As Mulheres que Construíram a Letônia

Todo mundo já leu ou ouviu falar que as mulheres letas são as mais altas do mundo (em uma média de 169.80 cm, superando os 168.72cm das holandesas). Talvez você também tenha lido que a Letônia possui um dos maiores índices de modelos per capita (ficando próximo de 4º lugar no mundo), e que as mulheres letas são muito bonitas. Isso tudo é verdade. Sim. Mas seria um engano achar que é só isso. Um erro muito grande.

A Primeira Poetisa

Infelizmente, durante o caminhar da humanidade, as mulheres receberam poucas menções nos livros de história (na Wikipédia, por exemplo, apenas 17.49% das biografias são sobre mulheres). O mesmo aconteceu na Letônia. Algumas fontes citam histórias sobre governadoras mulheres nas antigas tribos e místicas guerreiras, mas pouco se sabe. Após as Cruzadas do Norte, no final da Idade Média, as mulheres seriam sujeitas ao regime feudal, e seus direitos eram poucos – e assim seria por vários e vários séculos.

Mas isso veio a mudar com a Revolução Industrial. Aos poucos a servidão (o regime quase escravocrata ao qual os letos eram submetidos) foi formalmente abolida. Logo homens e mulheres estavam indo à escola, à universidade. Nas cidades, uma nova camada social surgiu. Esses recém-libertos camponeses logo ascenderam, tornando-se filósofos, engenheiros, pensadores e artistas letos.

A mais proeminente mulher dessa época foi Elza Rozenberga. Nascida em Jelgava, 1865, foi uma das primeiras escritoras e dramaturgas leta. Adotou o pseudônimo Aspazija antes de publicar seus primeiros poemas, em 1887. Após alguns anos, mudou-se para Riga. Lá lutou pela educação das mulheres e sua participação na política. As personagens de suas peças normalmente eram mulheres que ousavam criticar problemas sociais e defender seus direitos. Passou os anos de 1897 até 1903 em exílio na Sibéria.

“Aspazija” vem de Aspasija, uma influente e educada mulher da Grécia Antiga.

Após o seu retorno, se envolveu com grupos sociais-democratas. Após a revolução de 1905, suas obras foram vistas pelas autoridades como uma afronta ao Czar e precisou fugir com o seu amado (e igualmente famoso) poeta Rainis para a Suíça. Conseguiu retornar apenas em 1920, sendo eleita para a Primeira Assembléia Constituinte da Letônia. Faleceu em 1943 em Dubulti.

A Pequena Paris

O período entre-guerras foi especialmente favorável às mulheres letas. A Letônia foi um dos primeiros países do mundo a garantir o voto feminino, em sua constituição em 1918. Durante os anos 20, mais e mais mulheres tinham acesso à educação e passavam a trabalhar. Muitas iam direto à efervescente capital Riga, a “Pequena Paris” do norte. A art-deco estava em moda e logo surgia a figura da femme-fatale nos filmes noir. Nessa época, surgiram nomes internacionais de cinema como Elza Radziņa e Anta Klinte.

Mulheres aproveitando os verões em Jurmala, nos arredores de Riga.

 

Apesar da crise econômica, os anos 30 se iniciaram com mais força ainda. Riga entrou em sua “era de ouro” – que recentemente foi retradada no filme leto “Homo Novus”. Centenas e centenas de mulheres passeavam as ruas da capital, participavam de desfiles, se graduavam na universidade (A Letônia possuiu um índice altíssimo de mulheres médicas na época).

Isso tudo veio a acabar em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial. Logo a Letônia seria invadida e arrasada pela Alemanha Nazista e pela União Soviética, e infelizmente muito do que as mulheres vieram a conquistar foi perdido.

Mas não sem uma boa luta.

As Guerreiras

Algumas enfermeiras letas da Primeira Guerra Mundial.

A guerra não era algo incomum para as mulheres letas. Muitas já haviam participado durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e durante a Guerra de Independência (1918 – 1920). Fosse trabalhando nas fábricas, ou fosse atendendo feridos em meio às batalhas. Há até uma anedota qual mulheres letas enganavam os invasores alemães, apontando os caminhos errados pelas florestas.

Seja como for, quando a Segunda Guerra Mundial bateu às portas, muitas mulheres decidiram lutar. Quando os nazistas vieram, diversas mulheres se tornaram franco-atiradoras no 201º Regimento de Fuzileiros Letos. O combate se tornou ainda mais brutal com a volta do domínio soviético, que fazia de tudo para esmagar a resistência.

Franco-Atiradora na frente oriental.

Essas mulheres guerreiras permaneceram no imaginário popular, apesar da repressão soviética. Aos poucos surgiu uma lenda urbana na Rússia sobre franco-atiradoras mercenárias letas combatendo as tropas soviéticas na década de 80, as baltās zeķbikses (“Meias-Calças Brancas”). Real ou não, a lenda persiste até os dias de hoje, principalmente após o canal de televisão russo “Life” (Лайф) reportar as míticas franco-atiradoras na Ucrânia.

Além disso, após a guerra, o Reino Unido criou o programa “Baltic Swans” (Baltijas gulbēni) – com o objetivo de receber 5.000 doutoras e enfermeiras letas que estavam fugindo do domínio soviético. Esse episódio pouco conhecido da história leta aparecerá na série Sarkanais mežs, que estreará esse ano.

Atualmente

A Letônia ainda exporta muitos nomes femininos famosos – principalmente nos esportes. Elizabete Limanovska e Nava Starr são duas campeãs que seguram títulos de xadrez. Uļjana Semjonova (com imensos 2,15m de altura) dominou o cenário de basquete mundial durante os anos 70 e 80. Jeļena Ostapenko esteve nas notícias recentemente, ao conquistar o Grand Slam de Tênis.

Uljana Semjonova (atrás) roubando a bola da italiana Stefania Passaro.

Além disso, o mundo das artes é dominado por mulheres. A mezzo-soprano Elīna Garanča conquistou o mundo das óperas, enquanto a violinista Baiba Skride viaja continentes com Filarmônicas famosas. A diretora de cinema Laila Pakalniņa está sempre competindo em Cannes, Veneza e outros festivais. Outra estrela recente é a jovem de 16 anos Aleksandra Špicberga, que recebeu o prêmio de melhor vocalista da Europa em 2015.

Não podemos deixar de citar o crescente número de mulheres no poder. 56% das administradoras e gerentes da Letônia são mulheres, superando todos os países da Europa. Além disso, A Presidente mais famosa e amada da Letônia é uma mulher, Vaira Vike-Freiberga. O recém-eleito parlamento é 31% feminino, superando a média européia de 29,7%.

Nas ciências, as mulheres são 60% das estudantes de medicina (1º lugar da Europa), 52% das pesquisadoras e 65,2% das graduandas.

Vaira passou grande parte da sua vida no Canadá, após sua família fugir da União Soviética.

Se engana quem acha que as mulheres letas-brasileiras são muito diferentes. Não é a toa que o Grande Coral do I Festival de Cultura Leta foi dominado quase inteiramente por mulheres e regentes femininas. Elas também possuem uma boa bagagem na história do Brasil, mas isso é um artigo para outro dia…

Sveicam sieviešu dienā!

Do Gulag ao Nobel: Lidija Doroņina-Lasmane

Isto é o mais sagrado,
Não se esqueça:
Ascendendo ao céu,
Ou mergulhando nas profundezas do mar,
Dividindo a alegria com os amigos,
Ou enfrentando seus oponentes sozinho,
Você é a Letônia.
– O.Vācietis

   Sentada em sua sala, rodeada de livros e desenhos de crianças, uma senhora de grandes e expressivos olhos azuis recita, com uma voz calma e pausada, poesia para seus netos. Assim como o livro de poesia de Ojārs Vācietis, acomodado em seu colo, ela também havia sido censurada. Suas mãos rudes – fruto dos Gulags soviéticos – seguram-o com terneza, quase como se abraçassem centenas de velhos amigos, perdidos pelo totalitarismo.  

   Essa senhora de olhos azuis e voz calma é Lidija Lasmane-Doroņina. Apesar de não gostar muito dos holofotes – prefere livros e netos – há poucos na Letônia que não a conheçam. Foi a protagonista do documentário “Lidija” (2017), de Andrejs Verhoustinskis.

A Família e a Guerra

   Lidija nasceu em 28 de julho de 1925 na bucólica vila costeira de Ulmales. Sua família era batista, com três irmãos (um veio a falecer cedo) e ela cresceu em uma atmosfera de amor, que moldaria seu caminho pelo resto da vida. Lidija se batizou na igreja batista de Saka aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

   A região de Ulmales, Kurzeme, é igual a vila descrita: plana, campestre, bucólica. Mas não seria assim por muito tempo. Em 1940, a Letônia foi ocupada pela União Soviética, que logo começou as deportações em massa de elementos “contra-revolucionários”: políticos, pastores, professores e quem mais pudesse desafiar a nova ordem.

   A situação mudou novamente quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética em 1941 – e com ela, a Letônia – trazendo seus aparatos de censura, perseguição e execução.

   “No outono, os nazistas vieram  e abateram todos os judeus de Pavilosta quase na frente dos nossos olhos. Havia também meus colegas de escola, a garota com quem eu brincava. Eu percebi que [o totalitarismo] era uma insanidade tão grande que se tinha que abandonar uma parte de si mesmo, sob nenhuma circunstância deveria sucumbir a ela”,  relatou Lidija ao compartilhar suas memórias.

   Em 1944, 200.000 tropas alemãs, recuando após sucessivas derrotas no front, foram cercadas pelo Exército Vermelho em Kurzeme. Sem ter para onde recuar, as tropas nazistas e o exército soviético transformaram a região em uma zona de total desolação e destruição.

A Ocupação

   A jovem Lidija decidiu que faria de tudo para salvar vidas. Em 1946 começou a estudar em uma escola de enfermagem em Riga. Nessa época, a União Soviética, após ocupar novamente a Letônia, continuou com a “limpeza” de opositores. Em novembro do mesmo ano, Lidija e sua família foram presas por abrigarem e fornecerem curativos para um grupo de letos que resistiam à ocupação.

   “Eu cresci na velha Letônia, formada com meu país e seu espírito. Eu não podia aceitar ocupação, era inteiramente contrária a minha natureza. Esses grandes países não tinham o direito de nos conquistar. Deus deu a cada um a sua terra onde morar e servi-lo.”

   Lidija e sua família foram levadas pelo serviço secreto soviético, a Tcheka (precursora da KGB) para serem interrogados na sede do serviço em Riga, na stūra māja. A jovem de 21 anos foi condenada a, no mínimo, 5 anos de prisão e mais 3 de retenção de direitos por “traição à pátria”. Seu pai foi condenado a 10 anos e sua mãe, 3 anos em um hospital psiquiátrico.

   Durante os primeiros anos de prisão, Lidija era obrigada a carregar troncos, e ficou doente com tuberculose e quase morreu. Em 1951 foi transferida para a infame prisão de Vorkuta, o maior campo de trabalhos forçados da União Soviética, onde os inimigos e dissidentes políticos eram obrigados a minerar carvão. Em 1953, o ditador soviético Stalin morreu e seu sucessor, Krushev, concedeu perdão a alguns presos políticos, entre eles, Lidija.

 

A Traficante de Livros

Lidija com alguns dos livros proibidos.

   Lidija retornou a Letônia, mas não tinha lugar para morar; sua família havia perdido tudo. Nos anos seguintes, começou a guardar e redistribuir livros que haviam sido proibidos pela censura, o que a levou a ser presa novamente em 1970. Passou dois anos na prisão feminina de Riga. “Quando fui presa, não tive medo, pois defendia algo justo. Eu tinha certeza de que eles estavam errados. Mas havia a sensação de que havia muito a se fazer, muito a planejar, mas eu estava lá, sem sentido”.

   Após sair da prisão, continuou seu trabalho com fervor ardente, recolhendo não só músicas, livros e filmes proibidos, como também memórias de outros prisioneiros políticos e exilados.

   Sua resistência trouxe a polícia secreta mais uma vez até sua porta na manhã de 6 de janeiro de 1983. Lidija reconta que o jovem que a interrogou sobre o livro que havia distribuído, Piecas Dienas (do escritor Anšlavs Eglītis), era também um leto: “O investigador me disse ‘Está escrito aqui, e você o leu e divulgou, como se a Letônia estivesse ocupada, como se em 1941 tais e tais pessoas tivessem sido deportadas. O que você pode dizer sobre isso?’ Eu digo a ele, ‘o que devo dizer sobre isso? Somos dois letos. Você não nasceu ontem e sabe bem que a Letônia está ocupada.’ Mas ele não tinha nada para dizer.”

   Lidija foi detida novamente e deportada para a Mordóvia, onde dividiu cela com outros criminosos, prostitutas e ladrões, mas nada disso jamais a fez perder a esperança. No natal, ela e outros prisioneiros cortavam panos verdes para simular pinheiros e todos os prisioneiros entoavam os hinos que lembravam. “Eu nunca senti ódio por aqueles que me torturaram. Absolutamente não. Fiquei com vergonha deles porque me humilharam”, conta Lidjia.

   Em 1987, Lidija e outros prisioneiros foram perdoados no Glasnost de Gorbachev. Lidija visitou a Suécia e viu centenas de refugiados letos cantando hinos proibidos e segurando fotos de prisioneiros políticos, inclusive fotos suas.

A Vitória

   Depois da independência, Lidija começou a visitar antigos lugares da KGB e recolher documentos de assassinatos e execuções. Ela conta que uma vez achou entre os documentos a foto do delator que possibilitou sua prisão: “como pode fazer isso? Ele morreu e eu não pude saber. Se pudéssemos falar, poderíamos nos reconciliar. É fácil perdoar na mente, mas, para sentir isso no coração, foi necessário tempo”.

   Lidija participou ativamente do Centro de Documentação do Totalitarismo, atendendo também outras vítimas de perseguição. Em 1994, ela foi premiada com a Ordem das Três Estrelas (Triju Zvaigžņu ordenis) pelo seu trabalho, mas decidiu recusar. Segundo ela, há prêmios muito maiores do que medalhas.

   Participou também do trabalho “Akcija dzīvībai”, em que atendia mulheres afligidas com gravidez indesejada, muitas vezes sofrendo também de depressão e estigma social. Por sua luta contra totalitarismo e seus trabalhos, Lidija é uma das indicadas para o prêmio Nobel da Paz de 2018.

   “Hoje posso cantar de coração: Dievs, svētī Latviju! Eu tenho uma filha e três netos, mas também inúmeros outros ‘netos’ pelo mundo que buscam justiça. Eu tenho uma igreja maravilhosa, e moro em um país livre, a Letônia. Espero que agora as pessoas aprendam a amar uns ao outros, não importem as circunstâncias. E espero que aqueles que estão no poder saibam usá-lo com sabedoria”.

Lidija em sua igreja em Riga, a Mateja Baptistu Draudze

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Trechos retirados do periódico “Tikšanās”, de dezembro de 2001 a janeiro de 2009. Traduzidos livremente por Andreis Purim.

Leia também nosso artigo sobre o Livro “Eu queria tanto ainda viver”

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

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   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

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   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.

Crocodilo Dundee era Leto

Você já ouviu falar do Crocodilo Dundee? Não?!

Foto: Paramount Pictures

E agora?
Sim! Crocodilo Dundee foi aquele filme de ficção super famoso dos anos 80 no qual um caipirão Australiano, caçador de crocodilos e amante da natureza vai para uma viagem de férias em Nova Iorque, cometendo várias gafes e se metendo em situações super engraçadas.

E o que isto a ver com a Letônia? Tudo!

Antes de fazer a correlação, vamos voltar para o ano de 1925 no povoado de Dundaga, norte da Letônia. Dundaga é uma cidade medieval, na região da Kurzeme que data do século 13. Feche os olhos agora e imagine aquelas cidadezinhas bem medievais, com um castelo bem antigo no centro, um lago e ruelas bem estreitas que convergem para a igreja principal da cidade. Esta é Dundaga!

Foto: Gabi Strautmann
Foto: Gabi Strautmann

 

 

 

 

 

 

E foi nesta vilinha que nasceu o personagem principal do nosso artigo – Arvids Blumentals. Arvids tinha o título de Barão Arvid Von Blumental, mas após a II Guerra Mundial perdeu seu título. Em 1951, Arvids decidiu mudar radicalmente a sua vida, trocando a paz e a calmaria de Dundaga pela selvagem Austrália.

Foto: Google/Reprodução

 

Lá na terra dos cangurus, Arvids descobriu novos talentos: lavar minério de ouro, pescar, caçar cangurus e o mais impressionante… caçar crocodilos com as mãos!
Reza a lenda que Arvids matou mais de 10.000 crocodilos em 13 anos de “carreira’’. Como seu nome era bem diferente e com fonemas inexistentes no inglês, lá pelas bandas dos coalas, Arvids tornou-se Harry. E assim nasceu um personagem – Crocodile Harry.

 

E as excentricidades de Harry não pararam por ai! Sua casa era chamada de “Ninho do Crocodilo Harry’’. No ninho do Harrys havia várias cartas de amor pregadas nas paredes, além de numerosas calcinhas (isso mesmo, calcinhas!) de mulheres que o admiravam. Ele era tão criativo que fez vários grafittis tribais e fez várias esculturas estranhas tentando expressar suas fantasias e pensamentos. Dê uma olhada:

Foto: Google/Reprodução

Voltando ao título do nosso artigo, tudo leva a crer que os autores de Hollywood se inspiraram no nosso Crocodille-leto- Harry para fazer o filme Crocodilo Dundee. Hoje, quem visita Dundaga pode ver uma enorme réplica de crocodilo bem em frente à casa onde Harry morava. A casa funciona como museu e tem várias informações e utensílios do seu ilustre ex-morador.

E aí, gostou dessa história? Tem algo interessante pra contar sobre o Harry? Já visitou o museu dele em Dundaga? Conte pra nos!

Um abraço e até mais!

Revisora: Claudia Klava

Eu queria tanto, ainda viver

Por volta de meus 15 anos, quando eu estava começando a me interessar por minhas raízes, sempre fazia perguntas para meus familiares e conhecidos sobre “como era a Letônia e o motivo pelo o qual os letos teriam saído de lá”. Certo dia, minha avó revirando seus pertences, me presenteou com um livro que talvez seria de meu interesse, pois se tratava de um livro com detalhes históricos da Letônia.

Confesso que nunca fui “amante de livros”, porém aquele tinha me despertado uma vontade na leitura. Disse minha avó que o livro era curto, que ela teria lido em 1 tarde enquanto trabalhava em sua loja de artesanatos.

Fui presenteado com o livro “Eu queria tanto ainda viver”, em leto, “Vēl tā gribejas dzīvot”, manuscrito traduzido por Yolanda Mirdza Krievin e publicado pela Comunidade Evangélica Luterana Leta do Brasil, em 1982.

Capa do Livro em língua portuguesa

O livro relata a história de Ruta Ūpe, uma jovem Leta de 14 anos de idade, levada à força junto aos milhares de pessoas às taigas e aos campos de trabalho forçado, sujeitos a torturas e humilhações nos confins da Sibéria.

Ruta descreve em suas memórias os momentos da triste perda de sua liberdade e vida, as condições escravas exaustivas e desumanas enfrentando o frio siberiano, a falta de uma moradia digna e de assistência médica, a luta pelo pão de cada dia e a perda de familiares no decorrer do passar do tempo. Por meio de anotações em um diário, Ruta pode manter-se forte e mentalmente sã, registrando todos os horrores pelos quais passava, junto de parentes e amigos.

Com o passar de alguns anos, tive a oportunidade de visitar a Letônia pela primeira vez, e  lá, visitei museus que me proporcionaram as explicações de minha dúvida: “Por que tudo aquilo aconteceu na vida de Ruta”?  “O que ela ou sua família tivera feito para merecer aquilo”?

Descobri que não apenas a Letônia, mas as três províncias Bálticas (inluindo Estônia e Lituânia) foram dominadas pelos Soviéticos. Para que a ideologia Socialista fosse aplicada sem grande perturbação dos opositores, aqueles que tinham conhecimentos acadêmicos, não concordavam com as práticas do sistema e que não queriam abrir mão de seus bens privados, constituíram aquela grande congregação de sofredores inocentes; alguns com feridas que jamais cicatrizaram.

Desenho que retrata as deportações da Letônia para a Sibéria
Crianças dentro dos trens de deportação

 

 

 

 

 

 

Itinerário seguido pelos Letões escravizados pelos comunistas, a caminho da Sibéria.

Hoje, com uma cabeça mais madura, eu reli o livro, e pude prestar atenção em informações que me fizeram arrepiar, e às vezes chorar, pois passei por lugares na Letônia onde Ruta esteve.

Rio Obi, mencionado na obra de Ruta atravesando a cidade de Novosibirsky
Cidade de Bauska, onde Ruta morou depois de retornar a Letônia.

O livro “Eu queria tanto ainda viver” é uma obra valiosa assim como “O Diário de Anne Frank”, obra rica em informações sobre como aquelas pessoas sofreram as consequências de um regime totalitário e injusto. As deportações da população dos países bálticos para a Sibéria é um acontecimento recente, sendo que no ano de 2018 estará completando apenas 77 anos. A publicação deste livro foi uma das últimas vontades de Ruta antes de partir deste mundo, pois queria sua vingança e mostrar ao mundo que o sangue inocente dos mortos letões clama também por vingança. Este livro deve ser para nós a memória viva de todos os acontecimentos do passado, que jamais serão esquecidos, por mais que nosso mundo tente esquecer e esconder.

Ruta conclui suas memórias com palavras do Poeta Skalbe: “Foram muitos os teus mártires, minha pequena Pátria”.  

“Mais uma vida que se juntou às sombras dos mártires que morreram, uma vida que teve de trilhar o longo trajeto das outras e depois morrer, embora fosse tão grande a sua vontade de viver”.

Revisora: Cláudia Klava

Os Letos e a Revolução Federalista

Um dos episódios mais curiosos e esquecidos da história dos letos no Brasil é a Revolução Federalista, que pegou de surpresa os colonos recém-chegados, que viam o Brasil de então como uma terra pacífica de novas oportunidades. Foi nesse momento inicial que os colonos se juntaram para orquestrar a defesa do seu novo lar e experimentaram as mais variadas engenhosidades para impedir que a colônia fosse atacada. E conseguiram.

A Colônia
    Resumidamente, Rio Novo foi a primeira colônia leta no Brasil, fundada oficialmente em 1889. Os planos da colonização leta vinham sendo desenhados nos anos finais do Império por entusiastas e estudiosos que viam o Brasil como uma terra fértil onde os letos – que até então estavam sob domínio do Império Russo e tinham difícil acesso as terras – poderiam se desenvolver.
Rio Novo se localiza aproximadamente 12 Km de distância do centro do município de Orleans, na região litorânea no sul do Estado de Santa Catarina. A região montanhosa se tornaria passagem para as tropas gaúchas avançarem ao norte, tomando Florianópolis (na época, Nossa Senhora do Desterro), Curitiba e avançar para São Paulo. Apesar disso, entre Rio Novo e Orleans havia uma região de mata pela qual apenas os colonos sabiam o caminho
Entretanto, no mesmo ano de fundação da colônia, o Brasil Imperial foi derrubado e a República foi proclamada. Esse novo governo republicano nasceu sem forte apoio e logo as intrigas políticas e insatisfações das elites locais se transformaram em embates políticos, que culminaria, na revolução. O apoio do projeto de imigração européia criado pelo governo imperial também ruiria, deixando a colônia – nesses anos iniciais – sem apoio algum do governo.

Vista da cidade de Orleans

A Revolução
    O país estava sem constituição, sob censura e o congresso, fechado. Os primeiros presidentes da república foram marechais militares, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, mas diversos setores ainda tentavam tomar o vácuo de poder. No Rio de Janeiro, a Armada (a Marinha brasileira), sob liderança de Custódio de Melo e Saldanha da Gama, exigia eleições e houve batalhas entre a guarda nacional e os revoltosos.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, a disputa política entre o governador positivista Júlio de Castilhos (líder do Partido Republicano Rio-Grandense)  e seu rival Gaspar da Silveira Martins, um ex-político monarquista e líder do Partido Federalista, se aquecia para o confronto. Castilhos e seus apoiadores (chamados de pica-paus) apoiavam o governo federal de Floriano Peixoto. A constituição estadual permitia vários poderes quase ditatoriais para Castilhos e como o voto não era secreto, as manipulações eram frequentes. Silveira Martins, por outro lado, defendia o parlamentarismo e uma revisão das leis estaduais; seus apoiadores ficaram conhecidos como Maragatos.
O movimento Maragato começou a ameaçar a estabilidade do governo Rio-Grandense, e por fim, do novo regime republicano no País – pois os opositores de Floriano os apoiavam. Os federalistas obtiveram vitórias inicialmente em 1893, avançando para Santa Catarina e chegando até o Paraná, onde a decisiva batalha da Lapa (PR) tornou possível o contra-ataque dos republicanos.
Em meio a tudo isso, existia uma pequena colônia de Letos.

Líderes Maragatos

A Defesa
    A colônia leta, assim como a população civil, estava às mercês das tropas que passavam. O conflito estava se tornando sangrento e cada vez mais cruel, os soldados capturados eram degolados, casas eram saqueadas, animais e pertences eram tomados. Os colonos, temerosos e sem nenhum meio de defender sua terra, começaram a bolar planos para enganar os soldados que viriam.
Registra-se que o primeiro sino da Igreja Batista de Rio Novo (pois o primeiro templo não possuía torre) foi criado nessa ocasião e colocado em uma posição estratégica para quando alguma força militar fosse avistada perto da colônia fosse tocado e todos os habitantes escondessem seus animais no mato. No ano seguinte, 1894, foi construído o segundo templo da igreja batista, o famoso “templo de lascas”.
Como a colônia era relativamente afastada e o acesso era conhecido apenas pelos locais, os letos começaram, com a ajuda de um polonês que falava bem português, a espalhar histórias sobre a colônia “dos russos” (eles eram chamados assim pois a Letônia ainda fazia parte do Império Russo), que eram numerosos e preparavam emboscadas para os soldados que adentrassem no caminho até a colônia, inclusive com explosivos e pelotões de colonos em patrulha.
Rio novo estava apreensiva. Os colonos sabiam blefar, mas, caso descobertos, a mentira cairia por terra e entrariam em problemas. . E na cidade, ocupada pelos federalistas, a curiosidade dos soldados sobre esses semibarbaros “russos” aumentava.

O soldado
    Uma das histórias contadas pelos letos de Rio Novo é sobre um leto que – em uma madrugada – foi a Orleans comprar mantimentos, e logo foi identificado pelos soldados perto como um dos “russos”. Foi ao armazém e logo voltou ao caminho de casa. Entretanto, percebeu que um dos soldado estava o seguindo. Atravessou a barra do Rio Novo, logo dobraria a direita pelo vale do Rio Novo. Essa era a estrada mais próxima e vigiada,  mas não queria arrumar confusão, tentou pegar um caminho alternativo pelo Rio Tubarão e depois pelo Rio Laranjeiras, entretanto, não foi capaz de despistar o soldado, que o seguia a distância.
Precisava fazer alguma coisa.
Ele carregava consigo uma espingarda pica-pau calibre 24 (na época, muitas espingardas ainda eram carregadas pela boca, onde era preciso colocar o chumbo, a pólvora e ainda empurra-las com uma vara metálica para o fundo do cano da arma). Fingindo estar trocando as mercadorias de ombro, carregou em sua espingarda 3 chumbos e a pólvora, entretanto, não teve tempo de empurra-los com a vara. Logo na primeira curva, se escondeu no mato e terminou de carregar a arma.
Apenas um tiro já foi suficiente para matar o soldado federalista. Com o uniforme ensanguentado e o fuzil Mannlicher (provavelmente um Mannlicher M1888), agora era preciso se livrar da encrenca. O colono suspeitava que o soldado tivesse sido designado para achar um caminho para a colônia, e logo poderia chegar um expedição de busca.
O corpo foi escondido em uma vala cavada na estrada, junto com o fuzil, e depois coberta com folhagem para disfarçar. A região onde ele supostamente foi enterrado era chamada de “Bukovina” e pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.
O nome do colono, apesar de algumas teorias, nunca foi confirmado.

Apesar das forças contrárias, a revolução Federalista terminou em 1895 com a vitória de Júlio de Castilhos e o governo republicano, e, graças a coragem e sagacidade dos colonos, a colônia sobreviveu.

Skaidas Baznica/O templo de Lascas, construído em 1894

Fontes:
PURIM, V. A. Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus. rionovo.wordpress, 2012. Disponível em: <https://rionovo.wordpress.com/2012/10/04/os-revolucionarios-passaram-a-ser-chamados-maragatos-e-os-legalistas-eram-os-picapas/>. Acesso em: 24 dez. 2017.
LOTTIN, Jucely. Os Letos Orleanenses. Santa Catarina: Elbert, 2002.

 

Kurši, os vikings do Báltico

Os vikings estão na moda: séries, blogs, grupos de reenactment e sites têm tornado os famosos guerreiros medievais favoritos da cultura pop. Como acontece com toda temática histórica aproveitada pela indústria cultural, uma série de estereótipos acaba por permear a compreensão do tema; os vikings, por exemplo, não foram um povo ou um grupo étnico. Antes, ‘viking’ se referia a uma forma de vida, a uma ocupação; provavelmente derivado do Antigo Nórdico vik, significando ‘baía’, ‘enseada’, o víkingr era aquele que navegava em expedições de comércio ou saque.[1]

Autores cristãos, latinos e anglo-saxões do medievo, traduziam o termo de forma negativa, como ‘pirata’. Em suma: os vikings não foram um ‘povo’, uma ‘etnia’ ou uma ‘raça’ – termo cientificamente caduco – e diversos grupos étnicos poderiam ser encontrados entre vikings nos mares Báltico e do Norte: escandinavos, em sua maior parte, mas também irlandeses e escoceses, gente oriunda das Ilhas Man[2], eslavos ocidentais e orientais, fino-úgricos como finlandeses e estonianos e também povos bálticos, ancestrais de parte dos letões de hoje.

Nesse artigo trataremos de um desses grupos Bálticos, cujo modo de vida, valores, crenças e costumes os aproximaram muito dos escandinavos do medievo, podendo ser considerados como parte dos vikings a frequentar as praias do Báltico: os Kurši.

            Kurši[3] eram os habitantes da Kurzeme, região ocidental da atual Letônia. Referida nas fontes latinas medievais como Curônia ou Curlândia e Kúrland nas fontes escandinavas, a região tornou-se um ducado vassalo do rei da Polônia-Lituânia nos tempos modernos, chegando a participar da corrida colonial e mesmo a obter possessões coloniais na Gâmbia e em Tobago. No período viking as regiões habitadas pelos dos Kurši estavam divididas em cinco divisões, centralizadas em fortificações citadas na Livländiche Reimschronike[4]: Pilsats, Megova, Duvzare, Ceklis e Piemare, abrangendo um território que englobava toda a área ocidental da atual Letônia até a costa norte da atual Lituânia.

Mapa 01: As divisões territoriais dos Kurši no século XIII. Obtido em ŠVĀBE, Arveds. Senā Kursa. In: Straumes un avoti. I sējums. Rīga: A.Gulbis, 1938.

Há muitas referências aos Kurši nas fontes escandinavas; algumas factíveis, outras, de caráter mítico ou ideológico; na maioria dos casos, fronteiras rígidas entre tais categorias não são possíveis de serem traçadas com clarezas. Também há quantidade considerável de vestígios arqueológicos conectando os Kurši aos escandinavos, principalmente da Suécia e da ilha Gotland.

Algumas referências escritas aos Kurši são memoráveis, como a descrição do cativeiro do skáldr Egill Skalagrímsson na popular “Egils saga”, escrita no século XIII provavelmente por Snorri Sturlusson. Também emblemática é a referência, bastante antiga, da Vita Anskarii de Rimbert, escrita no século IX, que conta sobre um suposto período de domínio dos suecos sobre os Kurši.

A Chronicon Henrici Livoniae traz informações sobre os Kurši no século XII, principalmente táticas militares e costumes funerários dos mesmos por ocasião de expedições de ataques marítimos aos cruzados e no cerco efetuado por eles a Riga, interrompido para o cumprimento da cremação de seus mortos.

Nos séculos XII e XIII os Kurši estavam frequentemente associados à estonianos de Saaremaa, executando expedições vikings pelo báltico, capturando escravos e bens (incluindo sinos de igrejas, principalmente na Suécia). Aparentemente até então, a julgar pelas referências textuais, possuíram diversos períodos de domínio ou pagamento de tributo da parte de Escandinavos entremeados por revoltas e momentos de liberdade. Em algumas ocasiões aparentam ser parceiros de escandinavos, seja em contatos comerciais ou expedições vikings.

Etnicidade e língua

Ainda que a opinião mais consensual considere os Kurši uma tribo dos baltos indo-europeus no período viking e no medievo, essa categorização étnica é questionada por alguns autores, ainda que poucos, que defendem a ideia que os Kurši falariam uma linguagem fino-úgrica.

Há um número considerável de termos de origem fino-úgrica que transparecem nos tratados do século XIII no idioma dos Kurši. O próprio significado do nome pode ter origem fínica – “kur”, é “grou” nos idiomas fino-úgricos. Outros termos são “kiligunden”, uma região administrativa, e “maleva”, uma unidade do exército. Argumentos dessa lavra são comuns em obras de popularização científica, como a publicação do historiador amador Edgar Valter Saks[5]. Há de se notar que a língua letã contemporânea também possui vários cognatos com as linguagens fino-úgricas, incluindo termos de uso cotidiano, como puika e mežs, mas não se cogita questionar a filiação báltica do letão simplesmente por se possuir um conhecimento completo da linguagem em seus aspectos morfológicos, gramaticais e sintáticos, que são indubitavelmente indo-europeus, ainda que com considerável influência dos vizinhos fino-úgricos.

Há acadêmicos contemporâneos também, no entanto, que defendem a filiação fino-úgrica dos Kurši. A principal autora que pode ser citada é a estoniana Marika Mägi, que em adição aos termos já referidos, analisa também alguns topônimos: até o século XIX, por exemplo, a ilha estoniana de Saaremaa era chamada de “Kurasaar”, ou seja: Ilha dos Kurši, ou argumentos mais difíceis de seguir, fazendo um paralelo no caso de Kurzeme e Kurasaar/Saarema com as regiões estonianas da costa ocidental, chamada pelos escandinavos de Adalsýsla, e novamente a ilha de Saarema, chamada de Eysýsla.[6]

Repetimos que essa identificação é aceita por poucos, e deve ser considerada como uma idiossincrasia a mais em categorizações e divisões étnicas das populações (não apenas) do medievo. Os Kursenieki, ou Kuršininkai em lituano, descendentes quase extintos dos Kurši nas costas lituano-prussianas, falavam até o século XIX um idioma muito próximo ao letão, e seus remanescentes contemporâneos na região de Palanga, na Lituânia, são contados nos censos lituanos como “letões”, ainda que não aceitem a denominação e se auto intitulem Kuršininkai.[7] Vocabulários publicados em 1927 e reeditados posteriormente demonstram inequivocamente a natureza da língua desses Kursenieki: 13% das palavras eram cognatos ou empréstimos do Lituano; 26%, do alemão, enquanto 60% do vocabulário era o mesmo do letão, o que torna a língua dos Kursenieki mutualmente inteligível aos letões, particularmente os habitantes do sul da Kurzeme de hoje, nas áreas próximas a Liepāja e Nica.[8] O debate na linguística báltica está mais focado em uma afiliação antiga do idioma dos Kurši ao ramo Báltico Ocidental, do qual derivou o antigo-prussiano, ou ao Oriental, do qual derivou o letão e o lituano.[9]

Étnica e geneticamente, há debate sobre a origem dos Kurši; de forma similar à questão linguística, o principal tópico discutido na arqueologia báltica é referente a sua  afiliação aos Baltos Orientais ou Ocidentais. A questão não é de simples solução e é difícil apresentar uma hipótese clara e unilinear. De forma geral, os baltos indo-europeus, cuja etnogênese deu-se nos primeiros milênios antes de Cristo, ramificaram em duas direções: leste e oeste.  Os atuais letões e lituanos descendem das tribos baltas orientais, que tiveram seu território original reduzido nos séculos VIII em diante pelo avanço das tribos eslávicas para o norte, enquanto os antigo-prussianos, extintos após séculos de colonização e assimilação germânica, representariam os descendentes dos Baltos Ocidentais; discute-se que os Kurši possivelmente teriam origem dentre os Baltos Ocidentais, e não orientais.

Esta afirmação parece contraditória, visto termos a pouco afirmado a familiaridade do idioma dos kursenieki ao letão contemporâneo; a contradição pode ser compreendida com a afirmação de uma assimilação linguística; os Kurši teriam assimilado muita da linguagem de seus vizinhos próximos de origem mais oriental – dos quais linguisticamente não eram tão distintos assim, e cuja similaridade idiomática facilitou em muito a situação. Como fator de complexificação da questão, há ainda a expansão dos Kurši rumo ao norte, que os colocaria em situação de confronto, assimilação e mistura com os povos de fala fino-úgrica – os livônios.  

 A antropologia física demonstra a existência de algumas diferenças físicas entre as tribos bálticas orientais e ocidentais, principalmente no aspecto da craniometria.  Os baltos da faixa costeira da Prússia até a Kurzeme possuíam forma craniana dolicocéfala, ou seja – crânios de tendência alongada e, dentre outras peculiaridades culturais, cremavam seus mortos[10]. Os costumes funerários crematórios, comuns dentre esses baltos desde a Idade do Bronze, sofreram um período de interrupção e voltaram ao uso corrente a partir do século IX[11].

Mapa 02: Mapa demonstrando a divisão aproximada dos grupos étnicos no período viking no território da atual Letônia. As áreas rachuradas indicam territórios com população mista;. Fonte: LU RAKSTI. Pilskalni Latvijas ainavā. 2006.

O nome de Kurši, ou traduções do mesmo, é encontrado nas fontes escritas referindo-se a acontecimentos prováveis dos séculos VII em diante; destarte, quando é possível se alegar uma assimilação e mistura entre as tribos ocidentais com as orientais.

Vejamos a seguir o que algumas fontes escritas contam acerca dos Kurši. Não faremos um apanhado exaustivo, mesmo por questões de espaço; antes, daremos ênfase a alguns relatos de maior extensão que permitam o traçar de reconstruções.

Os Kurši nas fontes escritas

A Vita Anskarii de Rimbert e os escandinavos na área de Grobiņa

A primeira referência escrita que se tem ao Kurši é encontrada em uma fonte latina, a Vita Anskaarii, uma crônica escrita pelo eclesiástico Rimbert contando sobre a vida de Anskar, primeiro missionário cristão a pregar aos povos do norte, principalmente suecos da tribo dos Svear. Essa crônica fala, muito brevemente, sobre um período no qual os Kurši estavam sujeitos a governantes suecos.

A ocupação sueca de Kurzeme é um dos poucos episódios ao qual podemos referir com suficiente segurança nos séculos anteriores ao período viking. A respeito dele obtemos informações tanto das fontes escritas como das arqueológicas. Sítios arqueológicos escavados pelo sueco Birger Nerman em Grobiņa, atual Letônia, e Apuole, atual Lituânia, na década de 1920, suportam interpretações baseadas nos textos escritos que demonstravam haver relações entre os Kurši com a tribo sueca dos Svear e com a ilha de Gotland, desde o século VII[12]; essas são as primeiras referências escritas disponíveis.

O capítulo XXX da Vita Anskarii traz referência não apenas a tal ocupação, mas também às relações entre os Kurši e os Svear (Suecos):

Porque certo povo chamado de Kurši havia estado algum tempo anterior em sujeição aos suecos, mas já havia um longo tempo desde que se rebelaram e recusaram estar em sujeição. Os Dinamarqueses, atentos a isto, quando da ocasião de o bispo (Anskar) ter entrado em território sueco, juntaram um grande número de navios, e procederam a este país, ansiosos em tomar seus bens e sujeitá-los. Seu reino tinha cinco cidades, e quando os habitantes souberam da sua vinda reuniram-se e, de modo árido, começaram a resistir virilmente e defender suas propriedades. Obtendo a vitória, eles massacraram a metade dos dinamarqueses e saquearam seus navios, obtendo deles ouro, prata e muito espólio. Ao ouvir isto, o Rei Olaf e os suecos, que desejaram ganhar para si a reputação de que eles pudessem fazer o que os dinamarqueses não tinham feito, e porque este povo já havia antigamente estado em sujeição a eles, juntaram um imenso exército procedendo a estas partes. Em primeira instância eles entraram numa cidade de seu reino chamada de Seeburg. Esta cidade, que continha sete mil homens de guerra, eles saquearam, despojaram e queimaram. Isto os deixou com as esperanças fortalecidas e, tendo despachado seus navios, partiram em viagem de cinco dias áridos, apressando-se com intenções selvagens rumo a outra das cidades deles chamada Aputra, na qual havia quinze mil homens aptos para a guerra. Quando eles a alcançaram, eles haviam corrido para dentro da cidade, e enquanto uma parte a atacava vigorosamente do lado de fora, a outra a defendia por dentro. Passaram-se oito dias deste modo, com o resultado que, apesar de terem lutado e empreendido guerra desde a manhã até a noite, tendo muitos caído em ambos os lados, nenhum deles obteve a vitória. Ao nono dia os suecos, cansados de tal matança diária, começaram a afligirem-se, e em seu terror consideravam apenas de que modo poderiam escapar. “Aqui”, disseram eles, “nós não conseguimos fazer nada e estamos longe de nossos navios”. Pois, como já dissemos, estavam a cinco dias de viagem do porto no qual estavam seus navios. Como estavam em grande distúrbio, sem saber o que fazer, resolveram tirar sortes para inquirir aos seus deuses se eles iriam auxiliá-los a obter a vitória ou se eles deviam sair do lugar de onde estavam.”[13]

A história termina com uma vitória de modo diferente do qual estariam habituados os suecos: mercadores que os acompanhavam lembraram-se dos ensinamentos de Anskar, e rogaram ao Deus dos cristãos que os ajudassem. Após isso os Kurši propuseram a paz aos suecos, pagando-lhes metade do espólio que haviam adquirido anteriormente ao vencerem os daneses.

Este episódio oferece-nos subsídios para diversas considerações. Sua referência inicial diz que “certo povo chamado de Kurši havia estado algum tempo anterior em sujeição aos suecos, mas já havia um longo tempo desde que se rebelaram e recusaram estar em sujeição”.

As escavações na região de Liepāja demonstram um período de sujeição dos Kurši aos suecos de aproximadamente 200 anos, entre os séculos VII a IX[14]. O sítio de Grobiņa, datado do final desse período, foi identificado pelo arqueólogo Birger Nerman com a Seeburg de Anskar; na área foram encontrados até o momento cerca de 3.000 enterramentos escandinavos, principalmente no cemitério de Priediena, datados entre os anos 650 a 850.[15] Nerman, que escavou o local junto com o letão Francis Balodis inicialmente em 1929, publicou diversos trabalhos sobre o local no período entre-guerras, no qual a Letônia desfrutava de sua independência, destacando-se Die verbindungen zwischen Skandinavien und dem Ostbaltikum in der jüngeren eisenzeit, de 1929 Grobin-Seeburg; Ausgrabungen und Funde, de 1958.

Diversos estudiosos pesquisaram o local posteriormente, ampliando a compreensão do que acontecera ali: Peteris Stepiņš (1951), Jolanta Daiga (1957), Valerii Petrenko e Jānis Asaris (1984-89). Estudos mais recentes foram feitos após 2010 por cooperação entre estudiosos letões com o Centro para Arqueologia Báltica e Escandinava, de Schleswig, Alemanha.

Autores de populares manuais sobre os vikings fundamentam-se em Nerman; Brøndsted[16] posiciona-se a favor da opinião segundo a qual o sítio de Grobiņa consistiria em algum forte construído após a destruição de Seeburg, no mesmo local (as escavações demonstram uma fortificação construída sobre outra, destruída). Já Aputra possivelmente identificaria-se com a cidade de Apuole, atualmente em território Lituano[17].

A arqueologia fornece a datação dos séculos VI ao IX. Rimbert, escrevendo por volta de 870-880[18], refere-se a certo período anterior de sujeição dos kurs aos suecos. Anskar morrera por volta de 865[19], com possivelmente 64 anos. Supondo-se que os acontecimentos em Seeburg tivessem dado-se em torno da data de sua morte, se transcorreriam entre 5 a 15 anos entre o ocorrido e a escrita de Rimbert. Este, no entanto, afirma que a sujeição dos Kurši aos suecos teria se encerrado em tempo “muito anterior” ao ocorrido em Seeburg.

As interpretações de Nerman ainda influenciam muito do que se conhece do local; argumenta-se a existência de dois grupos escandinavos principais: os Svear, que provavelmente compunham uma guarnição militar, que dava suporte a outro povoamento, de natureza comercial. Este último continha inclusive enterramentos de mulheres e crianças, com achados mais similares à Cultura Material de Gotland. Apesar da relativa antiguidade da interpretação, muitos autores posteriores não fizeram muito para modificá-la, adicionando nuances quanto à natureza, impacto e abrangência desse empório comercial, e discutindo as razões pelas quais a colônia Sueca se extinguira[20].

A presença escandinava é forte em Grobiņa, mas as pesquisas mais recentes, conduzidas principalmente por Ingrida Virse e Inga Doniņa, demonstram que o grau de associação com os Kurši locais é maior do que se depreende pela leitura exclusiva de Nerman, e os achados e enterramentos demonstram influências culturais de mão dupla[21]. Uma visão interessante sobre a relação mista entre Kurši (“kurir” para os escandinavos) e escandinavos, ora de associação, ora de disputa, pode ser vislumbrada na Egilssaga, no capítulo 46, que trataremos e breve.

Em 2013 tivemos a oportunidade de visitar Grobiņa, por ocasião de nossos estudos de doutoramento na Universidade de São Paulo, que inclusive custeou a viagem. Enquanto a colina fortificada se encontra no centro da cidade e tenha sido reutilizada diversas vezes após o período viking, incluindo pelos conquistadores germânicos, a área dos cemitérios escandinavos (Priediena senkapi) é mais recuada e, ainda que não de difícil acesso, passa despercebida por quem não sabe o que procurar.

Figura 01: Grobiņas pilskalns. Foto do autor, 2013.

A área do cemitério escandinavo é bastante ampla, e no local foi construído uma espécie de hipódromo, circundada por florestas em diversos pontos. Há mais de um cemitério, incluindo enterramentos pré-históricos, enterramentos escandinavos, Kurši e mistos. Encontram-se cercados por fitas brancas, já que o local foi tombado pela UNESCO. Contém algumas placas indicativas em letão e inglês. Alguns locais de enterramento encontram-se ao ar livre, sem maiores demarcações, sendo difícil discernir os locais. De fato, há um grande número de locais antigos de enterramentos, e a urbanização da cidade deu-se sem notá-los.

 

 

 

Figura 02: Priediena senkapi (cemitério antigo de Priediena). Foto do autor, 2013.

Existem locais próximos a Liepaja, como Taši, nos quais foram encontrados mais vestígios de escandinavos. O material arqueológico escavado nessas localidades encontra-se depositado no museu de Liepāja. Há uma quantidade considerável de material escandinavo, incluindo broches, espadas “vikings” e uma estela pictórica proveniente de Gotland, escavada por Petrenko em 1987, publicada no Fornvännen número 86 (de 1991, no qual sua interpretação foi corrigida por Lamm)[22] e bastante gasta. Existem outros três principais exemplares desta modalidade de estela na Escandinávia, que foram estudados por Nylén e Lamm, e são considerados “artigos de exportação” de Gotland..

Figura 03: Espada ‘viking’ encontrada na área de Grobiņa, depositada no museu de Liepāja. Muitas espadas do período viking são encontradas com suas lâminas entortadas, por razões religiosas e rituais. Foto do autor, 2013. Agradecimentos a Guna Dancīte, que nos auxiliou grandemente no acesso ao acervo.

 

A Egilssaga: militarismo e riqueza

Os contatos de vikings escandinavos com o povo de Kurzeme não se limitavam aos suecos e dinamarqueses. Noruegueses e islandeses parecem ter sido ativos na região, ainda que com menor intensidade. A Egils saga, escrita no século XIII provavelmente por Snorri Sturlusson, a despeito de sua data tardia – dois a três séculos após o período viking – e grande dose de romantização, nos traz um relato interessante sobre a dinâmica entre Kurši e escandinavos no período viking. Muito do nela narrado é senso comum nas sagas e narrativas de heróis do período viking; é possível, no entanto, ainda que com ressalvas, se efetuar reconstruções e comparações a fim de se vislumbrar ao menos um pouco dos Kurši.

Egil Skalagrimsson foi uma das mais conhecidas personagens do mundo viking. Pirata, proprietário, skaldr[23], personifica de modo exemplar o ideal viking.  Matou a primeira pessoa quando possuía seis anos de idade, por disputas num knattleikr[24]. As reações de seus pais são exemplares: enquanto que o pai, Skallagrim, mostra-se indiferente, sua mãe nota que “Egil agia de forma que certamente seria um viking de verdade quando tivesse idade suficiente para ser colocado à frente de um navio de guerra[25]”.

Em torno dos doze anos de idade (e após muita insistência, incluindo atos de sabotagem do barco do irmão[26]), Egil parte com o irmão Thorolf em suas viagens; mata um homem do rei Eirikr[27], e realiza uma fuga espetacular, na qual mata mais homens do rei[28]; tudo isto entremeado de poemas scáldicos. Após isso, ambos partem numa expedição viking para Austrvegr. E é aqui que os Kurši entram na história.

Austrvegr significa, em antigo nórdico, “caminho de leste”. Pode se referir de forma genérica ao leste, incluindo o reino de Rus, a Rússia medieval, mas essa é usualmente referida como “Gardaríki”[29]. Austrvegr é mais frequentemente empregada para citar a área Báltica, incluindo as atuais Letônia, Estônia e Finlândia. Kurzeme é referida especificamente com o nome “Kúrland”[30]; seus habitantes são chamados de kurir pelos autores escandinavos[31].

A expedição de Thorolfr e Egil na Kúrland inicia-se com uma aliança: “Eles viajaram para Kúrland, permaneceram no país por meio mês, e ofereceram um acordo de paz e comércio[32]”, que não obstante terminaria com os habituais saques e butins vikings: “Mas quando o acordo foi concluído, começaram a fazer ataques; e mantiveram-se naquela mesma terra[33].  A troca de aliados de acordo com as conveniências é bastante conhecida no mundo viking.

A narrativa prossegue, Thorolfr e Egil aportam em um “estuário, com uma extensa floresta cobrindo a colina sobre ele”; dividem seus homens em grupos de doze, que passam a atacar os povoados, “separados por florestas”. Matam e roubam o que encontram pela frente, e as pessoas fogem ante sua chegada. No fim do dia, Thorolfr toca sua trombeta na praia, para que todos voltem a agrupar-se. Mas o grupo de Egil não chega.

Segundo a saga, Egil chegara a uma planície[34] larga e povoada, com uma propriedade[35], à qual se dirigem. Ali, caem numa emboscada: a localidade encontra-se completamente vazia, e os vikings atiram-se à pilhagem, explorando as habitações e apanhando o que pudessem carregar. Ao saírem da construção principal, encontram-se frente a uma grande quantidade de guerreiros.

Tratava-se da propriedade de um homem rico[36], protegida por diversos homens armados de lanças e espadas, aparentemente vestindo capas de lã. Entre a fazenda e a floresta se extendiam paliçadas, habilmente construídas de modo que aproveitavam a floresta e não permitiam ao invasor perceber a existência de mais de uma, induzindo-o, portanto, à captura.

Os Kurši atacaram os homens de Egil à base de lanças, “evitando combate corpo-a-corpo”, dando “botes” por frestas da cerca com lanças e espadas, e tornaram diversos dos vikings inofensivos pelo simples estratagema de cobrir suas armas com as capas. Egil e os seus foram presos e levados para dentro da casa. Esta, descrita como composta de diversos e vastos salões, alguns contendo muita riqueza e armas. As paredes eram construídas com grandes toras de madeira, alguns aposentos possuindo divisões de madeira mais leve e fina, aplainada.

O bóndi demonstrara a intenção de matá-los imediatamente, mas seu filho “já crescido” convence-o a não matá-los de noite, a fim de divertir-se com sua tortura no dia seguinte, o que serviria de exemplo a outros. Todos foram “firmemente amarrados”, sendo Egil atado, também “firmemente”, pelos pés e mãos, a um dos postes do salão ao qual foram levados. Os Kurši foram comer, beber e se divertir no salão principal.

Egil se sacode até conseguir com que o poste no qual está atado solte-se de sua base, no chão; solta a corda dos pulsos com os dentes, desata os pés e liberta os companheiros. Uma das paredes do aposento é feita com madeiras aplainadas, que conseguem quebrar, passando para aposento ao lado. Ali, ouvem vozes vindas do chão e descobrem um aposento inferior, de onde retiram três daneses capturados pelos Kurši. Com seu auxílio encontram os depósitos de armas e riquezas, e fogem em direção à floresta.

Julgando tal expedição e fuga indigna de um guerreiro, Egil retorna, adentra a cozinha e põe fogo no salão principal, onde os Kurši se divertiam, dando final recorrente em muitas sagas: os que tentavam sair do aposento em chamas eram mortos por Egil na porta.

Esta narrativa é bastante rica em detalhes que nos auxiliam a montar nosso “quebra-cabeças” hipotético. Seu valor exato factual deve ser muito relativizado, mas podemos traçar ao menos reconstruções aproximadas. As características dos Kurši ali descritas, em seu próprio meio, o são por estrangeiros; seu autor reconta o ocorrido por olhos escandinavos do século XIII.

A organização das comunidades dos Kurši é descrita de forma similar a outros povos com os quais lidam em diversas sagas, usualmente espelhando conceitos escandinavos. Segundo a narrativa, a população vivia em povoados dispersos em meio a clareiras na densa floresta. Em ocasiões especiais como o ataque que narramos, o habitual seria fugir em direção a algum senhor de maior riqueza e poder, normalmente dono de alguma espécie de fortaleza.

A referência à fortaleza possivelmente se remete a alguma realidade do contexto báltico. Estas fortalezas bálticas constituíam-se em largos morros de terra artificiais, encimados por paliçadas de madeira[37]; a descrição dada pela Saga de Egil concorda razoavelmente com achados arqueológicos, e mesmo com modelos tradicionais das paliçadas indo-europeias arcaicas[38].

Figura 04: Reconstituição da fortaleza báltica de Tushemlija, atualmente na Rússia Ocidental. Note-se a construção intricada das paliçadas. Fonte: GIMBUTAS, Marija. Os Baltas. RJ: Ed. Neris, 1986. p.204.

A narrativa de que, pouco antes de fugirem, teriam descido em aposento alcançado por meio de piso inferior (no qual encontraram muitas riquezas e armas, dirigidos por Aki, o dinamarquês que libertaram, e seus dois filhos) leva-nos a realizar deduções mais precisas do plano da construção: se pela referência anterior da libertação de Aki somos induzidos a imaginar uma espécie de porão, esta última nos obriga a concluir que os vikings encontravam-se todo tempo presos em aposento superior.

Somando-se isto à referência de muitos salões vastos, depósitos de armas e tesouros, cozinha em ambiente separado – e não no meio do salão – e o detalhe das paliçadas traiçoeiras, chegamos à reconstituição de uma construção intrincada, composta de trabalhos de madeira diversos (como a referência tanto a paredes de toras densas quanto de tábuas aplainadas mais finas) e terra, criativamente combinados de forma que aproveitavam os próprios recursos naturais (tanto no emprego dos materiais quanto na topografia).

Ainda que Egil tenha conseguido se soltar, a Saga não demonstra inépcia da parte dos Kurši. Longe disso, apresenta-os como sagazes e astutos, companheiros à altura de Thorolf e Egil em suas expedições. A fuga de Egil aparece, no relato, como justificada pela extrema persistência (podemos até valorar: teimosia) do próprio Egil, visto que o autor insiste em afirmar diversas vezes que ele e seus homens foram amarrados “firmemente”: antes de uma deslalorização dos Kurši, a Saga busca a glorificação de Egil.

A localização dos povoados longe da costa, em meio à floresta, bem como o procedimento aparentemente conhecido de recorrerem ao bóndi (a considerar pela cilada), é complementada pelo próprio achado de Aki e seus filhos: o bóndi era rico, e um dos maiores sinais de riqueza no norte viking era a propriedade de escravos[39].

As populações revestiam-se de tamanhas precauções justamente em virtude da frequência de ataques de pilhagem e captura. No diálogo travado entre Aki e Egil, o primeiro afirma ter sido capturado na Dinamarca, junto de seus dois filhos. Teria sido bem tratado pelos Kurši, e encarregado de trabalhos importantes, mas em prol de seus filhos tenta escapar, sendo por isso preso.

É digno de nota que Aki fora captado em sua propriedade, na Dinamarca, e não em alguma expedição que fizesse à Kurzeme. Pois os Kurši, assim como os vikings no geral, eram afeitos a expedições em terras estrangeiras, fosse com intuitos comerciais ou em busca de riqueza e escravos, sendo que aparentemente estas últimas ofereciam mais atrativos. A natureza dessas relações comerciais é ampla e diversificada: o complexo de Daugmale[40], por exemplo, revela achados desde Inglaterra até Bizâncio, e nos é impossível saber em que porcentagem tais achados se devem aos Suecos.

Uma referência interessante trata-se da espada de Egil; chamada por ele de “Víbora[41]”, foi obtida em sua expedição na Kurzeme[42]. Aparentemente era uma espada de grande qualidade: foi com ela que Egil travaria a batalha de Brunaburr na Inglaterra, onde seu irmão morreria[43]. E, mesmo após ter recebido uma excelente espada, tradicional na família[44], Egil manteria “Víbora” consigo[45]. Considerando a pobreza de jazidas minerais em Kurzeme – bem como toda a técnica necessária no fábrico de uma espada de qualidade, é razoável supor que tal espada fosse fruto de comércio.

Apesar da extensão comercial, no entanto, as expedições com intuito de saque parecem ter sido muito mais relevantes. Temos relatos, por exemplo, da destruição de Sigtuna em 1187 por estonianos (com participação dos Kurši), bem como algumas invasões e pilhagens mais extensas da Dinamarca (e.g.1203, descrita na Cronica de Henri).

Aparentemente, seus principais parceiros em tais expedições eram prussianos e estonianos, sendo suas principais vítimas os suecos. A se crer pelo que se conta na saga, tal regra não era rígida: Aki fora capturado pelos Kurs na Dinamarca, sendo que Egil e os seus foram aliados dos Kurši em Austrvegr, ainda que tenham desfeito tal aliança posteriormente.

 Tal confecções de alianças, no entanto, precisa ser considerada com cuidado: uma aliança entre islandeses e Kurši não implicava numa massa monolítica e unificada dos mesmos. Da mesma maneira que podemos encontrar amiúde nas sagas, o aspecto étnico não era determinante; em suas expedições grupos de vikings e kurs não necessitavam estar ligados à um “governo” ou grupo unificado, modificando suas alianças conforme fosse de utilidade.

As expedições efetuadas pelos Kurši não abrangiam regiões tão vastas e longínquas, ainda que fosse possível que alguns indivíduos agissem como mercenários. Mas por certo elas parecem ter sido tão eficazes quanto as de seus vizinhos, ainda que restritas principalmente ao Báltico. Schwabe[46], por exemplo, registra-nos inscrição particularmente irônica: “Deus, proteja-nos dos Kurs[47]”, encontrada em igrejas dinamarquesas, da época de Magnus (1041) e Svein (1049).

Tal prece parece não ter sido sem propósito, pelas razões que já esboçamos: o principal meio de vida dos Kurši ligava-se estreitamente à vida marítima, particularmente voltada à expedições de pirataria. Em tais expedições os Kurši conseguiam escravos, os quais ficavam encarregados dos trabalhos domésticos e de agricultura. Os bondi dos Kurši usufruíam, desta maneira, de tanta riqueza – fosse em jóias e metais preciosos ou escravos – quanto qualquer outro aristocrata no Norte da Europa; prosperidade adquirida principalmente à custa dos camponeses de Dinamarca[48] e Suécia[49].

Schwabe[50] é da opinião que o método de cultivo trienal tenha sido implantado em Kurzeme justamente por daneses, e tal assertiva encontraria respaldo na Saga de Egil: Aki era responsável pelo gerenciamento da fazenda do bondí, mas aparentemente seus filhos trabalhavam duro; e tal circunstância, somada às outras referências do trabalho realizado pelos escravos (arrumação das camas, cuidados com a cozinha, trabalhos na lavoura) revela certa extensão na natureza dos serviços domésticos legados aos escravos; repetimos, no entanto, que muito disso pode – e provavelmente é – muito da projeção das próprias sociedades escandinavas no relato.

Há indicações de que as embarcações dos Kurši (bem como a dos vizinhos prussianos) não diferiam grandemente das escandinavas do período viking[51]. São extensamente repetidas as vantagens que as embarcações ágeis e rápidas dos vikings propiciaram em seus ataques relâmpagos pelas costas da Europa Ocidental, e tal trunfo parece ter operado igualmente a favor dos Kurši.

A habilidade dos artífices Kurši com trabalhos em madeira levantam possibilidades de diversas adaptações e intercâmbios de técnicas em construção naval com os escandinavos, não apenas numa posição passiva, receptora de técnicas estrangeiras, mas também dotada de criações próprias. A comparação com barcos eslavos do período em questão, mais baixos e menos ágeis[52], restringe a comparação das técnicas navais às populações baltas e escandinavas, sugerindo a troca de técnicas através dos artifíces obtidos como escravos.

Este domínio técnico da madeira não é desprezível; já discutimos a respeito das fortificações dos Kurši, e a constatação de suas habilidades referentes à navegação vem sugerir uma mestria técnica da carpintaria semelhante à dos vizinhos sueco-noruegueses. Mestria diferente da encontrada na Europa Ocidental, cujas florestas eram menores e menos densas que as do Báltico[53]. LeGoff[54] cita-nos um conto curioso referente à construção de uma igreja na França medieval que, somado com outras fontes do Ocidente, revela quase que uma incompetência no trato com a madeira: o carvalho escolhido para a construção da Igreja foi cortado em tamanho menor do que o calculado, requerindo o milagre de um eclesiástico. O milagre torna a historieta pouco verossímil, mas a situação descrita parece se basear em circunstâncias cotidianas e conhecidas.

Por todas estas evidências da Saga de Egil somadas à outras fontes, encontramos nos Kurši uma população pequena, belicosa, com uma extensa aristocracia guerreira, a qual sobrevivia, além dos recursos da floresta, de expedições de pirataria pelo Báltico. Através destas obtinham escravos, os quais permitiam a manutenção de sua ordem social e estilo de vida voltado ao bélico.

A Gesta Danorum e a iniciação mítica dos reis daneses

 

Na Gesta Danorum de Saxo Gramamaticus os Kurši (“curetes”) são citados nos livros 1,2,3,5,6,8,9,11 e 14, incluindo episódios relevantes como o cativeiro do rei mítico Hadingus, no livro I, e a épica batalha de Bravalla, no livro 8[55].

Já afirmamos limites estreitos no que podemos apreender das fontes escritas que se referem aos Kurši. É-nos impossível, por exemplo, dar uma lista de nomes de reis ou traçar uma história política. A bem da verdade, possuímos pelo menos três nomes de reis dos kurs: Loker (“Lokerus”), Dorn (“Dorno”) e Lamekin.

Enquanto que para o último encontramos referência provavelmente factual na Livländiche Reimschronike, as citações que temos de Loker/Lokerus e Dorn/Dorno advém dos dois primeiros livros da Gesta Danorum, da autoria do danês Saxo Grammaticus, e encontram-se no domínio do mítico.

Loker é descrito como “tirano dos Kurši”, e captura o rei mítico dinamarquês Hadingus. Dorn é aparentemente seu sucessor, e combate o filho de Hadingus, Frotho. Encontram-se nos dois primeiros livros da Gesta Danorum, no início de sua parte mítica. Não iremos ignorá-los, mas por certo não podemos tê-los como absolutamente exatos, não apenas por seus nomes não possuírem uma estrutura fonética báltica, mas pela natureza da narrativa em questão.

A primeira associação que vem à mente, ao pensarmos no nome de Loker é, inevitavelmente, o deus nórdico Loki. Dumézil descarta sumariamente tal identificação. E ela parece realmente difícil de ser feita. Pois as referências a tal Loker são ínfimas; Saxo afirma apenas que Hadingus e seu parceiro Liserus atacam-no e são derrotados. A única característica de tal rei,é um adjetivo: “..Lokero, curetum tyrano..”, ou seja: “Loker, tirano dos Kurši”. Termo altamente dúbio, “tirano” pode prestar-se às mais especulativas das interpretações. Parece-nos seguro, apenas, saber que se trata de um rei. No mais, o que pode argumentar-se é a conotação negativa que “tirano” possui na Alta Idade Média.

Seja qual for o significado dos nomes, o mais relevante é sua importância simbólica. Hadingus vêm a ser um dos primeiros reis do período mítico descrito por Saxo, e na narrativa com Loker, é por meio de sua captura que Hadingus passa por sua iniciação guerreira, sendo ajudado por um velho caolho – possível referência ao deus Oðínn.

Quanto à Dorn, Saxo mantém-se em eventos mais terrenos: na eminência de um ataque de Frotho, filho de Hadingus, Saxo põe na boca de Dorn eloquente e extenso discurso, no qual conclama os seus contra os ataques externos[56]. Nada se depreende desse discurso, a não ser lugares comuns da retórica medieval, latina e cristã; os Kurši aqui são apenas elemento narrativo, sem qualquer detalhe de natureza factual.

Agradecimentos

Ficam registrados nossos agradecimentos à família Bērziņš: Hans, Elaine, Raísa e Guilherme, que nos auxiliaram de tantas formas e nos hospedaram na Latvija em 2008 e 2013 e possuem parte em praticamente todas as pesquisas citadas aqui, incluindo na viagem a Liepāja e Grobiņa em 2013. Também agradecemos a Inga Doniņa, que nos auxiliou de forma preciosa na pesquisa no Liepājas muzejs. Finalmente, fica registrado o agradecimento pelo auxílio inestimável do Departamento de História Social da Universidade de São Paulo e de seu coordenador na ocasião, Prof. Dr. Marcelo Cândido, através dos quais foi possível efetuar as viagens de pesquisa de 2013.

Referências

  • Fontes primárias

Egilssaga

Erikskronikan

Livländiche Reimschronike

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SAXO GRAMMATICUS. Gesta Danorum.

 

  • Bibliografia citada

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[1] Discutimos a questão em maior detalhe no artigo: “Notas sobre o termo viking: usos, abusos, etnia e profissão”’, que pode ser acessado em < https://www.academia.edu/1508363/Notas_sobre_o_termo_viking_usos_abusos_etnia_e_profiss%C3%A3o> .

[2] Em relação aos escandinavos na Ilha de Man, sugerimos a leitura da tese de doutoramento de Renan Birro, defendida em 13/09/2017, em breve disponível para download no banco de teses da USP: BIRRO, Renan. As representações de Sigurdr Fáfnisbani nas cruzes da Ilha de Man (séculos X-XI). Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 2017.

[3] Recentemente foi filmado um documentário de 26 minutos, disponível online. Com exceção de uma referência pouco provável de que os Herulos, tribo citada na Germânia de Tácito, seriam os ancestrais dos povos baltos, o conteúdo é acadêmico e confiável. Veja aqui: < https://vimeo.com/133451296>

[4] Verso 05748.

[5] SAAKS, Edgar. Eesti viikingid. 2005, pp. 31-34.

[6] VUORELA, Toivo. The Finno-Ugric Peoples. Indiana University Publications, 1964, p. 206; MÄGI, Marika. Viking Age and early medieval Eastern Baltic between the West and the East. In: IMSEN, Steinar (ed.) Taxes, tributes and tributary lands in the making of the Scandinavian kingdoms in the Middle Ages. Trondheim: Tapir Academic Press, 2011.p. 194.

[7] < http://samogitia.mch.mii.lt/TAUTOSAKA/balcius.lt.htm>

[8] PIETSCH, Richard: Deutsch-Kurisches Wörterbuch, Verlag Nordostdeutsches Kulturwerk Lüneburg 1991, p.17.

[9] STONKUTĖ, Loreta. Kuršininkų tarmės lituanizmai. In: Studentu zinātniskās Konferences «Aktuāli baltistikas jautājumi» tēzes. Latvijas Universitātes Filoloģijas fakultātes, 2002. Pp.43s.

[10] VASKS, Andrejs. The cultural and ethnic situation in Latvia during the early and middle iron age (1st- 8th century AD.). In: Humanities and Social Sciences – Latvia. 03 (16) 1997. Ver também MUGUREVIČS, Evalds. Ethnic processes in Baltic inhabited territories, and the emergence of the Latvian nation in the 6th to the 16th century. – In: Humanities and Social Sciences Latvia, 1997, University of Latvia, vol.3 (16), pp.75-92

[11] MUGUREVICS, Op. Cit, 1997. Tal tradição crematória parece ser milenar e ter sido interrompida durante o período de dominação sueca sobre os Kurši.

[12] NERMAN, Birger. Funde und Ausgrabungen in Grobiņa, 1929. In: Congressus Secundus Archaeologorum Balticorum Rigae, 19.-23. VIII. 1930. Riga, 1930. pp.195-206.

[13] RIMBERT, Vita Anskari. Cap.XXX. Tradução livre nossa.

[14] VASKS, Op. Cit, 1997.

[15] VIRSE, Ingrida Liga & RITUMS, Ritvars. Grobiņa complex of dwelling locations and burial sites, and related questions. In: Archaeologia BALTICA 17 (2012), p. 34.

[16] BRØNDSTED, Johannes. Os vikings: história de uma fascinante civilização. São Paulo: Hemus, S.D.,  p.18.

[17] ARBMAN, Holger. Os Vikings. Lisboa: Editorial Verbo, 1967 [Londres, 1961], p.30.

[18] BRØNDSTED, Op. Cit, pp.17,35.

[19] Charles Robinson, na introdução de sua tradução da Vita Anskari, é específico ao afirmar sua morte em 03 de fevereiro de 865.

[20] NERMAN, 1958, p. 181; DAIGA, 1957; BRØNDSTED, Op. Cit. pp.18s.; PETRENKO, 1995; BOGUCKI, 2006; VIRSE, 2012, pp.39-40.

[21] VIRSE, 2012, p. 40.

[22] PETRENKO, Valerij Petrovich. ´A Picture Stone from Grobin (Latvia)´. In Fornvännen 86 (1991), pp.01-08;  LAMM, Jan Peter. ‘Ships or ducks? Comment on the Picture-stone found in Grobin Latvia’. In: Fornvännen 86 (1991), pp.09s.

[23] Os Skaldar (plural de skaldr) são personagens importantíssimas no mundo escandinavo antigo. Eram os poetas que cantavam os feitos dos reis e seus próprios, bem como faziam os elogios fúnebres. Vinham dos extratos aristocráticos e encarnavam os mais altos ideais vikings: como portadores da poesia e guerreiros, eram devotos de Oðínn, aquele que concedia o dom da poesia.

 [24] Um jogo de bola bastante difundido entre os vikings. Jogava-se com uma bola pesada e dura, com um taco. Possivelmente fosse semelhante ao jogo escocês, ainda praticado atualmente, de Hurling. Uma descrição detalhada de tal jogo dá-se na saga de Girli Sursson, caps. 15 & 18. Referências em: SMILEY, J et alii. (org) The Saga of Icelanders. New York: Penguin Books, 2001, p.741.

[25]Egil vera víkingsefni ok kvað þat mundu fyrir liggja, þegar hann hefði aldr til, at hánum væru fengin herskip”; Saga de Egil, cap.40 (tradução. do autor).

[26] Ibid.

[27] Ibid, cap.44

[28] No cap.45.

[29] De gardr, “local”, “cidade”, “fortificação” e rík, reino. Vem da cidade Rus de Holmgardr, que conhecemos como Novgorod.

[30] Literalmente, “terra dos kur”, tradução exata do letão “Kurzeme”

[31] Aos interessados em aprofundar o assunto sugerimos nossa tese de doutoramento: MUCENIECKS, André. Austrvegr e Gardariki: (Re)significações do Leste na Escandinávia Tardo-Medieval. Disponível em língua portuguesa, online nos bancos de dados da USP e também em https://www.academia.edu/10938456/Austrvegr_and_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_-_re_significations_of_the_East_in_Low-Middle_Ages_Scandinavia_Austrvegr_e_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_Austrvegr_e_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_Re_significa%C3%A7%C3%B5es_do_Leste_na_Escandin%C3%A1via_Tardo-Medieval

[32]Héldu þeir ok út til Kúrlands ok lögðu þar við land með hálfs mánaðr friði ok kaupstefn”. Saga de Egil, capítulo 47. Toda a narrativa deste episódio (consequentemente, as referências subsequententes) encontram-se neste mesmo capítulo.

[33]en er því var lokið, þá tóku þeir að herja og lögðu að í ýmsum stöðum”.

[34] sléttr – uma planície, uma campo nivelado, qualquer espaço físico sem ondulações.

[35] bær einn stóð skammt, literalmente “uma porção do lugar titulada (por alguém)”

[36] O termo empregado é bóndi, usado habitualmente para se referir ao fazendeiro/proprietário nórdico.

[37] CHRISTIANSEN, Eric. The Northern Cruzades. London: Penguin Books, 1997 [1980],  p.38.

[38] A respeito das paliçadas e fortificações de madeira dos antigos indo-europeus, ver LEVEQUE, Pierre. As Primeiras Civilizações: Volume III – Os Indo-Europeus e os semitas. Lisboa: Edições 70, 1987. pp.36s.

[39] CHRISTIANSEN, Op. Cit. p.39.

[40] Um conjunto de diversos sítios arqueológicos próximo ao rio Daugava.

[41] Adder, no islandês do texto.

[42] Egilssaga, cap.53.

[43] Idem, cap.54.

[44] Chamada de “Dragvendill”, algo como “aquela que corta por inteiro”.

[45] Egilssaga, cap.61.

[46] SCHWABE, Arveds. Histoire du People Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri, 1953, p.41.

[47] Por tratar-se praticamente da mesma oração feita por aqueles atacados anteriormente pelos vikings na Inglaterra. GIMBUTAS, Marija. Os Baltas. RJ: Ed. Neris, 1986, p.173, afirma encontrar-se na Ynglinga Saga, mas não encontramos a referência.

[48] SCHWABE, Op. Cit. p.41. E a Erikskronikan afirma que a maior parte dos camponeses dinamarqueses raptados como escravos encontravam-se na Prússia, Kurzeme e Estônia.

[49] CHRISTIANSEN, Op. Cit.p.39.

[50] SCHWABE, Op. Cit. p.41.

[51] CHRISTIANSEN, Op. Cit. p.38

[52] Ibid, p.34.

[53] LEGOFF, Jacques (org.). A civilização do Ocidente Medieval. Vols. I &II. Lisboa: Editorial Presença, 1989.pp.251-256.

[54] Ibid. p.252.

[55] Sobre Saxo Grammaticus, suas ideologias, objetivos e obra, sugerimos nosso: Muceniecks, Andre. Saxo Grammaticus: Hierocratical Conceptions and Danish Hegemony in the Thirteenth Century. Kalamazoo & Bradford: ARC Humanities Press, 2017.

[56] Gesta Danorum, livro II: “[2]‘Externum, proceres, hostem et totius ferme Occidentis armis opibusque succinctum salutarem pugnae cunctationem sectantes inediae viribus obtinendum curemus. [3] Internum hoc malum est. [4] Difficillimum erit domesticum debellare periculum. Facile famelicis obviatur. [5] Melius adversarium esurie quam armis tentabimus, nullum hosti inedia acrius iaculum adacturi.[6] Edax virium pestis edendi penuria nutritur. [7] Armorum opem alimentorum inopia subruit. [8] Illa quiescentibus nobis tela contorqueat, illa pugnae ius officiumque suscipiat. [9] Discriminis expertes discrimen licebit inferre. [10] Exsangues absque sanguinis detrimento praestare poterimus. [11] Inimicum otio superare fas est. [12] Quis damnose quam tuto dimicare maluerit? Quis, cum impune certare liceat, poenam experiri contendat? [13] Felicior armorum successus aderit, si praevia fames bellum committit. [14] Hac primam confligendi copiam duce captemus. [15] Castra nostra tumultus expertia maneant, illa nostri loco decernat; quae si victa cesserit, otium rumpendum est. [16] Facile ab indefesso lassitudine concussus opprimitur. [17] Adesa marcore dextera pigrior in arma perveniet. [18] Lentiores ferro manus dabit, quem quispiam prius labor exhauserit. [19] Praeceps victoria est, ubi tabe consumptus cum robusto congreditur. [20] Taliter indemnes aliis damnorum auctores fore poterimus.”

A crônica da Livônia: uma primeira história letã

O território das atuais Letônia e Estônia é referenciado em fontes escritas apenas a partir do período medieval. Na maioria das fontes, algumas das regiões da Letônia de hoje como Kurzeme (a “Kúrland” dos escandinavos no período viking) e Zemgale são citadas apenas de passagem, muito brevemente, e com muita frequência em meio a acontecimentos lendários ou sobre cuja factualidade se questiona.

A primeira crônica mais longa a falar sobre a região com detalhe, trazendo descrições específicas sobre os locais e com preocupação factual é a Henrici chronicon Livoniae – a “Crônica de Henri da Livônia”, que trata de acontecimentos ocorridos entre os anos de 1180 a 1227 na Livônia.

O nome “Livônia” foi dado à região devido aos habitantes da área norte da atual Letônia, os lívios, povos fino-úgricos, de linguagem totalmente distinta dos idiomas indo-europeus da área como lituano e letão, antigo nórdico e antigo eslavônico. Atualmente os lívios são uma minoria étnica quase extinta, habitando apenas uma estreita faixa do norte da Kurzeme, mas da Pré-história ao período moderno a etnia foi o grupo predominante em toda a área entre o norte do rio Daugava até as tribos estonianas – com as quais os lívios têm parentesco muito próximo.

Os principais eventos narrados na Crônica tratam da conquista da região pelos alemães, cristãos católicos romanos, e sua disputa pela primazia na região contra dinamarqueses e suecos. Em meio a isso, algumas das tribos – como dos letões – aproveitaram-se da situação, ampliando seu território à custa de seus vizinhos, particularmente os lívios.

O episódio, que se prolongou por séculos, faz parte de um processo mais amplo das cruzadas no norte na Europa. Simultaneamente às cruzadas na Palestina, que procuravam, dentre outros objetivos, retomar a Terra santa para a Cristandade e lutar contra os pagãos muçulmanos, movimentos semelhantes ocorriam na própria Europa, contra seus próprios pagãos. Na Península Ibérica, habitada por hispânicos e portugueses, mas dominada pelos islâmicos, as cruzadas ganharam o nome de “Reconquista”. No norte da Europa, foram conhecidas como “Cruzadas do Norte”[2], e foram levadas a cabo com o auxílio de ordens monásticas militares: os Irmãos da espada (Ver Figura 01) e a Ordem Teutônica, que acabaria por estabelecer um estado monástico na região que duraria até os tempos das Reformas Protestantes.

01 - Fellin (Viljandi)
Figura 01: Reconstrução do cerco ao forte de Fellin (Viljandi), no sul da Estônia, pelos Irmãos da Espada, em 1211. Fonte: Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing, p.07.

Até o século XIII a região que vai do Norte da Alemanha e Polônia, passando pelos países bálticos até a Finlândia era habitada por populações indo-europeias do ramo bálticas (antigo prussianos, tribos lituanas e letãs) e por Fino-úgricos (lívios, estonianos e finlandeses). Esta grande quantidade de povos (ver Figura 02) era pagã e, com exceção da Lituânia, pouco organizada politicamente, consistindo em unidades tribais. Até então os nativos travavam comércio desde antes do período viking com Escandinavos e Eslavos, que se converteriam ao Cristianismo e se unificariam em torno de reis nas proximidades do ano mil.

 

As tribos bálticas no século XIII
Figura 02: As tribos bálticas no século XIII. Fonte: GIMBUTAS, Marija. The Balts. London: Thames and Hudson, 1963, p.23.

 

Com a expansão do comércio germânico para o norte, a área báltica tornou-se alvo do interesse dos europeus ocidentais, interessados em obter acesso ao mundo boreal, que fornecia produtos valorizados como peles, mel, cera e madeira. Ao mesmo tempo, a Europa passada por um momento em que a ideologia cruzada era particularmente atrativa para sua classe de nobres guerreiros, muitos dos quais não tinha perspectiva de obterem suas próprias terras perto de suas regiões de origem, interessados em tentar a sorte e aventura longe de casa.

Dessa forma, as Cruzadas do norte foram uma empreitada de expansão comercial e econômica chancelada pela Igreja cristã e pela nobreza feudal. Não devemos efetuar juízos de valor e maniqueístas sobre a circunstância; em meio a indivíduos interessados em explorar a área e os nativos, é possível se encontrar um grande número de missionários abnegados e preocupados com a conversão e bem-estar dos locais, inclusive por vezes procurando protegê-los de abusos maiores da parte dos conquistadores germânicos e escandinavos. É possível que Henri, autor da Crônica, esteja entre estes últimos.

 

O castelo de Turaida
Figura 03: O castelo de Turaida, uma das muitas fortificações construídas pelos germânicos no processo de conquista e cristianização da Livônia. O castelo passou por uma completa restauração nos tempos recentes, a parte de sua torre principal foi construída apenas no século XVI. Foto do autor.

 

Henri da Livônia

Henricus Livonicus, ou Henri da Livônia, foi um missionário, sacerdote e intérprete. Muito possivelmente era um alemão vindo da Saxônia, que teria chegado na Livônia por volta de 1205[3]. Apesar de temos afirmado sua provável origem germânica, o tópico é tema de debate entre acadêmicos, muitas vezes em meio a discussões de caráter nacionalista. É comum se encontrar alguns autores letões alegam uma origem lívia ou letã para o mesmo, ao mesmo tempo que alemães defendem majoritariamente sua origem germânica[4].

Ambas as partes procuram se fundamentar no texto do próprio Henri. Alguns autores de origem letã argumentam Henri tinha um grande conhecimento das línguas locais, já que ele usara no texto um bom número de palavras, e descreveria em detalhes costumes nativos. Interessantemente, comentaristas e historiadores alemães empregaram muitas vezes as mesmas evidências, mas para demonstrar o sentido oposto; Henri conheceria as línguas locais porque era um intérprete para os alemães.

Dentre aqueles que defendem que Henri seria um nativo da Livônia, há uma predominância de autores que escrevem histórias genéricas nacionais, não especializadas em períodos específicos e bastante generalistas, como a History of Latvia: an outline, de Arnolds Spekke, escrita em 1948 mas reeditada várias vezes[5], ou History of Latvia, de Alfreds Bilmanis, escrita em 1955[6].

Vários acadêmicos e eruditos, mesmo de origem letã e estoniana, aceitam atualmente a ideia de que Henri fora um germânico – nos incluímos aqui, nessa lista. Arveds Schwabe, por exemplo, que também escreveria um manual generalista sobre a história letã em 1953[7], dentre uma grande produção de cunho mais específico e acadêmico. Há algumas posições bastante específicas, como de Evalds Mugurēvičs, que considera que Henri poderia ter nascido no norte da Germânia, mas que isso não seria um empecilho para uma suposta etnicidade báltica ou fino-úgrica. [8]

Alguns autores exageram um pouco na extensão de suas deduções, procurando criar muito com poucas referências:

Paul Johansen, por exemplo, especula, e afirma que o conhecimento de lívio e talvez alguma língua letã (curônio, zemgálio ou latgálio) de Henri teria sido obtido no monastério de Segeberg. A base do erudito para a afirmação é uma referência do texto, que fala de certa ocasião em que o o bispo Alberto tomou 30 jovens reféns de origem lívia em 1200[9].

Possivelmente o argumento mais usual para identificar Henricus como letão é um título frequentemente encontrado junto da crônica, “Henricus de Lettis”, “Henrique, dos letos”. Esse título, no entanto, vem de tradução errônea feita em 1740 por Johann Daniel Gruber, e não se encontra nos manuscritos mais antigos.

Henri é bastante modesto e circunspecto ao falar de si mesmo. Existem apenas seis passagens na Crônica em que ele passa alguma informação ou título sua:

Henrici, scolaris Alebrandi (XI.7; 1207); Heinricus sacerdos et Lehti (XII.6, 1208); Henricus de Lettis, sacerdos et interpres (XVI.3, 1212); Henricus et Alabrandus (XVII.6, 1213); Henricus, Lettorum minister de Ymera (XXIV.1, 1220); Henricus et Petrus (XXIV.2, 1220).

 

O que é possível de se deduzir dessas passagens sem maiores malabarismo e elucubrações? Henri era sacerdote dos letões da localidade de Ymera, mas não é possível daí se deduzir uma etnicidade letã. Há muitos casos de sacerdotes e missionários, não apenas do medievo, que recebem nomes ou apelidos semelhantes, baseados nos nomes daqueles entre os quais tais missionários trabalharam. No próprio contexto da Livônia podemos citar “Theodoricus de Kukunoys” – Theodoric de Kokhenhusen/Koknese, ou “Rodolfus de Wenden” – Rudolf de Wenden/Cesis.[10]

Em algumas passagens, Henri não fala sobre nenhum título seu, mas na forma que usa os pronomes, ou como descreve os conflitos e acontecimentos, é possível se perceber que ele se identifica com os alemães. Note-se a seguinte passagem, que fala de uma batalha:

 

Ex nostris vero ceciderunt duo et ex Lettis duo (…)

“Dos nossos caíram dois e dos letões, dois (…)” (XXIII.9; 1220)

 

Dificuldades à parte, existe um trabalho erudito muito detalhista e de qualidade feito sobre Henri, procurando reconstruir um pouco de sua vida. A informação foi listada satisfatoriamente por Paul Johansen em 1953[11]; os eruditos posteriores acrescentaram pouca coisa, com a exceção de Arbusow. Desses trabalhos normalmente tiram-se as seguintes possibilidades:

Henri nascera por volta de 1188, provavelmente na Saxônia. Estudou possivelmente no monastério de Segeberg, em Holstein, região limítrofe da Saxônia com a Dinamarca – uma localidade citada por ele com frequência (I.2; VI.3; IX.6; X.7). Ali, Henri adquirira um sólido conhecimento do latim eclesiástico. Henri cita a Vulgata e documentos litúrgicos latinos a praticamente toda página da crônica, mas seu uso de autores clássicos é bem menor.

Possivelmente no próprio monastério Henri teve seu primeiro contato com as línguas bálticas, próximo a 1200, provavelmente por meio dos reféns obtidos pelo bispo Alberto na Livônia, e que ficaram sob os cuidados do irmão do mesmo, Rothmar, abade de Segeberg.

Henri provavelmente chegaria à Livônia em 1205, trabalhando como acadêmico e tradutor da missão do bispo Alberto. Seria ordenado sacerdote em 1208, e receberia provavelmente a paróquia de Papendorf, Rubene em letão, localizada cerca de 14 km a sudeste de Wolmar, Valmiera em letão. Viveria ali com os letões, os quais tentaria evangelizar pelo restante de sua vida.

Henri escreveria sua crônica provavelmente entre os anos de 1224 a 1226, baseando-se em relatos e em experiências próprias. No ano de 1227 ele adicionaria uma seção que contaria a conquista da ilha estoniana de Ösel/Saaremaa no próprio ano.

Entre os anos de 1225 a 1227 Henri assumiu também a função de intérprete de William de Modena, legado papal. É possível que sua crônica venha de uma espécie de relatório para ele sobre o andamento da missão na Livônia.

É possível se apreender outras características de Henri além de datas, nomes e locais que trazem uma imagem um pouco mais viva. Algumas de suas narrações e descrições são bastante gráficas e vívidas, frequentemente cheias de detalhes e até mesmo humor. detalhadas. Ele demonstra algum interesse por tecnologias e táticas bélicas; descreve, por exemplo, o uso da Ballista (ver Figura 04), fala sobre a reação dos nativos às inovações trazidas pelos alemães, e mostra o rápido aprendizado dos locais.

Exemplo da Ballista medieval.
Figura 04: Exemplo da Ballista medieval. Obtido em: < https://br.pinterest.com/pin/527343437590827743/?lp=true >em 09/08/2017

Henri parece ter algum interesse na música. Em certa parte da crônica ele conta que, em meio ao campo de batalha, ele pôs-se a tocar certo instrumento musical, que o texto não afirma qual é. Considerando-se a circunstância da batalha, e a necessidade de volume sonoro, nos arriscaríamos a afirmar que o instrumento pode ter se tratado de alguma forma de trompete ou alguma espécie antiga de dudel, a gaita de foles germânica similar às dūdas letãs (ver Figura 05), mas trata-se nada mais que uma pressuposição nossa.

Dūdas
Figura 05: Dūdas – A gaita de fole letã. Selo de 2014.

Algumas das descrições dos costumes nativos parecem ter chocado ao autor. Em mais de uma ocasião Henri relata batalhas entre os locais e os germânicos, por vezes com alguns detalhes curiosos, possivelmente de fundo religioso. Em mais de uma passagem, por exemplo, ele cita tribos locais efetuando decapitação; zemgálios levando carros que seriam cheios das cabeças de seus inimigos, kurs cortando a cabeça de seus próprios companheiros feridos em um cerco a Rīga, e um letão que levaria a cabeça de seu inimigo como troféu.

Henri ainda residiria próximo a Papendorf/Rubene em 1259, já idoso, onde provavelmente faleceu[12].

 

A Crônica da Livônia: os manuscritos

Existem 16 cópias ou fragmentos da crônica, datados de séculos posteriores de sua escrita original. A maior parte dessas cópias foi feita no século XVI, durante o governo dos suecos na Livônia; pela grande quantidade de fragmentos e cópias existentes, nota-se que a crônica despertou muito interesse, particularmente durante o período sueco.

O manuscrito mais antigo é o Codex Zamoscianus, tratando-se de uma cópia – possivelmente do original – feita na Livônia no início do século XIV[13]. Durante o governo Polonês na Livônia e Estônia o manuscrito foi levado para a Polônia, e atualmente o manuscrito encontra-se guardado e protegido na Biblioteca Nacional Polonesa (Biblioteka narodowa), em Varsóvia.[14]

O manuscrito está incompleto; faltam suas primeiras quatro páginas, e ele chega apenas até o capítulo XXIII; faltam nele um terço da totalidade da crônica.

Outro manuscrito importante é chamado de Codex Skodeiskianus ou Codex Rigensis, uma cópia feita no século XVII. Está depositado na Latvijas Akadēmiskajā bibliotēkā em Riga, e pertencia a um pastor luterano chamado Nathanael Skodeisky. Com esse manuscrito Arbusow preencheu a maior parte do trecho que faltava do Codex Zamoscianus.

Outros manuscritos importantes usados pelos eruditos para produzir o texto crítico completo são a) o Codex Gymnasialis Revaliensis, cópia do século XVII guardada em Tallinn – única cópia que, a despeito de sua má qualidade, contém uma frase do capítulo XV que falta nos outros manuscritos[15]; b) Codex Toll cópia também de relativa baixa qualidade feita no século XVII, pertencera ao barão Robert Von Toll (1802-1876), um historiador amador; esse manuscrito foi útil na reconstrução de três sentenças da crônica.[16]

Finalmente, cabe aqui mencionar o Codex Oxenstierna, outra cópia do século XVII. Este último códice é interessantíssimo por tratar-se de uma tentativa, já no século XVII, de um acadêmico coletar os fragmentos disponíveis e juntá-los em uma edição. Pertencera a Erik Axelsson Oxenstierna (1624-1656), governador sueco da Estônia entre 1646 a 1652.

Depois de passar por uma série de proprietários, o manuscrito chegou às mãos de Johann Daniel Gruber (1686-1748), bibliotecário da Landesbibliothek de Hannover, que seria o primeiro editor crítico da crônica. Suas edições, no entanto, incluem muitas alterações e interpolações, e o manuscrito foi recopiado em latim clássico, diferente do latim medieval do século XIII no qual a crônica foi originalmente escrita.

 

A Crônica da Livônia: edições e traduções

 

A primeira edição do texto latino foi publicada em 1740 pelo já citado Johann Daniel Gruber, que foi o responsável por tornar popular o título errôneo, “Henri dos letões”. Já a primeira tradução, para o alemão, foi feita por Johann Gottfrid Arndt em 1747, com algumas correções do texto de Gruber.

Uma nova edição, com essas correções e uma nova tradução – também para o alemão – foi feita por August Hansen 1853, seguida de outra de Pabst, em 1867. O texto latino da Monumenta Germaniae Historica foi editado em 1874 por Wilhelm Arndt, ao qual foram feitas correções e adições por Leonid Arbusow em 1926 e 1927, adicionadas às edições finais de Bauer, de 1955 e 1959. Esta edição crítica pode ser acessada online[17], consistindo no texto base para os estudos acadêmicos, e de onde retiramos as referências .

A crônica foi traduzida para o inglês por James Brundage apenas em 1950-51, ainda baseada na edição de Arndt com poucas das alterações de Arbusow, sendo reeditada em 1961 e 2003 – desta feita com as alterações baseadas na edição de Bauer.

As primeiras traduções para o letão foram feitas por Matīss Siliņš em 1883 e Jānis Krīpēns em 1936. Em 1993 a Zinātne publicou uma nova tradução para o letão, da parte de Ābrams Feldhūns, com introdução e comentário de  Ēvalds Mugurēvičs[18] e atualizada segundo o aparato crítico de Arbusow e Bauer.

Para o estoniano, a primeira tradução foi publicada por Jaan Jung em 1884[19]. Seria seguida por outra tradução apenas em 1962, por Jūliuss Megiste, publicada em Stockholm. Finalmente, Rihards Kleis publicaria uma nova tradução estoniana em 1982, com comentário e introdução de Enn Tarvel.

As traduções da crônica para o russo possuem uma história à parte. Trechos da mesma foram traduzidos pela primeira vez em 1854 por A. Kunik, sendo que em 1876 uma tradução completa com introdução e comentários foi preparada por J. Cheshikhin-Vetrinski. A versão mais autoritativa foi publicada em 1938 por Anninski e Bystrianski na URSS. A introdução de Anninski é sóbria e detalhada, acadêmica em todos os sentidos; também foi a primeira tradução a se valer dos trabalhos críticos de Arbusow. O prefácio de Bystrianski, no entanto, veicula ideologia soviética da década de 30, particularmente o antagonismo contra os germânicos, representando a Alemanha nazista da década de 30.

A crônica foi traduzida para o lituano apenas em 1991, por Juozas Jurginis, e para o finlandês em 2003, da parte de Maijastina Kahlos e Raija Sarasti-Wilenius. Além destas linguagens, existe ainda uma tradução publicada para o italiano em 2005, feita por Piero Bugiani, com comentário e introdução de Pietro Umberto Dini.

Uma tradução e comentário da crônica para o português, baseando-se na edição crítica de Arbusow, está sendo preparada por Renan Birro, Álvaro Bragança e André Muceniecks. Muito do conteúdo desse artigo é original da pesquisa feita para essa edição, que esperamos poder apresentar em breve.

 

Bibliografia:

Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.Várias reedições.

Christiansen, Eric (1997). The Northern Cruzades. London: Penguin Books, first edition 1980.

Gimbutas, Marija (1963). The Balts. London: Thames and Hudson.

Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993.

Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp. 385-408.

Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp.77-106.

Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne.

Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006.

Tamm, Marek & Kaljundi, Linda & Jensen, Carsten Selch (eds.) (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing.

Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing.

Urban, Willian (1994). The Baltic Crusade. Chicago: Lithuanian Research and Studies Center Inc. & McNaughton & Gunn Inc.

____________ (2003). The Teutonic knights: a military history. London: Greenhill books.

Site:

Chronicon Livoniae, In: Monumenta Germaniae histórica. Obtido em (09/09/2017): http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[1] Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

[2] Ver Christiansen (1997[1980]), The Northern Crusades, Urban (1994), The Baltic Crusade, e  Urban (2003), TheTeutonic Knights,  nas referências bibliográficas.

[3] Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing,  p. xviii.

[4] Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[5] Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006, p.123.

[6] Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.

[7] Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

[8] Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 444ss.

[9] Johansen, p. 10.

[10] Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia.  p. 80.

[11] Em sua obra Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[12] Johansen, p.15.

[13] Mugurēvičs, pp. 18ss.

[14] Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions. In: Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing, p.388.

[15]simul et virorum interfectorum alia duo milia”.

[16] Kala, p. 389.

[17] http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[18] Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993. 453 lpp.

[19] “Läti Hendriku Liiwi maa kroonika ehk Aja raamat”.

A Importância de Políticas Linguísticas para a Letônia

Nos mais diversos contextos (mas com motivações sempre políticas), os Estados podem valer-se da implementação de projetos de lei concernentes à língua de seu país para protegê-la, difundi-la ou até modifica-la. Um exemplo é o Novo Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2009 nos países falantes de língua portuguesa, mas que só se tornou a única forma de escrita no ano passado. A unificação tem motivos de aumentar o prestígio da língua no internacionalmente, estreitar laços comerciais e trocas intelectuais, como o movimento de acadêmicos para realizar pesquisas, mas foi recebida com resistência por Portugal – ainda há aqueles em Portugal que afirmam que a forma correta da língua é a deles somente. O que podemos entender dessa situação, saltando para um nível mais geral, é que a língua de um país é um fator de particularização e é fortemente ligada à identidade nacional. Gravemente, vemos no percurso da História que uma das formas de reafirmar poder em um dado país é interferir na língua que é falada nele, e, silenciar uma língua é silenciar uma identidade. E é precisamente esse o cenário que vemos na Letônia.

A questão da língua é essencial para a Letônia e seu reestabelecimento como um Estado soberano. É um campo de fato muito sensível, pois, como afirmei antes, estamos falando da identidade de uma nação. Para entendermos melhor a situação, precisamos voltar na história da Letônia. Desde meados do século XII, a área que hoje corresponde à Letônia (não havia um Estado formado ainda) foi tomada pelos cavaleiros da Ordem Teutônica. Embora o povo leto já estivesse lá e já possuísse sua língua, o alemão entrou como a língua de prestígio, por ser a língua da elite. Assim, os letos, vistos como menores, eram privados de educação e qualquer privilégio social, e, com sua língua não seria diferente. O leto era visto como um idioma baixo, incapaz de se produzir boa literatura ou qualquer conhecimento intelectual que se valha nele. Por isso, os primeiros registros escritos do leto são tão tardios (em comparação com a própria história da língua leta e a de outras línguas indo-europeias), datando de meados do século XVI, e ainda assim, eram apenas de caráter religioso. Até haviam letos que conseguiam ascender socialmente e prosseguir com os estudos, mas para tanto deviam abdicar o leto e aprender o alemão.

A partir do século XVII, com o domínio russo, a situação somente se estreitou. A língua de prestígio somente mudou do alemão para o russo, mas aquele ainda era melhor recebido que o leto. Nas instâncias oficiais, o russo era o idioma a ser utilizado. Para agravar, o czar Alexandre III buscou implementar um projeto de intensa russificação da sociedade leta, incluindo até a transcrição do leto para o alfabeto cirílico, o utilizado pelo idioma russo. A proposta não se efetivou, porque os letos já estavam livres da servidão, e, com o crescente acesso ao conhecimento, passaram a valorizar a sua língua. Além disso, as condições de vida naquela época não eram boas, o que trazia grande descontentamento dos letos com o governo russo, o que levava a aversão popular. Mesmo assim, a marcante presença dos russos fez com que o russo se estabelecesse como língua de uso corrente nas cidades maiores.

Houve o primeiro período da tão sonhada independência, mas vieram os domínios germânico e russo outra vez. Nesse primeiro, a língua foi uma questão menor, e só foi implementada nas esferas institucionais. Porém, o domínio soviético não deixou de ser menos imperialista, e houveram muitas estratégias de russificação, que fazem sentir seus efeitos até hoje. Um fluxo migratório enorme de russos entrou na Letônia, e eles possuíam posição privilegiada na sociedade, por estarem alinhados com os ideais russos. Não tinham de aprender o leto, e até hoje não fazem questão – afinal, os letos, em sua maioria, são bilíngues, e com facilidade se vive, trabalha, compra e é atendido nas escolas e hospitais somente com o russo. Hoje em dia, a maioria dos empreendedores, comerciantes e empresários continuam sendo russos, por terem herdado essa condição do status quo da União Soviética.

Porcentagem de falantes de russo nas regiões da Letônia

Para a Rússia, seria muito vantajoso ter o russo como língua oficial num país da União Europeia, uma vez que, após a queda da União Soviética, somente a Bielorrússia, o Quirguistão e o Cazaquistão o adotaram como língua oficial ou co-oficial, países que hoje não possuem influência no cenário internacional. Os Estados Bálticos seriam como uma porta de entrada para a esfera de influência europeia, e também, dominá-los, para a Rússia, signficaria obter uma saída para o oceano, uma vez que o Estado russo não possui portos que saiam para o mar que não congelem sazonalmente, o que os causa grande ônus. Um dos meios mais propícios de possibilitar essa dominação seria pela língua, por ser uma mudança sutil: se o russo ganhar status oficial na Letônia, aos poucos o leto poderá perder a sua utilidade pois há uma alternativa mais conveniente no sentido de comunicação internacional – o leto é falado por aproximadamente 2 milhões de pessoas no mundo todo e os falantes do russo somam 260 milhões mundialmente -, e, com certeza, a Rússia pressionaria cada vez mais o uso do russo, por meio da população russófona, facilitando a imigração russa, e, mais uma vez, diluindo a etnia leta, de forma a fazer sentido juntar-se à Rússia outra vez.

São várias as nuanças que devemos levar em conta ao pensarmos a relação de língua e política. É uma relação que sempre pressupõe relações de poder, domínio ou afirmação. Estima-se que a cada 14 dias um idioma no mundo morre, por caírem em desuso, sendo tornados obsoletos por línguas mais “úteis”. O gesto de manter o leto como única língua oficial da Letônia é de resistência para que, no futuro, não seja esse o seu destino, como foi o do Livônio e outros idiomas da região báltica.