Lieldienas – A Páscoa Leta

Páscoa é uma época do ano amada na Letônia. Durante o período, várias pessoas de diferentes idades, etnicidades e credos religiosos se reúnem para celebrar de sua própria forma. Os letos geralmente atendem o culto no domingo pela manhã e passam os próximos quatro dias do feriado visitando amigos e família.

Em leto, a páscoa é chamada de Lieldienas (em tradução literal, “Grandes dias”) – um jeito de chamar a chegada da primavera nas canções folclóricas.  Segundo as tradições, quando chega a páscoa, os dias passam a ser mais longos que as noites – sendo uma vitória simbólica da luz contra as trevas. Durante os séculos muitas tradições surgiram comemorando essa passagem.

Antigamente, na manhã da páscoa, era costume acordar antes do sol e lavar o rosto com águas de riachos que vão para o oeste, e em seguida reunir-se com a família para assistir o nascer do sol. Em vilas livônias as manhãs começavam com o acordar e chegada dos pássaros. Na Letônia, o feriado possui três dias: Sexta-feira da paixão, Sábado Santo e Domingo de Páscoa. A terça-feira anterior é chamada de “Terça-feira verde” por causa da palavra alemã “Gründonnerstag”.

Ovinhos decorados

Ovos de Páscoa

Famílias normalmente se reúnem para colorir seus próprios ovos de páscoa (olas), usando materiais naturais. O processo normalmente começa na noite anterior, com o preparo das tintas. É possível utilizar cascas de cebola, cebola roxa, alface, repolho – basta ferver em água por aproximadamente 15 minutos e deixar a água descansando.

Algumas ideias para colorir!

Em seguida, os letos saem pela natureza buscando flores, folhas, sementes, pedrinhas para decorar seus ovos. Primeiro o ovo é levemente molhado e então os enfeites são colocados em volta. Após isso, todo o conjunto é amarrado com um fio ou tecido fino (como gaze) e colocado para ferver na água preparada. A casca irá absorver a tinta, e a intensidade dependerá dos enfeites ao redor, criando desenhos.  Ainda é possível passar uma camada de manteiga ao redor do ovo, após esfria-los, para deixar o desenho mais brilhante.

Nós preparamos um vídeo explicando como você pode fazer seu próprio ovinho super rápido no Facebook. Dá uma olhada!

Brincadeiras de Páscoa

Há inúmeros jeitos de se divertir com os familiares e amigos na páscoa. Em Riga, muitas pessoas se reúnem no Museu Etnográfico ao Céu Aberto e se reúnem para cantar e brincar juntos. Lá é possível ver corridas de trenó, (afinal está acabando o inverno!), jogos de levar pedras com bastões e uma versão anciã de peões de madeira.

Além disso, famílias que prepararam seus ovinhos coloridos podem disputar em uma “batalha” amigável para ver quem possui o ovo mais resistente. Uma pessoa irá segurar o ovo na mão com força, enquanto a outra irá tentar quebrar o outro com o seu ovo. Ganha quem terminar com o ovo inteiro. Depois, é claro, todos estão livres para descascar e comer seus ovinhos cozidos.

Outra brincadeira comum para casais é se balançar em grandes balanços de madeira. Segundo o folclore, isso é para trazer boa saúde ao casal. Alguns letos, no entanto, brincam: é para afastar os mosquitos que chegarão no verão.

Cuidado para não cair.

As Mulheres que Construíram a Letônia

Todo mundo já leu ou ouviu falar que as mulheres letas são as mais altas do mundo (em uma média de 169.80 cm, superando os 168.72cm das holandesas). Talvez você também tenha lido que a Letônia possui um dos maiores índices de modelos per capita (ficando próximo de 4º lugar no mundo), e que as mulheres letas são muito bonitas. Isso tudo é verdade. Sim. Mas seria um engano achar que é só isso. Um erro muito grande.

A Primeira Poetisa

Infelizmente, durante o caminhar da humanidade, as mulheres receberam poucas menções nos livros de história (na Wikipédia, por exemplo, apenas 17.49% das biografias são sobre mulheres). O mesmo aconteceu na Letônia. Algumas fontes citam histórias sobre governadoras mulheres nas antigas tribos e místicas guerreiras, mas pouco se sabe. Após as Cruzadas do Norte, no final da Idade Média, as mulheres seriam sujeitas ao regime feudal, e seus direitos eram poucos – e assim seria por vários e vários séculos.

Mas isso veio a mudar com a Revolução Industrial. Aos poucos a servidão (o regime quase escravocrata ao qual os letos eram submetidos) foi formalmente abolida. Logo homens e mulheres estavam indo à escola, à universidade. Nas cidades, uma nova camada social surgiu. Esses recém-libertos camponeses logo ascenderam, tornando-se filósofos, engenheiros, pensadores e artistas letos.

A mais proeminente mulher dessa época foi Elza Rozenberga. Nascida em Jelgava, 1865, foi uma das primeiras escritoras e dramaturgas leta. Adotou o pseudônimo Aspazija antes de publicar seus primeiros poemas, em 1887. Após alguns anos, mudou-se para Riga. Lá lutou pela educação das mulheres e sua participação na política. As personagens de suas peças normalmente eram mulheres que ousavam criticar problemas sociais e defender seus direitos. Passou os anos de 1897 até 1903 em exílio na Sibéria.

“Aspazija” vem de Aspasija, uma influente e educada mulher da Grécia Antiga.

Após o seu retorno, se envolveu com grupos sociais-democratas. Após a revolução de 1905, suas obras foram vistas pelas autoridades como uma afronta ao Czar e precisou fugir com o seu amado (e igualmente famoso) poeta Rainis para a Suíça. Conseguiu retornar apenas em 1920, sendo eleita para a Primeira Assembléia Constituinte da Letônia. Faleceu em 1943 em Dubulti.

A Pequena Paris

O período entre-guerras foi especialmente favorável às mulheres letas. A Letônia foi um dos primeiros países do mundo a garantir o voto feminino, em sua constituição em 1918. Durante os anos 20, mais e mais mulheres tinham acesso à educação e passavam a trabalhar. Muitas iam direto à efervescente capital Riga, a “Pequena Paris” do norte. A art-deco estava em moda e logo surgia a figura da femme-fatale nos filmes noir. Nessa época, surgiram nomes internacionais de cinema como Elza Radziņa e Anta Klinte.

Mulheres aproveitando os verões em Jurmala, nos arredores de Riga.

 

Apesar da crise econômica, os anos 30 se iniciaram com mais força ainda. Riga entrou em sua “era de ouro” – que recentemente foi retradada no filme leto “Homo Novus”. Centenas e centenas de mulheres passeavam as ruas da capital, participavam de desfiles, se graduavam na universidade (A Letônia possuiu um índice altíssimo de mulheres médicas na época).

Isso tudo veio a acabar em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial. Logo a Letônia seria invadida e arrasada pela Alemanha Nazista e pela União Soviética, e infelizmente muito do que as mulheres vieram a conquistar foi perdido.

Mas não sem uma boa luta.

As Guerreiras

Algumas enfermeiras letas da Primeira Guerra Mundial.

A guerra não era algo incomum para as mulheres letas. Muitas já haviam participado durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e durante a Guerra de Independência (1918 – 1920). Fosse trabalhando nas fábricas, ou fosse atendendo feridos em meio às batalhas. Há até uma anedota qual mulheres letas enganavam os invasores alemães, apontando os caminhos errados pelas florestas.

Seja como for, quando a Segunda Guerra Mundial bateu às portas, muitas mulheres decidiram lutar. Quando os nazistas vieram, diversas mulheres se tornaram franco-atiradoras no 201º Regimento de Fuzileiros Letos. O combate se tornou ainda mais brutal com a volta do domínio soviético, que fazia de tudo para esmagar a resistência.

Franco-Atiradora na frente oriental.

Essas mulheres guerreiras permaneceram no imaginário popular, apesar da repressão soviética. Aos poucos surgiu uma lenda urbana na Rússia sobre franco-atiradoras mercenárias letas combatendo as tropas soviéticas na década de 80, as baltās zeķbikses (“Meias-Calças Brancas”). Real ou não, a lenda persiste até os dias de hoje, principalmente após o canal de televisão russo “Life” (Лайф) reportar as míticas franco-atiradoras na Ucrânia.

Além disso, após a guerra, o Reino Unido criou o programa “Baltic Swans” (Baltijas gulbēni) – com o objetivo de receber 5.000 doutoras e enfermeiras letas que estavam fugindo do domínio soviético. Esse episódio pouco conhecido da história leta aparecerá na série Sarkanais mežs, que estreará esse ano.

Atualmente

A Letônia ainda exporta muitos nomes femininos famosos – principalmente nos esportes. Elizabete Limanovska e Nava Starr são duas campeãs que seguram títulos de xadrez. Uļjana Semjonova (com imensos 2,15m de altura) dominou o cenário de basquete mundial durante os anos 70 e 80. Jeļena Ostapenko esteve nas notícias recentemente, ao conquistar o Grand Slam de Tênis.

Uljana Semjonova (atrás) roubando a bola da italiana Stefania Passaro.

Além disso, o mundo das artes é dominado por mulheres. A mezzo-soprano Elīna Garanča conquistou o mundo das óperas, enquanto a violinista Baiba Skride viaja continentes com Filarmônicas famosas. A diretora de cinema Laila Pakalniņa está sempre competindo em Cannes, Veneza e outros festivais. Outra estrela recente é a jovem de 16 anos Aleksandra Špicberga, que recebeu o prêmio de melhor vocalista da Europa em 2015.

Não podemos deixar de citar o crescente número de mulheres no poder. 56% das administradoras e gerentes da Letônia são mulheres, superando todos os países da Europa. Além disso, A Presidente mais famosa e amada da Letônia é uma mulher, Vaira Vike-Freiberga. O recém-eleito parlamento é 31% feminino, superando a média européia de 29,7%.

Nas ciências, as mulheres são 60% das estudantes de medicina (1º lugar da Europa), 52% das pesquisadoras e 65,2% das graduandas.

Vaira passou grande parte da sua vida no Canadá, após sua família fugir da União Soviética.

Se engana quem acha que as mulheres letas-brasileiras são muito diferentes. Não é a toa que o Grande Coral do I Festival de Cultura Leta foi dominado quase inteiramente por mulheres e regentes femininas. Elas também possuem uma boa bagagem na história do Brasil, mas isso é um artigo para outro dia…

Sveicam sieviešu dienā!

Resenha de Nameja gredzens: O Último Rei Pagão

     Em fevereiro de 2018 foi lançado um novo filme letão tratando de um tema de interesse garantido para qualquer um com laços com a Letônia: o anel de Nameisis, ou Namejs.

     Diz uma historieta popular na Letônia que no final do século XIII, por ocasião das cruzadas levadas a cabo pelos alemães no Báltico, Nameisis/Namejs, um rei dos Zemgálios – uma das tribos componentes do povo letão – usava um anel peculiar. Ao fugir dos alemães para as florestas do sul de Zemgale e no norte da Lituânia, todos os homens da tribo passaram a usar um anel igual, a fim de confundir os invasores. Com o tempo, o anel se tornaria um símbolo de etnicidade entre todos os letões no mundo.

     Esta história é uma construção moderna, tendo sido popularizada pelo romance Nameja gredzens de Aleksandrs Grīns, publicado em 1929. Como tantas outras supostas “tradições” em outros países (por exemplo, os tartans escoceses e irlandeses), autores nacionalistas modernos deram para seu povo símbolos que remetem ao passado para trazer um senso de identidade e pertencimento àqueles no futuro. (Aos interessado no tema, ou aos que estão duvidando do que acabamos de afirmar, recomendamos a leitura de “A invenção das tradições”, do historiador britânico Eric Hobsbawn).

     Desta forma, evidentemente o filme possui um atrativo a mais para os letões de hoje, entre os quais nos incluimos. Nosso entusiasmo inicial, no entanto, logo se tornou em  decepção.

     Seu diretor é Aivars Gruba, conhecido pela direção de diversos filmes e, principalmente, “Rīgas sargi” – os Defensores de Riga, de 2007, que trata sobre a luta travada pela independência da Letônia após 1918, com o final da Primeira Guerra Mundial. Com este curriculum, não é de se admirar que o diretor tenha experiência e interesse em trazer temas nacionais para a grande tela.

     A fotografia e a cinegrafia do filme são apuradas. As tomadas aéreas, em particular, trazem imagens estonteantes de florestas e pântanos da Letônia (provavelmente algumas das tomadas de pântanos tenham sido feitas na reserva nacional de Ķemeri) muitas vezes cobertos pela neblina, e as construções, de forma geral, são executadas com domínio impecável da técnica.

Mas os elogios ao filme já podem parar praticamente neste único parágrafo.

Tomada dos créditos iniciais de “The pagan king”.

     Uma primeira surpresa ao se assistir o filme é que o mesmo se passa inteiramente em inglês, ainda que hajam versões com legendas em letão e russo e uma versão dublada. Os interessados em ter mais contato com elementos genuínos nacionais já têm um início conturbado, portanto. Essa escolha da língua provavelmente influenciou o casting do filme, a começar pelo ator principal, que interpreta Nameisis. Edvin Endre, um ator de origem sueca, é mais conhecido internacionalmente por seu papel apagado na série Vikings, na qual foi o detestável personagem Erlendur.

Edvin Endre como “Erlendur” na série “Vikings”.

     Lauga, sua esposa, é interpretada pela mais agradável lituana Aistė Diržiūtė, enquanto que o vilão principal, Max von Buxhoeveden, pelo britânico James Bloor. Causa estranheza imediata, portanto, que um filme com temática tão letã não possua um letão dentre seus três personagens principais, ainda que os tenha em personagens secundários e terciários.

     A origem estrangeira do elenco não traz grandes acréscimos ao filme. Em relação ao filme anterior citado de Aivars Grauba, nota-se a diferença; se então parte considerável dos atores era de mais idade, formada ainda dos tempos da União Soviética e atuante no cinema letão (como os memoráveis Jānis Reinis e Elita Klaviņa nos papéis principais), de uma rica tradição cinematográfica que remonta a nomes como Serguei Eisenstein, o novo elenco é de atores internacionais da lista B, capazes de falar inglês, mas não necessariamente de entregar uma boa performance.

     As interpretações são, no mínimo, sofríveis, a começar pelo principal vilão, “Max”, um personagem monocromático que efetua maldades inomináveis a cada segundo com pouca justificativa para tanto que não seja o fato de ser o antagonista. Todos os maus recursos usados para caracterização de vilões em filmes B estão presentes, dos risos maléficos, olhos esbugalhados de raiva, súbitos assassinatos sem justificativa e uso de xingamentos e palavras de baixo calão constante.

Max, com sua expressão vilanesca padrão

     Os heróis principais não se salvam muito. Isto se deve não apenas à inabilidade dos autores, mas também à péssima escrita. Os diálogos são sofríveis, o texto é sofrível, os personagens são sofríveis, quando não terríveis. A divisão entre mocinhos e bandidos é monocromática; os alemães, cristãos, são 100% maus, e como tal se comportam. De fato, a primeira cena com diálogos do filme traz o papa de Roma, subitamente matando outra pessoa ao fazer tramóias com seu filho bastardo Max, que quer para si o território de Zemgale.

O papa matando subitamente alguém sem maiores explicações com uma facada na barriga,
aos 03:12 do filme. Max, seu filho bastardo, e os cavaleiros em volta parecem não notar.

     O vilão Max, já citado a pouco, é a ideia quintessencial trazida no filme de quão maus eram os alemães cruzados, apresentados sem qualquer nuance ou tentativa de credibilidade. Em uma cena próxima dos atos finais, por exemplo, há um único bom cristão, um monge de aspecto doentio, irmão do vilão Max (a prole do papa no filme parece ser imensa), que é encarado com ironia pelos demais por querer evangelizar os pagãos.

     Ao procurar impedir a luta entre alemães e zemgálios, ele é flechado pelos próprios alemães sem maiores problemas. Um uso no mínimo desonesto da parte do diretor das fontes escritas disponíveis, ignorando, por exemplo, os relatos da Crônica de Henri da Livônia e o exemplo de seu próprio personagem principal, que demonstra uma preocupação com o aspecto religioso das empreitadas, e apresenta outros seus antecessores que inclusive perderam a vida nas mesmas.

     Há de se notar que a casa dos Buxhoeveden de fato existiu (ainda que não Max, que provavelmente foi baseado pobremente em indivíduos que lutaram na guerra de zemgálios e lituanos contra os cruzados do final do século XIII) e teve de fato papel sangrento na conquista das tribos bálticas, mas dificilmente justifica a narrativa pobre em questão.

     Há de se notar que os cruzados alemães do filme dificilmente fazem jus ao poderio militar dos reais cruzados ocidentais, principalmente, mas não apenas compostos de alemães e escandinavos, que possuíam bestas, armas de sítio e cavalaria, enquanto que no filme usam arcos e armas simples em sua maioria e são bastante inábeis em combate. Em uma cena no pior estilo holywood (bolywood daria mais certo para descrevê-la), o herói Nameisis, preso pelos cruzados e amarrado, dá conta facilmente – sozinho e amarrado, repetimos – de toda a tripulação do barco, libertando-se e voltando para a terra a nado.

     Os zemgálios, por sua vez, com exceção de algumas tentativas de matizá-los, com conflitos internos, são apresentados de forma generosa quando não estão envolvidos em tramóias para derrubar o rei; usualmente sorridentes, agradáveis, exemplos de nobres selvagens praticando rituais puros que infelizmente não têm muita habilidade poĺitica.

     A retratação religiosa dos zemgálios deve muito à Dievturība, um movimento moderno que alega reconstruir a religião tradicional dos povos bálticos, mas que apresenta um resultado anacrônico e altamente idealizado.

     Uma exceção que merece ser citada aqui é a aparição de um “xamã”. Alguns autores pressupõem, parcialmente baseados na descrição de crônicas, da existência de um tipo de sacerdotes conhecidos como “Krive”, “Tulissones” ou “Ligaschones” dentre os povos bálticos, que poderia se assemelhar aos xamãs eurasiáticos, com seus tambores e ritos.

O “Krive” em “The pagan king”

     Não há menção qualquer no decorrer do filme de costumes zemgálios muito frequentes citados nas fontes escritas que possam denegrí-los como, por exemplo, a decapitação. Segundo a Crônica de Henri, os zemgálios iam para a batalha com carroças, que enchiam com cabeças dos inimigos ao final da batalha.

     Os conflitos internos entre personagens desejando a primazia entre os zemgálios são feitos de forma completamente formulaica, apresentando os opositores a Nameisis de forma negativa e estereotipada, e com o intuito de reforçar a mensagem nacionalista do filme – se os zemgálios não se unirem, serão conquistados.

     De fato, há uma escolha estética e estilística bastante evidente usada no filme que explica muito de suas decisões questionáveis; o diretor procurou sem qualquer limite ou autocrítica emular descaradamente os recursos usados na série “Vikings” (e, em menor grau, “Game of thrones” – há, por exemplo, um lobo que acompanha Lauba por toda a história). Como já citamos a pouco, o ator principal participou da mesma. No entanto, a emulação nem de longe pára por aí.

Um “zemgálio” na cena da batalha final

     A imitação dos personagens é descarada; Valdis (interpretado por Ivo Martinsons), o conselheiro principal de Nameisis, e de Viesturs antes dele, é uma imitação do personagem “Björn” da série vikings, a começar pela forma de cortar cabelo e barba, mas também na forma de falar, a intonação das frases, o sotaque e os trejeitos que, antes de tradicionais e baseados em reconstrução histórica, são invenções muito específicas de Michael Hirsch para a série “Vikings”.

Björn Ironside, na série “Vikings”
Valdis, em “The pagan king”

    Outros personagens são cópias completas da série, como o personagem Lemme, interpretado por Lauris Dzelzītis (finalmente um letão no elenco); exatamente as mesmas imitações usadas para Valdis/fake Björn ocorrem com este personagem. De fato, seu desafio a Namesis, ao invés de apresentar uma matização da desunião entre zemgálios, dando solidez à reconstrução histórica, é feita de forma a emular novamente a série Vikings, marcada por guerreiros fazendo bravata e criando brigas entre si em salões repletos de guerreiros e bebidas.

Ubba, Bjorn e Halfdan, em “Vikings”
Lemme, em “The Pagan king”

     Nameisis usa duas táticas de batalha; a tática da víbora (“viper”) e a tática do muro de escudos (“Shield wall”). Ambas, novamente copiadas do mundo Escandinavo. De fato, não apenas na série Vikings, mas também na mais embasada “The Last Kingdom”, já se tornou topos repetido à exaustão um grupo de vikings entrando em formação de combate, sob o grito de seu líder de “Shield wall”.

     As mulheres guerreiras (“Shieldmaidens”), um tópico de debate recorrente – e problemático – nos estudos vikings e escandinavos contemporâneos, e tão proeminente retratadas na série Vikings com as personagens Lagherta e Torvi, dentre outras, é emulada em “The pagan king”. Nas cenas de batalhas, inclusive na batalha final, há inúmeras guerreiras trajadas e penteadas de forma a imitar ao que é feito na série. Desnecessário dizer que não há fundamento histórico para seu uso.

     Por fim, no quesito de reconstrução histórica, outros deslizes e aberrações são frequentes. No campo de deslizes poderíamos citar o uso das vestimentas e, principalmente, armas, em sua grande maioria imitações de equipamentos usados na Escandinávia. As espadas, em particular, são imitações das espadas vikings de tipo “Ulfberht”, artigos raros no Báltico, encontradas com maior frequência dentre os Kurši, que tinham maior relação com a Escandinávia, mas nem de perto tão frequentes em Zemgale. Podem se encontrar cerca de apenas duas a três espadas de tal modalidade no museu de Liepaja, encontradas entre os Kurši.

     O cuidado com as vestimentas étnicas também é relativizado, procurando se inserir elementos com “jeito” escandinavo, diminuindo em parte as vestimentas mais notavelmente bálticas. Ainda assim, este quesito é possivelmente um dos aspectos com mais cara “báltica”, ao menos em personagens como Lauga e a rainha Rama, com uma ressalva importante – as vestimentas bálticas, como no caso do casamento, por exemplo, tem mais a ver com vestes de Latgale de dois séculos anteriores, do que propriamente Zemgale do século XIII.

     Os barcos e tudo a que eles se relacionam são cópias escandinavas, desde a cópia do famoso barco noruguês de Oseberg, datado de mais de três séculos anteriores, até o funeral do rei zemgálio Viesturs, no qual ocorre outra aberração histórica: a rainha Rama, enviuvada, sobe ao barco para morrer junto com o marido. Aqui há uma provável inspiração fora de lugar e de época no funeral escandinavo entre os Rus’ no qual uma concubina o acompanha ao além, descrito pelo cronista árabe Ahmed Ibn Al-Fadlan – novamente, um relato de mais de três séculos de diferença, e contexto étnico e geográfico muito distinto.

     Um anacronismo particularmente grotesco é a construção de um cenário extremamente semalhante a Stonehenge, da Inglaterra, como se fosse um lugar sagrado e secreto dos Zemgálios. Os cultos megalíticos datavam de milhares de anos antes dos eventos relatados, e não há no território letão construções no estilo de Stonehenge, ainda que rochas mais isoladas e esparsas sejam encontradas.

Nameisis no “Stonehenge” zemgálio

     Por fim, “The pagan king” é, senão uma desonestidade com o espectador, um insulto à sua inteligência, e uma boa oportunidade perdida. A excelência na fotografia e a evidente capacidade técnica demonstradas na execução do filme foram desperdiçadas em uma produção que se preocupa mais em parecer ocidental, ser cool e imitar exaustivamente blockbusters supostamente “históricos” do ocidente do que de fato executar um filme histórico ou de inspiração histórica.

     O cinema letão perdeu uma chance de divulgar sua cultura nacional e agora os historiadores têm mais um problema ao explicar para os desavisados sobre a origem do anel tão famoso e difundido. O diretor Aivars Grauba parece ter se esquecido do próprio lema que seus personagens repetem à exaustão: se os Bálticos deixarem de lado quem são, serão diluídos e perderão sua identidade.

Semana da Pátria

Nos anos de 2016 e 2017 tive as ocasiões de ir para a Letônia, e as condições climáticas sempre me fascinaram em minhas viagens, em especial, o mês de Novembro, com o término do Outono e o início do Inverno. E ao desembarcar em um país europeu você terá certeza sobre qual estação do ano você está, pois as estações no hemisfério norte são muito bem definidas.

Para muitos de nós, Leto-Brasileiros, viajar para a Letônia no inverno, é um assunto um tanto assustador, pois diferente do “Verão Anual Brasileiro” a Letônia na maior parte do ano oferece temperaturas mais baixas do que em relação ao hemisfério Sul.

Por algumas semanas antes de embarcar, minha preocupação com o frio, não era diferente. O mês de Novembro é um dos meses mais sombrios e melancólicos do ano em partes da Europa, No entanto, para a Letônia e seu povo, é um momento de lembrança e celebração alegre, pois em Novembro é o mês das festividades da independência, e o período entre os dias 11/11 a 18/11, que é chamada de semana patriótica, ou semana da pátria.

Independente do cansaço da viagem, desembarquei em Riga com um sorriso no rosto, e no ônibus em direção ao centro, já reparei uma diferença, muitas árvores não tinham mais folhas nem verdes, nem laranjas, mas haviam várias bandeiras “Vermelho Branco Vermelho” hasteadas em vários pontos da cidade.

O evento que marca o Início desta semana Patriótica é a celebração do dia de “Lāčplēsis”, pois esta é a data da vitória final dos heroicos soldados da Letônia sobre o exército de “Bermondt” em 11 de novembro de 1919. Homenagens são realizadas em memória dos soldados que deram suas vidas pela liberdade da Letônia.

Há muito para o que se ver, desde “serviço devocional” na Catedral de Riga, homenagem com flores no cemitério dos soldados, Parada militar no monumento da liberdade, e o mais esperado por todos, acender velas de cores vermelhas e brancas no castelo de Riga e no monumento da liberdade.

“Mar de velas” ao lado do Castelo de Riga
Baiba Mekss, Laima Dimanta, Lucas Stepanow

 

 

 

 

 

 

 

11/11/2017

 

O Dia é um lembrete para cada cidadão, de que não se nasce um herói, porém se torna um herói por meio da coragem, e a lembrança de permanecerem vigilantes e proteger a independência do País todos os dias. Então, o 11 de novembro oferece uma boa oportunidade para que todos possam olhar para o próprio coração e se perguntarem: O que posso fazer para minha família, meu povo e nosso país?!

No decorrer da semana há vários concertos e corais se apresentando em Igrejas, Catedrais, e nos centros culturais, muitos desses eventos são de graça ao público. Outros artistas também escolhem as datas de inverno para fazerem suas apresentações musicais. Nesta semana em especial, muitos Letos usam também uma pequena fita nas cores da bandeira da Letônia em formato “V”, preso próximo do coração. Este símbolo traz a mensagem de vitória e que a “Letônia está no meu coração, não importa onde eu vá!”.  

Por vários anos as comunidades Letas ao redor do mundo se reúnem no dia 18 de Novembro para terem um tempo de comunhão em memória da terra natal. E vários anos eu me reuni com meus pais e outros Letos de Nova Odessa para ouvir o coral. E nunca imaginei que estaria em Riga dia 18 de Novembro de 2017, no 99 (nonagésimo nono) aniversário da Letônia, foi algo mágico, pela quantidade de coisas a presenciar em apenas 1 dia.

Logo pela manhã no dia 18 de novembro, houve uma grande parada militar na Krastmala, uma larga avenida na margem do Rio Daugava, com a presença de componentes Navais, Terrestres, aéreo, força militar e políticos como a do Presidente, Ministro da Defesa, e outros do parlamento.

No começo da noite por volta das 19:00, houve o “Lapu Gajiens”, uma caminhada com centenas de pessoas com tochas de fogo, marchando do monumento do ex-presidente Karlis Ulmanis, até o monumento da liberdade.

Desde a declaração da independência em 1918, a Letônia teve nove presidentes, cujos discursos ao lado do monumento da liberdade se tornaram tradição e indispensáveis para a celebração de cada ano na Letônia livre. Discursos estes, que são patrióticos e encorajadores a nação, o atual presidente Raimonds Vejonis, disse em seu discurso: “Vocês são os heróis que tornam nosso país mais forte e seguro a cada dia – vocês são a Letônia! Somos a Letônia! Deixe-nos agradecer e dizer alto em nossos corações. Celebramos livremente este dia com gratidão, felicidade e amor uns com os outros a nossa pátria!”

                          

 

Na semana patriótica também ocorre o “Staro Riga”, um festival de luzes e sons, vários edifícios ganham artes visuais. Até o monumento da liberdade, que após o discurso patriótico do presidente, houve uma arte visual com a música “Dvēseles Dziesma” (Canção da Alma) composta por Ēriks Ešenvalds.

        

E para finalizar com chave de ouro, as 21:00 na Krastmala, acontece a canção do hino nacional “Dievs Svētī Latviju” e a queima de fogos.

 

 

“Para os Letos, acreditar na Letônia é amar seu país. Ela precisa de nossa fé e amor. Porque sem isso, a Letônia não pode existir “,

Vaira Vīķe-Freiberga

Dias dos Letos do Mundo

Já se encerrou o evento “Dias dos Letos do Mundo”, que aconteceu nos dias 2 e 3 de julho, dentro da programação do Festival da Canção e Dança em Riga, Letônia.

No dia 2 de julho aconteceu o concerto realizado por letos do exterior  “Homem. Eternidade. Vibração”. Os letos do Brasil foram representados pelo grupo de danças folclóricas Staburags, de Ijuí – RS. O show também incluiu nossos amigos TDK “Kamoliņš” e o grupo folclórico “Dudalnieki” da Inglaterra que nos visitaram no Brasil no final de 2017.

O vídeo do concerto está disponível em:

https://www.lsm.lv/raksts/kultura/dziesmu-un-deju-svetki/foto-un-video-arvalstu-latviesu-kolektivu-koncerts-cilveks.-muzs.-dimd.a284101/

No dia 3 de julho, corais letos do exterior se reuniram no mesmo palco para o concerto “Homem. Eternidade. Som”, para deixar todos felizes com canções que são queridas aos letos em todas as partes do mundo. Entre eles também estavam o Coral Leto do Brasil e nossos amigos do grupo folclórico Dūdalnieki.

O vídeo do concerto está disponível (33 min.) em:

http://play24.lv/video/12974/arvalstu-latviesu-koru-koncerts-cilveks-muzs-skan

É uma maravilha que, com a ajuda da tecnologia moderna, possamos acompanhar as atividades dos letos do Brasil no Festival da Canção e Dança da Letônia. Mas é ainda mais maravilhoso aproveitar estes shows com seus próprios olhos, ao vivo!

O Coral Leto do Brasil, o grupo de danças Staburags, além de convidados da Letônia – o grupo de danças Dzirnas, se reunirão num mesmo palco muito em breve – dia 17 de novembro de 2018, em Nova Odessa, no Brasil, em homenagem ao Centenário da Proclamação da República da Letônia, para trazer um pouco das emoções deste Festival da Canção e Dança a cada coração aqui no Brasil.

Vamos celebrar o Centenário da Letônia juntos! Vamos nos encontrar no 1º Festival de Cultura da Letônia no Brasil!

Mais informações:

http://www.letoniabrasil.org/festival

Biblioteca da Letônia está entre as melhores do mundo

Também conhecida como Gaismas Pils (Castelo de Luz), a Biblioteca Nacional da
Letônia (Latvijas Nacionālā bibliotēka) é um orgulho para os cidadãos do país.
Converse com algumas pessoas em Riga sobre como chegar lá e você sentirá a
reverência que os locais têm pela biblioteca. Letões têm grande respeito por livros e
leitura. Talvez seja um resquício do passado de dominação soviética, quando alguns
livros eram censurados e difíceis de conseguir. Hoje os letões têm à disposição no
Castelo de Luz – nome sugestivo –, 4,5 milhões de títulos.

Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Ieva Lūka

No ano em que o país completa 100 anos de independência, a Biblioteca da Letônia, que
foi fundada em 1919, um ano após a proclamação, está entre as finalistas do prêmio de
melhor biblioteca do ano promovido pela Feria do Livro de Londres (London Book
Fair) em parceria com a Associação de Editores do Reino Unido. Ela concorre com
outras três bibliotecas: da Noruega, da Dinamarca e de São Paulo, que foi aberta em
2010, na área da antiga penitenciária do Carandiru e que conta com um acervo de 43 mil
títulos.
Mas a intenção da London Book Fair é premiar bibliotecas que, muito mais que títulos,
ofereçam um incentivo a mais à leitura e à cultura. Na Biblioteca da Letônia, os
usuários têm acesso a coleções especiais, livros raros, manuscritos, coleções,
Enciclopédia da Letônia, Biblioteca Central Báltica, mapas, partituras, gravações de
som, publicações gráficas, efemérides e periódicos, além de promover eventos culturais,
como música, teatro e exposições.
A biblioteca também publica livros e organiza a digitalização da Herança Cultural da
Letônia. Sem contar que ela abriga um tesouro nacional: o Armário de Canções
Populares (Dainu skapis), localizado no quinto andar e que contém manuscritos de
canções folclóricas de toda a Letônia, estando listado no Registro da Memória do
Mundo da UNESCO.

Dainu Skāpis.
Foto: Evija Trifānova

Essas canções folclóricas, conhecidas como Latvju dainas, foram organizadas e
coletadas por Krišjānis Barons (1835-1923) e por Johann Gottfried Herder (1744-1803).
As canções mais antigas datam de 1584 e 1632. Existem mais de 1,2 milhão de Dainas,
com referências que vão desde peças teatrais até conversas do dia a dia.
História
A Biblioteca Nacional foi fundada em 29 de agosto de 1919. O prédio original ficava na
rua Krišjāņa Barona, no centro da cidade de Riga. Hoje o prédio moderno da nova
biblioteca fica na margem esquerda do rio Daugava,
A construção do prédio novo começou em 2008. O design surpreendente foi
desenvolvido pelo arquiteto letão-americano, Gunnar Birkerts. A Biblioteca tem 13
andades e 68 metros de altura. O prédio ficou pronto em 2014, ano em que a Letônia foi
a representante da Capital Europeia da Cultura.
Uma nação de leitores

Foto: Mirela Purim
Foto: Lucas Stepanow Eksteinas
Foto: Mirela Purim

 

A Letônia é a 9ª nação mais letrada do mundo, de acordo com pesquisa da Central
Connecticut State University, em 2016. Os cinco primeiros lugares são ocupados pelos
países escandinavos: Finlândia, Noruega, Islândia, Dinamarca e Suécia. O ranking mede
os comportamentos letrados (compreensão) das populações pesquisadas e não suas
habilidades de leitura (alfabetização).
Nesta mesma pesquisa, a Letônia ficou em segundo lugar na categoria Bibliotecas da
classificação por seu grande número de bibliotecas e o número de volumes dentro delas.
Além da Biblioteca Nacional, a Letônia tem 1.670 bibliotecas:
O resultado do prêmio para a melhor biblioteca do ano será anunciado no dia 10 de abril.

Serviço
Endereço: Mūkusalas iela 3, Rīga

Contato: lnb@lnb.lv
Horários (fechada nos feriados)
segunda-feira 09:00–20:00
terça-feira 09:00–20:00
quarta-feira 09:00–20:00
quinta-feira 09:00–20:00
sexta-feira 09:00–20:00
Sábado 10:00–17:00
Domingo 10:00–17:00

Visitantes que não têm cadastro na biblioteca devem pedir autorização para entrar.
Turistas devem pagar entrada de 2 Euros e podem visitar a biblioteca acompanhados de
guia. É proibido entrar na biblioteca com bolsas e mochilas, que devem ser deixados
nos armários ao custo de 1 Euro.

Conheça a Biblioteca Nacional da Letônia por meio de um Tour virtual pelo link: http://ture.lnb.lv/

e através das fotos abaixo.

Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Sala de Leitura de Ciências Humanas e Sociais.
Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Jānis Dripe
Vista da biblioteca nacional para o rio Daugava e a cidade velha de Riga. Foto retirada do site, BNN Baltic News Network.

A crônica da Livônia: uma primeira história letã

O território das atuais Letônia e Estônia é referenciado em fontes escritas apenas a partir do período medieval. Na maioria das fontes, algumas das regiões da Letônia de hoje como Kurzeme (a “Kúrland” dos escandinavos no período viking) e Zemgale são citadas apenas de passagem, muito brevemente, e com muita frequência em meio a acontecimentos lendários ou sobre cuja factualidade se questiona.

A primeira crônica mais longa a falar sobre a região com detalhe, trazendo descrições específicas sobre os locais e com preocupação factual é a Henrici chronicon Livoniae – a “Crônica de Henri da Livônia”, que trata de acontecimentos ocorridos entre os anos de 1180 a 1227 na Livônia.

O nome “Livônia” foi dado à região devido aos habitantes da área norte da atual Letônia, os lívios, povos fino-úgricos, de linguagem totalmente distinta dos idiomas indo-europeus da área como lituano e letão, antigo nórdico e antigo eslavônico. Atualmente os lívios são uma minoria étnica quase extinta, habitando apenas uma estreita faixa do norte da Kurzeme, mas da Pré-história ao período moderno a etnia foi o grupo predominante em toda a área entre o norte do rio Daugava até as tribos estonianas – com as quais os lívios têm parentesco muito próximo.

Os principais eventos narrados na Crônica tratam da conquista da região pelos alemães, cristãos católicos romanos, e sua disputa pela primazia na região contra dinamarqueses e suecos. Em meio a isso, algumas das tribos – como dos letões – aproveitaram-se da situação, ampliando seu território à custa de seus vizinhos, particularmente os lívios.

O episódio, que se prolongou por séculos, faz parte de um processo mais amplo das cruzadas no norte na Europa. Simultaneamente às cruzadas na Palestina, que procuravam, dentre outros objetivos, retomar a Terra santa para a Cristandade e lutar contra os pagãos muçulmanos, movimentos semelhantes ocorriam na própria Europa, contra seus próprios pagãos. Na Península Ibérica, habitada por hispânicos e portugueses, mas dominada pelos islâmicos, as cruzadas ganharam o nome de “Reconquista”. No norte da Europa, foram conhecidas como “Cruzadas do Norte”[2], e foram levadas a cabo com o auxílio de ordens monásticas militares: os Irmãos da espada (Ver Figura 01) e a Ordem Teutônica, que acabaria por estabelecer um estado monástico na região que duraria até os tempos das Reformas Protestantes.

01 - Fellin (Viljandi)
Figura 01: Reconstrução do cerco ao forte de Fellin (Viljandi), no sul da Estônia, pelos Irmãos da Espada, em 1211. Fonte: Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing, p.07.

Até o século XIII a região que vai do Norte da Alemanha e Polônia, passando pelos países bálticos até a Finlândia era habitada por populações indo-europeias do ramo bálticas (antigo prussianos, tribos lituanas e letãs) e por Fino-úgricos (lívios, estonianos e finlandeses). Esta grande quantidade de povos (ver Figura 02) era pagã e, com exceção da Lituânia, pouco organizada politicamente, consistindo em unidades tribais. Até então os nativos travavam comércio desde antes do período viking com Escandinavos e Eslavos, que se converteriam ao Cristianismo e se unificariam em torno de reis nas proximidades do ano mil.

 

As tribos bálticas no século XIII
Figura 02: As tribos bálticas no século XIII. Fonte: GIMBUTAS, Marija. The Balts. London: Thames and Hudson, 1963, p.23.

 

Com a expansão do comércio germânico para o norte, a área báltica tornou-se alvo do interesse dos europeus ocidentais, interessados em obter acesso ao mundo boreal, que fornecia produtos valorizados como peles, mel, cera e madeira. Ao mesmo tempo, a Europa passada por um momento em que a ideologia cruzada era particularmente atrativa para sua classe de nobres guerreiros, muitos dos quais não tinha perspectiva de obterem suas próprias terras perto de suas regiões de origem, interessados em tentar a sorte e aventura longe de casa.

Dessa forma, as Cruzadas do norte foram uma empreitada de expansão comercial e econômica chancelada pela Igreja cristã e pela nobreza feudal. Não devemos efetuar juízos de valor e maniqueístas sobre a circunstância; em meio a indivíduos interessados em explorar a área e os nativos, é possível se encontrar um grande número de missionários abnegados e preocupados com a conversão e bem-estar dos locais, inclusive por vezes procurando protegê-los de abusos maiores da parte dos conquistadores germânicos e escandinavos. É possível que Henri, autor da Crônica, esteja entre estes últimos.

 

O castelo de Turaida
Figura 03: O castelo de Turaida, uma das muitas fortificações construídas pelos germânicos no processo de conquista e cristianização da Livônia. O castelo passou por uma completa restauração nos tempos recentes, a parte de sua torre principal foi construída apenas no século XVI. Foto do autor.

 

Henri da Livônia

Henricus Livonicus, ou Henri da Livônia, foi um missionário, sacerdote e intérprete. Muito possivelmente era um alemão vindo da Saxônia, que teria chegado na Livônia por volta de 1205[3]. Apesar de temos afirmado sua provável origem germânica, o tópico é tema de debate entre acadêmicos, muitas vezes em meio a discussões de caráter nacionalista. É comum se encontrar alguns autores letões alegam uma origem lívia ou letã para o mesmo, ao mesmo tempo que alemães defendem majoritariamente sua origem germânica[4].

Ambas as partes procuram se fundamentar no texto do próprio Henri. Alguns autores de origem letã argumentam Henri tinha um grande conhecimento das línguas locais, já que ele usara no texto um bom número de palavras, e descreveria em detalhes costumes nativos. Interessantemente, comentaristas e historiadores alemães empregaram muitas vezes as mesmas evidências, mas para demonstrar o sentido oposto; Henri conheceria as línguas locais porque era um intérprete para os alemães.

Dentre aqueles que defendem que Henri seria um nativo da Livônia, há uma predominância de autores que escrevem histórias genéricas nacionais, não especializadas em períodos específicos e bastante generalistas, como a History of Latvia: an outline, de Arnolds Spekke, escrita em 1948 mas reeditada várias vezes[5], ou History of Latvia, de Alfreds Bilmanis, escrita em 1955[6].

Vários acadêmicos e eruditos, mesmo de origem letã e estoniana, aceitam atualmente a ideia de que Henri fora um germânico – nos incluímos aqui, nessa lista. Arveds Schwabe, por exemplo, que também escreveria um manual generalista sobre a história letã em 1953[7], dentre uma grande produção de cunho mais específico e acadêmico. Há algumas posições bastante específicas, como de Evalds Mugurēvičs, que considera que Henri poderia ter nascido no norte da Germânia, mas que isso não seria um empecilho para uma suposta etnicidade báltica ou fino-úgrica. [8]

Alguns autores exageram um pouco na extensão de suas deduções, procurando criar muito com poucas referências:

Paul Johansen, por exemplo, especula, e afirma que o conhecimento de lívio e talvez alguma língua letã (curônio, zemgálio ou latgálio) de Henri teria sido obtido no monastério de Segeberg. A base do erudito para a afirmação é uma referência do texto, que fala de certa ocasião em que o o bispo Alberto tomou 30 jovens reféns de origem lívia em 1200[9].

Possivelmente o argumento mais usual para identificar Henricus como letão é um título frequentemente encontrado junto da crônica, “Henricus de Lettis”, “Henrique, dos letos”. Esse título, no entanto, vem de tradução errônea feita em 1740 por Johann Daniel Gruber, e não se encontra nos manuscritos mais antigos.

Henri é bastante modesto e circunspecto ao falar de si mesmo. Existem apenas seis passagens na Crônica em que ele passa alguma informação ou título sua:

Henrici, scolaris Alebrandi (XI.7; 1207); Heinricus sacerdos et Lehti (XII.6, 1208); Henricus de Lettis, sacerdos et interpres (XVI.3, 1212); Henricus et Alabrandus (XVII.6, 1213); Henricus, Lettorum minister de Ymera (XXIV.1, 1220); Henricus et Petrus (XXIV.2, 1220).

 

O que é possível de se deduzir dessas passagens sem maiores malabarismo e elucubrações? Henri era sacerdote dos letões da localidade de Ymera, mas não é possível daí se deduzir uma etnicidade letã. Há muitos casos de sacerdotes e missionários, não apenas do medievo, que recebem nomes ou apelidos semelhantes, baseados nos nomes daqueles entre os quais tais missionários trabalharam. No próprio contexto da Livônia podemos citar “Theodoricus de Kukunoys” – Theodoric de Kokhenhusen/Koknese, ou “Rodolfus de Wenden” – Rudolf de Wenden/Cesis.[10]

Em algumas passagens, Henri não fala sobre nenhum título seu, mas na forma que usa os pronomes, ou como descreve os conflitos e acontecimentos, é possível se perceber que ele se identifica com os alemães. Note-se a seguinte passagem, que fala de uma batalha:

 

Ex nostris vero ceciderunt duo et ex Lettis duo (…)

“Dos nossos caíram dois e dos letões, dois (…)” (XXIII.9; 1220)

 

Dificuldades à parte, existe um trabalho erudito muito detalhista e de qualidade feito sobre Henri, procurando reconstruir um pouco de sua vida. A informação foi listada satisfatoriamente por Paul Johansen em 1953[11]; os eruditos posteriores acrescentaram pouca coisa, com a exceção de Arbusow. Desses trabalhos normalmente tiram-se as seguintes possibilidades:

Henri nascera por volta de 1188, provavelmente na Saxônia. Estudou possivelmente no monastério de Segeberg, em Holstein, região limítrofe da Saxônia com a Dinamarca – uma localidade citada por ele com frequência (I.2; VI.3; IX.6; X.7). Ali, Henri adquirira um sólido conhecimento do latim eclesiástico. Henri cita a Vulgata e documentos litúrgicos latinos a praticamente toda página da crônica, mas seu uso de autores clássicos é bem menor.

Possivelmente no próprio monastério Henri teve seu primeiro contato com as línguas bálticas, próximo a 1200, provavelmente por meio dos reféns obtidos pelo bispo Alberto na Livônia, e que ficaram sob os cuidados do irmão do mesmo, Rothmar, abade de Segeberg.

Henri provavelmente chegaria à Livônia em 1205, trabalhando como acadêmico e tradutor da missão do bispo Alberto. Seria ordenado sacerdote em 1208, e receberia provavelmente a paróquia de Papendorf, Rubene em letão, localizada cerca de 14 km a sudeste de Wolmar, Valmiera em letão. Viveria ali com os letões, os quais tentaria evangelizar pelo restante de sua vida.

Henri escreveria sua crônica provavelmente entre os anos de 1224 a 1226, baseando-se em relatos e em experiências próprias. No ano de 1227 ele adicionaria uma seção que contaria a conquista da ilha estoniana de Ösel/Saaremaa no próprio ano.

Entre os anos de 1225 a 1227 Henri assumiu também a função de intérprete de William de Modena, legado papal. É possível que sua crônica venha de uma espécie de relatório para ele sobre o andamento da missão na Livônia.

É possível se apreender outras características de Henri além de datas, nomes e locais que trazem uma imagem um pouco mais viva. Algumas de suas narrações e descrições são bastante gráficas e vívidas, frequentemente cheias de detalhes e até mesmo humor. detalhadas. Ele demonstra algum interesse por tecnologias e táticas bélicas; descreve, por exemplo, o uso da Ballista (ver Figura 04), fala sobre a reação dos nativos às inovações trazidas pelos alemães, e mostra o rápido aprendizado dos locais.

Exemplo da Ballista medieval.
Figura 04: Exemplo da Ballista medieval. Obtido em: < https://br.pinterest.com/pin/527343437590827743/?lp=true >em 09/08/2017

Henri parece ter algum interesse na música. Em certa parte da crônica ele conta que, em meio ao campo de batalha, ele pôs-se a tocar certo instrumento musical, que o texto não afirma qual é. Considerando-se a circunstância da batalha, e a necessidade de volume sonoro, nos arriscaríamos a afirmar que o instrumento pode ter se tratado de alguma forma de trompete ou alguma espécie antiga de dudel, a gaita de foles germânica similar às dūdas letãs (ver Figura 05), mas trata-se nada mais que uma pressuposição nossa.

Dūdas
Figura 05: Dūdas – A gaita de fole letã. Selo de 2014.

Algumas das descrições dos costumes nativos parecem ter chocado ao autor. Em mais de uma ocasião Henri relata batalhas entre os locais e os germânicos, por vezes com alguns detalhes curiosos, possivelmente de fundo religioso. Em mais de uma passagem, por exemplo, ele cita tribos locais efetuando decapitação; zemgálios levando carros que seriam cheios das cabeças de seus inimigos, kurs cortando a cabeça de seus próprios companheiros feridos em um cerco a Rīga, e um letão que levaria a cabeça de seu inimigo como troféu.

Henri ainda residiria próximo a Papendorf/Rubene em 1259, já idoso, onde provavelmente faleceu[12].

 

A Crônica da Livônia: os manuscritos

Existem 16 cópias ou fragmentos da crônica, datados de séculos posteriores de sua escrita original. A maior parte dessas cópias foi feita no século XVI, durante o governo dos suecos na Livônia; pela grande quantidade de fragmentos e cópias existentes, nota-se que a crônica despertou muito interesse, particularmente durante o período sueco.

O manuscrito mais antigo é o Codex Zamoscianus, tratando-se de uma cópia – possivelmente do original – feita na Livônia no início do século XIV[13]. Durante o governo Polonês na Livônia e Estônia o manuscrito foi levado para a Polônia, e atualmente o manuscrito encontra-se guardado e protegido na Biblioteca Nacional Polonesa (Biblioteka narodowa), em Varsóvia.[14]

O manuscrito está incompleto; faltam suas primeiras quatro páginas, e ele chega apenas até o capítulo XXIII; faltam nele um terço da totalidade da crônica.

Outro manuscrito importante é chamado de Codex Skodeiskianus ou Codex Rigensis, uma cópia feita no século XVII. Está depositado na Latvijas Akadēmiskajā bibliotēkā em Riga, e pertencia a um pastor luterano chamado Nathanael Skodeisky. Com esse manuscrito Arbusow preencheu a maior parte do trecho que faltava do Codex Zamoscianus.

Outros manuscritos importantes usados pelos eruditos para produzir o texto crítico completo são a) o Codex Gymnasialis Revaliensis, cópia do século XVII guardada em Tallinn – única cópia que, a despeito de sua má qualidade, contém uma frase do capítulo XV que falta nos outros manuscritos[15]; b) Codex Toll cópia também de relativa baixa qualidade feita no século XVII, pertencera ao barão Robert Von Toll (1802-1876), um historiador amador; esse manuscrito foi útil na reconstrução de três sentenças da crônica.[16]

Finalmente, cabe aqui mencionar o Codex Oxenstierna, outra cópia do século XVII. Este último códice é interessantíssimo por tratar-se de uma tentativa, já no século XVII, de um acadêmico coletar os fragmentos disponíveis e juntá-los em uma edição. Pertencera a Erik Axelsson Oxenstierna (1624-1656), governador sueco da Estônia entre 1646 a 1652.

Depois de passar por uma série de proprietários, o manuscrito chegou às mãos de Johann Daniel Gruber (1686-1748), bibliotecário da Landesbibliothek de Hannover, que seria o primeiro editor crítico da crônica. Suas edições, no entanto, incluem muitas alterações e interpolações, e o manuscrito foi recopiado em latim clássico, diferente do latim medieval do século XIII no qual a crônica foi originalmente escrita.

 

A Crônica da Livônia: edições e traduções

 

A primeira edição do texto latino foi publicada em 1740 pelo já citado Johann Daniel Gruber, que foi o responsável por tornar popular o título errôneo, “Henri dos letões”. Já a primeira tradução, para o alemão, foi feita por Johann Gottfrid Arndt em 1747, com algumas correções do texto de Gruber.

Uma nova edição, com essas correções e uma nova tradução – também para o alemão – foi feita por August Hansen 1853, seguida de outra de Pabst, em 1867. O texto latino da Monumenta Germaniae Historica foi editado em 1874 por Wilhelm Arndt, ao qual foram feitas correções e adições por Leonid Arbusow em 1926 e 1927, adicionadas às edições finais de Bauer, de 1955 e 1959. Esta edição crítica pode ser acessada online[17], consistindo no texto base para os estudos acadêmicos, e de onde retiramos as referências .

A crônica foi traduzida para o inglês por James Brundage apenas em 1950-51, ainda baseada na edição de Arndt com poucas das alterações de Arbusow, sendo reeditada em 1961 e 2003 – desta feita com as alterações baseadas na edição de Bauer.

As primeiras traduções para o letão foram feitas por Matīss Siliņš em 1883 e Jānis Krīpēns em 1936. Em 1993 a Zinātne publicou uma nova tradução para o letão, da parte de Ābrams Feldhūns, com introdução e comentário de  Ēvalds Mugurēvičs[18] e atualizada segundo o aparato crítico de Arbusow e Bauer.

Para o estoniano, a primeira tradução foi publicada por Jaan Jung em 1884[19]. Seria seguida por outra tradução apenas em 1962, por Jūliuss Megiste, publicada em Stockholm. Finalmente, Rihards Kleis publicaria uma nova tradução estoniana em 1982, com comentário e introdução de Enn Tarvel.

As traduções da crônica para o russo possuem uma história à parte. Trechos da mesma foram traduzidos pela primeira vez em 1854 por A. Kunik, sendo que em 1876 uma tradução completa com introdução e comentários foi preparada por J. Cheshikhin-Vetrinski. A versão mais autoritativa foi publicada em 1938 por Anninski e Bystrianski na URSS. A introdução de Anninski é sóbria e detalhada, acadêmica em todos os sentidos; também foi a primeira tradução a se valer dos trabalhos críticos de Arbusow. O prefácio de Bystrianski, no entanto, veicula ideologia soviética da década de 30, particularmente o antagonismo contra os germânicos, representando a Alemanha nazista da década de 30.

A crônica foi traduzida para o lituano apenas em 1991, por Juozas Jurginis, e para o finlandês em 2003, da parte de Maijastina Kahlos e Raija Sarasti-Wilenius. Além destas linguagens, existe ainda uma tradução publicada para o italiano em 2005, feita por Piero Bugiani, com comentário e introdução de Pietro Umberto Dini.

Uma tradução e comentário da crônica para o português, baseando-se na edição crítica de Arbusow, está sendo preparada por Renan Birro, Álvaro Bragança e André Muceniecks. Muito do conteúdo desse artigo é original da pesquisa feita para essa edição, que esperamos poder apresentar em breve.

 

Bibliografia:

Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.Várias reedições.

Christiansen, Eric (1997). The Northern Cruzades. London: Penguin Books, first edition 1980.

Gimbutas, Marija (1963). The Balts. London: Thames and Hudson.

Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993.

Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp. 385-408.

Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp.77-106.

Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne.

Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006.

Tamm, Marek & Kaljundi, Linda & Jensen, Carsten Selch (eds.) (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing.

Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing.

Urban, Willian (1994). The Baltic Crusade. Chicago: Lithuanian Research and Studies Center Inc. & McNaughton & Gunn Inc.

____________ (2003). The Teutonic knights: a military history. London: Greenhill books.

Site:

Chronicon Livoniae, In: Monumenta Germaniae histórica. Obtido em (09/09/2017): http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[1] Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

[2] Ver Christiansen (1997[1980]), The Northern Crusades, Urban (1994), The Baltic Crusade, e  Urban (2003), TheTeutonic Knights,  nas referências bibliográficas.

[3] Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing,  p. xviii.

[4] Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[5] Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006, p.123.

[6] Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.

[7] Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

[8] Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 444ss.

[9] Johansen, p. 10.

[10] Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia.  p. 80.

[11] Em sua obra Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[12] Johansen, p.15.

[13] Mugurēvičs, pp. 18ss.

[14] Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions. In: Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing, p.388.

[15]simul et virorum interfectorum alia duo milia”.

[16] Kala, p. 389.

[17] http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[18] Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993. 453 lpp.

[19] “Läti Hendriku Liiwi maa kroonika ehk Aja raamat”.

Os tesouros da Língua Leta

Uma língua é muito mais do que uma forma de comunicação adotada por um determinado povo – sua estrutura é como uma tapeçaria dos movimentos históricos e culturais que caracterizam esse povo, o que a torna chave para a sua identificação e unidade como tal. Com o leto, não seria diferente. Pelo contrário: essa é uma das línguas mais antigas ainda vivas, apesar dos primeiros registros em escrito nela serem tardios (1546, uma tradução da oração Pai Nosso), e, o fato de ter sobrevivido a tantas invasões e dominações basicamente pela tradição oral e pela força de vontade de seus falantes diz muito sobre o papel central que ocupa na identificação do povo leto.
O leto faz parte do grupo das línguas bálticas, dentro da família indo-europeia, distinto de outros grupos como o germânico (o grupo da língua alemã) e românico (o da língua portuguesa). É considerado uma rica fonte para estudos históricos por conservar características arcaicas que foram se perdendo em outras línguas indo-europeias, sendo, portanto, muito importante para a reconstrução do idioma do qual as línguas que hoje se falam na Europa e Ásia Menor teriam derivado, o proto-indo-europeu. Das línguas bálticas, hoje só possuem status oficial o leto e o lituano.

Apesar de ser uma língua de forte tradição oral, pois assim permaneceu até o século XVI, consolidou-se no leto um intrincado sistema gramatical: é uma língua flexiva (em que as indicações de tempo, pessoa e número estão na própria palavra), como o português, e apresenta sistema de declinação de casos nominais (mudanças são feitas na palavra de acordo com a função que ela desempenha numa frase), sendo eles sete: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, instrumental, locativo e vocativo  e seis conjugações. Essas características podem tornar o estudo do leto mais complicado, mas não menos recompensador.

Atualmente, devido aos processos históricos de dominação que marcaram a Letônia, 80% da população do país falam o leto, enquanto, destes, 56% o possuem como língua materna e a língua utilizada no lar. O governo leto coloca em prática muitas políticas de incentivo ao uso da língua do Estado, e várias atividades culturais são promovidas para esse fim. Anualmente, o Centro Estatal de Linguagem promove o Gimalajiešu superlācis, um concurso para avaliar os erros ortográficos e estilísticos em leto mais cômicos.

Aprender a língua leta é um passo essencial para quem deseja conhecer profundamente a cultura e história leta, por ela mesma ser uma rica herança para o povo leto. Sua estrutura possibilita formas de expressão únicas, próprias para a cultura leta. Como exemplos, veja esses ditados populares: pūst pīlītes significa literalmente “soprar patinhos”, mas figurativamente quer dizer “falar coisas sem sentido”, como seria o nosso “falar abobrinhas”, e ej bekot literalmente é “vá colher cogumelos”, enquanto figurativamente diz “vá embora”, como o nosso “vá catar coquinho”. Mais do que aprender uma nova língua, aprender o leto é herdar um tesouro cultural.

Celebração de Līgo em Riga

No ano passado fiz um estágio na Letônia e tive a oportunidade de ir a uma celebração de Līgo ou Jāņi (o Solstício de Verão, o feriado mais popular do país) em Riga, no dia 23 de junho. As festas de Līgo mais tradicionais acontecem nas cidades do interior, mas para participar você precisa ser convidado, já que são festas familiares.

Poucos letões ficam na capital durante o feriado de Jāņi. Apesar disso, todo ano duas festas de solstício de verão são realizadas em Riga para quem não pode ir para o interior: uma na praça 11.Novembra, na parte velha da cidade, com DJs, performances teatrais, dançarinos e cantores folk, e outra no parque Dzegužkalns (Colina dos Cucos), a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade, meia hora de viagem de ônibus.

Eu optei pela última festa por considerar que esta teria um clima mais bucólico, tradicional e mais perto da natureza que no centro e porque a programação de Dzegužkalns oferecia bandas folk incríveis, como Iļģi, uma das bandas mais antigas da Letônia em atividade, e Auļi, que toca tambores e gaitas de fole.  E minha escolha foi muito acertada.

No centro a festa é mais para turistas. Muitos estrangeiros também vão à celebração no parque, mas são mais estrangeiros que moram na Letônia e já estão familiarizados com a cultura local. Além de famílias letãs, encontrei pessoas da Colômbia, Chile, Espanha, Alemanha, Índia… Além disso, é grande o número de russos. Como é uma festa aberta, os russos que moram no país marcam presença. O parque é lindo e grande, com muitas árvores, flores e pássaros e um rio.

A festa começou às 20:00 e havia muito para ver e fazer. Se a Letônia é conhecida como o país da música, no dia do Solstício de Verão há ainda mais canto e dança que de costume. As músicas folclóricas eram cantadas e dançadas tanto no palco, quanto na grama. Tinha gente de todas as idades e muita comida típica e cerveja boa com preço justo. Os letões estavam todos vestidos com roupas tradicionais e as mulheres com coroas de flores naturais e os homens com coroas de folhas de carvalho. Quem nunca tinha feito uma coroa podia aprender a confeccioná-las com flores colhidas nos campos da Letônia.

Também dava para comprar artesanato e aprender danças típicas. Quem se cansasse de dançar, era só estender um pano na grama, relaxar e observar as estrelas, mas nada de dormir! Diz a tradição que no Līgo todos têm que esperar o nascer do sol acordados e quem dorme antes não vai aproveitar o verão.

Ao entardecer uma grande fogueira foi acessa no centro e a partir dela, outras menores foram alimentadas e espalhadas pelo parque para quem sentisse frio. A temperatura estava amena, mas havia um vento gelado.

A festa foi linda e muito organizada. Passei 10 horas na celebração com pessoas desconhecidas que depois de alguma conversa pareciam velhos amigos; o calor humano era cativante. Quando o sol estava nascendo subimos uma das colinas do parque com a cantoria de músicas tradicionais comandada por um casal. Já no topo eles começaram a cantar mais alto, se revezando, e quem sabia as letras acompanhava. Quando o sol já estava alto, lá pelas 06:00, todos fizeram silêncio para apreciar a vista ou fazer reflexões. Casais se abraçavam. A maior parte das crianças começava a demonstrar sinais de sono. Aos poucos a multidão foi se dispersando, cada um indo para suas casas ou para continuar a festa no centro da cidade. Meu primeiro Solstício de Verão na Letônia foi inesquecível! Não tão legítimo, é verdade, por ter sido em Riga, mas ainda, sim, mágico!

 

Texto e fotos: Maria Fernanda Gottardi

A festa do Līgo

A festa do Līgo – também chamada comumente de Jāņi – é certamente o mais popular dos feriados letos. Celebrada na Letônia durante a noite mais curta do ano (o solstício de verão), no dia 23 ao 24, durando só das 23h às 3h, a festa é comemorada com muita dança, música e comidas típicas ao redor de uma fogueira.

Embora a época do Līgo, na Letônia,  seja também a das chuvas (os letos dizem com frequência para os dias chuvosos līst kā pa Jāņiem, “chove como se fosse o Jāņi”), isso não impede que multidões se reúnam nas principais cidades para celebrar. Para participar, apenas é preciso ter disposição e alegria. A festa é uma grande celebração da cultura e ancestralidade leta; várias tradições anciãs são preservadas.

História

A celebração da festa do Līgo vem desde os tempos imemoriais da cultura leta, quando os trabalhadores rurais se reuniam comemoravam a chegada do solstício verão e boas colheitas. Associava-se a celebração com as forças e divindades da natureza na mitologia leta – para celebrar o período entre a plantação e a colheita, para atrair felicidade e espantar o azar.

Na verdade, o solstício de verão acontece no dia 21 de junho, mas com a cristianização, as celebrações foram prorrogadas para o dia 23 para ficar mais perto do dia de São João (24), e daí temos o nome Jāņi. Além disso, os nomes Jānis e Līga estão entre os mais populares na Letônia, e são comemorados nos dias 24 e 23, respectivamente.

A celebração do Līgo é de grande importância para a cultura leta. Com o desenvolver da História, as celebrações foram proibidas, como na União Soviética, mas o povo continuava a se reunir para celebrar a identidade leta nos kolkhozes. Hoje em dia, o feriado é muito importante por celebrar a tradição e herança cultural leta.

Resultado de imagem para Jani latvia

Os preparativos

O Līgo começa com a preparação das casas e saunas letas, os arredores são limpos: Lavagem, corte de grama, estocamento de lenha. É comum passar o feriado nas áreas rurais do país, com a natureza e as fogueiras – Mas nas grandes cidades também são organizadas celebrações e eventos especiais, como a venda de plantas medicinais, ervas, temperos, coroas de folhas, queijo, cerveja e muitas outras coisas para que os letos possam aproveitar a noite da melhor forma possível

A Coroa (Vainagi)

A coroa circular do Līgo simboliza o sol. Na confecção das coroas, os homens usam ramos de carvalho, e a coroa das mulheres é entrelaçada com uma variedade de flores dos pastos – As mulheres casadas também colocam folhas de carvalho em meio as flores, e todas as coroas são tecidas com muito esmero.

Colocar a coroa na cabeça de um amigo é sinal de uma relação forte e sincera.

As Ervas (Jāņuzāles)

Pela manhã, decora-se os cômodos com galhos de carvalho e bétula, margaridas e vidoeiro. Todas as flores, ervas e árvores de flor neste dia são consideradas “Jāņuzāles”, na tradição popular, acredita-se que as ervas coletadas ao nascer do sol possuem poder medicinal, e por isso nesta época são populares os chás naturais.

Com estas ervas também são criadas guirlandas e o portão do sol – um a oeste (rietumi) e outro a leste (austrumi), para simbolizar o nascer e pôr-do-sol.

As comidas (Ēdiens)

Além das ervas e chás medicinais, também são comidas populares no Līgo são os pīrāgi e o queijo de alcaravia (cuja cor simboliza o sol). Além disso normalmente é festejado com bebidas – mantenha sua bebida favorita estocada. Sem isso, você não está celebrando o solstício!

A Fogueira (Ugunskurs)

A fogueira do Līgo é comumente queimada do pôr-do-sol até o nascer do sol, no lugar mais alto, assim iluminando a área para haver luz e não trevas. A tradição popular é saltar sobre a fogueira, simbolicamente limpando tudo que é supérfluo. Os casais pulam a fogueira de mãos dadas para fortalecer o relacionamento, e saem para os bosques para procurar pela flor de samambaia – que só floresce na noite do Jāņi – mas talvez isso seja só um pretexto para namorarem em paz.

A Sauna (Pirts)

Também faz parte da tradição fazer saunas. Tipicamente, as saunas letas são decoradas com ramos de folhas de carvalho e bétula para relaxar e limpar tudo aquilo que não é bom. Depois, todos vão nadar num rio ou num lago por perto. As tradições são divertidos e fortalecem os laços entre família e amigos.

O Līgo no Brasil

O Līgo é uma das principais festas culturais letas que sobreviveu pelas eras, e ainda hoje é comemorada com muita diversão e alegria por todos. No Brasil, não viramos a noite, mas dançamos e cantamos muito, e comemos comidas típicas – celebrando a cultura e tradição viva em nós. Aliás, criamos até a nossa própria tradição para acender o fogo: todo ano um membro da comunidade é escolhido para levar a tocha até a fogueira. Você também pode participar da festa com as comunidades típicas em Nova Odessa (SP) e Ijuí (RS). Veja aqui como foi a festa do ano passado! Venha e participe!