Os Letos na Argentina

No dia 1º de março de 2016, eu tive o prazer de visitar Buenos Aires, capital da Argentina. A cidade, linda e dinâmica, encontra a antiga arquitetura europeia (mas bem cuidada) com modernos e altos edifícios. A população da Argentina é, em sua maioria, constituída por descendentes dos colonizadores espanhóis e por imigrantes e, embora alguns nomes de ruas tenham nomes indígenas, não há muitos deles. Não há muitos afro-descendentes, já que o “Rio da Prata” não era uma rota da escravidão africana. O maior grupo de imigrantes na Argentina foi, definitivamente, o de italianos.

Os primeiros letos chegaram na Argentina, antes da Primeira Guerra Mundial, por razões pessoais.

Foi o caso do Dr. Prof. Karlis Bergs, Investigador de Ciências Naturais (botânica e zoologia), da escritora Virginia Krasting Carreño, que chegou em 1912 e do aviador Otto Balodia, que chegou em 1927 e trabalhou como instrutor de vôo. O primeiro cônsul leto foi Karlis Bergs, de 1927 a 1931.

Porém, a segunda onda de imigração foi a mais importante, depois da Segunda Guerra Mundial (1948-1949). Durante o segundo governo do presidente populista argentino, Juan Domingo Perón, 89 letos chegaram em navios de guerra junto a outros 800 imigrantes da Áustria e Itália, através do Porto de Buenos Aires.

Calle Letonia

A primeira residência dos refugiados foi o Hotel dos Imigrantes, na região de Boedo, localizado perto do Porto de Buenos Aires, onde havia uma estação de trem e hoje é o Museu da Imigração na Argentina (http://untref.edu.ar/muntref/museo-de-la-inmigracion/). Graças ao Pregador e Padre Luis I García, os imigrantes organizaram uma colônia na cidade de San Miguel, da Província de Buenos Aires. Os primeiros pedaços de terra e casas foram compartilhados por grandes grupos de famílias de baixas condições financeiras. As condições eram tão precárias que os homens tinham que dormir no teto. A construção das novas casas era feita de uma maneira muito solidária; todos se ajudavam devido à falta de recursos. Este pregador era bem quisto pela comunidade leta por sua preocupação permanente em resolver problemas, encontrar terra para hospedagem, buscar trabalho para quem necessitava, ensinar a língua, etc. Pregador Garcia ajudou a fundar a congregação de “San Pablo”, em San Miguel. O primeiro culto com a participação dos letos aconteceu no dia 27 de março de 1949. Os artesãos letos ajudaram na construção do templo. Pregador Garcia conseguiu encontrar dois blocos de terra para 38 famílias. A rua onde estes blocos de terra estavam localizados é agora chamada de “Calle Letônia”.

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Durante três anos, o Pregador Garcia ajudou as famílias, mas havia a necessidade que os cultos fossem ministrados na língua leta. Em 1951, foi fundada a Congregação “La Reurrección”. O primeiro pregador da igreja foi Anroldo Liepins que junto a sua família, auxiliou durante 25 anos, os letos em Mendonza (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai).

Ele foi resgatado de um campo de pessoas deslocadas na Europa para encarregar-se da congregação em 1952, La Resurrección. Na congregação havia escola dominical e músicas tradicionais orquestradas ministradas pela pianista Elvira Vitolins de Liepins. Em 1953, foi fundada uma paróquia em Hurlingham, onde foi contruída uma igreja com a ajuda dos artesãos letos. Todas as atividades da congregação foram realizadas neste novo local. Desde seus 50 anos até a sua morte, o Pregador Liepins escreveu e imprimiu o boletim informativo “Vests”, trazendo informações sobre as atividades da Congregação, usando um mimeógrafo manual. Deste momento em diante, o crescimento da comunidade leta foi rápido. Os letos acharam trabalhos em diferentes áreas, de acordo com a formação: em oficinas de carpintaria, metalurgia, máquinas, serviços eletromecânicos, ensino, serviços domésticos, etc. Muitos construíram, pouco a pouco, suas próprias oficinas e lojas. Dos anos 50 aos anos 70, eles concentraram-se na confecção de têxteis plásticos. Estas atividades levaram os letos à classe média argentina em um período que a atividade industrial cresceu no país e havia muito trabalho.

A maior organização dos letos na Argentina foi a La Asociación de Letones Libres (Associação dos Letos Livres) e a Asociación de la Letonia Libre (PBLA – Associação da Letônia Livre), que prevalecem até hoje em torno da igreja. Por mais de 40 anos, eles praticam serviços mensais, seguidos de um almoço com a comunidade (a la canasta), quando os participantes conversam em leto e castelhano.

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A congregação de “La Resurrección” é conduzida hoje pelo Pregador David Calvo e pelo Presidente Ilgvars Ozols. Nas últimas décadas, o número de pessoas que frequentam as atividades da congregação diminuiu para cerca de 20 pessoas. A congregação celebra os principais feriados, como o dia 18 de novembro e o Natal, quando eles reúnem o maior número de letos na Argentina, concentrando mais de 70 pessoas, tendo a participação de músicos. Entre as celebrações estão o “Dia da fé cristã da Letônia” e o “Dia dos deportados da Letônia-Sibéria (1941-1949)”.

Reencontros

A relação entre os letos que viviam na Argentina com a Letônia começou a se reestabelecer em 1990, quando os navios mercantes soviéticos chegaram às águas argentinas para pescar e tratar lulas. As reuniões aconteceram pela iniciativa de alguns letos marinheiros e pescadores que procuravam contato com os argentinos. As reuniões, apesar da vigilância da polícia soviética, eram muito emocionadas. Isso aconteceu quando foi restabelecido um contato direto que havia sido quebrado há décadas. Os marinheiros participaram de vários eventos sociais e familiares durante a sua estadia. Porém, com o fim da URSS, houve enormes acordos de corrupção feitos por ex-funcionários do regime soviético e da máfia russa ligada à Argentina, que acabou com a frota de pesca, deixando os marinheiros e pescadores no Porto de Buenos Aires sem recursos para a sobrevivência. No ano de 1991, a Nova República da Letônia promoveu Adolfo Bruziks como o primeiro Cônsul Honorário da Letônia na Argentina. Ele, que nasceu na Letônia, assumiu a responsabilidade e arriscou muitos de seus pertences pessoais ao intermediar e resolver o problema da repatriação dos marinheiros. A congregação ainda tem contato com alguns deles e seus familiares.

Logo depois da nomeação de Bruziks, Mirdza Resbergs foi nomeada e começou a lidar com questões mais apropriadas para um Cônsul Honorário, como a emissão de passaportes para os primeiros imigrantes e seus descendentes, de tal forma que foram emitidos mais de 40 passaportes da Letônia para pessoas que participaram das eleições parlamentares nos anos 90. Desde 1991, muitos letos nativos viajaram da Letônia para visitar seus parentes, as gerações nascidas durante o exílio, e para reconhecer o que antes era propriedade deles.

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O Consulado Honorário da Letônia na Argentina existe desde 2013 e, atualmente, está localizado em um edifício de advocacia. Lá trabalha o Dr. Andrés Ozols (Coordenador Social), que eu tive o prazer de conhecer em Buenos Aires e que também trabalha para a Câmara do Comércio e Indústria do Río de la Plata e Riga (http://ar.consuladoletonia.com). O Cônsul Hector Días Bastien vive na Espanha e visita a Argentina periodicamente para discutir questões ligadas à comunidade leta na Argentina. O trabalho de Bastíen torna-se difícil quando trata de questões legais, como o caso dos 20 letos presos por tráfico de drogas, as parcerias entre a administração dos portos na Letônia, a emissão de vistos temporários, desenvolvimento e renovação de passaportes, emissão de cidadania, intercâmbio comercial entre os países e a representação em eventos diplomáticos. Ele conta com a ajuda de Mercedes Benegas de Homblerg.

O Dr. Ozols foi gentil e concedeu-me algumas horas respondendo a algumas perguntas que eu tinha sobre os letos na Argentina. Ele também me deu um livro escrito pelo pai dele, Ilgvars Ozols, “Latviesi Argentina, Cile um Urugvaja” (2001), que descreve como o processo da imigração leta aconteceu nestes países e algumas cópias do boletim “Vests”, também escrito por Ilgvars, continuando o trabalho do Pregador Liepins.

Em novembro de 2015, o Escritório de Assuntos de Cidadania e Migração da Letônia emitiu 47 passaportes para os letos e seus descendentes na Argentina. Veja as imagens abaixo:

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Os letos mais velhos, que vivem na Argentina, estão comprometidos a manter a tradição leta, mas se preocupam que a nova geração Argentina-Leta que não se interessa muito pela cultura e a língua e, além disto, é difícil levá-los para eventos da congregação. Dr. Ozols, que é também um membro do Grupo de Biomateriais da “Facultad de Ingenieria de la Universidad de Buenos Aires”, tem trabalhado para tentar mudar esta situação. Ele tem cooperado para melhorar os programas de intercâmbio de estudantes entre as Universidade de Buenos Aires e RTU em Riga, principalmente no campo dos Biomateriais, mas tem um desejo de estender este programa para outras áreas de estudo.

Como um membro da Câmara do Comércio do Rio de La Plata (contempla Argentina, Uruguai e o Paraguai) e Riga, Dr. Ozols também trabalha para firmar os acordos de ciência e tecnologia entre os países. Tem um desejo de usar o Porto de Riga como uma ponte para produtos agrícolas da América do Sul para a Europa, com administração conjunta entre os Portos de Riga e o Porto de Corrientes. O Cônsul Hector Bastien estará na Argentina em abril para discutir esta questão.

Minha Saga Letoniana

Existe um dizer de que as nossas vidas duram trezentos anos. Elas começam cem anos antes de nosso nascimento e terminam cem anos após a nossa morte, afinal as ações das pessoas daquele período ou determinam quem somos, ou somos nós que as determinamos. No entanto, por décadas após a guerra, os autores e vítimas do capítulo mais obscuro da Europa do Século XX, foram incapazes de falar sobre suas experiências. Nós os observamos, nós os testemunhamos, nós os amamos, às vezes nos até os desgostamos. Mas eles sempre nos deixaram uma marca profunda, eles nos fizeram. Contudo, nós não entendemos ao certo quem eles realmente foram e, portanto, nós não entendemos quem nós somos.

– Roxana Spicer – The traitor’s daughter

   Há algum tempo passei a procurar sobre minhas origens.  Porém, existia uma lacuna na história da minha vida que não conseguia preencher. Pensava em várias hipóteses, mas não encontrava o caminho. Esta janela perdida no tempo estava diretamente relacionada com a tragédia humana da Segunda Guerra Mundial.

   Pesquisar sobre a família dos meus avós paternos, de origem portuguesa e já fincada no Brasil há séculos, foi fácil. Existe até um livro para contar as histórias de “Lagoa dos Gatos” e de Garanhuns, região onde faz frio no interior de Pernambuco e que tem fama pelos seus festivais de inverno. Minha avó paterna, escritora e poetisa, nasceu em Bezerros, cidade do agreste e famosa pelo carnaval de rua.

   A origem da minha avó materna também não foi difícil de ser levantada. Ela é neta de italianos e seu pai era um comerciante, do qual herdei alguns réis para a minha coleção de moedas. É possível, até, rastrear a época em que meus tataravós chegaram ao Brasil e se instalaram em Tremembé – SP.

   Já a história do meu avô materno era um mistério. Eu nunca soube muito sobre o seu passado. Quando era criança adorava ir a sua oficina brincar com as caixas de ferramentas. Naquela época, não fazia ideia sobre o seu país de origem, somente que ele tinha um sotaque engraçado. Infelizmente, não tivemos tempo suficiente de convivência para eu poder lhe perguntar sobre sua descendência, pois meu avô faleceu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Tudo o que sabia era que ele tinha vindo para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

   Em histórias de guerra, qualquer que seja o conflito, sempre é questionado qual foi o papel de uma pessoa e o que aconteceu com ela e sua família. Quando perguntava para a minha mãe a respeito, ela me contava as histórias da terra natal de seu pai com apenas pequenos fragmentos de sua vida. Dentre estes fatos, estavam momentos interessantes como quando ele atravessava um rio congelado para ir à escola,  ou quando andava descalço para não gastar o único par de sapatos que tinha.  Meu avô costumava cantar músicas folclóricas letas, como “Kur tu teci”, para os meus tios, mas nunca falava sobre a guerra. O único comentário que consigo me lembrar era que, entre as ruínas, os soldados pegavam objetos abandonados no caminho, apenas para largá-los posteriormente, pois não havia para onde levá-los. Não havia mais casa.

   Em 2004, quando a Letônia entrou na União Européia, fiz contato com o então Cônsul da Letônia no Brasil, João Grimberg. Na época, ele me disse que não havia nenhum processo em aberto para a emissão de passaporte leto para descendentes brasileiros, mas me orientou a checar essa informação de tempos em tempos para ver se algo mudava. E foi o que fiz.

   Em abril de 2015, me comuniquei com a atual Cônsul da Letônia no Brasil, a Sra. Daina Gutmanis, que me direcionou sobre o que era necessário para a solicitação da cidadania leta. Eu poderia dar entrada no processo mas, para isso, precisaria de alguma evidência, algum documento original, provando que meu avô era da Letônia. Ela me enviou uma lista de tudo o que precisava reunir e os dados do Departamento de Registro Civil da Letônia, o Dzimtsarakstu Departamenta Arhivs, que poderia me ajudar a encontrar algum dado sobre a origem de meu avô. Começava aí a minha saga báltica.

   Enquanto buscava um registro, estudei um pouco de história para entender em qual situação meu avô se encontrava durante sua juventude e levantei alguns fatos significativos: em 1934, a Letônia sofreu um golpe de Estado, tornando-se uma ditadura até 1940 e os alemães haviam sido expulsos de lá. Em 1939, o país foi forçado a aceitar um pacto de assistência à União Soviética. Até 1941, os soviéticos anexaram o território e muitos soldados e civis letonianos foram presos, mortos ou desertaram. Em Julho de 1941, os alemães invadiram a região e a ocupação durou até 1945.

   Logo no primeiro ano, o Holocausto matou 100 mil cidadãos na Letônia. Em 1943, Hitler ordenou o recrutamento de 180 mil homens letos para as forças auxiliares alemãs, os Legionários da Letônia. Os soldados da Letônia lutaram em lados opostos, a favor de alemães e russos e, na sua maior parte, contra suas próprias vontades. Existiu também um grupo chamado “Meža Brāļi” (Irmãos da Floresta) que tentou resistir de forma independente contra as duas forças. Esta era uma guerrilha que lutou encurralada nas florestas, em número inferior, com menos recursos e da qual morreram muitos heróis.

   O fato é que, de forma voluntária ou forçada, os letos estavam divididos na guerra. Inclusive, algumas batalhas eram travadas sob o comando letão em ambos os lados. Foram tempos terríveis. Li histórias como a dos irmãos Dums, que, apesar do vínculo familiar, foram obrigados a lutar em lados opostos.

   Mas a dúvida persistia: onde se encaixava meu avô nessa narrativa? Ainda não tinha nenhuma pista e, em busca de conhecimento, segui com meus estudos.

   Por curiosidade, procurei saber sobre a cultura do país e suas pessoas ilustres. Para a minha agradável surpresa, grande mentes saíram da Letônia. Lá foi descoberto o ácido cítrico (revolucionário na indústria alimentícia, higiênica e médica); de lá veio o homem que ajudou Levi Strauss a desenvolver o seu famoso jeans; lá foi desenvolvido o primeiro foguete com propulsão a óleo. O revolucionário da montagem do cinema, Sergejs Eisenstein, nasceu em Riga, assim como o famoso dançarino Baryshnikov. Aquela mini-câmera que todo espião usava, a “Minox”, era fabricada na Letônia e foi inventada por Walter Zapp. No esporte, representam a Letônia o famoso jogador de hockey da NHL Sandis Ozolins e o jogador de basquete Kristaps Porzingis da NBA. E por aí vai.

   Li sobre a cronologia do país, passando por Terra Mariana, Livonia, Cavaleiros Teutônicos, Liga Hanseática, a influência alemã, Reino da Polônia-Lituânia, Império Sueco, Império Russo, a independência por vinte e poucos anos, os bolcheviques, os nazistas, a União Soviética até chegar em 1991. Assisti vídeos sobre suas tradições culturais, religiosas e sociais e fui absorvendo, pouco a pouco, a sua riqueza histórica.

   Pesquisei em documentos, vi filmes e vídeos sobre pessoas, que como eu, procuravam por sua origem. Destaca-se o filme “Um passaporte húngaro” (2001), de Sandra Kogut, e a história da filha de uma espiã russa (Roxana Spicer) investigando o passado de sua mãe, “The traitor’s daughter”, de onde tirei o primeiro parágrafo deste texto. Me identifiquei com aquela citação pois realmente acho que vivemos mais do que os nossos dias mortais por meio de nosso sangue e tradição; assim como já existíamos antes mesmo de nosso nascimento, por conta deste elo.

   Mesmo com tanto estudo, ainda me faltavam dados sobre meu avô, Nikolajs. Eu precisava de algo mais concreto para avançar.

   Na Cédula de Identidade de Estrangeiro, emitida no Brasil, que minha avó me entregou, tinham os seguintes dados sobre ele: nome, nome dos pais e data de nascimento (02 de Março de 1926). De acordo com esse documento, meus bisavós eram Lina Butkus e Frocis Kavalieris.

A Cédula de Identidade de Estrangeiro

   Pesquisei em seguida, nos sites de busca de família http://ancestry.com/, www.myheritage.com.br e http://forebears.io/, e descobri um documento emitido na data em que meu avô chegou ao Brasil, em 1947. Este documento mostrava, pela primeira vez, o seu local de nascimento: Priekule.

   Assim, obtive a informação necessária para enviar meu pedido ao Registro Civil na Letônia, na esperança de achar algum documento original de meu avô. A atendente do Departamento do Registro Civil informou que seria dada uma resposta sobre a rastreabilidade do documento em duas ou três semanas. A única coisa que poderia dar errado, segundo a agente, é que durante e após a guerra muitos arquivos haviam sido queimados. Se o nome do meu avô tivesse sido apagado em algum momento, minha busca teria fim.

   Para minha sorte, o Departamento de Registro Civil da Letônia me enviou um e-mail, em junho de 2015, confirmando que haviam encontrado o registro de meu avô. Eles me enviaram um documento equivalente à sua Certidão de Nascimento, que, por obra do destino, acabou chegando no dia do aniversário da minha mãe, um belo presente. No papel estava escrito o nome “Koļa”, sem nenhum sinal de Nikolajs. Achei estranho e comentei à minha mãe, que me respondeu emocionada: “Meu pai sempre falou que este era o apelido dele!” Mal sabia eu que Koļa é o diminutivo de Nikolajs. Outro ponto que divergia das informações anteriores eram os nomes dos meus bisavós: Karoline Butkus Kavaliere (nascida na Lituânia) e Francis Fridrihs Kavalieris (nascido na Letônia). A partir desta Certidão, finalmente, eu tinha todos os documentos que precisava para enviar a minha solicitação da cidadania leta.

   O Cartão de Imigração que havia encontrado tinha outra pista muito importante: o local da última residência de meu avô – Bad Salzuflen, no norte da Alemanha. Esta observação me deixou quase certo de que meu avô tinha sido um soldado Legionário Leto que teve que fugir dos soviéticos e acabou em um Campo de Refugiados na Alemanha no final da guerra. Ele tinha apenas 17 anos em 1943, quando os alemães forçadamente recrutaram jovens letos para lutar contra o exército vermelho. Depois, acabei perguntando sobre isso à minha avó, que me confirmou que ele teve um breve momento no exército alemão durante a guerra, sem mais detalhes.

   Os Legionários da Letônia lutaram contra os russos e, após a guerra, conseguiram fugir da repressão soviética. Eles foram parar, em grande parte, na Alemanha, Áustria e Itália. Ao serem rendidos pelos Aliados, foram condenados a viver em exílio por longos anos. A terra natal estava perdida e, muitas vezes, os amigos e familiares também. Em 1947 a UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Administration) igualou os Legionários da Letônia aos soldados da Wermacht, forças armadas alemãs. Contudo, os Legionários letos não participaram de nenhum crime de guerra.

   Em 1950, o Congresso dos Estados Unidos declarou que as Unidades Bálticas da Waffen SS combatiam por ideologias, operações e objetivos próprios, e deveriam ser consideradas especiais, separadas das unidades da SS alemã. Os letos estavam organizados em 2 divisões da SS. Na época, o General das Forças Norte-Americanas, Coronel Whitton citou: “É difícil entender ou descrever o que ambas as unidades letas alcançaram face a esmagadora vantagem russa… Palavras não podem expressar o que eu quero dizer, mas diante destas duas corajosas divisões, eu curvo a minha cabeça.”

   Os letos que entraram voluntariamente na SS (fala-se em 20% do total de recrutas) tinham a esperança de se livrar dos russos. Eles não lutaram do lado dos Aliados pois temiam que estes ajudariam os russos a se manterem no controle. Já os que lutaram com os soviéticos, tinham a ilusão de que, uma vez terminada a guerra, uma vez expulsos os alemães, eles estariam livres novamente e os russos assegurariam a liberdade da Letônia. Mas aproximadamente 80% dos jovens envolvidos, de ambos os lados, estavam lá contra a sua vontade. Infelizmente, o resultado foram ilusões vindas de todos os lados e milhares de jovens vítimas.

   E o meu avô? Como ele conseguiu sobreviver a tudo isso, terminando seus dias na Europa em território alemão? Essa resposta demanda mais investigação e, talvez, nunca terei certeza sobre ela. Entretanto, o documentário “Latvian Legion” (com legendas em inglês no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=MHtcgaeC4T8), roteirizado pelo historiador Uldis Neiburgs, me deu uma boa ideia do que poderia ter acontecido. Em um momento do filme, um recruta da legião, Ilgonis Dambitis, conta como em 1944 eles receberam ordens de mobilização do exército alemão. Ele diz que perguntou a seu pai se era melhor fugir para a floresta ou ir junto com o exército. Por fim, ele acabou indo com o exército, receando retaliações contra ele ou sua família, e foi levado para a Alemanha de navio. Partindo pelo rio Daugava, cantaram “Dievs, svētī Latviju” com lágrimas nos olhos.

   Após a rendição da Alemanha pelos Aliados, as pessoas deslocadas pela guerra foram organizadas em campos de refugiados. Muitos do leste-europeu não puderam voltar aos seus países de origem, pois teriam que enfrentar o tratamento das autoridades soviéticas. A Alemanha, neste período, ficou dividida sob o controle da Grã-Bretanha ao norte, Estados Unidos ao centro, França ao sul e URSS ao leste.

   Por conta da cidade de Bad Salzuflen estar na Zona Britânica de controle, pesquisei documentos do Arquivo Nacional da Inglaterra (http://www.nationalarchives.gov.uk/). Um deles, um relatório sobre um campo de refugiados, descrevia que seus internos eram treinados em diversas profissões, como carpintaria, mecânica de carros, costura e engenharia elétrica, antes de serem realocados para outro país. Deve ter sido aí que meu avô aprendeu suas habilidades como mecânico.

   Tentando encontrar parentes vivos na Letônia, entrei em contato com Lauris Olups – Detetive de Famílias (http://familydetective.lv/). Ele conseguiu achar algumas pessoas, mas não obtive um retorno significativo delas. A princípio, não sabia se realmente eram relacionadas ao meu avô, apenas que o sobrenome Kavalieris não era muito comum na Letônia.

   Mas aí veio mais uma dúvida: se não era comum, qual era a sua origem? A principal hipótese que veio a mim é que o nome teve origem nos Cavaleiros Teutônicos, que dominaram a região entre os séculos XIII e XV e, dentre outras coisas, fundaram a cidade de Riga. Associei a palavra cavaleiro a Kavalieris, mas não tenho nenhum registro que confirme isso.

   Também descobri que alguns Kavalieris da Letônia foram extraditados para a Austrália em um navio saindo de Nápoles, na Itália, durante o pós-guerra. Tentei contato com eles, sem resposta. Identifiquei até um “semi-homônimo” meu, Andrejs Kavalieris, soldado da artilharia leta na Primeira Guerra Mundial e nada muito além disso.

 Após algum tempo, o detetive de famílias comunicou que conversou com um rapaz que disse já ter sido abordado por mim alguns anos antes (dado que me passou desapercebido) mas que, na época, havia sido orientado a nunca falar sobre os assuntos da família com um estranho. Depois disso, ele entrou em contato com uma jovem cuja bisavó tinha o mesmo nome que a minha. Ela chegou a me escrever dizendo simplesmente: “Sveiks!” (olá, em leto). Eu, por outro lado, escrevi um longo texto me apresentando e contando minha história. Porém, após escrever, só obtive silêncio.

Em paralelo às tentativas de contato com meus possíveis parentes, minha avó me entregou uma pilha de cartas que meu avô recebia de seus familiares da Letônia. Não havia mais dúvida, as pessoas que encontramos e as cartas eram do mesmo lugar: Liepaja e a região de Grobina.

   As cartas tinham nomes e eu finalmente estava descobrindo quem eram os irmãos, irmãs e outros parentes de meu avô: Karlis, Rihards, Vilma, Rudis, Valija. Apesar de não falar leto e das ferramentas de tradução online terem suas limitações, eu digitalizei as cartas e comecei a traduzi-las. Elas me deram a impressão de que nem todas eram recebidas e que nem sempre as histórias ali escritas contavam a realidade por completo. Fora o usual “…todo mundo manda oi!”, era comum encontrar frases como “…está tudo bem…”, “…nós estamos todos empregados…”, “…você não tem que se preocupar com nada…” e “…nós não recebemos notícias de você em tanto tempo!”.

   Mencionei sobre essa impressão com a Sra. Cônsul Daina Gutmanis e ela me disse que fazia sentido. Naquela época as pessoas na URSS não podiam dizer nada de mal sobre a situação em que viviam, já que todas as comunicações eram primeiramente lidas pelas autoridades soviéticas antes de chegarem ao seu destino – quando chegavam – e qualquer palavra mal escrita poderia acarretar em sérias represálias.

   As correspondências recebidas por meu avô eram sempre muito emotivas e a família parecia ser próxima. Tenho tentado descobrir se algum dos irmãos e irmãs de Koļa ainda estão vivos, mas, até o momento, não encontrei respostas.

   Durante minha extensa pesquisa, acabei me comunicando com o Arquivo Nacional Brasileiro (http://www.arquivonacional.gov.br/), o que resultou na descoberta do nome do navio que trouxe meu avó para o Brasil: General Stuart Heintzelman, procedente de Bremen. Este era um navio da Marinha Norte-Americana que levou milhares de pessoas de toda a Europa, partindo da Alemanha para o Canadá, EUA, Brasil e Austrália. O documento também mostrava onde meu avô foi deixado no país: a Ilha das Flores. Este era o principal ponto de chegada dos imigrantes no Rio de Janeiro.

O navio da marinha americana General Stuart Heintzelman

   Não sei exatamente quanto tempo Koļa ficou neste lugar, mas é certo que ele foi enviado para trabalhar em uma fazenda em São Bernardo do Campo chamada “Sítio Manaaí – Wilson Russo CIA.”, mais uma informação fornecida pelo Arquivo Nacional e confirmada pela minha avó.

   Koļa não falava uma palavra em português e foi aprendendo, aos poucos, lendo os jornais locais e a Bíblia.

   Após trabalhar na fazenda, ele se mudou para São Paulo, cidade que efervescia de oportunidades de emprego nos anos 50. Lá conheceu a minha avó e se casou em 1951. Durante este período, existia uma certa facilidade para a compra de terras. A Vila Zelina , na região da Vila Prudente, era um destes lugares em São Paulo. Até hoje, lá é um dos locais com maior concentração de imigrantes do Leste Europeu na cidade, e onde é celebrada, no primeiro domingo do mês, uma feira de artesanato e comidas tradicionais. Outras cidades emergentes também eram um destino atrativo. Koļa acabou indo para São José dos Campos, onde construiu sua casa, abriu sua oficina mecânica e criou sua família. Meu avô era muito respeitado na cidade por seu trabalho e ética, e tinha como principal lazer levar minha mãe e seus seis irmãos às praias do litoral norte.

Propaganda de terras para a Vila Zelina

   Koļa manteve contato com a comunidade leta no Brasil em Nova Odessa e Varpa. Mas, apesar das cartas que trocava com seus parentes na Letônia, não tinha nenhum contato verbal com a sua família. Dentre as correspondências recebidas, datadas entre 1947 e 1991, estavam algumas de um primo que acabou indo para o Canadá. Por coincidência, meus pais moraram no Canadá em 1984 e localizaram este primo, Žanis. Em uma visita deles a Žanis, meu avô, após quase 40 anos, pôde ouvir a voz de um membro de sua família por telefone. Sem dúvida foi um momento de muita comoção.

   Tentei achar algum contato atual deste primo durante muito tempo, sem encontrar.

   Enquanto pesquisava essas histórias, em Novembro de 2015, meus documentos para o passaporte foram aprovados pela Letônia. Enfim fui notificado sobre a confirmação da minha cidadania leta e meu objetivo havia sido alcançado!

Minha conquista. No Consulado da Letônia no Brasil

   Certo dia, assistindo a um jogo dos Cleveland Cavaliers na NBA pensei em pesquisar por Žanis Kavaliers e não Kavalieris e acabei encontrando a foto de seu túmulo no Canadá. Olhei novamente os envelopes das cartas trocadas e, em alguns, o nome realmente estava escrito desta forma: “Kavaliers”.

   Contei a história de Žanis para uma tia, que também já havia tentado contato com possíveis familiares na Letônia. Ela já tinha ouvido falar sobre ele por intermédio de um jovem com quem se correspondia há três anos. Lembram daquele rapaz que não podia falar sobre assuntos de família com estranhos? Pois é, descobrimos que Žanis era seu bisavô. Depois dessa revelação, o bisneto finalmente me ligou.

   Conversamos por uma hora e ele me contou que sua bisavó sempre procurou saber sobre o paradeiro de Žanis, que havia partido e nunca mais voltara. Aparentemente, ele e a bisavó do rapaz se encontraram na Alemanha por algumas vezes no pós-guerra, mas ela acabou voltando para a Letônia, enquanto ele foi para a Inglaterra. Pesquisando na internet, acabei achando o cartão de imigração dele da Inglaterra para o Canadá, em 1955.

   Assim como Žanis, Koļa nunca pôde voltar para a Letônia. Minha mãe me disse que ele costumava dizer: “…quando for possível para eu voltar para a Letônia, você vai comigo?”.  É claro que ela iria, mas em 1991 ele teve câncer de pulmão. Meu avô viveu o suficiente para ver seu país ficar independente da URSS, mas já não tinha forças para voltar e acabou falecendo em dezembro de 1991.

Trabalhadores da fazenda em São Bernardo do Campo. Meu avô Nikolajs está no topo esquerdo

   Toda essa história, coroada pelo sucesso na obtenção da minha cidadania leta, acabou me abrindo novas portas de relacionamento, além de ter gerado em mim um sentimento genuíno de nova identidade, sendo uma fonte de inspiração e efervescência criativa.

   Como sou formado em comunicação e estou planejando fazer um mestrado em Escrita Criativa na Europa, resolvi fazer contato com o jornal “The Baltic Times”. Perguntei se eles teriam o interesse em receber matérias da América Latina com foco nos temas Bálticos. A resposta foi positiva e logo fiz contato com Felipe e Renate Albretch, da Associação Brasileira de Cultura Leta (ABCL), para levantar dados sobre as matérias que enviaria para o jornal.

   O primeiro artigo que escrevi foi sobre a imigração dos Letos no Brasil (que pode ser lido em inglês aqui). Já a segunda matéria, fala sobre a imigração dos letos na Argentina. Fui recentemente a Buenos Aires a negócios e aproveitei a oportunidade para fazer contato com o pessoal do Consulado leto na cidade. Fui recebido pelo Coordenador Social, Dr. Andrés Ozols e ele me contou um pouco sobre a imigração por lá. Terminei o agradável café recebendo um presente especial,  um livro escrito por seu pai, contando sobre a imigração dos letos na Argentina, Uruguai e Chile, e alguns exemplares de um boletim informativo sobre as atividades da comunidade leta na Argentina.

   Como o Dr. Ozols também é professor de física na Universidade de Buenos Aires e membro da Câmara de Comércio do Rio da Prata e de Riga, promove intercâmbios de alunos para a RTU (Universidade Técnica de Riga), criando uma relação estreita entre as comunidades estudantis leta e argentina.

   O artigo sobre os letos na Argentina saiu em uma página inteira no jornal, mas como a matéria foi publicada apenas em mídia impressa, disponibilizei o texto também na internet neste link: http://bit.ly/1SC8g25

   Como o contato com ABCL tem sido muito proveitoso, me convidaram para escrever para a revista Raksti. Claro que aceitei e com o maior prazer! Espero que esta seja a primeira de muitas histórias que lhes contarei.

   Minhas descobertas sobre a Letônia e o apego por minha história familiar me fazem participar, sempre que possível, das programações da ABCL. Estou gostando muito das aulas de leto, dadas pela Renate Albretch, que têm ocorrido em São Paulo quinzenalmente. Nos meus planos de estudos na Europa está programada uma visita à Letônia e, um pouco mais próximo do que esta viagem, está a comemoração do Ligo, no dia 18 de Junho em Nova Odessa, da qual certamente farei parte.

   Apesar de estar no meu sangue desde sempre, hoje posso dizer que a Letônia faz parte de mim! Me sinto cada vez mais envolvido com a cultura do país e com as pessoas. Um pedaço do quebra-cabeça da minha história está se encaixando e novidades ainda estão por vir.