Cônsul Daina se Despede do Cargo

No dia 14 de Julho de 2020, a Cônsul Honorária da Letônia no Brasil, Daina Gutmanis, deixou seu cargo por motivos de saúde. Daina foi uma das principais figuras entre os letos do Brasil nas últimas décadas e desde que assumiu este cargo em 2013 implantou mudanças e fez várias ações para projetar a comunidade leta do Brasil junto ao governo da Letônia, assim incrementar o intercâmbio entre a Letônia e as comunidades letas do Brasil. O artigo de hoje irá retratar um pouco da trajetória de sua vida, seu trabalho como cônsul, e os desafios de um Cônsul Leto no Brasil.

Queridos Amigos, tenho a informar que, por motivos de saúde, desde 14 de julho de 2020 não sou mais Cônsul Honorária da…

Posted by Daina Gutmanis on Thursday, 16 July 2020

Biografia

Daina Gutmanis nasceu em 08 de abril de 1958, em São Paulo capital, filha de pais vindos da Letônia como refugiados da Segunda Guerra Mundial e da ocupação soviética, e assim como muitos outros letos letos, foram espalhados pelo mundo. A geração de Daina nasceu orfã de sua pátria – as notícias que chegavam eram de censura e deportações – ainda assim, a família de Daina lhe ensinou orgulhosamente a língua e cultura leta. Desde jovem, ela sempre participou de atividades culturais letas, vestida com traje típico em cerimônias comemorativas e exposições.

Após participar num acampamento 2×2 (um acampamento para jovens aprenderem a cultura leta que existe até hoje) nos EUA e em outro na Venezuela, ficou entusiasmada com o que aprendeu e junto com outros jovens letos latino-americanos resolveram fundar em 1977 a DLJA – Associação dos Jovens Letos da América do Sul e a BRALJA – Associação dos Jovens Letos do Brasil. Dessas organizações vieram a surgir grandes nomes dos letos na America Latina, como Anita Zalts, da Argentina, Guntars Gedulis, da Venezuela, e é claro, Daina Gutmanis.

Em 1979, inspirada pela experiência do 2×2, ajudou a organizar o primeiro acampamento de cultura leta no Brasil chamado “Saulaine”, realizado em Nova Odessa – SP. Dentre os voluntários que ajudaram a organizar estava a Sra. Vaira Vike-Freiberga, como professora, sem imaginar que um dia ela seria a Presidente da Letônia (1999 – 2007). Daina também ajudou a organizar a escolinha leta aos sábados na Igreja Luterana Leta de SP. Ingressou na Corporação Estudantil Imeria de universitárias letas.

Congresso da DLA (Organização dos Letos da América do Sul): Ilgvars Zalts, Roberts Pontuška (com a bandeira), Rūdolfs Ķīvīts, Daina Gūtmanis

O Voluntariado

Na vida profissional, Daina se formou como Engenheira Agrônoma em 1981 na USP ESALQ . Obteve seu título de Mestre em 1990 e Doutora em 2004. Sua tese de Doutorado sobre Sequestro de Carbono rendeu-lhe o Prêmio de Melhor Trabalho Acadêmico conferido pelo Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável. Foi Pesquisadora Científica do Instituto de Zootecnia de 1989 a 2013, exercendo diversas funções, além de participar de diversos eventos científicos nacionais e internacionais. 

Para complementar o currículo já brilhante, Daina decidiu fazer uma Especialização em Direito Internacional e Relações Internacionais, concluindo em 2006 na UNIMEP. Os primeiros passos para sua carreira como cônsul.

Daina é uma voluntária de coração. Ocupou vários cargos na Comunidade Luterana Leta de SP e de 2003 a 2010 foi secretária da Associação Brasileira de Cultura Leta. Foi também, de 1997 a 2015, presidente da DAKLA, a Associação Leta da América do Sul e Caribe (sucessora da DLA e DLJA) e participava anualmente das reuniões da PBLA (Associação Mundial dos Letos Livres), onde são discutidas as necessidades de cada comunidade leta fora da Letônia, enfocando principalmente aspectos culturais (uma espécie de “instância superior” para comunidades letas no mundo). 

Reunião da PBLA em 2017. Daina se encontra no meio da segunda fila.

Daina participou da comissão de organização da visita da Presidente da Letônia Vaira Vike-Freiberga a Nova Odessa em 2007, do Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis em 2011 e do Ministro da Defesa Raimonds Bergmanis em 2016. Realizou a exposição de fotos “Imigrantes Letos” em 2008 no Memorial do Imigrante, em São Paulo, em comemoração aos 90 anos de Proclamação da República da Letônia. Ainda em 2008 recebeu Diploma e Homenagem do Ministério de Relações Exteriores da Letônia pelo significativo trabalho em prol da República da Letônia. Em 2009 recebeu o título de “Cidadã Novaodessense” da Câmara de Vereadores de Nova Odessa.

Cônsul Daina

Antes de falar sobre o seu trabalho como cônsul, é necessário explicar o que é o cargo de Cônsul Honorário. Sem entrar muito em detalhes jurídicos, um Cônsul Honorário é um cargo 100% voluntário ocupado por cidadãos do país alvo para representar o país de origem. Cônsules Honorários não possuem poder jurídico/diplomático, e normalmente o papel “diplomático” feita por eles é apenas ajuda em questões econômicas para empresas que desejam fazer comércio com o país que representam. Cônsules Honorários não fazem passaportes e não podem dar cidadania à alguém.

O cargo de Cônsul Honorário da Letônia no Brasil, entretanto, é um cargo que veio a encompassar uma importância social e simbólica muito maior – esse Cônsul não só representa mas ajuda toda a comunidade leta no Brasil. Após se aposentar do serviço público em 2013, Daina foi nomeada Cônsul, sendo a segunda a ocupar o cargo após a independência da Letônia em 1991, sucedendo o Dr. João Grimberg.

Convém destacar também que todas as despesas do cargo de Consul Honorário são custeados pelos mesmos, uma vez que o país representado não fornece nenhum subsídio ou remuneração. E há sempre necessidade de deslocamentos, despesas de frete, e mais um número de gastos que exigem atenção e, consequentemente custos. Durante sua gestão ela pôde prestar assistência e auxiliar tanto brasileiros quanto estrangeiros na regularização de documentos e divulgar a Letônia para brasileiros, assim o Brasil para a Letônia.

Além da representação diplomática, Daina continuou participando e apoiando as atividades da PBLA, DAKLA e Associação Brasileira de Cultura Leta, visando preservar e divulgar a cultura leta no Brasil. Daina participa do Coral Leto do Brasil e durante sua gestão, tanto este Coral quanto o Grupo de Dança de Ijuí participaram do Grande Festival da Canção e Danças da Letônia ocorrido em julho de 2018 em Riga.

Daina também foi uma das idealizadoras e executoras do I Festival de Cultura Leta no Brasil, realizado em Novembro de 2018 em Nova Odessa e Americana – SP. Em 2016 recebeu Homenagem do CONSCRE – Conselho Estadual Parlamentar das Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras na Assembleia Legislativa de São Paulo pelos relevantes serviços prestados à  Comunidade Leta.

Por fim, em em 08 de abril de 2019, por decisão da Comissão Presidencial das mais altas condecorações nacionais concedeu a Daina Gutmanis pelo trabalho relevante realizado para o bem da Letônia a Cruz de Reconhecimento (Atzinibas Krusts), III categoria, sendo ela nomeada Comandante da Ordem da Cruz de Reconhecimento. A cerimônia de condecoração pelo Presidente da Letônia aconteceu dia 3 de maio de 2019.

Daina discursa no Museu Nacional da Letônia, 2019. Logo atrás está o presidente da Letônia Raimond Vejonis e a representante do Ministério da Cultura Jolanta Borīte.

Muito Além de Medalhas (ou O Trabalho de um Cônsul)

Um depoimento pessoal por Andreis Purim

O trabalho de Cônsul Honorário é um pouco ingrato – ou como um amigo uma vez disse: “você dá seu suor e eles pedem seu sangue” – além de ser um cargo sem remuneração, tentar representar quase 25.000 letos no Brasil, espalhados por vários estados, é um trabalho titânico. Infelizmente, a maior parte das pessoas apenas vê o cônsul quando este recebe medalhas, e poucos estão por perto quando este está trabalhando.  Esse artigo, além de informativo, é uma dedicatória à Sra. Daina Gutmanis. 

Se um dia você for a um Līgo em Nova Odessa, não fique surpreso ao ver a Cônsul assando carne nos fundos da barraca de comida.

Daina foi uma das minhas primeiras amigas quando cheguei em Nova Odessa para participar do Līgo 2016. Ela me buscou no aeroporto de Viracopos e me deu carona até o local onde seria realizado o evento. Seria apenas a primeira de muitas  caronas que eu recebi. Quando um evento da Associação acaba, ela – junto com alguns poucos voluntários – fica até o final da organização e ajuda a guardar tudo. No final do festival de Cultura Leta, 2 horas da manhã, haviam apenas 4 pessoas no teatro terminando de empilhar as quase 200 cadeiras de plástico que havia sido alugado para o Coral. Daina era uma delas.

Daina não só dedicou seu suor e trabalho como também transformou sua casa em um consulado. Além de realizar diversos eventos e reuniões, a casa da Daina serviu de cabine eleitoral para as eleições parlamentares da Letônia em 2018 (trabalhamos da 5h da manhã até 20h da noite). Se isso não fosse o suficiente, até seu sofá serviu de cama para uns voluntários de São José dos Campos que perceberam que estava muito tarde para dirigir pela estrada após um Līgo.

Mas certamente, a parte mais difícil do trabalho está sendo cuidar de 33 letos que foram presos no Brasil. A maior parte desses presos são russos étnicos com passaporte da Letônia (alguns nem falam Leto), e se envolveram com o crime organizado e tráfico de drogas após a queda da União Soviética. Esses presos estão em prisões no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Sem o trabalho voluntário da Daina – que dirige horas e horas todo mês para ajuda-los a terem representação diplomática – esses presos poderiam acabar sendo recrutados por facções criminosas brasileiras dentro dos presídios, por não terem amparo legal no nosso país. Este tipo de trabalho não rende medalhas, apenas custos e dor de cabeça, mas ela está lá para ajudá-los a se recuperarem.

Desde que a Daina abriu um perfil no Facebook, sua caixa de entrada nunca parou de receber perguntas sobre cidadania, passaporte, documentos e as vezes até conselhos de viagem. Na reunião da DAKLA em 2018 eu precisei de um tradutor em tempo real de leto para minha apresentação, e ela se ofereceu sem hesitar. Ao invés de jantares luxuosos com os figurões, Daina preferiu fazer um lanche no subway com os voluntários do Festival de Cultura Leta.

Após tudo isso, é fácil entender o quão exigente é – fisicamente e mentalmente – o exercício do Consulado. É claro que não quero desmerecer o trabalho de outros voluntários dedicadíssimos da comunidade leta (cada um merece um artigo por si só), mas a Daina realmente é um exemplo de alguém que lutou ao máximo. É uma grande pena ela deixar o cargo – mas cá entre nós – ela também merece um descanso.

Obrigado!