Grupo da Letônia visita escolas em Nova Odessa

Durante os dias 05 e 06 de Junho de 2018, o grupo de músicos da Letônia da festa Ligo 2018 – Laima Dimanta, Tenis Dimants e Janis Feldmanis – tiveram a oportunidade de visitar as escolas da rede municipal, ensinando sobre a cultura leta.

As visitas são promovidas pela Associação Brasileira de Cultura Leta desde 2016 com a visão de ensinar a cultura, história da Letônia para os alunos, abordando também temas como cidadania e respeito às diferenças. Neste ano, dez escolas do ensino público em Nova Odessa (SP) e uma em Americana (SP) foram visitadas.

Os músicos – sempre acompanhados por um tradutor voluntário da Associação – se apresentam às crianças e ensinam as músicas e danças típicas, que retribuem com atenção e entusiasmo

Esperamos continuar levando cultura e cidadania para mais e mais escolas a cada ano.

Fotos: Lucas Stepanow Eksteinas

 

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10 Coisas que você não sabia sobre os Letos do Brasil

Tem muito leto para um mundinho tão pequeno – essa é a única explicação. Desde que os primeiros imigrantes da Letônia colocaram os pés em terras brasileiras em 1889, muita coisa aconteceu – muita coisa mesmo. Hoje há grupos letos espalhados pelo sul e sudeste do país. Há médicos, engenheiros, professores. Há muitas histórias; será que você já escutou todas? Por isso mesmo reunimos uma lista de 10 coisas que você (provavelmente?) não sabia sobre os Letos do Brasil. Não foi fácil, mas vale a leitura:

1. Trouxemos um chocolate delicioso para o Brasil

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Achou que a Kopenhagen era dinamarquesa? Achou errado…

A Kopenhagen é uma empresa brasileira, mas com um detalhe importante: foi fundada por dois letos. Davi Kopenhagen era um estudante de medicina que abandonou o curso e Anna, uma pianista. Ambos migraram para o Brasil em 1928, seguindo um grande fluxo de letos que foram para a colônia de Varpa (SP), fundada em 1922. Anna e Davi, no entanto, optaram por ir à capital paulista, onde começaram a produção de marzipã na cozinha de sua casa.

Acredita-se que a receita de marzipã dos Kopenhagens tenha sido inspirada na famosa marca de chocolate leta Laima, fundada primeiramente em 1870. O paladar leto, no entanto, prefere chocolates mais amargos, enquanto a Kopenhagen atende ao “docinho” brasileiro. Anna e Davi abriram sua primeira loja em 1929, e o resto é história.

2. Fizemos a pista de pouso mais elevada do Brasil

Verner Grinberg (1910 – 2006) e seu avião

O vilarejo turístico na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, Monte Verde, foi fundado por Verner Grinberg, que nasceu na Letônia em 1910 e veio para o Brasil em 1913. Primeiro, ele morou em Pariquera-Açu (SP) e depois em São José dos Campos – juntando-se aos outros letos que moravam lá. Em 1934 se casou com sua amada Emília Grinberg, que veio, em 1922, para a colônia de Varpa. Mudou-se em 1938 para “Campos do Jaguary”. Ali adquiriu terras, iniciando a formação de uma fazenda. Com o passar do tempo, outros letos se interessaram na compra de terras nessa região, e, em 1950, Monte Verde foi oficialmente formada.

Amante da aviação – um traço aparentemente comum entre os letos – Verner pilotou seu avião até chegar perto dos seus noventa anos de idade e diz que nunca fez sequer um arranhão nele. Fundou em Monte Verde o aeroporto mais alto do país: 1.600 metros acima do nível do mar com pista de 1.100 metros de comprimento. Falando em aviação…

3. O terreno do ITA foi doado por letos

ITA
Foto aérea do ITA

A ideia de trazer colonos letos para São José dos Campos é graças – principalmente – à Julio Malvess, que descobriu terras boas perto da Estrada de Ferro Central do Brasil. Vieram para São José várias famílias letas antes da Primeira Guerra Mundial, entre elas, Schause, Strauss, e Pusplatais.

As terras da família Schause foram, em grande parte, doadas para o Ministério da Aeronáutica e compõem a área do renomado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1950, dentro do CTA (Centro de Tecnologia da Aeronáutica), das quais eram vizinhos os Pusplatais. Os eucaliptos às margens da Rodovia Pres. Dutra foram plantados por Arvido Schause. O loteamento de casas na região preservou a memória dessas famílias: um dos bairros adjacentes ao CTA é denominado “Vila Letônia”.

E não acaba por aí: existem, em São José dos Campos, a Associação Beneficente André Pusplatais (ABAP – Hoje renomeada para Associação Beneficiente de Ajuda ao Próximo) fundada 1996 e a Escola Ilga Pusplatais (EMEF).

(Agradeço a Arnaldo Ceruks pelas contribuições)

4. Nós temos a nossa própria Milda

A Milda de Varpa (SP)

Sabe aquela carismática estátua no centro de Riga (capital da Letônia) de uma figura feminina segurando três estrelas? O nome oficial dela é Brīvības Piemineklis (Monumento da Liberdade), e as três estrelas são as três regiões originais da Letônia (Kurzeme, Latgale e Vidzeme). Ela foi carinhosamente apelidada de Milda.

Ela é tão estimada que a colônia leta de Varpa (SP) decidiu construir sua própria versão na rotatória principal da cidade. Claro, não possui o mesmo tamanho que a Milda original, mas nós gostamos dela mesmo assim.

5. Gostamos de coro e dança

O grupo de dança Staburags, de Ijuí (RS)

Diz-se que os letos são, por natureza, um povo poético e cantor. A cada 5 em 5 anos, desde 1873, a Letônia inteira se mobiliza para realizar o Festival de Música e Dança (Vispārējie latviešu Dziesmu un Deju svētki). Ele é considerado um dos maiores eventos de corais do mundo – contando com milhares de músicos, coristas e dançarinos – e foi nomeado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

O Festival de 2018, no entanto, será mais especial: comemorando os 100 anos da República da Letônia, 12 mil coristas e 17 mil dançarinos (sem contar os músicos) irão participar, e é claro que os letos do Brasil não iriam deixar a oportunidade passar. O Coro Leto Misto de São Paulo e Nova Odessa e o Grupo de Dança Staburags (Ijuí – RS) irão representar os letos do Brasil nesta festividade.

6. Temos também o Indiana Jones Brasileiro

Retrato do Professor Butler

Uma vez já chamado de uma espécie de Coronel Fawcett, Guilherme Butler (Vilis Butler) veio ao Brasil para professor da escola da Colônia Leta de Rio Novo (SC) em 1900. Mentor exímio, transformou a escola de tal forma que o Governador Vidal Ramos a visitou em 1905 e elogiou como uma das melhores de Santa Catarina. Mudou-se mais tarde para Curitiba. Sua casa na Rua Westphalen hoje é patrimônio histórico da cidade e é utilizada como centro cultural, que é onde o Grupo Leto de Curitiba se reúne a cada última sexta-feira do mês.

Foi professor de Alemão e Inglês no Colégio Estadual do Paraná. Quando não estava na sala de aula, viajava ao Sertão, Amazônia, Mato Grosso e Goiás numa época que a malária era o menor dos perigos lá e suas jornadas eram relatadas em páginas de jornais (“A minha viagem de férias à Amazônia”, O Dia, 1934). Coletou as águas de inúmeros rios brasileiros também, como o Negro e o Tapajós e estas amostras existem até hoje sob os cuidados da sua filha, Dra. Helen.

Quando se aposentou, foi convidado para ser paraninfo e seu discurso “As características de uma pessoa educada” foi publicado na íntegra na edição da Gazeta do Povo de 14 de dezembro de 1950. Hoje existe até uma escola com seu nome em Curitiba. Sua filha é igualmente impressionante, mas  sobre isso, vamos falar em outra oportunidade

7. Nós inauguramos a nova Arena da Baixada

Escanteio Brasileiro, Time da Letônia ao fundo

Ok, ok, o jogo oficial de inauguração do Estádio Joaquim Américo Guimarães (Curitiba – PR) mesmo foi em 24 de junho de 1999 com o jogo Atlético Paranaense contra o paraguaio Cerro Porteño. O primeiro jogo entre seleções, contudo, foi dois dias depois – Brasil contra a Letônia, no dia 26 de Junho.

O resultado foi 3 a 0 para a seleção brasileira – precisamos admitir ,  infelizmente, que o forte da Letônia não é o futebol. A torcida da Letônia contava com o Grupo Leto de Curitiba e outras figuras locais – até mesmo Dra. Helen Butler foi lá torcer! O jogo inclusive contou com a presença do Ministro do Esporte e Turismo do Brasil da época, Rafael Greca. Falando em visitas importantes…

8. Nós recebemos a visita de políticos importantes

Foto
A presidente Vaira Vīķe-Freiberga no Brasil

Do mesmo jeito que nós gostamos de visitar a Letônia, eles também gostam de nos visitar. A famosa presidente Vaira Vīķe-Freiberga já visitou a comunidade leta no Brasil duas vezes. Em uma das ocasiões, até recebeu uma camisa do Clube Atlético Paranaense como lembrança daquele jogo entre as seleções dos dois países.

O Vice-Chanceler Andris Teikmanis veio fazer uma visita em 2010. Em 2011, o Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis. O Ministro da Defesa e medalhista de Peso Olímpico Raimonds Bergmanis esteve aqui em 2016; nesta ocasião, chegou a levantar alguns voluntários da Associação no braço. Além destas visitas consideradas mais oficiais, todos os anos algum grupo de músicos da Letônia vem para alegrar a nossa festa do Līgo.

9. Nós estamos também na Bolívia

O Colégio de Rincón del Tigre

A missão de Rincón del Tigre na Bolívia é uma iniciativa fundada em 1946 pelos batistas da Colônia de Varpa (SP). Cercada por uma floresta densa e com difícil acesso, Rincón serve como base para inúmeros projetos sociais e evangelísticos na fronteira Bolívia – Brasil.

Há também uma escola, fundada em 1955. Como é a única em um raio de mais de 70km, muitas famílias pediam para a missão abrigar seus filhos. Para cuidar de todos os alunos de lugares tão distantes, Rincón mantém este internato gratuito com pelo menos 120 alunos a cada ano, provendo acomodação, comida, roupas limpas, passadas, e cuidado médico sem custo para os estudantes.

10. Mas nós estamos em tudo quanto é lado!

Bandeiras do Brasil e Letônia no topo do morro do Anhangava (PR). Março de 2015

 

Parece sociedade secreta: uma pessoa pode ser atendida por um médico leto, ter aula com professores letos e não ter a mínima ideia disso. O Brasil é grande, mas nós demos conta de nos espalhar bem – como eu disse, tem muito leto para um mundinho tão pequeno. Formando uma rota de mais de 4 mil km – os letos já andaram e viveram por:

Rio Grande do Sul – Ijuí
Santa Catarina – Rio Novo, Joinville, Florianópolis, Orleans, Criciúma e Urubici.
Paraná – Curitiba, Quatro Barras, Araucária, Campina Grande do Sul, Balsa Nova, Porto Amazonas, Foz do Iguaçu e Porto União
São Paulo – São Paulo, Nova Odessa, Campinas, Hortolândia, Varpa, Paraguaçu-Paulista, Pirassununga, São José dos Campos, Bragança Paulista, Nova Europa e Monte-Mor
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Minas Gerais – Monte Verde

Isso sem mencionar centenas de outros letos morando em diferentes cidades e estados. Conhece mais alguma cidade? Mais algum leto? Já avisou para ele ficar antenado na página da Associação no facebook? Pois vem uma novidade tamanho Brasil por aí…

Sabe mais alguma curiosidade? Algum fato desconhecido? Mande um email para AndreisPurim@gmail.com contando o que você sabe!

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

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   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

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   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.

Filme leto da era soviética no festival de Cannes

   Četri balti krekli (“Quatro Camisas Brancas”) é um filme revolucionário, mas sutilmente crítico. Marcou uma juventude perdida pela censura soviética na Letônia. Originalmente publicado como Elpojiet dziļi (“Respire fundo”) em 1967, foi censurado e só exibido oficialmente em 1986. O filme é a marca de uma juventude não conformada e perdida para a opressão soviética na Letônia, e ironicamente retrata a censura e a proibição de obras de arte na época. Dirigido por Rolands Kalniņš, o filme é inspirado na peça Trīspadsmitā do dramaturgo leto Gunārs Priede, estrelando Uldis Pūcītis, Līga Liepiņa, Dina Kuple, Pauls Butkēvičs e outros.

   A quintessência do filme  é a busca por inovação, liberdade artística, e não-conformismo dos jovens.  A história gira em torno do jovem Cēzars Kalniņš, que é apaixonado pro música nas horas vagas, ele e sua banda “Optimisti” (Otimistas) tocam suas músicas. Em uma apresentação em um bar local, a comissária cultural (empregados do governo soviético responsáveis por “avaliar” o conteúdo das artes) Anita Sondore escreve um artigo ultrajante sobre a “frivolidade” das músicas do grupo e como eles não são adequados a juventude. A opinião de Sondere começa a mudar quando ela conhece Cēzars, mas o estrago já estava feito e seu artigo chega às autoridades. Uma reunião é feita e é decidido negar a liberdade ao grupo. O conflito é agravado entre Cēzars e seus colegas de banda, que preferem alterar o significado das músicas para aplacar as autoridades.

    O filme volta a ser estrelado na programação de clássicos do famoso festival de cinema de Cannes, em 2018, 51 anos após seu lançamento. Teóricos do cinema são fascinados pelo espírito vanguardista do filme e sua atenção as tendências dos anos 60, juntamente com o movimento francês Nouvelle Vague (New Wave).  “De uma certa forma, o fato que o filme de Rolands Kalniņš está incluso no programa dos (filmes) clássicos do festival de cinema mais importante do mundo testifica a aceitação mundial do movimento New Wave leto”, disse Dita Rietuma, crítica de cinema e diretora do Centro Nacional de Filmes da Letônia, em entrevista para a Latvian Public Broadcasting. O próprio diretor estará presente para assistir o filme

O filme completo está disponível no youtube:

Música

    A proibição do filme não foi capaz de impedir a popularidade das músicas – compostas pelo músico Imants Kalniņš no seu auge e escritas pelo poeta Māris Čaklais –  que se tornaram famosas entre os jovens da época e até inspiraram o clube de música “Četri balti krekli” em Riga. É o primeiro filme leto (e um dos primeiros de Europa) a considerar a trilha sonora e música como uma obra separada. O rock anos 60 se mistura com letras que escondem sutilezas críticas para os cidadãos conformados com a opressão da época. Preparamos uma pequena análise e tradução da música homônima do filme:

Četri balti krekli Quatro Camisas Brancas
Ja četri balti Krekli
Ir jaunam cilvēkam,
Tas iziet var caur dzīvi
Bez lielām pārdomām

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Tas pirmais –priekšniecībai
Kad vajag rādīties.
Un tad nu paša gribai
Vēl paliek nākamie.

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Balts krekls rīta pusē,
Bet melns jau pusdienā.
Bet trešais baltais krekls
Top uzvilkts vakarā.

Un atkal nezin kāpēc
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Var baltos kreklus mainīt,
Kā maina uzskatus.
Bet tad, kad vakars pienāks,
Tie visi melni būs.

Vai būs vēl kāda jēga
Tad atgādināt viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām? 

Se quatro camisas brancas
Tem o jovem
Ele pode passar pela vida
Sem muito pensamento.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

A primeira – para superiores
Quando você precisa aparecer.
E então é para sua vontade
Os próximos ainda estão lá.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Camisa branca pela manhã,
Mas já preta à tarde
Mas a terceira camisa branca
Se veste à noite

E de novo não sei porque
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Pode mudar de camisas brancas
Como alterar as ideias
Mas a noite chegará
Todos eles serão pretos.

Haverá mais algum sentido
Em lembra-lo
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência?

   A música traça um paralelo entre as camisas de um jovem e sua consciência ou seus princípios, e critica que há pessoas que trocam seus princípos como trocam de camisa, apenas para se favorecer. Há camisas usadas apenas para aparecer, para mostrar superioridade, há camisas que começam limpas, mas já estão sujas pelo uso, e há camisas que se vestem a noite, quando ninguém vê. De vez em quando, alguém o lembra que princípios e valores não são como camisas, mas se no final elas são todas pretas, de que adianta lembra-lo?
   Essa música reflete tanto a censura soviética e o apaziguamento dos cidadãos, que obedecem sem questionar, quanto acaba – ironicamente – criticando os colegas de banda, que desejam alterar o significado das músicas para atender à censura.

Galeria

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Essa é parte da história – Uma entrevista com V.A. Purim

Ninguém que viu os verdadeiros primórdios do Rio Novo está vivo para contar a história, mas para quem está disposto a ouvir resta o mais inusitado e rico dos testemunhos.” – Paulo Brabo

Em uma pequena e calma chácara localizada nos arredores de Curitiba, cercada de flores e livros – alguns desses mais que centenários – um homem apenas cuida do maior acervo de fotos e cartas dos letos no Brasil. Esse homem é Viganth Arvido Purim. Com muito zelo e diligência, seu trabalho de organizar, escanear e traduzir cartas, documentos e fotos durante anos foi o que possibilitou que muitos brasileiros hoje pudessem encontrar seus antepassados.

Nascido em 1933 na primeira colônia leta no Brasil – Rio Novo (SC), fundada em 1889 – Arvido é o segundo de 7 irmãos. Já cedo ajudava seu pai na roça e participava da sociedade da colônia. Só veio a aprender português tardiamente, e até hoje conserva seu cantado sotaque catarinense. Ele saiu de Rio Novo em 1953, quando foi sozinho trabalhar como ajudante de mecânico em Urubici. Ele, com sua dedicação, avançou nos postos da garagem, e depois das empresas, se aposentando como Gerente Regional de Peças pela General Motors. Suas viagens de trabalho possibilitaram que ele conhecesse muitos outros letos espalhados pelo Brasil.

Desde 2009, ele mantém o blog rionovo, onde consegue publicar posts sobre cartas, atas, livros, fotos e acontecimentos da colônia – que através de muita dedicação traduziu do leto original. Fomos a sua chácara conversar sobre sua experiência com a conservação e divulgação dessas memórias.

Arvido e sua esposa, Edith

Entrevista

Letônia Brasil – Você é o criador do blog rionovo.wordpress. Quando ele foi criado? E por qual razão? Quantas publicações já?

Viganth Arvido – Graças aos meus filhos e outros, consegui aprender a mexer nessas coisas informáticas, e foi aí que comecei a montar algo parecido com a história dos letos de Rio Novo. Comecei a trabalhar nisso por volta de 88 e 89 e depois gostei muito mais de guardar no computador, pois é mais limpo e fácil de achar digitalmente. Não sei quantas publicações, nunca contei, mas por volta de 618. Para mim, o blog é o defensor dos letos no Brasil e defensor da memória da colônia de Rio Novo.

LB – Como as cartas foram guardadas? E onde estão agora? E os livros e atas?

VA – Infelizmente muita coisa foi perdida. Meu pai e meu tio Reynaldo guardavam tudo, mas olha, gostaria de ter guardado mais. As cartas hoje estão lá em Riga (Capital da Letônia), no Arquivo Nacional, lá eles trabalham com cuidado e são especializados para isso. Há os livros e atas da igreja, da juventude, da sociedade missionária, há revistas e jornais antigos também.

LB – Parece que, conforme você pesquisou e criou o blog, descobriu ainda mais coisas não só sobre a Letônia mas como várias outras curiosidades; qual foi a coisa mais inusitada que já aconteceu?

VA – Um belo dia, eu estava em um Congresso Leto em Nova Odessa sentado do lado de fora da igreja quando um Anderman idoso (que eu nem conhecia) perguntou meu nome e disse que havia algo para me dar – nessa época o blog nem tinha começado. Ele me deu um calhamaço de cadernos da história completa da família Anderman, contando desde a chegada do Karlis Anderman em Rio Novo até a ida do filho dele, Júlio Anderman, para a guerra na Itália (com a Força Expedicionária Brasileira). Ele disse “guarde bem isso”. Bom, alguns já estão publicados no blog.

LB – Como eram as notícias recebidas da Letônia independente?  E sobre a ocupação soviética (1940-1941 e 1944-1991) na Letônia, como eram as notícias que chegavam?

VA – Os imigrantes já trocavam cartas desde que chegaram (1889) até 1917. Durante a guerra (primeira guerra mundial e guerra da independência) sabíamos que a Letônia passou por apuros e muitas pessoas perderam suas casas e famílias. Na mesa de refeição meu pai falava para comer tudo pois haviam crianças passando fome na Letônia. Soubemos da ocupação soviética por jornais (de cunho comunista) que agora a Letônia havia sido “retomada” (invadida na segunda guerra) pela União Soviética e falavam da estatização das fazendas, mas nós sabíamos que não era bem assim, as cartas chegavam ao Brasil censuradas e inclusive um dos primos do meu pai desapareceu e nunca mais respondeu as cartas. Além disso, os letos que conseguiram fugir da ocupação e foram para os Estados Unidos e Brasil “sentavam o pau” sobre os invasores.

LB – Durante grande parte do século XX, os letos no Brasil ficaram sem contato nenhum com a Letônia. O que você achou disso? Foi muito prejudicial para a comunidade?

VA – Muito. Muitos dos descendentes que nasceram depois não aprenderam a falar leto e nem sabiam direito onde era a Letônia. As pessoas hoje ficam impressionadas que eu ainda falo em leto, quase como se fosse um herói. Estávamos sem esperança de ter um contato maior, mas sempre que eu podia ler algo em leto, eu lia.

LB – E agora sobre a Letônia em si. Antes dela ser independente, qual era sua ideia sobre ela? Como você achava que era a vida lá?

VA – Por volta do final dos anos 80 havia uma agitação nos países da cortina de ferro contra a ocupação soviética e eu tinha esperança que a Letônia entrasse na jogada. A primeira vez que eu vi um vídeo de uns letos de São Paulo que conseguiram ir visitar a Letônia nessa época, quando eu vi o primeiro leto falando em leto eu pensava “puxa vida, eles existem mesmo!”. Se não duvidar, eu ainda tenho a fita (VHS) dessa primeira viagem.

Arvido em frente ao Monumento da Liberdade, em Riga

LB – Sua primeira visita (à Letônia) foi em 2014. Como foi voltar para a terra dos seus ancestrais?

VA – Gostei de tudo. O meu maior problema foram os taxistas russos, mas mesmo asssim depois eu ligava para eles e eles já exclamavam “Arvids! Arvids!”.  Eu lembro quando desembarquei em Amsterdã para fazer a conexão e quando cheguei no guichê para Riga eu já escutava eles falando em leto, rindo em leto! Mas eu realmente fiquei emocionado, era uma sensação diferente. O museu da ocupação na Letônia me deixou muito atordoado também.

LB – E os letos no brasil hoje? Como você vê a comunidade e os jovens letos do século XXI?

VA – Eu fico animado, algumas pessoas realmente se sobressaem em resgatar e cuidar da memória dos letos hoje. E eu fico feliz que meu trabalho possa ser bem utilizado.

Link para o site rionovo.wordpress: https://rionovo.wordpress.com/

Os Letos e a Revolução Federalista

Um dos episódios mais curiosos e esquecidos da história dos letos no Brasil é a Revolução Federalista, que pegou de surpresa os colonos recém-chegados, que viam o Brasil de então como uma terra pacífica de novas oportunidades. Foi nesse momento inicial que os colonos se juntaram para orquestrar a defesa do seu novo lar e experimentaram as mais variadas engenhosidades para impedir que a colônia fosse atacada. E conseguiram.

A Colônia
    Resumidamente, Rio Novo foi a primeira colônia leta no Brasil, fundada oficialmente em 1889. Os planos da colonização leta vinham sendo desenhados nos anos finais do Império por entusiastas e estudiosos que viam o Brasil como uma terra fértil onde os letos – que até então estavam sob domínio do Império Russo e tinham difícil acesso as terras – poderiam se desenvolver.
Rio Novo se localiza aproximadamente 12 Km de distância do centro do município de Orleans, na região litorânea no sul do Estado de Santa Catarina. A região montanhosa se tornaria passagem para as tropas gaúchas avançarem ao norte, tomando Florianópolis (na época, Nossa Senhora do Desterro), Curitiba e avançar para São Paulo. Apesar disso, entre Rio Novo e Orleans havia uma região de mata pela qual apenas os colonos sabiam o caminho
Entretanto, no mesmo ano de fundação da colônia, o Brasil Imperial foi derrubado e a República foi proclamada. Esse novo governo republicano nasceu sem forte apoio e logo as intrigas políticas e insatisfações das elites locais se transformaram em embates políticos, que culminaria, na revolução. O apoio do projeto de imigração européia criado pelo governo imperial também ruiria, deixando a colônia – nesses anos iniciais – sem apoio algum do governo.

Vista da cidade de Orleans

A Revolução
    O país estava sem constituição, sob censura e o congresso, fechado. Os primeiros presidentes da república foram marechais militares, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, mas diversos setores ainda tentavam tomar o vácuo de poder. No Rio de Janeiro, a Armada (a Marinha brasileira), sob liderança de Custódio de Melo e Saldanha da Gama, exigia eleições e houve batalhas entre a guarda nacional e os revoltosos.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, a disputa política entre o governador positivista Júlio de Castilhos (líder do Partido Republicano Rio-Grandense)  e seu rival Gaspar da Silveira Martins, um ex-político monarquista e líder do Partido Federalista, se aquecia para o confronto. Castilhos e seus apoiadores (chamados de pica-paus) apoiavam o governo federal de Floriano Peixoto. A constituição estadual permitia vários poderes quase ditatoriais para Castilhos e como o voto não era secreto, as manipulações eram frequentes. Silveira Martins, por outro lado, defendia o parlamentarismo e uma revisão das leis estaduais; seus apoiadores ficaram conhecidos como Maragatos.
O movimento Maragato começou a ameaçar a estabilidade do governo Rio-Grandense, e por fim, do novo regime republicano no País – pois os opositores de Floriano os apoiavam. Os federalistas obtiveram vitórias inicialmente em 1893, avançando para Santa Catarina e chegando até o Paraná, onde a decisiva batalha da Lapa (PR) tornou possível o contra-ataque dos republicanos.
Em meio a tudo isso, existia uma pequena colônia de Letos.

Líderes Maragatos

A Defesa
    A colônia leta, assim como a população civil, estava às mercês das tropas que passavam. O conflito estava se tornando sangrento e cada vez mais cruel, os soldados capturados eram degolados, casas eram saqueadas, animais e pertences eram tomados. Os colonos, temerosos e sem nenhum meio de defender sua terra, começaram a bolar planos para enganar os soldados que viriam.
Registra-se que o primeiro sino da Igreja Batista de Rio Novo (pois o primeiro templo não possuía torre) foi criado nessa ocasião e colocado em uma posição estratégica para quando alguma força militar fosse avistada perto da colônia fosse tocado e todos os habitantes escondessem seus animais no mato. No ano seguinte, 1894, foi construído o segundo templo da igreja batista, o famoso “templo de lascas”.
Como a colônia era relativamente afastada e o acesso era conhecido apenas pelos locais, os letos começaram, com a ajuda de um polonês que falava bem português, a espalhar histórias sobre a colônia “dos russos” (eles eram chamados assim pois a Letônia ainda fazia parte do Império Russo), que eram numerosos e preparavam emboscadas para os soldados que adentrassem no caminho até a colônia, inclusive com explosivos e pelotões de colonos em patrulha.
Rio novo estava apreensiva. Os colonos sabiam blefar, mas, caso descobertos, a mentira cairia por terra e entrariam em problemas. . E na cidade, ocupada pelos federalistas, a curiosidade dos soldados sobre esses semibarbaros “russos” aumentava.

O soldado
    Uma das histórias contadas pelos letos de Rio Novo é sobre um leto que – em uma madrugada – foi a Orleans comprar mantimentos, e logo foi identificado pelos soldados perto como um dos “russos”. Foi ao armazém e logo voltou ao caminho de casa. Entretanto, percebeu que um dos soldado estava o seguindo. Atravessou a barra do Rio Novo, logo dobraria a direita pelo vale do Rio Novo. Essa era a estrada mais próxima e vigiada,  mas não queria arrumar confusão, tentou pegar um caminho alternativo pelo Rio Tubarão e depois pelo Rio Laranjeiras, entretanto, não foi capaz de despistar o soldado, que o seguia a distância.
Precisava fazer alguma coisa.
Ele carregava consigo uma espingarda pica-pau calibre 24 (na época, muitas espingardas ainda eram carregadas pela boca, onde era preciso colocar o chumbo, a pólvora e ainda empurra-las com uma vara metálica para o fundo do cano da arma). Fingindo estar trocando as mercadorias de ombro, carregou em sua espingarda 3 chumbos e a pólvora, entretanto, não teve tempo de empurra-los com a vara. Logo na primeira curva, se escondeu no mato e terminou de carregar a arma.
Apenas um tiro já foi suficiente para matar o soldado federalista. Com o uniforme ensanguentado e o fuzil Mannlicher (provavelmente um Mannlicher M1888), agora era preciso se livrar da encrenca. O colono suspeitava que o soldado tivesse sido designado para achar um caminho para a colônia, e logo poderia chegar um expedição de busca.
O corpo foi escondido em uma vala cavada na estrada, junto com o fuzil, e depois coberta com folhagem para disfarçar. A região onde ele supostamente foi enterrado era chamada de “Bukovina” e pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.
O nome do colono, apesar de algumas teorias, nunca foi confirmado.

Apesar das forças contrárias, a revolução Federalista terminou em 1895 com a vitória de Júlio de Castilhos e o governo republicano, e, graças a coragem e sagacidade dos colonos, a colônia sobreviveu.

Skaidas Baznica/O templo de Lascas, construído em 1894

Fontes:
PURIM, V. A. Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus. rionovo.wordpress, 2012. Disponível em: <https://rionovo.wordpress.com/2012/10/04/os-revolucionarios-passaram-a-ser-chamados-maragatos-e-os-legalistas-eram-os-picapas/>. Acesso em: 24 dez. 2017.
LOTTIN, Jucely. Os Letos Orleanenses. Santa Catarina: Elbert, 2002.

 

A festa do Līgo

A festa do Līgo – também chamada comumente de Jāņi – é certamente o mais popular dos feriados letos. Celebrada na Letônia durante a noite mais curta do ano (o solstício de verão), no dia 23 ao 24, durando só das 23h às 3h, a festa é comemorada com muita dança, música e comidas típicas ao redor de uma fogueira.

Embora a época do Līgo, na Letônia,  seja também a das chuvas (os letos dizem com frequência para os dias chuvosos līst kā pa Jāņiem, “chove como se fosse o Jāņi”), isso não impede que multidões se reúnam nas principais cidades para celebrar. Para participar, apenas é preciso ter disposição e alegria. A festa é uma grande celebração da cultura e ancestralidade leta; várias tradições anciãs são preservadas.

História

A celebração da festa do Līgo vem desde os tempos imemoriais da cultura leta, quando os trabalhadores rurais se reuniam comemoravam a chegada do solstício verão e boas colheitas. Associava-se a celebração com as forças e divindades da natureza na mitologia leta – para celebrar o período entre a plantação e a colheita, para atrair felicidade e espantar o azar.

Na verdade, o solstício de verão acontece no dia 21 de junho, mas com a cristianização, as celebrações foram prorrogadas para o dia 23 para ficar mais perto do dia de São João (24), e daí temos o nome Jāņi. Além disso, os nomes Jānis e Līga estão entre os mais populares na Letônia, e são comemorados nos dias 24 e 23, respectivamente.

A celebração do Līgo é de grande importância para a cultura leta. Com o desenvolver da História, as celebrações foram proibidas, como na União Soviética, mas o povo continuava a se reunir para celebrar a identidade leta nos kolkhozes. Hoje em dia, o feriado é muito importante por celebrar a tradição e herança cultural leta.

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Os preparativos

O Līgo começa com a preparação das casas e saunas letas, os arredores são limpos: Lavagem, corte de grama, estocamento de lenha. É comum passar o feriado nas áreas rurais do país, com a natureza e as fogueiras – Mas nas grandes cidades também são organizadas celebrações e eventos especiais, como a venda de plantas medicinais, ervas, temperos, coroas de folhas, queijo, cerveja e muitas outras coisas para que os letos possam aproveitar a noite da melhor forma possível

A Coroa (Vainagi)

A coroa circular do Līgo simboliza o sol. Na confecção das coroas, os homens usam ramos de carvalho, e a coroa das mulheres é entrelaçada com uma variedade de flores dos pastos – As mulheres casadas também colocam folhas de carvalho em meio as flores, e todas as coroas são tecidas com muito esmero.

Colocar a coroa na cabeça de um amigo é sinal de uma relação forte e sincera.

As Ervas (Jāņuzāles)

Pela manhã, decora-se os cômodos com galhos de carvalho e bétula, margaridas e vidoeiro. Todas as flores, ervas e árvores de flor neste dia são consideradas “Jāņuzāles”, na tradição popular, acredita-se que as ervas coletadas ao nascer do sol possuem poder medicinal, e por isso nesta época são populares os chás naturais.

Com estas ervas também são criadas guirlandas e o portão do sol – um a oeste (rietumi) e outro a leste (austrumi), para simbolizar o nascer e pôr-do-sol.

As comidas (Ēdiens)

Além das ervas e chás medicinais, também são comidas populares no Līgo são os pīrāgi e o queijo de alcaravia (cuja cor simboliza o sol). Além disso normalmente é festejado com bebidas – mantenha sua bebida favorita estocada. Sem isso, você não está celebrando o solstício!

A Fogueira (Ugunskurs)

A fogueira do Līgo é comumente queimada do pôr-do-sol até o nascer do sol, no lugar mais alto, assim iluminando a área para haver luz e não trevas. A tradição popular é saltar sobre a fogueira, simbolicamente limpando tudo que é supérfluo. Os casais pulam a fogueira de mãos dadas para fortalecer o relacionamento, e saem para os bosques para procurar pela flor de samambaia – que só floresce na noite do Jāņi – mas talvez isso seja só um pretexto para namorarem em paz.

A Sauna (Pirts)

Também faz parte da tradição fazer saunas. Tipicamente, as saunas letas são decoradas com ramos de folhas de carvalho e bétula para relaxar e limpar tudo aquilo que não é bom. Depois, todos vão nadar num rio ou num lago por perto. As tradições são divertidos e fortalecem os laços entre família e amigos.

O Līgo no Brasil

O Līgo é uma das principais festas culturais letas que sobreviveu pelas eras, e ainda hoje é comemorada com muita diversão e alegria por todos. No Brasil, não viramos a noite, mas dançamos e cantamos muito, e comemos comidas típicas – celebrando a cultura e tradição viva em nós. Aliás, criamos até a nossa própria tradição para acender o fogo: todo ano um membro da comunidade é escolhido para levar a tocha até a fogueira. Você também pode participar da festa com as comunidades típicas em Nova Odessa (SP) e Ijuí (RS). Veja aqui como foi a festa do ano passado! Venha e participe!