O Coro vai a Letônia!

Toda nação possui uma identidade cultural – e não é exagero dizer que a Letônia tem uma das mais belas: cantar. Está na alma e no sangue de todo o leto, seja lá ou seja aqui no Brasil. Não é à toa que durante tempos de opressão, a cantoria era a força unificadora de todos aqueles que sonhavam em cantar – livres – uma vez mais.

Considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Festival de Coro e Dança reúne a cada 5 anos, mais de 30.000 coristas e dançarinos, e mais milhares de turistas e espectadores. O primeiro festival foi realizado em 1873 e este ano, em 2018, celebrará os 100 anos da República da Letônia.

Do lado de cá do oceano, os letos e seus descendentes também se reúnem para cantar por prazer e com alegria. O Coro Misto é uma iniciativa de coro aberto, atualmente composta por 25 coristas de Nova Odessa, Atibaia, Varpa, Campinas e outras cidades. A ideia de juntar corais é uma tradição já antiga na comunidade, principalmente em encontros realizados pelas igrejas batistas. Desta vez, no entanto, apareceu uma oportunidade única: aplicar-se para participar do festival de Corais. A longa viagem, no entanto, começou no Brasil…

Realizar ensaios – para começar – não foi nada fácil pois haviam coristas em lugares tão distantes como Varpa e São Paulo – divididos por seis horas de viagem. A solução, então, foi realizar ensaios locais na forma de módulos. O segundo desafio foram as músicas: complexas, exigentes, minuciosas – o coro teve apenas três semanas para ler, entender e executar. Para serem selecionados, precisavam fazer duas gravações para avaliação do júri da Letônia. Os ensaios foram alternados entre Nova Odessa e São Paulo para a primeira gravação. Para a segunda, a solução foi tentar aproveitar o máximo do curto tempo que foi dado, ambos os grupos estudaram separadamente com afinco. O resultado foi positivo.

Após muito trabalho, o Coro Misto pode celebrar: é o primeiro da América Latina a participar do Dziesmu Svetki. Estarão na Letônia por volta de um mês – mas não pense que será apenas para turismo – eles terão compromissos oficiais, conferência dos regentes e outras atividades importantes. Entre 01 e 08 de julho, todos estarão concentrados, ensaiando ou cantando nos concertos oficiais. Em meio à correria de ensaios e preparação, entrevistamos o regente do coral Allan Arajs para saber um pouco mais sobre o coro misto. Veja um trecho da entrevista a seguir:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do coro no seu atual modelo, o coro misto? Houve outros coros antes?
Allan Arajs – Este modelo já existe a muitos anos. Sempre que há alguma comemoração cívica há colaboração de voluntários de Nova Odessa, São Paulo, Varpa e outras cidades também. Com certeza, esta parceria entre coristas tem mais tempo do que a minha existência (risos).

LB – Qual é o objetivo e visão do coro? Quais foram as ideias iniciais?
AA – O objetivo do coro é, em primeiro lugar, tentar não confundir a questão cultural com a questão religiosa. Em segundo lugar, estudar a música leta em toda sua essência e, em terceiro lugar, o prazer de cantar músicas letas e a diversão. Estar com amigos queridos e que tenham prazer em cantar.

LB – A ideia de ir à Letônia este ano era um sonho muito distante? Vocês achavam que conseguiriam se classificar?
AA – Depende. Cada um teve sua visão, tanto de pessimismo quanto de otimismo. Eu sempre acreditei no trabalho de minha equipe (regentes e coristas). Houve necessidade de administrar a ansiedade. Mas, os coristas que possuem leitura musical fizeram com que o trabalho dos regentes fosse simplificado. Mas sempre trabalhamos com otimismo! E conseguimos!

LB – Como foi o processo (para ser escolhido)? Como foi receber a notícia que vocês iriam para a Letônia? E os desafios de gravar um vídeo?
AA – O processo foi o mais complexo possível, uma vez que contava com um juri formado por compositores e regentes do alto escalão da Letônia, que receberam nosso material e julgaram nosso trabalho. Após uma semana, recebemos a notícia pela nossa administradora do coral, Inga Liepina, que estávamos aprovados dentro da pontuação exigida. Os desafios nem foram para gravar o vídeo, mas sim a técnica em cantar. A música leta não é nada fácil. Possui peculiaridades musicais que devem ser estudadas e compreendidas. Existem questões de interpretação como também a aplicação do conhecimento musical. Foi um grande desafio para a nossa equipe.

LB – Como está o planejamento da viagem? Quando vocês irão?
AA – O coro irá embarcar aos poucos, uma vez que temos coristas que necessitam cumprir suas obrigações de trabalho. No período de 17 a 29 de junho o coral estará embarcando para Riga. Este planejamento foi feito em conjunto com todos os componentes, de acordo com as necessidades de cada um.

LB – Há membros que nunca visitaram a Letônia? Como está a expectativa deles?
AA – Sim. Há pessoas que estão indo pela primeira vez e já para um compromisso importante. Creio que estejam muito felizes em conhecer a Letônia, como também receber esta experiência única em cantar no Dziesmu Svetki.

Gostaria – por fim – de agradecer a todos da equipe de música, coristas e apoiadores do coral. Gostaríamos muito de receber mais apoio. Trabalhamos como voluntários e alcançamos um objetivo único e indescritível. Esperamos que nosso coro possa crescer e temos material humano, projetos e ânimo para isso.

Coristas de Nova Odessa e São Paulo

 

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

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   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

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   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.

Crocodilo Dundee era Leto

Você já ouviu falar do Crocodilo Dundee? Não?!

Foto: Paramount Pictures

E agora?
Sim! Crocodilo Dundee foi aquele filme de ficção super famoso dos anos 80 no qual um caipirão Australiano, caçador de crocodilos e amante da natureza vai para uma viagem de férias em Nova Iorque, cometendo várias gafes e se metendo em situações super engraçadas.

E o que isto a ver com a Letônia? Tudo!

Antes de fazer a correlação, vamos voltar para o ano de 1925 no povoado de Dundaga, norte da Letônia. Dundaga é uma cidade medieval, na região da Kurzeme que data do século 13. Feche os olhos agora e imagine aquelas cidadezinhas bem medievais, com um castelo bem antigo no centro, um lago e ruelas bem estreitas que convergem para a igreja principal da cidade. Esta é Dundaga!

Foto: Gabi Strautmann
Foto: Gabi Strautmann

 

 

 

 

 

 

E foi nesta vilinha que nasceu o personagem principal do nosso artigo – Arvids Blumentals. Arvids tinha o título de Barão Arvid Von Blumental, mas após a II Guerra Mundial perdeu seu título. Em 1951, Arvids decidiu mudar radicalmente a sua vida, trocando a paz e a calmaria de Dundaga pela selvagem Austrália.

Foto: Google/Reprodução

 

Lá na terra dos cangurus, Arvids descobriu novos talentos: lavar minério de ouro, pescar, caçar cangurus e o mais impressionante… caçar crocodilos com as mãos!
Reza a lenda que Arvids matou mais de 10.000 crocodilos em 13 anos de “carreira’’. Como seu nome era bem diferente e com fonemas inexistentes no inglês, lá pelas bandas dos coalas, Arvids tornou-se Harry. E assim nasceu um personagem – Crocodile Harry.

 

E as excentricidades de Harry não pararam por ai! Sua casa era chamada de “Ninho do Crocodilo Harry’’. No ninho do Harrys havia várias cartas de amor pregadas nas paredes, além de numerosas calcinhas (isso mesmo, calcinhas!) de mulheres que o admiravam. Ele era tão criativo que fez vários grafittis tribais e fez várias esculturas estranhas tentando expressar suas fantasias e pensamentos. Dê uma olhada:

Foto: Google/Reprodução

Voltando ao título do nosso artigo, tudo leva a crer que os autores de Hollywood se inspiraram no nosso Crocodille-leto- Harry para fazer o filme Crocodilo Dundee. Hoje, quem visita Dundaga pode ver uma enorme réplica de crocodilo bem em frente à casa onde Harry morava. A casa funciona como museu e tem várias informações e utensílios do seu ilustre ex-morador.

E aí, gostou dessa história? Tem algo interessante pra contar sobre o Harry? Já visitou o museu dele em Dundaga? Conte pra nos!

Um abraço e até mais!

Revisora: Claudia Klava

Biblioteca da Letônia está entre as melhores do mundo

Também conhecida como Gaismas Pils (Castelo de Luz), a Biblioteca Nacional da
Letônia (Latvijas Nacionālā bibliotēka) é um orgulho para os cidadãos do país.
Converse com algumas pessoas em Riga sobre como chegar lá e você sentirá a
reverência que os locais têm pela biblioteca. Letões têm grande respeito por livros e
leitura. Talvez seja um resquício do passado de dominação soviética, quando alguns
livros eram censurados e difíceis de conseguir. Hoje os letões têm à disposição no
Castelo de Luz – nome sugestivo –, 4,5 milhões de títulos.

Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Ieva Lūka

No ano em que o país completa 100 anos de independência, a Biblioteca da Letônia, que
foi fundada em 1919, um ano após a proclamação, está entre as finalistas do prêmio de
melhor biblioteca do ano promovido pela Feria do Livro de Londres (London Book
Fair) em parceria com a Associação de Editores do Reino Unido. Ela concorre com
outras três bibliotecas: da Noruega, da Dinamarca e de São Paulo, que foi aberta em
2010, na área da antiga penitenciária do Carandiru e que conta com um acervo de 43 mil
títulos.
Mas a intenção da London Book Fair é premiar bibliotecas que, muito mais que títulos,
ofereçam um incentivo a mais à leitura e à cultura. Na Biblioteca da Letônia, os
usuários têm acesso a coleções especiais, livros raros, manuscritos, coleções,
Enciclopédia da Letônia, Biblioteca Central Báltica, mapas, partituras, gravações de
som, publicações gráficas, efemérides e periódicos, além de promover eventos culturais,
como música, teatro e exposições.
A biblioteca também publica livros e organiza a digitalização da Herança Cultural da
Letônia. Sem contar que ela abriga um tesouro nacional: o Armário de Canções
Populares (Dainu skapis), localizado no quinto andar e que contém manuscritos de
canções folclóricas de toda a Letônia, estando listado no Registro da Memória do
Mundo da UNESCO.

Dainu Skāpis.
Foto: Evija Trifānova

Essas canções folclóricas, conhecidas como Latvju dainas, foram organizadas e
coletadas por Krišjānis Barons (1835-1923) e por Johann Gottfried Herder (1744-1803).
As canções mais antigas datam de 1584 e 1632. Existem mais de 1,2 milhão de Dainas,
com referências que vão desde peças teatrais até conversas do dia a dia.
História
A Biblioteca Nacional foi fundada em 29 de agosto de 1919. O prédio original ficava na
rua Krišjāņa Barona, no centro da cidade de Riga. Hoje o prédio moderno da nova
biblioteca fica na margem esquerda do rio Daugava,
A construção do prédio novo começou em 2008. O design surpreendente foi
desenvolvido pelo arquiteto letão-americano, Gunnar Birkerts. A Biblioteca tem 13
andades e 68 metros de altura. O prédio ficou pronto em 2014, ano em que a Letônia foi
a representante da Capital Europeia da Cultura.
Uma nação de leitores

Foto: Mirela Purim
Foto: Lucas Stepanow Eksteinas
Foto: Mirela Purim

 

A Letônia é a 9ª nação mais letrada do mundo, de acordo com pesquisa da Central
Connecticut State University, em 2016. Os cinco primeiros lugares são ocupados pelos
países escandinavos: Finlândia, Noruega, Islândia, Dinamarca e Suécia. O ranking mede
os comportamentos letrados (compreensão) das populações pesquisadas e não suas
habilidades de leitura (alfabetização).
Nesta mesma pesquisa, a Letônia ficou em segundo lugar na categoria Bibliotecas da
classificação por seu grande número de bibliotecas e o número de volumes dentro delas.
Além da Biblioteca Nacional, a Letônia tem 1.670 bibliotecas:
O resultado do prêmio para a melhor biblioteca do ano será anunciado no dia 10 de abril.

Serviço
Endereço: Mūkusalas iela 3, Rīga

Contato: lnb@lnb.lv
Horários (fechada nos feriados)
segunda-feira 09:00–20:00
terça-feira 09:00–20:00
quarta-feira 09:00–20:00
quinta-feira 09:00–20:00
sexta-feira 09:00–20:00
Sábado 10:00–17:00
Domingo 10:00–17:00

Visitantes que não têm cadastro na biblioteca devem pedir autorização para entrar.
Turistas devem pagar entrada de 2 Euros e podem visitar a biblioteca acompanhados de
guia. É proibido entrar na biblioteca com bolsas e mochilas, que devem ser deixados
nos armários ao custo de 1 Euro.

Conheça a Biblioteca Nacional da Letônia por meio de um Tour virtual pelo link: http://ture.lnb.lv/

e através das fotos abaixo.

Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Sala de Leitura de Ciências Humanas e Sociais.
Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Jānis Dripe
Vista da biblioteca nacional para o rio Daugava e a cidade velha de Riga. Foto retirada do site, BNN Baltic News Network.

Eu queria tanto, ainda viver

Por volta de meus 15 anos, quando eu estava começando a me interessar por minhas raízes, sempre fazia perguntas para meus familiares e conhecidos sobre “como era a Letônia e o motivo pelo o qual os letos teriam saído de lá”. Certo dia, minha avó revirando seus pertences, me presenteou com um livro que talvez seria de meu interesse, pois se tratava de um livro com detalhes históricos da Letônia.

Confesso que nunca fui “amante de livros”, porém aquele tinha me despertado uma vontade na leitura. Disse minha avó que o livro era curto, que ela teria lido em 1 tarde enquanto trabalhava em sua loja de artesanatos.

Fui presenteado com o livro “Eu queria tanto ainda viver”, em leto, “Vēl tā gribejas dzīvot”, manuscrito traduzido por Yolanda Mirdza Krievin e publicado pela Comunidade Evangélica Luterana Leta do Brasil, em 1982.

Capa do Livro em língua portuguesa

O livro relata a história de Ruta Ūpe, uma jovem Leta de 14 anos de idade, levada à força junto aos milhares de pessoas às taigas e aos campos de trabalho forçado, sujeitos a torturas e humilhações nos confins da Sibéria.

Ruta descreve em suas memórias os momentos da triste perda de sua liberdade e vida, as condições escravas exaustivas e desumanas enfrentando o frio siberiano, a falta de uma moradia digna e de assistência médica, a luta pelo pão de cada dia e a perda de familiares no decorrer do passar do tempo. Por meio de anotações em um diário, Ruta pode manter-se forte e mentalmente sã, registrando todos os horrores pelos quais passava, junto de parentes e amigos.

Com o passar de alguns anos, tive a oportunidade de visitar a Letônia pela primeira vez, e  lá, visitei museus que me proporcionaram as explicações de minha dúvida: “Por que tudo aquilo aconteceu na vida de Ruta”?  “O que ela ou sua família tivera feito para merecer aquilo”?

Descobri que não apenas a Letônia, mas as três províncias Bálticas (inluindo Estônia e Lituânia) foram dominadas pelos Soviéticos. Para que a ideologia Socialista fosse aplicada sem grande perturbação dos opositores, aqueles que tinham conhecimentos acadêmicos, não concordavam com as práticas do sistema e que não queriam abrir mão de seus bens privados, constituíram aquela grande congregação de sofredores inocentes; alguns com feridas que jamais cicatrizaram.

Desenho que retrata as deportações da Letônia para a Sibéria
Crianças dentro dos trens de deportação

 

 

 

 

 

 

Itinerário seguido pelos Letões escravizados pelos comunistas, a caminho da Sibéria.

Hoje, com uma cabeça mais madura, eu reli o livro, e pude prestar atenção em informações que me fizeram arrepiar, e às vezes chorar, pois passei por lugares na Letônia onde Ruta esteve.

Rio Obi, mencionado na obra de Ruta atravesando a cidade de Novosibirsky
Cidade de Bauska, onde Ruta morou depois de retornar a Letônia.

O livro “Eu queria tanto ainda viver” é uma obra valiosa assim como “O Diário de Anne Frank”, obra rica em informações sobre como aquelas pessoas sofreram as consequências de um regime totalitário e injusto. As deportações da população dos países bálticos para a Sibéria é um acontecimento recente, sendo que no ano de 2018 estará completando apenas 77 anos. A publicação deste livro foi uma das últimas vontades de Ruta antes de partir deste mundo, pois queria sua vingança e mostrar ao mundo que o sangue inocente dos mortos letões clama também por vingança. Este livro deve ser para nós a memória viva de todos os acontecimentos do passado, que jamais serão esquecidos, por mais que nosso mundo tente esquecer e esconder.

Ruta conclui suas memórias com palavras do Poeta Skalbe: “Foram muitos os teus mártires, minha pequena Pátria”.  

“Mais uma vida que se juntou às sombras dos mártires que morreram, uma vida que teve de trilhar o longo trajeto das outras e depois morrer, embora fosse tão grande a sua vontade de viver”.

Revisora: Cláudia Klava

Castelo de Bauska

Caminhar pela cidade letã de Bauska, que fica a 66 quilômetros da capital Riga, é como entrar em um livro de História: a cidade ainda preserva casas centenárias de madeira e construções do período soviético. Eu estava indo para o Castelo de Bauska (Bauskas Pils), construído no século 15 pelos alemães da Ordem da Livônia, um ramo da Ordem Teutônica militar medieval. No caminho passei por um parque cheio de flores e um memorial em homenagem às vítimas do regime soviético.

Parte restaurada do castelo

Enquanto caminhava, podia ver a minha direita a bela vista de onde os rios Mūsa e Mēmele formam o rio Lielupe. Continuei caminhando até finalmente poder ver no topo da colina verde a parte recentemente restaurada do castelo, que estava pintado com diferentes tons de bege: lindo e sóbrio. Por trás, as ruínas do castelo antigo formam um magnífico contraste. Antigamente havia uma fortaleza dos Semigalianos (um dos povos originais do Báltico) no topo da mesma colina. O Castelo de Bauska começou a ser construído entre 1443 e 1456. A construção continuou até o final do século XVI.

Rio Lielupe que corre através da colina

Eu estava tomando café em um copo de papel para me esquentar do frio, mas ele mesmo acabou ficando frio: esqueci-me de continuar tomando de tão animada que fiquei com a vista. As paredes da parte não restaurada estavam em ruínas colapsadas; elas certamente foram atingidas com muita força. Eu podia ver os buracos de onde os defensores podiam disparar flechas. O castelo e a cidade sofreram fortemente nos séculos 17 e 18 durante a Guerra Polonesa-Sueca e a Grande Guerra do Norte. Uma grande torre de vigia, paredes grossas, uma prisão, escadas estreitas… Está tudo lá formando uma beleza desgrenhada capaz de fazer um amante de História tremer de entusiasmo. Depois de uma longa subida, passei muitos minutos na torre, respirando o ar frio e tendo uma visão completa do castelo e de seu complexo abaixo. Eu estava sob uma bandeira da Letônia dançando ao vento. Cheguei a imaginar os exércitos ao redor daquela colina. Quando fui embora, olhei para trás para ter uma última visão do castelo.

Colina do Castelo Velho
Pátio do Castelo Velho

O pôr do sol estava sobre mim e eu podia sentir o cheiro de grama pisada debaixo dos meus pés. A última imagem permanece em minha mente: 457 anos desde o fim da Ordem da Livônia, a bandeira nacional da Letônia treme em cima da torre, um reconfortante sinal de liberdade.

 

Castelo Velho


Informações úteis 

Bauska
Distância de Riga: 66 km
Somente ônibus vão para Bauska. Tem ônibus para lá diariamente, geralmente de meia em meia hora. De Bauska para Riga também tem ônibus diariamente.
Para consultar horários: www.autoosta.lv
Preço ida: 3.05 € (euros)
Duração da viagem: 1 hora e 15 minutos
Endereço da estação: Slimnīcas iela, 11. A estação de ônibus fica a 2 km do castelo.

Castelo de Bauska
Endereço: Pilskalna iela, 40
Mais informações: www.bauskaspils.lv
Idiomas oferecidos nas visitas guiadas: Inglês, letão, russo e alemão
Horários de funcionamento:
De maio a setembro: de segunda a domindo, das 09h00 às 19h00
Outubro: de segunda a domingo, das 09h00 às 18h00
De novembro a abril: de terça a domingo, das 11:00 às 17:00
Preço: 4.00 € (euros)
Aceitam dinheiro e cartão

 

Fotos: Autora
Revisão: Cláudia Klava

 

Os Letos e a Revolução Federalista

Um dos episódios mais curiosos e esquecidos da história dos letos no Brasil é a Revolução Federalista, que pegou de surpresa os colonos recém-chegados, que viam o Brasil de então como uma terra pacífica de novas oportunidades. Foi nesse momento inicial que os colonos se juntaram para orquestrar a defesa do seu novo lar e experimentaram as mais variadas engenhosidades para impedir que a colônia fosse atacada. E conseguiram.

A Colônia
    Resumidamente, Rio Novo foi a primeira colônia leta no Brasil, fundada oficialmente em 1889. Os planos da colonização leta vinham sendo desenhados nos anos finais do Império por entusiastas e estudiosos que viam o Brasil como uma terra fértil onde os letos – que até então estavam sob domínio do Império Russo e tinham difícil acesso as terras – poderiam se desenvolver.
Rio Novo se localiza aproximadamente 12 Km de distância do centro do município de Orleans, na região litorânea no sul do Estado de Santa Catarina. A região montanhosa se tornaria passagem para as tropas gaúchas avançarem ao norte, tomando Florianópolis (na época, Nossa Senhora do Desterro), Curitiba e avançar para São Paulo. Apesar disso, entre Rio Novo e Orleans havia uma região de mata pela qual apenas os colonos sabiam o caminho
Entretanto, no mesmo ano de fundação da colônia, o Brasil Imperial foi derrubado e a República foi proclamada. Esse novo governo republicano nasceu sem forte apoio e logo as intrigas políticas e insatisfações das elites locais se transformaram em embates políticos, que culminaria, na revolução. O apoio do projeto de imigração européia criado pelo governo imperial também ruiria, deixando a colônia – nesses anos iniciais – sem apoio algum do governo.

Vista da cidade de Orleans

A Revolução
    O país estava sem constituição, sob censura e o congresso, fechado. Os primeiros presidentes da república foram marechais militares, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, mas diversos setores ainda tentavam tomar o vácuo de poder. No Rio de Janeiro, a Armada (a Marinha brasileira), sob liderança de Custódio de Melo e Saldanha da Gama, exigia eleições e houve batalhas entre a guarda nacional e os revoltosos.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, a disputa política entre o governador positivista Júlio de Castilhos (líder do Partido Republicano Rio-Grandense)  e seu rival Gaspar da Silveira Martins, um ex-político monarquista e líder do Partido Federalista, se aquecia para o confronto. Castilhos e seus apoiadores (chamados de pica-paus) apoiavam o governo federal de Floriano Peixoto. A constituição estadual permitia vários poderes quase ditatoriais para Castilhos e como o voto não era secreto, as manipulações eram frequentes. Silveira Martins, por outro lado, defendia o parlamentarismo e uma revisão das leis estaduais; seus apoiadores ficaram conhecidos como Maragatos.
O movimento Maragato começou a ameaçar a estabilidade do governo Rio-Grandense, e por fim, do novo regime republicano no País – pois os opositores de Floriano os apoiavam. Os federalistas obtiveram vitórias inicialmente em 1893, avançando para Santa Catarina e chegando até o Paraná, onde a decisiva batalha da Lapa (PR) tornou possível o contra-ataque dos republicanos.
Em meio a tudo isso, existia uma pequena colônia de Letos.

Líderes Maragatos

A Defesa
    A colônia leta, assim como a população civil, estava às mercês das tropas que passavam. O conflito estava se tornando sangrento e cada vez mais cruel, os soldados capturados eram degolados, casas eram saqueadas, animais e pertences eram tomados. Os colonos, temerosos e sem nenhum meio de defender sua terra, começaram a bolar planos para enganar os soldados que viriam.
Registra-se que o primeiro sino da Igreja Batista de Rio Novo (pois o primeiro templo não possuía torre) foi criado nessa ocasião e colocado em uma posição estratégica para quando alguma força militar fosse avistada perto da colônia fosse tocado e todos os habitantes escondessem seus animais no mato. No ano seguinte, 1894, foi construído o segundo templo da igreja batista, o famoso “templo de lascas”.
Como a colônia era relativamente afastada e o acesso era conhecido apenas pelos locais, os letos começaram, com a ajuda de um polonês que falava bem português, a espalhar histórias sobre a colônia “dos russos” (eles eram chamados assim pois a Letônia ainda fazia parte do Império Russo), que eram numerosos e preparavam emboscadas para os soldados que adentrassem no caminho até a colônia, inclusive com explosivos e pelotões de colonos em patrulha.
Rio novo estava apreensiva. Os colonos sabiam blefar, mas, caso descobertos, a mentira cairia por terra e entrariam em problemas. . E na cidade, ocupada pelos federalistas, a curiosidade dos soldados sobre esses semibarbaros “russos” aumentava.

O soldado
    Uma das histórias contadas pelos letos de Rio Novo é sobre um leto que – em uma madrugada – foi a Orleans comprar mantimentos, e logo foi identificado pelos soldados perto como um dos “russos”. Foi ao armazém e logo voltou ao caminho de casa. Entretanto, percebeu que um dos soldado estava o seguindo. Atravessou a barra do Rio Novo, logo dobraria a direita pelo vale do Rio Novo. Essa era a estrada mais próxima e vigiada,  mas não queria arrumar confusão, tentou pegar um caminho alternativo pelo Rio Tubarão e depois pelo Rio Laranjeiras, entretanto, não foi capaz de despistar o soldado, que o seguia a distância.
Precisava fazer alguma coisa.
Ele carregava consigo uma espingarda pica-pau calibre 24 (na época, muitas espingardas ainda eram carregadas pela boca, onde era preciso colocar o chumbo, a pólvora e ainda empurra-las com uma vara metálica para o fundo do cano da arma). Fingindo estar trocando as mercadorias de ombro, carregou em sua espingarda 3 chumbos e a pólvora, entretanto, não teve tempo de empurra-los com a vara. Logo na primeira curva, se escondeu no mato e terminou de carregar a arma.
Apenas um tiro já foi suficiente para matar o soldado federalista. Com o uniforme ensanguentado e o fuzil Mannlicher (provavelmente um Mannlicher M1888), agora era preciso se livrar da encrenca. O colono suspeitava que o soldado tivesse sido designado para achar um caminho para a colônia, e logo poderia chegar um expedição de busca.
O corpo foi escondido em uma vala cavada na estrada, junto com o fuzil, e depois coberta com folhagem para disfarçar. A região onde ele supostamente foi enterrado era chamada de “Bukovina” e pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.
O nome do colono, apesar de algumas teorias, nunca foi confirmado.

Apesar das forças contrárias, a revolução Federalista terminou em 1895 com a vitória de Júlio de Castilhos e o governo republicano, e, graças a coragem e sagacidade dos colonos, a colônia sobreviveu.

Skaidas Baznica/O templo de Lascas, construído em 1894

Fontes:
PURIM, V. A. Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus. rionovo.wordpress, 2012. Disponível em: <https://rionovo.wordpress.com/2012/10/04/os-revolucionarios-passaram-a-ser-chamados-maragatos-e-os-legalistas-eram-os-picapas/>. Acesso em: 24 dez. 2017.
LOTTIN, Jucely. Os Letos Orleanenses. Santa Catarina: Elbert, 2002.

 

Escola de férias da Universidade Tecnológica de Riga

   Em julho e agosto do ano passado, tive a oportunidade de participar como bolsista de um curso de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tecnológica de Riga (RTU). A primeira vez em que soube do curso foi por um e-mail que minha mãe recebeu anunciando que abriram as inscrições. Eu fiquei interessada e fui visitar o site do programa. A proposta do curso me chamou muito a atenção: o objetivo era que o aluno, em uma semana, elaborasse um projeto e na semana seguinte o construísse. Para mim, era uma proposta completamente nova, porque nunca tivemos a oportunidade de realmente construir um de nossos projetos na faculdade – o mais perto que chegamos foi em maquetes de papelão na escala 1:1, para pequenos projetos.

   Em suma, o que a Summer School of Architecture da RTU propõe é que alunos do mundo todo se juntem em um curso de duas semanas e projetem duas instalações com ajuda de tutores. Eram dois grupos, cada qual com seus tutores e uma instalação a ser projetada e construída. Outro aspecto que me chamou atenção no curso foi a escolha dos tutores: três eram fundadores de um escritório conhecido da Letônia e os outros três eram professores de Oxford com projetos internacionais. Além disso, os dois organizadores do curso eram professores da RTU e trabalhavam na área de urbanismo em várias cidades da Letônia, especialmente em Cēsis. As atividades propostas pelo curso incluíam desde palestras com profissionais de diversas áreas, workshops a atividades como canoagem e yoga.

   Porém, como era meu primeiro ano de faculdade, eu ainda não tinha os pré-requisitos para me candidatar para participar do curso. No ano seguinte, em 2016, abriram novamente as inscrições e dessa vez eu já tinha cumprido a carga horária mínima para poder me candidatar. O processo não foi muito difícil. Era necessário enviar um currículo e uma carta motivacional em inglês, uma foto e um portfolio. O currículo deveria ter uma página, a carta deveria ter no máximo 1000 palavras ou 3 páginas, e o portfiolio só poderia ter 3 páginas, sendo que nenhum arquivo poderia ultrapassar 5 Mb. São cerca de 250 inscritos para 20 ou 30 vagas.  

   Acredito que a carta motivacional seja a chave para ser aceito ou não no curso. Conversando com a organizadora, no dia em que chegamos, ela comentou que foi a carta motivacional que teve, de fato, um peso grande na decisão. É importante que ela contenha três informações importantes: quem você é (sem repetir o seu currículo), porque você quer fazer esse curso e porque você quer uma bolsa de estudos.

   Acredito que o curso foi importante para a minha formação profissional, além de me dar a oportunidade de ir para a Letônia e fazer novos amigos. Durante o processo de elaboração do projeto, tivemos contato com vários aspectos culturais e históricos da Letônia. Além disso, durante a construção e na inauguração, muitos moradores de Cēsis – e alguns turistas – ficaram curiosos e vieram perguntar sobre o projeto e o curso. É uma experiência muito boa que recomendo para quem tiver interesse.

Passo a passo para quem quiser ir também:

  1. Entrar no site abaixo e ficar atento as inscrições.
  2. Traduzir o seu currículo e fazer ser portfolio.
  3. Iniciar o processo de inscrição na data indicada (normalmente em março ou abril).
  4. Escrever sua carta motivacional.
  5. Enviar as inscrições.

Site do programa: http://www.rtusummerschool.lv/

Meu email para tirar dúvidas: mirelathaise@gmail.com

 

Fotos por Kaspars Kursišs

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Feliz como um hobbit

Era uma segunda-feira nublada de agosto em Vecsaule, Bauska. Eu havia acordado cedo pois a empolgação não me deixara dormir mais: nós íamos colher cogumelos na floresta naquele dia, uma experiência totalmente nova para mim e muito aguardada.

Depois do café da manhã nos preparamos para a aventura: botas e capas de chuva, luvas de borracha, uma faca para cada um, câmera, sacos plásticos e um balde – estes dois últimos itens se mostraram bem insuficientes mais tarde. Nós estávamos parecendo dois Hobbits com nossos capuzes e capas nas cores azul, verde e marrom.

No caminho encontramos um letão muito satisfeito com uma cesta cheia de cogumelos recém-colhidos. Nossa aventura parecia muito promissora! Quando entramos na floresta, uma chuva fina e constante começou, mas estava muito agradável para caminhar; as copas das grandes árvores seguravam grande parte da água. Andamos muito, pisando em folhas velhas das estações passadas e em um tapete de musgo verde. As florestas da Letônia têm uma atmosfera imponente, mas leve ao mesmo tempo; como se fossem antigas e misteriosas, mas graciosas e solícitas: anfitriãs amáveis. Se você vem com bons pensamentos e boas intenções, você é bem-vindo. Paz e quietude estavam ao nosso redor. Os únicos barulhos eram os assobios suaves e intermitentes de pássaros escondidos e o quebrar de folhas secas e galhos caídos pelos nossos pés.

No início da aventura achamos apenas poucos cogumelos, em sua maioria Bērzu baravika (Boletus betulicola). Eu sou uma louca por cogumelos comestíveis, mas para a maioria dos brasileiros a paixão por cogumelos não se compara ao que os letões sentem. Brasileiros não têm o hábito de entrar na floresta para procurar por eles porque no Brasil existem muitos cogumelos venenosos (alguns realmente podem matar), que se parecem muito com as espécies comestíveis, então as pessoas têm medo de se confundir. A maioria dos cogumelos que temos disponíveis para comprar são cultivados e importados e, por isto, caros. A produção nacional tem aumentado, mas ainda é raro encontrar algo além do champignon (Agaricus bisporus), nativo da Europa e América do Norte, e os orientais Shimeji e Shiitake.

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

 

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Fiquei encantada ao ver que na Letônia podemos não só comprar cogumelos frescos em qualquer feira por preços muito bons, mas ainda colhê-los por livre e espontânea vontade. No livro O Senhor dos Anéis, Tolkien escreve que os Hobbits têm “uma paixão por cogumelos que supera até mesmo o gosto mais ávido das Pessoas Grandes”. Assim são os letões comparados com as pessoas de outros países. Nas cidades da Letônia, onde eu estive, cansei de ver durante a primavera e o outono pessoas carregando cestas de cogumelos frescos com muito cuidado – como se fosse um tesouro – com caras satisfeitas e felizes.

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Paraíso dos cogumelos

Depois de duas horas e um saco plástico cheio até a metade, decidimos ir embora, mas eu fui um pouco mais a frente para dar uma última olhada. Ansiava por achar mais cogumelos. Eu olhei para a direita, nada; à minha frente, nada. Lancei um último olhar esperançoso para esquerda e lá estavam eles, escondidos: dois cogumelos enormes! Um estava fresco, o outro começando a apodrecer. Eu me aproximei deles e de repente comecei a ver cogumelos por toda a parte naquela direção: pequenos, médios, grandes e lindos! Era o Paraíso dos Cogumelos como nós brincamos! Eu fiquei tão feliz com a descoberta que cheguei a perder minhas luvas que estavam no bolso.
Os cogumelos que achamos naquele lugar eram em sua maioria Parastā apšubeka (Leccinum aurantiacum), um tipo muito delicioso. Ficamos ali por pelo menos mais duas  horas. Nosso balde e todos os sacos plásticos ficaram totalmente cheios. Tivemos que deixar muitos para trás, para outro apaixonado por cogumelos.

Maria Fernanda com três grandes cogumelos do tipo Boletus. Crédito: Andis Mikainis

Quando retornamos para casa, eu aprendi a limpá-los e prepará-los com a mãe do meu amigo. Nós fizemos vários potes de conserva de cogumelo e o restante comemos fritos, puros, com temperos, com vegetais, na sopa, no pão… uma delícia!

Mesa com uma parte da mesa cheia de cogumelos que foram colhidos nesse dia. O restante não coube na mesa. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi
A senhora Dzintra Mikaina, moradora de Bauska, com uma parte dos cogumelos que foram colhidos no dia. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi
A senhora Dzintra começando a limpar e preparar os cogumelos. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

 

Existe um provérbio letão que diz: “Kas nestrādā, tam nebūs ēst” (“Aquele que não trabalha, não come”). A refeição tem um sabor diferente e melhor quando você se esforça para tê-la e a prepara você mesmo. É por isso que essa foi uma das experiências mais fascinantes e recompensadoras que eu já tive. Ver todos aqueles cogumelos e colhê-los com a floresta ao meu redor me fez sentir um respeito ainda maior pela natureza que nos fornece esses presentes deliciosos. Mesmo com a pressa do dia-a-dia e as facilidades do mundo moderno, o contato com a natureza não tem preço. E lá na Letônia isto ainda está muito vivo.

“Nas raras vezes em que a natureza revela seus segredos, a realidade é mais fantástica que a fábula.”

Maria Fernanda com os cogumelos. Crédito: Andis Mikainis

Kurši, os vikings do Báltico

Os vikings estão na moda: séries, blogs, grupos de reenactment e sites têm tornado os famosos guerreiros medievais favoritos da cultura pop. Como acontece com toda temática histórica aproveitada pela indústria cultural, uma série de estereótipos acaba por permear a compreensão do tema; os vikings, por exemplo, não foram um povo ou um grupo étnico. Antes, ‘viking’ se referia a uma forma de vida, a uma ocupação; provavelmente derivado do Antigo Nórdico vik, significando ‘baía’, ‘enseada’, o víkingr era aquele que navegava em expedições de comércio ou saque.[1]

Autores cristãos, latinos e anglo-saxões do medievo, traduziam o termo de forma negativa, como ‘pirata’. Em suma: os vikings não foram um ‘povo’, uma ‘etnia’ ou uma ‘raça’ – termo cientificamente caduco – e diversos grupos étnicos poderiam ser encontrados entre vikings nos mares Báltico e do Norte: escandinavos, em sua maior parte, mas também irlandeses e escoceses, gente oriunda das Ilhas Man[2], eslavos ocidentais e orientais, fino-úgricos como finlandeses e estonianos e também povos bálticos, ancestrais de parte dos letões de hoje.

Nesse artigo trataremos de um desses grupos Bálticos, cujo modo de vida, valores, crenças e costumes os aproximaram muito dos escandinavos do medievo, podendo ser considerados como parte dos vikings a frequentar as praias do Báltico: os Kurši.

            Kurši[3] eram os habitantes da Kurzeme, região ocidental da atual Letônia. Referida nas fontes latinas medievais como Curônia ou Curlândia e Kúrland nas fontes escandinavas, a região tornou-se um ducado vassalo do rei da Polônia-Lituânia nos tempos modernos, chegando a participar da corrida colonial e mesmo a obter possessões coloniais na Gâmbia e em Tobago. No período viking as regiões habitadas pelos dos Kurši estavam divididas em cinco divisões, centralizadas em fortificações citadas na Livländiche Reimschronike[4]: Pilsats, Megova, Duvzare, Ceklis e Piemare, abrangendo um território que englobava toda a área ocidental da atual Letônia até a costa norte da atual Lituânia.

Mapa 01: As divisões territoriais dos Kurši no século XIII. Obtido em ŠVĀBE, Arveds. Senā Kursa. In: Straumes un avoti. I sējums. Rīga: A.Gulbis, 1938.

Há muitas referências aos Kurši nas fontes escandinavas; algumas factíveis, outras, de caráter mítico ou ideológico; na maioria dos casos, fronteiras rígidas entre tais categorias não são possíveis de serem traçadas com clarezas. Também há quantidade considerável de vestígios arqueológicos conectando os Kurši aos escandinavos, principalmente da Suécia e da ilha Gotland.

Algumas referências escritas aos Kurši são memoráveis, como a descrição do cativeiro do skáldr Egill Skalagrímsson na popular “Egils saga”, escrita no século XIII provavelmente por Snorri Sturlusson. Também emblemática é a referência, bastante antiga, da Vita Anskarii de Rimbert, escrita no século IX, que conta sobre um suposto período de domínio dos suecos sobre os Kurši.

A Chronicon Henrici Livoniae traz informações sobre os Kurši no século XII, principalmente táticas militares e costumes funerários dos mesmos por ocasião de expedições de ataques marítimos aos cruzados e no cerco efetuado por eles a Riga, interrompido para o cumprimento da cremação de seus mortos.

Nos séculos XII e XIII os Kurši estavam frequentemente associados à estonianos de Saaremaa, executando expedições vikings pelo báltico, capturando escravos e bens (incluindo sinos de igrejas, principalmente na Suécia). Aparentemente até então, a julgar pelas referências textuais, possuíram diversos períodos de domínio ou pagamento de tributo da parte de Escandinavos entremeados por revoltas e momentos de liberdade. Em algumas ocasiões aparentam ser parceiros de escandinavos, seja em contatos comerciais ou expedições vikings.

Etnicidade e língua

Ainda que a opinião mais consensual considere os Kurši uma tribo dos baltos indo-europeus no período viking e no medievo, essa categorização étnica é questionada por alguns autores, ainda que poucos, que defendem a ideia que os Kurši falariam uma linguagem fino-úgrica.

Há um número considerável de termos de origem fino-úgrica que transparecem nos tratados do século XIII no idioma dos Kurši. O próprio significado do nome pode ter origem fínica – “kur”, é “grou” nos idiomas fino-úgricos. Outros termos são “kiligunden”, uma região administrativa, e “maleva”, uma unidade do exército. Argumentos dessa lavra são comuns em obras de popularização científica, como a publicação do historiador amador Edgar Valter Saks[5]. Há de se notar que a língua letã contemporânea também possui vários cognatos com as linguagens fino-úgricas, incluindo termos de uso cotidiano, como puika e mežs, mas não se cogita questionar a filiação báltica do letão simplesmente por se possuir um conhecimento completo da linguagem em seus aspectos morfológicos, gramaticais e sintáticos, que são indubitavelmente indo-europeus, ainda que com considerável influência dos vizinhos fino-úgricos.

Há acadêmicos contemporâneos também, no entanto, que defendem a filiação fino-úgrica dos Kurši. A principal autora que pode ser citada é a estoniana Marika Mägi, que em adição aos termos já referidos, analisa também alguns topônimos: até o século XIX, por exemplo, a ilha estoniana de Saaremaa era chamada de “Kurasaar”, ou seja: Ilha dos Kurši, ou argumentos mais difíceis de seguir, fazendo um paralelo no caso de Kurzeme e Kurasaar/Saarema com as regiões estonianas da costa ocidental, chamada pelos escandinavos de Adalsýsla, e novamente a ilha de Saarema, chamada de Eysýsla.[6]

Repetimos que essa identificação é aceita por poucos, e deve ser considerada como uma idiossincrasia a mais em categorizações e divisões étnicas das populações (não apenas) do medievo. Os Kursenieki, ou Kuršininkai em lituano, descendentes quase extintos dos Kurši nas costas lituano-prussianas, falavam até o século XIX um idioma muito próximo ao letão, e seus remanescentes contemporâneos na região de Palanga, na Lituânia, são contados nos censos lituanos como “letões”, ainda que não aceitem a denominação e se auto intitulem Kuršininkai.[7] Vocabulários publicados em 1927 e reeditados posteriormente demonstram inequivocamente a natureza da língua desses Kursenieki: 13% das palavras eram cognatos ou empréstimos do Lituano; 26%, do alemão, enquanto 60% do vocabulário era o mesmo do letão, o que torna a língua dos Kursenieki mutualmente inteligível aos letões, particularmente os habitantes do sul da Kurzeme de hoje, nas áreas próximas a Liepāja e Nica.[8] O debate na linguística báltica está mais focado em uma afiliação antiga do idioma dos Kurši ao ramo Báltico Ocidental, do qual derivou o antigo-prussiano, ou ao Oriental, do qual derivou o letão e o lituano.[9]

Étnica e geneticamente, há debate sobre a origem dos Kurši; de forma similar à questão linguística, o principal tópico discutido na arqueologia báltica é referente a sua  afiliação aos Baltos Orientais ou Ocidentais. A questão não é de simples solução e é difícil apresentar uma hipótese clara e unilinear. De forma geral, os baltos indo-europeus, cuja etnogênese deu-se nos primeiros milênios antes de Cristo, ramificaram em duas direções: leste e oeste.  Os atuais letões e lituanos descendem das tribos baltas orientais, que tiveram seu território original reduzido nos séculos VIII em diante pelo avanço das tribos eslávicas para o norte, enquanto os antigo-prussianos, extintos após séculos de colonização e assimilação germânica, representariam os descendentes dos Baltos Ocidentais; discute-se que os Kurši possivelmente teriam origem dentre os Baltos Ocidentais, e não orientais.

Esta afirmação parece contraditória, visto termos a pouco afirmado a familiaridade do idioma dos kursenieki ao letão contemporâneo; a contradição pode ser compreendida com a afirmação de uma assimilação linguística; os Kurši teriam assimilado muita da linguagem de seus vizinhos próximos de origem mais oriental – dos quais linguisticamente não eram tão distintos assim, e cuja similaridade idiomática facilitou em muito a situação. Como fator de complexificação da questão, há ainda a expansão dos Kurši rumo ao norte, que os colocaria em situação de confronto, assimilação e mistura com os povos de fala fino-úgrica – os livônios.  

 A antropologia física demonstra a existência de algumas diferenças físicas entre as tribos bálticas orientais e ocidentais, principalmente no aspecto da craniometria.  Os baltos da faixa costeira da Prússia até a Kurzeme possuíam forma craniana dolicocéfala, ou seja – crânios de tendência alongada e, dentre outras peculiaridades culturais, cremavam seus mortos[10]. Os costumes funerários crematórios, comuns dentre esses baltos desde a Idade do Bronze, sofreram um período de interrupção e voltaram ao uso corrente a partir do século IX[11].

Mapa 02: Mapa demonstrando a divisão aproximada dos grupos étnicos no período viking no território da atual Letônia. As áreas rachuradas indicam territórios com população mista;. Fonte: LU RAKSTI. Pilskalni Latvijas ainavā. 2006.

O nome de Kurši, ou traduções do mesmo, é encontrado nas fontes escritas referindo-se a acontecimentos prováveis dos séculos VII em diante; destarte, quando é possível se alegar uma assimilação e mistura entre as tribos ocidentais com as orientais.

Vejamos a seguir o que algumas fontes escritas contam acerca dos Kurši. Não faremos um apanhado exaustivo, mesmo por questões de espaço; antes, daremos ênfase a alguns relatos de maior extensão que permitam o traçar de reconstruções.

Os Kurši nas fontes escritas

A Vita Anskarii de Rimbert e os escandinavos na área de Grobiņa

A primeira referência escrita que se tem ao Kurši é encontrada em uma fonte latina, a Vita Anskaarii, uma crônica escrita pelo eclesiástico Rimbert contando sobre a vida de Anskar, primeiro missionário cristão a pregar aos povos do norte, principalmente suecos da tribo dos Svear. Essa crônica fala, muito brevemente, sobre um período no qual os Kurši estavam sujeitos a governantes suecos.

A ocupação sueca de Kurzeme é um dos poucos episódios ao qual podemos referir com suficiente segurança nos séculos anteriores ao período viking. A respeito dele obtemos informações tanto das fontes escritas como das arqueológicas. Sítios arqueológicos escavados pelo sueco Birger Nerman em Grobiņa, atual Letônia, e Apuole, atual Lituânia, na década de 1920, suportam interpretações baseadas nos textos escritos que demonstravam haver relações entre os Kurši com a tribo sueca dos Svear e com a ilha de Gotland, desde o século VII[12]; essas são as primeiras referências escritas disponíveis.

O capítulo XXX da Vita Anskarii traz referência não apenas a tal ocupação, mas também às relações entre os Kurši e os Svear (Suecos):

Porque certo povo chamado de Kurši havia estado algum tempo anterior em sujeição aos suecos, mas já havia um longo tempo desde que se rebelaram e recusaram estar em sujeição. Os Dinamarqueses, atentos a isto, quando da ocasião de o bispo (Anskar) ter entrado em território sueco, juntaram um grande número de navios, e procederam a este país, ansiosos em tomar seus bens e sujeitá-los. Seu reino tinha cinco cidades, e quando os habitantes souberam da sua vinda reuniram-se e, de modo árido, começaram a resistir virilmente e defender suas propriedades. Obtendo a vitória, eles massacraram a metade dos dinamarqueses e saquearam seus navios, obtendo deles ouro, prata e muito espólio. Ao ouvir isto, o Rei Olaf e os suecos, que desejaram ganhar para si a reputação de que eles pudessem fazer o que os dinamarqueses não tinham feito, e porque este povo já havia antigamente estado em sujeição a eles, juntaram um imenso exército procedendo a estas partes. Em primeira instância eles entraram numa cidade de seu reino chamada de Seeburg. Esta cidade, que continha sete mil homens de guerra, eles saquearam, despojaram e queimaram. Isto os deixou com as esperanças fortalecidas e, tendo despachado seus navios, partiram em viagem de cinco dias áridos, apressando-se com intenções selvagens rumo a outra das cidades deles chamada Aputra, na qual havia quinze mil homens aptos para a guerra. Quando eles a alcançaram, eles haviam corrido para dentro da cidade, e enquanto uma parte a atacava vigorosamente do lado de fora, a outra a defendia por dentro. Passaram-se oito dias deste modo, com o resultado que, apesar de terem lutado e empreendido guerra desde a manhã até a noite, tendo muitos caído em ambos os lados, nenhum deles obteve a vitória. Ao nono dia os suecos, cansados de tal matança diária, começaram a afligirem-se, e em seu terror consideravam apenas de que modo poderiam escapar. “Aqui”, disseram eles, “nós não conseguimos fazer nada e estamos longe de nossos navios”. Pois, como já dissemos, estavam a cinco dias de viagem do porto no qual estavam seus navios. Como estavam em grande distúrbio, sem saber o que fazer, resolveram tirar sortes para inquirir aos seus deuses se eles iriam auxiliá-los a obter a vitória ou se eles deviam sair do lugar de onde estavam.”[13]

A história termina com uma vitória de modo diferente do qual estariam habituados os suecos: mercadores que os acompanhavam lembraram-se dos ensinamentos de Anskar, e rogaram ao Deus dos cristãos que os ajudassem. Após isso os Kurši propuseram a paz aos suecos, pagando-lhes metade do espólio que haviam adquirido anteriormente ao vencerem os daneses.

Este episódio oferece-nos subsídios para diversas considerações. Sua referência inicial diz que “certo povo chamado de Kurši havia estado algum tempo anterior em sujeição aos suecos, mas já havia um longo tempo desde que se rebelaram e recusaram estar em sujeição”.

As escavações na região de Liepāja demonstram um período de sujeição dos Kurši aos suecos de aproximadamente 200 anos, entre os séculos VII a IX[14]. O sítio de Grobiņa, datado do final desse período, foi identificado pelo arqueólogo Birger Nerman com a Seeburg de Anskar; na área foram encontrados até o momento cerca de 3.000 enterramentos escandinavos, principalmente no cemitério de Priediena, datados entre os anos 650 a 850.[15] Nerman, que escavou o local junto com o letão Francis Balodis inicialmente em 1929, publicou diversos trabalhos sobre o local no período entre-guerras, no qual a Letônia desfrutava de sua independência, destacando-se Die verbindungen zwischen Skandinavien und dem Ostbaltikum in der jüngeren eisenzeit, de 1929 Grobin-Seeburg; Ausgrabungen und Funde, de 1958.

Diversos estudiosos pesquisaram o local posteriormente, ampliando a compreensão do que acontecera ali: Peteris Stepiņš (1951), Jolanta Daiga (1957), Valerii Petrenko e Jānis Asaris (1984-89). Estudos mais recentes foram feitos após 2010 por cooperação entre estudiosos letões com o Centro para Arqueologia Báltica e Escandinava, de Schleswig, Alemanha.

Autores de populares manuais sobre os vikings fundamentam-se em Nerman; Brøndsted[16] posiciona-se a favor da opinião segundo a qual o sítio de Grobiņa consistiria em algum forte construído após a destruição de Seeburg, no mesmo local (as escavações demonstram uma fortificação construída sobre outra, destruída). Já Aputra possivelmente identificaria-se com a cidade de Apuole, atualmente em território Lituano[17].

A arqueologia fornece a datação dos séculos VI ao IX. Rimbert, escrevendo por volta de 870-880[18], refere-se a certo período anterior de sujeição dos kurs aos suecos. Anskar morrera por volta de 865[19], com possivelmente 64 anos. Supondo-se que os acontecimentos em Seeburg tivessem dado-se em torno da data de sua morte, se transcorreriam entre 5 a 15 anos entre o ocorrido e a escrita de Rimbert. Este, no entanto, afirma que a sujeição dos Kurši aos suecos teria se encerrado em tempo “muito anterior” ao ocorrido em Seeburg.

As interpretações de Nerman ainda influenciam muito do que se conhece do local; argumenta-se a existência de dois grupos escandinavos principais: os Svear, que provavelmente compunham uma guarnição militar, que dava suporte a outro povoamento, de natureza comercial. Este último continha inclusive enterramentos de mulheres e crianças, com achados mais similares à Cultura Material de Gotland. Apesar da relativa antiguidade da interpretação, muitos autores posteriores não fizeram muito para modificá-la, adicionando nuances quanto à natureza, impacto e abrangência desse empório comercial, e discutindo as razões pelas quais a colônia Sueca se extinguira[20].

A presença escandinava é forte em Grobiņa, mas as pesquisas mais recentes, conduzidas principalmente por Ingrida Virse e Inga Doniņa, demonstram que o grau de associação com os Kurši locais é maior do que se depreende pela leitura exclusiva de Nerman, e os achados e enterramentos demonstram influências culturais de mão dupla[21]. Uma visão interessante sobre a relação mista entre Kurši (“kurir” para os escandinavos) e escandinavos, ora de associação, ora de disputa, pode ser vislumbrada na Egilssaga, no capítulo 46, que trataremos e breve.

Em 2013 tivemos a oportunidade de visitar Grobiņa, por ocasião de nossos estudos de doutoramento na Universidade de São Paulo, que inclusive custeou a viagem. Enquanto a colina fortificada se encontra no centro da cidade e tenha sido reutilizada diversas vezes após o período viking, incluindo pelos conquistadores germânicos, a área dos cemitérios escandinavos (Priediena senkapi) é mais recuada e, ainda que não de difícil acesso, passa despercebida por quem não sabe o que procurar.

Figura 01: Grobiņas pilskalns. Foto do autor, 2013.

A área do cemitério escandinavo é bastante ampla, e no local foi construído uma espécie de hipódromo, circundada por florestas em diversos pontos. Há mais de um cemitério, incluindo enterramentos pré-históricos, enterramentos escandinavos, Kurši e mistos. Encontram-se cercados por fitas brancas, já que o local foi tombado pela UNESCO. Contém algumas placas indicativas em letão e inglês. Alguns locais de enterramento encontram-se ao ar livre, sem maiores demarcações, sendo difícil discernir os locais. De fato, há um grande número de locais antigos de enterramentos, e a urbanização da cidade deu-se sem notá-los.

 

 

 

Figura 02: Priediena senkapi (cemitério antigo de Priediena). Foto do autor, 2013.

Existem locais próximos a Liepaja, como Taši, nos quais foram encontrados mais vestígios de escandinavos. O material arqueológico escavado nessas localidades encontra-se depositado no museu de Liepāja. Há uma quantidade considerável de material escandinavo, incluindo broches, espadas “vikings” e uma estela pictórica proveniente de Gotland, escavada por Petrenko em 1987, publicada no Fornvännen número 86 (de 1991, no qual sua interpretação foi corrigida por Lamm)[22] e bastante gasta. Existem outros três principais exemplares desta modalidade de estela na Escandinávia, que foram estudados por Nylén e Lamm, e são considerados “artigos de exportação” de Gotland..

Figura 03: Espada ‘viking’ encontrada na área de Grobiņa, depositada no museu de Liepāja. Muitas espadas do período viking são encontradas com suas lâminas entortadas, por razões religiosas e rituais. Foto do autor, 2013. Agradecimentos a Guna Dancīte, que nos auxiliou grandemente no acesso ao acervo.

 

A Egilssaga: militarismo e riqueza

Os contatos de vikings escandinavos com o povo de Kurzeme não se limitavam aos suecos e dinamarqueses. Noruegueses e islandeses parecem ter sido ativos na região, ainda que com menor intensidade. A Egils saga, escrita no século XIII provavelmente por Snorri Sturlusson, a despeito de sua data tardia – dois a três séculos após o período viking – e grande dose de romantização, nos traz um relato interessante sobre a dinâmica entre Kurši e escandinavos no período viking. Muito do nela narrado é senso comum nas sagas e narrativas de heróis do período viking; é possível, no entanto, ainda que com ressalvas, se efetuar reconstruções e comparações a fim de se vislumbrar ao menos um pouco dos Kurši.

Egil Skalagrimsson foi uma das mais conhecidas personagens do mundo viking. Pirata, proprietário, skaldr[23], personifica de modo exemplar o ideal viking.  Matou a primeira pessoa quando possuía seis anos de idade, por disputas num knattleikr[24]. As reações de seus pais são exemplares: enquanto que o pai, Skallagrim, mostra-se indiferente, sua mãe nota que “Egil agia de forma que certamente seria um viking de verdade quando tivesse idade suficiente para ser colocado à frente de um navio de guerra[25]”.

Em torno dos doze anos de idade (e após muita insistência, incluindo atos de sabotagem do barco do irmão[26]), Egil parte com o irmão Thorolf em suas viagens; mata um homem do rei Eirikr[27], e realiza uma fuga espetacular, na qual mata mais homens do rei[28]; tudo isto entremeado de poemas scáldicos. Após isso, ambos partem numa expedição viking para Austrvegr. E é aqui que os Kurši entram na história.

Austrvegr significa, em antigo nórdico, “caminho de leste”. Pode se referir de forma genérica ao leste, incluindo o reino de Rus, a Rússia medieval, mas essa é usualmente referida como “Gardaríki”[29]. Austrvegr é mais frequentemente empregada para citar a área Báltica, incluindo as atuais Letônia, Estônia e Finlândia. Kurzeme é referida especificamente com o nome “Kúrland”[30]; seus habitantes são chamados de kurir pelos autores escandinavos[31].

A expedição de Thorolfr e Egil na Kúrland inicia-se com uma aliança: “Eles viajaram para Kúrland, permaneceram no país por meio mês, e ofereceram um acordo de paz e comércio[32]”, que não obstante terminaria com os habituais saques e butins vikings: “Mas quando o acordo foi concluído, começaram a fazer ataques; e mantiveram-se naquela mesma terra[33].  A troca de aliados de acordo com as conveniências é bastante conhecida no mundo viking.

A narrativa prossegue, Thorolfr e Egil aportam em um “estuário, com uma extensa floresta cobrindo a colina sobre ele”; dividem seus homens em grupos de doze, que passam a atacar os povoados, “separados por florestas”. Matam e roubam o que encontram pela frente, e as pessoas fogem ante sua chegada. No fim do dia, Thorolfr toca sua trombeta na praia, para que todos voltem a agrupar-se. Mas o grupo de Egil não chega.

Segundo a saga, Egil chegara a uma planície[34] larga e povoada, com uma propriedade[35], à qual se dirigem. Ali, caem numa emboscada: a localidade encontra-se completamente vazia, e os vikings atiram-se à pilhagem, explorando as habitações e apanhando o que pudessem carregar. Ao saírem da construção principal, encontram-se frente a uma grande quantidade de guerreiros.

Tratava-se da propriedade de um homem rico[36], protegida por diversos homens armados de lanças e espadas, aparentemente vestindo capas de lã. Entre a fazenda e a floresta se extendiam paliçadas, habilmente construídas de modo que aproveitavam a floresta e não permitiam ao invasor perceber a existência de mais de uma, induzindo-o, portanto, à captura.

Os Kurši atacaram os homens de Egil à base de lanças, “evitando combate corpo-a-corpo”, dando “botes” por frestas da cerca com lanças e espadas, e tornaram diversos dos vikings inofensivos pelo simples estratagema de cobrir suas armas com as capas. Egil e os seus foram presos e levados para dentro da casa. Esta, descrita como composta de diversos e vastos salões, alguns contendo muita riqueza e armas. As paredes eram construídas com grandes toras de madeira, alguns aposentos possuindo divisões de madeira mais leve e fina, aplainada.

O bóndi demonstrara a intenção de matá-los imediatamente, mas seu filho “já crescido” convence-o a não matá-los de noite, a fim de divertir-se com sua tortura no dia seguinte, o que serviria de exemplo a outros. Todos foram “firmemente amarrados”, sendo Egil atado, também “firmemente”, pelos pés e mãos, a um dos postes do salão ao qual foram levados. Os Kurši foram comer, beber e se divertir no salão principal.

Egil se sacode até conseguir com que o poste no qual está atado solte-se de sua base, no chão; solta a corda dos pulsos com os dentes, desata os pés e liberta os companheiros. Uma das paredes do aposento é feita com madeiras aplainadas, que conseguem quebrar, passando para aposento ao lado. Ali, ouvem vozes vindas do chão e descobrem um aposento inferior, de onde retiram três daneses capturados pelos Kurši. Com seu auxílio encontram os depósitos de armas e riquezas, e fogem em direção à floresta.

Julgando tal expedição e fuga indigna de um guerreiro, Egil retorna, adentra a cozinha e põe fogo no salão principal, onde os Kurši se divertiam, dando final recorrente em muitas sagas: os que tentavam sair do aposento em chamas eram mortos por Egil na porta.

Esta narrativa é bastante rica em detalhes que nos auxiliam a montar nosso “quebra-cabeças” hipotético. Seu valor exato factual deve ser muito relativizado, mas podemos traçar ao menos reconstruções aproximadas. As características dos Kurši ali descritas, em seu próprio meio, o são por estrangeiros; seu autor reconta o ocorrido por olhos escandinavos do século XIII.

A organização das comunidades dos Kurši é descrita de forma similar a outros povos com os quais lidam em diversas sagas, usualmente espelhando conceitos escandinavos. Segundo a narrativa, a população vivia em povoados dispersos em meio a clareiras na densa floresta. Em ocasiões especiais como o ataque que narramos, o habitual seria fugir em direção a algum senhor de maior riqueza e poder, normalmente dono de alguma espécie de fortaleza.

A referência à fortaleza possivelmente se remete a alguma realidade do contexto báltico. Estas fortalezas bálticas constituíam-se em largos morros de terra artificiais, encimados por paliçadas de madeira[37]; a descrição dada pela Saga de Egil concorda razoavelmente com achados arqueológicos, e mesmo com modelos tradicionais das paliçadas indo-europeias arcaicas[38].

Figura 04: Reconstituição da fortaleza báltica de Tushemlija, atualmente na Rússia Ocidental. Note-se a construção intricada das paliçadas. Fonte: GIMBUTAS, Marija. Os Baltas. RJ: Ed. Neris, 1986. p.204.

A narrativa de que, pouco antes de fugirem, teriam descido em aposento alcançado por meio de piso inferior (no qual encontraram muitas riquezas e armas, dirigidos por Aki, o dinamarquês que libertaram, e seus dois filhos) leva-nos a realizar deduções mais precisas do plano da construção: se pela referência anterior da libertação de Aki somos induzidos a imaginar uma espécie de porão, esta última nos obriga a concluir que os vikings encontravam-se todo tempo presos em aposento superior.

Somando-se isto à referência de muitos salões vastos, depósitos de armas e tesouros, cozinha em ambiente separado – e não no meio do salão – e o detalhe das paliçadas traiçoeiras, chegamos à reconstituição de uma construção intrincada, composta de trabalhos de madeira diversos (como a referência tanto a paredes de toras densas quanto de tábuas aplainadas mais finas) e terra, criativamente combinados de forma que aproveitavam os próprios recursos naturais (tanto no emprego dos materiais quanto na topografia).

Ainda que Egil tenha conseguido se soltar, a Saga não demonstra inépcia da parte dos Kurši. Longe disso, apresenta-os como sagazes e astutos, companheiros à altura de Thorolf e Egil em suas expedições. A fuga de Egil aparece, no relato, como justificada pela extrema persistência (podemos até valorar: teimosia) do próprio Egil, visto que o autor insiste em afirmar diversas vezes que ele e seus homens foram amarrados “firmemente”: antes de uma deslalorização dos Kurši, a Saga busca a glorificação de Egil.

A localização dos povoados longe da costa, em meio à floresta, bem como o procedimento aparentemente conhecido de recorrerem ao bóndi (a considerar pela cilada), é complementada pelo próprio achado de Aki e seus filhos: o bóndi era rico, e um dos maiores sinais de riqueza no norte viking era a propriedade de escravos[39].

As populações revestiam-se de tamanhas precauções justamente em virtude da frequência de ataques de pilhagem e captura. No diálogo travado entre Aki e Egil, o primeiro afirma ter sido capturado na Dinamarca, junto de seus dois filhos. Teria sido bem tratado pelos Kurši, e encarregado de trabalhos importantes, mas em prol de seus filhos tenta escapar, sendo por isso preso.

É digno de nota que Aki fora captado em sua propriedade, na Dinamarca, e não em alguma expedição que fizesse à Kurzeme. Pois os Kurši, assim como os vikings no geral, eram afeitos a expedições em terras estrangeiras, fosse com intuitos comerciais ou em busca de riqueza e escravos, sendo que aparentemente estas últimas ofereciam mais atrativos. A natureza dessas relações comerciais é ampla e diversificada: o complexo de Daugmale[40], por exemplo, revela achados desde Inglaterra até Bizâncio, e nos é impossível saber em que porcentagem tais achados se devem aos Suecos.

Uma referência interessante trata-se da espada de Egil; chamada por ele de “Víbora[41]”, foi obtida em sua expedição na Kurzeme[42]. Aparentemente era uma espada de grande qualidade: foi com ela que Egil travaria a batalha de Brunaburr na Inglaterra, onde seu irmão morreria[43]. E, mesmo após ter recebido uma excelente espada, tradicional na família[44], Egil manteria “Víbora” consigo[45]. Considerando a pobreza de jazidas minerais em Kurzeme – bem como toda a técnica necessária no fábrico de uma espada de qualidade, é razoável supor que tal espada fosse fruto de comércio.

Apesar da extensão comercial, no entanto, as expedições com intuito de saque parecem ter sido muito mais relevantes. Temos relatos, por exemplo, da destruição de Sigtuna em 1187 por estonianos (com participação dos Kurši), bem como algumas invasões e pilhagens mais extensas da Dinamarca (e.g.1203, descrita na Cronica de Henri).

Aparentemente, seus principais parceiros em tais expedições eram prussianos e estonianos, sendo suas principais vítimas os suecos. A se crer pelo que se conta na saga, tal regra não era rígida: Aki fora capturado pelos Kurs na Dinamarca, sendo que Egil e os seus foram aliados dos Kurši em Austrvegr, ainda que tenham desfeito tal aliança posteriormente.

 Tal confecções de alianças, no entanto, precisa ser considerada com cuidado: uma aliança entre islandeses e Kurši não implicava numa massa monolítica e unificada dos mesmos. Da mesma maneira que podemos encontrar amiúde nas sagas, o aspecto étnico não era determinante; em suas expedições grupos de vikings e kurs não necessitavam estar ligados à um “governo” ou grupo unificado, modificando suas alianças conforme fosse de utilidade.

As expedições efetuadas pelos Kurši não abrangiam regiões tão vastas e longínquas, ainda que fosse possível que alguns indivíduos agissem como mercenários. Mas por certo elas parecem ter sido tão eficazes quanto as de seus vizinhos, ainda que restritas principalmente ao Báltico. Schwabe[46], por exemplo, registra-nos inscrição particularmente irônica: “Deus, proteja-nos dos Kurs[47]”, encontrada em igrejas dinamarquesas, da época de Magnus (1041) e Svein (1049).

Tal prece parece não ter sido sem propósito, pelas razões que já esboçamos: o principal meio de vida dos Kurši ligava-se estreitamente à vida marítima, particularmente voltada à expedições de pirataria. Em tais expedições os Kurši conseguiam escravos, os quais ficavam encarregados dos trabalhos domésticos e de agricultura. Os bondi dos Kurši usufruíam, desta maneira, de tanta riqueza – fosse em jóias e metais preciosos ou escravos – quanto qualquer outro aristocrata no Norte da Europa; prosperidade adquirida principalmente à custa dos camponeses de Dinamarca[48] e Suécia[49].

Schwabe[50] é da opinião que o método de cultivo trienal tenha sido implantado em Kurzeme justamente por daneses, e tal assertiva encontraria respaldo na Saga de Egil: Aki era responsável pelo gerenciamento da fazenda do bondí, mas aparentemente seus filhos trabalhavam duro; e tal circunstância, somada às outras referências do trabalho realizado pelos escravos (arrumação das camas, cuidados com a cozinha, trabalhos na lavoura) revela certa extensão na natureza dos serviços domésticos legados aos escravos; repetimos, no entanto, que muito disso pode – e provavelmente é – muito da projeção das próprias sociedades escandinavas no relato.

Há indicações de que as embarcações dos Kurši (bem como a dos vizinhos prussianos) não diferiam grandemente das escandinavas do período viking[51]. São extensamente repetidas as vantagens que as embarcações ágeis e rápidas dos vikings propiciaram em seus ataques relâmpagos pelas costas da Europa Ocidental, e tal trunfo parece ter operado igualmente a favor dos Kurši.

A habilidade dos artífices Kurši com trabalhos em madeira levantam possibilidades de diversas adaptações e intercâmbios de técnicas em construção naval com os escandinavos, não apenas numa posição passiva, receptora de técnicas estrangeiras, mas também dotada de criações próprias. A comparação com barcos eslavos do período em questão, mais baixos e menos ágeis[52], restringe a comparação das técnicas navais às populações baltas e escandinavas, sugerindo a troca de técnicas através dos artifíces obtidos como escravos.

Este domínio técnico da madeira não é desprezível; já discutimos a respeito das fortificações dos Kurši, e a constatação de suas habilidades referentes à navegação vem sugerir uma mestria técnica da carpintaria semelhante à dos vizinhos sueco-noruegueses. Mestria diferente da encontrada na Europa Ocidental, cujas florestas eram menores e menos densas que as do Báltico[53]. LeGoff[54] cita-nos um conto curioso referente à construção de uma igreja na França medieval que, somado com outras fontes do Ocidente, revela quase que uma incompetência no trato com a madeira: o carvalho escolhido para a construção da Igreja foi cortado em tamanho menor do que o calculado, requerindo o milagre de um eclesiástico. O milagre torna a historieta pouco verossímil, mas a situação descrita parece se basear em circunstâncias cotidianas e conhecidas.

Por todas estas evidências da Saga de Egil somadas à outras fontes, encontramos nos Kurši uma população pequena, belicosa, com uma extensa aristocracia guerreira, a qual sobrevivia, além dos recursos da floresta, de expedições de pirataria pelo Báltico. Através destas obtinham escravos, os quais permitiam a manutenção de sua ordem social e estilo de vida voltado ao bélico.

A Gesta Danorum e a iniciação mítica dos reis daneses

 

Na Gesta Danorum de Saxo Gramamaticus os Kurši (“curetes”) são citados nos livros 1,2,3,5,6,8,9,11 e 14, incluindo episódios relevantes como o cativeiro do rei mítico Hadingus, no livro I, e a épica batalha de Bravalla, no livro 8[55].

Já afirmamos limites estreitos no que podemos apreender das fontes escritas que se referem aos Kurši. É-nos impossível, por exemplo, dar uma lista de nomes de reis ou traçar uma história política. A bem da verdade, possuímos pelo menos três nomes de reis dos kurs: Loker (“Lokerus”), Dorn (“Dorno”) e Lamekin.

Enquanto que para o último encontramos referência provavelmente factual na Livländiche Reimschronike, as citações que temos de Loker/Lokerus e Dorn/Dorno advém dos dois primeiros livros da Gesta Danorum, da autoria do danês Saxo Grammaticus, e encontram-se no domínio do mítico.

Loker é descrito como “tirano dos Kurši”, e captura o rei mítico dinamarquês Hadingus. Dorn é aparentemente seu sucessor, e combate o filho de Hadingus, Frotho. Encontram-se nos dois primeiros livros da Gesta Danorum, no início de sua parte mítica. Não iremos ignorá-los, mas por certo não podemos tê-los como absolutamente exatos, não apenas por seus nomes não possuírem uma estrutura fonética báltica, mas pela natureza da narrativa em questão.

A primeira associação que vem à mente, ao pensarmos no nome de Loker é, inevitavelmente, o deus nórdico Loki. Dumézil descarta sumariamente tal identificação. E ela parece realmente difícil de ser feita. Pois as referências a tal Loker são ínfimas; Saxo afirma apenas que Hadingus e seu parceiro Liserus atacam-no e são derrotados. A única característica de tal rei,é um adjetivo: “..Lokero, curetum tyrano..”, ou seja: “Loker, tirano dos Kurši”. Termo altamente dúbio, “tirano” pode prestar-se às mais especulativas das interpretações. Parece-nos seguro, apenas, saber que se trata de um rei. No mais, o que pode argumentar-se é a conotação negativa que “tirano” possui na Alta Idade Média.

Seja qual for o significado dos nomes, o mais relevante é sua importância simbólica. Hadingus vêm a ser um dos primeiros reis do período mítico descrito por Saxo, e na narrativa com Loker, é por meio de sua captura que Hadingus passa por sua iniciação guerreira, sendo ajudado por um velho caolho – possível referência ao deus Oðínn.

Quanto à Dorn, Saxo mantém-se em eventos mais terrenos: na eminência de um ataque de Frotho, filho de Hadingus, Saxo põe na boca de Dorn eloquente e extenso discurso, no qual conclama os seus contra os ataques externos[56]. Nada se depreende desse discurso, a não ser lugares comuns da retórica medieval, latina e cristã; os Kurši aqui são apenas elemento narrativo, sem qualquer detalhe de natureza factual.

Agradecimentos

Ficam registrados nossos agradecimentos à família Bērziņš: Hans, Elaine, Raísa e Guilherme, que nos auxiliaram de tantas formas e nos hospedaram na Latvija em 2008 e 2013 e possuem parte em praticamente todas as pesquisas citadas aqui, incluindo na viagem a Liepāja e Grobiņa em 2013. Também agradecemos a Inga Doniņa, que nos auxiliou de forma preciosa na pesquisa no Liepājas muzejs. Finalmente, fica registrado o agradecimento pelo auxílio inestimável do Departamento de História Social da Universidade de São Paulo e de seu coordenador na ocasião, Prof. Dr. Marcelo Cândido, através dos quais foi possível efetuar as viagens de pesquisa de 2013.

Referências

  • Fontes primárias

Egilssaga

Erikskronikan

Livländiche Reimschronike

RIMBERT. Vita Anskari. .

SAXO GRAMMATICUS. Gesta Danorum.

 

  • Bibliografia citada

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[1] Discutimos a questão em maior detalhe no artigo: “Notas sobre o termo viking: usos, abusos, etnia e profissão”’, que pode ser acessado em < https://www.academia.edu/1508363/Notas_sobre_o_termo_viking_usos_abusos_etnia_e_profiss%C3%A3o> .

[2] Em relação aos escandinavos na Ilha de Man, sugerimos a leitura da tese de doutoramento de Renan Birro, defendida em 13/09/2017, em breve disponível para download no banco de teses da USP: BIRRO, Renan. As representações de Sigurdr Fáfnisbani nas cruzes da Ilha de Man (séculos X-XI). Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 2017.

[3] Recentemente foi filmado um documentário de 26 minutos, disponível online. Com exceção de uma referência pouco provável de que os Herulos, tribo citada na Germânia de Tácito, seriam os ancestrais dos povos baltos, o conteúdo é acadêmico e confiável. Veja aqui: < https://vimeo.com/133451296>

[4] Verso 05748.

[5] SAAKS, Edgar. Eesti viikingid. 2005, pp. 31-34.

[6] VUORELA, Toivo. The Finno-Ugric Peoples. Indiana University Publications, 1964, p. 206; MÄGI, Marika. Viking Age and early medieval Eastern Baltic between the West and the East. In: IMSEN, Steinar (ed.) Taxes, tributes and tributary lands in the making of the Scandinavian kingdoms in the Middle Ages. Trondheim: Tapir Academic Press, 2011.p. 194.

[7] < http://samogitia.mch.mii.lt/TAUTOSAKA/balcius.lt.htm>

[8] PIETSCH, Richard: Deutsch-Kurisches Wörterbuch, Verlag Nordostdeutsches Kulturwerk Lüneburg 1991, p.17.

[9] STONKUTĖ, Loreta. Kuršininkų tarmės lituanizmai. In: Studentu zinātniskās Konferences «Aktuāli baltistikas jautājumi» tēzes. Latvijas Universitātes Filoloģijas fakultātes, 2002. Pp.43s.

[10] VASKS, Andrejs. The cultural and ethnic situation in Latvia during the early and middle iron age (1st- 8th century AD.). In: Humanities and Social Sciences – Latvia. 03 (16) 1997. Ver também MUGUREVIČS, Evalds. Ethnic processes in Baltic inhabited territories, and the emergence of the Latvian nation in the 6th to the 16th century. – In: Humanities and Social Sciences Latvia, 1997, University of Latvia, vol.3 (16), pp.75-92

[11] MUGUREVICS, Op. Cit, 1997. Tal tradição crematória parece ser milenar e ter sido interrompida durante o período de dominação sueca sobre os Kurši.

[12] NERMAN, Birger. Funde und Ausgrabungen in Grobiņa, 1929. In: Congressus Secundus Archaeologorum Balticorum Rigae, 19.-23. VIII. 1930. Riga, 1930. pp.195-206.

[13] RIMBERT, Vita Anskari. Cap.XXX. Tradução livre nossa.

[14] VASKS, Op. Cit, 1997.

[15] VIRSE, Ingrida Liga & RITUMS, Ritvars. Grobiņa complex of dwelling locations and burial sites, and related questions. In: Archaeologia BALTICA 17 (2012), p. 34.

[16] BRØNDSTED, Johannes. Os vikings: história de uma fascinante civilização. São Paulo: Hemus, S.D.,  p.18.

[17] ARBMAN, Holger. Os Vikings. Lisboa: Editorial Verbo, 1967 [Londres, 1961], p.30.

[18] BRØNDSTED, Op. Cit, pp.17,35.

[19] Charles Robinson, na introdução de sua tradução da Vita Anskari, é específico ao afirmar sua morte em 03 de fevereiro de 865.

[20] NERMAN, 1958, p. 181; DAIGA, 1957; BRØNDSTED, Op. Cit. pp.18s.; PETRENKO, 1995; BOGUCKI, 2006; VIRSE, 2012, pp.39-40.

[21] VIRSE, 2012, p. 40.

[22] PETRENKO, Valerij Petrovich. ´A Picture Stone from Grobin (Latvia)´. In Fornvännen 86 (1991), pp.01-08;  LAMM, Jan Peter. ‘Ships or ducks? Comment on the Picture-stone found in Grobin Latvia’. In: Fornvännen 86 (1991), pp.09s.

[23] Os Skaldar (plural de skaldr) são personagens importantíssimas no mundo escandinavo antigo. Eram os poetas que cantavam os feitos dos reis e seus próprios, bem como faziam os elogios fúnebres. Vinham dos extratos aristocráticos e encarnavam os mais altos ideais vikings: como portadores da poesia e guerreiros, eram devotos de Oðínn, aquele que concedia o dom da poesia.

 [24] Um jogo de bola bastante difundido entre os vikings. Jogava-se com uma bola pesada e dura, com um taco. Possivelmente fosse semelhante ao jogo escocês, ainda praticado atualmente, de Hurling. Uma descrição detalhada de tal jogo dá-se na saga de Girli Sursson, caps. 15 & 18. Referências em: SMILEY, J et alii. (org) The Saga of Icelanders. New York: Penguin Books, 2001, p.741.

[25]Egil vera víkingsefni ok kvað þat mundu fyrir liggja, þegar hann hefði aldr til, at hánum væru fengin herskip”; Saga de Egil, cap.40 (tradução. do autor).

[26] Ibid.

[27] Ibid, cap.44

[28] No cap.45.

[29] De gardr, “local”, “cidade”, “fortificação” e rík, reino. Vem da cidade Rus de Holmgardr, que conhecemos como Novgorod.

[30] Literalmente, “terra dos kur”, tradução exata do letão “Kurzeme”

[31] Aos interessados em aprofundar o assunto sugerimos nossa tese de doutoramento: MUCENIECKS, André. Austrvegr e Gardariki: (Re)significações do Leste na Escandinávia Tardo-Medieval. Disponível em língua portuguesa, online nos bancos de dados da USP e também em https://www.academia.edu/10938456/Austrvegr_and_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_-_re_significations_of_the_East_in_Low-Middle_Ages_Scandinavia_Austrvegr_e_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_Austrvegr_e_Gar%C3%B0ar%C3%ADki_Re_significa%C3%A7%C3%B5es_do_Leste_na_Escandin%C3%A1via_Tardo-Medieval

[32]Héldu þeir ok út til Kúrlands ok lögðu þar við land með hálfs mánaðr friði ok kaupstefn”. Saga de Egil, capítulo 47. Toda a narrativa deste episódio (consequentemente, as referências subsequententes) encontram-se neste mesmo capítulo.

[33]en er því var lokið, þá tóku þeir að herja og lögðu að í ýmsum stöðum”.

[34] sléttr – uma planície, uma campo nivelado, qualquer espaço físico sem ondulações.

[35] bær einn stóð skammt, literalmente “uma porção do lugar titulada (por alguém)”

[36] O termo empregado é bóndi, usado habitualmente para se referir ao fazendeiro/proprietário nórdico.

[37] CHRISTIANSEN, Eric. The Northern Cruzades. London: Penguin Books, 1997 [1980],  p.38.

[38] A respeito das paliçadas e fortificações de madeira dos antigos indo-europeus, ver LEVEQUE, Pierre. As Primeiras Civilizações: Volume III – Os Indo-Europeus e os semitas. Lisboa: Edições 70, 1987. pp.36s.

[39] CHRISTIANSEN, Op. Cit. p.39.

[40] Um conjunto de diversos sítios arqueológicos próximo ao rio Daugava.

[41] Adder, no islandês do texto.

[42] Egilssaga, cap.53.

[43] Idem, cap.54.

[44] Chamada de “Dragvendill”, algo como “aquela que corta por inteiro”.

[45] Egilssaga, cap.61.

[46] SCHWABE, Arveds. Histoire du People Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri, 1953, p.41.

[47] Por tratar-se praticamente da mesma oração feita por aqueles atacados anteriormente pelos vikings na Inglaterra. GIMBUTAS, Marija. Os Baltas. RJ: Ed. Neris, 1986, p.173, afirma encontrar-se na Ynglinga Saga, mas não encontramos a referência.

[48] SCHWABE, Op. Cit. p.41. E a Erikskronikan afirma que a maior parte dos camponeses dinamarqueses raptados como escravos encontravam-se na Prússia, Kurzeme e Estônia.

[49] CHRISTIANSEN, Op. Cit.p.39.

[50] SCHWABE, Op. Cit. p.41.

[51] CHRISTIANSEN, Op. Cit. p.38

[52] Ibid, p.34.

[53] LEGOFF, Jacques (org.). A civilização do Ocidente Medieval. Vols. I &II. Lisboa: Editorial Presença, 1989.pp.251-256.

[54] Ibid. p.252.

[55] Sobre Saxo Grammaticus, suas ideologias, objetivos e obra, sugerimos nosso: Muceniecks, Andre. Saxo Grammaticus: Hierocratical Conceptions and Danish Hegemony in the Thirteenth Century. Kalamazoo & Bradford: ARC Humanities Press, 2017.

[56] Gesta Danorum, livro II: “[2]‘Externum, proceres, hostem et totius ferme Occidentis armis opibusque succinctum salutarem pugnae cunctationem sectantes inediae viribus obtinendum curemus. [3] Internum hoc malum est. [4] Difficillimum erit domesticum debellare periculum. Facile famelicis obviatur. [5] Melius adversarium esurie quam armis tentabimus, nullum hosti inedia acrius iaculum adacturi.[6] Edax virium pestis edendi penuria nutritur. [7] Armorum opem alimentorum inopia subruit. [8] Illa quiescentibus nobis tela contorqueat, illa pugnae ius officiumque suscipiat. [9] Discriminis expertes discrimen licebit inferre. [10] Exsangues absque sanguinis detrimento praestare poterimus. [11] Inimicum otio superare fas est. [12] Quis damnose quam tuto dimicare maluerit? Quis, cum impune certare liceat, poenam experiri contendat? [13] Felicior armorum successus aderit, si praevia fames bellum committit. [14] Hac primam confligendi copiam duce captemus. [15] Castra nostra tumultus expertia maneant, illa nostri loco decernat; quae si victa cesserit, otium rumpendum est. [16] Facile ab indefesso lassitudine concussus opprimitur. [17] Adesa marcore dextera pigrior in arma perveniet. [18] Lentiores ferro manus dabit, quem quispiam prius labor exhauserit. [19] Praeceps victoria est, ubi tabe consumptus cum robusto congreditur. [20] Taliter indemnes aliis damnorum auctores fore poterimus.”