A crônica da Livônia: uma primeira história letã

O território das atuais Letônia e Estônia é referenciado em fontes escritas apenas a partir do período medieval. Na maioria das fontes, algumas das regiões da Letônia de hoje como Kurzeme (a “Kúrland” dos escandinavos no período viking) e Zemgale são citadas apenas de passagem, muito brevemente, e com muita frequência em meio a acontecimentos lendários ou sobre cuja factualidade se questiona.

A primeira crônica mais longa a falar sobre a região com detalhe, trazendo descrições específicas sobre os locais e com preocupação factual é a Henrici chronicon Livoniae – a “Crônica de Henri da Livônia”, que trata de acontecimentos ocorridos entre os anos de 1180 a 1227 na Livônia.

O nome “Livônia” foi dado à região devido aos habitantes da área norte da atual Letônia, os lívios, povos fino-úgricos, de linguagem totalmente distinta dos idiomas indo-europeus da área como lituano e letão, antigo nórdico e antigo eslavônico. Atualmente os lívios são uma minoria étnica quase extinta, habitando apenas uma estreita faixa do norte da Kurzeme, mas da Pré-história ao período moderno a etnia foi o grupo predominante em toda a área entre o norte do rio Daugava até as tribos estonianas – com as quais os lívios têm parentesco muito próximo.

Os principais eventos narrados na Crônica tratam da conquista da região pelos alemães, cristãos católicos romanos, e sua disputa pela primazia na região contra dinamarqueses e suecos. Em meio a isso, algumas das tribos – como dos letões – aproveitaram-se da situação, ampliando seu território à custa de seus vizinhos, particularmente os lívios.

O episódio, que se prolongou por séculos, faz parte de um processo mais amplo das cruzadas no norte na Europa. Simultaneamente às cruzadas na Palestina, que procuravam, dentre outros objetivos, retomar a Terra santa para a Cristandade e lutar contra os pagãos muçulmanos, movimentos semelhantes ocorriam na própria Europa, contra seus próprios pagãos. Na Península Ibérica, habitada por hispânicos e portugueses, mas dominada pelos islâmicos, as cruzadas ganharam o nome de “Reconquista”. No norte da Europa, foram conhecidas como “Cruzadas do Norte”[2], e foram levadas a cabo com o auxílio de ordens monásticas militares: os Irmãos da espada (Ver Figura 01) e a Ordem Teutônica, que acabaria por estabelecer um estado monástico na região que duraria até os tempos das Reformas Protestantes.

01 - Fellin (Viljandi)
Figura 01: Reconstrução do cerco ao forte de Fellin (Viljandi), no sul da Estônia, pelos Irmãos da Espada, em 1211. Fonte: Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing, p.07.

Até o século XIII a região que vai do Norte da Alemanha e Polônia, passando pelos países bálticos até a Finlândia era habitada por populações indo-europeias do ramo bálticas (antigo prussianos, tribos lituanas e letãs) e por Fino-úgricos (lívios, estonianos e finlandeses). Esta grande quantidade de povos (ver Figura 02) era pagã e, com exceção da Lituânia, pouco organizada politicamente, consistindo em unidades tribais. Até então os nativos travavam comércio desde antes do período viking com Escandinavos e Eslavos, que se converteriam ao Cristianismo e se unificariam em torno de reis nas proximidades do ano mil.

 

As tribos bálticas no século XIII
Figura 02: As tribos bálticas no século XIII. Fonte: GIMBUTAS, Marija. The Balts. London: Thames and Hudson, 1963, p.23.

 

Com a expansão do comércio germânico para o norte, a área báltica tornou-se alvo do interesse dos europeus ocidentais, interessados em obter acesso ao mundo boreal, que fornecia produtos valorizados como peles, mel, cera e madeira. Ao mesmo tempo, a Europa passada por um momento em que a ideologia cruzada era particularmente atrativa para sua classe de nobres guerreiros, muitos dos quais não tinha perspectiva de obterem suas próprias terras perto de suas regiões de origem, interessados em tentar a sorte e aventura longe de casa.

Dessa forma, as Cruzadas do norte foram uma empreitada de expansão comercial e econômica chancelada pela Igreja cristã e pela nobreza feudal. Não devemos efetuar juízos de valor e maniqueístas sobre a circunstância; em meio a indivíduos interessados em explorar a área e os nativos, é possível se encontrar um grande número de missionários abnegados e preocupados com a conversão e bem-estar dos locais, inclusive por vezes procurando protegê-los de abusos maiores da parte dos conquistadores germânicos e escandinavos. É possível que Henri, autor da Crônica, esteja entre estes últimos.

 

O castelo de Turaida
Figura 03: O castelo de Turaida, uma das muitas fortificações construídas pelos germânicos no processo de conquista e cristianização da Livônia. O castelo passou por uma completa restauração nos tempos recentes, a parte de sua torre principal foi construída apenas no século XVI. Foto do autor.

 

Henri da Livônia

Henricus Livonicus, ou Henri da Livônia, foi um missionário, sacerdote e intérprete. Muito possivelmente era um alemão vindo da Saxônia, que teria chegado na Livônia por volta de 1205[3]. Apesar de temos afirmado sua provável origem germânica, o tópico é tema de debate entre acadêmicos, muitas vezes em meio a discussões de caráter nacionalista. É comum se encontrar alguns autores letões alegam uma origem lívia ou letã para o mesmo, ao mesmo tempo que alemães defendem majoritariamente sua origem germânica[4].

Ambas as partes procuram se fundamentar no texto do próprio Henri. Alguns autores de origem letã argumentam Henri tinha um grande conhecimento das línguas locais, já que ele usara no texto um bom número de palavras, e descreveria em detalhes costumes nativos. Interessantemente, comentaristas e historiadores alemães empregaram muitas vezes as mesmas evidências, mas para demonstrar o sentido oposto; Henri conheceria as línguas locais porque era um intérprete para os alemães.

Dentre aqueles que defendem que Henri seria um nativo da Livônia, há uma predominância de autores que escrevem histórias genéricas nacionais, não especializadas em períodos específicos e bastante generalistas, como a History of Latvia: an outline, de Arnolds Spekke, escrita em 1948 mas reeditada várias vezes[5], ou History of Latvia, de Alfreds Bilmanis, escrita em 1955[6].

Vários acadêmicos e eruditos, mesmo de origem letã e estoniana, aceitam atualmente a ideia de que Henri fora um germânico – nos incluímos aqui, nessa lista. Arveds Schwabe, por exemplo, que também escreveria um manual generalista sobre a história letã em 1953[7], dentre uma grande produção de cunho mais específico e acadêmico. Há algumas posições bastante específicas, como de Evalds Mugurēvičs, que considera que Henri poderia ter nascido no norte da Germânia, mas que isso não seria um empecilho para uma suposta etnicidade báltica ou fino-úgrica. [8]

Alguns autores exageram um pouco na extensão de suas deduções, procurando criar muito com poucas referências:

Paul Johansen, por exemplo, especula, e afirma que o conhecimento de lívio e talvez alguma língua letã (curônio, zemgálio ou latgálio) de Henri teria sido obtido no monastério de Segeberg. A base do erudito para a afirmação é uma referência do texto, que fala de certa ocasião em que o o bispo Alberto tomou 30 jovens reféns de origem lívia em 1200[9].

Possivelmente o argumento mais usual para identificar Henricus como letão é um título frequentemente encontrado junto da crônica, “Henricus de Lettis”, “Henrique, dos letos”. Esse título, no entanto, vem de tradução errônea feita em 1740 por Johann Daniel Gruber, e não se encontra nos manuscritos mais antigos.

Henri é bastante modesto e circunspecto ao falar de si mesmo. Existem apenas seis passagens na Crônica em que ele passa alguma informação ou título sua:

Henrici, scolaris Alebrandi (XI.7; 1207); Heinricus sacerdos et Lehti (XII.6, 1208); Henricus de Lettis, sacerdos et interpres (XVI.3, 1212); Henricus et Alabrandus (XVII.6, 1213); Henricus, Lettorum minister de Ymera (XXIV.1, 1220); Henricus et Petrus (XXIV.2, 1220).

 

O que é possível de se deduzir dessas passagens sem maiores malabarismo e elucubrações? Henri era sacerdote dos letões da localidade de Ymera, mas não é possível daí se deduzir uma etnicidade letã. Há muitos casos de sacerdotes e missionários, não apenas do medievo, que recebem nomes ou apelidos semelhantes, baseados nos nomes daqueles entre os quais tais missionários trabalharam. No próprio contexto da Livônia podemos citar “Theodoricus de Kukunoys” – Theodoric de Kokhenhusen/Koknese, ou “Rodolfus de Wenden” – Rudolf de Wenden/Cesis.[10]

Em algumas passagens, Henri não fala sobre nenhum título seu, mas na forma que usa os pronomes, ou como descreve os conflitos e acontecimentos, é possível se perceber que ele se identifica com os alemães. Note-se a seguinte passagem, que fala de uma batalha:

 

Ex nostris vero ceciderunt duo et ex Lettis duo (…)

“Dos nossos caíram dois e dos letões, dois (…)” (XXIII.9; 1220)

 

Dificuldades à parte, existe um trabalho erudito muito detalhista e de qualidade feito sobre Henri, procurando reconstruir um pouco de sua vida. A informação foi listada satisfatoriamente por Paul Johansen em 1953[11]; os eruditos posteriores acrescentaram pouca coisa, com a exceção de Arbusow. Desses trabalhos normalmente tiram-se as seguintes possibilidades:

Henri nascera por volta de 1188, provavelmente na Saxônia. Estudou possivelmente no monastério de Segeberg, em Holstein, região limítrofe da Saxônia com a Dinamarca – uma localidade citada por ele com frequência (I.2; VI.3; IX.6; X.7). Ali, Henri adquirira um sólido conhecimento do latim eclesiástico. Henri cita a Vulgata e documentos litúrgicos latinos a praticamente toda página da crônica, mas seu uso de autores clássicos é bem menor.

Possivelmente no próprio monastério Henri teve seu primeiro contato com as línguas bálticas, próximo a 1200, provavelmente por meio dos reféns obtidos pelo bispo Alberto na Livônia, e que ficaram sob os cuidados do irmão do mesmo, Rothmar, abade de Segeberg.

Henri provavelmente chegaria à Livônia em 1205, trabalhando como acadêmico e tradutor da missão do bispo Alberto. Seria ordenado sacerdote em 1208, e receberia provavelmente a paróquia de Papendorf, Rubene em letão, localizada cerca de 14 km a sudeste de Wolmar, Valmiera em letão. Viveria ali com os letões, os quais tentaria evangelizar pelo restante de sua vida.

Henri escreveria sua crônica provavelmente entre os anos de 1224 a 1226, baseando-se em relatos e em experiências próprias. No ano de 1227 ele adicionaria uma seção que contaria a conquista da ilha estoniana de Ösel/Saaremaa no próprio ano.

Entre os anos de 1225 a 1227 Henri assumiu também a função de intérprete de William de Modena, legado papal. É possível que sua crônica venha de uma espécie de relatório para ele sobre o andamento da missão na Livônia.

É possível se apreender outras características de Henri além de datas, nomes e locais que trazem uma imagem um pouco mais viva. Algumas de suas narrações e descrições são bastante gráficas e vívidas, frequentemente cheias de detalhes e até mesmo humor. detalhadas. Ele demonstra algum interesse por tecnologias e táticas bélicas; descreve, por exemplo, o uso da Ballista (ver Figura 04), fala sobre a reação dos nativos às inovações trazidas pelos alemães, e mostra o rápido aprendizado dos locais.

Exemplo da Ballista medieval.
Figura 04: Exemplo da Ballista medieval. Obtido em: < https://br.pinterest.com/pin/527343437590827743/?lp=true >em 09/08/2017

Henri parece ter algum interesse na música. Em certa parte da crônica ele conta que, em meio ao campo de batalha, ele pôs-se a tocar certo instrumento musical, que o texto não afirma qual é. Considerando-se a circunstância da batalha, e a necessidade de volume sonoro, nos arriscaríamos a afirmar que o instrumento pode ter se tratado de alguma forma de trompete ou alguma espécie antiga de dudel, a gaita de foles germânica similar às dūdas letãs (ver Figura 05), mas trata-se nada mais que uma pressuposição nossa.

Dūdas
Figura 05: Dūdas – A gaita de fole letã. Selo de 2014.

Algumas das descrições dos costumes nativos parecem ter chocado ao autor. Em mais de uma ocasião Henri relata batalhas entre os locais e os germânicos, por vezes com alguns detalhes curiosos, possivelmente de fundo religioso. Em mais de uma passagem, por exemplo, ele cita tribos locais efetuando decapitação; zemgálios levando carros que seriam cheios das cabeças de seus inimigos, kurs cortando a cabeça de seus próprios companheiros feridos em um cerco a Rīga, e um letão que levaria a cabeça de seu inimigo como troféu.

Henri ainda residiria próximo a Papendorf/Rubene em 1259, já idoso, onde provavelmente faleceu[12].

 

A Crônica da Livônia: os manuscritos

Existem 16 cópias ou fragmentos da crônica, datados de séculos posteriores de sua escrita original. A maior parte dessas cópias foi feita no século XVI, durante o governo dos suecos na Livônia; pela grande quantidade de fragmentos e cópias existentes, nota-se que a crônica despertou muito interesse, particularmente durante o período sueco.

O manuscrito mais antigo é o Codex Zamoscianus, tratando-se de uma cópia – possivelmente do original – feita na Livônia no início do século XIV[13]. Durante o governo Polonês na Livônia e Estônia o manuscrito foi levado para a Polônia, e atualmente o manuscrito encontra-se guardado e protegido na Biblioteca Nacional Polonesa (Biblioteka narodowa), em Varsóvia.[14]

O manuscrito está incompleto; faltam suas primeiras quatro páginas, e ele chega apenas até o capítulo XXIII; faltam nele um terço da totalidade da crônica.

Outro manuscrito importante é chamado de Codex Skodeiskianus ou Codex Rigensis, uma cópia feita no século XVII. Está depositado na Latvijas Akadēmiskajā bibliotēkā em Riga, e pertencia a um pastor luterano chamado Nathanael Skodeisky. Com esse manuscrito Arbusow preencheu a maior parte do trecho que faltava do Codex Zamoscianus.

Outros manuscritos importantes usados pelos eruditos para produzir o texto crítico completo são a) o Codex Gymnasialis Revaliensis, cópia do século XVII guardada em Tallinn – única cópia que, a despeito de sua má qualidade, contém uma frase do capítulo XV que falta nos outros manuscritos[15]; b) Codex Toll cópia também de relativa baixa qualidade feita no século XVII, pertencera ao barão Robert Von Toll (1802-1876), um historiador amador; esse manuscrito foi útil na reconstrução de três sentenças da crônica.[16]

Finalmente, cabe aqui mencionar o Codex Oxenstierna, outra cópia do século XVII. Este último códice é interessantíssimo por tratar-se de uma tentativa, já no século XVII, de um acadêmico coletar os fragmentos disponíveis e juntá-los em uma edição. Pertencera a Erik Axelsson Oxenstierna (1624-1656), governador sueco da Estônia entre 1646 a 1652.

Depois de passar por uma série de proprietários, o manuscrito chegou às mãos de Johann Daniel Gruber (1686-1748), bibliotecário da Landesbibliothek de Hannover, que seria o primeiro editor crítico da crônica. Suas edições, no entanto, incluem muitas alterações e interpolações, e o manuscrito foi recopiado em latim clássico, diferente do latim medieval do século XIII no qual a crônica foi originalmente escrita.

 

A Crônica da Livônia: edições e traduções

 

A primeira edição do texto latino foi publicada em 1740 pelo já citado Johann Daniel Gruber, que foi o responsável por tornar popular o título errôneo, “Henri dos letões”. Já a primeira tradução, para o alemão, foi feita por Johann Gottfrid Arndt em 1747, com algumas correções do texto de Gruber.

Uma nova edição, com essas correções e uma nova tradução – também para o alemão – foi feita por August Hansen 1853, seguida de outra de Pabst, em 1867. O texto latino da Monumenta Germaniae Historica foi editado em 1874 por Wilhelm Arndt, ao qual foram feitas correções e adições por Leonid Arbusow em 1926 e 1927, adicionadas às edições finais de Bauer, de 1955 e 1959. Esta edição crítica pode ser acessada online[17], consistindo no texto base para os estudos acadêmicos, e de onde retiramos as referências .

A crônica foi traduzida para o inglês por James Brundage apenas em 1950-51, ainda baseada na edição de Arndt com poucas das alterações de Arbusow, sendo reeditada em 1961 e 2003 – desta feita com as alterações baseadas na edição de Bauer.

As primeiras traduções para o letão foram feitas por Matīss Siliņš em 1883 e Jānis Krīpēns em 1936. Em 1993 a Zinātne publicou uma nova tradução para o letão, da parte de Ābrams Feldhūns, com introdução e comentário de  Ēvalds Mugurēvičs[18] e atualizada segundo o aparato crítico de Arbusow e Bauer.

Para o estoniano, a primeira tradução foi publicada por Jaan Jung em 1884[19]. Seria seguida por outra tradução apenas em 1962, por Jūliuss Megiste, publicada em Stockholm. Finalmente, Rihards Kleis publicaria uma nova tradução estoniana em 1982, com comentário e introdução de Enn Tarvel.

As traduções da crônica para o russo possuem uma história à parte. Trechos da mesma foram traduzidos pela primeira vez em 1854 por A. Kunik, sendo que em 1876 uma tradução completa com introdução e comentários foi preparada por J. Cheshikhin-Vetrinski. A versão mais autoritativa foi publicada em 1938 por Anninski e Bystrianski na URSS. A introdução de Anninski é sóbria e detalhada, acadêmica em todos os sentidos; também foi a primeira tradução a se valer dos trabalhos críticos de Arbusow. O prefácio de Bystrianski, no entanto, veicula ideologia soviética da década de 30, particularmente o antagonismo contra os germânicos, representando a Alemanha nazista da década de 30.

A crônica foi traduzida para o lituano apenas em 1991, por Juozas Jurginis, e para o finlandês em 2003, da parte de Maijastina Kahlos e Raija Sarasti-Wilenius. Além destas linguagens, existe ainda uma tradução publicada para o italiano em 2005, feita por Piero Bugiani, com comentário e introdução de Pietro Umberto Dini.

Uma tradução e comentário da crônica para o português, baseando-se na edição crítica de Arbusow, está sendo preparada por Renan Birro, Álvaro Bragança e André Muceniecks. Muito do conteúdo desse artigo é original da pesquisa feita para essa edição, que esperamos poder apresentar em breve.

 

Bibliografia:

Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.Várias reedições.

Christiansen, Eric (1997). The Northern Cruzades. London: Penguin Books, first edition 1980.

Gimbutas, Marija (1963). The Balts. London: Thames and Hudson.

Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993.

Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp. 385-408.

Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia, in Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion, edited by Marek Tamm, Linda Kaljundi, and Carsten Selch Jensen. Farham: Ashgate Publishing, pp.77-106.

Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne.

Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006.

Tamm, Marek & Kaljundi, Linda & Jensen, Carsten Selch (eds.) (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing.

Turnbull, Stephen & Dennis, Peter (2004). Crusader Castles of the Teutonic Knights. Vol 2. New York: Osprey Publishing.

Urban, Willian (1994). The Baltic Crusade. Chicago: Lithuanian Research and Studies Center Inc. & McNaughton & Gunn Inc.

____________ (2003). The Teutonic knights: a military history. London: Greenhill books.

Site:

Chronicon Livoniae, In: Monumenta Germaniae histórica. Obtido em (09/09/2017): http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[1] Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

[2] Ver Christiansen (1997[1980]), The Northern Crusades, Urban (1994), The Baltic Crusade, e  Urban (2003), TheTeutonic Knights,  nas referências bibliográficas.

[3] Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing,  p. xviii.

[4] Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[5] Spekke, Arnolds (1948). History of Latvia: an Outline. Riga: Jumava, rep.2006, p.123.

[6] Bilmanis, Alfreds (1955). History of Latvia.

[7] Schwabe, Arveds (1953). Histoire du Peuple Letton. Stockholm: E. Olofssons Boktryckeri.

[8] Mugurēvičs, Ēvalds (1993). Priekšvārds. In: Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 444ss.

[9] Johansen, p. 10.

[10] Kivimäe, Jüri (2011). Henricus the Ethnographer: Reflections on Ethnicity in the Chronicle of Livonia.  p. 80.

[11] Em sua obra Johansen, Paul (1953). Die Chronik als Biographie: Heinrich von Lettlands Lebensgang und Weltanschauung. In: Jahrbücher für Geschichte Osteuropas, neue Folge I.

[12] Johansen, p.15.

[13] Mugurēvičs, pp. 18ss.

[14] Kala, Tiina (2011). Henry´s Chronicle in the service of Historical thought: Editor and Editions. In: Tamm, Marek (2011). Crusading and Chronicle Writing on the Medieval Baltic Frontier: A Companion. Farham: Ashgate Publishing, p.388.

[15]simul et virorum interfectorum alia duo milia”.

[16] Kala, p. 389.

[17] http://www.dmgh.de/de/fs1/object/display/bsb00000734_meta:titlePage.html?sort=score&order=desc&divisionTitle_str=&hl=false&fulltext=livoniae&sortIndex=010:070:0031:010:00:00&context=livoniae

[18] Indriķa hronika. No latīņu valodas tulkojis Ā. Feldhūns; Ē. Mugurēviča priekšvārds un komentāri. Rīga: Zinātne, 1993. 453 lpp.

[19] “Läti Hendriku Liiwi maa kroonika ehk Aja raamat”.

Mitologia letã I: Pērkons, o deus do trovão

Artigo escrito pelo Prof. Dr. André S. Muceniecks – Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

Na mitologia báltica, compartilhada em linhas gerais por letões, lituanos e os antigos prussianos, sem dúvida a divindade mais popular nas eras medieval e moderna foi o deus do trovão – Pērkons para os letões, Perkūnas, para os lituanos e Perkūns para os antigos prussianos.

Diversos teóricos e historiadores procuraram sistematizar a religião dos antigos povos bálticos, sistematizando-a de forma a apresentar um todo compreensível. Diferentemente do Cristianismo, Islamismo, Judaísmo e outras religiões com uma revelação escrita e dogmas definidos, a religião antiga dos povos bálticos era extremamente múltipla em suas manifestações locais, e a tarefa de se reconstruir uma religião unificada e coerente acaba por produzir um sistema que dificilmente seria reconhecido pelas populações antigas.

Uma das sistematizações mais difundidas, de cunho estruturalista, foi desenvolvida pelo francês Georges Dumézil, que estudou a chamada ideologia tripartite, compartilhada pelos povos de linguagem indo-europeia, como hindus, iranianos, persas, latinos, helênicos, celtas, germânicos, eslavos e baltos. Dumézil demonstraria que os indo-europeus conceberiam o mundo, os homens e os deuses de forma ternária; os deuses estariam organizados em três funções: a) a primeira função, mágico-religiosa; b) a segunda função, guerreira; c) a terceira função, de fertilidade e fecundidade.

Dessa maneira, os panteões dos povos indo-europeus apresentariam deuses específicos a essas funções e seriam semelhantes entre si. Observe-se as mitologias Greco-Romanas e escandinavas; existem tríades de deuses entre os romanos, formada por Júpiter, Marte e Quirinus e entre os escandinavos, como Óđinn, Thorr e Freyr; nessas tríades, em um plano ideal, a primeira divindade estaria responsável pelo governo dos demais deuses, possuindo a soberania mágica e religiosa; a segunda divindade possuiria primariamente a função da guerra e da defesa, enquanto à terceira estariam reservadas as tarefas ligadas à reprodução, fertilidade, fecundidade e colheitas.

A arqueóloga lituana Maria Gimbutas deu continuidade e embasamento arqueológico às ideias de Dumézil, procurando explicar a origem e migrações dos povos indo-europeus, sempre dando grande destaque aos povos de sua própria origem, os lituanos. Em adição à explicação indo-europeia, Gimbutas desenvolveria o conceito da religião da “Antiga Europa”, anterior à chegada dos indo-europeus. Para Gimbutas, essa antiga religião europeia era pacífica, dominada por divindades femininas, mais ligadas à fertilidade e fecundidade; a chegada dos imigrantes indo-europeus na Idade do Bronze transformaria a Europa Pré-histórica com uma ideologia guerreira, masculina e patriarcal.

Gimbutas chegaria a afirmar, de forma idealizada e nacionalista, que a religião dos antigos lituanos e letões seria a forma mais perfeita e balanceada da religião da Velha Europa, centralizada em muitas divindades femininas e ligadas a terra,  com as crenças indo-europeias, mais focada em deuses masculinos e celestes[1].

Esse brevíssimo apanhado teórico deixa razoavelmente claro como tentativas de organização e estruturação fechadas da religião báltica, ou a construção de um panteão muito definido de deuses podem construir algo artificial e anacrônico. Nesse artigo não procuraremos fazer isso; antes, apresentaremos a divindade mais popular entre os antigos baltos em sua multiplicidade de descrições e funções: Pērkons, o deus do trovão.

O nome Pērkons deriva do termo indo-europeu per(k), segundo Ivanov e Toporov (1974) ou per(g), segundo Muelenbach(1951) e Endzeliņš (1972). Baseando-se na etimologia de seu nome, são propostos três significados básicos; Pērkons poderia ser a) o deus do trovão e da chuva, segundo Muelenbach e Wiedemann, b) o deus das alturas e da montanha, segundo Karsten e Ivanov, que conectam seu nome com a palavra gótica fairguni (“montanha”), com o hindu parvata (“montanha”) e com o hitita peruna (“rocha”); c) o deus dos carvalhos, como argumentado por Porzig, Hirt e Speht – perkus seria comparado ao latim quercus (“carvalho”)[2].

Todas as etimologias propostas apresentam significados que são encontrados ligados à Pērkons, e não se pode excluir uma em detrimento da outra.

Nas acepções de Dumézil, Pērkons é uma divindade de origem indo-europeia da segunda função, ligado, portanto, à guerra. Há muitos deuses similares a ele em outas mitologias indo-europeias; recentemente, sem sombra de dúvida o mais conhecido pela cultura popular é o deus escandinavo Thor (antigo nórdico Þórr), mas podemos citar o Perun dos russos, o Taranis céltico, e mesmo o deus Tharapita dos fino-úgricos como lívios, estonianos e finlandeses que, ainda que não indo-europeus, sofreram influência dos vizinhos bálticos.

Como deus do trovão e da segunda função, as principais atribuições de Pērkons tratam-se da defesa e do combate ao mal. No entanto, como o Thor escandinavo, sua atribuição de controlar as chuvas fornece-lhe também controle sobre as colheitas, o que lhe concede um papel muito importante também como divindade que colabora para a fertilidade e colheitas; a ele eram oferecidos, por exemplo, sacrifícios durante períodos de seca.

Trata-se indiscutivelmente da figura mitológica mais bem descrita no mundo Báltico, e da qual possuímos as mais antigas referências escritas; é citado, na Livländische Reimchronik (ca. 1290), onde é descrito como “deus dos Kurs”, e mencionado  (como “Perkūns”) na versão russa medieval da crônica de Malalas (1261) juntamente com outros deuses dos lituanos. Peter Dusburg, escrevendo em 1320, falaria sobre o lugar sagrado de Romuva, na Prussia, onde o deus seria cultuado, um relato que depois seria copiado e repetido por muitos.

Baseando-se em Dusburg e cronistas subsequentes como Grunau, bem como na religião comparativa, presume-se que os lugares de culto por excelência a Pērkons eram as florestas, particularmente os carvalhais. Em tais florestas mantinha-se aceso um fogo perpétuo que, em caso de apagamento, precisava ser reaceso por meio de rituais especiais. Tal associação entre um fogo perpétuo, florestas proibidas, carvalhos e o culto ao deus do trovão é notado também entre os antigos germânicos pagãos, que cultuavam Donnar – equivalente germânico continental ao escandinavo Thor[3].

Além da possível etimologia do nome, ligado ao carvalho, existem outros relatos de povos indo-europeus, principalmente no âmbito céltico e germânico, que fazem conexão entre o deus do trovão e o culto em florestas; o carvalho, árvore mais frequentemente atingida por raios, era considerada a árvore de Pērkons.

As narrativas de cronistas posteriores e documentos locais demonstram a vivacidade e popularidade do deus, séculos após século. Os estatutos da cidade de Rīga, datados de 1413 (Statutae provincialia concilli Rigensis) demonstram como o culto ao deus ainda era praticado pelos camponeses e nativos bálticos, a despeito dos quase duzentos anos de tentativas de conversão ao catolicismo romano:

“(…)estamos chocados que alguns fazendeiros da província de Livonia não somente não observam os ritos cristãos e, pior ainda, prestam homenagem a deuses demoníacos – ignorando completamente o santo Deus e, ao invés, adorando  deuses da terra, como Pērkons, que eles chamam seu deus. Serpentes, vermes, e árvores, eles também adoram.” i tic […]” (Statuta provincialia, par 27)

A conversão da Livônia e das províncias bálticas ao protestantismo, no início do século XVI, não mudaria drasticamente a situação. D. Fabricius, eclesiástico católico, escreveria sobre a situação da Livônia, descrevendo a existência de culto – do qual afirmava ter sido testemunha ocular – e oferecimento de sacrifícios a Pērkons em data tão tardia como 1610:

“Durante uma seca, quando não tem havido chuva, eles adoram a Pērkons em densas florestas em colinas, e sacrificam a ele um bezerro preto, um bode preto e um galo preto. Quando os animais são mortos, então, de acordo com seus costumes, as pessoas de toda a vizinhança se reúnem para comerem e beberem juntas. Prestam homenagem a Pērkons primeiramente derramando-lhe cerveja, que é então trazida em volta do fogo, e uma última libação é feita no fogo, pedindo-se a Pērkons que lhes dê chuva”[4].

Pērkons é descrito como um homem ruivo, barbado, forte, severo e moralista. Na mitologia lituana, sua barba é ruiva ou acobreada; em algumas canções folclóricas letãs, sua barba é cinza[5] ou branca[6]. Simon Grunau, cronista do século XVI e autor da Preussiche Chronik, descreverá sua barba como preta, mas o retratará em uma suposta bandeira dos antigos prussianos de forma diferente:

Bandeira dos antigos prussianos
Figura 01: Bandeira dos antigos prussianos com representação de Pakols, Pērkons e Patrimps. A escrita está em antigo prussiano, em caracteres não decifrados e provavelmente inventados pelo autor.
Fonte: GRUNAU, Simon. Preussische Chronik, Hrg. Von W. Perlbach, vol. 1-3, 1876-1895.

 

Simon Grunau foi responsável por tornar popular uma suposta tríade de deuses bálticos, formada por Pakols, Pērkons e Patrimps. Esta tríade foi muito criticada pela historiografia posterior, sendo considerada por muitos como uma cópia da descrição que Adam de Bremen fizera de um suposto templo em Uppsala, Suécia, no qual estariam representados Odinn, Thor e Freyr. Há acadêmicos como Jaan Puhvel, no entanto, que consideram que a referência deva ser levada a sério.

As referências de cronistas e documentos fornecem apenas uma pálida e extática visão da mitologia antiga báltica, cheia de lacunas, narrada por pessoas externas aos costumes, normalmente hostis a eles.

Uma natureza de fonte primária muito distinta é a coleção de Dainas, canções folclóricas letãs. Impossíveis de serem datadas, têm sido coletadas e catalogadas pelos estudiosos por séculos, formando um corpo de rica e abundante informação sobre as crenças antigas. É por meio das descrições e referências nas Dainas que se obtém outra visão sobre Pērkons, historietas e narrativas a ele ligadas.

Muitas descrições de cronistas de sacrifícios e mesmo a conexão ao carvalho são observadas também nas Dainas e no material folclórico. Por meio desses estudos folclóricos, no entanto, se obtém uma visão de Pērkons mais ampla, incluindo suas relações com outros deuses e seu papel de divindade que combate o mal – personificado como Jods ou Velns.

Um mito popular ligado a deus comenta sobre sua intervenção entre Mēness e Saule. Enquanto uma versão conte que Pērkons fora casado com Saule, e a deusa o traiu com Mēness, a mais popular considera que Mēness e Saule formavam um casal.

Mēness (a lua – no báltico, uma palavra masculina), deus da guerra, casado com Saule (o sol – no caso, uma deusa), traiu-a com uma mortal. Como castigo, Pērkons cortou sua face com uma espada. Mēness, no entanto, não aprendera a lição, e voltaria a cometer adultério todo mês. Esta narrativa explicaria a lua crescente.

Pērkons possui uma arma que varia muito de acordo com a Daina, com a região, e mesmo com um tempo – um martelo de pedra, uma espada, uma clava, uma bola de fogo, um chicote, e até mesmo uma espingarda.

Com esta arma Pērkons criaria o trovão e o raio e combateria o mal, nomeado no letão como Jods ou Velns. Velns é traduzido como “Diabo”, “demônio”, um exemplo de sincretismo e influência tanto da parte da religião dualista dos vizinhos fino-úgricos, quanto do Cristianismo. Um pequeno grupo de canções folclóricas liga Pērkons ao ferreiro dos deuses; alguns acadêmicos consideram que Pērkons estaria ligado a esse ferreiro, enquanto outro ponto de vista consideraria que o próprio Pērkons seria o ferreiro. A explicação da conexão é a seguinte: o ferreiro forjaria armas mágicas e com elas combateria o mal, ou providenciaria o meio para Pērkons fazê-lo; ou , ainda, o bater do martelo do ferreiro celestial produziria o raio e o trovão. Uma daina muito popular conta que as cinzas de sua forja, ao caírem na terra, se transformavam em ouro e prata:

“Kalejs kala debesis Ogles bira Daugava!… “(Daina 54868)[7]

Pērkons anda num cavalo voador, mas não num carro ou carroça, podendo também se locomover em nuvens e no próprio raio; o lituano Perkūnas, porém, anda num carro puxado por dois bodes (também voadores); suas rodas rangendo fazem o barulho do trovão[8]. Este último atributo é muito comum entre outros deuses do trovão, mas não à versão letã[9].

Por fim, Pērkons é facilmente pela aparição de alguns de seus símbolos: pequenos machados encontrados em vestígios arqueológicos dos antigos baltos e a ugunskrusts: a cruz de fogo, mais conhecida como “suástica”. As latvju zimes, símbolos mitológicos representando divindades e outros conceitos, são encontrados ainda contemporaneamente na Letônia e Lituânia. O símbolo de Pērkons é ainda atualmente bordado e entalhado amiúde no artesanato e nos instrumentos musicais letões, sem a conotação negativa recebida do nazismo no século XX (ver figuras 02 a 06).

Detalhe da capa do CD “Kokles”
Figura 02: Detalhe da capa do CD “Kokles”, do letão Valdis Muktupavels. As kokles são instrumentos milenares da região do Báltico e possuem equivalentes diretos na Finlândia, nos outros países bálticos e na região adjacente da Rússia e Bielo-Rússia. Notes-se o entalhe de uma suástica no canto direito superior, que é o símbolo, nas Latvju zimes, do deus Pērkons.

 

Figura 03:Kokle de Latgale (Letônia Oriental) com os símbolos de Pērkons ao centro e na spārns (aba). Foto de Ansis Berziņš. Obtido em <http://folklora.lv/muzikas/kokle/en.shtml> último acesso em 25/07/2017.
Figura 04: Foto promocional do Grupo de Heavy-Metal letão “Skyforger”. Datada de 2003, não se encontra mais na página da banda. O emprego da figura de Pērkons encontra-se tanto no uso do símbolo quanto em outras fotos promocionais, nas quais os integrantes vestem-se com fardas militares, e mesmo no nome da banda: “Skyforger”, “forjador” ou “ferreiro” celeste, é uma das atribuições que as Dainas dão a Pērkons. Provavelmente a banda não tem mais usado a ugunskrusts pela óbvia aparência de apologia ao neo-nazismo que fotos dessa modalidade inspiram.

 

Figura 05: Ornamentos de camisas – Rucava. Fonte: ROZENBERGA, Op. Cit. p. 282

 

Figura 06: Manga de Camisa com o símbolo de Pērkons rodeado por uma cruz de Mēness. Aproce, próximo a Nica. Fonte: ROZENBERGA, Op. Cit. p.239

 

Referências

 

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[1] GIMBUTAS, The Balts, 1963; GIMBUTAS, The Civilization of the Goddess, 1991.

[2] ŠMITS, Pēteris. Latviešu mitoloģija. Riga, 1926.

[3] DAVIDSON, Hilda Ellis. Deuses e Mitos do Norte da Europa. São Paulo: Madras, 2004 [Cambridge, 1964]. p.73.

[4] A referência da fonte vem de MUGUREVIČS, Ethnic processes in baltic-inhabited territories and the emergence of the latvian nation in the 6th to the 16th century. 1997 (sem número de página).

[5] LP vol. 7, p.465. In: http://www.pantheon.org/articles/p/Perkons.html

[6] Latviešu folkloras krātuve, 720, 2; Latviešu folkloras krātuve 941, 2681.

[7] Catálogo online completo em <http://www.dainuskapis.lv/>  Último acesso em 25/07/2017.

[8] GIMBUTAS, Os baltas. pp.246s; STRAIŽYS, Op. Cit (sem referência de Página).

[9] <http://www.pantheon.org/articles/p/Perkons.html>

 

Os tesouros da Língua Leta

Uma língua é muito mais do que uma forma de comunicação adotada por um determinado povo – sua estrutura é como uma tapeçaria dos movimentos históricos e culturais que caracterizam esse povo, o que a torna chave para a sua identificação e unidade como tal. Com o leto, não seria diferente. Pelo contrário: essa é uma das línguas mais antigas ainda vivas, apesar dos primeiros registros em escrito nela serem tardios (1546, uma tradução da oração Pai Nosso), e, o fato de ter sobrevivido a tantas invasões e dominações basicamente pela tradição oral e pela força de vontade de seus falantes diz muito sobre o papel central que ocupa na identificação do povo leto.
O leto faz parte do grupo das línguas bálticas, dentro da família indo-europeia, distinto de outros grupos como o germânico (o grupo da língua alemã) e românico (o da língua portuguesa). É considerado uma rica fonte para estudos históricos por conservar características arcaicas que foram se perdendo em outras línguas indo-europeias, sendo, portanto, muito importante para a reconstrução do idioma do qual as línguas que hoje se falam na Europa e Ásia Menor teriam derivado, o proto-indo-europeu. Das línguas bálticas, hoje só possuem status oficial o leto e o lituano.

Apesar de ser uma língua de forte tradição oral, pois assim permaneceu até o século XVI, consolidou-se no leto um intrincado sistema gramatical: é uma língua flexiva (em que as indicações de tempo, pessoa e número estão na própria palavra), como o português, e apresenta sistema de declinação de casos nominais (mudanças são feitas na palavra de acordo com a função que ela desempenha numa frase), sendo eles sete: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, instrumental, locativo e vocativo  e seis conjugações. Essas características podem tornar o estudo do leto mais complicado, mas não menos recompensador.

Atualmente, devido aos processos históricos de dominação que marcaram a Letônia, 80% da população do país falam o leto, enquanto, destes, 56% o possuem como língua materna e a língua utilizada no lar. O governo leto coloca em prática muitas políticas de incentivo ao uso da língua do Estado, e várias atividades culturais são promovidas para esse fim. Anualmente, o Centro Estatal de Linguagem promove o Gimalajiešu superlācis, um concurso para avaliar os erros ortográficos e estilísticos em leto mais cômicos.

Aprender a língua leta é um passo essencial para quem deseja conhecer profundamente a cultura e história leta, por ela mesma ser uma rica herança para o povo leto. Sua estrutura possibilita formas de expressão únicas, próprias para a cultura leta. Como exemplos, veja esses ditados populares: pūst pīlītes significa literalmente “soprar patinhos”, mas figurativamente quer dizer “falar coisas sem sentido”, como seria o nosso “falar abobrinhas”, e ej bekot literalmente é “vá colher cogumelos”, enquanto figurativamente diz “vá embora”, como o nosso “vá catar coquinho”. Mais do que aprender uma nova língua, aprender o leto é herdar um tesouro cultural.

Celebração de Līgo em Riga

No ano passado fiz um estágio na Letônia e tive a oportunidade de ir a uma celebração de Līgo ou Jāņi (o Solstício de Verão, o feriado mais popular do país) em Riga, no dia 23 de junho. As festas de Līgo mais tradicionais acontecem nas cidades do interior, mas para participar você precisa ser convidado, já que são festas familiares.

Poucos letões ficam na capital durante o feriado de Jāņi. Apesar disso, todo ano duas festas de solstício de verão são realizadas em Riga para quem não pode ir para o interior: uma na praça 11.Novembra, na parte velha da cidade, com DJs, performances teatrais, dançarinos e cantores folk, e outra no parque Dzegužkalns (Colina dos Cucos), a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade, meia hora de viagem de ônibus.

Eu optei pela última festa por considerar que esta teria um clima mais bucólico, tradicional e mais perto da natureza que no centro e porque a programação de Dzegužkalns oferecia bandas folk incríveis, como Iļģi, uma das bandas mais antigas da Letônia em atividade, e Auļi, que toca tambores e gaitas de fole.  E minha escolha foi muito acertada.

No centro a festa é mais para turistas. Muitos estrangeiros também vão à celebração no parque, mas são mais estrangeiros que moram na Letônia e já estão familiarizados com a cultura local. Além de famílias letãs, encontrei pessoas da Colômbia, Chile, Espanha, Alemanha, Índia… Além disso, é grande o número de russos. Como é uma festa aberta, os russos que moram no país marcam presença. O parque é lindo e grande, com muitas árvores, flores e pássaros e um rio.

A festa começou às 20:00 e havia muito para ver e fazer. Se a Letônia é conhecida como o país da música, no dia do Solstício de Verão há ainda mais canto e dança que de costume. As músicas folclóricas eram cantadas e dançadas tanto no palco, quanto na grama. Tinha gente de todas as idades e muita comida típica e cerveja boa com preço justo. Os letões estavam todos vestidos com roupas tradicionais e as mulheres com coroas de flores naturais e os homens com coroas de folhas de carvalho. Quem nunca tinha feito uma coroa podia aprender a confeccioná-las com flores colhidas nos campos da Letônia.

Também dava para comprar artesanato e aprender danças típicas. Quem se cansasse de dançar, era só estender um pano na grama, relaxar e observar as estrelas, mas nada de dormir! Diz a tradição que no Līgo todos têm que esperar o nascer do sol acordados e quem dorme antes não vai aproveitar o verão.

Ao entardecer uma grande fogueira foi acessa no centro e a partir dela, outras menores foram alimentadas e espalhadas pelo parque para quem sentisse frio. A temperatura estava amena, mas havia um vento gelado.

A festa foi linda e muito organizada. Passei 10 horas na celebração com pessoas desconhecidas que depois de alguma conversa pareciam velhos amigos; o calor humano era cativante. Quando o sol estava nascendo subimos uma das colinas do parque com a cantoria de músicas tradicionais comandada por um casal. Já no topo eles começaram a cantar mais alto, se revezando, e quem sabia as letras acompanhava. Quando o sol já estava alto, lá pelas 06:00, todos fizeram silêncio para apreciar a vista ou fazer reflexões. Casais se abraçavam. A maior parte das crianças começava a demonstrar sinais de sono. Aos poucos a multidão foi se dispersando, cada um indo para suas casas ou para continuar a festa no centro da cidade. Meu primeiro Solstício de Verão na Letônia foi inesquecível! Não tão legítimo, é verdade, por ter sido em Riga, mas ainda, sim, mágico!

 

Texto e fotos: Maria Fernanda Gottardi

A festa do Līgo

A festa do Līgo – também chamada comumente de Jāņi – é certamente o mais popular dos feriados letos. Celebrada na Letônia durante a noite mais curta do ano (o solstício de verão), no dia 23 ao 24, durando só das 23h às 3h, a festa é comemorada com muita dança, música e comidas típicas ao redor de uma fogueira.

Embora a época do Līgo, na Letônia,  seja também a das chuvas (os letos dizem com frequência para os dias chuvosos līst kā pa Jāņiem, “chove como se fosse o Jāņi”), isso não impede que multidões se reúnam nas principais cidades para celebrar. Para participar, apenas é preciso ter disposição e alegria. A festa é uma grande celebração da cultura e ancestralidade leta; várias tradições anciãs são preservadas.

História

A celebração da festa do Līgo vem desde os tempos imemoriais da cultura leta, quando os trabalhadores rurais se reuniam comemoravam a chegada do solstício verão e boas colheitas. Associava-se a celebração com as forças e divindades da natureza na mitologia leta – para celebrar o período entre a plantação e a colheita, para atrair felicidade e espantar o azar.

Na verdade, o solstício de verão acontece no dia 21 de junho, mas com a cristianização, as celebrações foram prorrogadas para o dia 23 para ficar mais perto do dia de São João (24), e daí temos o nome Jāņi. Além disso, os nomes Jānis e Līga estão entre os mais populares na Letônia, e são comemorados nos dias 24 e 23, respectivamente.

A celebração do Līgo é de grande importância para a cultura leta. Com o desenvolver da História, as celebrações foram proibidas, como na União Soviética, mas o povo continuava a se reunir para celebrar a identidade leta nos kolkhozes. Hoje em dia, o feriado é muito importante por celebrar a tradição e herança cultural leta.

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Os preparativos

O Līgo começa com a preparação das casas e saunas letas, os arredores são limpos: Lavagem, corte de grama, estocamento de lenha. É comum passar o feriado nas áreas rurais do país, com a natureza e as fogueiras – Mas nas grandes cidades também são organizadas celebrações e eventos especiais, como a venda de plantas medicinais, ervas, temperos, coroas de folhas, queijo, cerveja e muitas outras coisas para que os letos possam aproveitar a noite da melhor forma possível

A Coroa (Vainagi)

A coroa circular do Līgo simboliza o sol. Na confecção das coroas, os homens usam ramos de carvalho, e a coroa das mulheres é entrelaçada com uma variedade de flores dos pastos – As mulheres casadas também colocam folhas de carvalho em meio as flores, e todas as coroas são tecidas com muito esmero.

Colocar a coroa na cabeça de um amigo é sinal de uma relação forte e sincera.

As Ervas (Jāņuzāles)

Pela manhã, decora-se os cômodos com galhos de carvalho e bétula, margaridas e vidoeiro. Todas as flores, ervas e árvores de flor neste dia são consideradas “Jāņuzāles”, na tradição popular, acredita-se que as ervas coletadas ao nascer do sol possuem poder medicinal, e por isso nesta época são populares os chás naturais.

Com estas ervas também são criadas guirlandas e o portão do sol – um a oeste (rietumi) e outro a leste (austrumi), para simbolizar o nascer e pôr-do-sol.

As comidas (Ēdiens)

Além das ervas e chás medicinais, também são comidas populares no Līgo são os pīrāgi e o queijo de alcaravia (cuja cor simboliza o sol). Além disso normalmente é festejado com bebidas – mantenha sua bebida favorita estocada. Sem isso, você não está celebrando o solstício!

A Fogueira (Ugunskurs)

A fogueira do Līgo é comumente queimada do pôr-do-sol até o nascer do sol, no lugar mais alto, assim iluminando a área para haver luz e não trevas. A tradição popular é saltar sobre a fogueira, simbolicamente limpando tudo que é supérfluo. Os casais pulam a fogueira de mãos dadas para fortalecer o relacionamento, e saem para os bosques para procurar pela flor de samambaia – que só floresce na noite do Jāņi – mas talvez isso seja só um pretexto para namorarem em paz.

A Sauna (Pirts)

Também faz parte da tradição fazer saunas. Tipicamente, as saunas letas são decoradas com ramos de folhas de carvalho e bétula para relaxar e limpar tudo aquilo que não é bom. Depois, todos vão nadar num rio ou num lago por perto. As tradições são divertidos e fortalecem os laços entre família e amigos.

O Līgo no Brasil

O Līgo é uma das principais festas culturais letas que sobreviveu pelas eras, e ainda hoje é comemorada com muita diversão e alegria por todos. No Brasil, não viramos a noite, mas dançamos e cantamos muito, e comemos comidas típicas – celebrando a cultura e tradição viva em nós. Aliás, criamos até a nossa própria tradição para acender o fogo: todo ano um membro da comunidade é escolhido para levar a tocha até a fogueira. Você também pode participar da festa com as comunidades típicas em Nova Odessa (SP) e Ijuí (RS). Veja aqui como foi a festa do ano passado! Venha e participe!

 

Descobrindo a Letônia – por Bia Paes

IMG-20170409-WA0067Em fevereiro de 2017, eu tive a incrível oportunidade de visitar a Letônia, país de origem da família de minha mãe. Durante minha vida até aqui, a Letônia sempre esteve presente, mas de uma forma bem reduzida, pois não moro numa cidade com expressiva comunidade leta. Era como uma aura que conferia uma beleza especial ao meu sobrenome de grafia não convencional (Apse), e eu sempre tive curiosidades, mas nem sempre tinha boas oportunidades de conhecer melhor. Os anos passaram, com o tempo ganhei mais autonomia e consciência e passei a pesquisar por mim sobre a nação, fascinada pelo que via, e sempre falava com minha mãe e meus avós, quando podia, sobre o que significava ser de lá e manifestava meu sonho de conhecer pessoalmente. Com incentivo deles, e facilitada por ter começado a estudar em Campinas, comecei a me envolver melhor com a comunidade leto-brasileira em Nova Odessa no dezembro de 2016, e tem sido uma experiência ótima.

Num dia trivial, enquanto meu pai me levava para algum compromisso, ele me surpreendeu e disse: “Bia, você não quer de presente de aniversário ir passar uns dias na Letônia?”. De sorriso de um lado ao outro do rosto, começamos a planejar todas as coisas. Amigos queridos abriam sua porta para que eu tivesse condições de ficar e, assim, em fevereiro de 2017, passei 20 dias na Letônia. Uma viagem breve, mas que se tornou uma experiência inesquecível.

Para chegar em Riga, tive de fazer uma conexão em Amsterdã, e foram sete horas de espera. Quando próxima a hora do embarque, mal podia me conter. Estava com expectativas altíssimas. Entrar no avião e ouvir “labvakar”, “paldies” e outras palavras das poucas que eu ainda consigo reconhecer foi uma sensação especial. Ao chegar, fui recepcionada com uma frente fria, as temperaturas indo do -10 ao -15, com ventos cortantes, que persistiram na primeira semana. A casa em que eu estava era apenas três quadras de Vecriga, e, mesmo com o meu rosto congelando de maneira que ficava engraçado falar, era uma delícia caminhar e sentir aquele ar.

Durante minha estadia em Riga, pude ver coisas incríveis, como o Museu da Ocupação, o Museu da Guerra, a Basílica de São Pedro, a Biblioteca Nacional, o Palácio da Cultura e Ciência, conhecido informalmente como o “bolo de noiva do Stalin”, o Museu da KGB, a Galeria de Arte Nacional, o Open Air Museum, Mezaparks, conhecer as feirinhas de artesanato e as belas peças de âmbar, assistir o Ballet Nacional apresentando Dom Quixote na Ópera Nacional, e tive o prazer de caminhar e observar todas as cores, me perder pela Velha Riga, e me orientar pelo Monumento à Liberdade.

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Mas, também, durante o período em que estava lá, tirei uns dias para pegar um ônibus (extremamente pontuais) para visitar outras cidades das redondezas. Pude visitar Cesis e ver o Velho Castelo guiada por um lampião, o Novo Castelo e sua história riquíssima. Visitei Sigulda, onde conheci também os castelos de Sigulda e Turaida, que me ofereceram vistas belíssimas. Visitei Jurmala, pude ver o Mar Báltico e caminhar pela charmosa Jomas Iela e o Dzintaru parks. Por fim, em meu penúltimo dia de viagem, fui conhecer Kuldiga, a Veneza leta, banhada pelo sol dourado da tarde, e pude ver a Ventas Rumba, a mais larga queda d’água da Europa, não a mais alta, mas de fato bela. Foi uma viagem deliciosa.

Assim, após vinte dias absorvendo tudo o que eu podia daquele ambiente, tive de ir embora. Letônia se despediu de mim com uma tempestade de neve maravilhosa em Riga, deixando a cidade como um sonho branco, a neve formando uma coberta macia no chão. Foram momentos inesquecíveis, que apenas acenderam em mim ainda mais a vontade de conhecer mais a fundo a história desse país e seu povo, que do qual, aos poucos vou aprendendo, faço parte também. A sensação que fica, porém, é de que ainda não vi nada: tudo aparenta ser pequeno e próximo, mas a cada passo que se dá, se expande um universo de coisas para ver e aprender. Ainda voltarei para poder descobrir tudo o que a Letônia pode me mostrar.

 

Vārda dienas – Ou como você possui um segundo aniversário na Letônia

Na Letônia, vardā dienas, ou os dias do nome, são uma parte central da cultura popular. Para cada dia do ano, são listados de um a cinco nomes, e todos os calendários e agendas os trazem impressos. As celebrações são semelhantes às de aniversário. Rádios e nas notícias, são divulgados os nomes a serem celebrados, monitores no transporte público os indicam, e as empresas operadoras de celular enviam mensagens para parabenizar. No ambiente de trabalho, ou nas escolas, levam flores e docinhos à pessoa do nome do dia, e sempre se tira um momento para celebrar. As famílias até preparam bolos e é um momento oportuno para visitas.

Presente na cultura europeia, especialmente do leste europeu, o calendário dos nomes é uma tradição herdada da Igreja Católica e Ortodoxa, que celebram, a cada dia, um anjo ou a morte de um santo. Com o passar dos anos, os nomes foram dissociados dos santos e foram sendo incluídos novos nomes para que as pessoas que tivessem esses nomes fossem celebradas. Hoje em dia, não é mais uma tradição restrita ao meio cristão, e, em muitos países não possui mais tanta relevância, mas na Letônia se mantém viva, e muitas vezes possui até mais importância que o aniversário (que era considerada uma celebração pagã para os católicos e ortodoxos).

Todos os dias do ano possuem nomes, o que dá em torno de 1000 nomes. Existem calendários estendidos que possuem mais de 5000 nomes. Mas os dias 29 de fevereiro e 22 de maio são reservados para aqueles cujo nome não consta no calendário. A lista de nomes é atualizada cerca de dois em dois anos, e todos podem indicar novos nomes a serem adicionados através do Valsts Valoda Centrs (Centro Estatal da Língua).

Você pode conferir se o seu nome consta no calendário neste link.

A Importância de Políticas Linguísticas para a Letônia

Nos mais diversos contextos (mas com motivações sempre políticas), os Estados podem valer-se da implementação de projetos de lei concernentes à língua de seu país para protegê-la, difundi-la ou até modifica-la. Um exemplo é o Novo Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2009 nos países falantes de língua portuguesa, mas que só se tornou a única forma de escrita no ano passado. A unificação tem motivos de aumentar o prestígio da língua no internacionalmente, estreitar laços comerciais e trocas intelectuais, como o movimento de acadêmicos para realizar pesquisas, mas foi recebida com resistência por Portugal – ainda há aqueles em Portugal que afirmam que a forma correta da língua é a deles somente. O que podemos entender dessa situação, saltando para um nível mais geral, é que a língua de um país é um fator de particularização e é fortemente ligada à identidade nacional. Gravemente, vemos no percurso da História que uma das formas de reafirmar poder em um dado país é interferir na língua que é falada nele, e, silenciar uma língua é silenciar uma identidade. E é precisamente esse o cenário que vemos na Letônia.

A questão da língua é essencial para a Letônia e seu reestabelecimento como um Estado soberano. É um campo de fato muito sensível, pois, como afirmei antes, estamos falando da identidade de uma nação. Para entendermos melhor a situação, precisamos voltar na história da Letônia. Desde meados do século XII, a área que hoje corresponde à Letônia (não havia um Estado formado ainda) foi tomada pelos cavaleiros da Ordem Teutônica. Embora o povo leto já estivesse lá e já possuísse sua língua, o alemão entrou como a língua de prestígio, por ser a língua da elite. Assim, os letos, vistos como menores, eram privados de educação e qualquer privilégio social, e, com sua língua não seria diferente. O leto era visto como um idioma baixo, incapaz de se produzir boa literatura ou qualquer conhecimento intelectual que se valha nele. Por isso, os primeiros registros escritos do leto são tão tardios (em comparação com a própria história da língua leta e a de outras línguas indo-europeias), datando de meados do século XVI, e ainda assim, eram apenas de caráter religioso. Até haviam letos que conseguiam ascender socialmente e prosseguir com os estudos, mas para tanto deviam abdicar o leto e aprender o alemão.

A partir do século XVII, com o domínio russo, a situação somente se estreitou. A língua de prestígio somente mudou do alemão para o russo, mas aquele ainda era melhor recebido que o leto. Nas instâncias oficiais, o russo era o idioma a ser utilizado. Para agravar, o czar Alexandre III buscou implementar um projeto de intensa russificação da sociedade leta, incluindo até a transcrição do leto para o alfabeto cirílico, o utilizado pelo idioma russo. A proposta não se efetivou, porque os letos já estavam livres da servidão, e, com o crescente acesso ao conhecimento, passaram a valorizar a sua língua. Além disso, as condições de vida naquela época não eram boas, o que trazia grande descontentamento dos letos com o governo russo, o que levava a aversão popular. Mesmo assim, a marcante presença dos russos fez com que o russo se estabelecesse como língua de uso corrente nas cidades maiores.

Houve o primeiro período da tão sonhada independência, mas vieram os domínios germânico e russo outra vez. Nesse primeiro, a língua foi uma questão menor, e só foi implementada nas esferas institucionais. Porém, o domínio soviético não deixou de ser menos imperialista, e houveram muitas estratégias de russificação, que fazem sentir seus efeitos até hoje. Um fluxo migratório enorme de russos entrou na Letônia, e eles possuíam posição privilegiada na sociedade, por estarem alinhados com os ideais russos. Não tinham de aprender o leto, e até hoje não fazem questão – afinal, os letos, em sua maioria, são bilíngues, e com facilidade se vive, trabalha, compra e é atendido nas escolas e hospitais somente com o russo. Hoje em dia, a maioria dos empreendedores, comerciantes e empresários continuam sendo russos, por terem herdado essa condição do status quo da União Soviética.

Porcentagem de falantes de russo nas regiões da Letônia

Para a Rússia, seria muito vantajoso ter o russo como língua oficial num país da União Europeia, uma vez que, após a queda da União Soviética, somente a Bielorrússia, o Quirguistão e o Cazaquistão o adotaram como língua oficial ou co-oficial, países que hoje não possuem influência no cenário internacional. Os Estados Bálticos seriam como uma porta de entrada para a esfera de influência europeia, e também, dominá-los, para a Rússia, signficaria obter uma saída para o oceano, uma vez que o Estado russo não possui portos que saiam para o mar que não congelem sazonalmente, o que os causa grande ônus. Um dos meios mais propícios de possibilitar essa dominação seria pela língua, por ser uma mudança sutil: se o russo ganhar status oficial na Letônia, aos poucos o leto poderá perder a sua utilidade pois há uma alternativa mais conveniente no sentido de comunicação internacional – o leto é falado por aproximadamente 2 milhões de pessoas no mundo todo e os falantes do russo somam 260 milhões mundialmente -, e, com certeza, a Rússia pressionaria cada vez mais o uso do russo, por meio da população russófona, facilitando a imigração russa, e, mais uma vez, diluindo a etnia leta, de forma a fazer sentido juntar-se à Rússia outra vez.

São várias as nuanças que devemos levar em conta ao pensarmos a relação de língua e política. É uma relação que sempre pressupõe relações de poder, domínio ou afirmação. Estima-se que a cada 14 dias um idioma no mundo morre, por caírem em desuso, sendo tornados obsoletos por línguas mais “úteis”. O gesto de manter o leto como única língua oficial da Letônia é de resistência para que, no futuro, não seja esse o seu destino, como foi o do Livônio e outros idiomas da região báltica.

Lāčplēsis – A lenda e a nação

A literatura na formação de uma nação

Na formação de uma nação, a literatura sempre possui um papel importante a exercer: por meio dela, são transmitidas ideias e  valores para uma geração e outras que se seguirão. Ela pode alegrar, entreter, alarmar, ilustrar situações reais de maneira contundente, de forma que uma mensagem é melhor recebida e assimilada quando vem pela literatura. Na construção da identidade de um povo, levantam-se herois para levar a bandeira à frente, para representar o espírito, a bravura e singularidade desse povo. A obra que conta a sua história, cantos épicos, se torna símbolo cultural, ou melhor, uma face para a sua cultura. Temos a Ilíada, de Homero, para a cultura helênica, a Eneida, de Virgílio, para os romanos, Os Lusíadas, de Camões, para Portugal e seu reino em expansão marítima, A Divina Comédia, de Dante, para o povo italiano, Os miseráveis, de Victor Hugo, para os franceses, e assim vai. Se quiser conhecer melhor a cultura desses povos, um ótimo início é investir nessas obras. No Brasil, durante a primeira fase modernista (década de 20), este era o grande empreendimento: um herói que seria emblemático da cultura brasileira. Mário de Andrade então escreve Macunaíma, buscando apreender o caráter miscigenado e vibrante de nosso povo, para romper com a ótica europeia sobre nossa realidade. Com a Letônia, não seria diferente, e digo que o papel que Lāčplēsis, o poema épico de Andrejs Pumpurs, desempenhou foi ainda mais determinante para a unidade cultural leta.

Lāčplēsis

Lāčplēsis foi publicado em 1888, e seu autor foi um militar e teve proeminência no movimento intelectual conhecido como Jaunlatvieši (jovens letos), que faz parte do primeiro despertar nacional que levou a consciência de nação leta. Ele cresceu às margens do Daugava a ouvir as narrativas míticas, que buscou reunir nesse trabalho. O poema conta a jornada de Lačplesis (matador de ursos), um jovem que foi escolhido pelos deuses para proteger o povo leto. Vários mitos letos são introduzidos na epopeia, como o do castelo de cristal (Gaismas Pils) que está submersmo, mas, quando Lačplesis passa uma noite nele, ele vem à tona outra vez, como canta-se nas canções folclóricas. No decorrer da trama, Kangars, um traidor que conspira com os cruzadores alemães, arma uma guerra com os estonianos, e Lačplesis luta com o gigante Kalapuisis (uma referência ao poema épico estoniano Kalevipoeg), pela mão de Laimdota. Lačplesis ganha, e ambos os lados fazem as pazes e se juntam para lutarem contra o inimigo em comum, os alemães. Até hoje kangars é um sinônimo para traidores na Letônia, como se usaria também o nome iago, da peça shakespeariana Otelo.

O poema épico se tornou forte presença no imaginário social leto e continua tendo influência nos dias atuais: está representado na base do Monumento da Liberdade em Riga, foi o nome da mais alta condecoração militar dada entre 1920 e 1928 (Ordem de Lačplesis), ganhou selos, adaptações musicais e cinematográficas, e, no dia 11 de novembro, se comemora o dia de Lačplesis, para lembrar da maior vitória militar da Letônia contra o exército alemão em Riga, nessa mesma data em 1920, vitória esta que não somente liberou a capital e posteriormente a Letônia, mas aumentou a confiança do povo num Estado leto, e honrar a memória dos combatentes dessa batalha.

A obra Lačplesis, assim, continua a realizar o que propôs Pumpurs em primeiro momento: divulgar, enaltecer e fortalecer a cultura leta. Se você deseja conhecer um pouco mais dessa cultura, como dito anteriormente, com certeza será válida a experiência de ler esse poema épico. Neste link, se lhe interessar, há a versão em inglês realizada por Arthur Cropley, que é uma adaptação dos versos livres de Pumpurs para a tradição poética da épica em língua inglesa: Boa leitura!

1. Lacplesis