Gafanhotos!

Gafanhotos e as mudanças nas colônias no início do séc. 20

2020 está sendo um ano um tanto absurdo. Um ciclone na região sul do Brasil acaba de impedir, temporariamente, a chegada de um enxame de Gafanhotos que destruiu a Argentina. No artigo passado, relatamos como a pandemia que enfrentamos hoje não é muito diferente do que letos no Brasil vivenciaram em 1918. A gripe espanhola, no entanto, era apenas o menor dos inimigos da década: no ano anterior, a chegada de hordas de gafanhotos – que perduraria por vários anos – escureceu os céus e destruiu plantações.

Para os imigrantes que deixaram o velho continente para fazer a vida no Brasil, a agricultura era tudo. Sua sobrevivência, sua forma de vida. Plantações destruídas em um ano difícil poderia significar fome para famílias. E nenhum inimigo era tão vil quanto o gafanhoto.

Lizete Roze, em carta à seu filho.

Estamos passando bem e todos com saúde. Somente as plantações não querem crescer, por causa da seca e completa falta de chuvas. O tempo está ainda bastante frio. A última chuva foi no dia 16 de outubro, e ainda ontem deu geada nas baixadas. O vento seco e frio sopra o dia inteiro, e se por acaso ainda cheguem os gafanhotos, aí será a fome.

Neste artigo, estaremos novamente olhando o acervo das cartas de Rio Novo. Em razão da vasta quantidade de cartas, o link para as cartas originais estão nas descrições. O enxame causava espanto nos colonos. Alguns, como Arthur Leiman, chegaram a chama-los de “pequenos demônios”, mas logo eles receberam um apelido mais carinhoso: “Os visitantes da argentina”.

O nome científico do gafanhoto migratório sul-americano é Schistocerca cancellata. Proveniente do chaco argentino, a ausência de predadores e invernos quentes causam a população a sair do controle. Entretanto, o ano de 1917 viu uma praga de proporções bíblicas, atingindo as colônias letas de Ijuí e Rio Novo:

Olga Purim, em cartas à seu irmão em Outubro e Novembro de 1917.

A propriedade dos Klavim está infestada de gafanhotos: uma quantidade imensa, chegando, devido ao peso, a quebrar os galhos das árvores.

Na semana passada passou uma nuvem de gafanhotos, mas não pousaram. Os serranos contam que nas serras tem muitos gafanhotos, mas não começaram a descer. Em Mãe Luzia os gafanhotos são tantos que é um horror, formam uma camada grossa e puseram ovos. Os Klava escreveram para o Rio Novo consultando se há possibilidade deles trazerem o gado, pois lá não tem mais o que comer e é possível que morram de fome.

Emílio Anderman, em seu diário pessoal de 1917 e 1919.

Em outubro começaram a chegar, em revoada, os gafanhotos. O povo do local ficou muito preocupado. Alguns araram os campos para enterrá-los, mas apesar destes esforços, um mês depois, eles já nasceram sabendo saltar e tinham tamanho de uma mosca. Eles ficavam em bandos e se deslocavam de um lado para o outro e aonde chegavam comiam tudo que era vegetal. Iniciou-se uma dura luta contra eles; cavavam-se valos e quando eles lá chegavam, cobríamos com terra. Aspergíamos os gafanhotos com água fervente, batíamos com vassouras, mas apesar deste esforço muitos vingaram e se tornaram adultos. 

Outra vez chegaram nuvens de gafanhotos que destruíram os nossos pastos e ficaram pulando em procura de um lugar para desova.

Durante a noite eu acendia fogueiras cuja luz os atraia e as chamas queimavam; como também cerquei as lavouras de velas para impedir o seu progresso. 

Imigrante afastando a nuvem de gafanhotos. C´reditos: Unijui

Robert Klavin, para Reynaldo Purim, em duas cartas: Novembro e Outubro de 1917

Provavelmente já tens notícia através de jornais de que na Província do Rio Grande do Sul foram literalmente destruídas diversas colônias, inclusive Ijuí e suas adjacências. A quantidade de gafanhotos seria tanta que o tráfego ferroviário estaria interrompido nas serras daquela província; aqui nas serras a espessura das camadas de gafanhotos seria mais de um metro, diante do que os serranos com suas tropas não conseguiriam prosseguir, etc…

Na semana do dia 23 de outubro começaram as primeiras revoadas. (…) Eles devoraram grande parte do milharal e seis litros de feijão plantado; ainda bem que sobrou a maior parte, pois muita gente perdeu tudo.

No domingo, último dia de outubro, eu ia para o Rio Laranjeiras, passando pelo baixo Rio Novo, quando passaram nuvens de gafanhotos atravessando o rio. Quando cheguei na terra dos Paegles tinha ainda mais, e naquele trecho do lado do mato tinham pousado e estavam se aprontando para por ovos. (…) A grama dos pastos já não mais existe, e coitado do gado que não tem mais nada para comer: permanece imóvel.

Os brasileiros contaram que em Capivaras também lá passaram imensas nuvens de gafanhotos e pousaram e puseram ovos; quando o chão é cavado com uma enxada pode-se ver uma quantidade imensa de ovos, então calcule o estrago que vão fazer quando eclodirem em milhares de novos gafanhotos.

[Sobre a chegada] segundo eles foi assustadora, devido à imensidão das nuvens de gafanhotos, comparável a uma tempestade assoladora que fez escurecer os céus e a terra. O pessoal de lá usou de tudo para tentar espantar e fazer que continuassem sua rota, e acham que conseguiram algum resultado.

Perto de Campinas [Nota: Araranguá] grande quantidade destes bichos, ao voarem para o mar, terminaram por se afogar; agora os pescadores não podem mais ir pescar, pois se atolam até a cintura na camada de gafanhotos mortos que o mar devolve para as praias. Também temos notícias de Florianópólis, de que lá a quantidade de gafanhotos afogados foi tanta que o mar devolveu para as praias, chegando a uma camada de dois metros e meio de altura…

Ontem apareceu uma nuvem branca que se deslocava para os lados do Rio Pequeno e ia se afastando das serras, e não era outra coisa senão outra nuvem deles. O que mais pode acontecer só Deus sabe. 

Tem muita gente contando que os gafanhotos estão atacando a região de Minadouro. Dizem que são tantos que formam grossas camadas. Aqui eles também passam, mas voando alto e não pousam; isso acontece quase todos os dias.

Olga Purim, em carta à seu irmão em Dezembro de 1917.  Seu irmão mais novo também fala sobre os gafanhotos em outra carta.

Este ano foi um ano cheio de tragédias. No começo de ano as enchentes, depois as grandes geadas, a neve, os gafanhotos, um mês e meio de seca imensa e depois, para completar, o fogo.

Perto de Orleans apareceram novamente gafanhotos, também em Rio Laranjeiras, Rio Belo e Braço do Norte. Perto de Orleans tive oportunidade de ver uma nuvem deles, as beiras das estradas tão cheias que chegavam a chiar; ainda bem que não estão em toda a parte. Onde eles estão eles comem tudo e começam pôr ovos. O governo determinou que as pessoas não atingidas fossem trabalhar dois dias, pelos menos, matando os filhotes; nas roças tudo fácil, mas nos matos e nas capoeiras nada havia o que fazer. Se os que sobrarem subirem o Rio Novo, vão comer tudo. Para baixo de Orleans falam que tem muito mais, que na estrada de ferro não se consegue enxergar os trilhos.

Gazeta do Commercio, de 03/11/1917, instruindo os colonos no combate à praga. Créditos: Jornal Retrô

Certamente 1917 foi o ano mais assustador para os imigrantes. Para muitos, que nunca haviam experimentado uma catástrofe natural tamanha em sua terra natal, os gafanhotos eram quase um sinal apocalíptico. O combate teve sucesso devido ao trabalho dos colonos e da ação governamental. Porém, enxames de gafanhotos ainda assolariam as colônias nos anos seguintes, até o final da década de 40.

Olga Purim, em cartas de Junho, Agosto e Outubro de 1918, e uma de Abril de 1919

Ainda uma novidade: no dia 6 de junho, logo depois do meio dia, do lado do morro do Grikis, começaram vir gafanhotos, mas numa quantidade imensa como nunca tinha visto antes. Perto da nossa casa eles não pousaram; todos seguiram em direção do morro do Leepkaln.

Era uma nuvem tão densa que escureceu o sol e um ruído com fosse um prenúncio de uma tempestade. Começaram a surgir às 13h30 e terminaram de passar às 15h00;

Este ano tivemos visitas da Argentina [gafanhotos]; aqui em nosso terreno poucos tem aparecido, mas lá nos Klavin e nos Leimann passaram imensas nuvens.

No início deste ano nós trabalhamos muito na erradicação dos gafanhotos. Nós todos tivemos a oportunidade de ver uma quantidade imensa desses insetos. Quando passavam provocavam um ronco surdo como uma tempestade, e chegavam a fazer sombra como fazem as nuvens: nem a luz do sol podia ser vista. 

De uma certa forma, os gafanhotos de 1917 representam uma mudança na colonização leta do Brasil. E o início do seu declínio. As terras que os imigrantes haviam comprado do governo brasileiro eram pedregosas, arenosas e distantes da civilização. Ao final da década de 30 se tornou claro que as colônias letas não eram propícias para mecanização. Fatores como calor tropical e chuvas inconstantes, além das pragas, causaram um declínio brutal na atividade agrícola.

Quando olhamos para a história, podemos entender por que colônias como Rio Novo desapareceram, e outras como Varpa, nunca se tornaram cidades. A praga de gafanhotos, que assolaria as colônias por décadas seguintes, forçou muitos a migrarem para espaços urbanos, aos poucos dispersando os letos pelas terras brasileiras.

Emílo Anderman, em seu diário pessoal de 1920

 

Os gafanhotos também devoraram tudo do pasto e da lavoura, e sobre a atividade agrícola não depositava mais nenhuma esperança e eu estava cansado de insistir.

 

Outra onda de gafanhotos atacando a colônia de Ijuí, em 1933. C´reditos: Unijui

Foto de Capa: Ijuí memória virtual
Autor: Andreis Purim