Cônsul da Letônia no Brasil Daina Gutmanis é condecorada na Letônia

Nesta sexta-feira, 03 de maio de 2019, a Cônsul Honorária da Letônia no Brasil, Dra. Daina Gutmanis, recebeu a Cruz de Reconhecimento (Atzinibas Krusts), de IIIª categoria pelo seu trabalho em prol da Letônia. A condecoração ainda ocorreu junto com a chegada da Bandeira Leta Viajante, a bandeira que percorreu o mundo no centenário da Letônia e terminou sua viagem nas mãos de Gutmanis, no dia 18 de Novembro de 2018.

A cerimônia da chegada da Bandeira ocorreu no Museu de História da Letônia, que será a casa definitiva da bandeira. Em seguida, a condecoração da Cônsul ocorreu no Castelo de Riga, sendo entregue pelo presidente da Letônia, Raimonds Vējonis.

Biografia

Daina Gutmanis nasceu em 08 de abril de 1958, em São Paulo – SP, filha de pais  vindos da Letônia como refugiados de guerra. Desde jovem sempre participou de atividades culturais letas, como exposições e datas comemorativas. Após participar num acampamento da juventude leta 2×2 nos EUA e em outro na Venezuela, ficou entusiasmada com o que aprendeu e junto com outros jovens letos latino-americanos resolveram fundar em 1977 a DLJA – Associação dos Jovens Letos da América do Sul e a BRALJA – Associação dos Jovens Letos do Brasil.

Em 1979 ajudou a organizar o primeiro acampamento de cultura leta no Brasil chamado “Saulaine”, realizado em Nova Odessa – SP, no qual participou a Sra. Vaira Vike-Freiberga como professora, sem imaginar que um dia ela viria a ser a Presidente da Letônia depois de 20 anos! Também ajudou a organizar a escola leta aos sábados na Igreja Luterana Leta de SP e ingressou na Corporação Estudantil Imeria de universitárias letas.

Daina Gutmanis (sentada, 3ª a direita) em uma reunião da DAKLA.

Na vida profissional, formou-se Engenheira Agrônoma em 1981 pela ESALQ – USP. Obteve os títulos de Mestre em Nutrição Animal e Pastagens em 1990 e de Doutora em Biologia Vegetal em 2004. Concluiu em 2006 curso de Especialização em Direito Internacional e Relações Internacionais. Sua Tese de Doutorado recebeu em 2004 o Prêmio de Melhor Trabalho Acadêmico conferido pelo Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável.

Foi Pesquisadora Científica do Instituto de Zootecnia da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo de 1989 a 2013. De 2003 a 2009 exerceu cargo de Assessora de Pesquisa da Diretoria Geral do Instituto de Zootecnia e até 2013 coordenou um Grupo de Trabalho para implantação do Museu do IZ.

O Trabalho

Além das atividades profissionais ocupou vários cargos na Comunidade Luterana Leta de SP. De 2003 a 2010 foi secretária da ABCL – Associação Brasileira de Cultura Leta. Exerceu também o cargo de Presidente da DAKLA – Associação Leta da América do Sul e Caribe de 1997 a 2015, participando anualmente na Letônia da reunião da PBLA – Associação Mundial dos Letos Livres, onde são discutidas as necessidades de cada comunidade leta fora da Letônia.

Participou da comissão de organização da visita da Presidente da Letônia Vaira Vike-Freiberga a Nova Odessa em 2007,  do Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis em 2011 e do Ministro da Defesa Raimonds Bergmanis em 2016. Realizou a exposição de fotos “Imigrantes Letos” em 2008 no Memorial do Imigrante, em São Paulo, em comemoração aos 90 anos de Proclamação da República da Letônia. Ainda em 2008 recebeu Diploma e Homenagem do Ministério de Relações Exteriores da Letônia pelo significativo trabalho. Em 2009 recebeu o título de “Cidadã Novaodessense” da Câmara de Vereadores de Nova Odessa.

Tendo se aposentado do serviço público em 2013, foi nomeada Cônsul Honorária da Letônia no Brasil, cargo exercido sem qualquer remuneração. Tem auxiliado tanto brasileiros quanto estrangeiros na regularização de documentos, prestando informações sobre o Brasil e sobre a Letônia a quem necessite além de assistência a letos presos no Brasil (24 até o momento). Participa e apoia as inúmeras atividades da ABCL – Associação Brasileira de Cultura Leta visando preservar e divulgar a cultura leta no Brasil. Em 2016 recebeu Homenagem do CONSCRE – Conselho Estadual Parlamentar das Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Participa do Coral Leto do Brasil e incentivou a participação deste Coral pela primeira vez no grande Festival da Canção e Danças da Letônia ocorrido em julho de 2018 em Riga. Em comemoração ao Centenário da Proclamação da República da Letônia, foi uma das idealizadoras e executoras do I Festival de Cultura Leta no Brasil, realizado em Novembro de 2018 em Nova Odessa e Americana – SP.

Em 08 de abril de 2019, por decisão da comissão presidencial das mais altas condecorações nacionais concedeu a Daina Gutmanis pelo trabalho relevante realizado para o bem da Letônia  a Cruz de Reconhecimento (Atzinibas Krusts), III categoria. Daina foi nomeada  Comandante da Ordem da Atzinibas Krusts.

 

A República do Mar

Normalmente quando se pensa em dias importantes para a Letônia, datas como o 4 de maio ou 18 de Novembro vem à mente – cada uma com seu devido mérito. Apesar do pequeno amor público pela data – e nem contar no calendário de feriados – 16 de Abril é o aniversário de um jogo de intrigas políticas, traições e um golpe de estado que definiriam o rumo da Letônia e da Alemanha.

Por três anos a Letônia foi linha de frente entre o império Russo e a Alemanha, dividida por trincheiras e assolada por destruição. Desde 1915 o lado sul do Daugava estava quase inteiramente em controle alemão, enquanto os letos e russos lutavam para evitar que a infantaria teutônica atravessasse o rio.

Soldados letos em trincheiras, no inverno de 1916.

Repentinamente – para os soldados nas trincheiras –  o Czar e o governo imperial russo foram derrubados por uma revolução socialista em 1917. Quase da noite para o dia, a Rússia sai da guerra e assina um tratado de paz com a Alemanha, em  março de 1918,  cedendo todo o leste europeu. Agora parte da região conhecida como Ober Ost, a Letônia estava sob um regime de ocupação militar alemã. Entretanto, Isso veio por terra em 11 de Novembro de 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial e a rendição do Império Alemão. Agora, toda a região acabava de se tornar uma terra de ninguém.

A Invasão Soviética

Em 18 de Novembro de 1918, o Conselho do Povo (Tautas padome) – até então uma organização clandestina formada por diversos grupos políticos letos – declarou a independência da Letônia. O Governo Provisório da Letônia tinha  Karlis Ulmanis como primeiro-ministro e Janis Čakste como presidente. A declaração foi bem vista aos olhos da comunidade internacional – principalmente dos vencedores da guerra, França e Inglaterra – entretanto, a Alemanha e a recém-criada União Soviética estavam determinadas a recuperar as terras perdidas. A todo custo.

No dia 1º de Dezembro de 1918, a União Soviética invadiu a Letônia. O Governo Provisório ainda não possuía exército e as tropas soviéticas avançaram rapidamente, capturando todas as cidades até Riga em 3 de Janeiro de 1919. A ameaça fez com que a Inglaterra e França assinassem um acordo com a Alemanha derrotada para manter as suas tropas na Letônia – e assim impedir que a União Soviética avançasse para o coração da Europa. Após 4 anos como inimigos, a Alemanha e a Letônia agora estavam em uma aliança frágil.

Em Laranja, o território controlado pela Letônia e Alemanha, em Rosa, pela União Soviética.

Em fevereiro de 1919, o território sob controle da nova aliança estava restrita apenas a região de Liepaja, mas logo o Governo Provisório começou a mobilizar o exército leto. No sul, foi formada a Primeira Brigada, sob comando do general Oskars Kalpaks. Ao norte, com ajuda do governo da Estônia (também lutando contra os bolsheviques), a Segunda Brigada Independente foi formada com refugiados letos.

A Primeira Brigada e as tropas alemãs, começou o contra-ataque em 3 de Março de 1919, reconquistando quase todo o sul até o final de março. Todavia, no dia 6 de março, um sentinela alemão confundiu o general Kalpaks com um soviético, e ele foi morto a tiros. Kalpaks foi substituído pelo general Janis Balodis, mas a precária aliança se esvairava.

As Caveiras Alemãs

Ao mesmo tempo, a nobreza alemã começou a tramar para derrubar o novo governo leto. Para eles, a ideia de perder as terras e riquezas nas terras bálticas, que possuíam há quase 800 anos, era algo inadmissível. Segundo as próprias memórias do General Goltz:

Também deve ser levado em conta que a elite alemã local assume uma posição que reflete sua história, bem como seu significado econômico e espiritual, sem o qual nada de uso teria vindo desse país selvagem. […] Uma Rīga e Jelgava governada por letos era algo impensável, reacionário

Rüdiger von der Goltz

Essa força criada pela elite alemã local ficou conhecida como Baltische Landeswehr, subordinado ao VI exército alemão, sob comando do infame general Rüdiger Von der Goltz. As fileiras logo foram enchidas com mais soldados alemães, muitos que voltaram para casa após a primeira guerra mundial e estavam desempregados, outros, movidos pelas promessas de terras e riquezas. Logo também chegaram as milícias paramilitares Freikorps, ex-soldados que haviam se tornado mercenários.

Insignia da Divisão de Ferro, a Freikorps na Letônia

O General Goltz planejou um golpe meticuloso. A princípio, ele espalhou rumores de uma suposta insurreição bolchevique que logo ocorreria em Liepāja. Para evitar isso, unidades voluntárias de soldados alemães foram trazidas para a cidade, comandados pelo jovem (e radical) tenente Barão Hans von Manteuffel.

Em 13 de abril, em Liepāja, soldados alemães começaram a provocar os letos com o objetivo de causar confrontos armados. Goltz tinha um plano único – com tiroteios começando na cidade, ele teria o direito de usar suas forças para “garantir a ordem pública”, o que significaria desarmar as unidades letas e prender o governo depois de considerá-lo “bolchevique”. Mas os soldados letos não responderam à provocação dos alemães e o dia 16 de abril começou com um clima de suspense.

Goltz sabia que a possível resistência letã ocorreria em Kurzeme e Zemgale, onde estavam cerca de 4 mil soldados letos. A brigada do coronel Jānis Balodis era a unidade mais forte, mas ela estava na frente de batalha, em Kalnciems. No início de 16 de abril, o major alemão Alfred Fletcher passou o dia inspecionando as posições da Brigada. O chefe político de Landeswehr também chegou inesperadamente no mesmo dia, enquanto um pastor alemão se encarregava de liderar o culto. O coronel Balodis e seus soldados deveriam ser monitorados durante o golpe.

Soldados da Freikorps em 1919.

O Governo Provisório Escapa

Aleksandrs Plensners, um oficial de alta patente do Exército da Letônia, relembra o dia:

Quando nos apressamos a trabalhar no dia 16 de abril, a cidade parecia estranha. tanques de guerra pesados , prontos para disparar a qualquer momento, estavam passando pelas ruas. Foi a mesma cena que havíamos visto em Liepāja quando Goltz desmantelou o conselho dos soldados. Um trem blindado estava estacionado ao lado da ponte, com armas viradas contra a sede do governo, tentei ligar para Durbe, Aizpute, Jegava, nada, as comunicações foram cortadas.

Fui ao Primeiro Ministro relatar isso. Ādolfs Bļodnieks, um ajudante-de-campo das forças armadas, correu para dentro dizendo que o batalhão Foefer havia atacado seu quartel-general, matando soldados, com desarmamento e prisões sendo realizadas. Ele tinha saído e correu para informar isso. Entramos no escritório do Primeiro Ministro. (Ulmanis) diz imediatamente: “Vamos” e me pediu para levar outros oficiais bem armados comigo.

Então fomos, Ulmanis, o médico [Mielis] Valters, o coronel [Zamels] Adienis, eu, bem como Lūkins e Bļodnieks. Quando saímos, Ulamnis perguntou se tínhamos alguma arma. “Sim, nossas pistolas eram visíveis”.

Por volta das 13 horas, Ulmanis e sua comitiva foram ao general Goltz e passaram 90 minutos em discussões acaloradas, mas infrutíferas. Durante este tempo, as unidades alemãs realizaram um golpe atacando unidades do exército letão e instituições do Estado. Os autores mataram alguns soldados letões e desarmaram algumas centenas de soldados. Ulmanis conseguiu escapar, mas os alemães prenderam o Ministro do Interior Miķelis Valters e o Ministro da Agricultura Jānis Blumbergs. Vários membros do Conselho do Povo da Letônia foram presos, juntamente com o prefeito de Liepāja, Ansis Buševics. Paradoxalmente, os alemães conseguiram deter os ministros com os quais Goltz simpatizava, mas aqueles que ele achava que eram germanófobos – Jānis Zālītis e Jānis Goldmanis – conseguiram escapar.

O ministro da Defesa, Jānis Zālītis – que estava voltando da frente naquela época – foi avisado sobre o golpe em uma estação de trem. As unidades militares da Letônia sob o comando do Coronel Jānis Apinis estavam se preparando para a batalha. Os letões conseguiram afastar o ataque alemão contra Durbe em 17 de abril.

A República do Mar

Os ministros do governo que conseguiram escapar subiram a bordo do barco a vapor de Saratov, estacionado no porto. Durante dois meses e meio, todo o território da República da Letônia era apenas o convés de um pequeno navio navegando no báltico, por vezes referida como a “República do Mar”. De lá, o governo coordenava o contra-ataque.

Após o golpe, o chamado “Comitê de Segurança do Exército da Frente de Pátria” assumiu o poder, liderado pelo o promotor Oskars Borkovskis e Andrievs Niedra, mas ninguém se enganava que por trás isso estava o general Goltz.

Entretanto, as coisas começaram a falhar conforme Goltz se emaranhava em tentar fazer  o novo governo viável. Ao mesmo tempo, tentava publicamente se afastar do golpe (e das condenações da Inglaterra e França). Além disso, o general Balodis recusava se render e manteve sua lealdade ao Governo Leto, logo também o comandante alemão Lieven.

Depois de estabelecer o novo governo, Goltz estava finalmente em condições de realizar um ajuste de contas contra as unidades de Apinis perto de Liepāja. Ele enviou tropas para supostamente “reprimir uma revolta”. Em 28 de abril, os alemães invadiram Rudbārži e Skrunda, com o coronel Apinis preso. Em 30 de abril, o último bastião, Durbe, foi ocupado, significando que o golpe estava completo. Logo as unidades alemãs avançaram sob outras cidades, eliminando nacionalistas letos e outros elementos “perigosos”, chegando a quase 3 mil execuções em Riga apenas. Ironicamente, o Barão Manteuffel morreu antes de conseguir entrar na cidade.

Após capturar Riga, o exército alemão – ao invés de seguir para o leste e combater os soviéticos na Letônia, conforme a Inglaterra e França esperavam – decidiu rumar norte, contra a Estônia e a Segunda Brigada leta. Essa mudança fez com que a comunidade internacional percebesse que os objetivos alemães no báltico era de conquista, ao invés de combater os soviéticos.

As tropas alemãs seria derrotadas pela Estônia e a Segunda Brigada em Cesis, no dia 19 de Junho de 1919. Abrindo caminho para a batalha mais decisiva da guerra da independência, o Lāčplēša diena, em dia 18 de Novembro de 1919.

Conclusões

Goltz, ao centro, em 1918.

O golpe do dia 16 de Abril foi decisivo para a história da Letônia. Havia ficado claro para todos que a recém-nascida Letônia iria lutar uma ferrenha guerra para se manter viva, seja contra a União Soviética, seja contra a Alemanha – ganhando respeito da comunidade internacional. Além disso, os próprios letos começaram a ver em seu governo um espírito resiliente e passaram a expressar seu apoio inabalável e logo foram tomando em armas para defender a independência da Letônia.

A Alemanha e seus aliados ficaram presos em um lamaçal político na Letônia até sua total derrota em 11 de Novembro de 1919. Muitos dos mercenários voltaram para casa de mãos vazias, insatisfeitos, e violentos. Para os alemães, o leste europeu era uma terra de ninguém que deveria ser conquistada – ou exterminada. Muitos dos soldados que participaram do golpe depois se tornaram oficiais nazistas, e a mentalidade de invadir a região veio a se tornar a Lebensraum de Hitler.

Quase 20 anos depois, ambas União Soviética e Alemanha nazista invadiriam a Letônia, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Lieldienas – A Páscoa Leta

Páscoa é uma época do ano amada na Letônia. Durante o período, várias pessoas de diferentes idades, etnicidades e credos religiosos se reúnem para celebrar de sua própria forma. Os letos geralmente atendem o culto no domingo pela manhã e passam os próximos quatro dias do feriado visitando amigos e família.

Em leto, a páscoa é chamada de Lieldienas (em tradução literal, “Grandes dias”) – um jeito de chamar a chegada da primavera nas canções folclóricas.  Segundo as tradições, quando chega a páscoa, os dias passam a ser mais longos que as noites – sendo uma vitória simbólica da luz contra as trevas. Durante os séculos muitas tradições surgiram comemorando essa passagem.

Antigamente, na manhã da páscoa, era costume acordar antes do sol e lavar o rosto com águas de riachos que vão para o oeste, e em seguida reunir-se com a família para assistir o nascer do sol. Em vilas livônias as manhãs começavam com o acordar e chegada dos pássaros. Na Letônia, o feriado possui três dias: Sexta-feira da paixão, Sábado Santo e Domingo de Páscoa. A terça-feira anterior é chamada de “Terça-feira verde” por causa da palavra alemã “Gründonnerstag”.

Ovinhos decorados

Ovos de Páscoa

Famílias normalmente se reúnem para colorir seus próprios ovos de páscoa (olas), usando materiais naturais. O processo normalmente começa na noite anterior, com o preparo das tintas. É possível utilizar cascas de cebola, cebola roxa, alface, repolho – basta ferver em água por aproximadamente 15 minutos e deixar a água descansando.

Algumas ideias para colorir!

Em seguida, os letos saem pela natureza buscando flores, folhas, sementes, pedrinhas para decorar seus ovos. Primeiro o ovo é levemente molhado e então os enfeites são colocados em volta. Após isso, todo o conjunto é amarrado com um fio ou tecido fino (como gaze) e colocado para ferver na água preparada. A casca irá absorver a tinta, e a intensidade dependerá dos enfeites ao redor, criando desenhos.  Ainda é possível passar uma camada de manteiga ao redor do ovo, após esfria-los, para deixar o desenho mais brilhante.

Nós preparamos um vídeo explicando como você pode fazer seu próprio ovinho super rápido no Facebook. Dá uma olhada!

Brincadeiras de Páscoa

Há inúmeros jeitos de se divertir com os familiares e amigos na páscoa. Em Riga, muitas pessoas se reúnem no Museu Etnográfico ao Céu Aberto e se reúnem para cantar e brincar juntos. Lá é possível ver corridas de trenó, (afinal está acabando o inverno!), jogos de levar pedras com bastões e uma versão anciã de peões de madeira.

Além disso, famílias que prepararam seus ovinhos coloridos podem disputar em uma “batalha” amigável para ver quem possui o ovo mais resistente. Uma pessoa irá segurar o ovo na mão com força, enquanto a outra irá tentar quebrar o outro com o seu ovo. Ganha quem terminar com o ovo inteiro. Depois, é claro, todos estão livres para descascar e comer seus ovinhos cozidos.

Outra brincadeira comum para casais é se balançar em grandes balanços de madeira. Segundo o folclore, isso é para trazer boa saúde ao casal. Alguns letos, no entanto, brincam: é para afastar os mosquitos que chegarão no verão.

Cuidado para não cair.

As Mulheres que Construíram a Letônia

Todo mundo já leu ou ouviu falar que as mulheres letas são as mais altas do mundo (em uma média de 169.80 cm, superando os 168.72cm das holandesas). Talvez você também tenha lido que a Letônia possui um dos maiores índices de modelos per capita (ficando próximo de 4º lugar no mundo), e que as mulheres letas são muito bonitas. Isso tudo é verdade. Sim. Mas seria um engano achar que é só isso. Um erro muito grande.

A Primeira Poetisa

Infelizmente, durante o caminhar da humanidade, as mulheres receberam poucas menções nos livros de história (na Wikipédia, por exemplo, apenas 17.49% das biografias são sobre mulheres). O mesmo aconteceu na Letônia. Algumas fontes citam histórias sobre governadoras mulheres nas antigas tribos e místicas guerreiras, mas pouco se sabe. Após as Cruzadas do Norte, no final da Idade Média, as mulheres seriam sujeitas ao regime feudal, e seus direitos eram poucos – e assim seria por vários e vários séculos.

Mas isso veio a mudar com a Revolução Industrial. Aos poucos a servidão (o regime quase escravocrata ao qual os letos eram submetidos) foi formalmente abolida. Logo homens e mulheres estavam indo à escola, à universidade. Nas cidades, uma nova camada social surgiu. Esses recém-libertos camponeses logo ascenderam, tornando-se filósofos, engenheiros, pensadores e artistas letos.

A mais proeminente mulher dessa época foi Elza Rozenberga. Nascida em Jelgava, 1865, foi uma das primeiras escritoras e dramaturgas leta. Adotou o pseudônimo Aspazija antes de publicar seus primeiros poemas, em 1887. Após alguns anos, mudou-se para Riga. Lá lutou pela educação das mulheres e sua participação na política. As personagens de suas peças normalmente eram mulheres que ousavam criticar problemas sociais e defender seus direitos. Passou os anos de 1897 até 1903 em exílio na Sibéria.

“Aspazija” vem de Aspasija, uma influente e educada mulher da Grécia Antiga.

Após o seu retorno, se envolveu com grupos sociais-democratas. Após a revolução de 1905, suas obras foram vistas pelas autoridades como uma afronta ao Czar e precisou fugir com o seu amado (e igualmente famoso) poeta Rainis para a Suíça. Conseguiu retornar apenas em 1920, sendo eleita para a Primeira Assembléia Constituinte da Letônia. Faleceu em 1943 em Dubulti.

A Pequena Paris

O período entre-guerras foi especialmente favorável às mulheres letas. A Letônia foi um dos primeiros países do mundo a garantir o voto feminino, em sua constituição em 1918. Durante os anos 20, mais e mais mulheres tinham acesso à educação e passavam a trabalhar. Muitas iam direto à efervescente capital Riga, a “Pequena Paris” do norte. A art-deco estava em moda e logo surgia a figura da femme-fatale nos filmes noir. Nessa época, surgiram nomes internacionais de cinema como Elza Radziņa e Anta Klinte.

Mulheres aproveitando os verões em Jurmala, nos arredores de Riga.

 

Apesar da crise econômica, os anos 30 se iniciaram com mais força ainda. Riga entrou em sua “era de ouro” – que recentemente foi retradada no filme leto “Homo Novus”. Centenas e centenas de mulheres passeavam as ruas da capital, participavam de desfiles, se graduavam na universidade (A Letônia possuiu um índice altíssimo de mulheres médicas na época).

Isso tudo veio a acabar em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial. Logo a Letônia seria invadida e arrasada pela Alemanha Nazista e pela União Soviética, e infelizmente muito do que as mulheres vieram a conquistar foi perdido.

Mas não sem uma boa luta.

As Guerreiras

Algumas enfermeiras letas da Primeira Guerra Mundial.

A guerra não era algo incomum para as mulheres letas. Muitas já haviam participado durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e durante a Guerra de Independência (1918 – 1920). Fosse trabalhando nas fábricas, ou fosse atendendo feridos em meio às batalhas. Há até uma anedota qual mulheres letas enganavam os invasores alemães, apontando os caminhos errados pelas florestas.

Seja como for, quando a Segunda Guerra Mundial bateu às portas, muitas mulheres decidiram lutar. Quando os nazistas vieram, diversas mulheres se tornaram franco-atiradoras no 201º Regimento de Fuzileiros Letos. O combate se tornou ainda mais brutal com a volta do domínio soviético, que fazia de tudo para esmagar a resistência.

Franco-Atiradora na frente oriental.

Essas mulheres guerreiras permaneceram no imaginário popular, apesar da repressão soviética. Aos poucos surgiu uma lenda urbana na Rússia sobre franco-atiradoras mercenárias letas combatendo as tropas soviéticas na década de 80, as baltās zeķbikses (“Meias-Calças Brancas”). Real ou não, a lenda persiste até os dias de hoje, principalmente após o canal de televisão russo “Life” (Лайф) reportar as míticas franco-atiradoras na Ucrânia.

Além disso, após a guerra, o Reino Unido criou o programa “Baltic Swans” (Baltijas gulbēni) – com o objetivo de receber 5.000 doutoras e enfermeiras letas que estavam fugindo do domínio soviético. Esse episódio pouco conhecido da história leta aparecerá na série Sarkanais mežs, que estreará esse ano.

Atualmente

A Letônia ainda exporta muitos nomes femininos famosos – principalmente nos esportes. Elizabete Limanovska e Nava Starr são duas campeãs que seguram títulos de xadrez. Uļjana Semjonova (com imensos 2,15m de altura) dominou o cenário de basquete mundial durante os anos 70 e 80. Jeļena Ostapenko esteve nas notícias recentemente, ao conquistar o Grand Slam de Tênis.

Uljana Semjonova (atrás) roubando a bola da italiana Stefania Passaro.

Além disso, o mundo das artes é dominado por mulheres. A mezzo-soprano Elīna Garanča conquistou o mundo das óperas, enquanto a violinista Baiba Skride viaja continentes com Filarmônicas famosas. A diretora de cinema Laila Pakalniņa está sempre competindo em Cannes, Veneza e outros festivais. Outra estrela recente é a jovem de 16 anos Aleksandra Špicberga, que recebeu o prêmio de melhor vocalista da Europa em 2015.

Não podemos deixar de citar o crescente número de mulheres no poder. 56% das administradoras e gerentes da Letônia são mulheres, superando todos os países da Europa. Além disso, A Presidente mais famosa e amada da Letônia é uma mulher, Vaira Vike-Freiberga. O recém-eleito parlamento é 31% feminino, superando a média européia de 29,7%.

Nas ciências, as mulheres são 60% das estudantes de medicina (1º lugar da Europa), 52% das pesquisadoras e 65,2% das graduandas.

Vaira passou grande parte da sua vida no Canadá, após sua família fugir da União Soviética.

Se engana quem acha que as mulheres letas-brasileiras são muito diferentes. Não é a toa que o Grande Coral do I Festival de Cultura Leta foi dominado quase inteiramente por mulheres e regentes femininas. Elas também possuem uma boa bagagem na história do Brasil, mas isso é um artigo para outro dia…

Sveicam sieviešu dienā!

Resenha de Nameja gredzens: O Último Rei Pagão

     Em fevereiro de 2018 foi lançado um novo filme letão tratando de um tema de interesse garantido para qualquer um com laços com a Letônia: o anel de Nameisis, ou Namejs.

     Diz uma historieta popular na Letônia que no final do século XIII, por ocasião das cruzadas levadas a cabo pelos alemães no Báltico, Nameisis/Namejs, um rei dos Zemgálios – uma das tribos componentes do povo letão – usava um anel peculiar. Ao fugir dos alemães para as florestas do sul de Zemgale e no norte da Lituânia, todos os homens da tribo passaram a usar um anel igual, a fim de confundir os invasores. Com o tempo, o anel se tornaria um símbolo de etnicidade entre todos os letões no mundo.

     Esta história é uma construção moderna, tendo sido popularizada pelo romance Nameja gredzens de Aleksandrs Grīns, publicado em 1929. Como tantas outras supostas “tradições” em outros países (por exemplo, os tartans escoceses e irlandeses), autores nacionalistas modernos deram para seu povo símbolos que remetem ao passado para trazer um senso de identidade e pertencimento àqueles no futuro. (Aos interessado no tema, ou aos que estão duvidando do que acabamos de afirmar, recomendamos a leitura de “A invenção das tradições”, do historiador britânico Eric Hobsbawn).

     Desta forma, evidentemente o filme possui um atrativo a mais para os letões de hoje, entre os quais nos incluimos. Nosso entusiasmo inicial, no entanto, logo se tornou em  decepção.

     Seu diretor é Aivars Gruba, conhecido pela direção de diversos filmes e, principalmente, “Rīgas sargi” – os Defensores de Riga, de 2007, que trata sobre a luta travada pela independência da Letônia após 1918, com o final da Primeira Guerra Mundial. Com este curriculum, não é de se admirar que o diretor tenha experiência e interesse em trazer temas nacionais para a grande tela.

     A fotografia e a cinegrafia do filme são apuradas. As tomadas aéreas, em particular, trazem imagens estonteantes de florestas e pântanos da Letônia (provavelmente algumas das tomadas de pântanos tenham sido feitas na reserva nacional de Ķemeri) muitas vezes cobertos pela neblina, e as construções, de forma geral, são executadas com domínio impecável da técnica.

Mas os elogios ao filme já podem parar praticamente neste único parágrafo.

Tomada dos créditos iniciais de “The pagan king”.

     Uma primeira surpresa ao se assistir o filme é que o mesmo se passa inteiramente em inglês, ainda que hajam versões com legendas em letão e russo e uma versão dublada. Os interessados em ter mais contato com elementos genuínos nacionais já têm um início conturbado, portanto. Essa escolha da língua provavelmente influenciou o casting do filme, a começar pelo ator principal, que interpreta Nameisis. Edvin Endre, um ator de origem sueca, é mais conhecido internacionalmente por seu papel apagado na série Vikings, na qual foi o detestável personagem Erlendur.

Edvin Endre como “Erlendur” na série “Vikings”.

     Lauga, sua esposa, é interpretada pela mais agradável lituana Aistė Diržiūtė, enquanto que o vilão principal, Max von Buxhoeveden, pelo britânico James Bloor. Causa estranheza imediata, portanto, que um filme com temática tão letã não possua um letão dentre seus três personagens principais, ainda que os tenha em personagens secundários e terciários.

     A origem estrangeira do elenco não traz grandes acréscimos ao filme. Em relação ao filme anterior citado de Aivars Grauba, nota-se a diferença; se então parte considerável dos atores era de mais idade, formada ainda dos tempos da União Soviética e atuante no cinema letão (como os memoráveis Jānis Reinis e Elita Klaviņa nos papéis principais), de uma rica tradição cinematográfica que remonta a nomes como Serguei Eisenstein, o novo elenco é de atores internacionais da lista B, capazes de falar inglês, mas não necessariamente de entregar uma boa performance.

     As interpretações são, no mínimo, sofríveis, a começar pelo principal vilão, “Max”, um personagem monocromático que efetua maldades inomináveis a cada segundo com pouca justificativa para tanto que não seja o fato de ser o antagonista. Todos os maus recursos usados para caracterização de vilões em filmes B estão presentes, dos risos maléficos, olhos esbugalhados de raiva, súbitos assassinatos sem justificativa e uso de xingamentos e palavras de baixo calão constante.

Max, com sua expressão vilanesca padrão

     Os heróis principais não se salvam muito. Isto se deve não apenas à inabilidade dos autores, mas também à péssima escrita. Os diálogos são sofríveis, o texto é sofrível, os personagens são sofríveis, quando não terríveis. A divisão entre mocinhos e bandidos é monocromática; os alemães, cristãos, são 100% maus, e como tal se comportam. De fato, a primeira cena com diálogos do filme traz o papa de Roma, subitamente matando outra pessoa ao fazer tramóias com seu filho bastardo Max, que quer para si o território de Zemgale.

O papa matando subitamente alguém sem maiores explicações com uma facada na barriga,
aos 03:12 do filme. Max, seu filho bastardo, e os cavaleiros em volta parecem não notar.

     O vilão Max, já citado a pouco, é a ideia quintessencial trazida no filme de quão maus eram os alemães cruzados, apresentados sem qualquer nuance ou tentativa de credibilidade. Em uma cena próxima dos atos finais, por exemplo, há um único bom cristão, um monge de aspecto doentio, irmão do vilão Max (a prole do papa no filme parece ser imensa), que é encarado com ironia pelos demais por querer evangelizar os pagãos.

     Ao procurar impedir a luta entre alemães e zemgálios, ele é flechado pelos próprios alemães sem maiores problemas. Um uso no mínimo desonesto da parte do diretor das fontes escritas disponíveis, ignorando, por exemplo, os relatos da Crônica de Henri da Livônia e o exemplo de seu próprio personagem principal, que demonstra uma preocupação com o aspecto religioso das empreitadas, e apresenta outros seus antecessores que inclusive perderam a vida nas mesmas.

     Há de se notar que a casa dos Buxhoeveden de fato existiu (ainda que não Max, que provavelmente foi baseado pobremente em indivíduos que lutaram na guerra de zemgálios e lituanos contra os cruzados do final do século XIII) e teve de fato papel sangrento na conquista das tribos bálticas, mas dificilmente justifica a narrativa pobre em questão.

     Há de se notar que os cruzados alemães do filme dificilmente fazem jus ao poderio militar dos reais cruzados ocidentais, principalmente, mas não apenas compostos de alemães e escandinavos, que possuíam bestas, armas de sítio e cavalaria, enquanto que no filme usam arcos e armas simples em sua maioria e são bastante inábeis em combate. Em uma cena no pior estilo holywood (bolywood daria mais certo para descrevê-la), o herói Nameisis, preso pelos cruzados e amarrado, dá conta facilmente – sozinho e amarrado, repetimos – de toda a tripulação do barco, libertando-se e voltando para a terra a nado.

     Os zemgálios, por sua vez, com exceção de algumas tentativas de matizá-los, com conflitos internos, são apresentados de forma generosa quando não estão envolvidos em tramóias para derrubar o rei; usualmente sorridentes, agradáveis, exemplos de nobres selvagens praticando rituais puros que infelizmente não têm muita habilidade poĺitica.

     A retratação religiosa dos zemgálios deve muito à Dievturība, um movimento moderno que alega reconstruir a religião tradicional dos povos bálticos, mas que apresenta um resultado anacrônico e altamente idealizado.

     Uma exceção que merece ser citada aqui é a aparição de um “xamã”. Alguns autores pressupõem, parcialmente baseados na descrição de crônicas, da existência de um tipo de sacerdotes conhecidos como “Krive”, “Tulissones” ou “Ligaschones” dentre os povos bálticos, que poderia se assemelhar aos xamãs eurasiáticos, com seus tambores e ritos.

O “Krive” em “The pagan king”

     Não há menção qualquer no decorrer do filme de costumes zemgálios muito frequentes citados nas fontes escritas que possam denegrí-los como, por exemplo, a decapitação. Segundo a Crônica de Henri, os zemgálios iam para a batalha com carroças, que enchiam com cabeças dos inimigos ao final da batalha.

     Os conflitos internos entre personagens desejando a primazia entre os zemgálios são feitos de forma completamente formulaica, apresentando os opositores a Nameisis de forma negativa e estereotipada, e com o intuito de reforçar a mensagem nacionalista do filme – se os zemgálios não se unirem, serão conquistados.

     De fato, há uma escolha estética e estilística bastante evidente usada no filme que explica muito de suas decisões questionáveis; o diretor procurou sem qualquer limite ou autocrítica emular descaradamente os recursos usados na série “Vikings” (e, em menor grau, “Game of thrones” – há, por exemplo, um lobo que acompanha Lauba por toda a história). Como já citamos a pouco, o ator principal participou da mesma. No entanto, a emulação nem de longe pára por aí.

Um “zemgálio” na cena da batalha final

     A imitação dos personagens é descarada; Valdis (interpretado por Ivo Martinsons), o conselheiro principal de Nameisis, e de Viesturs antes dele, é uma imitação do personagem “Björn” da série vikings, a começar pela forma de cortar cabelo e barba, mas também na forma de falar, a intonação das frases, o sotaque e os trejeitos que, antes de tradicionais e baseados em reconstrução histórica, são invenções muito específicas de Michael Hirsch para a série “Vikings”.

Björn Ironside, na série “Vikings”
Valdis, em “The pagan king”

    Outros personagens são cópias completas da série, como o personagem Lemme, interpretado por Lauris Dzelzītis (finalmente um letão no elenco); exatamente as mesmas imitações usadas para Valdis/fake Björn ocorrem com este personagem. De fato, seu desafio a Namesis, ao invés de apresentar uma matização da desunião entre zemgálios, dando solidez à reconstrução histórica, é feita de forma a emular novamente a série Vikings, marcada por guerreiros fazendo bravata e criando brigas entre si em salões repletos de guerreiros e bebidas.

Ubba, Bjorn e Halfdan, em “Vikings”
Lemme, em “The Pagan king”

     Nameisis usa duas táticas de batalha; a tática da víbora (“viper”) e a tática do muro de escudos (“Shield wall”). Ambas, novamente copiadas do mundo Escandinavo. De fato, não apenas na série Vikings, mas também na mais embasada “The Last Kingdom”, já se tornou topos repetido à exaustão um grupo de vikings entrando em formação de combate, sob o grito de seu líder de “Shield wall”.

     As mulheres guerreiras (“Shieldmaidens”), um tópico de debate recorrente – e problemático – nos estudos vikings e escandinavos contemporâneos, e tão proeminente retratadas na série Vikings com as personagens Lagherta e Torvi, dentre outras, é emulada em “The pagan king”. Nas cenas de batalhas, inclusive na batalha final, há inúmeras guerreiras trajadas e penteadas de forma a imitar ao que é feito na série. Desnecessário dizer que não há fundamento histórico para seu uso.

     Por fim, no quesito de reconstrução histórica, outros deslizes e aberrações são frequentes. No campo de deslizes poderíamos citar o uso das vestimentas e, principalmente, armas, em sua grande maioria imitações de equipamentos usados na Escandinávia. As espadas, em particular, são imitações das espadas vikings de tipo “Ulfberht”, artigos raros no Báltico, encontradas com maior frequência dentre os Kurši, que tinham maior relação com a Escandinávia, mas nem de perto tão frequentes em Zemgale. Podem se encontrar cerca de apenas duas a três espadas de tal modalidade no museu de Liepaja, encontradas entre os Kurši.

     O cuidado com as vestimentas étnicas também é relativizado, procurando se inserir elementos com “jeito” escandinavo, diminuindo em parte as vestimentas mais notavelmente bálticas. Ainda assim, este quesito é possivelmente um dos aspectos com mais cara “báltica”, ao menos em personagens como Lauga e a rainha Rama, com uma ressalva importante – as vestimentas bálticas, como no caso do casamento, por exemplo, tem mais a ver com vestes de Latgale de dois séculos anteriores, do que propriamente Zemgale do século XIII.

     Os barcos e tudo a que eles se relacionam são cópias escandinavas, desde a cópia do famoso barco noruguês de Oseberg, datado de mais de três séculos anteriores, até o funeral do rei zemgálio Viesturs, no qual ocorre outra aberração histórica: a rainha Rama, enviuvada, sobe ao barco para morrer junto com o marido. Aqui há uma provável inspiração fora de lugar e de época no funeral escandinavo entre os Rus’ no qual uma concubina o acompanha ao além, descrito pelo cronista árabe Ahmed Ibn Al-Fadlan – novamente, um relato de mais de três séculos de diferença, e contexto étnico e geográfico muito distinto.

     Um anacronismo particularmente grotesco é a construção de um cenário extremamente semalhante a Stonehenge, da Inglaterra, como se fosse um lugar sagrado e secreto dos Zemgálios. Os cultos megalíticos datavam de milhares de anos antes dos eventos relatados, e não há no território letão construções no estilo de Stonehenge, ainda que rochas mais isoladas e esparsas sejam encontradas.

Nameisis no “Stonehenge” zemgálio

     Por fim, “The pagan king” é, senão uma desonestidade com o espectador, um insulto à sua inteligência, e uma boa oportunidade perdida. A excelência na fotografia e a evidente capacidade técnica demonstradas na execução do filme foram desperdiçadas em uma produção que se preocupa mais em parecer ocidental, ser cool e imitar exaustivamente blockbusters supostamente “históricos” do ocidente do que de fato executar um filme histórico ou de inspiração histórica.

     O cinema letão perdeu uma chance de divulgar sua cultura nacional e agora os historiadores têm mais um problema ao explicar para os desavisados sobre a origem do anel tão famoso e difundido. O diretor Aivars Grauba parece ter se esquecido do próprio lema que seus personagens repetem à exaustão: se os Bálticos deixarem de lado quem são, serão diluídos e perderão sua identidade.

Esportes de Inverno na Letônia

No último dia 21 de dezembro teve início o verão no Brasil e todo o Hemisfério Sul, mesmo dia em que se deu o início do inverno no Hemisfério Norte, onde está localizada a Letônia.
Com isso, temos o início da temporada de esportes de inverno em todo o Hemisfério Norte. Durante todo o inverno acontecem competições nacionais, continentais e mundiais dos esportes que são realizados na neve (exemplo: snowboard, ski) e no gelo (exemplo: curling, bobsled, patinação).

A Letônia não tem uma grande tradição esportiva. Podemos ver isso com os resultados do último Jogos Olímpicos de Inverno que foi realizado em Pyeongchang na Coréia do Sul, em fevereiro do ano passado. A Letônia conquistou apenas uma medalha de bronze na modalidade bobsled para dois homens, essa que foi a primeira medalha do país nas Olimpíadas de Inverno.

Foto da equipe (@luge_lv)

Outra grande conquista para o país nessa modalidade foi voltar a sediar uma etapa da Copa do Mundo de Bobsled e Skeleton. A Letônia não recebia uma etapa da Copa do Mundo desde de dezembro de 2005. A competição aconteceu na cidade de Sigulda entre os dias 07 e 09 de dezembro de 2018, onde ganhamos três medalhas de prata, uma no skeleton masculino com Martins Dukurs e duas no bobsled para dois homens com Orkars Kibermanis e Matiss Miknis. A mesma pista recebeu a Copa do Mundo de Luge nos dias 12 e 13 de janeiro e a Letônia ganhou medalha nas modalidades dupla masculina e revezamento. Nas duplas, a prata ficou com Oskars Gudramovics e Peteris Kalnins e o bronze com Andris Sics e Juris Sics. Já no revezamento os campeões foram Kendija Aparjode, Kristers Aparjods, Oskars Gudramovics e Peteris Kalnins.

No mesmo final de semana, mas na Itália, na cidade de Collalbo, Haralds Silovs foi campeão dos 500m no Campeonato Europeu de Patinação de Velocidade.

Foto do instagram de @haralds86

Nesse final de semana, entre os dias 17 e 19 de janeiro, acontece o Campeonato Europeu Júnior de Luge e uma etapa da Copa do Mundo Júnior de Luge, na cidade de St. Moritz-Celerina na Suiça. A Letônia estará representada pelos atletas Eduards Sevics-Mikalsevics, Gints Berzins, Kaspars Rinks e Lukass Krasts e a Federação Internacional de Luge – FIL será representada pela leta Einars Fogelis.

A NHL – National Hockey League é a principal liga profissional de hóquei no gelo e no dia 6 de janeiro o atacante leto Rūdolfs Balcers marcou seu primeiro gol na NHL em seu segundo jogo na liga. Rūdolfs é o 22º jogador leto a jogar na liga profissional dos EUA que também tem times do Canada participando. O jogador atua pelo Ottawa Senators. Balcers fez o terceiro gol do seu time na derrota do Ottawa por 5×4 para o Carolina Hurricanes. Veja a notícia (em inglês)  e vídeo

Semana da Pátria

Nos anos de 2016 e 2017 tive as ocasiões de ir para a Letônia, e as condições climáticas sempre me fascinaram em minhas viagens, em especial, o mês de Novembro, com o término do Outono e o início do Inverno. E ao desembarcar em um país europeu você terá certeza sobre qual estação do ano você está, pois as estações no hemisfério norte são muito bem definidas.

Para muitos de nós, Leto-Brasileiros, viajar para a Letônia no inverno, é um assunto um tanto assustador, pois diferente do “Verão Anual Brasileiro” a Letônia na maior parte do ano oferece temperaturas mais baixas do que em relação ao hemisfério Sul.

Por algumas semanas antes de embarcar, minha preocupação com o frio, não era diferente. O mês de Novembro é um dos meses mais sombrios e melancólicos do ano em partes da Europa, No entanto, para a Letônia e seu povo, é um momento de lembrança e celebração alegre, pois em Novembro é o mês das festividades da independência, e o período entre os dias 11/11 a 18/11, que é chamada de semana patriótica, ou semana da pátria.

Independente do cansaço da viagem, desembarquei em Riga com um sorriso no rosto, e no ônibus em direção ao centro, já reparei uma diferença, muitas árvores não tinham mais folhas nem verdes, nem laranjas, mas haviam várias bandeiras “Vermelho Branco Vermelho” hasteadas em vários pontos da cidade.

O evento que marca o Início desta semana Patriótica é a celebração do dia de “Lāčplēsis”, pois esta é a data da vitória final dos heroicos soldados da Letônia sobre o exército de “Bermondt” em 11 de novembro de 1919. Homenagens são realizadas em memória dos soldados que deram suas vidas pela liberdade da Letônia.

Há muito para o que se ver, desde “serviço devocional” na Catedral de Riga, homenagem com flores no cemitério dos soldados, Parada militar no monumento da liberdade, e o mais esperado por todos, acender velas de cores vermelhas e brancas no castelo de Riga e no monumento da liberdade.

“Mar de velas” ao lado do Castelo de Riga
Baiba Mekss, Laima Dimanta, Lucas Stepanow

 

 

 

 

 

 

 

11/11/2017

 

O Dia é um lembrete para cada cidadão, de que não se nasce um herói, porém se torna um herói por meio da coragem, e a lembrança de permanecerem vigilantes e proteger a independência do País todos os dias. Então, o 11 de novembro oferece uma boa oportunidade para que todos possam olhar para o próprio coração e se perguntarem: O que posso fazer para minha família, meu povo e nosso país?!

No decorrer da semana há vários concertos e corais se apresentando em Igrejas, Catedrais, e nos centros culturais, muitos desses eventos são de graça ao público. Outros artistas também escolhem as datas de inverno para fazerem suas apresentações musicais. Nesta semana em especial, muitos Letos usam também uma pequena fita nas cores da bandeira da Letônia em formato “V”, preso próximo do coração. Este símbolo traz a mensagem de vitória e que a “Letônia está no meu coração, não importa onde eu vá!”.  

Por vários anos as comunidades Letas ao redor do mundo se reúnem no dia 18 de Novembro para terem um tempo de comunhão em memória da terra natal. E vários anos eu me reuni com meus pais e outros Letos de Nova Odessa para ouvir o coral. E nunca imaginei que estaria em Riga dia 18 de Novembro de 2017, no 99 (nonagésimo nono) aniversário da Letônia, foi algo mágico, pela quantidade de coisas a presenciar em apenas 1 dia.

Logo pela manhã no dia 18 de novembro, houve uma grande parada militar na Krastmala, uma larga avenida na margem do Rio Daugava, com a presença de componentes Navais, Terrestres, aéreo, força militar e políticos como a do Presidente, Ministro da Defesa, e outros do parlamento.

No começo da noite por volta das 19:00, houve o “Lapu Gajiens”, uma caminhada com centenas de pessoas com tochas de fogo, marchando do monumento do ex-presidente Karlis Ulmanis, até o monumento da liberdade.

Desde a declaração da independência em 1918, a Letônia teve nove presidentes, cujos discursos ao lado do monumento da liberdade se tornaram tradição e indispensáveis para a celebração de cada ano na Letônia livre. Discursos estes, que são patrióticos e encorajadores a nação, o atual presidente Raimonds Vejonis, disse em seu discurso: “Vocês são os heróis que tornam nosso país mais forte e seguro a cada dia – vocês são a Letônia! Somos a Letônia! Deixe-nos agradecer e dizer alto em nossos corações. Celebramos livremente este dia com gratidão, felicidade e amor uns com os outros a nossa pátria!”

                          

 

Na semana patriótica também ocorre o “Staro Riga”, um festival de luzes e sons, vários edifícios ganham artes visuais. Até o monumento da liberdade, que após o discurso patriótico do presidente, houve uma arte visual com a música “Dvēseles Dziesma” (Canção da Alma) composta por Ēriks Ešenvalds.

        

E para finalizar com chave de ouro, as 21:00 na Krastmala, acontece a canção do hino nacional “Dievs Svētī Latviju” e a queima de fogos.

 

 

“Para os Letos, acreditar na Letônia é amar seu país. Ela precisa de nossa fé e amor. Porque sem isso, a Letônia não pode existir “,

Vaira Vīķe-Freiberga

Do Gulag ao Nobel: Lidija Doroņina-Lasmane

Isto é o mais sagrado,
Não se esqueça:
Ascendendo ao céu,
Ou mergulhando nas profundezas do mar,
Dividindo a alegria com os amigos,
Ou enfrentando seus oponentes sozinho,
Você é a Letônia.
– O.Vācietis

   Sentada em sua sala, rodeada de livros e desenhos de crianças, uma senhora de grandes e expressivos olhos azuis recita, com uma voz calma e pausada, poesia para seus netos. Assim como o livro de poesia de Ojārs Vācietis, acomodado em seu colo, ela também havia sido censurada. Suas mãos rudes – fruto dos Gulags soviéticos – seguram-o com terneza, quase como se abraçassem centenas de velhos amigos, perdidos pelo totalitarismo.  

   Essa senhora de olhos azuis e voz calma é Lidija Lasmane-Doroņina. Apesar de não gostar muito dos holofotes – prefere livros e netos – há poucos na Letônia que não a conheçam. Foi a protagonista do documentário “Lidija” (2017), de Andrejs Verhoustinskis.

A Família e a Guerra

   Lidija nasceu em 28 de julho de 1925 na bucólica vila costeira de Ulmales. Sua família era batista, com três irmãos (um veio a falecer cedo) e ela cresceu em uma atmosfera de amor, que moldaria seu caminho pelo resto da vida. Lidija se batizou na igreja batista de Saka aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

   A região de Ulmales, Kurzeme, é igual a vila descrita: plana, campestre, bucólica. Mas não seria assim por muito tempo. Em 1940, a Letônia foi ocupada pela União Soviética, que logo começou as deportações em massa de elementos “contra-revolucionários”: políticos, pastores, professores e quem mais pudesse desafiar a nova ordem.

   A situação mudou novamente quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética em 1941 – e com ela, a Letônia – trazendo seus aparatos de censura, perseguição e execução.

   “No outono, os nazistas vieram  e abateram todos os judeus de Pavilosta quase na frente dos nossos olhos. Havia também meus colegas de escola, a garota com quem eu brincava. Eu percebi que [o totalitarismo] era uma insanidade tão grande que se tinha que abandonar uma parte de si mesmo, sob nenhuma circunstância deveria sucumbir a ela”,  relatou Lidija ao compartilhar suas memórias.

   Em 1944, 200.000 tropas alemãs, recuando após sucessivas derrotas no front, foram cercadas pelo Exército Vermelho em Kurzeme. Sem ter para onde recuar, as tropas nazistas e o exército soviético transformaram a região em uma zona de total desolação e destruição.

A Ocupação

   A jovem Lidija decidiu que faria de tudo para salvar vidas. Em 1946 começou a estudar em uma escola de enfermagem em Riga. Nessa época, a União Soviética, após ocupar novamente a Letônia, continuou com a “limpeza” de opositores. Em novembro do mesmo ano, Lidija e sua família foram presas por abrigarem e fornecerem curativos para um grupo de letos que resistiam à ocupação.

   “Eu cresci na velha Letônia, formada com meu país e seu espírito. Eu não podia aceitar ocupação, era inteiramente contrária a minha natureza. Esses grandes países não tinham o direito de nos conquistar. Deus deu a cada um a sua terra onde morar e servi-lo.”

   Lidija e sua família foram levadas pelo serviço secreto soviético, a Tcheka (precursora da KGB) para serem interrogados na sede do serviço em Riga, na stūra māja. A jovem de 21 anos foi condenada a, no mínimo, 5 anos de prisão e mais 3 de retenção de direitos por “traição à pátria”. Seu pai foi condenado a 10 anos e sua mãe, 3 anos em um hospital psiquiátrico.

   Durante os primeiros anos de prisão, Lidija era obrigada a carregar troncos, e ficou doente com tuberculose e quase morreu. Em 1951 foi transferida para a infame prisão de Vorkuta, o maior campo de trabalhos forçados da União Soviética, onde os inimigos e dissidentes políticos eram obrigados a minerar carvão. Em 1953, o ditador soviético Stalin morreu e seu sucessor, Krushev, concedeu perdão a alguns presos políticos, entre eles, Lidija.

 

A Traficante de Livros

Lidija com alguns dos livros proibidos.

   Lidija retornou a Letônia, mas não tinha lugar para morar; sua família havia perdido tudo. Nos anos seguintes, começou a guardar e redistribuir livros que haviam sido proibidos pela censura, o que a levou a ser presa novamente em 1970. Passou dois anos na prisão feminina de Riga. “Quando fui presa, não tive medo, pois defendia algo justo. Eu tinha certeza de que eles estavam errados. Mas havia a sensação de que havia muito a se fazer, muito a planejar, mas eu estava lá, sem sentido”.

   Após sair da prisão, continuou seu trabalho com fervor ardente, recolhendo não só músicas, livros e filmes proibidos, como também memórias de outros prisioneiros políticos e exilados.

   Sua resistência trouxe a polícia secreta mais uma vez até sua porta na manhã de 6 de janeiro de 1983. Lidija reconta que o jovem que a interrogou sobre o livro que havia distribuído, Piecas Dienas (do escritor Anšlavs Eglītis), era também um leto: “O investigador me disse ‘Está escrito aqui, e você o leu e divulgou, como se a Letônia estivesse ocupada, como se em 1941 tais e tais pessoas tivessem sido deportadas. O que você pode dizer sobre isso?’ Eu digo a ele, ‘o que devo dizer sobre isso? Somos dois letos. Você não nasceu ontem e sabe bem que a Letônia está ocupada.’ Mas ele não tinha nada para dizer.”

   Lidija foi detida novamente e deportada para a Mordóvia, onde dividiu cela com outros criminosos, prostitutas e ladrões, mas nada disso jamais a fez perder a esperança. No natal, ela e outros prisioneiros cortavam panos verdes para simular pinheiros e todos os prisioneiros entoavam os hinos que lembravam. “Eu nunca senti ódio por aqueles que me torturaram. Absolutamente não. Fiquei com vergonha deles porque me humilharam”, conta Lidjia.

   Em 1987, Lidija e outros prisioneiros foram perdoados no Glasnost de Gorbachev. Lidija visitou a Suécia e viu centenas de refugiados letos cantando hinos proibidos e segurando fotos de prisioneiros políticos, inclusive fotos suas.

A Vitória

   Depois da independência, Lidija começou a visitar antigos lugares da KGB e recolher documentos de assassinatos e execuções. Ela conta que uma vez achou entre os documentos a foto do delator que possibilitou sua prisão: “como pode fazer isso? Ele morreu e eu não pude saber. Se pudéssemos falar, poderíamos nos reconciliar. É fácil perdoar na mente, mas, para sentir isso no coração, foi necessário tempo”.

   Lidija participou ativamente do Centro de Documentação do Totalitarismo, atendendo também outras vítimas de perseguição. Em 1994, ela foi premiada com a Ordem das Três Estrelas (Triju Zvaigžņu ordenis) pelo seu trabalho, mas decidiu recusar. Segundo ela, há prêmios muito maiores do que medalhas.

   Participou também do trabalho “Akcija dzīvībai”, em que atendia mulheres afligidas com gravidez indesejada, muitas vezes sofrendo também de depressão e estigma social. Por sua luta contra totalitarismo e seus trabalhos, Lidija é uma das indicadas para o prêmio Nobel da Paz de 2018.

   “Hoje posso cantar de coração: Dievs, svētī Latviju! Eu tenho uma filha e três netos, mas também inúmeros outros ‘netos’ pelo mundo que buscam justiça. Eu tenho uma igreja maravilhosa, e moro em um país livre, a Letônia. Espero que agora as pessoas aprendam a amar uns ao outros, não importem as circunstâncias. E espero que aqueles que estão no poder saibam usá-lo com sabedoria”.

Lidija em sua igreja em Riga, a Mateja Baptistu Draudze

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Trechos retirados do periódico “Tikšanās”, de dezembro de 2001 a janeiro de 2009. Traduzidos livremente por Andreis Purim.

Leia também nosso artigo sobre o Livro “Eu queria tanto ainda viver”

[Receita] Kliņģeris da vó Vergínia

O Kliņģeris se trata de uma “rosca” macia, levemente doce, trazida pelos imigrantes letos que chegaram ao Brasil no final do século XIX, e no caso desse artigo, Rio Novo. Possui uma relação (apesar de um pouco longínqua) do Bretzel alemão, e é costume ser servido em dias especiais.  Fazendo uma pesquisa na internet, observa-se que a receita “evoluiu” acrescentando hoje em dia frutas cristalizadas e coberturas com diversos tipos de enfeites. A versão ora descrita, digamos, é a versão “original” como nossa família conhece (e ama).

Minha irmã Lili, como nutricionista e hábil cozinheira, aprendeu a fazer com minha mãe (vó Vergínia) enquanto a mesma estava viva, mas resolvi fazer esta rosca buscando ajuda com a Dona Tereza, uma senhora que foi diarista da minha mãe e depois cuidou dela nos seus últimos anos. Ela era quem fazia estas roscas quando minha mãe já não tinha forças para o trabalho na cozinha.

Eu a convidei para nossa casa e fizemos juntos esta rosca, mas como minha mãe não tinha medidas precisas quando preparava a receita, sua “discípula” Dona Tereza também não.  As quantidades iniciais os ingredientes eram “ajustados” ao longo do processo. Tentei fazer o máximo de anotações possíveis para “não perder nada” que pudesse ser relevante para esta experiência “química”.

Ingredientes

  • Noz moscada (duas unidades “in natura”. Segundo a instrutora, a que é vendida moída num pacotinho não tem o mesmo efeito no sabor final;
  • 4 copos de leite
  • 3 colheres de sopa de fermento biológico granulado
  • 3 copos de açúcar
  • 230g de manteiga
  • 2 colheres de sopa de sal
  • 2kg de farinha de boa qualidade

Passos

  1. Numa panela pequena coloque 1 copo de leite junto com o fermento e aqueça levemente no fogão. Aguarde o passo 4.

    Passo 2
  2. Rale duas unidades de noz moscada até restar apenas um “toquinho”.
  3. Numa bacia grande coloque os outros três copos de leite misturando o açúcar, a noz moscada ralada, a manteiga e o sal. Misture tudo com a bacia e aqueça levemente no fogão até um “amornamento”;

    Passo 3
  4. Saindo do fogão, misture o fermento (que estava na panelinha aquecida);
  5. Acrescente a farinha e  inicie o processo de amassar até que tudo ficasse uniforme e solto (não pegajoso). Após um certo período na bacia, retire a massa e continue este processo diretamente numa superfície polvilhada com farinha de trigo. Recomendação da Dona Tereza: não utilizar superfícies frias tipo granito.

    Passo 5
  6.  Deixe então um longo tempo (quase duas horas) no forno ligeiramente aquecido para que a massa cresça. Para melhor aproveitamento do calor coloque um plástico cobrindo toda a massa.
  7.  Unte as formas com óleo de cozinha, e quando a massa estiver crescida confeccione as tranças e colocadas nas formas.  Veja o vídeo abaixo:

    Passo 8

    Passo 9
  8. Separe duas gemas de ovo numa xícara e, com um pincel, e tinja a superfície;
  9. Deixe para assar em forno quente. Observe a coloração para desligar;
Obrigado Dona Tereza!

Original por Carlos Ademar Purim, de seu blog e republicado no fórum Letônia Brasil em 11 de Julho, 2018.

Se você gostou e gostaria de compartilhar receitas letas de sua família, clique aqui para participar do fórum

Chuteira no pé, Esperança no coração

Durante dois anos, crianças de famílias carentes de Bolderaja, um bairro afastado de Riga, se reuniam para treinar futebol. Dois anos, independentemente do clima no dia, do inverno ao verão. Dois anos, seja na chuva, na neve – na hora do treino, o céu se abria. Não perderam um só dia de jogo. Você acredita que uma simples esperança pode mudar o mundo? Um homem acredita.

Tjago, com j mesmo, Professor Tjago, para falar a verdade. É assim que o carioca de 33 anos Thiago Bonfim da Silva é conhecido na Letônia. Formado em Educação Física, técnico e treinador de futebol – além de outras conquistas profissionais -, Thiago também é veterano de diversos projetos evangelísticos, e hoje usa o futebol para resgatar as crianças das regiões mais carentes do país.

Amor à primeira vista, apesar do clima

Ouviu falar pela primeira vez do longínquo e gelado país báltico em 2005, após seu chamado para missões. A Letônia havia se classificado para a Eurocopa de 2006, não possuía uma opinião formada, mas algo especial foi crescendo no seu coração. Desembarcou em Rīga 19 de maio de 2010 – foi um choque cultural muito forte – mas foi amor à primeira vista.

Dar o primeiro chute ao gol, no entanto, nem sempre é fácil. Seu primeiro trabalho missionário com futebol foi no “Day Center” no bairro de Bolderaja, em Rīga, patrocinado pela Igreja Luterana da cidade. Mesmo após o término do projeto, Thiago continuou, o sonho era forte demais, era hora de ir além. Ir além era Karosta.

Karosta (em leto, “porto de guerra”) é um bairro localizado no norte da cidade costeira de Liepāja. Foi construída para ser uma base naval do Império Russo, e durante a ocupação soviética foi convertida em base militar e prisão militar. O bairro mistura palacetes e catedrais czaristas com blocos habitacionais soviéticos abandonados. Após a queda da união soviética e desativação do complexo militar vários prédios foram abandonados e a região se tornou problemática com desemprego, crimes e abuso de álcool.

Thiago, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolveram o Karosta Futbols resgatando crianças que sofrem problemas de criminalidade e abusos. O projeto está quebrando o ciclo da violência, crianças estão sendo salvas. Só para ter uma idéia: muitas dessas crianças nunca haviam saído de Karosta, hoje disputam torneios em outras cidades. Eles possuem um novo futuro para chamar de seu.

Torneio em Nica

Ainda assim, há muitas dificuldades. No começo, Thiago trabalhava em 3 empregos diferentes para poder se sustentar, uma vez que não recebe nada pelo projeto. No início deste mês precisou se afastar do projeto para poder sustentar sua família e atender ao novo filho que está por chegar ao time. Mas não ele não pendurou as chuteiras, pois ainda há muito jogos por vir, e muitas vidas para mudar.

Nós tomamos um pouquinho do seu tempo para perguntar sobre sua vida, seus projetos, ambições, dificuldades. Veja um trecho da entrevista abaixo:


Entrevista

Letonia Brasil: Qual sua formação, Thiago? Quais projetos você participou antes de vir para a Letônia?

Thiago Bonfim: Sou formado em Educação Física, Pós-graduado em Ciências do Futebol e Futsal. Sou treinador formado pela ABTF em 2006, pela CBF – A em 2013 e UEFA-B em 2015. Sobre missões, participei dos projetos missionários do movimento estudantil Alfa e Ômega, projeto missionário em Juiz de Fora em 2007. Todo o treinamento para missionário em campos universitários em 2007 e 2008. Também fiz o curso para missionário através do Esporte pelo CEFLAL- 2009. Diversos treinamentos e projetos missionários na área esportiva e também outras áreas. De 2008 até 2010, participei da capelania prisional no presídio Moniz Sodré em Bangu, junto com os missionários Carlos Serejos e Clotildes Moraes da Igreja Batista do Méier. Também fiz parte do projeto “Igreja no Trem”, onde eu pregava diariamente nos trens do Ramal de Campo Grande no Rio de Janeiro. Fiz parte do projeto Luz nas Calçadas por 5 meses, onde subíamos a comunidade da Mangueira e pregávamos o evangelho para os traficantes e usuários desta comunidade, inclusive frequentando a boca de fumo para a ação evangelística.

LB: Como é sua vida aí? Quais foram suas maiores dificuldades lá?

Thiago, sua esposa Zanda, e seu filho Timotejs


TB: Minha vida na Letônia é um ato de redescobrimento de quem eu sou. Do meu melhor e do meu pior. Sem pai, sem mãe, sem amigos por perto, fora da cultura, é preciso estar próximo de Deus e muito forte para superar. Como você notou na resposta anterior, eu andava pelos piores lugares de uma das cidades mais violentas do Brasil, a paz e segurança da Letônia é um ponto muito forte e positivo, e foi o que mais gostei daqui. Junto com a beleza e a tranquilidade do país. Minhas maiores dificuldades na Letônia foram com a desconfiança, alimentação, cultura e o clima. Se você vem visitar a Letônia, você não vai vivenciar nenhuma intolerância, talvez, se tiver uma pele mais escura, algumas pessoas vão ficar te olhando, mas não há preconceito. O problema acontece quando você vem morar e trabalhar aqui, mas não entende o “jogo de interesses”. As portas se fecham em várias áreas. Na minha área, por exemplo, demorei 6 anos para receber um salário normal.

LB: Como foi seu trabalho com o futebol lá? Os letos são bons no futebol? [risos]

TB: Os letos tem grande potencial, porém a questão climática e cultural atrapalha muito, já que o hockey e o basquete ainda são as grandes paixões, mas o futebol vem crescendo no país. Meu trabalho com futebol de forma missionária aconteceu mais no “Day Center” em Bolderaja, em Riga, com a parceria da Igreja Luterana de Riga que nos patrocinava, uma vez por semana nós alugávamos um campo de futebol no centro – Arkadija Stadions – e as crianças saiam de bolderaja para o campo onde ministrava os treinos de futebol. Após o fim do projeto com a Igreja Luterana de Riga, ainda continuei indo por mais um ano voluntariamente, porém, desta vez fazíamos o futebol em uma praça próximo ao “Day Center”. Agora em Liepaja, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolvemos o Karosta Futbols, para trabalhar e pregar o evangelho através do futebol para as crianças de karosta, que é um dos piores lugares da Letônia, com os piores índices educacionais, de desenvolvimento e violência. Esse trabalho tem o suporte de dois “Day Centers”, o que é liderado pelo Pr. Sergejs e outro pelo “Hope Kids”. Porém, no início deste mês tive que sair do projeto por um período, pois está havendo um conflito político, tendo em vista que eu trabalho no clube da cidade, o qual recebe verba da prefeitura, e o Karosta Futbols por ser um projeto que também é social, começou a receber ajuda da prefeitura, e esta questão política por eu estar nos dois, me colocou em uma situação de ficar em um ou outro, e como no Karosta Futbols não recebo nenhum salário e todo meu salário vem do FK Liepaja, e como não tenho nenhum outro suporte, a não ser meu salário e uma ajuda familiar, tive que optar pelo meu emprego.

LB: Quais os principais problemas da Letônia? E como é o bairro de Karosta?

TB: A Letônia sofre muito com o Alcoolismo e com secularismo. Karosta é um local lindo, mas como foi invadida, tem muitos problemas familiares! Minha esposa trabalha com as famílias e visitando as pessoas em suas casas, e é muito triste o relato que ela dá. Pessoas pobres, imundas, muita violência doméstica e estupros entre familiares é muito comum. Os orfanatos da Letônia estão cheios de órfãos de pais vivos, e o de Liepaja não foge a regra. Boa parte destas crianças são oriundas de Karosta.

Crianças do Karosta Futbols com o missionário Mikelis

LB: Como o seu trabalho pode ajudar a mudar essa realidade? Quais são suas metas?

TB: Nosso trabalho é extremamente relevante, as vidas que vemos sendo transformadas são nossas alegrias. Algumas das crianças com 9 anos já chegam para nós com histórico de fumo, furto e uso de álcool, com 9 anos de idade! Hoje nos encontramos 2 vezes por semana, (1 vez comigo e 1 vez com Pr. Marcis) mas o objetivo é para que um futuro consigamos fazer isso diariamente. Para essas crianças falta um exemplo masculino positivo na vida delas. Os pais quase sempre ausentes e alcoolizados, frequentemente agridem suas parceiras em suas casas. No final, se não houver uma quebra do ciclo, a tendência é que essas crianças repitam os mesmos erros. Hoje no projeto já temos crianças que já aceitaram a Jesus, que oram conosco e que frequentam a Igreja. Próximos passos são os batismos (alguns anos) mas algumas já estão sendo discipuladas. Estamos falando de crianças com histórico de violência familiar. Isso é extremamente importante e relevante. Infelizmente, sem patrocínio ou apoio, ainda é muito pouco o que podemos fazer. Nossas metas é de termos patrocino para que eu possa abandonar meu trabalho e dedicar-me 100% ao Karosta Fubols, e abrir outras categorias, do Sub-8 até o adulto, para fazer a integração com os pais da região. Infelizmente, hoje ainda um sonho muito distante.

LB: Que tipo de apoio ou ajuda você recebe? Que tipo de apoio você gostaria de receber? Como isso pode ser feito?

TB: Infelizmente, nenhum apoio, apenas meu salário e um suporte familiar. Gostaria de receber um apoio integral para que pudéssemos nos dedicar 100% ao Karosta Futbols e as crianças daqui. Talvez até recebermos alguns voluntários brasileiros ou missionários locais para nos ajudar no decorrer do crescimento do Projeto.
Isso pode ser feito através da mobilização dos irmãos Letos do Brasil. Levantar sustento na Letônia é quase impossível, as Igrejas são muito pequenas, e o que recebem de oferta é para a manutenção da Igreja e do Pastor.

LB: Que mensagem você gostaria de deixar para os letos-brasileiros?

TB: A Letônia é um país lindo, de pessoas maravilhosas, mas fomos chamados para a Letônia para tratarmos os doentes, de ir onde ninguém vai, de cuidar de quem ninguém cuida, de dar esperança para os que nada tem. Nosso projeto pode causar um impacto positivo muito grande neste local. Sei que muitos dos irmãos tem uma visão romântica da Letônia, que não é falsa, mas nós vivemos e convivemos com o que há de pior aqui. Nossa família vive em um dos locais com maiores índices de violência da Letônia. Queremos que todos os letos do Brasil nos adotem em orações, e não esqueça de nós em nenhum dia, pois é isso que nos sustenta aqui, é a oração que nos faz caminhar e vivenciar os milagres.

Que Deus abençoe a todos e a nossa Letônia.

Crianças orando antes do treino.

 

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Arte de fundo: Luiz Schneid
Vídeos, Poster e Fotos: César Liepkaln