Filme leto da era soviética no festival de Cannes

   Četri balti krekli (“Quatro Camisas Brancas”) é um filme revolucionário, mas sutilmente crítico. Marcou uma juventude perdida pela censura soviética na Letônia. Originalmente publicado como Elpojiet dziļi (“Respire fundo”) em 1967, foi censurado e só exibido oficialmente em 1986. O filme é a marca de uma juventude não conformada e perdida para a opressão soviética na Letônia, e ironicamente retrata a censura e a proibição de obras de arte na época. Dirigido por Rolands Kalniņš, o filme é inspirado na peça Trīspadsmitā do dramaturgo leto Gunārs Priede, estrelando Uldis Pūcītis, Līga Liepiņa, Dina Kuple, Pauls Butkēvičs e outros.

   A quintessência do filme  é a busca por inovação, liberdade artística, e não-conformismo dos jovens.  A história gira em torno do jovem Cēzars Kalniņš, que é apaixonado pro música nas horas vagas, ele e sua banda “Optimisti” (Otimistas) tocam suas músicas. Em uma apresentação em um bar local, a comissária cultural (empregados do governo soviético responsáveis por “avaliar” o conteúdo das artes) Anita Sondore escreve um artigo ultrajante sobre a “frivolidade” das músicas do grupo e como eles não são adequados a juventude. A opinião de Sondere começa a mudar quando ela conhece Cēzars, mas o estrago já estava feito e seu artigo chega às autoridades. Uma reunião é feita e é decidido negar a liberdade ao grupo. O conflito é agravado entre Cēzars e seus colegas de banda, que preferem alterar o significado das músicas para aplacar as autoridades.

    O filme volta a ser estrelado na programação de clássicos do famoso festival de cinema de Cannes, em 2018, 51 anos após seu lançamento. Teóricos do cinema são fascinados pelo espírito vanguardista do filme e sua atenção as tendências dos anos 60, juntamente com o movimento francês Nouvelle Vague (New Wave).  “De uma certa forma, o fato que o filme de Rolands Kalniņš está incluso no programa dos (filmes) clássicos do festival de cinema mais importante do mundo testifica a aceitação mundial do movimento New Wave leto”, disse Dita Rietuma, crítica de cinema e diretora do Centro Nacional de Filmes da Letônia, em entrevista para a Latvian Public Broadcasting. O próprio diretor estará presente para assistir o filme

O filme completo está disponível no youtube:

Música

    A proibição do filme não foi capaz de impedir a popularidade das músicas – compostas pelo músico Imants Kalniņš no seu auge e escritas pelo poeta Māris Čaklais –  que se tornaram famosas entre os jovens da época e até inspiraram o clube de música “Četri balti krekli” em Riga. É o primeiro filme leto (e um dos primeiros de Europa) a considerar a trilha sonora e música como uma obra separada. O rock anos 60 se mistura com letras que escondem sutilezas críticas para os cidadãos conformados com a opressão da época. Preparamos uma pequena análise e tradução da música homônima do filme:

Četri balti krekli Quatro Camisas Brancas
Ja četri balti Krekli
Ir jaunam cilvēkam,
Tas iziet var caur dzīvi
Bez lielām pārdomām

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Tas pirmais –priekšniecībai
Kad vajag rādīties.
Un tad nu paša gribai
Vēl paliek nākamie.

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Balts krekls rīta pusē,
Bet melns jau pusdienā.
Bet trešais baltais krekls
Top uzvilkts vakarā.

Un atkal nezin kāpēc
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Var baltos kreklus mainīt,
Kā maina uzskatus.
Bet tad, kad vakars pienāks,
Tie visi melni būs.

Vai būs vēl kāda jēga
Tad atgādināt viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām? 

Se quatro camisas brancas
Tem o jovem
Ele pode passar pela vida
Sem muito pensamento.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

A primeira – para superiores
Quando você precisa aparecer.
E então é para sua vontade
Os próximos ainda estão lá.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Camisa branca pela manhã,
Mas já preta à tarde
Mas a terceira camisa branca
Se veste à noite

E de novo não sei porque
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Pode mudar de camisas brancas
Como alterar as ideias
Mas a noite chegará
Todos eles serão pretos.

Haverá mais algum sentido
Em lembra-lo
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência?

   A música traça um paralelo entre as camisas de um jovem e sua consciência ou seus princípios, e critica que há pessoas que trocam seus princípos como trocam de camisa, apenas para se favorecer. Há camisas usadas apenas para aparecer, para mostrar superioridade, há camisas que começam limpas, mas já estão sujas pelo uso, e há camisas que se vestem a noite, quando ninguém vê. De vez em quando, alguém o lembra que princípios e valores não são como camisas, mas se no final elas são todas pretas, de que adianta lembra-lo?
   Essa música reflete tanto a censura soviética e o apaziguamento dos cidadãos, que obedecem sem questionar, quanto acaba – ironicamente – criticando os colegas de banda, que desejam alterar o significado das músicas para atender à censura.

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Andreis Purim

Andreis Purim

Técnico em Eletrônica (UTFPR) e estudante de Engenharia da Computação na UNICAMP. Entusiasta da Cultura e História Leta.
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