13ª eleição para o parlamento Leto – Outubro de 2018

Como e porque devemos votar
A partir de informações compiladas por Ivars Ījabs, um analista político independente da 
Associação dos Letos Livres do Mundo. (PBLA)
A próxima eleição parlamentar nacional da Letônia ocorrerá no dia 06 de outubro.
A Letônia é um país democrático, assim cada cidadão tem o direito de votar nas eleições.
Em contraste com os países onde as  eleições são parlamentares e presidenciais separadas, a Letônia tem apenas uma eleição nacional, que determina o curso do governo para os próximos quatro anos. A eleição nacional da Letônia decide quais candidatos e partidos formarão o próximo governo (Saeima), eleito, o Saeima escolhe o presidente.
O sistema de votação Leto é único e a lista de candidatos e partidos é longa. É muito importante votar, pois os votos da Letónia no estrangeiro formam uma parte substancial do eleitorado. Na Letônia, onde a votação não é obrigatória, cada voto pode fazer uma grande diferença!
O parlamento (Saeima) é composto por 100 assentos  compostos pelas 5 regiões de eleitorado; cada região possui um número de assentos proporcional à população daquela região.
As regiões são Latgale, Kurzeme, Vidzeme, Zemgale e Riga. Mudanças na distribuição da população resultam em uma redistribuição. Para a próxima eleição, os números são:
Latgale (14), Kurzeme (12), Vidzeme (25), Zemgale (14), e Riga (35).
Desde as eleições anteriores, as três primeiras regiões perderam um lugar, enquanto Riga ganhou 3. Esta mudança pode ser explicada pelo fato dos votos dos letões residentes no estrangeiro estarem incluídos no eleitorado de Riga. Houve uma onda de emigração econômica nos últimos quatro anos.
Foi calculado que os letões estrangeiros têm o potencial para decidir 8 dos 100 assentos.
Isto pode fazer uma contribuição crítica para a formação e o tom do próximo governo da Letônia.
                        
O sistema de votação é baseado nas preferências partidárias. Há um boletim de voto separado para cada partido. Cada eleitor recebe um envelope de voto e vários boletins de voto, um para cada um dos participantes. O eleitor escolhe um dos boletins de voto, que é depois colocado no envelope e na urna. Os boletins de votos restantes são descartados. Antes de colocar o boletim de voto escolhido no envelope e na urna, o eleitor pode marcá-lo para indicar preferências entre os candidatos listados; isto influenciará se um determinado candidato na folha de preferência do partido realmente acaba com um assento no Saeima.
Um sinal de mais ao lado do nome do candidato indica um deslocamento positivo para esse candidato, uma linha através do nome do candidato move o candidato para baixo na lista.
Os que estão no topo da a lista entram no “Saeima”.
           
Partidos políticos
Existem muitos pequenos partidos políticos na Letônia. Para serem incluídos na eleição, os partidos devem  ter pelo menos 500 membros e já terem sido formados há 1 ano antes da data da eleição. Para entrar no Saeima, um partido político tem que pesquisar pelo menos 5% dos votos.
Para aumentar as chances de os candidatos de um pequeno partido ganharem assentos no Saeima, eles acordam com outro pequeno partido (ou partidos). Quando isto acontece, e uma parte combinada é formada, é interessante conhecer as políticas e ações de suas partes constituintes, antes de tomar uma decisão. A lista de candidatos para a eleição será finalizada no final de julho.
Aqui segue um breve resumo dos principais partidos. É mais provável que os principais intervenientes na próxima eleição letã sejam três partidos que já têm um histórico.
Estes são:
•    Social-democrata “Saskaņa”, 
•  “Zaļo um Zemnieku Savienība ”[ZZS] (União dos Agricultores Verdes) 
•  “Nacionālā Apvienība” (União Nacional) 
“Saskaņa” ocupa o maior número de assentos no parlamento desde 2010, mas não faz parte do governo. A principal base de apoio de “Saskaņa” é a população falante do russo da Letônia, mas também ganha votos de letões étnicos. O partido é ideologicamente diferente de todos os outros à medida que é contra o Letão ser a oficial língua da Letónia; tem uma postura pró-
soviética sobre a ocupação da Letônia e tem tendências geopolíticas pró-russas. Devido
a estas diferenças ideológicas básicas, é altamente improvável que “Saskaņa” seria capaz de formar uma aliança com qualquer uma das outras partes, por isso é mais provável que eles voltem a estar na oposição nesta eleição.
Zaļo un Zemnieku Savienība (ZZS) é atualmente o principal partido de governo da Letônia. Tem as suas raízes em áreas regionais fora de Riga e muitos dos seus candidatos são políticos do governo local. Este partido não tem uma base ideológica específica, mas confia no desejo pós-soviético por um “bom e honesto administrador” e também tem a
capacidade de atrair candidatos populares. Como o principal partido político no atual governo, ele foi responsável por iniciar as recentes reformas na área tributária e de saúde. Apesar de alguns de seus membros flertarem com a retórica antiocidental e antiamericana, é pouco provável
formar uma coalizão com “Saskaņā”.
A base de apoio para Nacionālā Apvienība é aquela para quem o letão-russo considera o
relacionamento de extrema importância. NA ostenta uma série de políticos populares e seus apoiantes parecem despreocupados com o crescente número de alegações de corrupção, nivelados com seus representantes.
“Vienotība” ganhou o segundo lugar nas eleições anteriores, mas agora caiu para 3-4% em classificações; portanto, poderiam estar completamente fora do próximo governo. Esta queda de classificações pode ser explicada pela incapacidade do partido de superar suas diferenças internas. Perdeu uma faixa de políticos, mas manteve um número de candidatos experientes e populares que trazem consigo uma sólida base de apoio. As políticas de “Vienotība” são européias, centradas e tecnocráticas. Não há garantia de que eles terão apoio suficiente para obter
assentos no próximo Saeima.
“Jaunā Konservatīvā partija” tem muito em comum com “Vienotība”. Seu foco atual é
anti-corrupção, que ele está buscando efetivamente. JKP não é um novo partido, mas foi vitalizado por candidatos novos e enérgicos, incluindo os defensores dos direitos humanos. Apesar de sua energia e excelentes habilidades de comunicação, eles não têm experiência política.
“Attīstībai / Par” é um novo partido, na esperança de atrair o eleitorado liberal de “Vienotības”. É liderado por políticos competentes, com experiência no governo. É apoiado predominantemente por eleitores jovens, educados e orientados para a Europa. As fraquezas deste partido são que
alguns de seus políticos são contaminados por relações públicas anteriores e que a esquerda ocidental nas políticas são muito populares na Letônia.
O KPV.LV é basicamente um partido de um homem só, liderado por Artus Kaimiņš.
Ele baseou sua carreira na política em apontar as falhas da elite existente do sistema, mas ainda está para fornecer políticas alternativas para lidar com essas falhas.
Latvijas Reģionu apvienība (União Regional da Letónia) é um aliado independente do ZZS,
que também atraiu alguns candidatos interessantes.
Latvijas Krievu savienība (União Russa da Letônia) é um partido abertamente pró-Moscow, que atrai o setor pró-russo radical do eleitorado. Este partido vê “Saskaņa” como sendo muito ocidental e conformista.

Dias dos Letos do Mundo

Já se encerrou o evento “Dias dos Letos do Mundo”, que aconteceu nos dias 2 e 3 de julho, dentro da programação do Festival da Canção e Dança em Riga, Letônia.

No dia 2 de julho aconteceu o concerto realizado por letos do exterior  “Homem. Eternidade. Vibração”. Os letos do Brasil foram representados pelo grupo de danças folclóricas Staburags, de Ijuí – RS. O show também incluiu nossos amigos TDK “Kamoliņš” e o grupo folclórico “Dudalnieki” da Inglaterra que nos visitaram no Brasil no final de 2017.

O vídeo do concerto está disponível em:

https://www.lsm.lv/raksts/kultura/dziesmu-un-deju-svetki/foto-un-video-arvalstu-latviesu-kolektivu-koncerts-cilveks.-muzs.-dimd.a284101/

No dia 3 de julho, corais letos do exterior se reuniram no mesmo palco para o concerto “Homem. Eternidade. Som”, para deixar todos felizes com canções que são queridas aos letos em todas as partes do mundo. Entre eles também estavam o Coral Leto do Brasil e nossos amigos do grupo folclórico Dūdalnieki.

O vídeo do concerto está disponível (33 min.) em:

http://play24.lv/video/12974/arvalstu-latviesu-koru-koncerts-cilveks-muzs-skan

É uma maravilha que, com a ajuda da tecnologia moderna, possamos acompanhar as atividades dos letos do Brasil no Festival da Canção e Dança da Letônia. Mas é ainda mais maravilhoso aproveitar estes shows com seus próprios olhos, ao vivo!

O Coral Leto do Brasil, o grupo de danças Staburags, além de convidados da Letônia – o grupo de danças Dzirnas, se reunirão num mesmo palco muito em breve – dia 17 de novembro de 2018, em Nova Odessa, no Brasil, em homenagem ao Centenário da Proclamação da República da Letônia, para trazer um pouco das emoções deste Festival da Canção e Dança a cada coração aqui no Brasil.

Vamos celebrar o Centenário da Letônia juntos! Vamos nos encontrar no 1º Festival de Cultura da Letônia no Brasil!

Mais informações:

http://www.letoniabrasil.org/festival

O Coro vai a Letônia!

Toda nação possui uma identidade cultural – e não é exagero dizer que a Letônia tem uma das mais belas: cantar. Está na alma e no sangue de todo o leto, seja lá ou seja aqui no Brasil. Não é à toa que durante tempos de opressão, a cantoria era a força unificadora de todos aqueles que sonhavam em cantar – livres – uma vez mais.

Considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Festival de Coro e Dança reúne a cada 5 anos, mais de 30.000 coristas e dançarinos, e mais milhares de turistas e espectadores. O primeiro festival foi realizado em 1873 e este ano, em 2018, celebrará os 100 anos da República da Letônia.

Do lado de cá do oceano, os letos e seus descendentes também se reúnem para cantar por prazer e com alegria. O Coro Misto é uma iniciativa de coro aberto, atualmente composta por 25 coristas de Nova Odessa, Atibaia, Varpa, Campinas e outras cidades. A ideia de juntar corais é uma tradição já antiga na comunidade, principalmente em encontros realizados pelas igrejas batistas. Desta vez, no entanto, apareceu uma oportunidade única: aplicar-se para participar do festival de Corais. A longa viagem, no entanto, começou no Brasil…

Realizar ensaios – para começar – não foi nada fácil pois haviam coristas em lugares tão distantes como Varpa e São Paulo – divididos por seis horas de viagem. A solução, então, foi realizar ensaios locais na forma de módulos. O segundo desafio foram as músicas: complexas, exigentes, minuciosas – o coro teve apenas três semanas para ler, entender e executar. Para serem selecionados, precisavam fazer duas gravações para avaliação do júri da Letônia. Os ensaios foram alternados entre Nova Odessa e São Paulo para a primeira gravação. Para a segunda, a solução foi tentar aproveitar o máximo do curto tempo que foi dado, ambos os grupos estudaram separadamente com afinco. O resultado foi positivo.

Após muito trabalho, o Coro Misto pode celebrar: é o primeiro da América Latina a participar do Dziesmu Svetki. Estarão na Letônia por volta de um mês – mas não pense que será apenas para turismo – eles terão compromissos oficiais, conferência dos regentes e outras atividades importantes. Entre 01 e 08 de julho, todos estarão concentrados, ensaiando ou cantando nos concertos oficiais. Em meio à correria de ensaios e preparação, entrevistamos o regente do coral Allan Arajs para saber um pouco mais sobre o coro misto. Veja um trecho da entrevista a seguir:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do coro no seu atual modelo, o coro misto? Houve outros coros antes?
Allan Arajs – Este modelo já existe a muitos anos. Sempre que há alguma comemoração cívica há colaboração de voluntários de Nova Odessa, São Paulo, Varpa e outras cidades também. Com certeza, esta parceria entre coristas tem mais tempo do que a minha existência (risos).

LB – Qual é o objetivo e visão do coro? Quais foram as ideias iniciais?
AA – O objetivo do coro é, em primeiro lugar, tentar não confundir a questão cultural com a questão religiosa. Em segundo lugar, estudar a música leta em toda sua essência e, em terceiro lugar, o prazer de cantar músicas letas e a diversão. Estar com amigos queridos e que tenham prazer em cantar.

LB – A ideia de ir à Letônia este ano era um sonho muito distante? Vocês achavam que conseguiriam se classificar?
AA – Depende. Cada um teve sua visão, tanto de pessimismo quanto de otimismo. Eu sempre acreditei no trabalho de minha equipe (regentes e coristas). Houve necessidade de administrar a ansiedade. Mas, os coristas que possuem leitura musical fizeram com que o trabalho dos regentes fosse simplificado. Mas sempre trabalhamos com otimismo! E conseguimos!

LB – Como foi o processo (para ser escolhido)? Como foi receber a notícia que vocês iriam para a Letônia? E os desafios de gravar um vídeo?
AA – O processo foi o mais complexo possível, uma vez que contava com um juri formado por compositores e regentes do alto escalão da Letônia, que receberam nosso material e julgaram nosso trabalho. Após uma semana, recebemos a notícia pela nossa administradora do coral, Inga Liepina, que estávamos aprovados dentro da pontuação exigida. Os desafios nem foram para gravar o vídeo, mas sim a técnica em cantar. A música leta não é nada fácil. Possui peculiaridades musicais que devem ser estudadas e compreendidas. Existem questões de interpretação como também a aplicação do conhecimento musical. Foi um grande desafio para a nossa equipe.

LB – Como está o planejamento da viagem? Quando vocês irão?
AA – O coro irá embarcar aos poucos, uma vez que temos coristas que necessitam cumprir suas obrigações de trabalho. No período de 17 a 29 de junho o coral estará embarcando para Riga. Este planejamento foi feito em conjunto com todos os componentes, de acordo com as necessidades de cada um.

LB – Há membros que nunca visitaram a Letônia? Como está a expectativa deles?
AA – Sim. Há pessoas que estão indo pela primeira vez e já para um compromisso importante. Creio que estejam muito felizes em conhecer a Letônia, como também receber esta experiência única em cantar no Dziesmu Svetki.

Gostaria – por fim – de agradecer a todos da equipe de música, coristas e apoiadores do coral. Gostaríamos muito de receber mais apoio. Trabalhamos como voluntários e alcançamos um objetivo único e indescritível. Esperamos que nosso coro possa crescer e temos material humano, projetos e ânimo para isso.

Coristas de Nova Odessa e São Paulo

 

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

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   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

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   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.

Crocodilo Dundee era Leto

Você já ouviu falar do Crocodilo Dundee? Não?!

Foto: Paramount Pictures

E agora?
Sim! Crocodilo Dundee foi aquele filme de ficção super famoso dos anos 80 no qual um caipirão Australiano, caçador de crocodilos e amante da natureza vai para uma viagem de férias em Nova Iorque, cometendo várias gafes e se metendo em situações super engraçadas.

E o que isto a ver com a Letônia? Tudo!

Antes de fazer a correlação, vamos voltar para o ano de 1925 no povoado de Dundaga, norte da Letônia. Dundaga é uma cidade medieval, na região da Kurzeme que data do século 13. Feche os olhos agora e imagine aquelas cidadezinhas bem medievais, com um castelo bem antigo no centro, um lago e ruelas bem estreitas que convergem para a igreja principal da cidade. Esta é Dundaga!

Foto: Gabi Strautmann
Foto: Gabi Strautmann

 

 

 

 

 

 

E foi nesta vilinha que nasceu o personagem principal do nosso artigo – Arvids Blumentals. Arvids tinha o título de Barão Arvid Von Blumental, mas após a II Guerra Mundial perdeu seu título. Em 1951, Arvids decidiu mudar radicalmente a sua vida, trocando a paz e a calmaria de Dundaga pela selvagem Austrália.

Foto: Google/Reprodução

 

Lá na terra dos cangurus, Arvids descobriu novos talentos: lavar minério de ouro, pescar, caçar cangurus e o mais impressionante… caçar crocodilos com as mãos!
Reza a lenda que Arvids matou mais de 10.000 crocodilos em 13 anos de “carreira’’. Como seu nome era bem diferente e com fonemas inexistentes no inglês, lá pelas bandas dos coalas, Arvids tornou-se Harry. E assim nasceu um personagem – Crocodile Harry.

 

E as excentricidades de Harry não pararam por ai! Sua casa era chamada de “Ninho do Crocodilo Harry’’. No ninho do Harrys havia várias cartas de amor pregadas nas paredes, além de numerosas calcinhas (isso mesmo, calcinhas!) de mulheres que o admiravam. Ele era tão criativo que fez vários grafittis tribais e fez várias esculturas estranhas tentando expressar suas fantasias e pensamentos. Dê uma olhada:

Foto: Google/Reprodução

Voltando ao título do nosso artigo, tudo leva a crer que os autores de Hollywood se inspiraram no nosso Crocodille-leto- Harry para fazer o filme Crocodilo Dundee. Hoje, quem visita Dundaga pode ver uma enorme réplica de crocodilo bem em frente à casa onde Harry morava. A casa funciona como museu e tem várias informações e utensílios do seu ilustre ex-morador.

E aí, gostou dessa história? Tem algo interessante pra contar sobre o Harry? Já visitou o museu dele em Dundaga? Conte pra nos!

Um abraço e até mais!

Revisora: Claudia Klava

Biblioteca da Letônia está entre as melhores do mundo

Também conhecida como Gaismas Pils (Castelo de Luz), a Biblioteca Nacional da
Letônia (Latvijas Nacionālā bibliotēka) é um orgulho para os cidadãos do país.
Converse com algumas pessoas em Riga sobre como chegar lá e você sentirá a
reverência que os locais têm pela biblioteca. Letões têm grande respeito por livros e
leitura. Talvez seja um resquício do passado de dominação soviética, quando alguns
livros eram censurados e difíceis de conseguir. Hoje os letões têm à disposição no
Castelo de Luz – nome sugestivo –, 4,5 milhões de títulos.

Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Ieva Lūka

No ano em que o país completa 100 anos de independência, a Biblioteca da Letônia, que
foi fundada em 1919, um ano após a proclamação, está entre as finalistas do prêmio de
melhor biblioteca do ano promovido pela Feria do Livro de Londres (London Book
Fair) em parceria com a Associação de Editores do Reino Unido. Ela concorre com
outras três bibliotecas: da Noruega, da Dinamarca e de São Paulo, que foi aberta em
2010, na área da antiga penitenciária do Carandiru e que conta com um acervo de 43 mil
títulos.
Mas a intenção da London Book Fair é premiar bibliotecas que, muito mais que títulos,
ofereçam um incentivo a mais à leitura e à cultura. Na Biblioteca da Letônia, os
usuários têm acesso a coleções especiais, livros raros, manuscritos, coleções,
Enciclopédia da Letônia, Biblioteca Central Báltica, mapas, partituras, gravações de
som, publicações gráficas, efemérides e periódicos, além de promover eventos culturais,
como música, teatro e exposições.
A biblioteca também publica livros e organiza a digitalização da Herança Cultural da
Letônia. Sem contar que ela abriga um tesouro nacional: o Armário de Canções
Populares (Dainu skapis), localizado no quinto andar e que contém manuscritos de
canções folclóricas de toda a Letônia, estando listado no Registro da Memória do
Mundo da UNESCO.

Dainu Skāpis.
Foto: Evija Trifānova

Essas canções folclóricas, conhecidas como Latvju dainas, foram organizadas e
coletadas por Krišjānis Barons (1835-1923) e por Johann Gottfried Herder (1744-1803).
As canções mais antigas datam de 1584 e 1632. Existem mais de 1,2 milhão de Dainas,
com referências que vão desde peças teatrais até conversas do dia a dia.
História
A Biblioteca Nacional foi fundada em 29 de agosto de 1919. O prédio original ficava na
rua Krišjāņa Barona, no centro da cidade de Riga. Hoje o prédio moderno da nova
biblioteca fica na margem esquerda do rio Daugava,
A construção do prédio novo começou em 2008. O design surpreendente foi
desenvolvido pelo arquiteto letão-americano, Gunnar Birkerts. A Biblioteca tem 13
andades e 68 metros de altura. O prédio ficou pronto em 2014, ano em que a Letônia foi
a representante da Capital Europeia da Cultura.
Uma nação de leitores

Foto: Mirela Purim
Foto: Lucas Stepanow Eksteinas
Foto: Mirela Purim

 

A Letônia é a 9ª nação mais letrada do mundo, de acordo com pesquisa da Central
Connecticut State University, em 2016. Os cinco primeiros lugares são ocupados pelos
países escandinavos: Finlândia, Noruega, Islândia, Dinamarca e Suécia. O ranking mede
os comportamentos letrados (compreensão) das populações pesquisadas e não suas
habilidades de leitura (alfabetização).
Nesta mesma pesquisa, a Letônia ficou em segundo lugar na categoria Bibliotecas da
classificação por seu grande número de bibliotecas e o número de volumes dentro delas.
Além da Biblioteca Nacional, a Letônia tem 1.670 bibliotecas:
O resultado do prêmio para a melhor biblioteca do ano será anunciado no dia 10 de abril.

Serviço
Endereço: Mūkusalas iela 3, Rīga

Contato: lnb@lnb.lv
Horários (fechada nos feriados)
segunda-feira 09:00–20:00
terça-feira 09:00–20:00
quarta-feira 09:00–20:00
quinta-feira 09:00–20:00
sexta-feira 09:00–20:00
Sábado 10:00–17:00
Domingo 10:00–17:00

Visitantes que não têm cadastro na biblioteca devem pedir autorização para entrar.
Turistas devem pagar entrada de 2 Euros e podem visitar a biblioteca acompanhados de
guia. É proibido entrar na biblioteca com bolsas e mochilas, que devem ser deixados
nos armários ao custo de 1 Euro.

Conheça a Biblioteca Nacional da Letônia por meio de um Tour virtual pelo link: http://ture.lnb.lv/

e através das fotos abaixo.

Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Sala de Leitura de Ciências Humanas e Sociais.
Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Jānis Dripe
Vista da biblioteca nacional para o rio Daugava e a cidade velha de Riga. Foto retirada do site, BNN Baltic News Network.

Eu queria tanto, ainda viver

Por volta de meus 15 anos, quando eu estava começando a me interessar por minhas raízes, sempre fazia perguntas para meus familiares e conhecidos sobre “como era a Letônia e o motivo pelo o qual os letos teriam saído de lá”. Certo dia, minha avó revirando seus pertences, me presenteou com um livro que talvez seria de meu interesse, pois se tratava de um livro com detalhes históricos da Letônia.

Confesso que nunca fui “amante de livros”, porém aquele tinha me despertado uma vontade na leitura. Disse minha avó que o livro era curto, que ela teria lido em 1 tarde enquanto trabalhava em sua loja de artesanatos.

Fui presenteado com o livro “Eu queria tanto ainda viver”, em leto, “Vēl tā gribejas dzīvot”, manuscrito traduzido por Yolanda Mirdza Krievin e publicado pela Comunidade Evangélica Luterana Leta do Brasil, em 1982.

Capa do Livro em língua portuguesa

O livro relata a história de Ruta Ūpe, uma jovem Leta de 14 anos de idade, levada à força junto aos milhares de pessoas às taigas e aos campos de trabalho forçado, sujeitos a torturas e humilhações nos confins da Sibéria.

Ruta descreve em suas memórias os momentos da triste perda de sua liberdade e vida, as condições escravas exaustivas e desumanas enfrentando o frio siberiano, a falta de uma moradia digna e de assistência médica, a luta pelo pão de cada dia e a perda de familiares no decorrer do passar do tempo. Por meio de anotações em um diário, Ruta pode manter-se forte e mentalmente sã, registrando todos os horrores pelos quais passava, junto de parentes e amigos.

Com o passar de alguns anos, tive a oportunidade de visitar a Letônia pela primeira vez, e  lá, visitei museus que me proporcionaram as explicações de minha dúvida: “Por que tudo aquilo aconteceu na vida de Ruta”?  “O que ela ou sua família tivera feito para merecer aquilo”?

Descobri que não apenas a Letônia, mas as três províncias Bálticas (inluindo Estônia e Lituânia) foram dominadas pelos Soviéticos. Para que a ideologia Socialista fosse aplicada sem grande perturbação dos opositores, aqueles que tinham conhecimentos acadêmicos, não concordavam com as práticas do sistema e que não queriam abrir mão de seus bens privados, constituíram aquela grande congregação de sofredores inocentes; alguns com feridas que jamais cicatrizaram.

Desenho que retrata as deportações da Letônia para a Sibéria
Crianças dentro dos trens de deportação

 

 

 

 

 

 

Itinerário seguido pelos Letões escravizados pelos comunistas, a caminho da Sibéria.

Hoje, com uma cabeça mais madura, eu reli o livro, e pude prestar atenção em informações que me fizeram arrepiar, e às vezes chorar, pois passei por lugares na Letônia onde Ruta esteve.

Rio Obi, mencionado na obra de Ruta atravesando a cidade de Novosibirsky
Cidade de Bauska, onde Ruta morou depois de retornar a Letônia.

O livro “Eu queria tanto ainda viver” é uma obra valiosa assim como “O Diário de Anne Frank”, obra rica em informações sobre como aquelas pessoas sofreram as consequências de um regime totalitário e injusto. As deportações da população dos países bálticos para a Sibéria é um acontecimento recente, sendo que no ano de 2018 estará completando apenas 77 anos. A publicação deste livro foi uma das últimas vontades de Ruta antes de partir deste mundo, pois queria sua vingança e mostrar ao mundo que o sangue inocente dos mortos letões clama também por vingança. Este livro deve ser para nós a memória viva de todos os acontecimentos do passado, que jamais serão esquecidos, por mais que nosso mundo tente esquecer e esconder.

Ruta conclui suas memórias com palavras do Poeta Skalbe: “Foram muitos os teus mártires, minha pequena Pátria”.  

“Mais uma vida que se juntou às sombras dos mártires que morreram, uma vida que teve de trilhar o longo trajeto das outras e depois morrer, embora fosse tão grande a sua vontade de viver”.

Revisora: Cláudia Klava

Castelo de Bauska

Caminhar pela cidade letã de Bauska, que fica a 66 quilômetros da capital Riga, é como entrar em um livro de História: a cidade ainda preserva casas centenárias de madeira e construções do período soviético. Eu estava indo para o Castelo de Bauska (Bauskas Pils), construído no século 15 pelos alemães da Ordem da Livônia, um ramo da Ordem Teutônica militar medieval. No caminho passei por um parque cheio de flores e um memorial em homenagem às vítimas do regime soviético.

Parte restaurada do castelo

Enquanto caminhava, podia ver a minha direita a bela vista de onde os rios Mūsa e Mēmele formam o rio Lielupe. Continuei caminhando até finalmente poder ver no topo da colina verde a parte recentemente restaurada do castelo, que estava pintado com diferentes tons de bege: lindo e sóbrio. Por trás, as ruínas do castelo antigo formam um magnífico contraste. Antigamente havia uma fortaleza dos Semigalianos (um dos povos originais do Báltico) no topo da mesma colina. O Castelo de Bauska começou a ser construído entre 1443 e 1456. A construção continuou até o final do século XVI.

Rio Lielupe que corre através da colina

Eu estava tomando café em um copo de papel para me esquentar do frio, mas ele mesmo acabou ficando frio: esqueci-me de continuar tomando de tão animada que fiquei com a vista. As paredes da parte não restaurada estavam em ruínas colapsadas; elas certamente foram atingidas com muita força. Eu podia ver os buracos de onde os defensores podiam disparar flechas. O castelo e a cidade sofreram fortemente nos séculos 17 e 18 durante a Guerra Polonesa-Sueca e a Grande Guerra do Norte. Uma grande torre de vigia, paredes grossas, uma prisão, escadas estreitas… Está tudo lá formando uma beleza desgrenhada capaz de fazer um amante de História tremer de entusiasmo. Depois de uma longa subida, passei muitos minutos na torre, respirando o ar frio e tendo uma visão completa do castelo e de seu complexo abaixo. Eu estava sob uma bandeira da Letônia dançando ao vento. Cheguei a imaginar os exércitos ao redor daquela colina. Quando fui embora, olhei para trás para ter uma última visão do castelo.

Colina do Castelo Velho
Pátio do Castelo Velho

O pôr do sol estava sobre mim e eu podia sentir o cheiro de grama pisada debaixo dos meus pés. A última imagem permanece em minha mente: 457 anos desde o fim da Ordem da Livônia, a bandeira nacional da Letônia treme em cima da torre, um reconfortante sinal de liberdade.

 

Castelo Velho


Informações úteis 

Bauska
Distância de Riga: 66 km
Somente ônibus vão para Bauska. Tem ônibus para lá diariamente, geralmente de meia em meia hora. De Bauska para Riga também tem ônibus diariamente.
Para consultar horários: www.autoosta.lv
Preço ida: 3.05 € (euros)
Duração da viagem: 1 hora e 15 minutos
Endereço da estação: Slimnīcas iela, 11. A estação de ônibus fica a 2 km do castelo.

Castelo de Bauska
Endereço: Pilskalna iela, 40
Mais informações: www.bauskaspils.lv
Idiomas oferecidos nas visitas guiadas: Inglês, letão, russo e alemão
Horários de funcionamento:
De maio a setembro: de segunda a domindo, das 09h00 às 19h00
Outubro: de segunda a domingo, das 09h00 às 18h00
De novembro a abril: de terça a domingo, das 11:00 às 17:00
Preço: 4.00 € (euros)
Aceitam dinheiro e cartão

 

Fotos: Autora
Revisão: Cláudia Klava

 

Os Letos e a Revolução Federalista

Um dos episódios mais curiosos e esquecidos da história dos letos no Brasil é a Revolução Federalista, que pegou de surpresa os colonos recém-chegados, que viam o Brasil de então como uma terra pacífica de novas oportunidades. Foi nesse momento inicial que os colonos se juntaram para orquestrar a defesa do seu novo lar e experimentaram as mais variadas engenhosidades para impedir que a colônia fosse atacada. E conseguiram.

A Colônia
    Resumidamente, Rio Novo foi a primeira colônia leta no Brasil, fundada oficialmente em 1889. Os planos da colonização leta vinham sendo desenhados nos anos finais do Império por entusiastas e estudiosos que viam o Brasil como uma terra fértil onde os letos – que até então estavam sob domínio do Império Russo e tinham difícil acesso as terras – poderiam se desenvolver.
Rio Novo se localiza aproximadamente 12 Km de distância do centro do município de Orleans, na região litorânea no sul do Estado de Santa Catarina. A região montanhosa se tornaria passagem para as tropas gaúchas avançarem ao norte, tomando Florianópolis (na época, Nossa Senhora do Desterro), Curitiba e avançar para São Paulo. Apesar disso, entre Rio Novo e Orleans havia uma região de mata pela qual apenas os colonos sabiam o caminho
Entretanto, no mesmo ano de fundação da colônia, o Brasil Imperial foi derrubado e a República foi proclamada. Esse novo governo republicano nasceu sem forte apoio e logo as intrigas políticas e insatisfações das elites locais se transformaram em embates políticos, que culminaria, na revolução. O apoio do projeto de imigração européia criado pelo governo imperial também ruiria, deixando a colônia – nesses anos iniciais – sem apoio algum do governo.

Vista da cidade de Orleans

A Revolução
    O país estava sem constituição, sob censura e o congresso, fechado. Os primeiros presidentes da república foram marechais militares, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, mas diversos setores ainda tentavam tomar o vácuo de poder. No Rio de Janeiro, a Armada (a Marinha brasileira), sob liderança de Custódio de Melo e Saldanha da Gama, exigia eleições e houve batalhas entre a guarda nacional e os revoltosos.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, a disputa política entre o governador positivista Júlio de Castilhos (líder do Partido Republicano Rio-Grandense)  e seu rival Gaspar da Silveira Martins, um ex-político monarquista e líder do Partido Federalista, se aquecia para o confronto. Castilhos e seus apoiadores (chamados de pica-paus) apoiavam o governo federal de Floriano Peixoto. A constituição estadual permitia vários poderes quase ditatoriais para Castilhos e como o voto não era secreto, as manipulações eram frequentes. Silveira Martins, por outro lado, defendia o parlamentarismo e uma revisão das leis estaduais; seus apoiadores ficaram conhecidos como Maragatos.
O movimento Maragato começou a ameaçar a estabilidade do governo Rio-Grandense, e por fim, do novo regime republicano no País – pois os opositores de Floriano os apoiavam. Os federalistas obtiveram vitórias inicialmente em 1893, avançando para Santa Catarina e chegando até o Paraná, onde a decisiva batalha da Lapa (PR) tornou possível o contra-ataque dos republicanos.
Em meio a tudo isso, existia uma pequena colônia de Letos.

Líderes Maragatos

A Defesa
    A colônia leta, assim como a população civil, estava às mercês das tropas que passavam. O conflito estava se tornando sangrento e cada vez mais cruel, os soldados capturados eram degolados, casas eram saqueadas, animais e pertences eram tomados. Os colonos, temerosos e sem nenhum meio de defender sua terra, começaram a bolar planos para enganar os soldados que viriam.
Registra-se que o primeiro sino da Igreja Batista de Rio Novo (pois o primeiro templo não possuía torre) foi criado nessa ocasião e colocado em uma posição estratégica para quando alguma força militar fosse avistada perto da colônia fosse tocado e todos os habitantes escondessem seus animais no mato. No ano seguinte, 1894, foi construído o segundo templo da igreja batista, o famoso “templo de lascas”.
Como a colônia era relativamente afastada e o acesso era conhecido apenas pelos locais, os letos começaram, com a ajuda de um polonês que falava bem português, a espalhar histórias sobre a colônia “dos russos” (eles eram chamados assim pois a Letônia ainda fazia parte do Império Russo), que eram numerosos e preparavam emboscadas para os soldados que adentrassem no caminho até a colônia, inclusive com explosivos e pelotões de colonos em patrulha.
Rio novo estava apreensiva. Os colonos sabiam blefar, mas, caso descobertos, a mentira cairia por terra e entrariam em problemas. . E na cidade, ocupada pelos federalistas, a curiosidade dos soldados sobre esses semibarbaros “russos” aumentava.

O soldado
    Uma das histórias contadas pelos letos de Rio Novo é sobre um leto que – em uma madrugada – foi a Orleans comprar mantimentos, e logo foi identificado pelos soldados perto como um dos “russos”. Foi ao armazém e logo voltou ao caminho de casa. Entretanto, percebeu que um dos soldado estava o seguindo. Atravessou a barra do Rio Novo, logo dobraria a direita pelo vale do Rio Novo. Essa era a estrada mais próxima e vigiada,  mas não queria arrumar confusão, tentou pegar um caminho alternativo pelo Rio Tubarão e depois pelo Rio Laranjeiras, entretanto, não foi capaz de despistar o soldado, que o seguia a distância.
Precisava fazer alguma coisa.
Ele carregava consigo uma espingarda pica-pau calibre 24 (na época, muitas espingardas ainda eram carregadas pela boca, onde era preciso colocar o chumbo, a pólvora e ainda empurra-las com uma vara metálica para o fundo do cano da arma). Fingindo estar trocando as mercadorias de ombro, carregou em sua espingarda 3 chumbos e a pólvora, entretanto, não teve tempo de empurra-los com a vara. Logo na primeira curva, se escondeu no mato e terminou de carregar a arma.
Apenas um tiro já foi suficiente para matar o soldado federalista. Com o uniforme ensanguentado e o fuzil Mannlicher (provavelmente um Mannlicher M1888), agora era preciso se livrar da encrenca. O colono suspeitava que o soldado tivesse sido designado para achar um caminho para a colônia, e logo poderia chegar um expedição de busca.
O corpo foi escondido em uma vala cavada na estrada, junto com o fuzil, e depois coberta com folhagem para disfarçar. A região onde ele supostamente foi enterrado era chamada de “Bukovina” e pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.
O nome do colono, apesar de algumas teorias, nunca foi confirmado.

Apesar das forças contrárias, a revolução Federalista terminou em 1895 com a vitória de Júlio de Castilhos e o governo republicano, e, graças a coragem e sagacidade dos colonos, a colônia sobreviveu.

Skaidas Baznica/O templo de Lascas, construído em 1894

Fontes:
PURIM, V. A. Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus. rionovo.wordpress, 2012. Disponível em: <https://rionovo.wordpress.com/2012/10/04/os-revolucionarios-passaram-a-ser-chamados-maragatos-e-os-legalistas-eram-os-picapas/>. Acesso em: 24 dez. 2017.
LOTTIN, Jucely. Os Letos Orleanenses. Santa Catarina: Elbert, 2002.

 

Escola de férias da Universidade Tecnológica de Riga

   Em julho e agosto do ano passado, tive a oportunidade de participar como bolsista de um curso de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tecnológica de Riga (RTU). A primeira vez em que soube do curso foi por um e-mail que minha mãe recebeu anunciando que abriram as inscrições. Eu fiquei interessada e fui visitar o site do programa. A proposta do curso me chamou muito a atenção: o objetivo era que o aluno, em uma semana, elaborasse um projeto e na semana seguinte o construísse. Para mim, era uma proposta completamente nova, porque nunca tivemos a oportunidade de realmente construir um de nossos projetos na faculdade – o mais perto que chegamos foi em maquetes de papelão na escala 1:1, para pequenos projetos.

   Em suma, o que a Summer School of Architecture da RTU propõe é que alunos do mundo todo se juntem em um curso de duas semanas e projetem duas instalações com ajuda de tutores. Eram dois grupos, cada qual com seus tutores e uma instalação a ser projetada e construída. Outro aspecto que me chamou atenção no curso foi a escolha dos tutores: três eram fundadores de um escritório conhecido da Letônia e os outros três eram professores de Oxford com projetos internacionais. Além disso, os dois organizadores do curso eram professores da RTU e trabalhavam na área de urbanismo em várias cidades da Letônia, especialmente em Cēsis. As atividades propostas pelo curso incluíam desde palestras com profissionais de diversas áreas, workshops a atividades como canoagem e yoga.

   Porém, como era meu primeiro ano de faculdade, eu ainda não tinha os pré-requisitos para me candidatar para participar do curso. No ano seguinte, em 2016, abriram novamente as inscrições e dessa vez eu já tinha cumprido a carga horária mínima para poder me candidatar. O processo não foi muito difícil. Era necessário enviar um currículo e uma carta motivacional em inglês, uma foto e um portfolio. O currículo deveria ter uma página, a carta deveria ter no máximo 1000 palavras ou 3 páginas, e o portfiolio só poderia ter 3 páginas, sendo que nenhum arquivo poderia ultrapassar 5 Mb. São cerca de 250 inscritos para 20 ou 30 vagas.  

   Acredito que a carta motivacional seja a chave para ser aceito ou não no curso. Conversando com a organizadora, no dia em que chegamos, ela comentou que foi a carta motivacional que teve, de fato, um peso grande na decisão. É importante que ela contenha três informações importantes: quem você é (sem repetir o seu currículo), porque você quer fazer esse curso e porque você quer uma bolsa de estudos.

   Acredito que o curso foi importante para a minha formação profissional, além de me dar a oportunidade de ir para a Letônia e fazer novos amigos. Durante o processo de elaboração do projeto, tivemos contato com vários aspectos culturais e históricos da Letônia. Além disso, durante a construção e na inauguração, muitos moradores de Cēsis – e alguns turistas – ficaram curiosos e vieram perguntar sobre o projeto e o curso. É uma experiência muito boa que recomendo para quem tiver interesse.

Passo a passo para quem quiser ir também:

  1. Entrar no site abaixo e ficar atento as inscrições.
  2. Traduzir o seu currículo e fazer ser portfolio.
  3. Iniciar o processo de inscrição na data indicada (normalmente em março ou abril).
  4. Escrever sua carta motivacional.
  5. Enviar as inscrições.

Site do programa: http://www.rtusummerschool.lv/

Meu email para tirar dúvidas: mirelathaise@gmail.com

 

Fotos por Kaspars Kursišs

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