As Mulheres que Construíram a Letônia

Todo mundo já leu ou ouviu falar que as mulheres letas são as mais altas do mundo (em uma média de 169.80 cm, superando os 168.72cm das holandesas). Talvez você também tenha lido que a Letônia possui um dos maiores índices de modelos per capita (ficando próximo de 4º lugar no mundo), e que as mulheres letas são muito bonitas. Isso tudo é verdade. Sim. Mas seria um engano achar que é só isso. Um erro muito grande.

A Primeira Poetisa

Infelizmente, durante o caminhar da humanidade, as mulheres receberam poucas menções nos livros de história (na Wikipédia, por exemplo, apenas 17.49% das biografias são sobre mulheres). O mesmo aconteceu na Letônia. Algumas fontes citam histórias sobre governadoras mulheres nas antigas tribos e místicas guerreiras, mas pouco se sabe. Após as Cruzadas do Norte, no final da Idade Média, as mulheres seriam sujeitas ao regime feudal, e seus direitos eram poucos – e assim seria por vários e vários séculos.

Mas isso veio a mudar com a Revolução Industrial. Aos poucos a servidão (o regime quase escravocrata ao qual os letos eram submetidos) foi formalmente abolida. Logo homens e mulheres estavam indo à escola, à universidade. Nas cidades, uma nova camada social surgiu. Esses recém-libertos camponeses logo ascenderam, tornando-se filósofos, engenheiros, pensadores e artistas letos.

A mais proeminente mulher dessa época foi Elza Rozenberga. Nascida em Jelgava, 1865, foi uma das primeiras escritoras e dramaturgas leta. Adotou o pseudônimo Aspazija antes de publicar seus primeiros poemas, em 1887. Após alguns anos, mudou-se para Riga. Lá lutou pela educação das mulheres e sua participação na política. As personagens de suas peças normalmente eram mulheres que ousavam criticar problemas sociais e defender seus direitos. Passou os anos de 1897 até 1903 em exílio na Sibéria.

“Aspazija” vem de Aspasija, uma influente e educada mulher da Grécia Antiga.

Após o seu retorno, se envolveu com grupos sociais-democratas. Após a revolução de 1905, suas obras foram vistas pelas autoridades como uma afronta ao Czar e precisou fugir com o seu amado (e igualmente famoso) poeta Rainis para a Suíça. Conseguiu retornar apenas em 1920, sendo eleita para a Primeira Assembléia Constituinte da Letônia. Faleceu em 1943 em Dubulti.

A Pequena Paris

O período entre-guerras foi especialmente favorável às mulheres letas. A Letônia foi um dos primeiros países do mundo a garantir o voto feminino, em sua constituição em 1918. Durante os anos 20, mais e mais mulheres tinham acesso à educação e passavam a trabalhar. Muitas iam direto à efervescente capital Riga, a “Pequena Paris” do norte. A art-deco estava em moda e logo surgia a figura da femme-fatale nos filmes noir. Nessa época, surgiram nomes internacionais de cinema como Elza Radziņa e Anta Klinte.

Mulheres aproveitando os verões em Jurmala, nos arredores de Riga.

 

Apesar da crise econômica, os anos 30 se iniciaram com mais força ainda. Riga entrou em sua “era de ouro” – que recentemente foi retradada no filme leto “Homo Novus”. Centenas e centenas de mulheres passeavam as ruas da capital, participavam de desfiles, se graduavam na universidade (A Letônia possuiu um índice altíssimo de mulheres médicas na época).

Isso tudo veio a acabar em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial. Logo a Letônia seria invadida e arrasada pela Alemanha Nazista e pela União Soviética, e infelizmente muito do que as mulheres vieram a conquistar foi perdido.

Mas não sem uma boa luta.

As Guerreiras

Algumas enfermeiras letas da Primeira Guerra Mundial.

A guerra não era algo incomum para as mulheres letas. Muitas já haviam participado durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e durante a Guerra de Independência (1918 – 1920). Fosse trabalhando nas fábricas, ou fosse atendendo feridos em meio às batalhas. Há até uma anedota qual mulheres letas enganavam os invasores alemães, apontando os caminhos errados pelas florestas.

Seja como for, quando a Segunda Guerra Mundial bateu às portas, muitas mulheres decidiram lutar. Quando os nazistas vieram, diversas mulheres se tornaram franco-atiradoras no 201º Regimento de Fuzileiros Letos. O combate se tornou ainda mais brutal com a volta do domínio soviético, que fazia de tudo para esmagar a resistência.

Franco-Atiradora na frente oriental.

Essas mulheres guerreiras permaneceram no imaginário popular, apesar da repressão soviética. Aos poucos surgiu uma lenda urbana na Rússia sobre franco-atiradoras mercenárias letas combatendo as tropas soviéticas na década de 80, as baltās zeķbikses (“Meias-Calças Brancas”). Real ou não, a lenda persiste até os dias de hoje, principalmente após o canal de televisão russo “Life” (Лайф) reportar as míticas franco-atiradoras na Ucrânia.

Além disso, após a guerra, o Reino Unido criou o programa “Baltic Swans” (Baltijas gulbēni) – com o objetivo de receber 5.000 doutoras e enfermeiras letas que estavam fugindo do domínio soviético. Esse episódio pouco conhecido da história leta aparecerá na série Sarkanais mežs, que estreará esse ano.

Atualmente

A Letônia ainda exporta muitos nomes femininos famosos – principalmente nos esportes. Elizabete Limanovska e Nava Starr são duas campeãs que seguram títulos de xadrez. Uļjana Semjonova (com imensos 2,15m de altura) dominou o cenário de basquete mundial durante os anos 70 e 80. Jeļena Ostapenko esteve nas notícias recentemente, ao conquistar o Grand Slam de Tênis.

Uljana Semjonova (atrás) roubando a bola da italiana Stefania Passaro.

Além disso, o mundo das artes é dominado por mulheres. A mezzo-soprano Elīna Garanča conquistou o mundo das óperas, enquanto a violinista Baiba Skride viaja continentes com Filarmônicas famosas. A diretora de cinema Laila Pakalniņa está sempre competindo em Cannes, Veneza e outros festivais. Outra estrela recente é a jovem de 16 anos Aleksandra Špicberga, que recebeu o prêmio de melhor vocalista da Europa em 2015.

Não podemos deixar de citar o crescente número de mulheres no poder. 56% das administradoras e gerentes da Letônia são mulheres, superando todos os países da Europa. Além disso, A Presidente mais famosa e amada da Letônia é uma mulher, Vaira Vike-Freiberga. O recém-eleito parlamento é 31% feminino, superando a média européia de 29,7%.

Nas ciências, as mulheres são 60% das estudantes de medicina (1º lugar da Europa), 52% das pesquisadoras e 65,2% das graduandas.

Vaira passou grande parte da sua vida no Canadá, após sua família fugir da União Soviética.

Se engana quem acha que as mulheres letas-brasileiras são muito diferentes. Não é a toa que o Grande Coral do I Festival de Cultura Leta foi dominado quase inteiramente por mulheres e regentes femininas. Elas também possuem uma boa bagagem na história do Brasil, mas isso é um artigo para outro dia…

Sveicam sieviešu dienā!

Resenha de Nameja gredzens: O Último Rei Pagão

     Em fevereiro de 2018 foi lançado um novo filme letão tratando de um tema de interesse garantido para qualquer um com laços com a Letônia: o anel de Nameisis, ou Namejs.

     Diz uma historieta popular na Letônia que no final do século XIII, por ocasião das cruzadas levadas a cabo pelos alemães no Báltico, Nameisis/Namejs, um rei dos Zemgálios – uma das tribos componentes do povo letão – usava um anel peculiar. Ao fugir dos alemães para as florestas do sul de Zemgale e no norte da Lituânia, todos os homens da tribo passaram a usar um anel igual, a fim de confundir os invasores. Com o tempo, o anel se tornaria um símbolo de etnicidade entre todos os letões no mundo.

     Esta história é uma construção moderna, tendo sido popularizada pelo romance Nameja gredzens de Aleksandrs Grīns, publicado em 1929. Como tantas outras supostas “tradições” em outros países (por exemplo, os tartans escoceses e irlandeses), autores nacionalistas modernos deram para seu povo símbolos que remetem ao passado para trazer um senso de identidade e pertencimento àqueles no futuro. (Aos interessado no tema, ou aos que estão duvidando do que acabamos de afirmar, recomendamos a leitura de “A invenção das tradições”, do historiador britânico Eric Hobsbawn).

     Desta forma, evidentemente o filme possui um atrativo a mais para os letões de hoje, entre os quais nos incluimos. Nosso entusiasmo inicial, no entanto, logo se tornou em  decepção.

     Seu diretor é Aivars Gruba, conhecido pela direção de diversos filmes e, principalmente, “Rīgas sargi” – os Defensores de Riga, de 2007, que trata sobre a luta travada pela independência da Letônia após 1918, com o final da Primeira Guerra Mundial. Com este curriculum, não é de se admirar que o diretor tenha experiência e interesse em trazer temas nacionais para a grande tela.

     A fotografia e a cinegrafia do filme são apuradas. As tomadas aéreas, em particular, trazem imagens estonteantes de florestas e pântanos da Letônia (provavelmente algumas das tomadas de pântanos tenham sido feitas na reserva nacional de Ķemeri) muitas vezes cobertos pela neblina, e as construções, de forma geral, são executadas com domínio impecável da técnica.

Mas os elogios ao filme já podem parar praticamente neste único parágrafo.

Tomada dos créditos iniciais de “The pagan king”.

     Uma primeira surpresa ao se assistir o filme é que o mesmo se passa inteiramente em inglês, ainda que hajam versões com legendas em letão e russo e uma versão dublada. Os interessados em ter mais contato com elementos genuínos nacionais já têm um início conturbado, portanto. Essa escolha da língua provavelmente influenciou o casting do filme, a começar pelo ator principal, que interpreta Nameisis. Edvin Endre, um ator de origem sueca, é mais conhecido internacionalmente por seu papel apagado na série Vikings, na qual foi o detestável personagem Erlendur.

Edvin Endre como “Erlendur” na série “Vikings”.

     Lauga, sua esposa, é interpretada pela mais agradável lituana Aistė Diržiūtė, enquanto que o vilão principal, Max von Buxhoeveden, pelo britânico James Bloor. Causa estranheza imediata, portanto, que um filme com temática tão letã não possua um letão dentre seus três personagens principais, ainda que os tenha em personagens secundários e terciários.

     A origem estrangeira do elenco não traz grandes acréscimos ao filme. Em relação ao filme anterior citado de Aivars Grauba, nota-se a diferença; se então parte considerável dos atores era de mais idade, formada ainda dos tempos da União Soviética e atuante no cinema letão (como os memoráveis Jānis Reinis e Elita Klaviņa nos papéis principais), de uma rica tradição cinematográfica que remonta a nomes como Serguei Eisenstein, o novo elenco é de atores internacionais da lista B, capazes de falar inglês, mas não necessariamente de entregar uma boa performance.

     As interpretações são, no mínimo, sofríveis, a começar pelo principal vilão, “Max”, um personagem monocromático que efetua maldades inomináveis a cada segundo com pouca justificativa para tanto que não seja o fato de ser o antagonista. Todos os maus recursos usados para caracterização de vilões em filmes B estão presentes, dos risos maléficos, olhos esbugalhados de raiva, súbitos assassinatos sem justificativa e uso de xingamentos e palavras de baixo calão constante.

Max, com sua expressão vilanesca padrão

     Os heróis principais não se salvam muito. Isto se deve não apenas à inabilidade dos autores, mas também à péssima escrita. Os diálogos são sofríveis, o texto é sofrível, os personagens são sofríveis, quando não terríveis. A divisão entre mocinhos e bandidos é monocromática; os alemães, cristãos, são 100% maus, e como tal se comportam. De fato, a primeira cena com diálogos do filme traz o papa de Roma, subitamente matando outra pessoa ao fazer tramóias com seu filho bastardo Max, que quer para si o território de Zemgale.

O papa matando subitamente alguém sem maiores explicações com uma facada na barriga,
aos 03:12 do filme. Max, seu filho bastardo, e os cavaleiros em volta parecem não notar.

     O vilão Max, já citado a pouco, é a ideia quintessencial trazida no filme de quão maus eram os alemães cruzados, apresentados sem qualquer nuance ou tentativa de credibilidade. Em uma cena próxima dos atos finais, por exemplo, há um único bom cristão, um monge de aspecto doentio, irmão do vilão Max (a prole do papa no filme parece ser imensa), que é encarado com ironia pelos demais por querer evangelizar os pagãos.

     Ao procurar impedir a luta entre alemães e zemgálios, ele é flechado pelos próprios alemães sem maiores problemas. Um uso no mínimo desonesto da parte do diretor das fontes escritas disponíveis, ignorando, por exemplo, os relatos da Crônica de Henri da Livônia e o exemplo de seu próprio personagem principal, que demonstra uma preocupação com o aspecto religioso das empreitadas, e apresenta outros seus antecessores que inclusive perderam a vida nas mesmas.

     Há de se notar que a casa dos Buxhoeveden de fato existiu (ainda que não Max, que provavelmente foi baseado pobremente em indivíduos que lutaram na guerra de zemgálios e lituanos contra os cruzados do final do século XIII) e teve de fato papel sangrento na conquista das tribos bálticas, mas dificilmente justifica a narrativa pobre em questão.

     Há de se notar que os cruzados alemães do filme dificilmente fazem jus ao poderio militar dos reais cruzados ocidentais, principalmente, mas não apenas compostos de alemães e escandinavos, que possuíam bestas, armas de sítio e cavalaria, enquanto que no filme usam arcos e armas simples em sua maioria e são bastante inábeis em combate. Em uma cena no pior estilo holywood (bolywood daria mais certo para descrevê-la), o herói Nameisis, preso pelos cruzados e amarrado, dá conta facilmente – sozinho e amarrado, repetimos – de toda a tripulação do barco, libertando-se e voltando para a terra a nado.

     Os zemgálios, por sua vez, com exceção de algumas tentativas de matizá-los, com conflitos internos, são apresentados de forma generosa quando não estão envolvidos em tramóias para derrubar o rei; usualmente sorridentes, agradáveis, exemplos de nobres selvagens praticando rituais puros que infelizmente não têm muita habilidade poĺitica.

     A retratação religiosa dos zemgálios deve muito à Dievturība, um movimento moderno que alega reconstruir a religião tradicional dos povos bálticos, mas que apresenta um resultado anacrônico e altamente idealizado.

     Uma exceção que merece ser citada aqui é a aparição de um “xamã”. Alguns autores pressupõem, parcialmente baseados na descrição de crônicas, da existência de um tipo de sacerdotes conhecidos como “Krive”, “Tulissones” ou “Ligaschones” dentre os povos bálticos, que poderia se assemelhar aos xamãs eurasiáticos, com seus tambores e ritos.

O “Krive” em “The pagan king”

     Não há menção qualquer no decorrer do filme de costumes zemgálios muito frequentes citados nas fontes escritas que possam denegrí-los como, por exemplo, a decapitação. Segundo a Crônica de Henri, os zemgálios iam para a batalha com carroças, que enchiam com cabeças dos inimigos ao final da batalha.

     Os conflitos internos entre personagens desejando a primazia entre os zemgálios são feitos de forma completamente formulaica, apresentando os opositores a Nameisis de forma negativa e estereotipada, e com o intuito de reforçar a mensagem nacionalista do filme – se os zemgálios não se unirem, serão conquistados.

     De fato, há uma escolha estética e estilística bastante evidente usada no filme que explica muito de suas decisões questionáveis; o diretor procurou sem qualquer limite ou autocrítica emular descaradamente os recursos usados na série “Vikings” (e, em menor grau, “Game of thrones” – há, por exemplo, um lobo que acompanha Lauba por toda a história). Como já citamos a pouco, o ator principal participou da mesma. No entanto, a emulação nem de longe pára por aí.

Um “zemgálio” na cena da batalha final

     A imitação dos personagens é descarada; Valdis (interpretado por Ivo Martinsons), o conselheiro principal de Nameisis, e de Viesturs antes dele, é uma imitação do personagem “Björn” da série vikings, a começar pela forma de cortar cabelo e barba, mas também na forma de falar, a intonação das frases, o sotaque e os trejeitos que, antes de tradicionais e baseados em reconstrução histórica, são invenções muito específicas de Michael Hirsch para a série “Vikings”.

Björn Ironside, na série “Vikings”
Valdis, em “The pagan king”

    Outros personagens são cópias completas da série, como o personagem Lemme, interpretado por Lauris Dzelzītis (finalmente um letão no elenco); exatamente as mesmas imitações usadas para Valdis/fake Björn ocorrem com este personagem. De fato, seu desafio a Namesis, ao invés de apresentar uma matização da desunião entre zemgálios, dando solidez à reconstrução histórica, é feita de forma a emular novamente a série Vikings, marcada por guerreiros fazendo bravata e criando brigas entre si em salões repletos de guerreiros e bebidas.

Ubba, Bjorn e Halfdan, em “Vikings”
Lemme, em “The Pagan king”

     Nameisis usa duas táticas de batalha; a tática da víbora (“viper”) e a tática do muro de escudos (“Shield wall”). Ambas, novamente copiadas do mundo Escandinavo. De fato, não apenas na série Vikings, mas também na mais embasada “The Last Kingdom”, já se tornou topos repetido à exaustão um grupo de vikings entrando em formação de combate, sob o grito de seu líder de “Shield wall”.

     As mulheres guerreiras (“Shieldmaidens”), um tópico de debate recorrente – e problemático – nos estudos vikings e escandinavos contemporâneos, e tão proeminente retratadas na série Vikings com as personagens Lagherta e Torvi, dentre outras, é emulada em “The pagan king”. Nas cenas de batalhas, inclusive na batalha final, há inúmeras guerreiras trajadas e penteadas de forma a imitar ao que é feito na série. Desnecessário dizer que não há fundamento histórico para seu uso.

     Por fim, no quesito de reconstrução histórica, outros deslizes e aberrações são frequentes. No campo de deslizes poderíamos citar o uso das vestimentas e, principalmente, armas, em sua grande maioria imitações de equipamentos usados na Escandinávia. As espadas, em particular, são imitações das espadas vikings de tipo “Ulfberht”, artigos raros no Báltico, encontradas com maior frequência dentre os Kurši, que tinham maior relação com a Escandinávia, mas nem de perto tão frequentes em Zemgale. Podem se encontrar cerca de apenas duas a três espadas de tal modalidade no museu de Liepaja, encontradas entre os Kurši.

     O cuidado com as vestimentas étnicas também é relativizado, procurando se inserir elementos com “jeito” escandinavo, diminuindo em parte as vestimentas mais notavelmente bálticas. Ainda assim, este quesito é possivelmente um dos aspectos com mais cara “báltica”, ao menos em personagens como Lauga e a rainha Rama, com uma ressalva importante – as vestimentas bálticas, como no caso do casamento, por exemplo, tem mais a ver com vestes de Latgale de dois séculos anteriores, do que propriamente Zemgale do século XIII.

     Os barcos e tudo a que eles se relacionam são cópias escandinavas, desde a cópia do famoso barco noruguês de Oseberg, datado de mais de três séculos anteriores, até o funeral do rei zemgálio Viesturs, no qual ocorre outra aberração histórica: a rainha Rama, enviuvada, sobe ao barco para morrer junto com o marido. Aqui há uma provável inspiração fora de lugar e de época no funeral escandinavo entre os Rus’ no qual uma concubina o acompanha ao além, descrito pelo cronista árabe Ahmed Ibn Al-Fadlan – novamente, um relato de mais de três séculos de diferença, e contexto étnico e geográfico muito distinto.

     Um anacronismo particularmente grotesco é a construção de um cenário extremamente semalhante a Stonehenge, da Inglaterra, como se fosse um lugar sagrado e secreto dos Zemgálios. Os cultos megalíticos datavam de milhares de anos antes dos eventos relatados, e não há no território letão construções no estilo de Stonehenge, ainda que rochas mais isoladas e esparsas sejam encontradas.

Nameisis no “Stonehenge” zemgálio

     Por fim, “The pagan king” é, senão uma desonestidade com o espectador, um insulto à sua inteligência, e uma boa oportunidade perdida. A excelência na fotografia e a evidente capacidade técnica demonstradas na execução do filme foram desperdiçadas em uma produção que se preocupa mais em parecer ocidental, ser cool e imitar exaustivamente blockbusters supostamente “históricos” do ocidente do que de fato executar um filme histórico ou de inspiração histórica.

     O cinema letão perdeu uma chance de divulgar sua cultura nacional e agora os historiadores têm mais um problema ao explicar para os desavisados sobre a origem do anel tão famoso e difundido. O diretor Aivars Grauba parece ter se esquecido do próprio lema que seus personagens repetem à exaustão: se os Bálticos deixarem de lado quem são, serão diluídos e perderão sua identidade.

Esportes de Inverno na Letônia

No último dia 21 de dezembro teve início o verão no Brasil e todo o Hemisfério Sul, mesmo dia em que se deu o início do inverno no Hemisfério Norte, onde está localizada a Letônia.
Com isso, temos o início da temporada de esportes de inverno em todo o Hemisfério Norte. Durante todo o inverno acontecem competições nacionais, continentais e mundiais dos esportes que são realizados na neve (exemplo: snowboard, ski) e no gelo (exemplo: curling, bobsled, patinação).

A Letônia não tem uma grande tradição esportiva. Podemos ver isso com os resultados do último Jogos Olímpicos de Inverno que foi realizado em Pyeongchang na Coréia do Sul, em fevereiro do ano passado. A Letônia conquistou apenas uma medalha de bronze na modalidade bobsled para dois homens, essa que foi a primeira medalha do país nas Olimpíadas de Inverno.

Foto da equipe (@luge_lv)

Outra grande conquista para o país nessa modalidade foi voltar a sediar uma etapa da Copa do Mundo de Bobsled e Skeleton. A Letônia não recebia uma etapa da Copa do Mundo desde de dezembro de 2005. A competição aconteceu na cidade de Sigulda entre os dias 07 e 09 de dezembro de 2018, onde ganhamos três medalhas de prata, uma no skeleton masculino com Martins Dukurs e duas no bobsled para dois homens com Orkars Kibermanis e Matiss Miknis. A mesma pista recebeu a Copa do Mundo de Luge nos dias 12 e 13 de janeiro e a Letônia ganhou medalha nas modalidades dupla masculina e revezamento. Nas duplas, a prata ficou com Oskars Gudramovics e Peteris Kalnins e o bronze com Andris Sics e Juris Sics. Já no revezamento os campeões foram Kendija Aparjode, Kristers Aparjods, Oskars Gudramovics e Peteris Kalnins.

No mesmo final de semana, mas na Itália, na cidade de Collalbo, Haralds Silovs foi campeão dos 500m no Campeonato Europeu de Patinação de Velocidade.

Foto do instagram de @haralds86

Nesse final de semana, entre os dias 17 e 19 de janeiro, acontece o Campeonato Europeu Júnior de Luge e uma etapa da Copa do Mundo Júnior de Luge, na cidade de St. Moritz-Celerina na Suiça. A Letônia estará representada pelos atletas Eduards Sevics-Mikalsevics, Gints Berzins, Kaspars Rinks e Lukass Krasts e a Federação Internacional de Luge – FIL será representada pela leta Einars Fogelis.

A NHL – National Hockey League é a principal liga profissional de hóquei no gelo e no dia 6 de janeiro o atacante leto Rūdolfs Balcers marcou seu primeiro gol na NHL em seu segundo jogo na liga. Rūdolfs é o 22º jogador leto a jogar na liga profissional dos EUA que também tem times do Canada participando. O jogador atua pelo Ottawa Senators. Balcers fez o terceiro gol do seu time na derrota do Ottawa por 5×4 para o Carolina Hurricanes. Veja a notícia (em inglês)  e vídeo

Semana da Pátria

Nos anos de 2016 e 2017 tive as ocasiões de ir para a Letônia, e as condições climáticas sempre me fascinaram em minhas viagens, em especial, o mês de Novembro, com o término do Outono e o início do Inverno. E ao desembarcar em um país europeu você terá certeza sobre qual estação do ano você está, pois as estações no hemisfério norte são muito bem definidas.

Para muitos de nós, Leto-Brasileiros, viajar para a Letônia no inverno, é um assunto um tanto assustador, pois diferente do “Verão Anual Brasileiro” a Letônia na maior parte do ano oferece temperaturas mais baixas do que em relação ao hemisfério Sul.

Por algumas semanas antes de embarcar, minha preocupação com o frio, não era diferente. O mês de Novembro é um dos meses mais sombrios e melancólicos do ano em partes da Europa, No entanto, para a Letônia e seu povo, é um momento de lembrança e celebração alegre, pois em Novembro é o mês das festividades da independência, e o período entre os dias 11/11 a 18/11, que é chamada de semana patriótica, ou semana da pátria.

Independente do cansaço da viagem, desembarquei em Riga com um sorriso no rosto, e no ônibus em direção ao centro, já reparei uma diferença, muitas árvores não tinham mais folhas nem verdes, nem laranjas, mas haviam várias bandeiras “Vermelho Branco Vermelho” hasteadas em vários pontos da cidade.

O evento que marca o Início desta semana Patriótica é a celebração do dia de “Lāčplēsis”, pois esta é a data da vitória final dos heroicos soldados da Letônia sobre o exército de “Bermondt” em 11 de novembro de 1919. Homenagens são realizadas em memória dos soldados que deram suas vidas pela liberdade da Letônia.

Há muito para o que se ver, desde “serviço devocional” na Catedral de Riga, homenagem com flores no cemitério dos soldados, Parada militar no monumento da liberdade, e o mais esperado por todos, acender velas de cores vermelhas e brancas no castelo de Riga e no monumento da liberdade.

“Mar de velas” ao lado do Castelo de Riga
Baiba Mekss, Laima Dimanta, Lucas Stepanow

 

 

 

 

 

 

 

11/11/2017

 

O Dia é um lembrete para cada cidadão, de que não se nasce um herói, porém se torna um herói por meio da coragem, e a lembrança de permanecerem vigilantes e proteger a independência do País todos os dias. Então, o 11 de novembro oferece uma boa oportunidade para que todos possam olhar para o próprio coração e se perguntarem: O que posso fazer para minha família, meu povo e nosso país?!

No decorrer da semana há vários concertos e corais se apresentando em Igrejas, Catedrais, e nos centros culturais, muitos desses eventos são de graça ao público. Outros artistas também escolhem as datas de inverno para fazerem suas apresentações musicais. Nesta semana em especial, muitos Letos usam também uma pequena fita nas cores da bandeira da Letônia em formato “V”, preso próximo do coração. Este símbolo traz a mensagem de vitória e que a “Letônia está no meu coração, não importa onde eu vá!”.  

Por vários anos as comunidades Letas ao redor do mundo se reúnem no dia 18 de Novembro para terem um tempo de comunhão em memória da terra natal. E vários anos eu me reuni com meus pais e outros Letos de Nova Odessa para ouvir o coral. E nunca imaginei que estaria em Riga dia 18 de Novembro de 2017, no 99 (nonagésimo nono) aniversário da Letônia, foi algo mágico, pela quantidade de coisas a presenciar em apenas 1 dia.

Logo pela manhã no dia 18 de novembro, houve uma grande parada militar na Krastmala, uma larga avenida na margem do Rio Daugava, com a presença de componentes Navais, Terrestres, aéreo, força militar e políticos como a do Presidente, Ministro da Defesa, e outros do parlamento.

No começo da noite por volta das 19:00, houve o “Lapu Gajiens”, uma caminhada com centenas de pessoas com tochas de fogo, marchando do monumento do ex-presidente Karlis Ulmanis, até o monumento da liberdade.

Desde a declaração da independência em 1918, a Letônia teve nove presidentes, cujos discursos ao lado do monumento da liberdade se tornaram tradição e indispensáveis para a celebração de cada ano na Letônia livre. Discursos estes, que são patrióticos e encorajadores a nação, o atual presidente Raimonds Vejonis, disse em seu discurso: “Vocês são os heróis que tornam nosso país mais forte e seguro a cada dia – vocês são a Letônia! Somos a Letônia! Deixe-nos agradecer e dizer alto em nossos corações. Celebramos livremente este dia com gratidão, felicidade e amor uns com os outros a nossa pátria!”

                          

 

Na semana patriótica também ocorre o “Staro Riga”, um festival de luzes e sons, vários edifícios ganham artes visuais. Até o monumento da liberdade, que após o discurso patriótico do presidente, houve uma arte visual com a música “Dvēseles Dziesma” (Canção da Alma) composta por Ēriks Ešenvalds.

        

E para finalizar com chave de ouro, as 21:00 na Krastmala, acontece a canção do hino nacional “Dievs Svētī Latviju” e a queima de fogos.

 

 

“Para os Letos, acreditar na Letônia é amar seu país. Ela precisa de nossa fé e amor. Porque sem isso, a Letônia não pode existir “,

Vaira Vīķe-Freiberga

Do Gulag ao Nobel: Lidija Doroņina-Lasmane

Isto é o mais sagrado,
Não se esqueça:
Ascendendo ao céu,
Ou mergulhando nas profundezas do mar,
Dividindo a alegria com os amigos,
Ou enfrentando seus oponentes sozinho,
Você é a Letônia.
– O.Vācietis

   Sentada em sua sala, rodeada de livros e desenhos de crianças, uma senhora de grandes e expressivos olhos azuis recita, com uma voz calma e pausada, poesia para seus netos. Assim como o livro de poesia de Ojārs Vācietis, acomodado em seu colo, ela também havia sido censurada. Suas mãos rudes – fruto dos Gulags soviéticos – seguram-o com terneza, quase como se abraçassem centenas de velhos amigos, perdidos pelo totalitarismo.  

   Essa senhora de olhos azuis e voz calma é Lidija Lasmane-Doroņina. Apesar de não gostar muito dos holofotes – prefere livros e netos – há poucos na Letônia que não a conheçam. Foi a protagonista do documentário “Lidija” (2017), de Andrejs Verhoustinskis.

A Família e a Guerra

   Lidija nasceu em 28 de julho de 1925 na bucólica vila costeira de Ulmales. Sua família era batista, com três irmãos (um veio a falecer cedo) e ela cresceu em uma atmosfera de amor, que moldaria seu caminho pelo resto da vida. Lidija se batizou na igreja batista de Saka aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

   A região de Ulmales, Kurzeme, é igual a vila descrita: plana, campestre, bucólica. Mas não seria assim por muito tempo. Em 1940, a Letônia foi ocupada pela União Soviética, que logo começou as deportações em massa de elementos “contra-revolucionários”: políticos, pastores, professores e quem mais pudesse desafiar a nova ordem.

   A situação mudou novamente quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética em 1941 – e com ela, a Letônia – trazendo seus aparatos de censura, perseguição e execução.

   “No outono, os nazistas vieram  e abateram todos os judeus de Pavilosta quase na frente dos nossos olhos. Havia também meus colegas de escola, a garota com quem eu brincava. Eu percebi que [o totalitarismo] era uma insanidade tão grande que se tinha que abandonar uma parte de si mesmo, sob nenhuma circunstância deveria sucumbir a ela”,  relatou Lidija ao compartilhar suas memórias.

   Em 1944, 200.000 tropas alemãs, recuando após sucessivas derrotas no front, foram cercadas pelo Exército Vermelho em Kurzeme. Sem ter para onde recuar, as tropas nazistas e o exército soviético transformaram a região em uma zona de total desolação e destruição.

A Ocupação

   A jovem Lidija decidiu que faria de tudo para salvar vidas. Em 1946 começou a estudar em uma escola de enfermagem em Riga. Nessa época, a União Soviética, após ocupar novamente a Letônia, continuou com a “limpeza” de opositores. Em novembro do mesmo ano, Lidija e sua família foram presas por abrigarem e fornecerem curativos para um grupo de letos que resistiam à ocupação.

   “Eu cresci na velha Letônia, formada com meu país e seu espírito. Eu não podia aceitar ocupação, era inteiramente contrária a minha natureza. Esses grandes países não tinham o direito de nos conquistar. Deus deu a cada um a sua terra onde morar e servi-lo.”

   Lidija e sua família foram levadas pelo serviço secreto soviético, a Tcheka (precursora da KGB) para serem interrogados na sede do serviço em Riga, na stūra māja. A jovem de 21 anos foi condenada a, no mínimo, 5 anos de prisão e mais 3 de retenção de direitos por “traição à pátria”. Seu pai foi condenado a 10 anos e sua mãe, 3 anos em um hospital psiquiátrico.

   Durante os primeiros anos de prisão, Lidija era obrigada a carregar troncos, e ficou doente com tuberculose e quase morreu. Em 1951 foi transferida para a infame prisão de Vorkuta, o maior campo de trabalhos forçados da União Soviética, onde os inimigos e dissidentes políticos eram obrigados a minerar carvão. Em 1953, o ditador soviético Stalin morreu e seu sucessor, Krushev, concedeu perdão a alguns presos políticos, entre eles, Lidija.

 

A Traficante de Livros

Lidija com alguns dos livros proibidos.

   Lidija retornou a Letônia, mas não tinha lugar para morar; sua família havia perdido tudo. Nos anos seguintes, começou a guardar e redistribuir livros que haviam sido proibidos pela censura, o que a levou a ser presa novamente em 1970. Passou dois anos na prisão feminina de Riga. “Quando fui presa, não tive medo, pois defendia algo justo. Eu tinha certeza de que eles estavam errados. Mas havia a sensação de que havia muito a se fazer, muito a planejar, mas eu estava lá, sem sentido”.

   Após sair da prisão, continuou seu trabalho com fervor ardente, recolhendo não só músicas, livros e filmes proibidos, como também memórias de outros prisioneiros políticos e exilados.

   Sua resistência trouxe a polícia secreta mais uma vez até sua porta na manhã de 6 de janeiro de 1983. Lidija reconta que o jovem que a interrogou sobre o livro que havia distribuído, Piecas Dienas (do escritor Anšlavs Eglītis), era também um leto: “O investigador me disse ‘Está escrito aqui, e você o leu e divulgou, como se a Letônia estivesse ocupada, como se em 1941 tais e tais pessoas tivessem sido deportadas. O que você pode dizer sobre isso?’ Eu digo a ele, ‘o que devo dizer sobre isso? Somos dois letos. Você não nasceu ontem e sabe bem que a Letônia está ocupada.’ Mas ele não tinha nada para dizer.”

   Lidija foi detida novamente e deportada para a Mordóvia, onde dividiu cela com outros criminosos, prostitutas e ladrões, mas nada disso jamais a fez perder a esperança. No natal, ela e outros prisioneiros cortavam panos verdes para simular pinheiros e todos os prisioneiros entoavam os hinos que lembravam. “Eu nunca senti ódio por aqueles que me torturaram. Absolutamente não. Fiquei com vergonha deles porque me humilharam”, conta Lidjia.

   Em 1987, Lidija e outros prisioneiros foram perdoados no Glasnost de Gorbachev. Lidija visitou a Suécia e viu centenas de refugiados letos cantando hinos proibidos e segurando fotos de prisioneiros políticos, inclusive fotos suas.

A Vitória

   Depois da independência, Lidija começou a visitar antigos lugares da KGB e recolher documentos de assassinatos e execuções. Ela conta que uma vez achou entre os documentos a foto do delator que possibilitou sua prisão: “como pode fazer isso? Ele morreu e eu não pude saber. Se pudéssemos falar, poderíamos nos reconciliar. É fácil perdoar na mente, mas, para sentir isso no coração, foi necessário tempo”.

   Lidija participou ativamente do Centro de Documentação do Totalitarismo, atendendo também outras vítimas de perseguição. Em 1994, ela foi premiada com a Ordem das Três Estrelas (Triju Zvaigžņu ordenis) pelo seu trabalho, mas decidiu recusar. Segundo ela, há prêmios muito maiores do que medalhas.

   Participou também do trabalho “Akcija dzīvībai”, em que atendia mulheres afligidas com gravidez indesejada, muitas vezes sofrendo também de depressão e estigma social. Por sua luta contra totalitarismo e seus trabalhos, Lidija é uma das indicadas para o prêmio Nobel da Paz de 2018.

   “Hoje posso cantar de coração: Dievs, svētī Latviju! Eu tenho uma filha e três netos, mas também inúmeros outros ‘netos’ pelo mundo que buscam justiça. Eu tenho uma igreja maravilhosa, e moro em um país livre, a Letônia. Espero que agora as pessoas aprendam a amar uns ao outros, não importem as circunstâncias. E espero que aqueles que estão no poder saibam usá-lo com sabedoria”.

Lidija em sua igreja em Riga, a Mateja Baptistu Draudze

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Trechos retirados do periódico “Tikšanās”, de dezembro de 2001 a janeiro de 2009. Traduzidos livremente por Andreis Purim.

Leia também nosso artigo sobre o Livro “Eu queria tanto ainda viver”

[Receita] Kliņģeris da vó Vergínia

O Kliņģeris se trata de uma “rosca” macia, levemente doce, trazida pelos imigrantes letos que chegaram ao Brasil no final do século XIX, e no caso desse artigo, Rio Novo. Possui uma relação (apesar de um pouco longínqua) do Bretzel alemão, e é costume ser servido em dias especiais.  Fazendo uma pesquisa na internet, observa-se que a receita “evoluiu” acrescentando hoje em dia frutas cristalizadas e coberturas com diversos tipos de enfeites. A versão ora descrita, digamos, é a versão “original” como nossa família conhece (e ama).

Minha irmã Lili, como nutricionista e hábil cozinheira, aprendeu a fazer com minha mãe (vó Vergínia) enquanto a mesma estava viva, mas resolvi fazer esta rosca buscando ajuda com a Dona Tereza, uma senhora que foi diarista da minha mãe e depois cuidou dela nos seus últimos anos. Ela era quem fazia estas roscas quando minha mãe já não tinha forças para o trabalho na cozinha.

Eu a convidei para nossa casa e fizemos juntos esta rosca, mas como minha mãe não tinha medidas precisas quando preparava a receita, sua “discípula” Dona Tereza também não.  As quantidades iniciais os ingredientes eram “ajustados” ao longo do processo. Tentei fazer o máximo de anotações possíveis para “não perder nada” que pudesse ser relevante para esta experiência “química”.

Ingredientes

  • Noz moscada (duas unidades “in natura”. Segundo a instrutora, a que é vendida moída num pacotinho não tem o mesmo efeito no sabor final;
  • 4 copos de leite
  • 3 colheres de sopa de fermento biológico granulado
  • 3 copos de açúcar
  • 230g de manteiga
  • 2 colheres de sopa de sal
  • 2kg de farinha de boa qualidade

Passos

  1. Numa panela pequena coloque 1 copo de leite junto com o fermento e aqueça levemente no fogão. Aguarde o passo 4.

    Passo 2
  2. Rale duas unidades de noz moscada até restar apenas um “toquinho”.
  3. Numa bacia grande coloque os outros três copos de leite misturando o açúcar, a noz moscada ralada, a manteiga e o sal. Misture tudo com a bacia e aqueça levemente no fogão até um “amornamento”;

    Passo 3
  4. Saindo do fogão, misture o fermento (que estava na panelinha aquecida);
  5. Acrescente a farinha e  inicie o processo de amassar até que tudo ficasse uniforme e solto (não pegajoso). Após um certo período na bacia, retire a massa e continue este processo diretamente numa superfície polvilhada com farinha de trigo. Recomendação da Dona Tereza: não utilizar superfícies frias tipo granito.

    Passo 5
  6.  Deixe então um longo tempo (quase duas horas) no forno ligeiramente aquecido para que a massa cresça. Para melhor aproveitamento do calor coloque um plástico cobrindo toda a massa.
  7.  Unte as formas com óleo de cozinha, e quando a massa estiver crescida confeccione as tranças e colocadas nas formas.  Veja o vídeo abaixo:

    Passo 8

    Passo 9
  8. Separe duas gemas de ovo numa xícara e, com um pincel, e tinja a superfície;
  9. Deixe para assar em forno quente. Observe a coloração para desligar;
Obrigado Dona Tereza!

Original por Carlos Ademar Purim, de seu blog e republicado no fórum Letônia Brasil em 11 de Julho, 2018.

Se você gostou e gostaria de compartilhar receitas letas de sua família, clique aqui para participar do fórum

Chuteira no pé, Esperança no coração

Durante dois anos, crianças de famílias carentes de Bolderaja, um bairro afastado de Riga, se reuniam para treinar futebol. Dois anos, independentemente do clima no dia, do inverno ao verão. Dois anos, seja na chuva, na neve – na hora do treino, o céu se abria. Não perderam um só dia de jogo. Você acredita que uma simples esperança pode mudar o mundo? Um homem acredita.

Tjago, com j mesmo, Professor Tjago, para falar a verdade. É assim que o carioca de 33 anos Thiago Bonfim da Silva é conhecido na Letônia. Formado em Educação Física, técnico e treinador de futebol – além de outras conquistas profissionais -, Thiago também é veterano de diversos projetos evangelísticos, e hoje usa o futebol para resgatar as crianças das regiões mais carentes do país.

Amor à primeira vista, apesar do clima

Ouviu falar pela primeira vez do longínquo e gelado país báltico em 2005, após seu chamado para missões. A Letônia havia se classificado para a Eurocopa de 2006, não possuía uma opinião formada, mas algo especial foi crescendo no seu coração. Desembarcou em Rīga 19 de maio de 2010 – foi um choque cultural muito forte – mas foi amor à primeira vista.

Dar o primeiro chute ao gol, no entanto, nem sempre é fácil. Seu primeiro trabalho missionário com futebol foi no “Day Center” no bairro de Bolderaja, em Rīga, patrocinado pela Igreja Luterana da cidade. Mesmo após o término do projeto, Thiago continuou, o sonho era forte demais, era hora de ir além. Ir além era Karosta.

Karosta (em leto, “porto de guerra”) é um bairro localizado no norte da cidade costeira de Liepāja. Foi construída para ser uma base naval do Império Russo, e durante a ocupação soviética foi convertida em base militar e prisão militar. O bairro mistura palacetes e catedrais czaristas com blocos habitacionais soviéticos abandonados. Após a queda da união soviética e desativação do complexo militar vários prédios foram abandonados e a região se tornou problemática com desemprego, crimes e abuso de álcool.

Thiago, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolveram o Karosta Futbols resgatando crianças que sofrem problemas de criminalidade e abusos. O projeto está quebrando o ciclo da violência, crianças estão sendo salvas. Só para ter uma idéia: muitas dessas crianças nunca haviam saído de Karosta, hoje disputam torneios em outras cidades. Eles possuem um novo futuro para chamar de seu.

Torneio em Nica

Ainda assim, há muitas dificuldades. No começo, Thiago trabalhava em 3 empregos diferentes para poder se sustentar, uma vez que não recebe nada pelo projeto. No início deste mês precisou se afastar do projeto para poder sustentar sua família e atender ao novo filho que está por chegar ao time. Mas não ele não pendurou as chuteiras, pois ainda há muito jogos por vir, e muitas vidas para mudar.

Nós tomamos um pouquinho do seu tempo para perguntar sobre sua vida, seus projetos, ambições, dificuldades. Veja um trecho da entrevista abaixo:


Entrevista

Letonia Brasil: Qual sua formação, Thiago? Quais projetos você participou antes de vir para a Letônia?

Thiago Bonfim: Sou formado em Educação Física, Pós-graduado em Ciências do Futebol e Futsal. Sou treinador formado pela ABTF em 2006, pela CBF – A em 2013 e UEFA-B em 2015. Sobre missões, participei dos projetos missionários do movimento estudantil Alfa e Ômega, projeto missionário em Juiz de Fora em 2007. Todo o treinamento para missionário em campos universitários em 2007 e 2008. Também fiz o curso para missionário através do Esporte pelo CEFLAL- 2009. Diversos treinamentos e projetos missionários na área esportiva e também outras áreas. De 2008 até 2010, participei da capelania prisional no presídio Moniz Sodré em Bangu, junto com os missionários Carlos Serejos e Clotildes Moraes da Igreja Batista do Méier. Também fiz parte do projeto “Igreja no Trem”, onde eu pregava diariamente nos trens do Ramal de Campo Grande no Rio de Janeiro. Fiz parte do projeto Luz nas Calçadas por 5 meses, onde subíamos a comunidade da Mangueira e pregávamos o evangelho para os traficantes e usuários desta comunidade, inclusive frequentando a boca de fumo para a ação evangelística.

LB: Como é sua vida aí? Quais foram suas maiores dificuldades lá?

Thiago, sua esposa Zanda, e seu filho Timotejs


TB: Minha vida na Letônia é um ato de redescobrimento de quem eu sou. Do meu melhor e do meu pior. Sem pai, sem mãe, sem amigos por perto, fora da cultura, é preciso estar próximo de Deus e muito forte para superar. Como você notou na resposta anterior, eu andava pelos piores lugares de uma das cidades mais violentas do Brasil, a paz e segurança da Letônia é um ponto muito forte e positivo, e foi o que mais gostei daqui. Junto com a beleza e a tranquilidade do país. Minhas maiores dificuldades na Letônia foram com a desconfiança, alimentação, cultura e o clima. Se você vem visitar a Letônia, você não vai vivenciar nenhuma intolerância, talvez, se tiver uma pele mais escura, algumas pessoas vão ficar te olhando, mas não há preconceito. O problema acontece quando você vem morar e trabalhar aqui, mas não entende o “jogo de interesses”. As portas se fecham em várias áreas. Na minha área, por exemplo, demorei 6 anos para receber um salário normal.

LB: Como foi seu trabalho com o futebol lá? Os letos são bons no futebol? [risos]

TB: Os letos tem grande potencial, porém a questão climática e cultural atrapalha muito, já que o hockey e o basquete ainda são as grandes paixões, mas o futebol vem crescendo no país. Meu trabalho com futebol de forma missionária aconteceu mais no “Day Center” em Bolderaja, em Riga, com a parceria da Igreja Luterana de Riga que nos patrocinava, uma vez por semana nós alugávamos um campo de futebol no centro – Arkadija Stadions – e as crianças saiam de bolderaja para o campo onde ministrava os treinos de futebol. Após o fim do projeto com a Igreja Luterana de Riga, ainda continuei indo por mais um ano voluntariamente, porém, desta vez fazíamos o futebol em uma praça próximo ao “Day Center”. Agora em Liepaja, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolvemos o Karosta Futbols, para trabalhar e pregar o evangelho através do futebol para as crianças de karosta, que é um dos piores lugares da Letônia, com os piores índices educacionais, de desenvolvimento e violência. Esse trabalho tem o suporte de dois “Day Centers”, o que é liderado pelo Pr. Sergejs e outro pelo “Hope Kids”. Porém, no início deste mês tive que sair do projeto por um período, pois está havendo um conflito político, tendo em vista que eu trabalho no clube da cidade, o qual recebe verba da prefeitura, e o Karosta Futbols por ser um projeto que também é social, começou a receber ajuda da prefeitura, e esta questão política por eu estar nos dois, me colocou em uma situação de ficar em um ou outro, e como no Karosta Futbols não recebo nenhum salário e todo meu salário vem do FK Liepaja, e como não tenho nenhum outro suporte, a não ser meu salário e uma ajuda familiar, tive que optar pelo meu emprego.

LB: Quais os principais problemas da Letônia? E como é o bairro de Karosta?

TB: A Letônia sofre muito com o Alcoolismo e com secularismo. Karosta é um local lindo, mas como foi invadida, tem muitos problemas familiares! Minha esposa trabalha com as famílias e visitando as pessoas em suas casas, e é muito triste o relato que ela dá. Pessoas pobres, imundas, muita violência doméstica e estupros entre familiares é muito comum. Os orfanatos da Letônia estão cheios de órfãos de pais vivos, e o de Liepaja não foge a regra. Boa parte destas crianças são oriundas de Karosta.

Crianças do Karosta Futbols com o missionário Mikelis

LB: Como o seu trabalho pode ajudar a mudar essa realidade? Quais são suas metas?

TB: Nosso trabalho é extremamente relevante, as vidas que vemos sendo transformadas são nossas alegrias. Algumas das crianças com 9 anos já chegam para nós com histórico de fumo, furto e uso de álcool, com 9 anos de idade! Hoje nos encontramos 2 vezes por semana, (1 vez comigo e 1 vez com Pr. Marcis) mas o objetivo é para que um futuro consigamos fazer isso diariamente. Para essas crianças falta um exemplo masculino positivo na vida delas. Os pais quase sempre ausentes e alcoolizados, frequentemente agridem suas parceiras em suas casas. No final, se não houver uma quebra do ciclo, a tendência é que essas crianças repitam os mesmos erros. Hoje no projeto já temos crianças que já aceitaram a Jesus, que oram conosco e que frequentam a Igreja. Próximos passos são os batismos (alguns anos) mas algumas já estão sendo discipuladas. Estamos falando de crianças com histórico de violência familiar. Isso é extremamente importante e relevante. Infelizmente, sem patrocínio ou apoio, ainda é muito pouco o que podemos fazer. Nossas metas é de termos patrocino para que eu possa abandonar meu trabalho e dedicar-me 100% ao Karosta Fubols, e abrir outras categorias, do Sub-8 até o adulto, para fazer a integração com os pais da região. Infelizmente, hoje ainda um sonho muito distante.

LB: Que tipo de apoio ou ajuda você recebe? Que tipo de apoio você gostaria de receber? Como isso pode ser feito?

TB: Infelizmente, nenhum apoio, apenas meu salário e um suporte familiar. Gostaria de receber um apoio integral para que pudéssemos nos dedicar 100% ao Karosta Futbols e as crianças daqui. Talvez até recebermos alguns voluntários brasileiros ou missionários locais para nos ajudar no decorrer do crescimento do Projeto.
Isso pode ser feito através da mobilização dos irmãos Letos do Brasil. Levantar sustento na Letônia é quase impossível, as Igrejas são muito pequenas, e o que recebem de oferta é para a manutenção da Igreja e do Pastor.

LB: Que mensagem você gostaria de deixar para os letos-brasileiros?

TB: A Letônia é um país lindo, de pessoas maravilhosas, mas fomos chamados para a Letônia para tratarmos os doentes, de ir onde ninguém vai, de cuidar de quem ninguém cuida, de dar esperança para os que nada tem. Nosso projeto pode causar um impacto positivo muito grande neste local. Sei que muitos dos irmãos tem uma visão romântica da Letônia, que não é falsa, mas nós vivemos e convivemos com o que há de pior aqui. Nossa família vive em um dos locais com maiores índices de violência da Letônia. Queremos que todos os letos do Brasil nos adotem em orações, e não esqueça de nós em nenhum dia, pois é isso que nos sustenta aqui, é a oração que nos faz caminhar e vivenciar os milagres.

Que Deus abençoe a todos e a nossa Letônia.

Crianças orando antes do treino.

 

Se você se sentiu tocado pelo trabalho que Tjago realiza, você pode enviar seu número para o email tchebonfim@gmail.com e receber notícias. Se quiser fazer uma doação ou ajudar financeiramente, entre em contato pelo email  ou pelo Whatsapp +37126740578.

 

Arte de fundo: Luiz Schneid
Vídeos, Poster e Fotos: César Liepkaln

O que é Saeima?

Se você já procurou ler algo da política da Letônia já deve ter lido este nome. A Letônia é um estado soberano, uma república democrática parlamentarista. Isso significa que não está sob o controle de outro estado, que o poder na Letônia pertence ao povo, significa que o poder legislativo pertence ao parlamento.  Este eleito pelo direito de voto dos cidadãos da Letônia. 

O nome do Parlamento da República da Letônia desde 1922 é Saeima, que significa “reunião”, “conselho”. (Sapulce). O nome “Saeima” é linguisticamente distinto e não possui nenhum vínculo histórico com seus correspondentes lituanos e poloneses.

Em contraste com o Brasil, que possui um poder Legislativo bicameral (Câmara baixa e a Câmara alta – a Câmara dos Deputados e o Senado, respectivamente). A Letônia é unicameral, ou seja, a legislatura é formada apenas pelo Parlamento, assim como a Dinamarca e Finlândia, por exemplo.

Uma sessão do Parlamento

O parlamento é constituído por 100 membros eleitos em representação proporcional, do voto popular. As eleições estão programadas para serem realizadas uma vez a cada quatro anos, normalmente no primeiro sábado de outubro. As eleições mais recentes foram realizadas em outubro de 2014. Os deputados são eleitos para representar um dos cinco círculos eleitorais: Kurzeme (13 deputados), Latgale (15 deputados), Riga (30 deputados), Vidzeme (27 deputados) e Zemgale (15 deputados).

O parlamento possui um “Porta-voz”, também chamado de “Presidente”, que mantém a ordem durante as sessões plenárias, bem como garante que a sessão seja realizada de acordo com o Regulamento Interno. Atualmente Ināra Mūrniece ocupa o cargo, ela foi eleita presidente do Saeima da República da Letônia em 4 de novembro de 2014. Ela representa a Nacionālā apvienība.

Antes de se envolver em política, durante 16 anos Ināra Mūrniece trabalhou na redação do maior jornal diário, Latvijas Avīze, reportando assuntos internos e assuntos de política externa, ela é formada em tradução. Em 2009, ela se formou na Faculdade de Línguas Modernas da Universidade da Letônia 

Mesa de reuniões do “Sarkanā zāle”

O que o Parlamento faz?

A principal tarefa do parlamento é adotar leis. Projetos de lei podem ser submetidos pelo Presidente, Ministros, Comissões e deputados. Além disso, os eleitores – cidadãos da Letônia – podem também apresentar projetos de lei.

Assim como no Brasil, O Saeima pode eleger, aprovar, indicar, liberar e dispensar muitos dos funcionários públicos – Presidente do Estado, membros do Governo, Presidente do Supremo Tribunal, juízes, presidente do Banco da Letónia, e outros funcionários. Os deputados de Saeima se reúnem com autoridades e delegações internacionais. O Saeima coopera com os parlamentos de outros países, pois  é um membro de organizações parlamentares internacionais.

Detalhes de Art Noveau

HISTORIA DO EDIFICIO

O edifício principal agora ocupado pelo Saeima foi construído entre 1863 e 1867 uma época em que partes da atual Letônia eram administradas pelo Império Russo para as necessidades da Cavalaria da Livônia que incluía a atual região norte da Letônia e uma grande parte do sul da Estônia, de acordo com o projeto feito por Robert Pflug, um arquiteto báltico-alemão, e Jānis Baumanis, o primeiro arquiteto letão educado academicamente. O exterior e o interior foram acabados em estilo eclético.

Depois que o Conselho do Povo declarou a independência da Letônia em 18 de novembro de 1918, o edifício serviu de casa, exceto pelo período durante 1919, quando o Congresso dos Deputados Operários Soviéticos da República Socialista Soviética da Letônia controlava Riga. Depois que a república socialista foi derrotada, o edifício tornou-se a sede da Assembléia Constituinte eleita em 1920. Em 17 de outubro de 1921, o prédio foi destruído pelo fogo. Foi restaurado de acordo com o projeto do arquiteto Eižens Laube. A restauração incluiu uma nova estátua do escultor Rihards Maurs de Lāčplēsis, o “matador de ursos”, substituindo a estátua de von Plettenberg, que foi destruída no incêndio. No momento da restauração do edifício, o salão principal foi modificado para atender às necessidades do Saeima da nova República da Letônia. A câmara de Saeima hoje ainda se aproxima deste projeto. A última reunião da Assembleia Constitucional, que escreveu a Constituição da Letonia, teve lugar no edifício restaurado em 3 de novembro de 1922.

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OCUPAÇAO

Durante a Segunda Guerra Mundial, depois que a Letônia foi ocupada, o prédio era o local do Conselho Supremo da República Soviética Socialista da Letônia sob os soviéticos e a sede da polícia para os territórios orientais sob a Alemanha nazista.

A Letônia permaneceu sob ocupação soviética após a guerra e o prédio serviu como local do Supremo Conselho Soviético da Letônia por quase meio século. No início dos anos 80, um dos pátios interiores foi murado para expandir o espaço do edifício, esta parte do edifício é agora conhecida como a Sala de Votação.

RESTAURAÇAO DA INDEPENDENCIA

Após a restauração da independência em 4 de maio de 1990, o prédio abrigava o Conselho Supremo da República da Letônia, que funcionava como um parlamento provisório até que a Constituição fosse restabelecida com a eleição do próximo Saeima. Desde 1993, é novamente o lar do parlamento da Letonia.

Faça uma visita!

Como visitar o Saeima?

Jēkaba ​​iela, Riga.

Excursões para o Saeima

Qualquer um pode visitar o Saeima conheça o seu trabalho diário. Todos podem se familiarizar com a arquitetura e a história do edifício Saeima.

  • As excursões para o Saeima ocorrem nos dias úteis das 09:00 h às 16:30 h.
  • Excursões são gratuitas.

Às quintas-feiras, os participantes do passeio a partir das 9h30 podem assistir à sessão do Saeima e observe o trabalho dos membros nele.

  • Cada passeio dura cerca de uma hora.

Os visitantes devem levar um documento de identificação pessoal. O documento da Casa Saeima deve ser apresentado ao guarda de segurança do Saeima. Os visitantes devem passar por uma verificação de segurança. No edifício Saeima é possível fotografar e filmar.

Há a possibilidade de um tour online por meio do link:

http://www.saeima.lv/Informacija/Ekskursija_EN/saeima.swf

Você deve se inscrever pelos telefones 67087485, 67087483 ou pelo e-mail: ekskursijas@saeima.lv.

Minha Saga Letoniana

Existe um dizer de que as nossas vidas duram trezentos anos. Elas começam cem anos antes de nosso nascimento e terminam cem anos após a nossa morte, afinal as ações das pessoas daquele período ou determinam quem somos, ou somos nós que as determinamos. No entanto, por décadas após a guerra, os autores e vítimas do capítulo mais obscuro da Europa do Século XX, foram incapazes de falar sobre suas experiências. Nós os observamos, nós os testemunhamos, nós os amamos, às vezes nos até os desgostamos. Mas eles sempre nos deixaram uma marca profunda, eles nos fizeram. Contudo, nós não entendemos ao certo quem eles realmente foram e, portanto, nós não entendemos quem nós somos.

– Roxana Spicer – The traitor’s daughter

   Há algum tempo passei a procurar sobre minhas origens.  Porém, existia uma lacuna na história da minha vida que não conseguia preencher. Pensava em várias hipóteses, mas não encontrava o caminho. Esta janela perdida no tempo estava diretamente relacionada com a tragédia humana da Segunda Guerra Mundial.

   Pesquisar sobre a família dos meus avós paternos, de origem portuguesa e já fincada no Brasil há séculos, foi fácil. Existe até um livro para contar as histórias de “Lagoa dos Gatos” e de Garanhuns, região onde faz frio no interior de Pernambuco e que tem fama pelos seus festivais de inverno. Minha avó paterna, escritora e poetisa, nasceu em Bezerros, cidade do agreste e famosa pelo carnaval de rua.

   A origem da minha avó materna também não foi difícil de ser levantada. Ela é neta de italianos e seu pai era um comerciante, do qual herdei alguns réis para a minha coleção de moedas. É possível, até, rastrear a época em que meus tataravós chegaram ao Brasil e se instalaram em Tremembé – SP.

   Já a história do meu avô materno era um mistério. Eu nunca soube muito sobre o seu passado. Quando era criança adorava ir a sua oficina brincar com as caixas de ferramentas. Naquela época, não fazia ideia sobre o seu país de origem, somente que ele tinha um sotaque engraçado. Infelizmente, não tivemos tempo suficiente de convivência para eu poder lhe perguntar sobre sua descendência, pois meu avô faleceu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Tudo o que sabia era que ele tinha vindo para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

   Em histórias de guerra, qualquer que seja o conflito, sempre é questionado qual foi o papel de uma pessoa e o que aconteceu com ela e sua família. Quando perguntava para a minha mãe a respeito, ela me contava as histórias da terra natal de seu pai com apenas pequenos fragmentos de sua vida. Dentre estes fatos, estavam momentos interessantes como quando ele atravessava um rio congelado para ir à escola,  ou quando andava descalço para não gastar o único par de sapatos que tinha.  Meu avô costumava cantar músicas folclóricas letas, como “Kur tu teci”, para os meus tios, mas nunca falava sobre a guerra. O único comentário que consigo me lembrar era que, entre as ruínas, os soldados pegavam objetos abandonados no caminho, apenas para largá-los posteriormente, pois não havia para onde levá-los. Não havia mais casa.

   Em 2004, quando a Letônia entrou na União Européia, fiz contato com o então Cônsul da Letônia no Brasil, João Grimberg. Na época, ele me disse que não havia nenhum processo em aberto para a emissão de passaporte leto para descendentes brasileiros, mas me orientou a checar essa informação de tempos em tempos para ver se algo mudava. E foi o que fiz.

   Em abril de 2015, me comuniquei com a atual Cônsul da Letônia no Brasil, a Sra. Daina Gutmanis, que me direcionou sobre o que era necessário para a solicitação da cidadania leta. Eu poderia dar entrada no processo mas, para isso, precisaria de alguma evidência, algum documento original, provando que meu avô era da Letônia. Ela me enviou uma lista de tudo o que precisava reunir e os dados do Departamento de Registro Civil da Letônia, o Dzimtsarakstu Departamenta Arhivs, que poderia me ajudar a encontrar algum dado sobre a origem de meu avô. Começava aí a minha saga báltica.

   Enquanto buscava um registro, estudei um pouco de história para entender em qual situação meu avô se encontrava durante sua juventude e levantei alguns fatos significativos: em 1934, a Letônia sofreu um golpe de Estado, tornando-se uma ditadura até 1940 e os alemães haviam sido expulsos de lá. Em 1939, o país foi forçado a aceitar um pacto de assistência à União Soviética. Até 1941, os soviéticos anexaram o território e muitos soldados e civis letonianos foram presos, mortos ou desertaram. Em Julho de 1941, os alemães invadiram a região e a ocupação durou até 1945.

   Logo no primeiro ano, o Holocausto matou 100 mil cidadãos na Letônia. Em 1943, Hitler ordenou o recrutamento de 180 mil homens letos para as forças auxiliares alemãs, os Legionários da Letônia. Os soldados da Letônia lutaram em lados opostos, a favor de alemães e russos e, na sua maior parte, contra suas próprias vontades. Existiu também um grupo chamado “Meža Brāļi” (Irmãos da Floresta) que tentou resistir de forma independente contra as duas forças. Esta era uma guerrilha que lutou encurralada nas florestas, em número inferior, com menos recursos e da qual morreram muitos heróis.

   O fato é que, de forma voluntária ou forçada, os letos estavam divididos na guerra. Inclusive, algumas batalhas eram travadas sob o comando letão em ambos os lados. Foram tempos terríveis. Li histórias como a dos irmãos Dums, que, apesar do vínculo familiar, foram obrigados a lutar em lados opostos.

   Mas a dúvida persistia: onde se encaixava meu avô nessa narrativa? Ainda não tinha nenhuma pista e, em busca de conhecimento, segui com meus estudos.

   Por curiosidade, procurei saber sobre a cultura do país e suas pessoas ilustres. Para a minha agradável surpresa, grande mentes saíram da Letônia. Lá foi descoberto o ácido cítrico (revolucionário na indústria alimentícia, higiênica e médica); de lá veio o homem que ajudou Levi Strauss a desenvolver o seu famoso jeans; lá foi desenvolvido o primeiro foguete com propulsão a óleo. O revolucionário da montagem do cinema, Sergejs Eisenstein, nasceu em Riga, assim como o famoso dançarino Baryshnikov. Aquela mini-câmera que todo espião usava, a “Minox”, era fabricada na Letônia e foi inventada por Walter Zapp. No esporte, representam a Letônia o famoso jogador de hockey da NHL Sandis Ozolins e o jogador de basquete Kristaps Porzingis da NBA. E por aí vai.

   Li sobre a cronologia do país, passando por Terra Mariana, Livonia, Cavaleiros Teutônicos, Liga Hanseática, a influência alemã, Reino da Polônia-Lituânia, Império Sueco, Império Russo, a independência por vinte e poucos anos, os bolcheviques, os nazistas, a União Soviética até chegar em 1991. Assisti vídeos sobre suas tradições culturais, religiosas e sociais e fui absorvendo, pouco a pouco, a sua riqueza histórica.

   Pesquisei em documentos, vi filmes e vídeos sobre pessoas, que como eu, procuravam por sua origem. Destaca-se o filme “Um passaporte húngaro” (2001), de Sandra Kogut, e a história da filha de uma espiã russa (Roxana Spicer) investigando o passado de sua mãe, “The traitor’s daughter”, de onde tirei o primeiro parágrafo deste texto. Me identifiquei com aquela citação pois realmente acho que vivemos mais do que os nossos dias mortais por meio de nosso sangue e tradição; assim como já existíamos antes mesmo de nosso nascimento, por conta deste elo.

   Mesmo com tanto estudo, ainda me faltavam dados sobre meu avô, Nikolajs. Eu precisava de algo mais concreto para avançar.

   Na Cédula de Identidade de Estrangeiro, emitida no Brasil, que minha avó me entregou, tinham os seguintes dados sobre ele: nome, nome dos pais e data de nascimento (02 de Março de 1926). De acordo com esse documento, meus bisavós eram Lina Butkus e Frocis Kavalieris.

A Cédula de Identidade de Estrangeiro

   Pesquisei em seguida, nos sites de busca de família http://ancestry.com/, www.myheritage.com.br e http://forebears.io/, e descobri um documento emitido na data em que meu avô chegou ao Brasil, em 1947. Este documento mostrava, pela primeira vez, o seu local de nascimento: Priekule.

   Assim, obtive a informação necessária para enviar meu pedido ao Registro Civil na Letônia, na esperança de achar algum documento original de meu avô. A atendente do Departamento do Registro Civil informou que seria dada uma resposta sobre a rastreabilidade do documento em duas ou três semanas. A única coisa que poderia dar errado, segundo a agente, é que durante e após a guerra muitos arquivos haviam sido queimados. Se o nome do meu avô tivesse sido apagado em algum momento, minha busca teria fim.

   Para minha sorte, o Departamento de Registro Civil da Letônia me enviou um e-mail, em junho de 2015, confirmando que haviam encontrado o registro de meu avô. Eles me enviaram um documento equivalente à sua Certidão de Nascimento, que, por obra do destino, acabou chegando no dia do aniversário da minha mãe, um belo presente. No papel estava escrito o nome “Koļa”, sem nenhum sinal de Nikolajs. Achei estranho e comentei à minha mãe, que me respondeu emocionada: “Meu pai sempre falou que este era o apelido dele!” Mal sabia eu que Koļa é o diminutivo de Nikolajs. Outro ponto que divergia das informações anteriores eram os nomes dos meus bisavós: Karoline Butkus Kavaliere (nascida na Lituânia) e Francis Fridrihs Kavalieris (nascido na Letônia). A partir desta Certidão, finalmente, eu tinha todos os documentos que precisava para enviar a minha solicitação da cidadania leta.

   O Cartão de Imigração que havia encontrado tinha outra pista muito importante: o local da última residência de meu avô – Bad Salzuflen, no norte da Alemanha. Esta observação me deixou quase certo de que meu avô tinha sido um soldado Legionário Leto que teve que fugir dos soviéticos e acabou em um Campo de Refugiados na Alemanha no final da guerra. Ele tinha apenas 17 anos em 1943, quando os alemães forçadamente recrutaram jovens letos para lutar contra o exército vermelho. Depois, acabei perguntando sobre isso à minha avó, que me confirmou que ele teve um breve momento no exército alemão durante a guerra, sem mais detalhes.

   Os Legionários da Letônia lutaram contra os russos e, após a guerra, conseguiram fugir da repressão soviética. Eles foram parar, em grande parte, na Alemanha, Áustria e Itália. Ao serem rendidos pelos Aliados, foram condenados a viver em exílio por longos anos. A terra natal estava perdida e, muitas vezes, os amigos e familiares também. Em 1947 a UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Administration) igualou os Legionários da Letônia aos soldados da Wermacht, forças armadas alemãs. Contudo, os Legionários letos não participaram de nenhum crime de guerra.

   Em 1950, o Congresso dos Estados Unidos declarou que as Unidades Bálticas da Waffen SS combatiam por ideologias, operações e objetivos próprios, e deveriam ser consideradas especiais, separadas das unidades da SS alemã. Os letos estavam organizados em 2 divisões da SS. Na época, o General das Forças Norte-Americanas, Coronel Whitton citou: “É difícil entender ou descrever o que ambas as unidades letas alcançaram face a esmagadora vantagem russa… Palavras não podem expressar o que eu quero dizer, mas diante destas duas corajosas divisões, eu curvo a minha cabeça.”

   Os letos que entraram voluntariamente na SS (fala-se em 20% do total de recrutas) tinham a esperança de se livrar dos russos. Eles não lutaram do lado dos Aliados pois temiam que estes ajudariam os russos a se manterem no controle. Já os que lutaram com os soviéticos, tinham a ilusão de que, uma vez terminada a guerra, uma vez expulsos os alemães, eles estariam livres novamente e os russos assegurariam a liberdade da Letônia. Mas aproximadamente 80% dos jovens envolvidos, de ambos os lados, estavam lá contra a sua vontade. Infelizmente, o resultado foram ilusões vindas de todos os lados e milhares de jovens vítimas.

   E o meu avô? Como ele conseguiu sobreviver a tudo isso, terminando seus dias na Europa em território alemão? Essa resposta demanda mais investigação e, talvez, nunca terei certeza sobre ela. Entretanto, o documentário “Latvian Legion” (com legendas em inglês no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=MHtcgaeC4T8), roteirizado pelo historiador Uldis Neiburgs, me deu uma boa ideia do que poderia ter acontecido. Em um momento do filme, um recruta da legião, Ilgonis Dambitis, conta como em 1944 eles receberam ordens de mobilização do exército alemão. Ele diz que perguntou a seu pai se era melhor fugir para a floresta ou ir junto com o exército. Por fim, ele acabou indo com o exército, receando retaliações contra ele ou sua família, e foi levado para a Alemanha de navio. Partindo pelo rio Daugava, cantaram “Dievs, svētī Latviju” com lágrimas nos olhos.

   Após a rendição da Alemanha pelos Aliados, as pessoas deslocadas pela guerra foram organizadas em campos de refugiados. Muitos do leste-europeu não puderam voltar aos seus países de origem, pois teriam que enfrentar o tratamento das autoridades soviéticas. A Alemanha, neste período, ficou dividida sob o controle da Grã-Bretanha ao norte, Estados Unidos ao centro, França ao sul e URSS ao leste.

   Por conta da cidade de Bad Salzuflen estar na Zona Britânica de controle, pesquisei documentos do Arquivo Nacional da Inglaterra (http://www.nationalarchives.gov.uk/). Um deles, um relatório sobre um campo de refugiados, descrevia que seus internos eram treinados em diversas profissões, como carpintaria, mecânica de carros, costura e engenharia elétrica, antes de serem realocados para outro país. Deve ter sido aí que meu avô aprendeu suas habilidades como mecânico.

   Tentando encontrar parentes vivos na Letônia, entrei em contato com Lauris Olups – Detetive de Famílias (http://familydetective.lv/). Ele conseguiu achar algumas pessoas, mas não obtive um retorno significativo delas. A princípio, não sabia se realmente eram relacionadas ao meu avô, apenas que o sobrenome Kavalieris não era muito comum na Letônia.

   Mas aí veio mais uma dúvida: se não era comum, qual era a sua origem? A principal hipótese que veio a mim é que o nome teve origem nos Cavaleiros Teutônicos, que dominaram a região entre os séculos XIII e XV e, dentre outras coisas, fundaram a cidade de Riga. Associei a palavra cavaleiro a Kavalieris, mas não tenho nenhum registro que confirme isso.

   Também descobri que alguns Kavalieris da Letônia foram extraditados para a Austrália em um navio saindo de Nápoles, na Itália, durante o pós-guerra. Tentei contato com eles, sem resposta. Identifiquei até um “semi-homônimo” meu, Andrejs Kavalieris, soldado da artilharia leta na Primeira Guerra Mundial e nada muito além disso.

 Após algum tempo, o detetive de famílias comunicou que conversou com um rapaz que disse já ter sido abordado por mim alguns anos antes (dado que me passou desapercebido) mas que, na época, havia sido orientado a nunca falar sobre os assuntos da família com um estranho. Depois disso, ele entrou em contato com uma jovem cuja bisavó tinha o mesmo nome que a minha. Ela chegou a me escrever dizendo simplesmente: “Sveiks!” (olá, em leto). Eu, por outro lado, escrevi um longo texto me apresentando e contando minha história. Porém, após escrever, só obtive silêncio.

Em paralelo às tentativas de contato com meus possíveis parentes, minha avó me entregou uma pilha de cartas que meu avô recebia de seus familiares da Letônia. Não havia mais dúvida, as pessoas que encontramos e as cartas eram do mesmo lugar: Liepaja e a região de Grobina.

   As cartas tinham nomes e eu finalmente estava descobrindo quem eram os irmãos, irmãs e outros parentes de meu avô: Karlis, Rihards, Vilma, Rudis, Valija. Apesar de não falar leto e das ferramentas de tradução online terem suas limitações, eu digitalizei as cartas e comecei a traduzi-las. Elas me deram a impressão de que nem todas eram recebidas e que nem sempre as histórias ali escritas contavam a realidade por completo. Fora o usual “…todo mundo manda oi!”, era comum encontrar frases como “…está tudo bem…”, “…nós estamos todos empregados…”, “…você não tem que se preocupar com nada…” e “…nós não recebemos notícias de você em tanto tempo!”.

   Mencionei sobre essa impressão com a Sra. Cônsul Daina Gutmanis e ela me disse que fazia sentido. Naquela época as pessoas na URSS não podiam dizer nada de mal sobre a situação em que viviam, já que todas as comunicações eram primeiramente lidas pelas autoridades soviéticas antes de chegarem ao seu destino – quando chegavam – e qualquer palavra mal escrita poderia acarretar em sérias represálias.

   As correspondências recebidas por meu avô eram sempre muito emotivas e a família parecia ser próxima. Tenho tentado descobrir se algum dos irmãos e irmãs de Koļa ainda estão vivos, mas, até o momento, não encontrei respostas.

   Durante minha extensa pesquisa, acabei me comunicando com o Arquivo Nacional Brasileiro (http://www.arquivonacional.gov.br/), o que resultou na descoberta do nome do navio que trouxe meu avó para o Brasil: General Stuart Heintzelman, procedente de Bremen. Este era um navio da Marinha Norte-Americana que levou milhares de pessoas de toda a Europa, partindo da Alemanha para o Canadá, EUA, Brasil e Austrália. O documento também mostrava onde meu avô foi deixado no país: a Ilha das Flores. Este era o principal ponto de chegada dos imigrantes no Rio de Janeiro.

O navio da marinha americana General Stuart Heintzelman

   Não sei exatamente quanto tempo Koļa ficou neste lugar, mas é certo que ele foi enviado para trabalhar em uma fazenda em São Bernardo do Campo chamada “Sítio Manaaí – Wilson Russo CIA.”, mais uma informação fornecida pelo Arquivo Nacional e confirmada pela minha avó.

   Koļa não falava uma palavra em português e foi aprendendo, aos poucos, lendo os jornais locais e a Bíblia.

   Após trabalhar na fazenda, ele se mudou para São Paulo, cidade que efervescia de oportunidades de emprego nos anos 50. Lá conheceu a minha avó e se casou em 1951. Durante este período, existia uma certa facilidade para a compra de terras. A Vila Zelina , na região da Vila Prudente, era um destes lugares em São Paulo. Até hoje, lá é um dos locais com maior concentração de imigrantes do Leste Europeu na cidade, e onde é celebrada, no primeiro domingo do mês, uma feira de artesanato e comidas tradicionais. Outras cidades emergentes também eram um destino atrativo. Koļa acabou indo para São José dos Campos, onde construiu sua casa, abriu sua oficina mecânica e criou sua família. Meu avô era muito respeitado na cidade por seu trabalho e ética, e tinha como principal lazer levar minha mãe e seus seis irmãos às praias do litoral norte.

Propaganda de terras para a Vila Zelina

   Koļa manteve contato com a comunidade leta no Brasil em Nova Odessa e Varpa. Mas, apesar das cartas que trocava com seus parentes na Letônia, não tinha nenhum contato verbal com a sua família. Dentre as correspondências recebidas, datadas entre 1947 e 1991, estavam algumas de um primo que acabou indo para o Canadá. Por coincidência, meus pais moraram no Canadá em 1984 e localizaram este primo, Žanis. Em uma visita deles a Žanis, meu avô, após quase 40 anos, pôde ouvir a voz de um membro de sua família por telefone. Sem dúvida foi um momento de muita comoção.

   Tentei achar algum contato atual deste primo durante muito tempo, sem encontrar.

   Enquanto pesquisava essas histórias, em Novembro de 2015, meus documentos para o passaporte foram aprovados pela Letônia. Enfim fui notificado sobre a confirmação da minha cidadania leta e meu objetivo havia sido alcançado!

Minha conquista. No Consulado da Letônia no Brasil

   Certo dia, assistindo a um jogo dos Cleveland Cavaliers na NBA pensei em pesquisar por Žanis Kavaliers e não Kavalieris e acabei encontrando a foto de seu túmulo no Canadá. Olhei novamente os envelopes das cartas trocadas e, em alguns, o nome realmente estava escrito desta forma: “Kavaliers”.

   Contei a história de Žanis para uma tia, que também já havia tentado contato com possíveis familiares na Letônia. Ela já tinha ouvido falar sobre ele por intermédio de um jovem com quem se correspondia há três anos. Lembram daquele rapaz que não podia falar sobre assuntos de família com estranhos? Pois é, descobrimos que Žanis era seu bisavô. Depois dessa revelação, o bisneto finalmente me ligou.

   Conversamos por uma hora e ele me contou que sua bisavó sempre procurou saber sobre o paradeiro de Žanis, que havia partido e nunca mais voltara. Aparentemente, ele e a bisavó do rapaz se encontraram na Alemanha por algumas vezes no pós-guerra, mas ela acabou voltando para a Letônia, enquanto ele foi para a Inglaterra. Pesquisando na internet, acabei achando o cartão de imigração dele da Inglaterra para o Canadá, em 1955.

   Assim como Žanis, Koļa nunca pôde voltar para a Letônia. Minha mãe me disse que ele costumava dizer: “…quando for possível para eu voltar para a Letônia, você vai comigo?”.  É claro que ela iria, mas em 1991 ele teve câncer de pulmão. Meu avô viveu o suficiente para ver seu país ficar independente da URSS, mas já não tinha forças para voltar e acabou falecendo em dezembro de 1991.

Trabalhadores da fazenda em São Bernardo do Campo. Meu avô Nikolajs está no topo esquerdo

   Toda essa história, coroada pelo sucesso na obtenção da minha cidadania leta, acabou me abrindo novas portas de relacionamento, além de ter gerado em mim um sentimento genuíno de nova identidade, sendo uma fonte de inspiração e efervescência criativa.

   Como sou formado em comunicação e estou planejando fazer um mestrado em Escrita Criativa na Europa, resolvi fazer contato com o jornal “The Baltic Times”. Perguntei se eles teriam o interesse em receber matérias da América Latina com foco nos temas Bálticos. A resposta foi positiva e logo fiz contato com Felipe e Renate Albretch, da Associação Brasileira de Cultura Leta (ABCL), para levantar dados sobre as matérias que enviaria para o jornal.

   O primeiro artigo que escrevi foi sobre a imigração dos Letos no Brasil (que pode ser lido em inglês aqui). Já a segunda matéria, fala sobre a imigração dos letos na Argentina. Fui recentemente a Buenos Aires a negócios e aproveitei a oportunidade para fazer contato com o pessoal do Consulado leto na cidade. Fui recebido pelo Coordenador Social, Dr. Andrés Ozols e ele me contou um pouco sobre a imigração por lá. Terminei o agradável café recebendo um presente especial,  um livro escrito por seu pai, contando sobre a imigração dos letos na Argentina, Uruguai e Chile, e alguns exemplares de um boletim informativo sobre as atividades da comunidade leta na Argentina.

   Como o Dr. Ozols também é professor de física na Universidade de Buenos Aires e membro da Câmara de Comércio do Rio da Prata e de Riga, promove intercâmbios de alunos para a RTU (Universidade Técnica de Riga), criando uma relação estreita entre as comunidades estudantis leta e argentina.

   O artigo sobre os letos na Argentina saiu em uma página inteira no jornal, mas como a matéria foi publicada apenas em mídia impressa, disponibilizei o texto também na internet neste link: http://bit.ly/1SC8g25

   Como o contato com ABCL tem sido muito proveitoso, me convidaram para escrever para a revista Raksti. Claro que aceitei e com o maior prazer! Espero que esta seja a primeira de muitas histórias que lhes contarei.

   Minhas descobertas sobre a Letônia e o apego por minha história familiar me fazem participar, sempre que possível, das programações da ABCL. Estou gostando muito das aulas de leto, dadas pela Renate Albretch, que têm ocorrido em São Paulo quinzenalmente. Nos meus planos de estudos na Europa está programada uma visita à Letônia e, um pouco mais próximo do que esta viagem, está a comemoração do Ligo, no dia 18 de Junho em Nova Odessa, da qual certamente farei parte.

   Apesar de estar no meu sangue desde sempre, hoje posso dizer que a Letônia faz parte de mim! Me sinto cada vez mais envolvido com a cultura do país e com as pessoas. Um pedaço do quebra-cabeça da minha história está se encaixando e novidades ainda estão por vir.

13ª eleição para o parlamento Leto – Outubro de 2018

Como e porque devemos votar
A partir de informações compiladas por Ivars Ījabs, um analista político independente da 
Associação dos Letos Livres do Mundo. (PBLA)
A próxima eleição parlamentar nacional da Letônia ocorrerá no dia 06 de outubro.
A Letônia é um país democrático, assim cada cidadão tem o direito de votar nas eleições.
Em contraste com os países onde as  eleições são parlamentares e presidenciais separadas, a Letônia tem apenas uma eleição nacional, que determina o curso do governo para os próximos quatro anos. A eleição nacional da Letônia decide quais candidatos e partidos formarão o próximo governo (Saeima), eleito, o Saeima escolhe o presidente.
O sistema de votação Leto é único e a lista de candidatos e partidos é longa. É muito importante votar, pois os votos da Letónia no estrangeiro formam uma parte substancial do eleitorado. Na Letônia, onde a votação não é obrigatória, cada voto pode fazer uma grande diferença!
O parlamento (Saeima) é composto por 100 assentos  compostos pelas 5 regiões de eleitorado; cada região possui um número de assentos proporcional à população daquela região.
As regiões são Latgale, Kurzeme, Vidzeme, Zemgale e Riga. Mudanças na distribuição da população resultam em uma redistribuição. Para a próxima eleição, os números são:
Latgale (14), Kurzeme (12), Vidzeme (25), Zemgale (14), e Riga (35).
Desde as eleições anteriores, as três primeiras regiões perderam um lugar, enquanto Riga ganhou 3. Esta mudança pode ser explicada pelo fato dos votos dos letões residentes no estrangeiro estarem incluídos no eleitorado de Riga. Houve uma onda de emigração econômica nos últimos quatro anos.
Foi calculado que os letões estrangeiros têm o potencial para decidir 8 dos 100 assentos.
Isto pode fazer uma contribuição crítica para a formação e o tom do próximo governo da Letônia.
                        
O sistema de votação é baseado nas preferências partidárias. Há um boletim de voto separado para cada partido. Cada eleitor recebe um envelope de voto e vários boletins de voto, um para cada um dos participantes. O eleitor escolhe um dos boletins de voto, que é depois colocado no envelope e na urna. Os boletins de votos restantes são descartados. Antes de colocar o boletim de voto escolhido no envelope e na urna, o eleitor pode marcá-lo para indicar preferências entre os candidatos listados; isto influenciará se um determinado candidato na folha de preferência do partido realmente acaba com um assento no Saeima.
Um sinal de mais ao lado do nome do candidato indica um deslocamento positivo para esse candidato, uma linha através do nome do candidato move o candidato para baixo na lista.
Os que estão no topo da a lista entram no “Saeima”.
           
Partidos políticos
Existem muitos pequenos partidos políticos na Letônia. Para serem incluídos na eleição, os partidos devem  ter pelo menos 500 membros e já terem sido formados há 1 ano antes da data da eleição. Para entrar no Saeima, um partido político tem que pesquisar pelo menos 5% dos votos.
Para aumentar as chances de os candidatos de um pequeno partido ganharem assentos no Saeima, eles acordam com outro pequeno partido (ou partidos). Quando isto acontece, e uma parte combinada é formada, é interessante conhecer as políticas e ações de suas partes constituintes, antes de tomar uma decisão. A lista de candidatos para a eleição será finalizada no final de julho.
Aqui segue um breve resumo dos principais partidos. É mais provável que os principais intervenientes na próxima eleição letã sejam três partidos que já têm um histórico.
Estes são:
•    Social-democrata “Saskaņa”, 
•  “Zaļo um Zemnieku Savienība ”[ZZS] (União dos Agricultores Verdes) 
•  “Nacionālā Apvienība” (União Nacional) 
“Saskaņa” ocupa o maior número de assentos no parlamento desde 2010, mas não faz parte do governo. A principal base de apoio de “Saskaņa” é a população falante do russo da Letônia, mas também ganha votos de letões étnicos. O partido é ideologicamente diferente de todos os outros à medida que é contra o Letão ser a oficial língua da Letónia; tem uma postura pró-
soviética sobre a ocupação da Letônia e tem tendências geopolíticas pró-russas. Devido
a estas diferenças ideológicas básicas, é altamente improvável que “Saskaņa” seria capaz de formar uma aliança com qualquer uma das outras partes, por isso é mais provável que eles voltem a estar na oposição nesta eleição.
Zaļo un Zemnieku Savienība (ZZS) é atualmente o principal partido de governo da Letônia. Tem as suas raízes em áreas regionais fora de Riga e muitos dos seus candidatos são políticos do governo local. Este partido não tem uma base ideológica específica, mas confia no desejo pós-soviético por um “bom e honesto administrador” e também tem a
capacidade de atrair candidatos populares. Como o principal partido político no atual governo, ele foi responsável por iniciar as recentes reformas na área tributária e de saúde. Apesar de alguns de seus membros flertarem com a retórica antiocidental e antiamericana, é pouco provável
formar uma coalizão com “Saskaņā”.
A base de apoio para Nacionālā Apvienība é aquela para quem o letão-russo considera o
relacionamento de extrema importância. NA ostenta uma série de políticos populares e seus apoiantes parecem despreocupados com o crescente número de alegações de corrupção, nivelados com seus representantes.
“Vienotība” ganhou o segundo lugar nas eleições anteriores, mas agora caiu para 3-4% em classificações; portanto, poderiam estar completamente fora do próximo governo. Esta queda de classificações pode ser explicada pela incapacidade do partido de superar suas diferenças internas. Perdeu uma faixa de políticos, mas manteve um número de candidatos experientes e populares que trazem consigo uma sólida base de apoio. As políticas de “Vienotība” são européias, centradas e tecnocráticas. Não há garantia de que eles terão apoio suficiente para obter
assentos no próximo Saeima.
“Jaunā Konservatīvā partija” tem muito em comum com “Vienotība”. Seu foco atual é
anti-corrupção, que ele está buscando efetivamente. JKP não é um novo partido, mas foi vitalizado por candidatos novos e enérgicos, incluindo os defensores dos direitos humanos. Apesar de sua energia e excelentes habilidades de comunicação, eles não têm experiência política.
“Attīstībai / Par” é um novo partido, na esperança de atrair o eleitorado liberal de “Vienotības”. É liderado por políticos competentes, com experiência no governo. É apoiado predominantemente por eleitores jovens, educados e orientados para a Europa. As fraquezas deste partido são que
alguns de seus políticos são contaminados por relações públicas anteriores e que a esquerda ocidental nas políticas são muito populares na Letônia.
O KPV.LV é basicamente um partido de um homem só, liderado por Artus Kaimiņš.
Ele baseou sua carreira na política em apontar as falhas da elite existente do sistema, mas ainda está para fornecer políticas alternativas para lidar com essas falhas.
Latvijas Reģionu apvienība (União Regional da Letónia) é um aliado independente do ZZS,
que também atraiu alguns candidatos interessantes.
Latvijas Krievu savienība (União Russa da Letônia) é um partido abertamente pró-Moscow, que atrai o setor pró-russo radical do eleitorado. Este partido vê “Saskaņa” como sendo muito ocidental e conformista.