Cônsul da Letônia no Brasil Daina Gutmanis é condecorada na Letônia

Nesta sexta-feira, 03 de maio de 2019, a Cônsul Honorária da Letônia no Brasil, Dra. Daina Gutmanis, recebeu a Cruz de Reconhecimento (Atzinibas Krusts), de IIIª categoria pelo seu trabalho em prol da Letônia. A condecoração ainda ocorreu junto com a chegada da Bandeira Leta Viajante, a bandeira que percorreu o mundo no centenário da Letônia e terminou sua viagem nas mãos de Gutmanis, no dia 18 de Novembro de 2018.

A cerimônia da chegada da Bandeira ocorreu no Museu de História da Letônia, que será a casa definitiva da bandeira. Em seguida, a condecoração da Cônsul ocorreu no Castelo de Riga, sendo entregue pelo presidente da Letônia, Raimonds Vējonis.

Biografia

Daina Gutmanis nasceu em 08 de abril de 1958, em São Paulo – SP, filha de pais  vindos da Letônia como refugiados de guerra. Desde jovem sempre participou de atividades culturais letas, como exposições e datas comemorativas. Após participar num acampamento da juventude leta 2×2 nos EUA e em outro na Venezuela, ficou entusiasmada com o que aprendeu e junto com outros jovens letos latino-americanos resolveram fundar em 1977 a DLJA – Associação dos Jovens Letos da América do Sul e a BRALJA – Associação dos Jovens Letos do Brasil.

Em 1979 ajudou a organizar o primeiro acampamento de cultura leta no Brasil chamado “Saulaine”, realizado em Nova Odessa – SP, no qual participou a Sra. Vaira Vike-Freiberga como professora, sem imaginar que um dia ela viria a ser a Presidente da Letônia depois de 20 anos! Também ajudou a organizar a escola leta aos sábados na Igreja Luterana Leta de SP e ingressou na Corporação Estudantil Imeria de universitárias letas.

Daina Gutmanis (sentada, 3ª a direita) em uma reunião da DAKLA.

Na vida profissional, formou-se Engenheira Agrônoma em 1981 pela ESALQ – USP. Obteve os títulos de Mestre em Nutrição Animal e Pastagens em 1990 e de Doutora em Biologia Vegetal em 2004. Concluiu em 2006 curso de Especialização em Direito Internacional e Relações Internacionais. Sua Tese de Doutorado recebeu em 2004 o Prêmio de Melhor Trabalho Acadêmico conferido pelo Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável.

Foi Pesquisadora Científica do Instituto de Zootecnia da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo de 1989 a 2013. De 2003 a 2009 exerceu cargo de Assessora de Pesquisa da Diretoria Geral do Instituto de Zootecnia e até 2013 coordenou um Grupo de Trabalho para implantação do Museu do IZ.

O Trabalho

Além das atividades profissionais ocupou vários cargos na Comunidade Luterana Leta de SP. De 2003 a 2010 foi secretária da ABCL – Associação Brasileira de Cultura Leta. Exerceu também o cargo de Presidente da DAKLA – Associação Leta da América do Sul e Caribe de 1997 a 2015, participando anualmente na Letônia da reunião da PBLA – Associação Mundial dos Letos Livres, onde são discutidas as necessidades de cada comunidade leta fora da Letônia.

Participou da comissão de organização da visita da Presidente da Letônia Vaira Vike-Freiberga a Nova Odessa em 2007,  do Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis em 2011 e do Ministro da Defesa Raimonds Bergmanis em 2016. Realizou a exposição de fotos “Imigrantes Letos” em 2008 no Memorial do Imigrante, em São Paulo, em comemoração aos 90 anos de Proclamação da República da Letônia. Ainda em 2008 recebeu Diploma e Homenagem do Ministério de Relações Exteriores da Letônia pelo significativo trabalho. Em 2009 recebeu o título de “Cidadã Novaodessense” da Câmara de Vereadores de Nova Odessa.

Tendo se aposentado do serviço público em 2013, foi nomeada Cônsul Honorária da Letônia no Brasil, cargo exercido sem qualquer remuneração. Tem auxiliado tanto brasileiros quanto estrangeiros na regularização de documentos, prestando informações sobre o Brasil e sobre a Letônia a quem necessite além de assistência a letos presos no Brasil (24 até o momento). Participa e apoia as inúmeras atividades da ABCL – Associação Brasileira de Cultura Leta visando preservar e divulgar a cultura leta no Brasil. Em 2016 recebeu Homenagem do CONSCRE – Conselho Estadual Parlamentar das Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Participa do Coral Leto do Brasil e incentivou a participação deste Coral pela primeira vez no grande Festival da Canção e Danças da Letônia ocorrido em julho de 2018 em Riga. Em comemoração ao Centenário da Proclamação da República da Letônia, foi uma das idealizadoras e executoras do I Festival de Cultura Leta no Brasil, realizado em Novembro de 2018 em Nova Odessa e Americana – SP.

Em 08 de abril de 2019, por decisão da comissão presidencial das mais altas condecorações nacionais concedeu a Daina Gutmanis pelo trabalho relevante realizado para o bem da Letônia  a Cruz de Reconhecimento (Atzinibas Krusts), III categoria. Daina foi nomeada  Comandante da Ordem da Atzinibas Krusts.

 

Os Letos na Argentina

No dia 1º de março de 2016, eu tive o prazer de visitar Buenos Aires, capital da Argentina. A cidade, linda e dinâmica, encontra a antiga arquitetura europeia (mas bem cuidada) com modernos e altos edifícios. A população da Argentina é, em sua maioria, constituída por descendentes dos colonizadores espanhóis e por imigrantes e, embora alguns nomes de ruas tenham nomes indígenas, não há muitos deles. Não há muitos afro-descendentes, já que o “Rio da Prata” não era uma rota da escravidão africana. O maior grupo de imigrantes na Argentina foi, definitivamente, o de italianos.

Os primeiros letos chegaram na Argentina, antes da Primeira Guerra Mundial, por razões pessoais.

Foi o caso do Dr. Prof. Karlis Bergs, Investigador de Ciências Naturais (botânica e zoologia), da escritora Virginia Krasting Carreño, que chegou em 1912 e do aviador Otto Balodia, que chegou em 1927 e trabalhou como instrutor de vôo. O primeiro cônsul leto foi Karlis Bergs, de 1927 a 1931.

Porém, a segunda onda de imigração foi a mais importante, depois da Segunda Guerra Mundial (1948-1949). Durante o segundo governo do presidente populista argentino, Juan Domingo Perón, 89 letos chegaram em navios de guerra junto a outros 800 imigrantes da Áustria e Itália, através do Porto de Buenos Aires.

Calle Letonia

A primeira residência dos refugiados foi o Hotel dos Imigrantes, na região de Boedo, localizado perto do Porto de Buenos Aires, onde havia uma estação de trem e hoje é o Museu da Imigração na Argentina (http://untref.edu.ar/muntref/museo-de-la-inmigracion/). Graças ao Pregador e Padre Luis I García, os imigrantes organizaram uma colônia na cidade de San Miguel, da Província de Buenos Aires. Os primeiros pedaços de terra e casas foram compartilhados por grandes grupos de famílias de baixas condições financeiras. As condições eram tão precárias que os homens tinham que dormir no teto. A construção das novas casas era feita de uma maneira muito solidária; todos se ajudavam devido à falta de recursos. Este pregador era bem quisto pela comunidade leta por sua preocupação permanente em resolver problemas, encontrar terra para hospedagem, buscar trabalho para quem necessitava, ensinar a língua, etc. Pregador Garcia ajudou a fundar a congregação de “San Pablo”, em San Miguel. O primeiro culto com a participação dos letos aconteceu no dia 27 de março de 1949. Os artesãos letos ajudaram na construção do templo. Pregador Garcia conseguiu encontrar dois blocos de terra para 38 famílias. A rua onde estes blocos de terra estavam localizados é agora chamada de “Calle Letônia”.

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Durante três anos, o Pregador Garcia ajudou as famílias, mas havia a necessidade que os cultos fossem ministrados na língua leta. Em 1951, foi fundada a Congregação “La Reurrección”. O primeiro pregador da igreja foi Anroldo Liepins que junto a sua família, auxiliou durante 25 anos, os letos em Mendonza (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai).

Ele foi resgatado de um campo de pessoas deslocadas na Europa para encarregar-se da congregação em 1952, La Resurrección. Na congregação havia escola dominical e músicas tradicionais orquestradas ministradas pela pianista Elvira Vitolins de Liepins. Em 1953, foi fundada uma paróquia em Hurlingham, onde foi contruída uma igreja com a ajuda dos artesãos letos. Todas as atividades da congregação foram realizadas neste novo local. Desde seus 50 anos até a sua morte, o Pregador Liepins escreveu e imprimiu o boletim informativo “Vests”, trazendo informações sobre as atividades da Congregação, usando um mimeógrafo manual. Deste momento em diante, o crescimento da comunidade leta foi rápido. Os letos acharam trabalhos em diferentes áreas, de acordo com a formação: em oficinas de carpintaria, metalurgia, máquinas, serviços eletromecânicos, ensino, serviços domésticos, etc. Muitos construíram, pouco a pouco, suas próprias oficinas e lojas. Dos anos 50 aos anos 70, eles concentraram-se na confecção de têxteis plásticos. Estas atividades levaram os letos à classe média argentina em um período que a atividade industrial cresceu no país e havia muito trabalho.

A maior organização dos letos na Argentina foi a La Asociación de Letones Libres (Associação dos Letos Livres) e a Asociación de la Letonia Libre (PBLA – Associação da Letônia Livre), que prevalecem até hoje em torno da igreja. Por mais de 40 anos, eles praticam serviços mensais, seguidos de um almoço com a comunidade (a la canasta), quando os participantes conversam em leto e castelhano.

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A congregação de “La Resurrección” é conduzida hoje pelo Pregador David Calvo e pelo Presidente Ilgvars Ozols. Nas últimas décadas, o número de pessoas que frequentam as atividades da congregação diminuiu para cerca de 20 pessoas. A congregação celebra os principais feriados, como o dia 18 de novembro e o Natal, quando eles reúnem o maior número de letos na Argentina, concentrando mais de 70 pessoas, tendo a participação de músicos. Entre as celebrações estão o “Dia da fé cristã da Letônia” e o “Dia dos deportados da Letônia-Sibéria (1941-1949)”.

Reencontros

A relação entre os letos que viviam na Argentina com a Letônia começou a se reestabelecer em 1990, quando os navios mercantes soviéticos chegaram às águas argentinas para pescar e tratar lulas. As reuniões aconteceram pela iniciativa de alguns letos marinheiros e pescadores que procuravam contato com os argentinos. As reuniões, apesar da vigilância da polícia soviética, eram muito emocionadas. Isso aconteceu quando foi restabelecido um contato direto que havia sido quebrado há décadas. Os marinheiros participaram de vários eventos sociais e familiares durante a sua estadia. Porém, com o fim da URSS, houve enormes acordos de corrupção feitos por ex-funcionários do regime soviético e da máfia russa ligada à Argentina, que acabou com a frota de pesca, deixando os marinheiros e pescadores no Porto de Buenos Aires sem recursos para a sobrevivência. No ano de 1991, a Nova República da Letônia promoveu Adolfo Bruziks como o primeiro Cônsul Honorário da Letônia na Argentina. Ele, que nasceu na Letônia, assumiu a responsabilidade e arriscou muitos de seus pertences pessoais ao intermediar e resolver o problema da repatriação dos marinheiros. A congregação ainda tem contato com alguns deles e seus familiares.

Logo depois da nomeação de Bruziks, Mirdza Resbergs foi nomeada e começou a lidar com questões mais apropriadas para um Cônsul Honorário, como a emissão de passaportes para os primeiros imigrantes e seus descendentes, de tal forma que foram emitidos mais de 40 passaportes da Letônia para pessoas que participaram das eleições parlamentares nos anos 90. Desde 1991, muitos letos nativos viajaram da Letônia para visitar seus parentes, as gerações nascidas durante o exílio, e para reconhecer o que antes era propriedade deles.

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O Consulado Honorário da Letônia na Argentina existe desde 2013 e, atualmente, está localizado em um edifício de advocacia. Lá trabalha o Dr. Andrés Ozols (Coordenador Social), que eu tive o prazer de conhecer em Buenos Aires e que também trabalha para a Câmara do Comércio e Indústria do Río de la Plata e Riga (http://ar.consuladoletonia.com). O Cônsul Hector Días Bastien vive na Espanha e visita a Argentina periodicamente para discutir questões ligadas à comunidade leta na Argentina. O trabalho de Bastíen torna-se difícil quando trata de questões legais, como o caso dos 20 letos presos por tráfico de drogas, as parcerias entre a administração dos portos na Letônia, a emissão de vistos temporários, desenvolvimento e renovação de passaportes, emissão de cidadania, intercâmbio comercial entre os países e a representação em eventos diplomáticos. Ele conta com a ajuda de Mercedes Benegas de Homblerg.

O Dr. Ozols foi gentil e concedeu-me algumas horas respondendo a algumas perguntas que eu tinha sobre os letos na Argentina. Ele também me deu um livro escrito pelo pai dele, Ilgvars Ozols, “Latviesi Argentina, Cile um Urugvaja” (2001), que descreve como o processo da imigração leta aconteceu nestes países e algumas cópias do boletim “Vests”, também escrito por Ilgvars, continuando o trabalho do Pregador Liepins.

Em novembro de 2015, o Escritório de Assuntos de Cidadania e Migração da Letônia emitiu 47 passaportes para os letos e seus descendentes na Argentina. Veja as imagens abaixo:

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Os letos mais velhos, que vivem na Argentina, estão comprometidos a manter a tradição leta, mas se preocupam que a nova geração Argentina-Leta que não se interessa muito pela cultura e a língua e, além disto, é difícil levá-los para eventos da congregação. Dr. Ozols, que é também um membro do Grupo de Biomateriais da “Facultad de Ingenieria de la Universidad de Buenos Aires”, tem trabalhado para tentar mudar esta situação. Ele tem cooperado para melhorar os programas de intercâmbio de estudantes entre as Universidade de Buenos Aires e RTU em Riga, principalmente no campo dos Biomateriais, mas tem um desejo de estender este programa para outras áreas de estudo.

Como um membro da Câmara do Comércio do Rio de La Plata (contempla Argentina, Uruguai e o Paraguai) e Riga, Dr. Ozols também trabalha para firmar os acordos de ciência e tecnologia entre os países. Tem um desejo de usar o Porto de Riga como uma ponte para produtos agrícolas da América do Sul para a Europa, com administração conjunta entre os Portos de Riga e o Porto de Corrientes. O Cônsul Hector Bastien estará na Argentina em abril para discutir esta questão.

Minha Saga Letoniana

Existe um dizer de que as nossas vidas duram trezentos anos. Elas começam cem anos antes de nosso nascimento e terminam cem anos após a nossa morte, afinal as ações das pessoas daquele período ou determinam quem somos, ou somos nós que as determinamos. No entanto, por décadas após a guerra, os autores e vítimas do capítulo mais obscuro da Europa do Século XX, foram incapazes de falar sobre suas experiências. Nós os observamos, nós os testemunhamos, nós os amamos, às vezes nos até os desgostamos. Mas eles sempre nos deixaram uma marca profunda, eles nos fizeram. Contudo, nós não entendemos ao certo quem eles realmente foram e, portanto, nós não entendemos quem nós somos.

– Roxana Spicer – The traitor’s daughter

   Há algum tempo passei a procurar sobre minhas origens.  Porém, existia uma lacuna na história da minha vida que não conseguia preencher. Pensava em várias hipóteses, mas não encontrava o caminho. Esta janela perdida no tempo estava diretamente relacionada com a tragédia humana da Segunda Guerra Mundial.

   Pesquisar sobre a família dos meus avós paternos, de origem portuguesa e já fincada no Brasil há séculos, foi fácil. Existe até um livro para contar as histórias de “Lagoa dos Gatos” e de Garanhuns, região onde faz frio no interior de Pernambuco e que tem fama pelos seus festivais de inverno. Minha avó paterna, escritora e poetisa, nasceu em Bezerros, cidade do agreste e famosa pelo carnaval de rua.

   A origem da minha avó materna também não foi difícil de ser levantada. Ela é neta de italianos e seu pai era um comerciante, do qual herdei alguns réis para a minha coleção de moedas. É possível, até, rastrear a época em que meus tataravós chegaram ao Brasil e se instalaram em Tremembé – SP.

   Já a história do meu avô materno era um mistério. Eu nunca soube muito sobre o seu passado. Quando era criança adorava ir a sua oficina brincar com as caixas de ferramentas. Naquela época, não fazia ideia sobre o seu país de origem, somente que ele tinha um sotaque engraçado. Infelizmente, não tivemos tempo suficiente de convivência para eu poder lhe perguntar sobre sua descendência, pois meu avô faleceu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Tudo o que sabia era que ele tinha vindo para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

   Em histórias de guerra, qualquer que seja o conflito, sempre é questionado qual foi o papel de uma pessoa e o que aconteceu com ela e sua família. Quando perguntava para a minha mãe a respeito, ela me contava as histórias da terra natal de seu pai com apenas pequenos fragmentos de sua vida. Dentre estes fatos, estavam momentos interessantes como quando ele atravessava um rio congelado para ir à escola,  ou quando andava descalço para não gastar o único par de sapatos que tinha.  Meu avô costumava cantar músicas folclóricas letas, como “Kur tu teci”, para os meus tios, mas nunca falava sobre a guerra. O único comentário que consigo me lembrar era que, entre as ruínas, os soldados pegavam objetos abandonados no caminho, apenas para largá-los posteriormente, pois não havia para onde levá-los. Não havia mais casa.

   Em 2004, quando a Letônia entrou na União Européia, fiz contato com o então Cônsul da Letônia no Brasil, João Grimberg. Na época, ele me disse que não havia nenhum processo em aberto para a emissão de passaporte leto para descendentes brasileiros, mas me orientou a checar essa informação de tempos em tempos para ver se algo mudava. E foi o que fiz.

   Em abril de 2015, me comuniquei com a atual Cônsul da Letônia no Brasil, a Sra. Daina Gutmanis, que me direcionou sobre o que era necessário para a solicitação da cidadania leta. Eu poderia dar entrada no processo mas, para isso, precisaria de alguma evidência, algum documento original, provando que meu avô era da Letônia. Ela me enviou uma lista de tudo o que precisava reunir e os dados do Departamento de Registro Civil da Letônia, o Dzimtsarakstu Departamenta Arhivs, que poderia me ajudar a encontrar algum dado sobre a origem de meu avô. Começava aí a minha saga báltica.

   Enquanto buscava um registro, estudei um pouco de história para entender em qual situação meu avô se encontrava durante sua juventude e levantei alguns fatos significativos: em 1934, a Letônia sofreu um golpe de Estado, tornando-se uma ditadura até 1940 e os alemães haviam sido expulsos de lá. Em 1939, o país foi forçado a aceitar um pacto de assistência à União Soviética. Até 1941, os soviéticos anexaram o território e muitos soldados e civis letonianos foram presos, mortos ou desertaram. Em Julho de 1941, os alemães invadiram a região e a ocupação durou até 1945.

   Logo no primeiro ano, o Holocausto matou 100 mil cidadãos na Letônia. Em 1943, Hitler ordenou o recrutamento de 180 mil homens letos para as forças auxiliares alemãs, os Legionários da Letônia. Os soldados da Letônia lutaram em lados opostos, a favor de alemães e russos e, na sua maior parte, contra suas próprias vontades. Existiu também um grupo chamado “Meža Brāļi” (Irmãos da Floresta) que tentou resistir de forma independente contra as duas forças. Esta era uma guerrilha que lutou encurralada nas florestas, em número inferior, com menos recursos e da qual morreram muitos heróis.

   O fato é que, de forma voluntária ou forçada, os letos estavam divididos na guerra. Inclusive, algumas batalhas eram travadas sob o comando letão em ambos os lados. Foram tempos terríveis. Li histórias como a dos irmãos Dums, que, apesar do vínculo familiar, foram obrigados a lutar em lados opostos.

   Mas a dúvida persistia: onde se encaixava meu avô nessa narrativa? Ainda não tinha nenhuma pista e, em busca de conhecimento, segui com meus estudos.

   Por curiosidade, procurei saber sobre a cultura do país e suas pessoas ilustres. Para a minha agradável surpresa, grande mentes saíram da Letônia. Lá foi descoberto o ácido cítrico (revolucionário na indústria alimentícia, higiênica e médica); de lá veio o homem que ajudou Levi Strauss a desenvolver o seu famoso jeans; lá foi desenvolvido o primeiro foguete com propulsão a óleo. O revolucionário da montagem do cinema, Sergejs Eisenstein, nasceu em Riga, assim como o famoso dançarino Baryshnikov. Aquela mini-câmera que todo espião usava, a “Minox”, era fabricada na Letônia e foi inventada por Walter Zapp. No esporte, representam a Letônia o famoso jogador de hockey da NHL Sandis Ozolins e o jogador de basquete Kristaps Porzingis da NBA. E por aí vai.

   Li sobre a cronologia do país, passando por Terra Mariana, Livonia, Cavaleiros Teutônicos, Liga Hanseática, a influência alemã, Reino da Polônia-Lituânia, Império Sueco, Império Russo, a independência por vinte e poucos anos, os bolcheviques, os nazistas, a União Soviética até chegar em 1991. Assisti vídeos sobre suas tradições culturais, religiosas e sociais e fui absorvendo, pouco a pouco, a sua riqueza histórica.

   Pesquisei em documentos, vi filmes e vídeos sobre pessoas, que como eu, procuravam por sua origem. Destaca-se o filme “Um passaporte húngaro” (2001), de Sandra Kogut, e a história da filha de uma espiã russa (Roxana Spicer) investigando o passado de sua mãe, “The traitor’s daughter”, de onde tirei o primeiro parágrafo deste texto. Me identifiquei com aquela citação pois realmente acho que vivemos mais do que os nossos dias mortais por meio de nosso sangue e tradição; assim como já existíamos antes mesmo de nosso nascimento, por conta deste elo.

   Mesmo com tanto estudo, ainda me faltavam dados sobre meu avô, Nikolajs. Eu precisava de algo mais concreto para avançar.

   Na Cédula de Identidade de Estrangeiro, emitida no Brasil, que minha avó me entregou, tinham os seguintes dados sobre ele: nome, nome dos pais e data de nascimento (02 de Março de 1926). De acordo com esse documento, meus bisavós eram Lina Butkus e Frocis Kavalieris.

A Cédula de Identidade de Estrangeiro

   Pesquisei em seguida, nos sites de busca de família http://ancestry.com/, www.myheritage.com.br e http://forebears.io/, e descobri um documento emitido na data em que meu avô chegou ao Brasil, em 1947. Este documento mostrava, pela primeira vez, o seu local de nascimento: Priekule.

   Assim, obtive a informação necessária para enviar meu pedido ao Registro Civil na Letônia, na esperança de achar algum documento original de meu avô. A atendente do Departamento do Registro Civil informou que seria dada uma resposta sobre a rastreabilidade do documento em duas ou três semanas. A única coisa que poderia dar errado, segundo a agente, é que durante e após a guerra muitos arquivos haviam sido queimados. Se o nome do meu avô tivesse sido apagado em algum momento, minha busca teria fim.

   Para minha sorte, o Departamento de Registro Civil da Letônia me enviou um e-mail, em junho de 2015, confirmando que haviam encontrado o registro de meu avô. Eles me enviaram um documento equivalente à sua Certidão de Nascimento, que, por obra do destino, acabou chegando no dia do aniversário da minha mãe, um belo presente. No papel estava escrito o nome “Koļa”, sem nenhum sinal de Nikolajs. Achei estranho e comentei à minha mãe, que me respondeu emocionada: “Meu pai sempre falou que este era o apelido dele!” Mal sabia eu que Koļa é o diminutivo de Nikolajs. Outro ponto que divergia das informações anteriores eram os nomes dos meus bisavós: Karoline Butkus Kavaliere (nascida na Lituânia) e Francis Fridrihs Kavalieris (nascido na Letônia). A partir desta Certidão, finalmente, eu tinha todos os documentos que precisava para enviar a minha solicitação da cidadania leta.

   O Cartão de Imigração que havia encontrado tinha outra pista muito importante: o local da última residência de meu avô – Bad Salzuflen, no norte da Alemanha. Esta observação me deixou quase certo de que meu avô tinha sido um soldado Legionário Leto que teve que fugir dos soviéticos e acabou em um Campo de Refugiados na Alemanha no final da guerra. Ele tinha apenas 17 anos em 1943, quando os alemães forçadamente recrutaram jovens letos para lutar contra o exército vermelho. Depois, acabei perguntando sobre isso à minha avó, que me confirmou que ele teve um breve momento no exército alemão durante a guerra, sem mais detalhes.

   Os Legionários da Letônia lutaram contra os russos e, após a guerra, conseguiram fugir da repressão soviética. Eles foram parar, em grande parte, na Alemanha, Áustria e Itália. Ao serem rendidos pelos Aliados, foram condenados a viver em exílio por longos anos. A terra natal estava perdida e, muitas vezes, os amigos e familiares também. Em 1947 a UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Administration) igualou os Legionários da Letônia aos soldados da Wermacht, forças armadas alemãs. Contudo, os Legionários letos não participaram de nenhum crime de guerra.

   Em 1950, o Congresso dos Estados Unidos declarou que as Unidades Bálticas da Waffen SS combatiam por ideologias, operações e objetivos próprios, e deveriam ser consideradas especiais, separadas das unidades da SS alemã. Os letos estavam organizados em 2 divisões da SS. Na época, o General das Forças Norte-Americanas, Coronel Whitton citou: “É difícil entender ou descrever o que ambas as unidades letas alcançaram face a esmagadora vantagem russa… Palavras não podem expressar o que eu quero dizer, mas diante destas duas corajosas divisões, eu curvo a minha cabeça.”

   Os letos que entraram voluntariamente na SS (fala-se em 20% do total de recrutas) tinham a esperança de se livrar dos russos. Eles não lutaram do lado dos Aliados pois temiam que estes ajudariam os russos a se manterem no controle. Já os que lutaram com os soviéticos, tinham a ilusão de que, uma vez terminada a guerra, uma vez expulsos os alemães, eles estariam livres novamente e os russos assegurariam a liberdade da Letônia. Mas aproximadamente 80% dos jovens envolvidos, de ambos os lados, estavam lá contra a sua vontade. Infelizmente, o resultado foram ilusões vindas de todos os lados e milhares de jovens vítimas.

   E o meu avô? Como ele conseguiu sobreviver a tudo isso, terminando seus dias na Europa em território alemão? Essa resposta demanda mais investigação e, talvez, nunca terei certeza sobre ela. Entretanto, o documentário “Latvian Legion” (com legendas em inglês no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=MHtcgaeC4T8), roteirizado pelo historiador Uldis Neiburgs, me deu uma boa ideia do que poderia ter acontecido. Em um momento do filme, um recruta da legião, Ilgonis Dambitis, conta como em 1944 eles receberam ordens de mobilização do exército alemão. Ele diz que perguntou a seu pai se era melhor fugir para a floresta ou ir junto com o exército. Por fim, ele acabou indo com o exército, receando retaliações contra ele ou sua família, e foi levado para a Alemanha de navio. Partindo pelo rio Daugava, cantaram “Dievs, svētī Latviju” com lágrimas nos olhos.

   Após a rendição da Alemanha pelos Aliados, as pessoas deslocadas pela guerra foram organizadas em campos de refugiados. Muitos do leste-europeu não puderam voltar aos seus países de origem, pois teriam que enfrentar o tratamento das autoridades soviéticas. A Alemanha, neste período, ficou dividida sob o controle da Grã-Bretanha ao norte, Estados Unidos ao centro, França ao sul e URSS ao leste.

   Por conta da cidade de Bad Salzuflen estar na Zona Britânica de controle, pesquisei documentos do Arquivo Nacional da Inglaterra (http://www.nationalarchives.gov.uk/). Um deles, um relatório sobre um campo de refugiados, descrevia que seus internos eram treinados em diversas profissões, como carpintaria, mecânica de carros, costura e engenharia elétrica, antes de serem realocados para outro país. Deve ter sido aí que meu avô aprendeu suas habilidades como mecânico.

   Tentando encontrar parentes vivos na Letônia, entrei em contato com Lauris Olups – Detetive de Famílias (http://familydetective.lv/). Ele conseguiu achar algumas pessoas, mas não obtive um retorno significativo delas. A princípio, não sabia se realmente eram relacionadas ao meu avô, apenas que o sobrenome Kavalieris não era muito comum na Letônia.

   Mas aí veio mais uma dúvida: se não era comum, qual era a sua origem? A principal hipótese que veio a mim é que o nome teve origem nos Cavaleiros Teutônicos, que dominaram a região entre os séculos XIII e XV e, dentre outras coisas, fundaram a cidade de Riga. Associei a palavra cavaleiro a Kavalieris, mas não tenho nenhum registro que confirme isso.

   Também descobri que alguns Kavalieris da Letônia foram extraditados para a Austrália em um navio saindo de Nápoles, na Itália, durante o pós-guerra. Tentei contato com eles, sem resposta. Identifiquei até um “semi-homônimo” meu, Andrejs Kavalieris, soldado da artilharia leta na Primeira Guerra Mundial e nada muito além disso.

 Após algum tempo, o detetive de famílias comunicou que conversou com um rapaz que disse já ter sido abordado por mim alguns anos antes (dado que me passou desapercebido) mas que, na época, havia sido orientado a nunca falar sobre os assuntos da família com um estranho. Depois disso, ele entrou em contato com uma jovem cuja bisavó tinha o mesmo nome que a minha. Ela chegou a me escrever dizendo simplesmente: “Sveiks!” (olá, em leto). Eu, por outro lado, escrevi um longo texto me apresentando e contando minha história. Porém, após escrever, só obtive silêncio.

Em paralelo às tentativas de contato com meus possíveis parentes, minha avó me entregou uma pilha de cartas que meu avô recebia de seus familiares da Letônia. Não havia mais dúvida, as pessoas que encontramos e as cartas eram do mesmo lugar: Liepaja e a região de Grobina.

   As cartas tinham nomes e eu finalmente estava descobrindo quem eram os irmãos, irmãs e outros parentes de meu avô: Karlis, Rihards, Vilma, Rudis, Valija. Apesar de não falar leto e das ferramentas de tradução online terem suas limitações, eu digitalizei as cartas e comecei a traduzi-las. Elas me deram a impressão de que nem todas eram recebidas e que nem sempre as histórias ali escritas contavam a realidade por completo. Fora o usual “…todo mundo manda oi!”, era comum encontrar frases como “…está tudo bem…”, “…nós estamos todos empregados…”, “…você não tem que se preocupar com nada…” e “…nós não recebemos notícias de você em tanto tempo!”.

   Mencionei sobre essa impressão com a Sra. Cônsul Daina Gutmanis e ela me disse que fazia sentido. Naquela época as pessoas na URSS não podiam dizer nada de mal sobre a situação em que viviam, já que todas as comunicações eram primeiramente lidas pelas autoridades soviéticas antes de chegarem ao seu destino – quando chegavam – e qualquer palavra mal escrita poderia acarretar em sérias represálias.

   As correspondências recebidas por meu avô eram sempre muito emotivas e a família parecia ser próxima. Tenho tentado descobrir se algum dos irmãos e irmãs de Koļa ainda estão vivos, mas, até o momento, não encontrei respostas.

   Durante minha extensa pesquisa, acabei me comunicando com o Arquivo Nacional Brasileiro (http://www.arquivonacional.gov.br/), o que resultou na descoberta do nome do navio que trouxe meu avó para o Brasil: General Stuart Heintzelman, procedente de Bremen. Este era um navio da Marinha Norte-Americana que levou milhares de pessoas de toda a Europa, partindo da Alemanha para o Canadá, EUA, Brasil e Austrália. O documento também mostrava onde meu avô foi deixado no país: a Ilha das Flores. Este era o principal ponto de chegada dos imigrantes no Rio de Janeiro.

O navio da marinha americana General Stuart Heintzelman

   Não sei exatamente quanto tempo Koļa ficou neste lugar, mas é certo que ele foi enviado para trabalhar em uma fazenda em São Bernardo do Campo chamada “Sítio Manaaí – Wilson Russo CIA.”, mais uma informação fornecida pelo Arquivo Nacional e confirmada pela minha avó.

   Koļa não falava uma palavra em português e foi aprendendo, aos poucos, lendo os jornais locais e a Bíblia.

   Após trabalhar na fazenda, ele se mudou para São Paulo, cidade que efervescia de oportunidades de emprego nos anos 50. Lá conheceu a minha avó e se casou em 1951. Durante este período, existia uma certa facilidade para a compra de terras. A Vila Zelina , na região da Vila Prudente, era um destes lugares em São Paulo. Até hoje, lá é um dos locais com maior concentração de imigrantes do Leste Europeu na cidade, e onde é celebrada, no primeiro domingo do mês, uma feira de artesanato e comidas tradicionais. Outras cidades emergentes também eram um destino atrativo. Koļa acabou indo para São José dos Campos, onde construiu sua casa, abriu sua oficina mecânica e criou sua família. Meu avô era muito respeitado na cidade por seu trabalho e ética, e tinha como principal lazer levar minha mãe e seus seis irmãos às praias do litoral norte.

Propaganda de terras para a Vila Zelina

   Koļa manteve contato com a comunidade leta no Brasil em Nova Odessa e Varpa. Mas, apesar das cartas que trocava com seus parentes na Letônia, não tinha nenhum contato verbal com a sua família. Dentre as correspondências recebidas, datadas entre 1947 e 1991, estavam algumas de um primo que acabou indo para o Canadá. Por coincidência, meus pais moraram no Canadá em 1984 e localizaram este primo, Žanis. Em uma visita deles a Žanis, meu avô, após quase 40 anos, pôde ouvir a voz de um membro de sua família por telefone. Sem dúvida foi um momento de muita comoção.

   Tentei achar algum contato atual deste primo durante muito tempo, sem encontrar.

   Enquanto pesquisava essas histórias, em Novembro de 2015, meus documentos para o passaporte foram aprovados pela Letônia. Enfim fui notificado sobre a confirmação da minha cidadania leta e meu objetivo havia sido alcançado!

Minha conquista. No Consulado da Letônia no Brasil

   Certo dia, assistindo a um jogo dos Cleveland Cavaliers na NBA pensei em pesquisar por Žanis Kavaliers e não Kavalieris e acabei encontrando a foto de seu túmulo no Canadá. Olhei novamente os envelopes das cartas trocadas e, em alguns, o nome realmente estava escrito desta forma: “Kavaliers”.

   Contei a história de Žanis para uma tia, que também já havia tentado contato com possíveis familiares na Letônia. Ela já tinha ouvido falar sobre ele por intermédio de um jovem com quem se correspondia há três anos. Lembram daquele rapaz que não podia falar sobre assuntos de família com estranhos? Pois é, descobrimos que Žanis era seu bisavô. Depois dessa revelação, o bisneto finalmente me ligou.

   Conversamos por uma hora e ele me contou que sua bisavó sempre procurou saber sobre o paradeiro de Žanis, que havia partido e nunca mais voltara. Aparentemente, ele e a bisavó do rapaz se encontraram na Alemanha por algumas vezes no pós-guerra, mas ela acabou voltando para a Letônia, enquanto ele foi para a Inglaterra. Pesquisando na internet, acabei achando o cartão de imigração dele da Inglaterra para o Canadá, em 1955.

   Assim como Žanis, Koļa nunca pôde voltar para a Letônia. Minha mãe me disse que ele costumava dizer: “…quando for possível para eu voltar para a Letônia, você vai comigo?”.  É claro que ela iria, mas em 1991 ele teve câncer de pulmão. Meu avô viveu o suficiente para ver seu país ficar independente da URSS, mas já não tinha forças para voltar e acabou falecendo em dezembro de 1991.

Trabalhadores da fazenda em São Bernardo do Campo. Meu avô Nikolajs está no topo esquerdo

   Toda essa história, coroada pelo sucesso na obtenção da minha cidadania leta, acabou me abrindo novas portas de relacionamento, além de ter gerado em mim um sentimento genuíno de nova identidade, sendo uma fonte de inspiração e efervescência criativa.

   Como sou formado em comunicação e estou planejando fazer um mestrado em Escrita Criativa na Europa, resolvi fazer contato com o jornal “The Baltic Times”. Perguntei se eles teriam o interesse em receber matérias da América Latina com foco nos temas Bálticos. A resposta foi positiva e logo fiz contato com Felipe e Renate Albretch, da Associação Brasileira de Cultura Leta (ABCL), para levantar dados sobre as matérias que enviaria para o jornal.

   O primeiro artigo que escrevi foi sobre a imigração dos Letos no Brasil (que pode ser lido em inglês aqui). Já a segunda matéria, fala sobre a imigração dos letos na Argentina. Fui recentemente a Buenos Aires a negócios e aproveitei a oportunidade para fazer contato com o pessoal do Consulado leto na cidade. Fui recebido pelo Coordenador Social, Dr. Andrés Ozols e ele me contou um pouco sobre a imigração por lá. Terminei o agradável café recebendo um presente especial,  um livro escrito por seu pai, contando sobre a imigração dos letos na Argentina, Uruguai e Chile, e alguns exemplares de um boletim informativo sobre as atividades da comunidade leta na Argentina.

   Como o Dr. Ozols também é professor de física na Universidade de Buenos Aires e membro da Câmara de Comércio do Rio da Prata e de Riga, promove intercâmbios de alunos para a RTU (Universidade Técnica de Riga), criando uma relação estreita entre as comunidades estudantis leta e argentina.

   O artigo sobre os letos na Argentina saiu em uma página inteira no jornal, mas como a matéria foi publicada apenas em mídia impressa, disponibilizei o texto também na internet neste link: http://bit.ly/1SC8g25

   Como o contato com ABCL tem sido muito proveitoso, me convidaram para escrever para a revista Raksti. Claro que aceitei e com o maior prazer! Espero que esta seja a primeira de muitas histórias que lhes contarei.

   Minhas descobertas sobre a Letônia e o apego por minha história familiar me fazem participar, sempre que possível, das programações da ABCL. Estou gostando muito das aulas de leto, dadas pela Renate Albretch, que têm ocorrido em São Paulo quinzenalmente. Nos meus planos de estudos na Europa está programada uma visita à Letônia e, um pouco mais próximo do que esta viagem, está a comemoração do Ligo, no dia 18 de Junho em Nova Odessa, da qual certamente farei parte.

   Apesar de estar no meu sangue desde sempre, hoje posso dizer que a Letônia faz parte de mim! Me sinto cada vez mais envolvido com a cultura do país e com as pessoas. Um pedaço do quebra-cabeça da minha história está se encaixando e novidades ainda estão por vir.

O Grupo de Dança Staburags

Encrustada em um planalto no noroeste das terras gauchas se localiza a cidade de Ijuí. Suas histórias merecem alguns artigos por si só: ocupada primeiramente pelos Letos das Linhas 4,5 e 6 Oeste em 1892 e depois complementada com colonos de Rio Novo em 1893, é considerada a terceira colônia leta no Brasil. Ijuí hoje também é o lar para mais outras diversas etnias, sendo conhecida como Capital da Cultura do Rio Grande do Sul. E é nesta sopa cultural que nasceu o grupo de dança Staburags.

Staburags é uma história lendária para os letos sobre uma menina de luto que transformou-se em pedra. Tratava-se de uma rocha rica em cal de quase vinte metros de altura nos bancos do Rio Daugava, perto de Jaunjelgava. Sua porosidade natural permitia que a água das chuvas fosse armazenada e saísse pelos poros – como se a pedra chorasse. Staburags, infelizmente, foi submergida em 1965 pelos soviéticos para a construção da hidrelétrica de Pļaviņas, mas esse não foi seu fim: hoje vive na memória de milhares de letos pelo mundo.

Entre eles, claro, o nosso Staburags. O grupo surgiu em 1989, após a construção da Casa Leta (do Centro Cultural Leto de Ijuí), tendo como responsável pela criação e organização a senhora Liana Arais Pydd, e buscou chamar os descendentes de letos, inclusive aqueles que não estavam muito ligados à comunidade. Foi de responsabilidade de Liana Arais Pydd como coordenadora e diretora Cultural contratar Lorena Cossetin como primeira coreógrafa e delegar ao casal Māra e Jonas Sāla como corresponsáveis pelo grupo. De lá para cá o grupo cresceu: de uma única fita VHS com danças típicas que eles possuíam para aprender a dançar, hoje o grupo está na Letônia para participar do Festival de Música e Dança da Letônia (Não conhece ainda? Dê uma lida aqui).

Tivemos a chance de entrevistar Sandro Roberto Medeiros, atual coreógrafo e um dos organizadores do grupo hoje. Veja um pouco da nossa conversa com ele:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do grupo de dança? Quem foram os responsáveis? Qual a relação com a comunidade de Ijuí?
Sandro Medeiros – O grupo, assim como os outros grupos da Casa Leta (O Centro Cultural Leto de Ijuí), foram criados em 1989 sob liderança da dona Liana Pydd. Buscou-se chamar os descendentes, inclusive aqueles que não estavam muito ligados a comunidade. a que contrataram Lorena, uma professora de dança para ser a coreógrafa do grupo.

LB – Houve mudança em como o grupo de dança opera com o passar dos anos? Inclusão de novos membros? Novas idéias e caminhos? Como?
SM – Depois de Lorena, foi contratado um novo coreógrafo Gerson, que ficou mais de dez anos. Com ele foram criados o grupo jovem e o grupo infantil. O Gerson fez um trabalho incrível, pois na época ainda havia muito pouco contato com a Letônia, tínhamos apenas uma fita VHS com danças de um grupo leto dos EUA. A partir dali tivemos que trabalhar e inventar coisas nossas. Então, nessa primeira configuração do grupo, dançávamos ora danças bem tradicionais, com um pouco das que nós mesmo inventamos. A Coordenadora Liana (Pydd) me chamou em 2003 para ser o novo coreógrafo. Nesta época já havíamos acesso a internet a e o trabalho de pesquisar ficou mais fácil. Começamos a ter um contato maior com outros grupos em 2005 e a partir daí começamos fazemos danças 100% típicas.

LB – E quanto a não-descendentes? Como é a entrada deles? Você sabe quais razões para despertar os interesses neles?
SM – A comunidade em sí é muito pequena (em relação as outras da cidade), então achar dançarinos descendentes é um trabalho mais difícil. Muitas pessoas que assistem as nossas apresentações (e não são descendentes) se tornam “letos de coração” e vêm participar. Eles se apaixonam pela cultura. Hoje temos dançarinos que estão há mais de 20 anos no grupo e são “letos de coração”. Esse amor pela Letônia deles ajuda a fortificar o Staburags.

LB – Qual as relações do grupo de dança com a cultura leta? Há ensino da língua? Da história?
SM – Procuramos, sempre que estamos apresentando alguma dança nova, também explicar a cultura da Letônia. Trocamos várias experiências com pessoas que já foram para a Letônia ou pessoas da Letônia que já vieram aqui. O ensino da Língua começou dois anos atrás com o Edmar Grimm Berg, mas infelizmente não conseguimos ter um público muito grande por causa dos horários. O Dr. (Armindo) Pydd sempre faz questão de apresentar números e outras informações sobre a Letônia nos eventos que realizamos, assim todos os dançarinos ficam à par sobre a Letônia.

LB – Quantas apresentações já fizeram? Onde? Há alguma história interessante por trás delas?
SM – Olha, se eu te desse um número, provavelmente estaria errando [risos]. Mas já fomos para diversos lugares, São Paulo, Santa Catarina, Buenos Aires, quase todo o estado do RS. Uma história curiosa foi quando fomos participar pela primeira vez do festival de Nova Petrópolis, ainda naquela época era aos moldes de encontro de grupos alemães. Nesse ano específico nós fomos de “intrusos”, e eles ficaram muitos surpresos com nós lá, perguntaram várias vezes quem nós éramos e de onde viemos.

LB – Como foi o processo (para serem escolhidos)? Como foi a notícia que vocês iriam? Como estão sendo os preparos?
SM – Foi um longo processo. Começou lá em 2013 quando colocamos isso como objetivo, nos encontramos com a Ministra da Cultura e ela disse que gostaria de nos ver no festival de 2018. De volta ao Brasil, começamos a nos planejar para ir. Começamos a fazer levas de pizza uma vez por mês e ainda ajudamos na lancheria da Casa Leta para conseguimos custear. Na primeira avaliação não fomos muito bem, mas tivemos a chance de fazer novamente com a ajuda da coreógrafa Inga (Liepiņa) de Campinas, que veio com a Consul Daina Gutmanis. Nesse meio tempo ainda tivemos a ajuda de outros coreógrafos da Letônia, e conseguimos ser aprovados.
Foram muitos domingos a tarde, segundas a noite e muitos outros ensaios para nos prepararmos. Felizmente já estamos aqui na Letônia. Queremos estar aqui e vestir a camisa e representar a Letônia. Todos do grupo que estão aqui, mesmo sem descendência leta, possuem o sangue ardente para participar do Festival.

 

 

 

O Coro vai a Letônia!

Toda nação possui uma identidade cultural – e não é exagero dizer que a Letônia tem uma das mais belas: cantar. Está na alma e no sangue de todo o leto, seja lá ou seja aqui no Brasil. Não é à toa que durante tempos de opressão, a cantoria era a força unificadora de todos aqueles que sonhavam em cantar – livres – uma vez mais.

Considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Festival de Coro e Dança reúne a cada 5 anos, mais de 30.000 coristas e dançarinos, e mais milhares de turistas e espectadores. O primeiro festival foi realizado em 1873 e este ano, em 2018, celebrará os 100 anos da República da Letônia.

Do lado de cá do oceano, os letos e seus descendentes também se reúnem para cantar por prazer e com alegria. O Coro Misto é uma iniciativa de coro aberto, atualmente composta por 25 coristas de Nova Odessa, Atibaia, Varpa, Campinas e outras cidades. A ideia de juntar corais é uma tradição já antiga na comunidade, principalmente em encontros realizados pelas igrejas batistas. Desta vez, no entanto, apareceu uma oportunidade única: aplicar-se para participar do festival de Corais. A longa viagem, no entanto, começou no Brasil…

Realizar ensaios – para começar – não foi nada fácil pois haviam coristas em lugares tão distantes como Varpa e São Paulo – divididos por seis horas de viagem. A solução, então, foi realizar ensaios locais na forma de módulos. O segundo desafio foram as músicas: complexas, exigentes, minuciosas – o coro teve apenas três semanas para ler, entender e executar. Para serem selecionados, precisavam fazer duas gravações para avaliação do júri da Letônia. Os ensaios foram alternados entre Nova Odessa e São Paulo para a primeira gravação. Para a segunda, a solução foi tentar aproveitar o máximo do curto tempo que foi dado, ambos os grupos estudaram separadamente com afinco. O resultado foi positivo.

Após muito trabalho, o Coro Misto pode celebrar: é o primeiro da América Latina a participar do Dziesmu Svetki. Estarão na Letônia por volta de um mês – mas não pense que será apenas para turismo – eles terão compromissos oficiais, conferência dos regentes e outras atividades importantes. Entre 01 e 08 de julho, todos estarão concentrados, ensaiando ou cantando nos concertos oficiais. Em meio à correria de ensaios e preparação, entrevistamos o regente do coral Allan Arajs para saber um pouco mais sobre o coro misto. Veja um trecho da entrevista a seguir:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do coro no seu atual modelo, o coro misto? Houve outros coros antes?
Allan Arajs – Este modelo já existe a muitos anos. Sempre que há alguma comemoração cívica há colaboração de voluntários de Nova Odessa, São Paulo, Varpa e outras cidades também. Com certeza, esta parceria entre coristas tem mais tempo do que a minha existência (risos).

LB – Qual é o objetivo e visão do coro? Quais foram as ideias iniciais?
AA – O objetivo do coro é, em primeiro lugar, tentar não confundir a questão cultural com a questão religiosa. Em segundo lugar, estudar a música leta em toda sua essência e, em terceiro lugar, o prazer de cantar músicas letas e a diversão. Estar com amigos queridos e que tenham prazer em cantar.

LB – A ideia de ir à Letônia este ano era um sonho muito distante? Vocês achavam que conseguiriam se classificar?
AA – Depende. Cada um teve sua visão, tanto de pessimismo quanto de otimismo. Eu sempre acreditei no trabalho de minha equipe (regentes e coristas). Houve necessidade de administrar a ansiedade. Mas, os coristas que possuem leitura musical fizeram com que o trabalho dos regentes fosse simplificado. Mas sempre trabalhamos com otimismo! E conseguimos!

LB – Como foi o processo (para ser escolhido)? Como foi receber a notícia que vocês iriam para a Letônia? E os desafios de gravar um vídeo?
AA – O processo foi o mais complexo possível, uma vez que contava com um juri formado por compositores e regentes do alto escalão da Letônia, que receberam nosso material e julgaram nosso trabalho. Após uma semana, recebemos a notícia pela nossa administradora do coral, Inga Liepina, que estávamos aprovados dentro da pontuação exigida. Os desafios nem foram para gravar o vídeo, mas sim a técnica em cantar. A música leta não é nada fácil. Possui peculiaridades musicais que devem ser estudadas e compreendidas. Existem questões de interpretação como também a aplicação do conhecimento musical. Foi um grande desafio para a nossa equipe.

LB – Como está o planejamento da viagem? Quando vocês irão?
AA – O coro irá embarcar aos poucos, uma vez que temos coristas que necessitam cumprir suas obrigações de trabalho. No período de 17 a 29 de junho o coral estará embarcando para Riga. Este planejamento foi feito em conjunto com todos os componentes, de acordo com as necessidades de cada um.

LB – Há membros que nunca visitaram a Letônia? Como está a expectativa deles?
AA – Sim. Há pessoas que estão indo pela primeira vez e já para um compromisso importante. Creio que estejam muito felizes em conhecer a Letônia, como também receber esta experiência única em cantar no Dziesmu Svetki.

Gostaria – por fim – de agradecer a todos da equipe de música, coristas e apoiadores do coral. Gostaríamos muito de receber mais apoio. Trabalhamos como voluntários e alcançamos um objetivo único e indescritível. Esperamos que nosso coro possa crescer e temos material humano, projetos e ânimo para isso.

Coristas de Nova Odessa e São Paulo

 

Grupo da Letônia visita escolas em Nova Odessa

Durante os dias 05 e 06 de Junho de 2018, o grupo de músicos da Letônia da festa Ligo 2018 – Laima Dimanta, Tenis Dimants e Janis Feldmanis – tiveram a oportunidade de visitar as escolas da rede municipal, ensinando sobre a cultura leta.

As visitas são promovidas pela Associação Brasileira de Cultura Leta desde 2016 com a visão de ensinar a cultura, história da Letônia para os alunos, abordando também temas como cidadania e respeito às diferenças. Neste ano, dez escolas do ensino público em Nova Odessa (SP) e uma em Americana (SP) foram visitadas.

Os músicos – sempre acompanhados por um tradutor voluntário da Associação – se apresentam às crianças e ensinam as músicas e danças típicas, que retribuem com atenção e entusiasmo

Esperamos continuar levando cultura e cidadania para mais e mais escolas a cada ano.

Fotos: Lucas Stepanow Eksteinas

 

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10 Coisas que você não sabia sobre os Letos do Brasil

Tem muito leto para um mundinho tão pequeno – essa é a única explicação. Desde que os primeiros imigrantes da Letônia colocaram os pés em terras brasileiras em 1889, muita coisa aconteceu – muita coisa mesmo. Hoje há grupos letos espalhados pelo sul e sudeste do país. Há médicos, engenheiros, professores. Há muitas histórias; será que você já escutou todas? Por isso mesmo reunimos uma lista de 10 coisas que você (provavelmente?) não sabia sobre os Letos do Brasil. Não foi fácil, mas vale a leitura:

1. Trouxemos um chocolate delicioso para o Brasil

Imagem relacionada
Achou que a Kopenhagen era dinamarquesa? Achou errado…

A Kopenhagen é uma empresa brasileira, mas com um detalhe importante: foi fundada por dois letos. Davi Kopenhagen era um estudante de medicina que abandonou o curso e Anna, uma pianista. Ambos migraram para o Brasil em 1928, seguindo um grande fluxo de letos que foram para a colônia de Varpa (SP), fundada em 1922. Anna e Davi, no entanto, optaram por ir à capital paulista, onde começaram a produção de marzipã na cozinha de sua casa.

Acredita-se que a receita de marzipã dos Kopenhagens tenha sido inspirada na famosa marca de chocolate leta Laima, fundada primeiramente em 1870. O paladar leto, no entanto, prefere chocolates mais amargos, enquanto a Kopenhagen atende ao “docinho” brasileiro. Anna e Davi abriram sua primeira loja em 1929, e o resto é história.

2. Fizemos a pista de pouso mais elevada do Brasil

Verner Grinberg (1910 – 2006) e seu avião

O vilarejo turístico na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, Monte Verde, foi fundado por Verner Grinberg, que nasceu na Letônia em 1910 e veio para o Brasil em 1913. Primeiro, ele morou em Pariquera-Açu (SP) e depois em São José dos Campos – juntando-se aos outros letos que moravam lá. Em 1934 se casou com sua amada Emília Grinberg, que veio, em 1922, para a colônia de Varpa. Mudou-se em 1938 para “Campos do Jaguary”. Ali adquiriu terras, iniciando a formação de uma fazenda. Com o passar do tempo, outros letos se interessaram na compra de terras nessa região, e, em 1950, Monte Verde foi oficialmente formada.

Amante da aviação – um traço aparentemente comum entre os letos – Verner pilotou seu avião até chegar perto dos seus noventa anos de idade e diz que nunca fez sequer um arranhão nele. Fundou em Monte Verde o aeroporto mais alto do país: 1.600 metros acima do nível do mar com pista de 1.100 metros de comprimento. Falando em aviação…

3. O terreno do ITA foi doado por letos

ITA
Foto aérea do ITA

A ideia de trazer colonos letos para São José dos Campos é graças – principalmente – à Julio Malvess, que descobriu terras boas perto da Estrada de Ferro Central do Brasil. Vieram para São José várias famílias letas antes da Primeira Guerra Mundial, entre elas, Schause, Strauss, e Pusplatais.

As terras da família Schause foram, em grande parte, doadas para o Ministério da Aeronáutica e compõem a área do renomado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1950, dentro do CTA (Centro de Tecnologia da Aeronáutica), das quais eram vizinhos os Pusplatais. Os eucaliptos às margens da Rodovia Pres. Dutra foram plantados por Arvido Schause. O loteamento de casas na região preservou a memória dessas famílias: um dos bairros adjacentes ao CTA é denominado “Vila Letônia”.

E não acaba por aí: existem, em São José dos Campos, a Associação Beneficente André Pusplatais (ABAP – Hoje renomeada para Associação Beneficiente de Ajuda ao Próximo) fundada 1996 e a Escola Ilga Pusplatais (EMEF).

(Agradeço a Arnaldo Ceruks pelas contribuições)

4. Nós temos a nossa própria Milda

A Milda de Varpa (SP)

Sabe aquela carismática estátua no centro de Riga (capital da Letônia) de uma figura feminina segurando três estrelas? O nome oficial dela é Brīvības Piemineklis (Monumento da Liberdade), e as três estrelas são as três regiões originais da Letônia (Kurzeme, Latgale e Vidzeme). Ela foi carinhosamente apelidada de Milda.

Ela é tão estimada que a colônia leta de Varpa (SP) decidiu construir sua própria versão na rotatória principal da cidade. Claro, não possui o mesmo tamanho que a Milda original, mas nós gostamos dela mesmo assim.

5. Gostamos de coro e dança

O grupo de dança Staburags, de Ijuí (RS)

Diz-se que os letos são, por natureza, um povo poético e cantor. A cada 5 em 5 anos, desde 1873, a Letônia inteira se mobiliza para realizar o Festival de Música e Dança (Vispārējie latviešu Dziesmu un Deju svētki). Ele é considerado um dos maiores eventos de corais do mundo – contando com milhares de músicos, coristas e dançarinos – e foi nomeado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

O Festival de 2018, no entanto, será mais especial: comemorando os 100 anos da República da Letônia, 12 mil coristas e 17 mil dançarinos (sem contar os músicos) irão participar, e é claro que os letos do Brasil não iriam deixar a oportunidade passar. O Coro Leto Misto de São Paulo e Nova Odessa e o Grupo de Dança Staburags (Ijuí – RS) irão representar os letos do Brasil nesta festividade.

6. Temos também o Indiana Jones Brasileiro

Retrato do Professor Butler

Uma vez já chamado de uma espécie de Coronel Fawcett, Guilherme Butler (Vilis Butler) veio ao Brasil para professor da escola da Colônia Leta de Rio Novo (SC) em 1900. Mentor exímio, transformou a escola de tal forma que o Governador Vidal Ramos a visitou em 1905 e elogiou como uma das melhores de Santa Catarina. Mudou-se mais tarde para Curitiba. Sua casa na Rua Westphalen hoje é patrimônio histórico da cidade e é utilizada como centro cultural, que é onde o Grupo Leto de Curitiba se reúne a cada última sexta-feira do mês.

Foi professor de Alemão e Inglês no Colégio Estadual do Paraná. Quando não estava na sala de aula, viajava ao Sertão, Amazônia, Mato Grosso e Goiás numa época que a malária era o menor dos perigos lá e suas jornadas eram relatadas em páginas de jornais (“A minha viagem de férias à Amazônia”, O Dia, 1934). Coletou as águas de inúmeros rios brasileiros também, como o Negro e o Tapajós e estas amostras existem até hoje sob os cuidados da sua filha, Dra. Helen.

Quando se aposentou, foi convidado para ser paraninfo e seu discurso “As características de uma pessoa educada” foi publicado na íntegra na edição da Gazeta do Povo de 14 de dezembro de 1950. Hoje existe até uma escola com seu nome em Curitiba. Sua filha é igualmente impressionante, mas  sobre isso, vamos falar em outra oportunidade

7. Nós inauguramos a nova Arena da Baixada

Escanteio Brasileiro, Time da Letônia ao fundo

Ok, ok, o jogo oficial de inauguração do Estádio Joaquim Américo Guimarães (Curitiba – PR) mesmo foi em 24 de junho de 1999 com o jogo Atlético Paranaense contra o paraguaio Cerro Porteño. O primeiro jogo entre seleções, contudo, foi dois dias depois – Brasil contra a Letônia, no dia 26 de Junho.

O resultado foi 3 a 0 para a seleção brasileira – precisamos admitir ,  infelizmente, que o forte da Letônia não é o futebol. A torcida da Letônia contava com o Grupo Leto de Curitiba e outras figuras locais – até mesmo Dra. Helen Butler foi lá torcer! O jogo inclusive contou com a presença do Ministro do Esporte e Turismo do Brasil da época, Rafael Greca. Falando em visitas importantes…

8. Nós recebemos a visita de políticos importantes

Foto
A presidente Vaira Vīķe-Freiberga no Brasil

Do mesmo jeito que nós gostamos de visitar a Letônia, eles também gostam de nos visitar. A famosa presidente Vaira Vīķe-Freiberga já visitou a comunidade leta no Brasil duas vezes. Em uma das ocasiões, até recebeu uma camisa do Clube Atlético Paranaense como lembrança daquele jogo entre as seleções dos dois países.

O Vice-Chanceler Andris Teikmanis veio fazer uma visita em 2010. Em 2011, o Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis. O Ministro da Defesa e medalhista de Peso Olímpico Raimonds Bergmanis esteve aqui em 2016; nesta ocasião, chegou a levantar alguns voluntários da Associação no braço. Além destas visitas consideradas mais oficiais, todos os anos algum grupo de músicos da Letônia vem para alegrar a nossa festa do Līgo.

9. Nós estamos também na Bolívia

O Colégio de Rincón del Tigre

A missão de Rincón del Tigre na Bolívia é uma iniciativa fundada em 1946 pelos batistas da Colônia de Varpa (SP). Cercada por uma floresta densa e com difícil acesso, Rincón serve como base para inúmeros projetos sociais e evangelísticos na fronteira Bolívia – Brasil.

Há também uma escola, fundada em 1955. Como é a única em um raio de mais de 70km, muitas famílias pediam para a missão abrigar seus filhos. Para cuidar de todos os alunos de lugares tão distantes, Rincón mantém este internato gratuito com pelo menos 120 alunos a cada ano, provendo acomodação, comida, roupas limpas, passadas, e cuidado médico sem custo para os estudantes.

10. Mas nós estamos em tudo quanto é lado!

Bandeiras do Brasil e Letônia no topo do morro do Anhangava (PR). Março de 2015

 

Parece sociedade secreta: uma pessoa pode ser atendida por um médico leto, ter aula com professores letos e não ter a mínima ideia disso. O Brasil é grande, mas nós demos conta de nos espalhar bem – como eu disse, tem muito leto para um mundinho tão pequeno. Formando uma rota de mais de 4 mil km – os letos já andaram e viveram por:

Rio Grande do Sul – Ijuí
Santa Catarina – Rio Novo, Joinville, Florianópolis, Orleans, Criciúma e Urubici.
Paraná – Curitiba, Quatro Barras, Araucária, Campina Grande do Sul, Balsa Nova, Porto Amazonas, Foz do Iguaçu e Porto União
São Paulo – São Paulo, Nova Odessa, Campinas, Hortolândia, Varpa, Paraguaçu-Paulista, Pirassununga, São José dos Campos, Bragança Paulista, Nova Europa e Monte-Mor
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Minas Gerais – Monte Verde

Isso sem mencionar centenas de outros letos morando em diferentes cidades e estados. Conhece mais alguma cidade? Mais algum leto? Já avisou para ele ficar antenado na página da Associação no facebook? Pois vem uma novidade tamanho Brasil por aí…

Sabe mais alguma curiosidade? Algum fato desconhecido? Mande um email para AndreisPurim@gmail.com contando o que você sabe!

Essa é parte da história – Uma entrevista com V.A. Purim

Ninguém que viu os verdadeiros primórdios do Rio Novo está vivo para contar a história, mas para quem está disposto a ouvir resta o mais inusitado e rico dos testemunhos.” – Paulo Brabo

Em uma pequena e calma chácara localizada nos arredores de Curitiba, cercada de flores e livros – alguns desses mais que centenários – um homem apenas cuida do maior acervo de fotos e cartas dos letos no Brasil. Esse homem é Viganth Arvido Purim. Com muito zelo e diligência, seu trabalho de organizar, escanear e traduzir cartas, documentos e fotos durante anos foi o que possibilitou que muitos brasileiros hoje pudessem encontrar seus antepassados.

Nascido em 1933 na primeira colônia leta no Brasil – Rio Novo (SC), fundada em 1889 – Arvido é o segundo de 7 irmãos. Já cedo ajudava seu pai na roça e participava da sociedade da colônia. Só veio a aprender português tardiamente, e até hoje conserva seu cantado sotaque catarinense. Ele saiu de Rio Novo em 1953, quando foi sozinho trabalhar como ajudante de mecânico em Urubici. Ele, com sua dedicação, avançou nos postos da garagem, e depois das empresas, se aposentando como Gerente Regional de Peças pela General Motors. Suas viagens de trabalho possibilitaram que ele conhecesse muitos outros letos espalhados pelo Brasil.

Desde 2009, ele mantém o blog rionovo, onde consegue publicar posts sobre cartas, atas, livros, fotos e acontecimentos da colônia – que através de muita dedicação traduziu do leto original. Fomos a sua chácara conversar sobre sua experiência com a conservação e divulgação dessas memórias.

Arvido e sua esposa, Edith

Entrevista

Letônia Brasil – Você é o criador do blog rionovo.wordpress. Quando ele foi criado? E por qual razão? Quantas publicações já?

Viganth Arvido – Graças aos meus filhos e outros, consegui aprender a mexer nessas coisas informáticas, e foi aí que comecei a montar algo parecido com a história dos letos de Rio Novo. Comecei a trabalhar nisso por volta de 88 e 89 e depois gostei muito mais de guardar no computador, pois é mais limpo e fácil de achar digitalmente. Não sei quantas publicações, nunca contei, mas por volta de 618. Para mim, o blog é o defensor dos letos no Brasil e defensor da memória da colônia de Rio Novo.

LB – Como as cartas foram guardadas? E onde estão agora? E os livros e atas?

VA – Infelizmente muita coisa foi perdida. Meu pai e meu tio Reynaldo guardavam tudo, mas olha, gostaria de ter guardado mais. As cartas hoje estão lá em Riga (Capital da Letônia), no Arquivo Nacional, lá eles trabalham com cuidado e são especializados para isso. Há os livros e atas da igreja, da juventude, da sociedade missionária, há revistas e jornais antigos também.

LB – Parece que, conforme você pesquisou e criou o blog, descobriu ainda mais coisas não só sobre a Letônia mas como várias outras curiosidades; qual foi a coisa mais inusitada que já aconteceu?

VA – Um belo dia, eu estava em um Congresso Leto em Nova Odessa sentado do lado de fora da igreja quando um Anderman idoso (que eu nem conhecia) perguntou meu nome e disse que havia algo para me dar – nessa época o blog nem tinha começado. Ele me deu um calhamaço de cadernos da história completa da família Anderman, contando desde a chegada do Karlis Anderman em Rio Novo até a ida do filho dele, Júlio Anderman, para a guerra na Itália (com a Força Expedicionária Brasileira). Ele disse “guarde bem isso”. Bom, alguns já estão publicados no blog.

LB – Como eram as notícias recebidas da Letônia independente?  E sobre a ocupação soviética (1940-1941 e 1944-1991) na Letônia, como eram as notícias que chegavam?

VA – Os imigrantes já trocavam cartas desde que chegaram (1889) até 1917. Durante a guerra (primeira guerra mundial e guerra da independência) sabíamos que a Letônia passou por apuros e muitas pessoas perderam suas casas e famílias. Na mesa de refeição meu pai falava para comer tudo pois haviam crianças passando fome na Letônia. Soubemos da ocupação soviética por jornais (de cunho comunista) que agora a Letônia havia sido “retomada” (invadida na segunda guerra) pela União Soviética e falavam da estatização das fazendas, mas nós sabíamos que não era bem assim, as cartas chegavam ao Brasil censuradas e inclusive um dos primos do meu pai desapareceu e nunca mais respondeu as cartas. Além disso, os letos que conseguiram fugir da ocupação e foram para os Estados Unidos e Brasil “sentavam o pau” sobre os invasores.

LB – Durante grande parte do século XX, os letos no Brasil ficaram sem contato nenhum com a Letônia. O que você achou disso? Foi muito prejudicial para a comunidade?

VA – Muito. Muitos dos descendentes que nasceram depois não aprenderam a falar leto e nem sabiam direito onde era a Letônia. As pessoas hoje ficam impressionadas que eu ainda falo em leto, quase como se fosse um herói. Estávamos sem esperança de ter um contato maior, mas sempre que eu podia ler algo em leto, eu lia.

LB – E agora sobre a Letônia em si. Antes dela ser independente, qual era sua ideia sobre ela? Como você achava que era a vida lá?

VA – Por volta do final dos anos 80 havia uma agitação nos países da cortina de ferro contra a ocupação soviética e eu tinha esperança que a Letônia entrasse na jogada. A primeira vez que eu vi um vídeo de uns letos de São Paulo que conseguiram ir visitar a Letônia nessa época, quando eu vi o primeiro leto falando em leto eu pensava “puxa vida, eles existem mesmo!”. Se não duvidar, eu ainda tenho a fita (VHS) dessa primeira viagem.

Arvido em frente ao Monumento da Liberdade, em Riga

LB – Sua primeira visita (à Letônia) foi em 2014. Como foi voltar para a terra dos seus ancestrais?

VA – Gostei de tudo. O meu maior problema foram os taxistas russos, mas mesmo asssim depois eu ligava para eles e eles já exclamavam “Arvids! Arvids!”.  Eu lembro quando desembarquei em Amsterdã para fazer a conexão e quando cheguei no guichê para Riga eu já escutava eles falando em leto, rindo em leto! Mas eu realmente fiquei emocionado, era uma sensação diferente. O museu da ocupação na Letônia me deixou muito atordoado também.

LB – E os letos no brasil hoje? Como você vê a comunidade e os jovens letos do século XXI?

VA – Eu fico animado, algumas pessoas realmente se sobressaem em resgatar e cuidar da memória dos letos hoje. E eu fico feliz que meu trabalho possa ser bem utilizado.

Link para o site rionovo.wordpress: https://rionovo.wordpress.com/

Os Letos e a Revolução Federalista

Um dos episódios mais curiosos e esquecidos da história dos letos no Brasil é a Revolução Federalista, que pegou de surpresa os colonos recém-chegados, que viam o Brasil de então como uma terra pacífica de novas oportunidades. Foi nesse momento inicial que os colonos se juntaram para orquestrar a defesa do seu novo lar e experimentaram as mais variadas engenhosidades para impedir que a colônia fosse atacada. E conseguiram.

A Colônia
    Resumidamente, Rio Novo foi a primeira colônia leta no Brasil, fundada oficialmente em 1889. Os planos da colonização leta vinham sendo desenhados nos anos finais do Império por entusiastas e estudiosos que viam o Brasil como uma terra fértil onde os letos – que até então estavam sob domínio do Império Russo e tinham difícil acesso as terras – poderiam se desenvolver.
Rio Novo se localiza aproximadamente 12 Km de distância do centro do município de Orleans, na região litorânea no sul do Estado de Santa Catarina. A região montanhosa se tornaria passagem para as tropas gaúchas avançarem ao norte, tomando Florianópolis (na época, Nossa Senhora do Desterro), Curitiba e avançar para São Paulo. Apesar disso, entre Rio Novo e Orleans havia uma região de mata pela qual apenas os colonos sabiam o caminho
Entretanto, no mesmo ano de fundação da colônia, o Brasil Imperial foi derrubado e a República foi proclamada. Esse novo governo republicano nasceu sem forte apoio e logo as intrigas políticas e insatisfações das elites locais se transformaram em embates políticos, que culminaria, na revolução. O apoio do projeto de imigração européia criado pelo governo imperial também ruiria, deixando a colônia – nesses anos iniciais – sem apoio algum do governo.

Vista da cidade de Orleans

A Revolução
    O país estava sem constituição, sob censura e o congresso, fechado. Os primeiros presidentes da república foram marechais militares, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, mas diversos setores ainda tentavam tomar o vácuo de poder. No Rio de Janeiro, a Armada (a Marinha brasileira), sob liderança de Custódio de Melo e Saldanha da Gama, exigia eleições e houve batalhas entre a guarda nacional e os revoltosos.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, a disputa política entre o governador positivista Júlio de Castilhos (líder do Partido Republicano Rio-Grandense)  e seu rival Gaspar da Silveira Martins, um ex-político monarquista e líder do Partido Federalista, se aquecia para o confronto. Castilhos e seus apoiadores (chamados de pica-paus) apoiavam o governo federal de Floriano Peixoto. A constituição estadual permitia vários poderes quase ditatoriais para Castilhos e como o voto não era secreto, as manipulações eram frequentes. Silveira Martins, por outro lado, defendia o parlamentarismo e uma revisão das leis estaduais; seus apoiadores ficaram conhecidos como Maragatos.
O movimento Maragato começou a ameaçar a estabilidade do governo Rio-Grandense, e por fim, do novo regime republicano no País – pois os opositores de Floriano os apoiavam. Os federalistas obtiveram vitórias inicialmente em 1893, avançando para Santa Catarina e chegando até o Paraná, onde a decisiva batalha da Lapa (PR) tornou possível o contra-ataque dos republicanos.
Em meio a tudo isso, existia uma pequena colônia de Letos.

Líderes Maragatos

A Defesa
    A colônia leta, assim como a população civil, estava às mercês das tropas que passavam. O conflito estava se tornando sangrento e cada vez mais cruel, os soldados capturados eram degolados, casas eram saqueadas, animais e pertences eram tomados. Os colonos, temerosos e sem nenhum meio de defender sua terra, começaram a bolar planos para enganar os soldados que viriam.
Registra-se que o primeiro sino da Igreja Batista de Rio Novo (pois o primeiro templo não possuía torre) foi criado nessa ocasião e colocado em uma posição estratégica para quando alguma força militar fosse avistada perto da colônia fosse tocado e todos os habitantes escondessem seus animais no mato. No ano seguinte, 1894, foi construído o segundo templo da igreja batista, o famoso “templo de lascas”.
Como a colônia era relativamente afastada e o acesso era conhecido apenas pelos locais, os letos começaram, com a ajuda de um polonês que falava bem português, a espalhar histórias sobre a colônia “dos russos” (eles eram chamados assim pois a Letônia ainda fazia parte do Império Russo), que eram numerosos e preparavam emboscadas para os soldados que adentrassem no caminho até a colônia, inclusive com explosivos e pelotões de colonos em patrulha.
Rio novo estava apreensiva. Os colonos sabiam blefar, mas, caso descobertos, a mentira cairia por terra e entrariam em problemas. . E na cidade, ocupada pelos federalistas, a curiosidade dos soldados sobre esses semibarbaros “russos” aumentava.

O soldado
    Uma das histórias contadas pelos letos de Rio Novo é sobre um leto que – em uma madrugada – foi a Orleans comprar mantimentos, e logo foi identificado pelos soldados perto como um dos “russos”. Foi ao armazém e logo voltou ao caminho de casa. Entretanto, percebeu que um dos soldado estava o seguindo. Atravessou a barra do Rio Novo, logo dobraria a direita pelo vale do Rio Novo. Essa era a estrada mais próxima e vigiada,  mas não queria arrumar confusão, tentou pegar um caminho alternativo pelo Rio Tubarão e depois pelo Rio Laranjeiras, entretanto, não foi capaz de despistar o soldado, que o seguia a distância.
Precisava fazer alguma coisa.
Ele carregava consigo uma espingarda pica-pau calibre 24 (na época, muitas espingardas ainda eram carregadas pela boca, onde era preciso colocar o chumbo, a pólvora e ainda empurra-las com uma vara metálica para o fundo do cano da arma). Fingindo estar trocando as mercadorias de ombro, carregou em sua espingarda 3 chumbos e a pólvora, entretanto, não teve tempo de empurra-los com a vara. Logo na primeira curva, se escondeu no mato e terminou de carregar a arma.
Apenas um tiro já foi suficiente para matar o soldado federalista. Com o uniforme ensanguentado e o fuzil Mannlicher (provavelmente um Mannlicher M1888), agora era preciso se livrar da encrenca. O colono suspeitava que o soldado tivesse sido designado para achar um caminho para a colônia, e logo poderia chegar um expedição de busca.
O corpo foi escondido em uma vala cavada na estrada, junto com o fuzil, e depois coberta com folhagem para disfarçar. A região onde ele supostamente foi enterrado era chamada de “Bukovina” e pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.
O nome do colono, apesar de algumas teorias, nunca foi confirmado.

Apesar das forças contrárias, a revolução Federalista terminou em 1895 com a vitória de Júlio de Castilhos e o governo republicano, e, graças a coragem e sagacidade dos colonos, a colônia sobreviveu.

Skaidas Baznica/O templo de Lascas, construído em 1894

Fontes:
PURIM, V. A. Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus. rionovo.wordpress, 2012. Disponível em: <https://rionovo.wordpress.com/2012/10/04/os-revolucionarios-passaram-a-ser-chamados-maragatos-e-os-legalistas-eram-os-picapas/>. Acesso em: 24 dez. 2017.
LOTTIN, Jucely. Os Letos Orleanenses. Santa Catarina: Elbert, 2002.

 

Escola de férias da Universidade Tecnológica de Riga

   Em julho e agosto do ano passado, tive a oportunidade de participar como bolsista de um curso de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tecnológica de Riga (RTU). A primeira vez em que soube do curso foi por um e-mail que minha mãe recebeu anunciando que abriram as inscrições. Eu fiquei interessada e fui visitar o site do programa. A proposta do curso me chamou muito a atenção: o objetivo era que o aluno, em uma semana, elaborasse um projeto e na semana seguinte o construísse. Para mim, era uma proposta completamente nova, porque nunca tivemos a oportunidade de realmente construir um de nossos projetos na faculdade – o mais perto que chegamos foi em maquetes de papelão na escala 1:1, para pequenos projetos.

   Em suma, o que a Summer School of Architecture da RTU propõe é que alunos do mundo todo se juntem em um curso de duas semanas e projetem duas instalações com ajuda de tutores. Eram dois grupos, cada qual com seus tutores e uma instalação a ser projetada e construída. Outro aspecto que me chamou atenção no curso foi a escolha dos tutores: três eram fundadores de um escritório conhecido da Letônia e os outros três eram professores de Oxford com projetos internacionais. Além disso, os dois organizadores do curso eram professores da RTU e trabalhavam na área de urbanismo em várias cidades da Letônia, especialmente em Cēsis. As atividades propostas pelo curso incluíam desde palestras com profissionais de diversas áreas, workshops a atividades como canoagem e yoga.

   Porém, como era meu primeiro ano de faculdade, eu ainda não tinha os pré-requisitos para me candidatar para participar do curso. No ano seguinte, em 2016, abriram novamente as inscrições e dessa vez eu já tinha cumprido a carga horária mínima para poder me candidatar. O processo não foi muito difícil. Era necessário enviar um currículo e uma carta motivacional em inglês, uma foto e um portfolio. O currículo deveria ter uma página, a carta deveria ter no máximo 1000 palavras ou 3 páginas, e o portfiolio só poderia ter 3 páginas, sendo que nenhum arquivo poderia ultrapassar 5 Mb. São cerca de 250 inscritos para 20 ou 30 vagas.  

   Acredito que a carta motivacional seja a chave para ser aceito ou não no curso. Conversando com a organizadora, no dia em que chegamos, ela comentou que foi a carta motivacional que teve, de fato, um peso grande na decisão. É importante que ela contenha três informações importantes: quem você é (sem repetir o seu currículo), porque você quer fazer esse curso e porque você quer uma bolsa de estudos.

   Acredito que o curso foi importante para a minha formação profissional, além de me dar a oportunidade de ir para a Letônia e fazer novos amigos. Durante o processo de elaboração do projeto, tivemos contato com vários aspectos culturais e históricos da Letônia. Além disso, durante a construção e na inauguração, muitos moradores de Cēsis – e alguns turistas – ficaram curiosos e vieram perguntar sobre o projeto e o curso. É uma experiência muito boa que recomendo para quem tiver interesse.

Passo a passo para quem quiser ir também:

  1. Entrar no site abaixo e ficar atento as inscrições.
  2. Traduzir o seu currículo e fazer ser portfolio.
  3. Iniciar o processo de inscrição na data indicada (normalmente em março ou abril).
  4. Escrever sua carta motivacional.
  5. Enviar as inscrições.

Site do programa: http://www.rtusummerschool.lv/

Meu email para tirar dúvidas: mirelathaise@gmail.com

 

Fotos por Kaspars Kursišs

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