As Mulheres que Construíram a Letônia

Todo mundo já leu ou ouviu falar que as mulheres letas são as mais altas do mundo (em uma média de 169.80 cm, superando os 168.72cm das holandesas). Talvez você também tenha lido que a Letônia possui um dos maiores índices de modelos per capita (ficando próximo de 4º lugar no mundo), e que as mulheres letas são muito bonitas. Isso tudo é verdade. Sim. Mas seria um engano achar que é só isso. Um erro muito grande.

A Primeira Poetisa

Infelizmente, durante o caminhar da humanidade, as mulheres receberam poucas menções nos livros de história (na Wikipédia, por exemplo, apenas 17.49% das biografias são sobre mulheres). O mesmo aconteceu na Letônia. Algumas fontes citam histórias sobre governadoras mulheres nas antigas tribos e místicas guerreiras, mas pouco se sabe. Após as Cruzadas do Norte, no final da Idade Média, as mulheres seriam sujeitas ao regime feudal, e seus direitos eram poucos – e assim seria por vários e vários séculos.

Mas isso veio a mudar com a Revolução Industrial. Aos poucos a servidão (o regime quase escravocrata ao qual os letos eram submetidos) foi formalmente abolida. Logo homens e mulheres estavam indo à escola, à universidade. Nas cidades, uma nova camada social surgiu. Esses recém-libertos camponeses logo ascenderam, tornando-se filósofos, engenheiros, pensadores e artistas letos.

A mais proeminente mulher dessa época foi Elza Rozenberga. Nascida em Jelgava, 1865, foi uma das primeiras escritoras e dramaturgas leta. Adotou o pseudônimo Aspazija antes de publicar seus primeiros poemas, em 1887. Após alguns anos, mudou-se para Riga. Lá lutou pela educação das mulheres e sua participação na política. As personagens de suas peças normalmente eram mulheres que ousavam criticar problemas sociais e defender seus direitos. Passou os anos de 1897 até 1903 em exílio na Sibéria.

“Aspazija” vem de Aspasija, uma influente e educada mulher da Grécia Antiga.

Após o seu retorno, se envolveu com grupos sociais-democratas. Após a revolução de 1905, suas obras foram vistas pelas autoridades como uma afronta ao Czar e precisou fugir com o seu amado (e igualmente famoso) poeta Rainis para a Suíça. Conseguiu retornar apenas em 1920, sendo eleita para a Primeira Assembléia Constituinte da Letônia. Faleceu em 1943 em Dubulti.

A Pequena Paris

O período entre-guerras foi especialmente favorável às mulheres letas. A Letônia foi um dos primeiros países do mundo a garantir o voto feminino, em sua constituição em 1918. Durante os anos 20, mais e mais mulheres tinham acesso à educação e passavam a trabalhar. Muitas iam direto à efervescente capital Riga, a “Pequena Paris” do norte. A art-deco estava em moda e logo surgia a figura da femme-fatale nos filmes noir. Nessa época, surgiram nomes internacionais de cinema como Elza Radziņa e Anta Klinte.

Mulheres aproveitando os verões em Jurmala, nos arredores de Riga.

 

Apesar da crise econômica, os anos 30 se iniciaram com mais força ainda. Riga entrou em sua “era de ouro” – que recentemente foi retradada no filme leto “Homo Novus”. Centenas e centenas de mulheres passeavam as ruas da capital, participavam de desfiles, se graduavam na universidade (A Letônia possuiu um índice altíssimo de mulheres médicas na época).

Isso tudo veio a acabar em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial. Logo a Letônia seria invadida e arrasada pela Alemanha Nazista e pela União Soviética, e infelizmente muito do que as mulheres vieram a conquistar foi perdido.

Mas não sem uma boa luta.

As Guerreiras

Algumas enfermeiras letas da Primeira Guerra Mundial.

A guerra não era algo incomum para as mulheres letas. Muitas já haviam participado durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e durante a Guerra de Independência (1918 – 1920). Fosse trabalhando nas fábricas, ou fosse atendendo feridos em meio às batalhas. Há até uma anedota qual mulheres letas enganavam os invasores alemães, apontando os caminhos errados pelas florestas.

Seja como for, quando a Segunda Guerra Mundial bateu às portas, muitas mulheres decidiram lutar. Quando os nazistas vieram, diversas mulheres se tornaram franco-atiradoras no 201º Regimento de Fuzileiros Letos. O combate se tornou ainda mais brutal com a volta do domínio soviético, que fazia de tudo para esmagar a resistência.

Franco-Atiradora na frente oriental.

Essas mulheres guerreiras permaneceram no imaginário popular, apesar da repressão soviética. Aos poucos surgiu uma lenda urbana na Rússia sobre franco-atiradoras mercenárias letas combatendo as tropas soviéticas na década de 80, as baltās zeķbikses (“Meias-Calças Brancas”). Real ou não, a lenda persiste até os dias de hoje, principalmente após o canal de televisão russo “Life” (Лайф) reportar as míticas franco-atiradoras na Ucrânia.

Além disso, após a guerra, o Reino Unido criou o programa “Baltic Swans” (Baltijas gulbēni) – com o objetivo de receber 5.000 doutoras e enfermeiras letas que estavam fugindo do domínio soviético. Esse episódio pouco conhecido da história leta aparecerá na série Sarkanais mežs, que estreará esse ano.

Atualmente

A Letônia ainda exporta muitos nomes femininos famosos – principalmente nos esportes. Elizabete Limanovska e Nava Starr são duas campeãs que seguram títulos de xadrez. Uļjana Semjonova (com imensos 2,15m de altura) dominou o cenário de basquete mundial durante os anos 70 e 80. Jeļena Ostapenko esteve nas notícias recentemente, ao conquistar o Grand Slam de Tênis.

Uljana Semjonova (atrás) roubando a bola da italiana Stefania Passaro.

Além disso, o mundo das artes é dominado por mulheres. A mezzo-soprano Elīna Garanča conquistou o mundo das óperas, enquanto a violinista Baiba Skride viaja continentes com Filarmônicas famosas. A diretora de cinema Laila Pakalniņa está sempre competindo em Cannes, Veneza e outros festivais. Outra estrela recente é a jovem de 16 anos Aleksandra Špicberga, que recebeu o prêmio de melhor vocalista da Europa em 2015.

Não podemos deixar de citar o crescente número de mulheres no poder. 56% das administradoras e gerentes da Letônia são mulheres, superando todos os países da Europa. Além disso, A Presidente mais famosa e amada da Letônia é uma mulher, Vaira Vike-Freiberga. O recém-eleito parlamento é 31% feminino, superando a média européia de 29,7%.

Nas ciências, as mulheres são 60% das estudantes de medicina (1º lugar da Europa), 52% das pesquisadoras e 65,2% das graduandas.

Vaira passou grande parte da sua vida no Canadá, após sua família fugir da União Soviética.

Se engana quem acha que as mulheres letas-brasileiras são muito diferentes. Não é a toa que o Grande Coral do I Festival de Cultura Leta foi dominado quase inteiramente por mulheres e regentes femininas. Elas também possuem uma boa bagagem na história do Brasil, mas isso é um artigo para outro dia…

Sveicam sieviešu dienā!

Do Gulag ao Nobel: Lidija Doroņina-Lasmane

Isto é o mais sagrado,
Não se esqueça:
Ascendendo ao céu,
Ou mergulhando nas profundezas do mar,
Dividindo a alegria com os amigos,
Ou enfrentando seus oponentes sozinho,
Você é a Letônia.
– O.Vācietis

   Sentada em sua sala, rodeada de livros e desenhos de crianças, uma senhora de grandes e expressivos olhos azuis recita, com uma voz calma e pausada, poesia para seus netos. Assim como o livro de poesia de Ojārs Vācietis, acomodado em seu colo, ela também havia sido censurada. Suas mãos rudes – fruto dos Gulags soviéticos – seguram-o com terneza, quase como se abraçassem centenas de velhos amigos, perdidos pelo totalitarismo.  

   Essa senhora de olhos azuis e voz calma é Lidija Lasmane-Doroņina. Apesar de não gostar muito dos holofotes – prefere livros e netos – há poucos na Letônia que não a conheçam. Foi a protagonista do documentário “Lidija” (2017), de Andrejs Verhoustinskis.

A Família e a Guerra

   Lidija nasceu em 28 de julho de 1925 na bucólica vila costeira de Ulmales. Sua família era batista, com três irmãos (um veio a falecer cedo) e ela cresceu em uma atmosfera de amor, que moldaria seu caminho pelo resto da vida. Lidija se batizou na igreja batista de Saka aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

   A região de Ulmales, Kurzeme, é igual a vila descrita: plana, campestre, bucólica. Mas não seria assim por muito tempo. Em 1940, a Letônia foi ocupada pela União Soviética, que logo começou as deportações em massa de elementos “contra-revolucionários”: políticos, pastores, professores e quem mais pudesse desafiar a nova ordem.

   A situação mudou novamente quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética em 1941 – e com ela, a Letônia – trazendo seus aparatos de censura, perseguição e execução.

   “No outono, os nazistas vieram  e abateram todos os judeus de Pavilosta quase na frente dos nossos olhos. Havia também meus colegas de escola, a garota com quem eu brincava. Eu percebi que [o totalitarismo] era uma insanidade tão grande que se tinha que abandonar uma parte de si mesmo, sob nenhuma circunstância deveria sucumbir a ela”,  relatou Lidija ao compartilhar suas memórias.

   Em 1944, 200.000 tropas alemãs, recuando após sucessivas derrotas no front, foram cercadas pelo Exército Vermelho em Kurzeme. Sem ter para onde recuar, as tropas nazistas e o exército soviético transformaram a região em uma zona de total desolação e destruição.

A Ocupação

   A jovem Lidija decidiu que faria de tudo para salvar vidas. Em 1946 começou a estudar em uma escola de enfermagem em Riga. Nessa época, a União Soviética, após ocupar novamente a Letônia, continuou com a “limpeza” de opositores. Em novembro do mesmo ano, Lidija e sua família foram presas por abrigarem e fornecerem curativos para um grupo de letos que resistiam à ocupação.

   “Eu cresci na velha Letônia, formada com meu país e seu espírito. Eu não podia aceitar ocupação, era inteiramente contrária a minha natureza. Esses grandes países não tinham o direito de nos conquistar. Deus deu a cada um a sua terra onde morar e servi-lo.”

   Lidija e sua família foram levadas pelo serviço secreto soviético, a Tcheka (precursora da KGB) para serem interrogados na sede do serviço em Riga, na stūra māja. A jovem de 21 anos foi condenada a, no mínimo, 5 anos de prisão e mais 3 de retenção de direitos por “traição à pátria”. Seu pai foi condenado a 10 anos e sua mãe, 3 anos em um hospital psiquiátrico.

   Durante os primeiros anos de prisão, Lidija era obrigada a carregar troncos, e ficou doente com tuberculose e quase morreu. Em 1951 foi transferida para a infame prisão de Vorkuta, o maior campo de trabalhos forçados da União Soviética, onde os inimigos e dissidentes políticos eram obrigados a minerar carvão. Em 1953, o ditador soviético Stalin morreu e seu sucessor, Krushev, concedeu perdão a alguns presos políticos, entre eles, Lidija.

 

A Traficante de Livros

Lidija com alguns dos livros proibidos.

   Lidija retornou a Letônia, mas não tinha lugar para morar; sua família havia perdido tudo. Nos anos seguintes, começou a guardar e redistribuir livros que haviam sido proibidos pela censura, o que a levou a ser presa novamente em 1970. Passou dois anos na prisão feminina de Riga. “Quando fui presa, não tive medo, pois defendia algo justo. Eu tinha certeza de que eles estavam errados. Mas havia a sensação de que havia muito a se fazer, muito a planejar, mas eu estava lá, sem sentido”.

   Após sair da prisão, continuou seu trabalho com fervor ardente, recolhendo não só músicas, livros e filmes proibidos, como também memórias de outros prisioneiros políticos e exilados.

   Sua resistência trouxe a polícia secreta mais uma vez até sua porta na manhã de 6 de janeiro de 1983. Lidija reconta que o jovem que a interrogou sobre o livro que havia distribuído, Piecas Dienas (do escritor Anšlavs Eglītis), era também um leto: “O investigador me disse ‘Está escrito aqui, e você o leu e divulgou, como se a Letônia estivesse ocupada, como se em 1941 tais e tais pessoas tivessem sido deportadas. O que você pode dizer sobre isso?’ Eu digo a ele, ‘o que devo dizer sobre isso? Somos dois letos. Você não nasceu ontem e sabe bem que a Letônia está ocupada.’ Mas ele não tinha nada para dizer.”

   Lidija foi detida novamente e deportada para a Mordóvia, onde dividiu cela com outros criminosos, prostitutas e ladrões, mas nada disso jamais a fez perder a esperança. No natal, ela e outros prisioneiros cortavam panos verdes para simular pinheiros e todos os prisioneiros entoavam os hinos que lembravam. “Eu nunca senti ódio por aqueles que me torturaram. Absolutamente não. Fiquei com vergonha deles porque me humilharam”, conta Lidjia.

   Em 1987, Lidija e outros prisioneiros foram perdoados no Glasnost de Gorbachev. Lidija visitou a Suécia e viu centenas de refugiados letos cantando hinos proibidos e segurando fotos de prisioneiros políticos, inclusive fotos suas.

A Vitória

   Depois da independência, Lidija começou a visitar antigos lugares da KGB e recolher documentos de assassinatos e execuções. Ela conta que uma vez achou entre os documentos a foto do delator que possibilitou sua prisão: “como pode fazer isso? Ele morreu e eu não pude saber. Se pudéssemos falar, poderíamos nos reconciliar. É fácil perdoar na mente, mas, para sentir isso no coração, foi necessário tempo”.

   Lidija participou ativamente do Centro de Documentação do Totalitarismo, atendendo também outras vítimas de perseguição. Em 1994, ela foi premiada com a Ordem das Três Estrelas (Triju Zvaigžņu ordenis) pelo seu trabalho, mas decidiu recusar. Segundo ela, há prêmios muito maiores do que medalhas.

   Participou também do trabalho “Akcija dzīvībai”, em que atendia mulheres afligidas com gravidez indesejada, muitas vezes sofrendo também de depressão e estigma social. Por sua luta contra totalitarismo e seus trabalhos, Lidija é uma das indicadas para o prêmio Nobel da Paz de 2018.

   “Hoje posso cantar de coração: Dievs, svētī Latviju! Eu tenho uma filha e três netos, mas também inúmeros outros ‘netos’ pelo mundo que buscam justiça. Eu tenho uma igreja maravilhosa, e moro em um país livre, a Letônia. Espero que agora as pessoas aprendam a amar uns ao outros, não importem as circunstâncias. E espero que aqueles que estão no poder saibam usá-lo com sabedoria”.

Lidija em sua igreja em Riga, a Mateja Baptistu Draudze

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Trechos retirados do periódico “Tikšanās”, de dezembro de 2001 a janeiro de 2009. Traduzidos livremente por Andreis Purim.

Leia também nosso artigo sobre o Livro “Eu queria tanto ainda viver”

[Receita] Kliņģeris da vó Vergínia

O Kliņģeris se trata de uma “rosca” macia, levemente doce, trazida pelos imigrantes letos que chegaram ao Brasil no final do século XIX, e no caso desse artigo, Rio Novo. Possui uma relação (apesar de um pouco longínqua) do Bretzel alemão, e é costume ser servido em dias especiais.  Fazendo uma pesquisa na internet, observa-se que a receita “evoluiu” acrescentando hoje em dia frutas cristalizadas e coberturas com diversos tipos de enfeites. A versão ora descrita, digamos, é a versão “original” como nossa família conhece (e ama).

Minha irmã Lili, como nutricionista e hábil cozinheira, aprendeu a fazer com minha mãe (vó Vergínia) enquanto a mesma estava viva, mas resolvi fazer esta rosca buscando ajuda com a Dona Tereza, uma senhora que foi diarista da minha mãe e depois cuidou dela nos seus últimos anos. Ela era quem fazia estas roscas quando minha mãe já não tinha forças para o trabalho na cozinha.

Eu a convidei para nossa casa e fizemos juntos esta rosca, mas como minha mãe não tinha medidas precisas quando preparava a receita, sua “discípula” Dona Tereza também não.  As quantidades iniciais os ingredientes eram “ajustados” ao longo do processo. Tentei fazer o máximo de anotações possíveis para “não perder nada” que pudesse ser relevante para esta experiência “química”.

Ingredientes

  • Noz moscada (duas unidades “in natura”. Segundo a instrutora, a que é vendida moída num pacotinho não tem o mesmo efeito no sabor final;
  • 4 copos de leite
  • 3 colheres de sopa de fermento biológico granulado
  • 3 copos de açúcar
  • 230g de manteiga
  • 2 colheres de sopa de sal
  • 2kg de farinha de boa qualidade

Passos

  1. Numa panela pequena coloque 1 copo de leite junto com o fermento e aqueça levemente no fogão. Aguarde o passo 4.

    Passo 2
  2. Rale duas unidades de noz moscada até restar apenas um “toquinho”.
  3. Numa bacia grande coloque os outros três copos de leite misturando o açúcar, a noz moscada ralada, a manteiga e o sal. Misture tudo com a bacia e aqueça levemente no fogão até um “amornamento”;

    Passo 3
  4. Saindo do fogão, misture o fermento (que estava na panelinha aquecida);
  5. Acrescente a farinha e  inicie o processo de amassar até que tudo ficasse uniforme e solto (não pegajoso). Após um certo período na bacia, retire a massa e continue este processo diretamente numa superfície polvilhada com farinha de trigo. Recomendação da Dona Tereza: não utilizar superfícies frias tipo granito.

    Passo 5
  6.  Deixe então um longo tempo (quase duas horas) no forno ligeiramente aquecido para que a massa cresça. Para melhor aproveitamento do calor coloque um plástico cobrindo toda a massa.
  7.  Unte as formas com óleo de cozinha, e quando a massa estiver crescida confeccione as tranças e colocadas nas formas.  Veja o vídeo abaixo:

    Passo 8

    Passo 9
  8. Separe duas gemas de ovo numa xícara e, com um pincel, e tinja a superfície;
  9. Deixe para assar em forno quente. Observe a coloração para desligar;
Obrigado Dona Tereza!

Original por Carlos Ademar Purim, de seu blog e republicado no fórum Letônia Brasil em 11 de Julho, 2018.

Se você gostou e gostaria de compartilhar receitas letas de sua família, clique aqui para participar do fórum

Chuteira no pé, Esperança no coração

Durante dois anos, crianças de famílias carentes de Bolderaja, um bairro afastado de Riga, se reuniam para treinar futebol. Dois anos, independentemente do clima no dia, do inverno ao verão. Dois anos, seja na chuva, na neve – na hora do treino, o céu se abria. Não perderam um só dia de jogo. Você acredita que uma simples esperança pode mudar o mundo? Um homem acredita.

Tjago, com j mesmo, Professor Tjago, para falar a verdade. É assim que o carioca de 33 anos Thiago Bonfim da Silva é conhecido na Letônia. Formado em Educação Física, técnico e treinador de futebol – além de outras conquistas profissionais -, Thiago também é veterano de diversos projetos evangelísticos, e hoje usa o futebol para resgatar as crianças das regiões mais carentes do país.

Amor à primeira vista, apesar do clima

Ouviu falar pela primeira vez do longínquo e gelado país báltico em 2005, após seu chamado para missões. A Letônia havia se classificado para a Eurocopa de 2006, não possuía uma opinião formada, mas algo especial foi crescendo no seu coração. Desembarcou em Rīga 19 de maio de 2010 – foi um choque cultural muito forte – mas foi amor à primeira vista.

Dar o primeiro chute ao gol, no entanto, nem sempre é fácil. Seu primeiro trabalho missionário com futebol foi no “Day Center” no bairro de Bolderaja, em Rīga, patrocinado pela Igreja Luterana da cidade. Mesmo após o término do projeto, Thiago continuou, o sonho era forte demais, era hora de ir além. Ir além era Karosta.

Karosta (em leto, “porto de guerra”) é um bairro localizado no norte da cidade costeira de Liepāja. Foi construída para ser uma base naval do Império Russo, e durante a ocupação soviética foi convertida em base militar e prisão militar. O bairro mistura palacetes e catedrais czaristas com blocos habitacionais soviéticos abandonados. Após a queda da união soviética e desativação do complexo militar vários prédios foram abandonados e a região se tornou problemática com desemprego, crimes e abuso de álcool.

Thiago, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolveram o Karosta Futbols resgatando crianças que sofrem problemas de criminalidade e abusos. O projeto está quebrando o ciclo da violência, crianças estão sendo salvas. Só para ter uma idéia: muitas dessas crianças nunca haviam saído de Karosta, hoje disputam torneios em outras cidades. Eles possuem um novo futuro para chamar de seu.

Torneio em Nica

Ainda assim, há muitas dificuldades. No começo, Thiago trabalhava em 3 empregos diferentes para poder se sustentar, uma vez que não recebe nada pelo projeto. No início deste mês precisou se afastar do projeto para poder sustentar sua família e atender ao novo filho que está por chegar ao time. Mas não ele não pendurou as chuteiras, pois ainda há muito jogos por vir, e muitas vidas para mudar.

Nós tomamos um pouquinho do seu tempo para perguntar sobre sua vida, seus projetos, ambições, dificuldades. Veja um trecho da entrevista abaixo:


Entrevista

Letonia Brasil: Qual sua formação, Thiago? Quais projetos você participou antes de vir para a Letônia?

Thiago Bonfim: Sou formado em Educação Física, Pós-graduado em Ciências do Futebol e Futsal. Sou treinador formado pela ABTF em 2006, pela CBF – A em 2013 e UEFA-B em 2015. Sobre missões, participei dos projetos missionários do movimento estudantil Alfa e Ômega, projeto missionário em Juiz de Fora em 2007. Todo o treinamento para missionário em campos universitários em 2007 e 2008. Também fiz o curso para missionário através do Esporte pelo CEFLAL- 2009. Diversos treinamentos e projetos missionários na área esportiva e também outras áreas. De 2008 até 2010, participei da capelania prisional no presídio Moniz Sodré em Bangu, junto com os missionários Carlos Serejos e Clotildes Moraes da Igreja Batista do Méier. Também fiz parte do projeto “Igreja no Trem”, onde eu pregava diariamente nos trens do Ramal de Campo Grande no Rio de Janeiro. Fiz parte do projeto Luz nas Calçadas por 5 meses, onde subíamos a comunidade da Mangueira e pregávamos o evangelho para os traficantes e usuários desta comunidade, inclusive frequentando a boca de fumo para a ação evangelística.

LB: Como é sua vida aí? Quais foram suas maiores dificuldades lá?

Thiago, sua esposa Zanda, e seu filho Timotejs


TB: Minha vida na Letônia é um ato de redescobrimento de quem eu sou. Do meu melhor e do meu pior. Sem pai, sem mãe, sem amigos por perto, fora da cultura, é preciso estar próximo de Deus e muito forte para superar. Como você notou na resposta anterior, eu andava pelos piores lugares de uma das cidades mais violentas do Brasil, a paz e segurança da Letônia é um ponto muito forte e positivo, e foi o que mais gostei daqui. Junto com a beleza e a tranquilidade do país. Minhas maiores dificuldades na Letônia foram com a desconfiança, alimentação, cultura e o clima. Se você vem visitar a Letônia, você não vai vivenciar nenhuma intolerância, talvez, se tiver uma pele mais escura, algumas pessoas vão ficar te olhando, mas não há preconceito. O problema acontece quando você vem morar e trabalhar aqui, mas não entende o “jogo de interesses”. As portas se fecham em várias áreas. Na minha área, por exemplo, demorei 6 anos para receber um salário normal.

LB: Como foi seu trabalho com o futebol lá? Os letos são bons no futebol? [risos]

TB: Os letos tem grande potencial, porém a questão climática e cultural atrapalha muito, já que o hockey e o basquete ainda são as grandes paixões, mas o futebol vem crescendo no país. Meu trabalho com futebol de forma missionária aconteceu mais no “Day Center” em Bolderaja, em Riga, com a parceria da Igreja Luterana de Riga que nos patrocinava, uma vez por semana nós alugávamos um campo de futebol no centro – Arkadija Stadions – e as crianças saiam de bolderaja para o campo onde ministrava os treinos de futebol. Após o fim do projeto com a Igreja Luterana de Riga, ainda continuei indo por mais um ano voluntariamente, porém, desta vez fazíamos o futebol em uma praça próximo ao “Day Center”. Agora em Liepaja, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolvemos o Karosta Futbols, para trabalhar e pregar o evangelho através do futebol para as crianças de karosta, que é um dos piores lugares da Letônia, com os piores índices educacionais, de desenvolvimento e violência. Esse trabalho tem o suporte de dois “Day Centers”, o que é liderado pelo Pr. Sergejs e outro pelo “Hope Kids”. Porém, no início deste mês tive que sair do projeto por um período, pois está havendo um conflito político, tendo em vista que eu trabalho no clube da cidade, o qual recebe verba da prefeitura, e o Karosta Futbols por ser um projeto que também é social, começou a receber ajuda da prefeitura, e esta questão política por eu estar nos dois, me colocou em uma situação de ficar em um ou outro, e como no Karosta Futbols não recebo nenhum salário e todo meu salário vem do FK Liepaja, e como não tenho nenhum outro suporte, a não ser meu salário e uma ajuda familiar, tive que optar pelo meu emprego.

LB: Quais os principais problemas da Letônia? E como é o bairro de Karosta?

TB: A Letônia sofre muito com o Alcoolismo e com secularismo. Karosta é um local lindo, mas como foi invadida, tem muitos problemas familiares! Minha esposa trabalha com as famílias e visitando as pessoas em suas casas, e é muito triste o relato que ela dá. Pessoas pobres, imundas, muita violência doméstica e estupros entre familiares é muito comum. Os orfanatos da Letônia estão cheios de órfãos de pais vivos, e o de Liepaja não foge a regra. Boa parte destas crianças são oriundas de Karosta.

Crianças do Karosta Futbols com o missionário Mikelis

LB: Como o seu trabalho pode ajudar a mudar essa realidade? Quais são suas metas?

TB: Nosso trabalho é extremamente relevante, as vidas que vemos sendo transformadas são nossas alegrias. Algumas das crianças com 9 anos já chegam para nós com histórico de fumo, furto e uso de álcool, com 9 anos de idade! Hoje nos encontramos 2 vezes por semana, (1 vez comigo e 1 vez com Pr. Marcis) mas o objetivo é para que um futuro consigamos fazer isso diariamente. Para essas crianças falta um exemplo masculino positivo na vida delas. Os pais quase sempre ausentes e alcoolizados, frequentemente agridem suas parceiras em suas casas. No final, se não houver uma quebra do ciclo, a tendência é que essas crianças repitam os mesmos erros. Hoje no projeto já temos crianças que já aceitaram a Jesus, que oram conosco e que frequentam a Igreja. Próximos passos são os batismos (alguns anos) mas algumas já estão sendo discipuladas. Estamos falando de crianças com histórico de violência familiar. Isso é extremamente importante e relevante. Infelizmente, sem patrocínio ou apoio, ainda é muito pouco o que podemos fazer. Nossas metas é de termos patrocino para que eu possa abandonar meu trabalho e dedicar-me 100% ao Karosta Fubols, e abrir outras categorias, do Sub-8 até o adulto, para fazer a integração com os pais da região. Infelizmente, hoje ainda um sonho muito distante.

LB: Que tipo de apoio ou ajuda você recebe? Que tipo de apoio você gostaria de receber? Como isso pode ser feito?

TB: Infelizmente, nenhum apoio, apenas meu salário e um suporte familiar. Gostaria de receber um apoio integral para que pudéssemos nos dedicar 100% ao Karosta Futbols e as crianças daqui. Talvez até recebermos alguns voluntários brasileiros ou missionários locais para nos ajudar no decorrer do crescimento do Projeto.
Isso pode ser feito através da mobilização dos irmãos Letos do Brasil. Levantar sustento na Letônia é quase impossível, as Igrejas são muito pequenas, e o que recebem de oferta é para a manutenção da Igreja e do Pastor.

LB: Que mensagem você gostaria de deixar para os letos-brasileiros?

TB: A Letônia é um país lindo, de pessoas maravilhosas, mas fomos chamados para a Letônia para tratarmos os doentes, de ir onde ninguém vai, de cuidar de quem ninguém cuida, de dar esperança para os que nada tem. Nosso projeto pode causar um impacto positivo muito grande neste local. Sei que muitos dos irmãos tem uma visão romântica da Letônia, que não é falsa, mas nós vivemos e convivemos com o que há de pior aqui. Nossa família vive em um dos locais com maiores índices de violência da Letônia. Queremos que todos os letos do Brasil nos adotem em orações, e não esqueça de nós em nenhum dia, pois é isso que nos sustenta aqui, é a oração que nos faz caminhar e vivenciar os milagres.

Que Deus abençoe a todos e a nossa Letônia.

Crianças orando antes do treino.

 

Se você se sentiu tocado pelo trabalho que Tjago realiza, você pode enviar seu número para o email tchebonfim@gmail.com e receber notícias. Se quiser fazer uma doação ou ajudar financeiramente, entre em contato pelo email  ou pelo Whatsapp +37126740578.

 

Arte de fundo: Luiz Schneid
Vídeos, Poster e Fotos: César Liepkaln

Dias dos Letos do Mundo

Já se encerrou o evento “Dias dos Letos do Mundo”, que aconteceu nos dias 2 e 3 de julho, dentro da programação do Festival da Canção e Dança em Riga, Letônia.

No dia 2 de julho aconteceu o concerto realizado por letos do exterior  “Homem. Eternidade. Vibração”. Os letos do Brasil foram representados pelo grupo de danças folclóricas Staburags, de Ijuí – RS. O show também incluiu nossos amigos TDK “Kamoliņš” e o grupo folclórico “Dudalnieki” da Inglaterra que nos visitaram no Brasil no final de 2017.

O vídeo do concerto está disponível em:

https://www.lsm.lv/raksts/kultura/dziesmu-un-deju-svetki/foto-un-video-arvalstu-latviesu-kolektivu-koncerts-cilveks.-muzs.-dimd.a284101/

No dia 3 de julho, corais letos do exterior se reuniram no mesmo palco para o concerto “Homem. Eternidade. Som”, para deixar todos felizes com canções que são queridas aos letos em todas as partes do mundo. Entre eles também estavam o Coral Leto do Brasil e nossos amigos do grupo folclórico Dūdalnieki.

O vídeo do concerto está disponível (33 min.) em:

http://play24.lv/video/12974/arvalstu-latviesu-koru-koncerts-cilveks-muzs-skan

É uma maravilha que, com a ajuda da tecnologia moderna, possamos acompanhar as atividades dos letos do Brasil no Festival da Canção e Dança da Letônia. Mas é ainda mais maravilhoso aproveitar estes shows com seus próprios olhos, ao vivo!

O Coral Leto do Brasil, o grupo de danças Staburags, além de convidados da Letônia – o grupo de danças Dzirnas, se reunirão num mesmo palco muito em breve – dia 17 de novembro de 2018, em Nova Odessa, no Brasil, em homenagem ao Centenário da Proclamação da República da Letônia, para trazer um pouco das emoções deste Festival da Canção e Dança a cada coração aqui no Brasil.

Vamos celebrar o Centenário da Letônia juntos! Vamos nos encontrar no 1º Festival de Cultura da Letônia no Brasil!

Mais informações:

http://www.letoniabrasil.org/festival

O Grupo de Dança Staburags

Encrustada em um planalto no noroeste das terras gauchas se localiza a cidade de Ijuí. Suas histórias merecem alguns artigos por si só: ocupada primeiramente pelos Letos das Linhas 4,5 e 6 Oeste em 1892 e depois complementada com colonos de Rio Novo em 1893, é considerada a terceira colônia leta no Brasil. Ijuí hoje também é o lar para mais outras diversas etnias, sendo conhecida como Capital da Cultura do Rio Grande do Sul. E é nesta sopa cultural que nasceu o grupo de dança Staburags.

Staburags é uma história lendária para os letos sobre uma menina de luto que transformou-se em pedra. Tratava-se de uma rocha rica em cal de quase vinte metros de altura nos bancos do Rio Daugava, perto de Jaunjelgava. Sua porosidade natural permitia que a água das chuvas fosse armazenada e saísse pelos poros – como se a pedra chorasse. Staburags, infelizmente, foi submergida em 1965 pelos soviéticos para a construção da hidrelétrica de Pļaviņas, mas esse não foi seu fim: hoje vive na memória de milhares de letos pelo mundo.

Entre eles, claro, o nosso Staburags. O grupo surgiu em 1989, após a construção da Casa Leta (do Centro Cultural Leto de Ijuí), tendo como responsável pela criação e organização a senhora Liana Arais Pydd, e buscou chamar os descendentes de letos, inclusive aqueles que não estavam muito ligados à comunidade. Foi de responsabilidade de Liana Arais Pydd como coordenadora e diretora Cultural contratar Lorena Cossetin como primeira coreógrafa e delegar ao casal Māra e Jonas Sāla como corresponsáveis pelo grupo. De lá para cá o grupo cresceu: de uma única fita VHS com danças típicas que eles possuíam para aprender a dançar, hoje o grupo está na Letônia para participar do Festival de Música e Dança da Letônia (Não conhece ainda? Dê uma lida aqui).

Tivemos a chance de entrevistar Sandro Roberto Medeiros, atual coreógrafo e um dos organizadores do grupo hoje. Veja um pouco da nossa conversa com ele:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do grupo de dança? Quem foram os responsáveis? Qual a relação com a comunidade de Ijuí?
Sandro Medeiros – O grupo, assim como os outros grupos da Casa Leta (O Centro Cultural Leto de Ijuí), foram criados em 1989 sob liderança da dona Liana Pydd. Buscou-se chamar os descendentes, inclusive aqueles que não estavam muito ligados a comunidade. a que contrataram Lorena, uma professora de dança para ser a coreógrafa do grupo.

LB – Houve mudança em como o grupo de dança opera com o passar dos anos? Inclusão de novos membros? Novas idéias e caminhos? Como?
SM – Depois de Lorena, foi contratado um novo coreógrafo Gerson, que ficou mais de dez anos. Com ele foram criados o grupo jovem e o grupo infantil. O Gerson fez um trabalho incrível, pois na época ainda havia muito pouco contato com a Letônia, tínhamos apenas uma fita VHS com danças de um grupo leto dos EUA. A partir dali tivemos que trabalhar e inventar coisas nossas. Então, nessa primeira configuração do grupo, dançávamos ora danças bem tradicionais, com um pouco das que nós mesmo inventamos. A Coordenadora Liana (Pydd) me chamou em 2003 para ser o novo coreógrafo. Nesta época já havíamos acesso a internet a e o trabalho de pesquisar ficou mais fácil. Começamos a ter um contato maior com outros grupos em 2005 e a partir daí começamos fazemos danças 100% típicas.

LB – E quanto a não-descendentes? Como é a entrada deles? Você sabe quais razões para despertar os interesses neles?
SM – A comunidade em sí é muito pequena (em relação as outras da cidade), então achar dançarinos descendentes é um trabalho mais difícil. Muitas pessoas que assistem as nossas apresentações (e não são descendentes) se tornam “letos de coração” e vêm participar. Eles se apaixonam pela cultura. Hoje temos dançarinos que estão há mais de 20 anos no grupo e são “letos de coração”. Esse amor pela Letônia deles ajuda a fortificar o Staburags.

LB – Qual as relações do grupo de dança com a cultura leta? Há ensino da língua? Da história?
SM – Procuramos, sempre que estamos apresentando alguma dança nova, também explicar a cultura da Letônia. Trocamos várias experiências com pessoas que já foram para a Letônia ou pessoas da Letônia que já vieram aqui. O ensino da Língua começou dois anos atrás com o Edmar Grimm Berg, mas infelizmente não conseguimos ter um público muito grande por causa dos horários. O Dr. (Armindo) Pydd sempre faz questão de apresentar números e outras informações sobre a Letônia nos eventos que realizamos, assim todos os dançarinos ficam à par sobre a Letônia.

LB – Quantas apresentações já fizeram? Onde? Há alguma história interessante por trás delas?
SM – Olha, se eu te desse um número, provavelmente estaria errando [risos]. Mas já fomos para diversos lugares, São Paulo, Santa Catarina, Buenos Aires, quase todo o estado do RS. Uma história curiosa foi quando fomos participar pela primeira vez do festival de Nova Petrópolis, ainda naquela época era aos moldes de encontro de grupos alemães. Nesse ano específico nós fomos de “intrusos”, e eles ficaram muitos surpresos com nós lá, perguntaram várias vezes quem nós éramos e de onde viemos.

LB – Como foi o processo (para serem escolhidos)? Como foi a notícia que vocês iriam? Como estão sendo os preparos?
SM – Foi um longo processo. Começou lá em 2013 quando colocamos isso como objetivo, nos encontramos com a Ministra da Cultura e ela disse que gostaria de nos ver no festival de 2018. De volta ao Brasil, começamos a nos planejar para ir. Começamos a fazer levas de pizza uma vez por mês e ainda ajudamos na lancheria da Casa Leta para conseguimos custear. Na primeira avaliação não fomos muito bem, mas tivemos a chance de fazer novamente com a ajuda da coreógrafa Inga (Liepiņa) de Campinas, que veio com a Consul Daina Gutmanis. Nesse meio tempo ainda tivemos a ajuda de outros coreógrafos da Letônia, e conseguimos ser aprovados.
Foram muitos domingos a tarde, segundas a noite e muitos outros ensaios para nos prepararmos. Felizmente já estamos aqui na Letônia. Queremos estar aqui e vestir a camisa e representar a Letônia. Todos do grupo que estão aqui, mesmo sem descendência leta, possuem o sangue ardente para participar do Festival.

 

 

 

O Coro vai a Letônia!

Toda nação possui uma identidade cultural – e não é exagero dizer que a Letônia tem uma das mais belas: cantar. Está na alma e no sangue de todo o leto, seja lá ou seja aqui no Brasil. Não é à toa que durante tempos de opressão, a cantoria era a força unificadora de todos aqueles que sonhavam em cantar – livres – uma vez mais.

Considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Festival de Coro e Dança reúne a cada 5 anos, mais de 30.000 coristas e dançarinos, e mais milhares de turistas e espectadores. O primeiro festival foi realizado em 1873 e este ano, em 2018, celebrará os 100 anos da República da Letônia.

Do lado de cá do oceano, os letos e seus descendentes também se reúnem para cantar por prazer e com alegria. O Coro Misto é uma iniciativa de coro aberto, atualmente composta por 25 coristas de Nova Odessa, Atibaia, Varpa, Campinas e outras cidades. A ideia de juntar corais é uma tradição já antiga na comunidade, principalmente em encontros realizados pelas igrejas batistas. Desta vez, no entanto, apareceu uma oportunidade única: aplicar-se para participar do festival de Corais. A longa viagem, no entanto, começou no Brasil…

Realizar ensaios – para começar – não foi nada fácil pois haviam coristas em lugares tão distantes como Varpa e São Paulo – divididos por seis horas de viagem. A solução, então, foi realizar ensaios locais na forma de módulos. O segundo desafio foram as músicas: complexas, exigentes, minuciosas – o coro teve apenas três semanas para ler, entender e executar. Para serem selecionados, precisavam fazer duas gravações para avaliação do júri da Letônia. Os ensaios foram alternados entre Nova Odessa e São Paulo para a primeira gravação. Para a segunda, a solução foi tentar aproveitar o máximo do curto tempo que foi dado, ambos os grupos estudaram separadamente com afinco. O resultado foi positivo.

Após muito trabalho, o Coro Misto pode celebrar: é o primeiro da América Latina a participar do Dziesmu Svetki. Estarão na Letônia por volta de um mês – mas não pense que será apenas para turismo – eles terão compromissos oficiais, conferência dos regentes e outras atividades importantes. Entre 01 e 08 de julho, todos estarão concentrados, ensaiando ou cantando nos concertos oficiais. Em meio à correria de ensaios e preparação, entrevistamos o regente do coral Allan Arajs para saber um pouco mais sobre o coro misto. Veja um trecho da entrevista a seguir:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do coro no seu atual modelo, o coro misto? Houve outros coros antes?
Allan Arajs – Este modelo já existe a muitos anos. Sempre que há alguma comemoração cívica há colaboração de voluntários de Nova Odessa, São Paulo, Varpa e outras cidades também. Com certeza, esta parceria entre coristas tem mais tempo do que a minha existência (risos).

LB – Qual é o objetivo e visão do coro? Quais foram as ideias iniciais?
AA – O objetivo do coro é, em primeiro lugar, tentar não confundir a questão cultural com a questão religiosa. Em segundo lugar, estudar a música leta em toda sua essência e, em terceiro lugar, o prazer de cantar músicas letas e a diversão. Estar com amigos queridos e que tenham prazer em cantar.

LB – A ideia de ir à Letônia este ano era um sonho muito distante? Vocês achavam que conseguiriam se classificar?
AA – Depende. Cada um teve sua visão, tanto de pessimismo quanto de otimismo. Eu sempre acreditei no trabalho de minha equipe (regentes e coristas). Houve necessidade de administrar a ansiedade. Mas, os coristas que possuem leitura musical fizeram com que o trabalho dos regentes fosse simplificado. Mas sempre trabalhamos com otimismo! E conseguimos!

LB – Como foi o processo (para ser escolhido)? Como foi receber a notícia que vocês iriam para a Letônia? E os desafios de gravar um vídeo?
AA – O processo foi o mais complexo possível, uma vez que contava com um juri formado por compositores e regentes do alto escalão da Letônia, que receberam nosso material e julgaram nosso trabalho. Após uma semana, recebemos a notícia pela nossa administradora do coral, Inga Liepina, que estávamos aprovados dentro da pontuação exigida. Os desafios nem foram para gravar o vídeo, mas sim a técnica em cantar. A música leta não é nada fácil. Possui peculiaridades musicais que devem ser estudadas e compreendidas. Existem questões de interpretação como também a aplicação do conhecimento musical. Foi um grande desafio para a nossa equipe.

LB – Como está o planejamento da viagem? Quando vocês irão?
AA – O coro irá embarcar aos poucos, uma vez que temos coristas que necessitam cumprir suas obrigações de trabalho. No período de 17 a 29 de junho o coral estará embarcando para Riga. Este planejamento foi feito em conjunto com todos os componentes, de acordo com as necessidades de cada um.

LB – Há membros que nunca visitaram a Letônia? Como está a expectativa deles?
AA – Sim. Há pessoas que estão indo pela primeira vez e já para um compromisso importante. Creio que estejam muito felizes em conhecer a Letônia, como também receber esta experiência única em cantar no Dziesmu Svetki.

Gostaria – por fim – de agradecer a todos da equipe de música, coristas e apoiadores do coral. Gostaríamos muito de receber mais apoio. Trabalhamos como voluntários e alcançamos um objetivo único e indescritível. Esperamos que nosso coro possa crescer e temos material humano, projetos e ânimo para isso.

Coristas de Nova Odessa e São Paulo

 

Grupo da Letônia visita escolas em Nova Odessa

Durante os dias 05 e 06 de Junho de 2018, o grupo de músicos da Letônia da festa Ligo 2018 – Laima Dimanta, Tenis Dimants e Janis Feldmanis – tiveram a oportunidade de visitar as escolas da rede municipal, ensinando sobre a cultura leta.

As visitas são promovidas pela Associação Brasileira de Cultura Leta desde 2016 com a visão de ensinar a cultura, história da Letônia para os alunos, abordando também temas como cidadania e respeito às diferenças. Neste ano, dez escolas do ensino público em Nova Odessa (SP) e uma em Americana (SP) foram visitadas.

Os músicos – sempre acompanhados por um tradutor voluntário da Associação – se apresentam às crianças e ensinam as músicas e danças típicas, que retribuem com atenção e entusiasmo

Esperamos continuar levando cultura e cidadania para mais e mais escolas a cada ano.

Fotos: Lucas Stepanow Eksteinas

 

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10 Coisas que você não sabia sobre os Letos do Brasil

Tem muito leto para um mundinho tão pequeno – essa é a única explicação. Desde que os primeiros imigrantes da Letônia colocaram os pés em terras brasileiras em 1889, muita coisa aconteceu – muita coisa mesmo. Hoje há grupos letos espalhados pelo sul e sudeste do país. Há médicos, engenheiros, professores. Há muitas histórias; será que você já escutou todas? Por isso mesmo reunimos uma lista de 10 coisas que você (provavelmente?) não sabia sobre os Letos do Brasil. Não foi fácil, mas vale a leitura:

1. Trouxemos um chocolate delicioso para o Brasil

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Achou que a Kopenhagen era dinamarquesa? Achou errado…

A Kopenhagen é uma empresa brasileira, mas com um detalhe importante: foi fundada por dois letos. Davi Kopenhagen era um estudante de medicina que abandonou o curso e Anna, uma pianista. Ambos migraram para o Brasil em 1928, seguindo um grande fluxo de letos que foram para a colônia de Varpa (SP), fundada em 1922. Anna e Davi, no entanto, optaram por ir à capital paulista, onde começaram a produção de marzipã na cozinha de sua casa.

Acredita-se que a receita de marzipã dos Kopenhagens tenha sido inspirada na famosa marca de chocolate leta Laima, fundada primeiramente em 1870. O paladar leto, no entanto, prefere chocolates mais amargos, enquanto a Kopenhagen atende ao “docinho” brasileiro. Anna e Davi abriram sua primeira loja em 1929, e o resto é história.

2. Fizemos a pista de pouso mais elevada do Brasil

Verner Grinberg (1910 – 2006) e seu avião

O vilarejo turístico na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, Monte Verde, foi fundado por Verner Grinberg, que nasceu na Letônia em 1910 e veio para o Brasil em 1913. Primeiro, ele morou em Pariquera-Açu (SP) e depois em São José dos Campos – juntando-se aos outros letos que moravam lá. Em 1934 se casou com sua amada Emília Grinberg, que veio, em 1922, para a colônia de Varpa. Mudou-se em 1938 para “Campos do Jaguary”. Ali adquiriu terras, iniciando a formação de uma fazenda. Com o passar do tempo, outros letos se interessaram na compra de terras nessa região, e, em 1950, Monte Verde foi oficialmente formada.

Amante da aviação – um traço aparentemente comum entre os letos – Verner pilotou seu avião até chegar perto dos seus noventa anos de idade e diz que nunca fez sequer um arranhão nele. Fundou em Monte Verde o aeroporto mais alto do país: 1.600 metros acima do nível do mar com pista de 1.100 metros de comprimento. Falando em aviação…

3. O terreno do ITA foi doado por letos

ITA
Foto aérea do ITA

A ideia de trazer colonos letos para São José dos Campos é graças – principalmente – à Julio Malvess, que descobriu terras boas perto da Estrada de Ferro Central do Brasil. Vieram para São José várias famílias letas antes da Primeira Guerra Mundial, entre elas, Schause, Strauss, e Pusplatais.

As terras da família Schause foram, em grande parte, doadas para o Ministério da Aeronáutica e compõem a área do renomado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1950, dentro do CTA (Centro de Tecnologia da Aeronáutica), das quais eram vizinhos os Pusplatais. Os eucaliptos às margens da Rodovia Pres. Dutra foram plantados por Arvido Schause. O loteamento de casas na região preservou a memória dessas famílias: um dos bairros adjacentes ao CTA é denominado “Vila Letônia”.

E não acaba por aí: existem, em São José dos Campos, a Associação Beneficente André Pusplatais (ABAP – Hoje renomeada para Associação Beneficiente de Ajuda ao Próximo) fundada 1996 e a Escola Ilga Pusplatais (EMEF).

(Agradeço a Arnaldo Ceruks pelas contribuições)

4. Nós temos a nossa própria Milda

A Milda de Varpa (SP)

Sabe aquela carismática estátua no centro de Riga (capital da Letônia) de uma figura feminina segurando três estrelas? O nome oficial dela é Brīvības Piemineklis (Monumento da Liberdade), e as três estrelas são as três regiões originais da Letônia (Kurzeme, Latgale e Vidzeme). Ela foi carinhosamente apelidada de Milda.

Ela é tão estimada que a colônia leta de Varpa (SP) decidiu construir sua própria versão na rotatória principal da cidade. Claro, não possui o mesmo tamanho que a Milda original, mas nós gostamos dela mesmo assim.

5. Gostamos de coro e dança

O grupo de dança Staburags, de Ijuí (RS)

Diz-se que os letos são, por natureza, um povo poético e cantor. A cada 5 em 5 anos, desde 1873, a Letônia inteira se mobiliza para realizar o Festival de Música e Dança (Vispārējie latviešu Dziesmu un Deju svētki). Ele é considerado um dos maiores eventos de corais do mundo – contando com milhares de músicos, coristas e dançarinos – e foi nomeado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

O Festival de 2018, no entanto, será mais especial: comemorando os 100 anos da República da Letônia, 12 mil coristas e 17 mil dançarinos (sem contar os músicos) irão participar, e é claro que os letos do Brasil não iriam deixar a oportunidade passar. O Coro Leto Misto de São Paulo e Nova Odessa e o Grupo de Dança Staburags (Ijuí – RS) irão representar os letos do Brasil nesta festividade.

6. Temos também o Indiana Jones Brasileiro

Retrato do Professor Butler

Uma vez já chamado de uma espécie de Coronel Fawcett, Guilherme Butler (Vilis Butler) veio ao Brasil para professor da escola da Colônia Leta de Rio Novo (SC) em 1900. Mentor exímio, transformou a escola de tal forma que o Governador Vidal Ramos a visitou em 1905 e elogiou como uma das melhores de Santa Catarina. Mudou-se mais tarde para Curitiba. Sua casa na Rua Westphalen hoje é patrimônio histórico da cidade e é utilizada como centro cultural, que é onde o Grupo Leto de Curitiba se reúne a cada última sexta-feira do mês.

Foi professor de Alemão e Inglês no Colégio Estadual do Paraná. Quando não estava na sala de aula, viajava ao Sertão, Amazônia, Mato Grosso e Goiás numa época que a malária era o menor dos perigos lá e suas jornadas eram relatadas em páginas de jornais (“A minha viagem de férias à Amazônia”, O Dia, 1934). Coletou as águas de inúmeros rios brasileiros também, como o Negro e o Tapajós e estas amostras existem até hoje sob os cuidados da sua filha, Dra. Helen.

Quando se aposentou, foi convidado para ser paraninfo e seu discurso “As características de uma pessoa educada” foi publicado na íntegra na edição da Gazeta do Povo de 14 de dezembro de 1950. Hoje existe até uma escola com seu nome em Curitiba. Sua filha é igualmente impressionante, mas  sobre isso, vamos falar em outra oportunidade

7. Nós inauguramos a nova Arena da Baixada

Escanteio Brasileiro, Time da Letônia ao fundo

Ok, ok, o jogo oficial de inauguração do Estádio Joaquim Américo Guimarães (Curitiba – PR) mesmo foi em 24 de junho de 1999 com o jogo Atlético Paranaense contra o paraguaio Cerro Porteño. O primeiro jogo entre seleções, contudo, foi dois dias depois – Brasil contra a Letônia, no dia 26 de Junho.

O resultado foi 3 a 0 para a seleção brasileira – precisamos admitir ,  infelizmente, que o forte da Letônia não é o futebol. A torcida da Letônia contava com o Grupo Leto de Curitiba e outras figuras locais – até mesmo Dra. Helen Butler foi lá torcer! O jogo inclusive contou com a presença do Ministro do Esporte e Turismo do Brasil da época, Rafael Greca. Falando em visitas importantes…

8. Nós recebemos a visita de políticos importantes

Foto
A presidente Vaira Vīķe-Freiberga no Brasil

Do mesmo jeito que nós gostamos de visitar a Letônia, eles também gostam de nos visitar. A famosa presidente Vaira Vīķe-Freiberga já visitou a comunidade leta no Brasil duas vezes. Em uma das ocasiões, até recebeu uma camisa do Clube Atlético Paranaense como lembrança daquele jogo entre as seleções dos dois países.

O Vice-Chanceler Andris Teikmanis veio fazer uma visita em 2010. Em 2011, o Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis. O Ministro da Defesa e medalhista de Peso Olímpico Raimonds Bergmanis esteve aqui em 2016; nesta ocasião, chegou a levantar alguns voluntários da Associação no braço. Além destas visitas consideradas mais oficiais, todos os anos algum grupo de músicos da Letônia vem para alegrar a nossa festa do Līgo.

9. Nós estamos também na Bolívia

O Colégio de Rincón del Tigre

A missão de Rincón del Tigre na Bolívia é uma iniciativa fundada em 1946 pelos batistas da Colônia de Varpa (SP). Cercada por uma floresta densa e com difícil acesso, Rincón serve como base para inúmeros projetos sociais e evangelísticos na fronteira Bolívia – Brasil.

Há também uma escola, fundada em 1955. Como é a única em um raio de mais de 70km, muitas famílias pediam para a missão abrigar seus filhos. Para cuidar de todos os alunos de lugares tão distantes, Rincón mantém este internato gratuito com pelo menos 120 alunos a cada ano, provendo acomodação, comida, roupas limpas, passadas, e cuidado médico sem custo para os estudantes.

10. Mas nós estamos em tudo quanto é lado!

Bandeiras do Brasil e Letônia no topo do morro do Anhangava (PR). Março de 2015

 

Parece sociedade secreta: uma pessoa pode ser atendida por um médico leto, ter aula com professores letos e não ter a mínima ideia disso. O Brasil é grande, mas nós demos conta de nos espalhar bem – como eu disse, tem muito leto para um mundinho tão pequeno. Formando uma rota de mais de 4 mil km – os letos já andaram e viveram por:

Rio Grande do Sul – Ijuí
Santa Catarina – Rio Novo, Joinville, Florianópolis, Orleans, Criciúma e Urubici.
Paraná – Curitiba, Quatro Barras, Araucária, Campina Grande do Sul, Balsa Nova, Porto Amazonas, Foz do Iguaçu e Porto União
São Paulo – São Paulo, Nova Odessa, Campinas, Hortolândia, Varpa, Paraguaçu-Paulista, Pirassununga, São José dos Campos, Bragança Paulista, Nova Europa e Monte-Mor
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Minas Gerais – Monte Verde

Isso sem mencionar centenas de outros letos morando em diferentes cidades e estados. Conhece mais alguma cidade? Mais algum leto? Já avisou para ele ficar antenado na página da Associação no facebook? Pois vem uma novidade tamanho Brasil por aí…

Sabe mais alguma curiosidade? Algum fato desconhecido? Mande um email para AndreisPurim@gmail.com contando o que você sabe!

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

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   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

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   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.