O Coro vai a Letônia!

Toda nação possui uma identidade cultural – e não é exagero dizer que a Letônia tem uma das mais belas: cantar. Está na alma e no sangue de todo o leto, seja lá ou seja aqui no Brasil. Não é à toa que durante tempos de opressão, a cantoria era a força unificadora de todos aqueles que sonhavam em cantar – livres – uma vez mais.

Considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o Festival de Coro e Dança reúne a cada 5 anos, mais de 30.000 coristas e dançarinos, e mais milhares de turistas e espectadores. O primeiro festival foi realizado em 1873 e este ano, em 2018, celebrará os 100 anos da República da Letônia.

Do lado de cá do oceano, os letos e seus descendentes também se reúnem para cantar por prazer e com alegria. O Coro Misto é uma iniciativa de coro aberto, atualmente composta por 25 coristas de Nova Odessa, Atibaia, Varpa, Campinas e outras cidades. A ideia de juntar corais é uma tradição já antiga na comunidade, principalmente em encontros realizados pelas igrejas batistas. Desta vez, no entanto, apareceu uma oportunidade única: aplicar-se para participar do festival de Corais. A longa viagem, no entanto, começou no Brasil…

Realizar ensaios – para começar – não foi nada fácil pois haviam coristas em lugares tão distantes como Varpa e São Paulo – divididos por seis horas de viagem. A solução, então, foi realizar ensaios locais na forma de módulos. O segundo desafio foram as músicas: complexas, exigentes, minuciosas – o coro teve apenas três semanas para ler, entender e executar. Para serem selecionados, precisavam fazer duas gravações para avaliação do júri da Letônia. Os ensaios foram alternados entre Nova Odessa e São Paulo para a primeira gravação. Para a segunda, a solução foi tentar aproveitar o máximo do curto tempo que foi dado, ambos os grupos estudaram separadamente com afinco. O resultado foi positivo.

Após muito trabalho, o Coro Misto pode celebrar: é o primeiro da América Latina a participar do Dziesmu Svetki. Estarão na Letônia por volta de um mês – mas não pense que será apenas para turismo – eles terão compromissos oficiais, conferência dos regentes e outras atividades importantes. Entre 01 e 08 de julho, todos estarão concentrados, ensaiando ou cantando nos concertos oficiais. Em meio à correria de ensaios e preparação, entrevistamos o regente do coral Allan Arajs para saber um pouco mais sobre o coro misto. Veja um trecho da entrevista a seguir:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do coro no seu atual modelo, o coro misto? Houve outros coros antes?
Allan Arajs – Este modelo já existe a muitos anos. Sempre que há alguma comemoração cívica há colaboração de voluntários de Nova Odessa, São Paulo, Varpa e outras cidades também. Com certeza, esta parceria entre coristas tem mais tempo do que a minha existência (risos).

LB – Qual é o objetivo e visão do coro? Quais foram as ideias iniciais?
AA – O objetivo do coro é, em primeiro lugar, tentar não confundir a questão cultural com a questão religiosa. Em segundo lugar, estudar a música leta em toda sua essência e, em terceiro lugar, o prazer de cantar músicas letas e a diversão. Estar com amigos queridos e que tenham prazer em cantar.

LB – A ideia de ir à Letônia este ano era um sonho muito distante? Vocês achavam que conseguiriam se classificar?
AA – Depende. Cada um teve sua visão, tanto de pessimismo quanto de otimismo. Eu sempre acreditei no trabalho de minha equipe (regentes e coristas). Houve necessidade de administrar a ansiedade. Mas, os coristas que possuem leitura musical fizeram com que o trabalho dos regentes fosse simplificado. Mas sempre trabalhamos com otimismo! E conseguimos!

LB – Como foi o processo (para ser escolhido)? Como foi receber a notícia que vocês iriam para a Letônia? E os desafios de gravar um vídeo?
AA – O processo foi o mais complexo possível, uma vez que contava com um juri formado por compositores e regentes do alto escalão da Letônia, que receberam nosso material e julgaram nosso trabalho. Após uma semana, recebemos a notícia pela nossa administradora do coral, Inga Liepina, que estávamos aprovados dentro da pontuação exigida. Os desafios nem foram para gravar o vídeo, mas sim a técnica em cantar. A música leta não é nada fácil. Possui peculiaridades musicais que devem ser estudadas e compreendidas. Existem questões de interpretação como também a aplicação do conhecimento musical. Foi um grande desafio para a nossa equipe.

LB – Como está o planejamento da viagem? Quando vocês irão?
AA – O coro irá embarcar aos poucos, uma vez que temos coristas que necessitam cumprir suas obrigações de trabalho. No período de 17 a 29 de junho o coral estará embarcando para Riga. Este planejamento foi feito em conjunto com todos os componentes, de acordo com as necessidades de cada um.

LB – Há membros que nunca visitaram a Letônia? Como está a expectativa deles?
AA – Sim. Há pessoas que estão indo pela primeira vez e já para um compromisso importante. Creio que estejam muito felizes em conhecer a Letônia, como também receber esta experiência única em cantar no Dziesmu Svetki.

Gostaria – por fim – de agradecer a todos da equipe de música, coristas e apoiadores do coral. Gostaríamos muito de receber mais apoio. Trabalhamos como voluntários e alcançamos um objetivo único e indescritível. Esperamos que nosso coro possa crescer e temos material humano, projetos e ânimo para isso.

Coristas de Nova Odessa e São Paulo

 

Grupo da Letônia visita escolas em Nova Odessa

Durante os dias 05 e 06 de Junho de 2018, o grupo de músicos da Letônia da festa Ligo 2018 – Laima Dimanta, Tenis Dimants e Janis Feldmanis – tiveram a oportunidade de visitar as escolas da rede municipal, ensinando sobre a cultura leta.

As visitas são promovidas pela Associação Brasileira de Cultura Leta desde 2016 com a visão de ensinar a cultura, história da Letônia para os alunos, abordando também temas como cidadania e respeito às diferenças. Neste ano, dez escolas do ensino público em Nova Odessa (SP) e uma em Americana (SP) foram visitadas.

Os músicos – sempre acompanhados por um tradutor voluntário da Associação – se apresentam às crianças e ensinam as músicas e danças típicas, que retribuem com atenção e entusiasmo

Esperamos continuar levando cultura e cidadania para mais e mais escolas a cada ano.

Fotos: Lucas Stepanow Eksteinas

 

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Festa Ligo 2017 em Nova Odessa

      No dia 24 de Junho os letos do Brasil celebraram o Ligo em Nova Odessa com muitas músicas, danças e uma excelente gastronomia. Por volta das 16:00 turistas de São Paulo visitaram o local da Festa e puderam aprender mais sobre a Letônia e em especial sobre a festa Ligo através de uma palestra que a presidente da DAKLA, Renate de Carvalho Albrecht apresentou. Após a palestra o grupo aprendeu algumas danças típicas e pode experimentar algumas delicias da culinárias leta.

Turistas de São Paulo aprendem danças típicas. Foto: Gabriela Liepkaln

     Vários jovens ajudaram na organização da festa, uma equipe estava na entrada para receber os convidados, outros ajudaram na organização do pessoal na dança e em outras atividades. Muitos dos jovens vestiram trajes típicos letos que encomendamos com uma costureira do Brasil.

Alguns dos jovens que ajudaram durante a festa Ligo 2017. Foto: Gabriela Liepkaln

     Da mesma forma que nos outros anos, nós escolhemos uma pessoa que se destaca pela trabalho na comunidade Leta para acender a fogueira. O Elmars Kivitz foi o escolhido esse ano devido a sua contribuição para preservação da história dos letos no Brasil e difusão da cultura da Letônia.

Todo ano uma pessoa é escolhida para acender a fogueira, em 2017 o homenageado foi o Elmars Kivitz que sempre tem trabalhado para preservar a história e difundir a cultura leta no Brasil. Foto: Gabriela Liepkaln

 

Músicas e danças

     Quem animou a festa foi a Ilze Farte e Matiss Uskans. Eles não se tocaram músicas letas como também puderam ensinar o público novas danças que a maioria não conhecia. Além de tocarem na festa Ligo a dupla também se apresentou em Escolas de Nova Odessa e no festival de inverno de Monte Verde. A vinda da dupla ao Brasil só foi possível graças ao Ministério da Cultura da Letônia (LR Kulturas ministrija) e a PBLA (Pasaules Brivo Latviesu Apvieniba) através do projeto de celebração do centenário da Letônia.

Publico dança animado ao som da dupla Ilze e Matiss da Letônia. Foto: Paulo Vieira
Ilze ensina novas danças durante a festa Ligo 2017. Foto: Paulo Vieira.
Matiss Uskans e Ilze Farte. Dupla que animou a festa Ligo 2017. Foto: Gabriela Liepkaln.
Apoio: Ministério da Cultura da Letônia e PBLA – Associação Letos Livres do Mundo

     Durante a festa tivemos um publico estimado em 600 pessoas que assistiram as danças e apresentações musicais e puderam encontrar amigos e parentes em um ambiente familiar. Tivemos visitantes de Varpa, Curitiba, São Paulo etc.. Como em toda celebração leta a gastronomia não ficou para trás. O público pode se servir com pratos típicos letos e pratos tradicionais no Brasil durante essa época do ano. Isso tudo só foi possível através do trabalho voluntário de muitas pessoas que sempre ajudam a Associação Brasileira de Cultura Leta.

A Festa Ligo tem um ambiente familiar que propicia agradáveis encontros de famílias e amigos. Foto: Paulo Vieira
Parte das voluntárias que prepararam deliciosos pratos durante a festa. Foto: Gabriela Liepkaln

     A festa Ligo 2017 também foi a abertura das celebrações do centenário da Letônia no Brasil. Durante a festa explicamos que em 2018 celebraremos o centenário da Independência e proclamação da República da Letônia e como essa data é muito importante, iremos comemorar desde o Ligo até 2019.

No ligo 2017 demos início as celebrações do centenário da Independência e proclamação da república da Letônia no Brasil. Foto: Gabriela Liepkaln

A festa do Līgo

A festa do Līgo – também chamada comumente de Jāņi – é certamente o mais popular dos feriados letos. Celebrada na Letônia durante a noite mais curta do ano (o solstício de verão), no dia 23 ao 24, durando só das 23h às 3h, a festa é comemorada com muita dança, música e comidas típicas ao redor de uma fogueira.

Embora a época do Līgo, na Letônia,  seja também a das chuvas (os letos dizem com frequência para os dias chuvosos līst kā pa Jāņiem, “chove como se fosse o Jāņi”), isso não impede que multidões se reúnam nas principais cidades para celebrar. Para participar, apenas é preciso ter disposição e alegria. A festa é uma grande celebração da cultura e ancestralidade leta; várias tradições anciãs são preservadas.

História

A celebração da festa do Līgo vem desde os tempos imemoriais da cultura leta, quando os trabalhadores rurais se reuniam comemoravam a chegada do solstício verão e boas colheitas. Associava-se a celebração com as forças e divindades da natureza na mitologia leta – para celebrar o período entre a plantação e a colheita, para atrair felicidade e espantar o azar.

Na verdade, o solstício de verão acontece no dia 21 de junho, mas com a cristianização, as celebrações foram prorrogadas para o dia 23 para ficar mais perto do dia de São João (24), e daí temos o nome Jāņi. Além disso, os nomes Jānis e Līga estão entre os mais populares na Letônia, e são comemorados nos dias 24 e 23, respectivamente.

A celebração do Līgo é de grande importância para a cultura leta. Com o desenvolver da História, as celebrações foram proibidas, como na União Soviética, mas o povo continuava a se reunir para celebrar a identidade leta nos kolkhozes. Hoje em dia, o feriado é muito importante por celebrar a tradição e herança cultural leta.

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Os preparativos

O Līgo começa com a preparação das casas e saunas letas, os arredores são limpos: Lavagem, corte de grama, estocamento de lenha. É comum passar o feriado nas áreas rurais do país, com a natureza e as fogueiras – Mas nas grandes cidades também são organizadas celebrações e eventos especiais, como a venda de plantas medicinais, ervas, temperos, coroas de folhas, queijo, cerveja e muitas outras coisas para que os letos possam aproveitar a noite da melhor forma possível

A Coroa (Vainagi)

A coroa circular do Līgo simboliza o sol. Na confecção das coroas, os homens usam ramos de carvalho, e a coroa das mulheres é entrelaçada com uma variedade de flores dos pastos – As mulheres casadas também colocam folhas de carvalho em meio as flores, e todas as coroas são tecidas com muito esmero.

Colocar a coroa na cabeça de um amigo é sinal de uma relação forte e sincera.

As Ervas (Jāņuzāles)

Pela manhã, decora-se os cômodos com galhos de carvalho e bétula, margaridas e vidoeiro. Todas as flores, ervas e árvores de flor neste dia são consideradas “Jāņuzāles”, na tradição popular, acredita-se que as ervas coletadas ao nascer do sol possuem poder medicinal, e por isso nesta época são populares os chás naturais.

Com estas ervas também são criadas guirlandas e o portão do sol – um a oeste (rietumi) e outro a leste (austrumi), para simbolizar o nascer e pôr-do-sol.

As comidas (Ēdiens)

Além das ervas e chás medicinais, também são comidas populares no Līgo são os pīrāgi e o queijo de alcaravia (cuja cor simboliza o sol). Além disso normalmente é festejado com bebidas – mantenha sua bebida favorita estocada. Sem isso, você não está celebrando o solstício!

A Fogueira (Ugunskurs)

A fogueira do Līgo é comumente queimada do pôr-do-sol até o nascer do sol, no lugar mais alto, assim iluminando a área para haver luz e não trevas. A tradição popular é saltar sobre a fogueira, simbolicamente limpando tudo que é supérfluo. Os casais pulam a fogueira de mãos dadas para fortalecer o relacionamento, e saem para os bosques para procurar pela flor de samambaia – que só floresce na noite do Jāņi – mas talvez isso seja só um pretexto para namorarem em paz.

A Sauna (Pirts)

Também faz parte da tradição fazer saunas. Tipicamente, as saunas letas são decoradas com ramos de folhas de carvalho e bétula para relaxar e limpar tudo aquilo que não é bom. Depois, todos vão nadar num rio ou num lago por perto. As tradições são divertidos e fortalecem os laços entre família e amigos.

O Līgo no Brasil

O Līgo é uma das principais festas culturais letas que sobreviveu pelas eras, e ainda hoje é comemorada com muita diversão e alegria por todos. No Brasil, não viramos a noite, mas dançamos e cantamos muito, e comemos comidas típicas – celebrando a cultura e tradição viva em nós. Aliás, criamos até a nossa própria tradição para acender o fogo: todo ano um membro da comunidade é escolhido para levar a tocha até a fogueira. Você também pode participar da festa com as comunidades típicas em Nova Odessa (SP) e Ijuí (RS). Veja aqui como foi a festa do ano passado! Venha e participe!