decorrer do filme de costumes zemgálios muito frequentes citados nas fontes escritas que possam denegrí-los como, por exemplo, a decapitação. Segundo a Crônica de Henri, os zemgálios iam para a batalha com carroças, que enchiam com cabeças dos inimigos ao final da batalha.

     Os conflitos internos entre personagens desejando a primazia entre os zemgálios são feitos de forma completamente formulaica, apresentando os opositores a Nameisis de forma negativa e estereotipada, e com o intuito de reforçar a mensagem nacionalista do filme – se os zemgálios não se unirem, serão conquistados.

     De fato, há uma escolha estética e estilística bastante evidente usada no filme que explica muito de suas decisões questionáveis; o diretor procurou sem qualquer limite ou autocrítica emular descaradamente os recursos usados na série “Vikings” (e, em menor grau, “Game of thrones” – há, por exemplo, um lobo que acompanha Lauba por toda a história). Como já citamos a pouco, o ator principal participou da mesma. No entanto, a emulação nem de longe pára por aí.

Um “zemgálio” na cena da batalha final

     A imitação dos personagens é descarada; Valdis (interpretado por Ivo Martinsons), o conselheiro principal de Nameisis, e de Viesturs antes dele, é uma imitação do personagem “Björn” da série vikings, a começar pela forma de cortar cabelo e barba, mas também na forma de falar, a intonação das frases, o sotaque e os trejeitos que, antes de tradicionais e baseados em reconstrução histórica, são invenções muito específicas de Michael Hirsch para a série “Vikings”.

Björn Ironside, na série “Vikings”
Valdis, em “The pagan king”

    Outros personagens são cópias completas da série, como o personagem Lemme, interpretado por Lauris Dzelzītis (finalmente um letão no elenco); exatamente as mesmas imitações usadas para Valdis/fake Björn ocorrem com este personagem. De fato, seu desafio a Namesis, ao invés de apresentar uma matização da desunião entre zemgálios, dando solidez à reconstrução histórica, é feita de forma a emular novamente a série Vikings, marcada por guerreiros fazendo bravata e criando brigas entre si em salões repletos de guerreiros e bebidas.

Ubba, Bjorn e Halfdan, em “Vikings”
Lemme, em “The Pagan king”

     Nameisis usa duas táticas de batalha; a tática da víbora (“viper”) e a tática do muro de escudos (“Shield wall”). Ambas, novamente copiadas do mundo Escandinavo. De fato, não apenas na série Vikings, mas também na mais embasada “The Last Kingdom”, já se tornou topos repetido à exaustão um grupo de vikings entrando em formação de combate, sob o grito de seu líder de “Shield wall”.

     As mulheres guerreiras (“Shieldmaidens”), um tópico de debate recorrente – e problemático – nos estudos vikings e escandinavos contemporâneos, e tão proeminente retratadas na série Vikings com as personagens Lagherta e Torvi, dentre outras, é emulada em “The pagan king”. Nas cenas de batalhas, inclusive na batalha final, há inúmeras guerreiras trajadas e penteadas de forma a imitar ao que é feito na série. Desnecessário dizer que não há fundamento histórico para seu uso.

     Por fim, no quesito de reconstrução histórica, outros deslizes e aberrações são frequentes. No campo de deslizes poderíamos citar o uso das vestimentas e, principalmente, armas, em sua grande maioria imitações de equipamentos usados na Escandinávia. As espadas, em particular, são imitações das espadas vikings de tipo “Ulfberht”, artigos raros no Báltico, encontradas com maior frequência dentre os Kurši, que tinham maior relação com a Escandinávia, mas nem de perto tão frequentes em Zemgale. Podem se encontrar cerca de apenas duas a três espadas de tal modalidade no museu de Liepaja, encontradas entre os Kurši.

     O cuidado com as vestimentas étnicas também é relativizado, procurando se inserir elementos com “jeito” escandinavo, diminuindo em parte as vestimentas mais notavelmente bálticas. Ainda assim, este quesito é possivelmente um dos aspectos com mais cara “báltica”, ao menos em personagens como Lauga e a rainha Rama, com uma ressalva importante – as vestimentas bálticas, como no caso do casamento, por exemplo, tem mais a ver com vestes de Latgale de dois séculos anteriores, do que propriamente Zemgale do século XIII.

     Os barcos e tudo a que eles se relacionam são cópias escandinavas, desde a cópia do famoso barco noruguês de Oseberg, datado de mais de três séculos anteriores, até o funeral do rei zemgálio Viesturs, no qual ocorre outra aberração histórica: a rainha Rama, enviuvada, sobe ao barco para morrer junto com o marido. Aqui há uma provável inspiração fora de lugar e de época no funeral escandinavo entre os Rus’ no qual uma concubina o acompanha ao além, descrito pelo cronista árabe Ahmed Ibn Al-Fadlan – novamente, um relato de mais de três séculos de diferença, e contexto étnico e geográfico muito distinto.

     Um anacronismo particularmente grotesco é a construção de um cenário extremamente semalhante a Stonehenge, da Inglaterra, como se fosse um lugar sagrado e secreto dos Zemgálios. Os cultos megalíticos datavam de milhares de anos antes dos eventos relatados, e não há no território letão construções no estilo de Stonehenge, ainda que rochas mais isoladas e esparsas sejam encontradas.

Nameisis no “Stonehenge” zemgálio

     Por fim, “The pagan king” é, senão uma desonestidade com o espectador, um insulto à sua inteligência, e uma boa oportunidade perdida. A excelência na fotografia e a evidente capacidade técnica demonstradas na execução do filme foram desperdiçadas em uma produção que se preocupa mais em parecer ocidental, ser cool e imitar exaustivamente blockbusters supostamente “históricos” do ocidente do que de fato executar um filme histórico ou de inspiração histórica.

     O cinema letão perdeu uma chance de divulgar sua cultura nacional e agora os historiadores têm mais um problema ao explicar para os desavisados sobre a origem do anel tão famoso e difundido. O diretor Aivars Grauba parece ter se esquecido do próprio lema que seus personagens repetem à exaustão: se os Bálticos deixarem de lado quem são, serão diluídos e perderão sua identidade.

Kurši, os vikings do Báltico

Os vikings estão na moda: séries, blogs, grupos de reenactment e sites têm tornado os famosos guerreiros medievais favoritos da cultura pop. Como acontece com toda temática histórica aproveitada pela indústria cultural, uma série de estereótipos acaba por permear a compreensão do tema; os vikings, por exemplo, não foram um povo ou um grupo étnico. Antes, ‘viking’ se referia a uma forma de vida, a uma ocupação; provavelmente derivado do Antigo Nórdico vik, significando ‘baía’, ‘enseada’, o víkingr era aquele que navegava em expedições de comércio ou saque.[1]

Autores cristãos, latinos e anglo-saxões do medievo, traduziam o termo de forma negativa, como ‘pirata’. Em suma: os vikings não foram um ‘povo’, uma ‘etnia’ ou uma ‘raça’ – termo cientificamente caduco – e diversos grupos étnicos poderiam ser encontrados entre vikings nos mares Báltico e do Norte: escandinavos, em sua maior parte, mas também irlandeses e escoceses, gente oriunda das Ilhas Man[2], eslavos ocidentais e orientais, fino-úgricos como finlandeses e estonianos e também povos bálticos, ancestrais de parte dos letões de hoje.

Nesse artigo trataremos de um desses grupos Bálticos, cujo modo de vida, valores, crenças e costumes os aproximaram muito dos escandinavos do medievo, podendo ser considerados como parte dos vikings a frequentar as praias do Báltico: os Kurši.

            Kurši[3] eram os habitantes da Kurzeme, região ocidental da atual Letônia. Referida nas fontes latinas medievais como Curônia ou Curlândia e Kúrland nas fontes escandinavas, a região tornou-se um ducado vassalo do rei da Polônia-Lituânia nos tempos modernos, chegando a participar da corrida colonial e mesmo a obter possessões coloniais na Gâmbia e em Tobago. No período viking as regiões habitadas pelos dos Kurši estavam divididas em cinco divisões, centralizadas em fortificações citadas na Livländiche Reimschronike[4]: Pilsats, Megova, Duvzare, Ceklis e Piemare, abrangendo um território que englobava toda a área ocidental da atual Letônia até a costa norte da atual Lituânia.

Mapa 01: As divisões territoriais dos Kurši no século XIII. Obtido em ŠVĀBE, Arveds. Senā Kursa. In: Straumes un avoti. I sējums. Rīga: A.Gulbis, 1938.

Há muitas referências aos Kurši nas fontes escandinavas; algumas factíveis, outras, de caráter mítico ou ideológico; na maioria dos casos, fronteiras rígidas entre tais categorias não são possíveis de serem traçadas com clarezas. Também há quantidade considerável de vestígios arqueológicos conectando os Kurši aos escandinavos, principalmente da Suécia e da ilha Gotland.

Algumas referências escritas aos Kurši são memoráveis, como a descrição do cativeiro do skáldr Egill Skalagrímsson na popular “Egils saga”, escrita no século XIII provavelmente por Snorri Sturlusson. Também emblemática é a referência, bastante antiga, da Vita Anskarii de Rimbert, escrita no século IX, que conta sobre um suposto período de domínio dos suecos sobre os Kurši.

A Chronicon Henrici Livoniae traz informações sobre os Kurši no século XII, principalmente táticas militares e costumes funerários dos mesmos por ocasião de expedições de ataques marítimos aos cruzados e no cerco efetuado por eles a Riga, interrompido para o cumprimento da cremação de seus mortos.

Nos séculos XII e XIII os Kurši estavam frequentemente associados à estonianos de Saaremaa, executando expedições vikings pelo báltico, capturando escravos e bens (incluindo sinos de igrejas, principalmente na Suécia). Aparentemente até então, a julgar pelas referências textuais, possuíram diversos períodos de domínio ou pagamento de tributo da parte de Escandinavos entremeados por revoltas e momentos de liberdade. Em algumas ocasiões aparentam ser parceiros de escandinavos, seja em contatos comerciais ou expedições vikings.

Etnicidade e língua

Ainda que a opinião mais consensual considere os Kurši uma tribo dos baltos indo-europeus no período viking e no medievo, essa categorização étnica é questionada por alguns autores, ainda que poucos, que defendem a ideia que os Kurši falariam uma linguagem fino-úgrica.

Há um número considerável de termos de origem fino-úgrica que transparecem nos tratados do século XIII no idioma dos Kurši. O próprio significado do nome pode ter origem fínica – “kur”, é “grou” nos idiomas fino-úgricos. Outros termos são “kiligunden”, uma região administrativa, e “maleva”, uma unidade do exército. Argumentos dessa lavra são comuns em obras de popularização científica, como a publicação do historiador amador Edgar Valter Saks[5]. Há de se notar que a língua letã contemporânea também possui vários cognatos com as linguagens fino-úgricas, incluindo termos de uso cotidiano, como puika e mežs, mas não se cogita questionar a filiação báltica do letão simplesmente por se possuir um conhecimento completo da linguagem em seus aspectos morfológicos, gramaticais e sintáticos, que são indubitavelmente indo-europeus, ainda que com considerável influência dos vizinhos fino-úgricos.

Há acadêmicos contemporâneos também, no entanto, que defendem a filiação fino-úgrica dos Kurši. A principal autora que pode ser citada é a estoniana Marika Mägi, que em adição aos termos já referidos, analisa também alguns topônimos: até o século XIX, por exemplo, a ilha estoniana de Saaremaa era chamada de “Kurasaar”, ou seja: Ilha dos Kurši, ou argumentos mais difíceis de seguir, fazendo um paralelo no caso de Kurzeme e Kurasaar/Saarema com as regiões estonianas da costa ocidental, chamada pelos escandinavos de Adalsýsla, e novamente a ilha de Saarema, chamada de Eysýsla.[6]

Repetimos que essa identificação é aceita por poucos, e deve ser considerada como uma idiossincrasia a mais em categorizações e divisões étnicas das populações (não apenas) do medievo. Os Kursenieki, ou Kuršininkai em lituano, descendentes quase extintos dos Kurši nas costas lituano-prussianas, falavam até o século XIX um idioma muito próximo ao letão, e seus remanescentes contemporâneos na região de Palanga, na Lituânia, são contados nos censos lituanos como “letões”, ainda que não aceitem a denominação e se auto intitulem Kuršininkai.[7] Vocabulários publicados em 1927 e reeditados posteriormente demonstram inequivocamente a natureza da língua desses Kursenieki: 13% das palavras eram cognatos ou empréstimos do Lituano; 26%, do alemão, enquanto 60% do vocabulário era o mesmo do letão, o que torna a língua dos Kursenieki mutualmente inteligível aos letões, particularmente os habitantes do sul da Kurzeme de hoje, nas áreas próximas a Liepāja e Nica.[8] O debate na linguística báltica está mais focado em uma afiliação antiga do idioma dos Kurši ao ramo Báltico Ocidental, do qual derivou o antigo-prussiano, ou ao Oriental, do qual derivou o letão e o lituano.[9]

Étnica e geneticamente, há debate sobre a origem dos Kurši; de forma similar à questão linguística, o principal tópico discutido na arqueologia báltica é referente a sua  afiliação aos Baltos Orientais ou Ocidentais. A questão não é de simples solução e é difícil apresentar uma hipótese clara e unilinear. De forma geral, os baltos indo-europeus, cuja etnogênese deu-se nos primeiros milênios antes de Cristo, ramificaram em duas direções: leste e oeste.  Os atuais letões e lituanos descendem das tribos baltas orientais, que tiveram seu território original reduzido nos séculos VIII em diante pelo avanço das tribos eslávicas para o norte, enquanto os antigo-prussianos, extintos após séculos de colonização e assimilação germânica, representariam os descendentes dos Baltos Ocidentais; discute-se que os Kurši possivelmente teriam origem dentre os Baltos Ocidentais, e não orientais.

Esta afirmação parece contraditória, visto termos a pouco afirmado a familiaridade do idioma dos kursenieki ao letão contemporâneo; a contradição pode ser compreendida com a afirmação de uma assimilação linguística; os Kurši teriam assimilado muita da linguagem de seus vizinhos próximos de origem mais oriental – dos quais linguisticamente não eram tão distintos assim, e cuja similaridade idiomática facilitou em muito a situação. Como fator de complexificação da questão, há ainda a expansão dos Kurši rumo ao norte, que os colocaria em situação de confronto, assimilação e mistura com os povos de fala fino-úgrica – os livônios.  

 A antropologia física demonstra a existência de algumas diferenças físicas entre as tribos bálticas orientais e ocidentais, principalmente no aspecto da craniometria.  Os baltos da faixa costeira da Prússia até a Kurzeme possuíam forma craniana dolicocéfala, ou seja – crânios de tendência alongada e, dentre outras peculiaridades culturais, cremavam seus mortos[10]. Os costumes funerários crematórios, comuns dentre esses baltos desde a Idade do Bronze, sofreram um período de interrupção e voltaram ao uso corrente a partir do século IX[11].

Mapa 02: Mapa demonstrando a divisão aproximada dos grupos étnicos no período viking no território da atual Letônia. As áreas rachuradas indicam territórios com população mista;. Fonte: LU RAKSTI. Pilskalni Latvijas ainavā. 2006.

O nome de Kurši, ou traduções do mesmo, é encontrado nas fontes escritas referindo-se a acontecimentos prováveis dos séculos VII em diante; destarte, quando é possível se alegar uma assimilação e mistura entre as tribos ocidentais com as orientais.

Vejamos a seguir o que algumas fontes escritas contam acerca dos Kurši. Não faremos um apanhado exaustivo, mesmo por questões de espaço; antes, daremos ênfase a alguns relatos de maior extensão que permitam o traçar de reconstruções.

Os Kurši nas fontes escritas

A Vita Anskarii de Rimbert e os escandinavos na área de Grobiņa

A primeira referência escrita que se tem ao Kurši é encontrada em uma fonte latina, a Vita Anskaarii, uma crônica escrita pelo eclesiástico Rimbert contando sobre a vida de Anskar, primeiro missionário cristão a pregar aos povos do norte, principalmente suecos da tribo dos Svear. Essa crônica fala, muito brevemente, sobre um período no qual os Kurši estavam sujeitos a governantes suecos.

A ocupação sueca de Kurzeme é um dos poucos episódios ao qual podemos referir com suficiente segurança nos séculos anteriores ao período viking. A respeito dele obtemos informações tanto das fontes escritas como das arqueológicas. Sítios arqueológicos escavados pelo sueco Birger Nerman em Grobiņa, atual Letônia, e Apuole, atual Lituânia, na década de 1920, suportam interpretações baseadas nos textos escritos que demonstravam haver relações entre os Kurši com a tribo sueca dos Svear e com a ilha de Gotland, desde o século VII[12]; essas são as primeiras referências escritas disponíveis.

O capítulo XXX da Vita Anskarii traz referência não apenas a tal ocupação, mas também às relações entre os Kurši e os Svear (Suecos):

Porque certo povo chamado de Kurši havia estado algum tempo anterior em sujeição aos suecos, mas já havia um longo tempo desde que se rebelaram e recusaram estar em sujeição. Os Dinamarqueses, atentos a isto, quando da ocasião de o bispo (Anskar) ter entrado em território sueco, juntaram um grande número de navios, e procederam a este país, ansiosos em tomar seus bens e sujeitá-los. Seu reino tinha cinco cidades, e quando os habitantes souberam da sua vinda reuniram-se e, de modo árido, começaram a resistir virilmente e defender suas propriedades. Obtendo a vitória, eles massacraram a metade dos dinamarqueses e saquearam seus navios, obtendo deles ouro, prata e muito espólio. Ao ouvir isto, o Rei Olaf e os suecos, que desejaram ganhar para si a reputação de que eles pudessem fazer o que os dinamarqueses não tinham feito, e porque este povo já havia antigamente estado em sujeição a eles, juntaram um imenso exército procedendo a estas partes. Em primeira instância eles entraram numa cidade de seu reino chamada de Seeburg. Esta cidade, que continha sete mil homens de guerra, eles saquearam, despojaram e queimaram. Isto os deixou com as esperanças fortalecidas e, tendo despachado seus navios, partiram em viagem de cinco dias áridos, apressando-se com intenções selvagens rumo a outra das cidades deles chamada Aputra, na qual havia quinze mil homens aptos para a guerra. Quando eles a alcançaram, eles haviam corrido para dentro da cidade, e enquanto uma parte a atacava vigorosamente do lado de fora, a outra a defendia por dentro. Passaram-se oito dias deste modo, com o resultado que, apesar de terem lutado e empreendido guerra desde a manhã até a noite, tendo muitos caído em ambos os lados, nenhum deles obteve a vitória. Ao nono dia os suecos, cansados de tal matança diária, começaram a afligirem-se, e em seu terror consideravam apenas de que modo poderiam escapar. “Aqui”, disseram eles, “nós não conseguimos fazer nada e estamos longe de nossos navios”. Pois, como já dissemos, estavam a cinco dias de viagem do porto no qual estavam seus navios. Como estavam em grande distúrbio, sem saber o que fazer, resolveram tirar sortes para inquirir aos seus deuses se eles iriam auxiliá-los a obter a vitória ou se eles deviam sair do lugar de onde estavam.”[13]

A história termina com uma vitória de modo diferente do qual estariam habituados os suecos: mercadores que os acompanhavam lembraram-se dos ensinamentos de Anskar, e rogaram ao Deus dos cristãos que os ajudassem. Após isso os Kurši propuseram a paz aos suecos, pagando-lhes metade do espólio que haviam adquirido anteriormente ao vencerem os daneses.

Este episódio oferece-nos subsídios para diversas considerações. Sua referência inicial diz que “certo povo chamado de Kurši havia estado algum tempo anterior em sujeição aos suecos, mas já havia um longo tempo desde que se rebelaram e recusaram estar em sujeição”.

As escavações na região de Liepāja demonstram um período de sujeição dos Kurši aos suecos de aproximadamente 200 anos, entre os séculos VII a IX[14]. O sítio de Grobiņa, datado do final desse período, foi identificado pelo arqueólogo Birger Nerman com a Seeburg de Anskar; na área foram encontrados até o momento cerca de 3.000 enterramentos escandinavos, principalmente no cemitério de Priediena, datados entre os anos 650 a 850.[15] Nerman, que escavou o local junto com o letão Francis Balodis inicialmente em 1929, publicou diversos trabalhos sobre o local no período entre-guerras, no qual a Letônia desfrutava de sua independência, destacando-se Die verbindungen zwischen Skandinavien und dem Ostbaltikum in der jüngeren eisenzeit, de 1929 Grobin-Seeburg; Ausgrabungen und Funde, de 1958.

Diversos estudiosos pesquisaram o local posteriormente, ampliando a compreensão do que acontecera ali: Peteris Stepiņš (1951), Jolanta Daiga (1957), Valerii Petrenko e Jānis Asaris (1984-89). Estudos mais recentes foram feitos após 2010 por cooperação entre estudiosos letões com o Centro para Arqueologia Báltica e Escandinava, de Schleswig, Alemanha.

Autores de populares manuais sobre os vikings fundamentam-se em Nerman; Brøndsted[16] posiciona-se a favor da opinião segundo a qual o sítio de Grobiņa consistiria em algum forte construído após a destruição de Seeburg, no mesmo local (as escavações demonstram uma fortificação construída sobre outra, destruída). Já Aputra possivelmente identificaria-se com a cidade de Apuole, atualmente em território Lituano[17].

A arqueologia fornece a datação dos séculos VI ao IX. Rimbert, escrevendo por volta de 870-880[18], refere-se a certo período anterior de sujeição dos kurs aos suecos. Anskar morrera por volta de 865[19], com possivelmente 64 anos. Supondo-se que os acontecimentos em Seeburg tivessem dado-se em torno da data de sua morte, se transcorreriam entre 5 a 15 anos entre o ocorrido e a escrita de Rimbert. Este, no entanto, afirma que a sujeição dos Kurši aos suecos teria se encerrado em tempo “muito anterior” ao ocorrido em Seeburg.

As interpretações de Nerman ainda influenciam muito do que se conhece do local; argumenta-se a existência de dois grupos escandinavos principais: os Svear, que provavelmente compunham uma guarnição militar, que dava suporte a outro povoamento, de natureza comercial. Este último continha inclusive enterramentos de mulheres e crianças, com achados mais similares à Cultura Material de Gotland. Apesar da relativa antiguidade da interpretação, muitos autores posteriores não fizeram muito para modificá-la, adicionando nuances quanto à natureza, impacto e abrangência desse empório comercial, e discutindo as razões pelas quais a colônia Sueca se extinguira[20].

A presença escandinava é forte em Grobiņa, mas as pesquisas mais recentes, conduzidas principalmente por Ingrida Virse e Inga Doniņa, demonstram que o grau de associação com os Kurši locais é maior do que se depreende pela leitura exclusiva de Nerman, e os achados e enterramentos demonstram influências culturais de mão dupla[21]. Uma visão interessante sobre a relação mista entre Kurši (“kurir” para os escandinavos) e escandinavos, ora de associação, ora de disputa, pode ser vislumbrada na Egilssaga, no capítulo 46, que trataremos e breve.

Em 2013 tivemos a oportunidade de visitar Grobiņa, por ocasião de nossos estudos de doutoramento na Universidade de São Paulo, que inclusive custeou a viagem. Enquanto a colina fortificada se encontra no centro da cidade e tenha sido reutilizada diversas vezes após o período viking, incluindo pelos conquistadores germânicos, a área dos cemitérios escandinavos (Priediena senkapi) é mais recuada e, ainda que não de difícil acesso, passa despercebida por quem não sabe o que procurar.

Figura 01: Grobiņas pilskalns. Foto do autor, 2013.

A área do cemitério escandinavo é bastante ampla, e no local foi construído uma espécie de hipódromo, circundada por florestas em diversos pontos. Há mais de um cemitério, incluindo enterramentos pré-históricos, enterramentos escandinavos, Kurši e mistos. Encontram-se cercados por fitas brancas, já que o local foi tombado pela UNESCO. Contém algumas placas indicativas em letão e inglês. Alguns locais de enterramento encontram-se ao ar livre, sem maiores demarcações, sendo difícil discernir os locais. De fato, há um grande número de locais antigos de enterramentos, e a urbanização da cidade deu-se sem notá-los.

 

 

 

Figura 02: Priediena senkapi (cemitério antigo de Priediena). Foto do autor, 2013.

Existem locais próximos a Liepaja, como Taši, nos quais foram encontrados mais vestígios de escandinavos. O material arqueológico escavado nessas localidades encontra-se depositado no museu de Liepāja. Há uma quantidade considerável de material escandinavo, incluindo broches, espadas “vikings” e uma estela pictórica proveniente de Gotland, escavada por Petrenko em 1987, publicada no Fornvännen número 86 (de 1991, no qual sua interpretação foi corrigida por Lamm)[22] e bastante gasta. Existem outros três principais exemplares desta modalidade de estela na Escandinávia, que foram estudados por Nylén e Lamm, e são considerados “artigos de exportação” de Gotland..

Figura 03: Espada ‘viking’ encontrada na área de Grobiņa, depositada no museu de Liepāja. Muitas espadas do período viking são encontradas com suas lâminas entortadas, por razões religiosas e rituais. Foto do autor, 2013. Agradecimentos a Guna Dancīte, que nos auxiliou grandemente no acesso ao acervo.

 

A Egilssaga: militarismo e riqueza

Os contatos de vikings escandinavos com o povo de Kurzeme não se limitavam aos suecos e dinamarqueses. Noruegueses e islandeses parecem ter sido ativos na região, ainda que com menor intensidade. A Egils saga, escrita no século XIII provavelmente por Snorri Sturlusson, a despeito de sua data tardia – dois a três séculos após o período viking – e grande dose de romantização, nos traz um relato interessante sobre a dinâmica entre Kurši e escandinavos no período viking. Muito do nela narrado é senso comum nas sagas e narrativas de heróis do período viking; é possível, no entanto, ainda que com ressalvas, se efetuar reconstruções e comparações a fim de se vislumbrar ao menos um pouco dos Kurši.

Egil Skalagrimsson foi uma das mais conhecidas personagens do mundo viking. Pirata, proprietário, skaldr[23], personifica de modo exemplar o ideal viking.  Matou a primeira pessoa quando possuía seis anos de idade, por disputas num knattleikr[24]. As reações de seus pais são exemplares: enquanto que o pai, Skallagrim, mostra-se indiferente, sua mãe nota que “Egil agia de forma que certamente seria um viking de verdade quando tivesse idade suficiente para ser colocado à frente de um navio de guerra[25]”.

Em torno dos doze anos de idade (e após muita insistência, incluindo atos de sabotagem do barco do irmão[26]), Egil parte com o irmão Thorolf em suas viagens; mata um homem do rei Eirikr[27], e realiza uma fuga espetacular, na qual mata mais homens do rei[28]; tudo isto entremeado de poemas scáldicos. Após isso, ambos partem numa expedição viking para Austrvegr. E é aqui que os Kurši entram na história.

Austrvegr significa, em antigo nórdico, “caminho de leste”. Pode se referir de forma genérica ao leste, incluindo o reino de Rus, a Rússia medieval, mas essa é usualmente referida como “Gardaríki”[29]. Austrvegr é mais frequentemente empregada para citar a área Báltica, incluindo as atuais Letônia, Estônia e Finlândia. Kurzeme é referida especificamente com o nome “Kúrland”[30]; seus habitantes são chamados de kurir pelos autores escandinavos[31].

A expedição de Thorolfr e Egil na Kúrland inicia-se com uma aliança: “Eles viajaram para Kúrland, permaneceram no país por meio mês, e ofereceram um acordo de paz e comércio[32]”, que não obstante terminaria com os habituais saques e butins vikings: “Mas quando o acordo foi concluído, começaram a fazer ataques; e mantiveram-se naquela mesma terra[33].  A troca de aliados de acordo com as conveniências é bastante conhecida no mundo viking.

A narrativa prossegue, Thorolfr e Egil aportam em um “estuário, com uma extensa floresta cobrindo a colina sobre ele”; dividem seus homens em grupos de doze, que passam a atacar os povoados, “separados por florestas”. Matam e roubam o que encontram pela frente, e as pessoas fogem ante sua chegada. No fim do dia, Thorolfr toca sua trombeta na praia, para que todos voltem a agrupar-se. Mas o grupo de Egil não chega.

Segundo a saga, Egil chegara a uma planície[34] larga e povoada, com uma propriedade[35], à qual se dirigem. Ali, caem numa emboscada: a localidade encontra-se completamente vazia, e os vikings atiram-se à pilhagem, explorando as habitações e apanhando o que pudessem carregar. Ao saírem da construção principal, encontram-se frente a uma grande quantidade de guerreiros.

Tratava-se da propriedade de um homem rico[36], protegida por diversos homens armados de lanças e espadas, aparentemente vestindo capas de lã. Entre a fazenda e a floresta se extendiam paliçadas, habilmente construídas de modo que aproveitavam a floresta e não permitiam ao invasor perceber a existência de mais de uma, induzindo-o, portanto, à captura.

Os Kurši atacaram os homens de Egil à base de lanças, “evitando combate corpo-a-corpo”, dando “botes” por frestas da cerca com lanças e espadas, e tornaram diversos dos vikings inofensivos pelo simples estratagema de cobrir suas armas com as capas. Egil e os seus foram presos e levados para dentro da casa. Esta, descrita como composta de diversos e vastos salões, alguns contendo muita riqueza e armas. As paredes eram construídas com grandes toras de madeira, alguns aposentos possuindo divisões de madeira mais leve e fina, aplainada.

O bóndi demonstrara a intenção de matá-los imediatamente, mas seu filho “já crescido” convence-o a não matá-los de noite, a fim de divertir-se com sua tortura no dia seguinte, o que serviria de exemplo a outros. Todos foram “firmemente amarrados”, sendo Egil atado, também “firmemente”, pelos pés e mãos, a um dos postes do salão ao qual foram levados. Os Kurši foram comer, beber e se divertir no salão principal.

Egil se sacode até conseguir com que o poste no qual está atado solte-se de sua base, no chão; solta a corda dos pulsos com os dentes, desata os pés e liberta os companheiros. Uma das paredes do aposento é feita com madeiras aplainadas, que conseguem quebrar, passando para aposento ao lado. Ali, ouvem vozes vindas do chão e descobrem um aposento inferior, de onde retiram três daneses capturados pelos Kurši. Com seu auxílio encontram os depósitos de armas e riquezas, e fogem em direção à floresta.

Julgando tal expedição e fuga indigna de um guerreiro, Egil retorna, adentra a cozinha e põe fogo no salão principal, onde os Kurši se divertiam, dando final recorrente em muitas sagas: os que tentavam sair do aposento em chamas eram mortos por Egil na porta.

Esta narrativa é bastante rica em detalhes que nos auxiliam a montar nosso “quebra-cabeças” hipotético. Seu valor exato factual deve ser muito relativizado, mas podemos traçar ao menos reconstruções aproximadas. As características dos Kurši ali descritas, em seu próprio meio, o são por estrangeiros; seu autor reconta o ocorrido por olhos escandinavos do século XIII.

A organização das comunidades dos Kurši é descrita de forma similar a outros povos com os quais lidam em diversas sagas, usualmente espelhando conceitos escandinavos. Segundo a narrativa, a população vivia em povoados dispersos em meio a clareiras na densa floresta. Em ocasiões especiais como o ataque que narramos, o habitual seria fugir em direção a algum senhor de maior riqueza e poder, normalmente dono de alguma espécie de fortaleza.

A referência à fortaleza possivelmente se remete a alguma realidade do contexto báltico. Estas fortalezas bálticas constituíam-se em largos morros de terra artificiais, encimados por paliçadas de madeira[37]; a descrição dada pela Saga de Egil concorda razoavelmente com achados arqueológicos, e mesmo com modelos tradicionais das paliçadas indo-europeias arcaicas[38].

Figura 04: Reconstituição da fortaleza báltica de Tushemlija, atualmente na Rússia Ocidental. Note-se a construção intricada das paliçadas. Fonte: GIMBUTAS, Marija. Os Baltas. RJ: Ed. Neris, 1986. p.204.

A narrativa de que, pouco antes de fugirem, teriam descido em aposento alcançado por meio de piso inferior (no qual encontraram muitas riquezas e armas, dirigidos por Aki, o dinamarquês que libertaram, e seus dois filhos) leva-nos a realizar deduções mais precisas do plano da construção: se pela referência anterior da libertação de Aki somos induzidos a imaginar uma espécie de porão, esta última nos obriga a concluir que os vikings encontravam-se todo tempo presos em aposento superior.

Somando-se isto à referência de muitos salões vastos, depósitos de armas e tesouros, cozinha em ambiente separado – e não no meio do salão – e o detalhe das paliçadas traiçoeiras, chegamos à reconstituição de uma construção intrincada, composta de trabalhos de madeira diversos (como a referência tanto a paredes de toras densas quanto de tábuas aplainadas mais finas) e terra, criativamente combinados de forma que aproveitavam os próprios recursos naturais (tanto no emprego dos materiais quanto na topografia).

Ainda que Egil tenha conseguido se soltar, a Saga não demonstra inépcia da parte dos Kurši. Longe disso, apresenta-os como sagazes e astutos, companheiros à altura de Thorolf e Egil em suas expedições. A fuga de Egil aparece, no relato, como justificada pela extrema persistência (podemos até valorar: teimosia) do próprio Egil, visto que o autor insiste em afirmar diversas vezes que ele e seus homens foram amarrados “firmemente”: antes de uma deslalorização dos Kurši, a Saga busca a glorificação de Egil.

A localização dos povoados longe da costa, em meio à floresta, bem como o procedimento aparentemente conhecido de recorrerem ao bóndi (a considerar pela cilada), é complementada pelo próprio achado de Aki e seus filhos: o bóndi era rico, e um dos maiores sinais de riqueza no norte viking era a propriedade de escravos[39].

As populações revestiam-se de tamanhas precauções justamente em virtude da frequência de ataques de pilhagem e captura. No diálogo travado entre Aki e Egil, o primeiro afirma ter sido capturado na Dinamarca, junto de seus dois filhos. Teria sido bem tratado pelos Kurši, e encarregado de trabalhos importantes, mas em prol de seus filhos tenta escapar, sendo por isso preso.

É digno de nota que Aki fora captado em sua propriedade, na Dinamarca, e não em alguma expedição que fizesse à Kurzeme. Pois os Kurši, assim como os vikings no geral, eram afeitos a expedições em terras estrangeiras, fosse com intuitos comerciais ou em busca de riqueza e escravos, sendo que aparentemente estas últimas ofereciam mais atrativos. A natureza dessas relações comerciais é ampla e diversificada: o complexo de Daugmale[40], por exemplo, revela achados desde Inglaterra até Bizâncio, e nos é impossível saber em que porcentagem tais achados se devem aos Suecos.

Uma referência interessante trata-se da espada de Egil; chamada por ele de “Víbora[41]”, foi obtida em sua expedição na Kurzeme[42]. Aparentemente era uma espada de grande qualidade: foi com ela que Egil travaria a batalha de Brunaburr na Inglaterra, onde seu irmão morreria[43]. E, mesmo após ter recebido uma excelente espada, tradicional na família[44], Egil manteria “Víbora” consigo[45]. Considerando a pobreza de jazidas minerais em Kurzeme – bem como toda a técnica necessária no fábrico de uma espada de qualidade, é razoável supor que tal espada fosse fruto de comércio.

Apesar da extensão comercial, no entanto, as expedições com intuito de saque parecem ter sido muito mais relevantes. Temos relatos, por exemplo, da destruição de Sigtuna em 1187 por estonianos (com participação dos Kurši), bem como algumas invasões e pilhagens mais extensas da Dinamarca (e.g.1203, descrita na Cronica de Henri).

Aparentemente, seus principais parceiros em tais expedições eram prussianos e estonianos, sendo suas principais vítimas os suecos. A se crer pelo que se conta na saga, tal regra não era rígida: Aki fora capturado pelos Kurs na Dinamarca, sendo que Egil e os seus foram aliados dos Kurši em Austrvegr, ainda que tenham desfeito tal aliança posteriormente.

 Tal confecções de alianças, no entanto, precisa ser considerada com cuidado: uma aliança entre islandeses e Kurši não implicava numa massa monolítica e unificada dos mesmos. Da mesma maneira que podemos encontrar amiúde nas sagas, o aspecto étnico não era determinante; em suas expedições grupos de vikings e kurs não necessitavam estar ligados à um “governo” ou grupo unificado, modificando suas alianças conforme fosse de utilidade.

As expedições efetuadas pelos Kurši não abrangiam regiões tão vastas e longínquas, ainda que fosse possível que alguns indivíduos agissem como mercenários. Mas por certo elas parecem ter sido tão eficazes quanto as de seus vizinhos, ainda que restritas principalmente ao Báltico. Schwabe[46], por exemplo, registra-nos inscrição particularmente irônica: “Deus, proteja-nos dos Kurs[47]”, encontrada em igrejas dinamarquesas, da época de Magnus (1041) e Svein (1049).

Tal prece parece não ter sido sem propósito, pelas razões que já esboçamos: o principal meio de vida dos Kurši ligava-se estreitamente à vida marítima, particularmente voltada à expedições de pirataria. Em tais expedições os Kurši conseguiam escravos, os quais ficavam encarregados dos trabalhos domésticos e de agricultura. Os bondi dos Kurši usufruíam, desta maneira, de tanta riqueza – fosse em jóias e metais preciosos ou escravos – quanto qualquer outro aristocrata no Norte da Europa; prosperidade adquirida principalmente à custa dos camponeses de Dinamarca[48] e Suécia[49].

Schwabe[50] é da opinião que o método de cultivo trienal tenha sido implantado em Kurzeme justamente por daneses, e tal assertiva encontraria respaldo na Saga de Egil: Aki era responsável pelo gerenciamento da fazenda do bondí, mas aparentemente seus filhos trabalhavam duro; e tal circunstância, somada às outras referências do trabalho realizado pelos escravos (arrumação das camas, cuidados com a cozinha, trabalhos na lavoura) revela certa extensão na natureza dos serviços domésticos legados aos escravos; repetimos, no entanto, que muito disso pode – e provavelmente é – muito da projeção das próprias sociedades escandinavas no relato.

Há indicações de que as embarcações dos Kurši (bem como a dos vizinhos prussianos) não diferiam grandemente das escandinavas do período viking[51]. São extensamente repetidas as vantagens que as embarcações ágeis e rápidas dos vikings propiciaram em seus ataques relâmpagos pelas costas da Europa Ocidental, e tal trunfo parece ter operado igualmente a favor dos Kurši.

A habilidade dos artífices Kurši com trabalhos em madeira levantam possibilidades de diversas adaptações e intercâmbios de técnicas em construção naval com os escandinavos, não apenas numa posição passiva, receptora de técnicas estrangeiras, mas também dotada de criações próprias. A comparação com barcos eslavos do período em questão, mais baixos e menos ágeis[52], restringe a comparação das técnicas navais às populações baltas e escandinavas, sugerindo a troca de técnicas através dos artifíces obtidos como escravos.

Este domínio técnico da madeira não é desprezível; já discutimos a respeito das fortificações dos Kurši, e a constatação de suas habilidades referentes à navegação vem sugerir uma mestria técnica da carpintaria semelhante à dos vizinhos sueco-noruegueses. Mestria diferente da encontrada na Europa Ocidental, cujas florestas eram menores e menos densas que as do Báltico[53]. LeGoff[54] cita-nos um conto curioso referente à construção de uma igreja na França medieval que, somado com outras fontes do Ocidente, revela quase que uma incompetência no trato com a madeira: o carvalho escolhido para a construção da Igreja foi cortado em tamanho menor do que o calculado, requerindo o milagre de um eclesiástico. O milagre torna a historieta pouco verossímil, mas a situação descrita parece se basear em circunstâncias cotidianas e conhecidas.

Por todas estas evidências da Saga de Egil somadas à outras fontes, encontramos nos Kurši uma população pequena, belicosa, com uma extensa aristocracia guerreira, a qual sobrevivia, além dos recursos da floresta, de expedições de pirataria pelo Báltico. Através destas obtinham escravos, os quais permitiam a manutenção de sua ordem social e estilo de vida voltado ao bélico.

A Gesta Danorum e a iniciação mítica dos reis daneses

 

Na Gesta Danorum de Saxo Gramamaticus os Kurši (“curetes”) são citados nos livros 1,2,3,5,6,8,9,11 e 14, incluindo episódios relevantes como o cativeiro do rei mítico Hadingus, no livro I, e a épica batalha de Bravalla, no livro 8[55].

Já afirmamos limites estreitos no que podemos apreender das fontes escritas que se referem aos Kurši. É-nos impossível, por exemplo, dar uma lista de nomes de reis ou traçar uma história política. A bem da verdade, possuímos pelo menos três nomes de reis dos kurs: Loker (“Lokerus”), Dorn (“Dorno”) e Lamekin.

Enquanto que para o último encontramos referência provavelmente factual na Livländiche Reimschronike, as citações que temos de Loker/Lokerus e Dorn/Dorno advém dos dois primeiros livros da Gesta Danorum, da autoria do danês Saxo Grammaticus, e encontram-se no domínio do mítico.

Loker é descrito como “tirano dos Kurši”, e captura o rei mítico dinamarquês Hadingus. Dorn é aparentemente seu sucessor, e combate o filho de Hadingus, Frotho. Encontram-se nos dois primeiros livros da Gesta Danorum, no início de sua parte mítica. Não iremos ignorá-los, mas por certo não podemos tê-los como absolutamente exatos, não apenas por seus nomes não possuírem uma estrutura fonética báltica, mas pela natureza da narrativa em questão.

A primeira associação que vem à mente, ao pensarmos no nome de Loker é, inevitavelmente, o deus nórdico Loki. Dumézil descarta sumariamente tal identificação. E ela parece realmente difícil de ser feita. Pois as referências a tal Loker são ínfimas; Saxo afirma apenas que Hadingus e seu parceiro Liserus atacam-no e são derrotados. A única característica de tal rei,é um adjetivo: “..Lokero, curetum tyrano..”, ou seja: “Loker, tirano dos Kurši”. Termo altamente dúbio, “tirano” pode prestar-se às mais especulativas das interpretações. Parece-nos seguro, apenas, saber que se trata de um rei. No mais, o que pode argumentar-se é a conotação negativa que “tirano” possui na Alta Idade Média.

Seja qual for o significado dos nomes, o mais relevante é sua importância simbólica. Hadingus vêm a ser um dos primeiros reis do período mítico descrito por Saxo, e na narrativa com Loker, é por meio de sua captura que Hadingus passa por sua iniciação guerreira, sendo ajudado por um velho caolho – possível referência ao deus Oðínn.

Quanto à Dorn, Saxo mantém-se em eventos mais terrenos: na eminência de um ataque de Frotho, filho de Hadingus, Saxo põe na boca de Dorn eloquente e extenso discurso, no qual conclama os seus contra os ataques externos[56]. Nada se depreende desse discurso, a não ser lugares comuns da retórica medieval, latina e cristã; os Kurši aqui são apenas elemento narrativo, sem qualquer detalhe de natureza factual.

Agradecimentos

Ficam registrados nossos agradecimentos à família Bērziņš: Hans, Elaine, Raísa e Guilherme, que nos auxiliaram de tantas formas e nos hospedaram na Latvija em 2008 e 2013 e possuem parte em praticamente todas as pesquisas citadas aqui, incluindo na viagem a Liepāja e Grobiņa em 2013. Também agradecemos a Inga Doniņa, que nos auxiliou de forma preciosa na pesquisa no Liepājas muzejs. Finalmente, fica registrado o agradecimento pelo auxílio inestimável do Departamento de História Social da Universidade de São Paulo e de seu coordenador na ocasião, Prof. Dr. Marcelo Cândido, através dos quais foi possível efetuar as viagens de pesquisa de 2013.

Referências

  • Fontes primárias

Egilssaga

Erikskronikan

Livländiche Reimschronike

RIMBERT. Vita Anskari. .

SAXO GRAMMATICUS. Gesta Danorum.

 

  • Bibliografia citada

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[1] Discutimos a questão em maior detalhe no artigo: “Notas sobre o termo viking: usos, abusos, etnia e profissão”’, que pode ser acessado em < https://www.academia.edu/1508363/Notas_sobre_o_termo_viking_usos_abusos_etnia_e_profiss%C3%A3o> .

[2] Em relação aos escandinavos na Ilha de Man, sugerimos a leitura da tese de doutoramento de Renan Birro, defendida em 13/09/2017, em breve disponível para download no banco de teses da USP: BIRRO, Renan. As representações de Sigurdr Fáfnisbani nas cruzes da Ilha de Man (séculos X-XI). Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 2017.

[3] Recentemente foi filmado um documentário de 26 minutos, disponível online. Com exceção de uma referência pouco provável de que os Herulos, tribo citada na Germânia de Tácito, seriam os ancestrais dos povos baltos, o conteúdo é acadêmico e confiável. Veja aqui: < https://vimeo.com/133451296>

[4] Verso 05748.

[5] SAAKS, Edgar. Eesti viikingid. 2005, pp. 31-34.

[6] VUORELA, Toivo. The Finno-Ugric Peoples. Indiana University Publications, 1964, p. 206; MÄGI, Marika. Viking Age and early medieval Eastern Baltic between the West and the East. In: IMSEN, Steinar (ed.) Taxes, tributes and tributary lands in the making of the Scandinavian kingdoms in the Middle Ages. Trondheim: Tapir Academic Press, 2011.p. 194.

[7] < http://samogitia.mch.mii.lt/TAUTOSAKA/balcius.lt.htm>

[8] PIETSCH, Richard: Deutsch-Kurisches Wörterbuch, Verlag Nordostdeutsches Kulturwerk Lüneburg 1991, p.17.

[9] STONKUTĖ, Loreta. Kuršininkų tarmės lituanizmai. In: Studentu zinātniskās Konferences «Aktuāli baltistikas jautājumi» tēzes. Latvijas Universitātes Filoloģijas fakultātes, 2002. Pp.43s.

[10] VASKS, Andrejs. The cultural and ethnic situation in Latvia during the early and middle iron age (1st- 8th century AD.). In: Humanities and Social Sciences – Latvia. 03 (16) 1997. Ver também MUGUREVIČS, Evalds. Ethnic processes in Baltic inhabited territories, and the emergence of the Latvian nation in the 6th to the 16th century. – In: Humanities and Social Sciences Latvia, 1997, University of Latvia, vol.3 (16), pp.75-92

[11] MUGUREVICS, Op. Cit, 1997. Tal tradição crematória parece ser milenar e ter sido interrompida durante o período de dominação sueca sobre os Kurši.

[12] NERMAN, Birger. Funde und Ausgrabungen in Grobiņa, 1929. In: Congressus Secundus Archaeologorum Balticorum Rigae, 19.-23. VIII. 1930. Riga, 1930. pp.195-206.

[13] RIMBERT, Vita Anskari. Cap.XXX. Tradução livre nossa.

[14] VASKS, Op. Cit, 1997.

[15] VIRSE, Ingrida Liga & RITUMS, Ritvars. Grobiņa complex of dwelling locations and burial sites, and related questions. In: Archaeologia BALTICA 17 (2012), p. 34.

[16] BRØNDSTED, Johannes. Os vikings: história de uma fascinante civilização. São Paulo: Hemus, S.D.,  p.18.

[17] ARBMAN, Holger. Os Vikings. Lisboa: Editorial Verbo, 1967 [Londres, 1961], p.30.

[18] BRØNDSTED, Op. Cit, pp.17,35.

[19] Charles Robinson, na introdução de sua tradução da Vita Anskari, é específico ao afirmar sua morte em 03 de fevereiro de 865.

[20] NERMAN, 1958, p. 181; DAIGA, 1957; BRØNDSTED, Op. Cit. pp.18s.; PETRENKO, 1995; BOGUCKI, 2006; VIRSE, 2012, pp.39-40.

[21] VIRSE, 2012, p. 40.

[22] PETRENKO, Valerij Petrovich. ´A Picture Stone from Grobin (Latvia)´. In Fornvännen 86 (1991), pp.01-08;  LAMM, Jan Peter. ‘Ships or ducks? Comment on the Picture-stone found in Grobin Latvia’. In: Fornvännen 86 (1991), pp.09s.

[23] Os Skaldar (plural de skaldr) são personagens importantíssimas no mundo escandinavo antigo. Eram os poetas que cantavam os feitos dos reis e seus próprios, bem como faziam os elogios fúnebres. Vinham dos extratos aristocráticos e encarnavam os mais altos ideais vikings: como portadores da poesia e guerreiros, eram devotos de Oðínn, aquele que concedia o dom da poesia.

 [24] Um jogo de bola bastante difundido entre os vikings. Jogava-se com uma bola pesada e dura, com um taco. Possivelmente fosse semelhante ao jogo escocês, ainda praticado atualmente, de Hurling. Uma descrição detalhada de tal jogo dá-se na saga de Girli Sursson, caps. 15 & 18. Referências em: SMILEY, J et alii. (org) The Saga of Icelanders. New York: Penguin Books, 2001, p.741.

[25]Egil vera víkingsefni ok kvað þat mundu fyrir liggja, þegar hann hefði aldr til, at hánum væru fengin herskip”; Saga de Egil, cap.40 (tradução. do autor).

[26] Ibid.

[27] Ibid, cap.44

[28] No cap.45.

[29] De gardr, “local”, “cidade”, “fortificação” e rík, reino. Vem da cidade Rus de Holmgardr, que conhecemos como Novgorod.

[30] Literalmente, “terra dos kur”, tradução exata do letão “Kurzeme”

[31] Aos interessados em aprofundar o assunto sugerimos nossa tese de doutoramento: MUCENIECKS, André. Austrvegr e Gardariki: (Re)significações do Leste na Escandinávia Tardo-Medieval. Disponível em língua portuguesa, online nos bancos de dados da USP e também em https://www.academia.edu/10938456/Austrvegr_and_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_-_re_significations_of_the_East_in_Low-Middle_Ages_Scandinavia_Austrvegr_e_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_Austrvegr_e_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_Re_significa%C3%A7%C3%B5es_do_Leste_na_Escandin%C3%A1via_Tardo-Medieval

[32]Héldu þeir ok út til Kúrlands ok lögðu þar við land með hálfs mánaðr friði ok kaupstefn”. Saga de Egil, capítulo 47. Toda a narrativa deste episódio (consequentemente, as referências subsequententes) encontram-se neste mesmo capítulo.

[33]en er því var lokið, þá tóku þeir að herja og lögðu að í ýmsum stöðum”.

[34] sléttr – uma planície, uma campo nivelado, qualquer espaço físico sem ondulações.

[35] bær einn stóð skammt, literalmente “uma porção do lugar titulada (por alguém)”

[36] O termo empregado é bóndi, usado habitualmente para se referir ao fazendeiro/proprietário nórdico.

[37] CHRISTIANSEN, Eric. The Northern Cruzades. London: Penguin Books, 1997 [1980],  p.38.

[38] A respeito das paliçadas e fortificações de madeira dos antigos indo-europeus, ver LEVEQUE, Pierre. As Primeiras Civilizações: Volume III – Os Indo-Europeus e os semitas. Lisboa: Edições 70, 1987. pp.36s.

[39] CHRISTIANSEN, Op. Cit. p.39.

[40] Um conjunto de diversos sítios arqueológicos próximo ao rio Daugava.

[41] Adder, no islandês do texto.

[42] Egilssaga, cap.53.

[43] Idem, cap.54.

[44] Chamada de “Dragvendill”, algo como “aquela que corta por inteiro”.

[45] Egilssaga, cap.61.

[46] SCHWABE, Arveds. Histoire du People Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri, 1953, p.41.

[47] Por tratar-se praticamente da mesma oração feita por aqueles atacados anteriormente pelos vikings na Inglaterra. GIMBUTAS, Marija. Os Baltas. RJ: Ed. Neris, 1986, p.173, afirma encontrar-se na Ynglinga Saga, mas não encontramos a referência.

[48] SCHWABE, Op. Cit. p.41. E a Erikskronikan afirma que a maior parte dos camponeses dinamarqueses raptados como escravos encontravam-se na Prússia, Kurzeme e Estônia.

[49] CHRISTIANSEN, Op. Cit.p.39.

[50] SCHWABE, Op. Cit. p.41.

[51] CHRISTIANSEN, Op. Cit. p.38

[52] Ibid, p.34.

[53] LEGOFF, Jacques (org.). A civilização do Ocidente Medieval. Vols. I &II. Lisboa: Editorial Presença, 1989.pp.251-256.

[54] Ibid. p.252.

[55] Sobre Saxo Grammaticus, suas ideologias, objetivos e obra, sugerimos nosso: Muceniecks, Andre. Saxo Grammaticus: Hierocratical Conceptions and Danish Hegemony in the Thirteenth Century. Kalamazoo & Bradford: ARC Humanities Press, 2017.

[56] Gesta Danorum, livro II: “[2]‘Externum, proceres, hostem et totius ferme Occidentis armis opibusque succinctum salutarem pugnae cunctationem sectantes inediae viribus obtinendum curemus. [3] Internum hoc malum est. [4] Difficillimum erit domesticum debellare periculum. Facile famelicis obviatur. [5] Melius adversarium esurie quam armis tentabimus, nullum hosti inedia acrius iaculum adacturi.[6] Edax virium pestis edendi penuria nutritur. [7] Armorum opem alimentorum inopia subruit. [8] Illa quiescentibus nobis tela contorqueat, illa pugnae ius officiumque suscipiat. [9] Discriminis expertes discrimen licebit inferre. [10] Exsangues absque sanguinis detrimento praestare poterimus. [11] Inimicum otio superare fas est. [12] Quis damnose quam tuto dimicare maluerit? Quis, cum impune certare liceat, poenam experiri contendat? [13] Felicior armorum successus aderit, si praevia fames bellum committit. [14] Hac primam confligendi copiam duce captemus. [15] Castra nostra tumultus expertia maneant, illa nostri loco decernat; quae si victa cesserit, otium rumpendum est. [16] Facile ab indefesso lassitudine concussus opprimitur. [17] Adesa marcore dextera pigrior in arma perveniet. [18] Lentiores ferro manus dabit, quem quispiam prius labor exhauserit. [19] Praeceps victoria est, ubi tabe consumptus cum robusto congreditur. [20] Taliter indemnes aliis damnorum auctores fore poterimus.”

A crônica da Livônia: uma primeira história letã

O território das atuais Letônia e Estônia é referenciado em fontes escritas apenas a partir do período medieval. Na maioria das fontes, algumas das regiões da Letônia de hoje como Kurzeme (a “Kúrland” dos escandinavos no período viking) e Zemgale são citadas apenas de passagem, muito brevemente, e com muita frequência em meio a acontecimentos lendários ou sobre cuja factualidade se questiona.

A primeira crônica mais longa a falar sobre a região com detalhe, trazendo descrições específicas sobre os locais e com preocupação factual é a Henrici chronicon Livoniae – a “Crônica de Henri da Livônia”, que trata de acontecimentos ocorridos entre os anos de 1180 a 1227 na Livônia.

O nome “Livônia” foi dado à região devido aos habitantes da área norte da atual Letônia, os lívios, povos fino-úgricos, de linguagem totalmente distinta dos idiomas indo-europeus da área como lituano e letão, antigo nórdico e antigo eslavônico. Atualmente os lívios são uma minoria étnica quase extinta, habitando apenas uma estreita faixa do norte da Kurzeme, mas da Pré-história ao período moderno a etnia foi o grupo predominante em toda a área entre o norte do rio Daugava até as tribos estonianas – com as quais os lívios têm parentesco muito próximo.

Os principais eventos narrados na Crônica tratam da conquista da região pelos alemães, cristãos católicos romanos, e sua disputa pela primazia na região contra dinamarqueses e suecos. Em meio a isso, algumas das tribos – como dos letões – aproveitaram-se da situação, ampliando seu território à custa de seus vizinhos, particularmente os lívios.

O episódio, que se prolongou por séculos, faz parte de um processo mais amplo das cruzadas no norte na Europa. Simultaneamente às cruzadas na Palestina, que procuravam, dentre outros objetivos, retomar a Terra santa para a Cristandade e lutar contra os pagãos muçulmanos, movimentos semelhantes ocorriam na própria Europa, contra seus próprios pagãos. Na Península Ibérica, habitada por hispânicos e portugueses, mas dominada pelos islâmicos, as cruzadas ganharam o nome de “Reconquista”. No norte da Europa, foram conhecidas como “Cruzadas do Norte”[2], e foram levadas a cabo com o auxílio de ordens monásticas militares: os Irmãos da espada (Ver Figura 01) e a Ordem Teutônica, que acabaria por estabelecer um estado monástico na região que duraria até os tempos das Reformas Protestantes.

01 - Fellin (Viljandi)
Figura 01: Reconstrução do cerco ao forte de Fellin (Viljandi), no sul da Estônia, pelos Irmãos da Espada, em 1211. Fonte: Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing, p.07.

Até o século XIII a região que vai do Norte da Alemanha e Polônia, passando pelos países bálticos até a Finlândia era habitada por populações indo-europeias do ramo bálticas (antigo prussianos, tribos lituanas e letãs) e por Fino-úgricos (lívios, estonianos e finlandeses). Esta grande quantidade de povos (ver Figura 02) era pagã e, com exceção da Lituânia, pouco organizada politicamente, consistindo em unidades tribais. Até então os nativos travavam comércio desde antes do período viking com Escandinavos e Eslavos, que se converteriam ao Cristianismo e se unificariam em torno de reis nas proximidades do ano mil.

 

As tribos bálticas no século XIII
Figura 02: As tribos bálticas no século XIII. Fonte: GIMBUTAS, Marija. The Balts. London: Thames and Hudson, 1963, p.23.

 

Com a expansão do comércio germânico para o norte, a área báltica tornou-se alvo do interesse dos europeus ocidentais, interessados em obter acesso ao mundo boreal, que fornecia produtos valorizados como peles, mel, cera e madeira. Ao mesmo tempo, a Europa passada por um momento em que a ideologia cruzada era particularmente atrativa para sua classe de nobres guerreiros, muitos dos quais não tinha perspectiva de obterem suas próprias terras perto de suas regiões de origem, interessados em tentar a sorte e aventura longe de casa.

Dessa forma, as Cruzadas do norte foram uma empreitada de expansão comercial e econômica chancelada pela Igreja cristã e pela nobreza feudal. Não devemos efetuar juízos de valor e maniqueístas sobre a circunstância; em meio a indivíduos interessados em explorar a área e os nativos, é possível se encontrar um grande número de missionários abnegados e preocupados com a conversão e bem-estar dos locais, inclusive por vezes procurando protegê-los de abusos maiores da parte dos conquistadores germânicos e escandinavos. É possível que Henri, autor da Crônica, esteja entre estes últimos.

 

O castelo de Turaida
Figura 03: O castelo de Turaida, uma das muitas fortificações construídas pelos germânicos no processo de conquista e cristianização da Livônia. O castelo passou por uma completa restauração nos tempos recentes, a parte de sua torre principal foi construída apenas no século XVI. Foto do autor.

 

Henri da Livônia

Henricus Livonicus, ou Henri da Livônia, foi um missionário, sacerdote e intérprete. Muito possivelmente era um alemão vindo da Saxônia, que teria chegado na Livônia por volta de 1205[3]. Apesar de temos afirmado sua provável origem germânica, o tópico é tema de debate entre acadêmicos, muitas vezes em meio a discussões de caráter nacionalista. É comum se encontrar alguns autores letões alegam uma origem lívia ou letã para o mesmo, ao mesmo tempo que alemães defendem majoritariamente sua origem germânica[4].

Ambas as partes procuram se fundamentar no texto do próprio Henri. Alguns autores de origem letã argumentam Henri tinha um grande conhecimento das línguas locais, já que ele usara no texto um bom número de palavras, e descreveria em detalhes costumes nativos. Interessantemente, comentaristas e historiadores alemães empregaram muitas vezes as mesmas evidências, mas para demonstrar o sentido oposto; Henri conheceria as línguas locais porque era um intérprete para os alemães.

Dentre aqueles que defendem que Henri seria um nativo da Livônia, há uma predominância de autores que escrevem histórias genéricas nacionais, não especializadas em períodos específicos e bastante generalistas, como a History of Latvia: an outline, de Arnolds Spekke, escrita em 1948 mas reeditada várias vezes[5], ou History of Latvia, de Alfreds Bilmanis, escrita em 1955[6].

Vários acadêmicos e eruditos, mesmo de origem letã e estoniana, aceitam atualmente a ideia de que Henri fora um germânico – nos incluímos aqui, nessa lista. Arveds Schwabe, por exemplo, que também escreveria um manual generalista sobre a história letã em 1953[7], dentre uma grande produção de cunho mais específico e acadêmico. Há algumas posições bastante específicas, como de Evalds Mugurēvičs, que considera que Henri poderia ter nascido no norte da Germânia, mas que isso não seria um empecilho para uma suposta etnicidade báltica ou fino-úgrica. [8]

Alguns autores exageram um pouco na extensão de suas deduções, procurando criar muito com poucas referências:

Paul Johansen, por exemplo, especula, e afirma que o conhecimento de lívio e talvez alguma língua letã (curônio, zemgálio ou latgálio) de Henri teria sido obtido no monastério de Segeberg. A base do erudito para a afirmação é uma referência do texto, que fala de certa ocasião em que o o bispo Alberto tomou 30 jovens reféns de origem lívia em 1200[9].

Possivelmente o argumento mais usual para identificar Henricus como letão é um título frequentemente encontrado junto da crônica, “Henricus de Lettis”, “Henrique, dos letos”. Esse título, no entanto, vem de tradução errônea feita em 1740 por Johann Daniel Gruber, e não se encontra nos manuscritos mais antigos.

Henri é bastante modesto e circunspecto ao falar de si mesmo. Existem apenas seis passagens na Crônica em que ele passa alguma informação ou título sua:

Henrici, scolaris Alebrandi (XI.7; 1207); Heinricus sacerdos et Lehti (XII.6, 1208); Henricus de Lettis, sacerdos et interpres (XVI.3, 1212); Henricus et Alabrandus (XVII.6, 1213); Henricus, Lettorum minister de Ymera (XXIV.1, 1220); Henricus et Petrus (XXIV.2, 1220).

 

O que é possível de se deduzir dessas passagens sem maiores malabarismo e elucubrações? Henri era sacerdote dos letões da localidade de Ymera, mas não é possível daí se deduzir uma etnicidade letã. Há muitos casos de sacerdotes e missionários, não apenas do medievo, que recebem nomes ou apelidos semelhantes, baseados nos nomes daqueles entre os quais tais missionários trabalharam. No próprio contexto da Livônia podemos citar “Theodoricus de Kukunoys” – Theodoric de Kokhenhusen/Koknese, ou “Rodolfus de Wenden” – Rudolf de Wenden/Cesis.[10]

Em algumas passagens, Henri não fala sobre nenhum título seu, mas na forma que usa os pronomes, ou como descreve os conflitos e acontecimentos, é possível se perceber que ele se identifica com os alemães. Note-se a seguinte passagem, que fala de uma batalha:

 

Ex nostris vero ceciderunt duo et ex Lettis duo (…)

“Dos nossos caíram dois e dos letões, dois (…)” (XXIII.9; 1220)

 

Dificuldades à parte, existe um trabalho erudito muito detalhista e de qualidade feito sobre Henri, procurando reconstruir um pouco de sua vida. A informação foi listada satisfatoriamente por Paul Johansen em 1953[11]; os eruditos posteriores acrescentaram pouca coisa, com a exceção de Arbusow. Desses trabalhos normalmente tiram-se as seguintes possibilidades:

Henri nascera por volta de 1188, provavelmente na Saxônia. Estudou possivelmente no monastério de Segeberg, em Holstein, região limítrofe da Saxônia com a Dinamarca – uma localidade citada por ele com frequência (I.2; VI.3; IX.6; X.7). Ali, Henri adquirira um sólido conhecimento do latim eclesiástico. Henri cita a Vulgata e documentos litúrgicos latinos a praticamente toda página da crônica, mas seu uso de autores clássicos é bem menor.

Possivelmente no próprio monastério Henri teve seu primeiro contato com as línguas bálticas, próximo a 1200, provavelmente por meio dos reféns obtidos pelo bispo Alberto na Livônia, e que ficaram sob os cuidados do irmão do mesmo, Rothmar, abade de Segeberg.

Henri provavelmente chegaria à Livônia em 1205, trabalhando como acadêmico e tradutor da missão do bispo Alberto. Seria ordenado sacerdote em 1208, e receberia provavelmente a paróquia de Papendorf, Rubene em letão, localizada cerca de 14 km a sudeste de Wolmar, Valmiera em letão. Viveria ali com os letões, os quais tentaria evangelizar pelo restante de sua vida.

Henri escreveria sua crônica provavelmente entre os anos de 1224 a 1226, baseando-se em relatos e em experiências próprias. No ano de 1227 ele adicionaria uma seção que contaria a conquista da ilha estoniana de Ösel/Saaremaa no próprio ano.

Entre os anos de 1225 a 1227 Henri assumiu também a função de intérprete de William de Modena, legado papal. É possível que sua crônica venha de uma espécie de relatório para ele sobre o andamento da missão na Livônia.

É possível se apreender outras características de Henri além de datas, nomes e locais que trazem uma imagem um pouco mais viva. Algumas de suas narrações e descrições são bastante gráficas e vívidas, frequentemente cheias de detalhes e até mesmo humor. detalhadas. Ele demonstra algum interesse por tecnologias e táticas bélicas; descreve, por exemplo, o uso da Ballista (ver Figura 04), fala sobre a reação dos nativos às inovações trazidas pelos alemães, e mostra o rápido aprendizado dos locais.

Exemplo da Ballista medieval.
Figura 04: Exemplo da Ballista medieval. Obtido em: < https://br.pinterest.com/pin/527343437590827743/?lp=true >em 09/08/2017

Henri parece ter algum interesse na música. Em certa parte da crônica ele conta que, em meio ao campo de batalha, ele pôs-se a tocar certo instrumento musical, que o texto não afirma qual é. Considerando-se a circunstância da batalha, e a necessidade de volume sonoro, nos arriscaríamos a afirmar que o instrumento pode ter se tratado de alguma forma de trompete ou alguma espécie antiga de dudel, a gaita de foles germânica similar às dūdas letãs (ver Figura 05), mas trata-se nada mais que uma pressuposição nossa.

Dūdas
Figura 05: Dūdas – A gaita de fole letã. Selo de 2014.

Algumas das descrições dos costumes nativos parecem ter chocado ao autor. Em mais de uma ocasião Henri relata batalhas entre os locais e os germânicos, por vezes com alguns detalhes curiosos, possivelmente de fundo religioso. Em mais de uma passagem, por exemplo, ele cita tribos locais efetuando decapitação; zemgálios levando carros que seriam cheios das cabeças de seus inimigos, kurs cortando a cabeça de seus próprios companheiros feridos em um cerco a Rīga, e um letão que levaria a cabeça de seu inimigo como troféu.

Henri ainda residiria próximo a Papendorf/Rubene em 1259, já idoso, onde provavelmente faleceu[12].

 

A Crônica da Livônia: os manuscritos

Existem 16 cópias ou fragmentos da crônica, datados de séculos posteriores de sua escrita original. A maior parte dessas cópias foi feita no século XVI, durante o governo dos suecos na Livônia; pela grande quantidade de fragmentos e cópias existentes, nota-se que a crônica despertou muito interesse, particularmente durante o período sueco.

O manuscrito mais antigo é o Codex Zamoscianus, tratando-se de uma cópia – possivelmente do original – feita na Livônia no início do século XIV[13]. Durante o governo Polonês na Livônia e Estônia o manuscrito foi levado para a Polônia, e atualmente o manuscrito encontra-se guardado e protegido na Biblioteca Nacional Polonesa (Biblioteka narodowa), em Varsóvia.[14]

O manuscrito está incompleto; faltam suas primeiras quatro páginas, e ele chega apenas até o capítulo XXIII; faltam nele um terço da totalidade da crônica.

Outro manuscrito importante é chamado de Codex Skodeiskianus ou Codex Rigensis, uma cópia feita no século XVII. Está depositado na Latvijas Akadēmiskajā bibliotēkā em Riga, e pertencia a um pastor luterano chamado Nathanael Skodeisky. Com esse manuscrito Arbusow preencheu a maior parte do trecho que faltava do Codex Zamoscianus.

Outros manuscritos importantes usados pelos eruditos para produzir o texto crítico completo são a) o Codex Gymnasialis Revaliensis, cópia do século XVII guardada em Tallinn – única cópia que, a despeito de sua má qualidade, contém uma frase do capítulo XV que falta nos outros manuscritos[15]; b) Codex Toll cópia também de relativa baixa qualidade feita no século XVII, pertencera ao barão Robert Von Toll (1802-1876), um historiador amador; esse manuscrito foi útil na reconstrução de três sentenças da crônica.[16]

Finalmente, cabe aqui mencionar o Codex Oxenstierna, outra cópia do século XVII. Este último códice é interessantíssimo por tratar-se de uma tentativa, já no século XVII, de um acadêmico coletar os fragmentos disponíveis e juntá-los em uma edição. Pertencera a Erik Axelsson Oxenstierna (1624-1656), governador sueco da Estônia entre 1646 a 1652.

Depois de passar por uma série de proprietários, o manuscrito chegou às mãos de Johann Daniel Gruber (1686-1748), bibliotecário da Landesbibliothek de Hannover, que seria o primeiro editor crítico da crônica. Suas edições, no entanto, incluem muitas alterações e interpolações, e o manuscrito foi recopiado em latim clássico, diferente do latim medieval do século XIII no qual a crônica foi originalmente escrita.

 

A Crônica da Livônia: edições e traduções

 

A primeira edição do texto latino foi publicada em 1740 pelo já citado Johann Daniel Gruber, que foi o responsável por tornar popular o título errôneo, “Henri dos letões”. Já a primeira tradução, para o alemão, foi feita por Johann Gottfrid Arndt em 1747, com algumas correções do texto de Gruber.

Uma nova edição, com essas correções e uma nova tradução – também para o alemão – foi feita por August Hansen 1853, seguida de outra de Pabst, em 1867. O texto latino da Monumenta Germaniae Historica foi editado em 1874 por Wilhelm Arndt, ao qual foram feitas correções e adições por Leonid Arbusow em 1926 e 1927, adicionadas às edições finais de Bauer, de 1955 e 1959. Esta edição crítica pode ser acessada online[17], consistindo no texto base para os estudos acadêmicos, e de onde retiramos as referências .

A crônica foi traduzida para o inglês por James Brundage apenas em 1950-51, ainda baseada na edição de Arndt com poucas das alterações de Arbusow, sendo reeditada em 1961 e 2003 – desta feita com as alterações baseadas na edição de Bauer.

As primeiras traduções para o letão foram feitas por Matīss Siliņš em 1883 e Jānis Krīpēns em 1936. Em 1993 a Zinātne publicou uma nova tradução para o letão, da parte de Ābrams Feldhūns, com introdução e comentário de  Ēvalds Mugurēvičs[18] e atualizada segundo o aparato crítico de Arbusow e Bauer.

Para o estoniano, a primeira tradução foi publicada por Jaan Jung em 1884[19]. Seria seguida por outra tradução apenas em 1962, por Jūliuss Megiste, publicada em Stockholm. Finalmente, Rihards Kleis publicaria uma nova tradução estoniana em 1982, com comentário e introdução de Enn Tarvel.

As traduções da crônica para o russo possuem uma história à parte. Trechos da mesma foram traduzidos pela primeira vez em 1854 por A. Kunik, sendo que em 1876 uma tradução completa com introdução e comentários foi preparada por J. Cheshikhin-Vetrinski. A versão mais autoritativa foi publicada em 1938 por Anninski e Bystrianski na URSS. A introdução de Anninski é sóbria e detalhada, acadêmica em todos os sentidos; também foi a primeira tradução a se valer dos trabalhos críticos de Arbusow. O prefácio de Bystrianski, no entanto, veicula ideologia soviética da década de 30, particularmente o antagonismo contra os germânicos, representando a Alemanha nazista da década de 30.

A crônica foi traduzida para o lituano apenas em 1991, por Juozas Jurginis, e para o finlandês em 2003, da parte de Maijastina Kahlos e Raija Sarasti-Wilenius. Além destas linguagens, existe ainda uma tradução publicada para o italiano em 2005, feita por Piero Bugiani, com comentário e introdução de Pietro Umberto Dini.

Uma tradução e comentário da crônica para o português, baseando-se na edição crítica de Arbusow, está sendo preparada por Renan Birro, Álvaro Bragança e André Muceniecks. Muito do conteúdo desse artigo é original da pesquisa feita para essa edição, que esperamos poder apresentar em breve.

 

Bibliografia:

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Christiansen, Eric (1997). The Northern Cruzades. London: Penguin Books, first edition 1980.

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Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp. 385-408.

Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp.77-106.

Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne.

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Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing.

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[1] Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

[2] Ver Christiansen (1997[1980]), The Northern Crusades, Urban (1994), The Baltic Crusade, e  Urban (2003), TheTeutonic Knights,  nas referências bibliográficas.

[3] Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing,  p. xviii.

[4] Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[5] Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006, p.123.

[6] Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.

[7] Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

[8] Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 444ss.

[9] Johansen, p. 10.

[10] Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia.  p. 80.

[11] Em sua obra Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[12] Johansen, p.15.

[13] Mugurēvičs, pp. 18ss.

[14] Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions. In: Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing, p.388.

[15]simul et virorum interfectorum alia duo milia”.

[16] Kala, p. 389.

[17] http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[18] Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993. 453 lpp.

[19] “Läti Hendriku Liiwi maa kroonika ehk Aja raamat”.

Mitologia letã I: Pērkons, o deus do trovão

Artigo escrito pelo Prof. Dr. André S. Muceniecks – Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

Na mitologia báltica, compartilhada em linhas gerais por letões, lituanos e os antigos prussianos, sem dúvida a divindade mais popular nas eras medieval e moderna foi o deus do trovão – Pērkons para os letões, Perkūnas, para os lituanos e Perkūns para os antigos prussianos.

Diversos teóricos e historiadores procuraram sistematizar a religião dos antigos povos bálticos, sistematizando-a de forma a apresentar um todo compreensível. Diferentemente do Cristianismo, Islamismo, Judaísmo e outras religiões com uma revelação escrita e dogmas definidos, a religião antiga dos povos bálticos era extremamente múltipla em suas manifestações locais, e a tarefa de se reconstruir uma religião unificada e coerente acaba por produzir um sistema que dificilmente seria reconhecido pelas populações antigas.

Uma das sistematizações mais difundidas, de cunho estruturalista, foi desenvolvida pelo francês Georges Dumézil, que estudou a chamada ideologia tripartite, compartilhada pelos povos de linguagem indo-europeia, como hindus, iranianos, persas, latinos, helênicos, celtas, germânicos, eslavos e baltos. Dumézil demonstraria que os indo-europeus conceberiam o mundo, os homens e os deuses de forma ternária; os deuses estariam organizados em três funções: a) a primeira função, mágico-religiosa; b) a segunda função, guerreira; c) a terceira função, de fertilidade e fecundidade.

Dessa maneira, os panteões dos povos indo-europeus apresentariam deuses específicos a essas funções e seriam semelhantes entre si. Observe-se as mitologias Greco-Romanas e escandinavas; existem tríades de deuses entre os romanos, formada por Júpiter, Marte e Quirinus e entre os escandinavos, como Óđinn, Thorr e Freyr; nessas tríades, em um plano ideal, a primeira divindade estaria responsável pelo governo dos demais deuses, possuindo a soberania mágica e religiosa; a segunda divindade possuiria primariamente a função da guerra e da defesa, enquanto à terceira estariam reservadas as tarefas ligadas à reprodução, fertilidade, fecundidade e colheitas.

A arqueóloga lituana Maria Gimbutas deu continuidade e embasamento arqueológico às ideias de Dumézil, procurando explicar a origem e migrações dos povos indo-europeus, sempre dando grande destaque aos povos de sua própria origem, os lituanos. Em adição à explicação indo-europeia, Gimbutas desenvolveria o conceito da religião da “Antiga Europa”, anterior à chegada dos indo-europeus. Para Gimbutas, essa antiga religião europeia era pacífica, dominada por divindades femininas, mais ligadas à fertilidade e fecundidade; a chegada dos imigrantes indo-europeus na Idade do Bronze transformaria a Europa Pré-histórica com uma ideologia guerreira, masculina e patriarcal.

Gimbutas chegaria a afirmar, de forma idealizada e nacionalista, que a religião dos antigos lituanos e letões seria a forma mais perfeita e balanceada da religião da Velha Europa, centralizada em muitas divindades femininas e ligadas a terra,  com as crenças indo-europeias, mais focada em deuses masculinos e celestes[1].

Esse brevíssimo apanhado teórico deixa razoavelmente claro como tentativas de organização e estruturação fechadas da religião báltica, ou a construção de um panteão muito definido de deuses podem construir algo artificial e anacrônico. Nesse artigo não procuraremos fazer isso; antes, apresentaremos a divindade mais popular entre os antigos baltos em sua multiplicidade de descrições e funções: Pērkons, o deus do trovão.

O nome Pērkons deriva do termo indo-europeu per(k), segundo Ivanov e Toporov (1974) ou per(g), segundo Muelenbach(1951) e Endzeliņš (1972). Baseando-se na etimologia de seu nome, são propostos três significados básicos; Pērkons poderia ser a) o deus do trovão e da chuva, segundo Muelenbach e Wiedemann, b) o deus das alturas e da montanha, segundo Karsten e Ivanov, que conectam seu nome com a palavra gótica fairguni (“montanha”), com o hindu parvata (“montanha”) e com o hitita peruna (“rocha”); c) o deus dos carvalhos, como argumentado por Porzig, Hirt e Speht – perkus seria comparado ao latim quercus (“carvalho”)[2].

Todas as etimologias propostas apresentam significados que são encontrados ligados à Pērkons, e não se pode excluir uma em detrimento da outra.

Nas acepções de Dumézil, Pērkons é uma divindade de origem indo-europeia da segunda função, ligado, portanto, à guerra. Há muitos deuses similares a ele em outas mitologias indo-europeias; recentemente, sem sombra de dúvida o mais conhecido pela cultura popular é o deus escandinavo Thor (antigo nórdico Þórr), mas podemos citar o Perun dos russos, o Taranis céltico, e mesmo o deus Tharapita dos fino-úgricos como lívios, estonianos e finlandeses que, ainda que não indo-europeus, sofreram influência dos vizinhos bálticos.

Como deus do trovão e da segunda função, as principais atribuições de Pērkons tratam-se da defesa e do combate ao mal. No entanto, como o Thor escandinavo, sua atribuição de controlar as chuvas fornece-lhe também controle sobre as colheitas, o que lhe concede um papel muito importante também como divindade que colabora para a fertilidade e colheitas; a ele eram oferecidos, por exemplo, sacrifícios durante períodos de seca.

Trata-se indiscutivelmente da figura mitológica mais bem descrita no mundo Báltico, e da qual possuímos as mais antigas referências escritas; é citado, na Livländische Reimchronik (ca. 1290), onde é descrito como “deus dos Kurs”, e mencionado  (como “Perkūns”) na versão russa medieval da crônica de Malalas (1261) juntamente com outros deuses dos lituanos. Peter Dusburg, escrevendo em 1320, falaria sobre o lugar sagrado de Romuva, na Prussia, onde o deus seria cultuado, um relato que depois seria copiado e repetido por muitos.

Baseando-se em Dusburg e cronistas subsequentes como Grunau, bem como na religião comparativa, presume-se que os lugares de culto por excelência a Pērkons eram as florestas, particularmente os carvalhais. Em tais florestas mantinha-se aceso um fogo perpétuo que, em caso de apagamento, precisava ser reaceso por meio de rituais especiais. Tal associação entre um fogo perpétuo, florestas proibidas, carvalhos e o culto ao deus do trovão é notado também entre os antigos germânicos pagãos, que cultuavam Donnar – equivalente germânico continental ao escandinavo Thor[3].

Além da possível etimologia do nome, ligado ao carvalho, existem outros relatos de povos indo-europeus, principalmente no âmbito céltico e germânico, que fazem conexão entre o deus do trovão e o culto em florestas; o carvalho, árvore mais frequentemente atingida por raios, era considerada a árvore de Pērkons.

As narrativas de cronistas posteriores e documentos locais demonstram a vivacidade e popularidade do deus, séculos após século. Os estatutos da cidade de Rīga, datados de 1413 (Statutae provincialia concilli Rigensis) demonstram como o culto ao deus ainda era praticado pelos camponeses e nativos bálticos, a despeito dos quase duzentos anos de tentativas de conversão ao catolicismo romano:

“(…)estamos chocados que alguns fazendeiros da província de Livonia não somente não observam os ritos cristãos e, pior ainda, prestam homenagem a deuses demoníacos – ignorando completamente o santo Deus e, ao invés, adorando  deuses da terra, como Pērkons, que eles chamam seu deus. Serpentes, vermes, e árvores, eles também adoram.” i tic […]” (Statuta provincialia, par 27)

A conversão da Livônia e das províncias bálticas ao protestantismo, no início do século XVI, não mudaria drasticamente a situação. D. Fabricius, eclesiástico católico, escreveria sobre a situação da Livônia, descrevendo a existência de culto – do qual afirmava ter sido testemunha ocular – e oferecimento de sacrifícios a Pērkons em data tão tardia como 1610:

“Durante uma seca, quando não tem havido chuva, eles adoram a Pērkons em densas florestas em colinas, e sacrificam a ele um bezerro preto, um bode preto e um galo preto. Quando os animais são mortos, então, de acordo com seus costumes, as pessoas de toda a vizinhança se reúnem para comerem e beberem juntas. Prestam homenagem a Pērkons primeiramente derramando-lhe cerveja, que é então trazida em volta do fogo, e uma última libação é feita no fogo, pedindo-se a Pērkons que lhes dê chuva”[4].

Pērkons é descrito como um homem ruivo, barbado, forte, severo e moralista. Na mitologia lituana, sua barba é ruiva ou acobreada; em algumas canções folclóricas letãs, sua barba é cinza[5] ou branca[6]. Simon Grunau, cronista do século XVI e autor da Preussiche Chronik, descreverá sua barba como preta, mas o retratará em uma suposta bandeira dos antigos prussianos de forma diferente:

Bandeira dos antigos prussianos
Figura 01: Bandeira dos antigos prussianos com representação de Pakols, Pērkons e Patrimps. A escrita está em antigo prussiano, em caracteres não decifrados e provavelmente inventados pelo autor.
Fonte: GRUNAU, Simon. Preussische Chronik, Hrg. Von W. Perlbach, vol. 1-3, 1876-1895.

 

Simon Grunau foi responsável por tornar popular uma suposta tríade de deuses bálticos, formada por Pakols, Pērkons e Patrimps. Esta tríade foi muito criticada pela historiografia posterior, sendo considerada por muitos como uma cópia da descrição que Adam de Bremen fizera de um suposto templo em Uppsala, Suécia, no qual estariam representados Odinn, Thor e Freyr. Há acadêmicos como Jaan Puhvel, no entanto, que consideram que a referência deva ser levada a sério.

As referências de cronistas e documentos fornecem apenas uma pálida e extática visão da mitologia antiga báltica, cheia de lacunas, narrada por pessoas externas aos costumes, normalmente hostis a eles.

Uma natureza de fonte primária muito distinta é a coleção de Dainas, canções folclóricas letãs. Impossíveis de serem datadas, têm sido coletadas e catalogadas pelos estudiosos por séculos, formando um corpo de rica e abundante informação sobre as crenças antigas. É por meio das descrições e referências nas Dainas que se obtém outra visão sobre Pērkons, historietas e narrativas a ele ligadas.

Muitas descrições de cronistas de sacrifícios e mesmo a conexão ao carvalho são observadas também nas Dainas e no material folclórico. Por meio desses estudos folclóricos, no entanto, se obtém uma visão de Pērkons mais ampla, incluindo suas relações com outros deuses e seu papel de divindade que combate o mal – personificado como Jods ou Velns.

Um mito popular ligado a deus comenta sobre sua intervenção entre Mēness e Saule. Enquanto uma versão conte que Pērkons fora casado com Saule, e a deusa o traiu com Mēness, a mais popular considera que Mēness e Saule formavam um casal.

Mēness (a lua – no báltico, uma palavra masculina), deus da guerra, casado com Saule (o sol – no caso, uma deusa), traiu-a com uma mortal. Como castigo, Pērkons cortou sua face com uma espada. Mēness, no entanto, não aprendera a lição, e voltaria a cometer adultério todo mês. Esta narrativa explicaria a lua crescente.

Pērkons possui uma arma que varia muito de acordo com a Daina, com a região, e mesmo com um tempo – um martelo de pedra, uma espada, uma clava, uma bola de fogo, um chicote, e até mesmo uma espingarda.

Com esta arma Pērkons criaria o trovão e o raio e combateria o mal, nomeado no letão como Jods ou Velns. Velns é traduzido como “Diabo”, “demônio”, um exemplo de sincretismo e influência tanto da parte da religião dualista dos vizinhos fino-úgricos, quanto do Cristianismo. Um pequeno grupo de canções folclóricas liga Pērkons ao ferreiro dos deuses; alguns acadêmicos consideram que Pērkons estaria ligado a esse ferreiro, enquanto outro ponto de vista consideraria que o próprio Pērkons seria o ferreiro. A explicação da conexão é a seguinte: o ferreiro forjaria armas mágicas e com elas combateria o mal, ou providenciaria o meio para Pērkons fazê-lo; ou , ainda, o bater do martelo do ferreiro celestial produziria o raio e o trovão. Uma daina muito popular conta que as cinzas de sua forja, ao caírem na terra, se transformavam em ouro e prata:

“Kalejs kala debesis Ogles bira Daugava!… “(Daina 54868)[7]

Pērkons anda num cavalo voador, mas não num carro ou carroça, podendo também se locomover em nuvens e no próprio raio; o lituano Perkūnas, porém, anda num carro puxado por dois bodes (também voadores); suas rodas rangendo fazem o barulho do trovão[8]. Este último atributo é muito comum entre outros deuses do trovão, mas não à versão letã[9].

Por fim, Pērkons é facilmente pela aparição de alguns de seus símbolos: pequenos machados encontrados em vestígios arqueológicos dos antigos baltos e a ugunskrusts: a cruz de fogo, mais conhecida como “suástica”. As latvju zimes, símbolos mitológicos representando divindades e outros conceitos, são encontrados ainda contemporaneamente na Letônia e Lituânia. O símbolo de Pērkons é ainda atualmente bordado e entalhado amiúde no artesanato e nos instrumentos musicais letões, sem a conotação negativa recebida do nazismo no século XX (ver figuras 02 a 06).

Detalhe da capa do CD “Kokles”
Figura 02: Detalhe da capa do CD “Kokles”, do letão Valdis Muktupavels. As kokles são instrumentos milenares da região do Báltico e possuem equivalentes diretos na Finlândia, nos outros países bálticos e na região adjacente da Rússia e Bielo-Rússia. Notes-se o entalhe de uma suástica no canto direito superior, que é o símbolo, nas Latvju zimes, do deus Pērkons.

 

Figura 03:Kokle de Latgale (Letônia Oriental) com os símbolos de Pērkons ao centro e na spārns (aba). Foto de Ansis Berziņš. Obtido em <http://folklora.lv/muzikas/kokle/en.shtml> último acesso em 25/07/2017.
Figura 04: Foto promocional do Grupo de Heavy-Metal letão “Skyforger”. Datada de 2003, não se encontra mais na página da banda. O emprego da figura de Pērkons encontra-se tanto no uso do símbolo quanto em outras fotos promocionais, nas quais os integrantes vestem-se com fardas militares, e mesmo no nome da banda: “Skyforger”, “forjador” ou “ferreiro” celeste, é uma das atribuições que as Dainas dão a Pērkons. Provavelmente a banda não tem mais usado a ugunskrusts pela óbvia aparência de apologia ao neo-nazismo que fotos dessa modalidade inspiram.

 

Figura 05: Ornamentos de camisas – Rucava. Fonte: ROZENBERGA, Op. Cit. p. 282

 

Figura 06: Manga de Camisa com o símbolo de Pērkons rodeado por uma cruz de Mēness. Aproce, próximo a Nica. Fonte: ROZENBERGA, Op. Cit. p.239

 

Referências

 

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[1] GIMBUTAS, The Balts, 1963; GIMBUTAS, The Civilization of the Goddess, 1991.

[2] ŠMITS, Pēteris. Latviešu mitoloģija. Riga, 1926.

[3] DAVIDSON, Hilda Ellis. Deuses e Mitos do Norte da Europa. São Paulo: Madras, 2004 [Cambridge, 1964]. p.73.

[4] A referência da fonte vem de MUGUREVIČS, Ethnic processes in baltic-inhabited territories and the emergence of the latvian nation in the 6th to the 16th century. 1997 (sem número de página).

[5] LP vol. 7, p.465. In: http://www.pantheon.org/articles/p/Perkons.html

[6] Latviešu folkloras krātuve, 720, 2; Latviešu folkloras krātuve 941, 2681.

[7] Catálogo online completo em <http://www.dainuskapis.lv/>  Último acesso em 25/07/2017.

[8] GIMBUTAS, Os baltas. pp.246s; STRAIŽYS, Op. Cit (sem referência de Página).

[9] <http://www.pantheon.org/articles/p/Perkons.html>