Biblioteca da Letônia está entre as melhores do mundo

Também conhecida como Gaismas Pils (Castelo de Luz), a Biblioteca Nacional da
Letônia (Latvijas Nacionālā bibliotēka) é um orgulho para os cidadãos do país.
Converse com algumas pessoas em Riga sobre como chegar lá e você sentirá a
reverência que os locais têm pela biblioteca. Letões têm grande respeito por livros e
leitura. Talvez seja um resquício do passado de dominação soviética, quando alguns
livros eram censurados e difíceis de conseguir. Hoje os letões têm à disposição no
Castelo de Luz – nome sugestivo –, 4,5 milhões de títulos.

Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Ieva Lūka

No ano em que o país completa 100 anos de independência, a Biblioteca da Letônia, que
foi fundada em 1919, um ano após a proclamação, está entre as finalistas do prêmio de
melhor biblioteca do ano promovido pela Feria do Livro de Londres (London Book
Fair) em parceria com a Associação de Editores do Reino Unido. Ela concorre com
outras três bibliotecas: da Noruega, da Dinamarca e de São Paulo, que foi aberta em
2010, na área da antiga penitenciária do Carandiru e que conta com um acervo de 43 mil
títulos.
Mas a intenção da London Book Fair é premiar bibliotecas que, muito mais que títulos,
ofereçam um incentivo a mais à leitura e à cultura. Na Biblioteca da Letônia, os
usuários têm acesso a coleções especiais, livros raros, manuscritos, coleções,
Enciclopédia da Letônia, Biblioteca Central Báltica, mapas, partituras, gravações de
som, publicações gráficas, efemérides e periódicos, além de promover eventos culturais,
como música, teatro e exposições.
A biblioteca também publica livros e organiza a digitalização da Herança Cultural da
Letônia. Sem contar que ela abriga um tesouro nacional: o Armário de Canções
Populares (Dainu skapis), localizado no quinto andar e que contém manuscritos de
canções folclóricas de toda a Letônia, estando listado no Registro da Memória do
Mundo da UNESCO.

Dainu Skāpis.
Foto: Evija Trifānova

Essas canções folclóricas, conhecidas como Latvju dainas, foram organizadas e
coletadas por Krišjānis Barons (1835-1923) e por Johann Gottfried Herder (1744-1803).
As canções mais antigas datam de 1584 e 1632. Existem mais de 1,2 milhão de Dainas,
com referências que vão desde peças teatrais até conversas do dia a dia.
História
A Biblioteca Nacional foi fundada em 29 de agosto de 1919. O prédio original ficava na
rua Krišjāņa Barona, no centro da cidade de Riga. Hoje o prédio moderno da nova
biblioteca fica na margem esquerda do rio Daugava,
A construção do prédio novo começou em 2008. O design surpreendente foi
desenvolvido pelo arquiteto letão-americano, Gunnar Birkerts. A Biblioteca tem 13
andades e 68 metros de altura. O prédio ficou pronto em 2014, ano em que a Letônia foi
a representante da Capital Europeia da Cultura.
Uma nação de leitores

Foto: Mirela Purim
Foto: Lucas Stepanow Eksteinas
Foto: Mirela Purim

 

A Letônia é a 9ª nação mais letrada do mundo, de acordo com pesquisa da Central
Connecticut State University, em 2016. Os cinco primeiros lugares são ocupados pelos
países escandinavos: Finlândia, Noruega, Islândia, Dinamarca e Suécia. O ranking mede
os comportamentos letrados (compreensão) das populações pesquisadas e não suas
habilidades de leitura (alfabetização).
Nesta mesma pesquisa, a Letônia ficou em segundo lugar na categoria Bibliotecas da
classificação por seu grande número de bibliotecas e o número de volumes dentro delas.
Além da Biblioteca Nacional, a Letônia tem 1.670 bibliotecas:
O resultado do prêmio para a melhor biblioteca do ano será anunciado no dia 10 de abril.

Serviço
Endereço: Mūkusalas iela 3, Rīga

Contato: lnb@lnb.lv
Horários (fechada nos feriados)
segunda-feira 09:00–20:00
terça-feira 09:00–20:00
quarta-feira 09:00–20:00
quinta-feira 09:00–20:00
sexta-feira 09:00–20:00
Sábado 10:00–17:00
Domingo 10:00–17:00

Visitantes que não têm cadastro na biblioteca devem pedir autorização para entrar.
Turistas devem pagar entrada de 2 Euros e podem visitar a biblioteca acompanhados de
guia. É proibido entrar na biblioteca com bolsas e mochilas, que devem ser deixados
nos armários ao custo de 1 Euro.

Conheça a Biblioteca Nacional da Letônia por meio de um Tour virtual pelo link: http://ture.lnb.lv/

e através das fotos abaixo.

Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Sala de Leitura de Ciências Humanas e Sociais.
Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Jānis Dripe
Vista da biblioteca nacional para o rio Daugava e a cidade velha de Riga. Foto retirada do site, BNN Baltic News Network.

Castelo de Bauska

Caminhar pela cidade letã de Bauska, que fica a 66 quilômetros da capital Riga, é como entrar em um livro de História: a cidade ainda preserva casas centenárias de madeira e construções do período soviético. Eu estava indo para o Castelo de Bauska (Bauskas Pils), construído no século 15 pelos alemães da Ordem da Livônia, um ramo da Ordem Teutônica militar medieval. No caminho passei por um parque cheio de flores e um memorial em homenagem às vítimas do regime soviético.

Parte restaurada do castelo

Enquanto caminhava, podia ver a minha direita a bela vista de onde os rios Mūsa e Mēmele formam o rio Lielupe. Continuei caminhando até finalmente poder ver no topo da colina verde a parte recentemente restaurada do castelo, que estava pintado com diferentes tons de bege: lindo e sóbrio. Por trás, as ruínas do castelo antigo formam um magnífico contraste. Antigamente havia uma fortaleza dos Semigalianos (um dos povos originais do Báltico) no topo da mesma colina. O Castelo de Bauska começou a ser construído entre 1443 e 1456. A construção continuou até o final do século XVI.

Rio Lielupe que corre através da colina

Eu estava tomando café em um copo de papel para me esquentar do frio, mas ele mesmo acabou ficando frio: esqueci-me de continuar tomando de tão animada que fiquei com a vista. As paredes da parte não restaurada estavam em ruínas colapsadas; elas certamente foram atingidas com muita força. Eu podia ver os buracos de onde os defensores podiam disparar flechas. O castelo e a cidade sofreram fortemente nos séculos 17 e 18 durante a Guerra Polonesa-Sueca e a Grande Guerra do Norte. Uma grande torre de vigia, paredes grossas, uma prisão, escadas estreitas… Está tudo lá formando uma beleza desgrenhada capaz de fazer um amante de História tremer de entusiasmo. Depois de uma longa subida, passei muitos minutos na torre, respirando o ar frio e tendo uma visão completa do castelo e de seu complexo abaixo. Eu estava sob uma bandeira da Letônia dançando ao vento. Cheguei a imaginar os exércitos ao redor daquela colina. Quando fui embora, olhei para trás para ter uma última visão do castelo.

Colina do Castelo Velho
Pátio do Castelo Velho

O pôr do sol estava sobre mim e eu podia sentir o cheiro de grama pisada debaixo dos meus pés. A última imagem permanece em minha mente: 457 anos desde o fim da Ordem da Livônia, a bandeira nacional da Letônia treme em cima da torre, um reconfortante sinal de liberdade.

 

Castelo Velho


Informações úteis 

Bauska
Distância de Riga: 66 km
Somente ônibus vão para Bauska. Tem ônibus para lá diariamente, geralmente de meia em meia hora. De Bauska para Riga também tem ônibus diariamente.
Para consultar horários: www.autoosta.lv
Preço ida: 3.05 € (euros)
Duração da viagem: 1 hora e 15 minutos
Endereço da estação: Slimnīcas iela, 11. A estação de ônibus fica a 2 km do castelo.

Castelo de Bauska
Endereço: Pilskalna iela, 40
Mais informações: www.bauskaspils.lv
Idiomas oferecidos nas visitas guiadas: Inglês, letão, russo e alemão
Horários de funcionamento:
De maio a setembro: de segunda a domindo, das 09h00 às 19h00
Outubro: de segunda a domingo, das 09h00 às 18h00
De novembro a abril: de terça a domingo, das 11:00 às 17:00
Preço: 4.00 € (euros)
Aceitam dinheiro e cartão

 

Fotos: Autora
Revisão: Cláudia Klava

 

Escola de férias da Universidade Tecnológica de Riga

   Em julho e agosto do ano passado, tive a oportunidade de participar como bolsista de um curso de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tecnológica de Riga (RTU). A primeira vez em que soube do curso foi por um e-mail que minha mãe recebeu anunciando que abriram as inscrições. Eu fiquei interessada e fui visitar o site do programa. A proposta do curso me chamou muito a atenção: o objetivo era que o aluno, em uma semana, elaborasse um projeto e na semana seguinte o construísse. Para mim, era uma proposta completamente nova, porque nunca tivemos a oportunidade de realmente construir um de nossos projetos na faculdade – o mais perto que chegamos foi em maquetes de papelão na escala 1:1, para pequenos projetos.

   Em suma, o que a Summer School of Architecture da RTU propõe é que alunos do mundo todo se juntem em um curso de duas semanas e projetem duas instalações com ajuda de tutores. Eram dois grupos, cada qual com seus tutores e uma instalação a ser projetada e construída. Outro aspecto que me chamou atenção no curso foi a escolha dos tutores: três eram fundadores de um escritório conhecido da Letônia e os outros três eram professores de Oxford com projetos internacionais. Além disso, os dois organizadores do curso eram professores da RTU e trabalhavam na área de urbanismo em várias cidades da Letônia, especialmente em Cēsis. As atividades propostas pelo curso incluíam desde palestras com profissionais de diversas áreas, workshops a atividades como canoagem e yoga.

   Porém, como era meu primeiro ano de faculdade, eu ainda não tinha os pré-requisitos para me candidatar para participar do curso. No ano seguinte, em 2016, abriram novamente as inscrições e dessa vez eu já tinha cumprido a carga horária mínima para poder me candidatar. O processo não foi muito difícil. Era necessário enviar um currículo e uma carta motivacional em inglês, uma foto e um portfolio. O currículo deveria ter uma página, a carta deveria ter no máximo 1000 palavras ou 3 páginas, e o portfiolio só poderia ter 3 páginas, sendo que nenhum arquivo poderia ultrapassar 5 Mb. São cerca de 250 inscritos para 20 ou 30 vagas.  

   Acredito que a carta motivacional seja a chave para ser aceito ou não no curso. Conversando com a organizadora, no dia em que chegamos, ela comentou que foi a carta motivacional que teve, de fato, um peso grande na decisão. É importante que ela contenha três informações importantes: quem você é (sem repetir o seu currículo), porque você quer fazer esse curso e porque você quer uma bolsa de estudos.

   Acredito que o curso foi importante para a minha formação profissional, além de me dar a oportunidade de ir para a Letônia e fazer novos amigos. Durante o processo de elaboração do projeto, tivemos contato com vários aspectos culturais e históricos da Letônia. Além disso, durante a construção e na inauguração, muitos moradores de Cēsis – e alguns turistas – ficaram curiosos e vieram perguntar sobre o projeto e o curso. É uma experiência muito boa que recomendo para quem tiver interesse.

Passo a passo para quem quiser ir também:

  1. Entrar no site abaixo e ficar atento as inscrições.
  2. Traduzir o seu currículo e fazer ser portfolio.
  3. Iniciar o processo de inscrição na data indicada (normalmente em março ou abril).
  4. Escrever sua carta motivacional.
  5. Enviar as inscrições.

Site do programa: http://www.rtusummerschool.lv/

Meu email para tirar dúvidas: mirelathaise@gmail.com

 

Fotos por Kaspars Kursišs

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Feliz como um hobbit

Era uma segunda-feira nublada de agosto em Vecsaule, Bauska. Eu havia acordado cedo pois a empolgação não me deixara dormir mais: nós íamos colher cogumelos na floresta naquele dia, uma experiência totalmente nova para mim e muito aguardada.

Depois do café da manhã nos preparamos para a aventura: botas e capas de chuva, luvas de borracha, uma faca para cada um, câmera, sacos plásticos e um balde – estes dois últimos itens se mostraram bem insuficientes mais tarde. Nós estávamos parecendo dois Hobbits com nossos capuzes e capas nas cores azul, verde e marrom.

No caminho encontramos um letão muito satisfeito com uma cesta cheia de cogumelos recém-colhidos. Nossa aventura parecia muito promissora! Quando entramos na floresta, uma chuva fina e constante começou, mas estava muito agradável para caminhar; as copas das grandes árvores seguravam grande parte da água. Andamos muito, pisando em folhas velhas das estações passadas e em um tapete de musgo verde. As florestas da Letônia têm uma atmosfera imponente, mas leve ao mesmo tempo; como se fossem antigas e misteriosas, mas graciosas e solícitas: anfitriãs amáveis. Se você vem com bons pensamentos e boas intenções, você é bem-vindo. Paz e quietude estavam ao nosso redor. Os únicos barulhos eram os assobios suaves e intermitentes de pássaros escondidos e o quebrar de folhas secas e galhos caídos pelos nossos pés.

No início da aventura achamos apenas poucos cogumelos, em sua maioria Bērzu baravika (Boletus betulicola). Eu sou uma louca por cogumelos comestíveis, mas para a maioria dos brasileiros a paixão por cogumelos não se compara ao que os letões sentem. Brasileiros não têm o hábito de entrar na floresta para procurar por eles porque no Brasil existem muitos cogumelos venenosos (alguns realmente podem matar), que se parecem muito com as espécies comestíveis, então as pessoas têm medo de se confundir. A maioria dos cogumelos que temos disponíveis para comprar são cultivados e importados e, por isto, caros. A produção nacional tem aumentado, mas ainda é raro encontrar algo além do champignon (Agaricus bisporus), nativo da Europa e América do Norte, e os orientais Shimeji e Shiitake.

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

 

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Fiquei encantada ao ver que na Letônia podemos não só comprar cogumelos frescos em qualquer feira por preços muito bons, mas ainda colhê-los por livre e espontânea vontade. No livro O Senhor dos Anéis, Tolkien escreve que os Hobbits têm “uma paixão por cogumelos que supera até mesmo o gosto mais ávido das Pessoas Grandes”. Assim são os letões comparados com as pessoas de outros países. Nas cidades da Letônia, onde eu estive, cansei de ver durante a primavera e o outono pessoas carregando cestas de cogumelos frescos com muito cuidado – como se fosse um tesouro – com caras satisfeitas e felizes.

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Paraíso dos cogumelos

Depois de duas horas e um saco plástico cheio até a metade, decidimos ir embora, mas eu fui um pouco mais a frente para dar uma última olhada. Ansiava por achar mais cogumelos. Eu olhei para a direita, nada; à minha frente, nada. Lancei um último olhar esperançoso para esquerda e lá estavam eles, escondidos: dois cogumelos enormes! Um estava fresco, o outro começando a apodrecer. Eu me aproximei deles e de repente comecei a ver cogumelos por toda a parte naquela direção: pequenos, médios, grandes e lindos! Era o Paraíso dos Cogumelos como nós brincamos! Eu fiquei tão feliz com a descoberta que cheguei a perder minhas luvas que estavam no bolso.
Os cogumelos que achamos naquele lugar eram em sua maioria Parastā apšubeka (Leccinum aurantiacum), um tipo muito delicioso. Ficamos ali por pelo menos mais duas  horas. Nosso balde e todos os sacos plásticos ficaram totalmente cheios. Tivemos que deixar muitos para trás, para outro apaixonado por cogumelos.

Maria Fernanda com três grandes cogumelos do tipo Boletus. Crédito: Andis Mikainis

Quando retornamos para casa, eu aprendi a limpá-los e prepará-los com a mãe do meu amigo. Nós fizemos vários potes de conserva de cogumelo e o restante comemos fritos, puros, com temperos, com vegetais, na sopa, no pão… uma delícia!

Mesa com uma parte da mesa cheia de cogumelos que foram colhidos nesse dia. O restante não coube na mesa. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi
A senhora Dzintra Mikaina, moradora de Bauska, com uma parte dos cogumelos que foram colhidos no dia. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi
A senhora Dzintra começando a limpar e preparar os cogumelos. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

 

Existe um provérbio letão que diz: “Kas nestrādā, tam nebūs ēst” (“Aquele que não trabalha, não come”). A refeição tem um sabor diferente e melhor quando você se esforça para tê-la e a prepara você mesmo. É por isso que essa foi uma das experiências mais fascinantes e recompensadoras que eu já tive. Ver todos aqueles cogumelos e colhê-los com a floresta ao meu redor me fez sentir um respeito ainda maior pela natureza que nos fornece esses presentes deliciosos. Mesmo com a pressa do dia-a-dia e as facilidades do mundo moderno, o contato com a natureza não tem preço. E lá na Letônia isto ainda está muito vivo.

“Nas raras vezes em que a natureza revela seus segredos, a realidade é mais fantástica que a fábula.”

Maria Fernanda com os cogumelos. Crédito: Andis Mikainis

Celebração de Līgo em Riga

No ano passado fiz um estágio na Letônia e tive a oportunidade de ir a uma celebração de Līgo ou Jāņi (o Solstício de Verão, o feriado mais popular do país) em Riga, no dia 23 de junho. As festas de Līgo mais tradicionais acontecem nas cidades do interior, mas para participar você precisa ser convidado, já que são festas familiares.

Poucos letões ficam na capital durante o feriado de Jāņi. Apesar disso, todo ano duas festas de solstício de verão são realizadas em Riga para quem não pode ir para o interior: uma na praça 11.Novembra, na parte velha da cidade, com DJs, performances teatrais, dançarinos e cantores folk, e outra no parque Dzegužkalns (Colina dos Cucos), a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade, meia hora de viagem de ônibus.

Eu optei pela última festa por considerar que esta teria um clima mais bucólico, tradicional e mais perto da natureza que no centro e porque a programação de Dzegužkalns oferecia bandas folk incríveis, como Iļģi, uma das bandas mais antigas da Letônia em atividade, e Auļi, que toca tambores e gaitas de fole.  E minha escolha foi muito acertada.

No centro a festa é mais para turistas. Muitos estrangeiros também vão à celebração no parque, mas são mais estrangeiros que moram na Letônia e já estão familiarizados com a cultura local. Além de famílias letãs, encontrei pessoas da Colômbia, Chile, Espanha, Alemanha, Índia… Além disso, é grande o número de russos. Como é uma festa aberta, os russos que moram no país marcam presença. O parque é lindo e grande, com muitas árvores, flores e pássaros e um rio.

A festa começou às 20:00 e havia muito para ver e fazer. Se a Letônia é conhecida como o país da música, no dia do Solstício de Verão há ainda mais canto e dança que de costume. As músicas folclóricas eram cantadas e dançadas tanto no palco, quanto na grama. Tinha gente de todas as idades e muita comida típica e cerveja boa com preço justo. Os letões estavam todos vestidos com roupas tradicionais e as mulheres com coroas de flores naturais e os homens com coroas de folhas de carvalho. Quem nunca tinha feito uma coroa podia aprender a confeccioná-las com flores colhidas nos campos da Letônia.

Também dava para comprar artesanato e aprender danças típicas. Quem se cansasse de dançar, era só estender um pano na grama, relaxar e observar as estrelas, mas nada de dormir! Diz a tradição que no Līgo todos têm que esperar o nascer do sol acordados e quem dorme antes não vai aproveitar o verão.

Ao entardecer uma grande fogueira foi acessa no centro e a partir dela, outras menores foram alimentadas e espalhadas pelo parque para quem sentisse frio. A temperatura estava amena, mas havia um vento gelado.

A festa foi linda e muito organizada. Passei 10 horas na celebração com pessoas desconhecidas que depois de alguma conversa pareciam velhos amigos; o calor humano era cativante. Quando o sol estava nascendo subimos uma das colinas do parque com a cantoria de músicas tradicionais comandada por um casal. Já no topo eles começaram a cantar mais alto, se revezando, e quem sabia as letras acompanhava. Quando o sol já estava alto, lá pelas 06:00, todos fizeram silêncio para apreciar a vista ou fazer reflexões. Casais se abraçavam. A maior parte das crianças começava a demonstrar sinais de sono. Aos poucos a multidão foi se dispersando, cada um indo para suas casas ou para continuar a festa no centro da cidade. Meu primeiro Solstício de Verão na Letônia foi inesquecível! Não tão legítimo, é verdade, por ter sido em Riga, mas ainda, sim, mágico!

 

Texto e fotos: Maria Fernanda Gottardi

Descobrindo a Letônia – por Bia Paes

IMG-20170409-WA0067Em fevereiro de 2017, eu tive a incrível oportunidade de visitar a Letônia, país de origem da família de minha mãe. Durante minha vida até aqui, a Letônia sempre esteve presente, mas de uma forma bem reduzida, pois não moro numa cidade com expressiva comunidade leta. Era como uma aura que conferia uma beleza especial ao meu sobrenome de grafia não convencional (Apse), e eu sempre tive curiosidades, mas nem sempre tinha boas oportunidades de conhecer melhor. Os anos passaram, com o tempo ganhei mais autonomia e consciência e passei a pesquisar por mim sobre a nação, fascinada pelo que via, e sempre falava com minha mãe e meus avós, quando podia, sobre o que significava ser de lá e manifestava meu sonho de conhecer pessoalmente. Com incentivo deles, e facilitada por ter começado a estudar em Campinas, comecei a me envolver melhor com a comunidade leto-brasileira em Nova Odessa no dezembro de 2016, e tem sido uma experiência ótima.

Num dia trivial, enquanto meu pai me levava para algum compromisso, ele me surpreendeu e disse: “Bia, você não quer de presente de aniversário ir passar uns dias na Letônia?”. De sorriso de um lado ao outro do rosto, começamos a planejar todas as coisas. Amigos queridos abriam sua porta para que eu tivesse condições de ficar e, assim, em fevereiro de 2017, passei 20 dias na Letônia. Uma viagem breve, mas que se tornou uma experiência inesquecível.

Para chegar em Riga, tive de fazer uma conexão em Amsterdã, e foram sete horas de espera. Quando próxima a hora do embarque, mal podia me conter. Estava com expectativas altíssimas. Entrar no avião e ouvir “labvakar”, “paldies” e outras palavras das poucas que eu ainda consigo reconhecer foi uma sensação especial. Ao chegar, fui recepcionada com uma frente fria, as temperaturas indo do -10 ao -15, com ventos cortantes, que persistiram na primeira semana. A casa em que eu estava era apenas três quadras de Vecriga, e, mesmo com o meu rosto congelando de maneira que ficava engraçado falar, era uma delícia caminhar e sentir aquele ar.

Durante minha estadia em Riga, pude ver coisas incríveis, como o Museu da Ocupação, o Museu da Guerra, a Basílica de São Pedro, a Biblioteca Nacional, o Palácio da Cultura e Ciência, conhecido informalmente como o “bolo de noiva do Stalin”, o Museu da KGB, a Galeria de Arte Nacional, o Open Air Museum, Mezaparks, conhecer as feirinhas de artesanato e as belas peças de âmbar, assistir o Ballet Nacional apresentando Dom Quixote na Ópera Nacional, e tive o prazer de caminhar e observar todas as cores, me perder pela Velha Riga, e me orientar pelo Monumento à Liberdade.

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Mas, também, durante o período em que estava lá, tirei uns dias para pegar um ônibus (extremamente pontuais) para visitar outras cidades das redondezas. Pude visitar Cesis e ver o Velho Castelo guiada por um lampião, o Novo Castelo e sua história riquíssima. Visitei Sigulda, onde conheci também os castelos de Sigulda e Turaida, que me ofereceram vistas belíssimas. Visitei Jurmala, pude ver o Mar Báltico e caminhar pela charmosa Jomas Iela e o Dzintaru parks. Por fim, em meu penúltimo dia de viagem, fui conhecer Kuldiga, a Veneza leta, banhada pelo sol dourado da tarde, e pude ver a Ventas Rumba, a mais larga queda d’água da Europa, não a mais alta, mas de fato bela. Foi uma viagem deliciosa.

Assim, após vinte dias absorvendo tudo o que eu podia daquele ambiente, tive de ir embora. Letônia se despediu de mim com uma tempestade de neve maravilhosa em Riga, deixando a cidade como um sonho branco, a neve formando uma coberta macia no chão. Foram momentos inesquecíveis, que apenas acenderam em mim ainda mais a vontade de conhecer mais a fundo a história desse país e seu povo, que do qual, aos poucos vou aprendendo, faço parte também. A sensação que fica, porém, é de que ainda não vi nada: tudo aparenta ser pequeno e próximo, mas a cada passo que se dá, se expande um universo de coisas para ver e aprender. Ainda voltarei para poder descobrir tudo o que a Letônia pode me mostrar.

 

Vārda dienas – Ou como você possui um segundo aniversário na Letônia

Na Letônia, vardā dienas, ou os dias do nome, são uma parte central da cultura popular. Para cada dia do ano, são listados de um a cinco nomes, e todos os calendários e agendas os trazem impressos. As celebrações são semelhantes às de aniversário. Rádios e nas notícias, são divulgados os nomes a serem celebrados, monitores no transporte público os indicam, e as empresas operadoras de celular enviam mensagens para parabenizar. No ambiente de trabalho, ou nas escolas, levam flores e docinhos à pessoa do nome do dia, e sempre se tira um momento para celebrar. As famílias até preparam bolos e é um momento oportuno para visitas.

Presente na cultura europeia, especialmente do leste europeu, o calendário dos nomes é uma tradição herdada da Igreja Católica e Ortodoxa, que celebram, a cada dia, um anjo ou a morte de um santo. Com o passar dos anos, os nomes foram dissociados dos santos e foram sendo incluídos novos nomes para que as pessoas que tivessem esses nomes fossem celebradas. Hoje em dia, não é mais uma tradição restrita ao meio cristão, e, em muitos países não possui mais tanta relevância, mas na Letônia se mantém viva, e muitas vezes possui até mais importância que o aniversário (que era considerada uma celebração pagã para os católicos e ortodoxos).

Todos os dias do ano possuem nomes, o que dá em torno de 1000 nomes. Existem calendários estendidos que possuem mais de 5000 nomes. Mas os dias 29 de fevereiro e 22 de maio são reservados para aqueles cujo nome não consta no calendário. A lista de nomes é atualizada cerca de dois em dois anos, e todos podem indicar novos nomes a serem adicionados através do Valsts Valoda Centrs (Centro Estatal da Língua).

Você pode conferir se o seu nome consta no calendário neste link.