Chuteira no pé, Esperança no coração

Durante dois anos, crianças de famílias carentes de Bolderaja, um bairro afastado de Riga, se reuniam para treinar futebol. Dois anos, independentemente do clima no dia, do inverno ao verão. Dois anos, seja na chuva, na neve – na hora do treino, o céu se abria. Não perderam um só dia de jogo. Você acredita que uma simples esperança pode mudar o mundo? Um homem acredita.

Tjago, com j mesmo, Professor Tjago, para falar a verdade. É assim que o carioca de 33 anos Thiago Bonfim da Silva é conhecido na Letônia. Formado em Educação Física, técnico e treinador de futebol – além de outras conquistas profissionais -, Thiago também é veterano de diversos projetos evangelísticos, e hoje usa o futebol para resgatar as crianças das regiões mais carentes do país.

Amor à primeira vista, apesar do clima

Ouviu falar pela primeira vez do longínquo e gelado país báltico em 2005, após seu chamado para missões. A Letônia havia se classificado para a Eurocopa de 2006, não possuía uma opinião formada, mas algo especial foi crescendo no seu coração. Desembarcou em Rīga 19 de maio de 2010 – foi um choque cultural muito forte – mas foi amor à primeira vista.

Dar o primeiro chute ao gol, no entanto, nem sempre é fácil. Seu primeiro trabalho missionário com futebol foi no “Day Center” no bairro de Bolderaja, em Rīga, patrocinado pela Igreja Luterana da cidade. Mesmo após o término do projeto, Thiago continuou, o sonho era forte demais, era hora de ir além. Ir além era Karosta.

Karosta (em leto, “porto de guerra”) é um bairro localizado no norte da cidade costeira de Liepāja. Foi construída para ser uma base naval do Império Russo, e durante a ocupação soviética foi convertida em base militar e prisão militar. O bairro mistura palacetes e catedrais czaristas com blocos habitacionais soviéticos abandonados. Após a queda da união soviética e desativação do complexo militar vários prédios foram abandonados e a região se tornou problemática com desemprego, crimes e abuso de álcool.

Thiago, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolveram o Karosta Futbols resgatando crianças que sofrem problemas de criminalidade e abusos. O projeto está quebrando o ciclo da violência, crianças estão sendo salvas. Só para ter uma idéia: muitas dessas crianças nunca haviam saído de Karosta, hoje disputam torneios em outras cidades. Eles possuem um novo futuro para chamar de seu.

Torneio em Nica

Ainda assim, há muitas dificuldades. No começo, Thiago trabalhava em 3 empregos diferentes para poder se sustentar, uma vez que não recebe nada pelo projeto. No início deste mês precisou se afastar do projeto para poder sustentar sua família e atender ao novo filho que está por chegar ao time. Mas não ele não pendurou as chuteiras, pois ainda há muito jogos por vir, e muitas vidas para mudar.

Nós tomamos um pouquinho do seu tempo para perguntar sobre sua vida, seus projetos, ambições, dificuldades. Veja um trecho da entrevista abaixo:


Entrevista

Letonia Brasil: Qual sua formação, Thiago? Quais projetos você participou antes de vir para a Letônia?

Thiago Bonfim: Sou formado em Educação Física, Pós-graduado em Ciências do Futebol e Futsal. Sou treinador formado pela ABTF em 2006, pela CBF – A em 2013 e UEFA-B em 2015. Sobre missões, participei dos projetos missionários do movimento estudantil Alfa e Ômega, projeto missionário em Juiz de Fora em 2007. Todo o treinamento para missionário em campos universitários em 2007 e 2008. Também fiz o curso para missionário através do Esporte pelo CEFLAL- 2009. Diversos treinamentos e projetos missionários na área esportiva e também outras áreas. De 2008 até 2010, participei da capelania prisional no presídio Moniz Sodré em Bangu, junto com os missionários Carlos Serejos e Clotildes Moraes da Igreja Batista do Méier. Também fiz parte do projeto “Igreja no Trem”, onde eu pregava diariamente nos trens do Ramal de Campo Grande no Rio de Janeiro. Fiz parte do projeto Luz nas Calçadas por 5 meses, onde subíamos a comunidade da Mangueira e pregávamos o evangelho para os traficantes e usuários desta comunidade, inclusive frequentando a boca de fumo para a ação evangelística.

LB: Como é sua vida aí? Quais foram suas maiores dificuldades lá?

Thiago, sua esposa Zanda, e seu filho Timotejs


TB: Minha vida na Letônia é um ato de redescobrimento de quem eu sou. Do meu melhor e do meu pior. Sem pai, sem mãe, sem amigos por perto, fora da cultura, é preciso estar próximo de Deus e muito forte para superar. Como você notou na resposta anterior, eu andava pelos piores lugares de uma das cidades mais violentas do Brasil, a paz e segurança da Letônia é um ponto muito forte e positivo, e foi o que mais gostei daqui. Junto com a beleza e a tranquilidade do país. Minhas maiores dificuldades na Letônia foram com a desconfiança, alimentação, cultura e o clima. Se você vem visitar a Letônia, você não vai vivenciar nenhuma intolerância, talvez, se tiver uma pele mais escura, algumas pessoas vão ficar te olhando, mas não há preconceito. O problema acontece quando você vem morar e trabalhar aqui, mas não entende o “jogo de interesses”. As portas se fecham em várias áreas. Na minha área, por exemplo, demorei 6 anos para receber um salário normal.

LB: Como foi seu trabalho com o futebol lá? Os letos são bons no futebol? [risos]

TB: Os letos tem grande potencial, porém a questão climática e cultural atrapalha muito, já que o hockey e o basquete ainda são as grandes paixões, mas o futebol vem crescendo no país. Meu trabalho com futebol de forma missionária aconteceu mais no “Day Center” em Bolderaja, em Riga, com a parceria da Igreja Luterana de Riga que nos patrocinava, uma vez por semana nós alugávamos um campo de futebol no centro – Arkadija Stadions – e as crianças saiam de bolderaja para o campo onde ministrava os treinos de futebol. Após o fim do projeto com a Igreja Luterana de Riga, ainda continuei indo por mais um ano voluntariamente, porém, desta vez fazíamos o futebol em uma praça próximo ao “Day Center”. Agora em Liepaja, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolvemos o Karosta Futbols, para trabalhar e pregar o evangelho através do futebol para as crianças de karosta, que é um dos piores lugares da Letônia, com os piores índices educacionais, de desenvolvimento e violência. Esse trabalho tem o suporte de dois “Day Centers”, o que é liderado pelo Pr. Sergejs e outro pelo “Hope Kids”. Porém, no início deste mês tive que sair do projeto por um período, pois está havendo um conflito político, tendo em vista que eu trabalho no clube da cidade, o qual recebe verba da prefeitura, e o Karosta Futbols por ser um projeto que também é social, começou a receber ajuda da prefeitura, e esta questão política por eu estar nos dois, me colocou em uma situação de ficar em um ou outro, e como no Karosta Futbols não recebo nenhum salário e todo meu salário vem do FK Liepaja, e como não tenho nenhum outro suporte, a não ser meu salário e uma ajuda familiar, tive que optar pelo meu emprego.

LB: Quais os principais problemas da Letônia? E como é o bairro de Karosta?

TB: A Letônia sofre muito com o Alcoolismo e com secularismo. Karosta é um local lindo, mas como foi invadida, tem muitos problemas familiares! Minha esposa trabalha com as famílias e visitando as pessoas em suas casas, e é muito triste o relato que ela dá. Pessoas pobres, imundas, muita violência doméstica e estupros entre familiares é muito comum. Os orfanatos da Letônia estão cheios de órfãos de pais vivos, e o de Liepaja não foge a regra. Boa parte destas crianças são oriundas de Karosta.

Crianças do Karosta Futbols com o missionário Mikelis

LB: Como o seu trabalho pode ajudar a mudar essa realidade? Quais são suas metas?

TB: Nosso trabalho é extremamente relevante, as vidas que vemos sendo transformadas são nossas alegrias. Algumas das crianças com 9 anos já chegam para nós com histórico de fumo, furto e uso de álcool, com 9 anos de idade! Hoje nos encontramos 2 vezes por semana, (1 vez comigo e 1 vez com Pr. Marcis) mas o objetivo é para que um futuro consigamos fazer isso diariamente. Para essas crianças falta um exemplo masculino positivo na vida delas. Os pais quase sempre ausentes e alcoolizados, frequentemente agridem suas parceiras em suas casas. No final, se não houver uma quebra do ciclo, a tendência é que essas crianças repitam os mesmos erros. Hoje no projeto já temos crianças que já aceitaram a Jesus, que oram conosco e que frequentam a Igreja. Próximos passos são os batismos (alguns anos) mas algumas já estão sendo discipuladas. Estamos falando de crianças com histórico de violência familiar. Isso é extremamente importante e relevante. Infelizmente, sem patrocínio ou apoio, ainda é muito pouco o que podemos fazer. Nossas metas é de termos patrocino para que eu possa abandonar meu trabalho e dedicar-me 100% ao Karosta Fubols, e abrir outras categorias, do Sub-8 até o adulto, para fazer a integração com os pais da região. Infelizmente, hoje ainda um sonho muito distante.

LB: Que tipo de apoio ou ajuda você recebe? Que tipo de apoio você gostaria de receber? Como isso pode ser feito?

TB: Infelizmente, nenhum apoio, apenas meu salário e um suporte familiar. Gostaria de receber um apoio integral para que pudéssemos nos dedicar 100% ao Karosta Futbols e as crianças daqui. Talvez até recebermos alguns voluntários brasileiros ou missionários locais para nos ajudar no decorrer do crescimento do Projeto.
Isso pode ser feito através da mobilização dos irmãos Letos do Brasil. Levantar sustento na Letônia é quase impossível, as Igrejas são muito pequenas, e o que recebem de oferta é para a manutenção da Igreja e do Pastor.

LB: Que mensagem você gostaria de deixar para os letos-brasileiros?

TB: A Letônia é um país lindo, de pessoas maravilhosas, mas fomos chamados para a Letônia para tratarmos os doentes, de ir onde ninguém vai, de cuidar de quem ninguém cuida, de dar esperança para os que nada tem. Nosso projeto pode causar um impacto positivo muito grande neste local. Sei que muitos dos irmãos tem uma visão romântica da Letônia, que não é falsa, mas nós vivemos e convivemos com o que há de pior aqui. Nossa família vive em um dos locais com maiores índices de violência da Letônia. Queremos que todos os letos do Brasil nos adotem em orações, e não esqueça de nós em nenhum dia, pois é isso que nos sustenta aqui, é a oração que nos faz caminhar e vivenciar os milagres.

Que Deus abençoe a todos e a nossa Letônia.

Crianças orando antes do treino.

 

Se você se sentiu tocado pelo trabalho que Tjago realiza, você pode enviar seu número para o email tchebonfim@gmail.com e receber notícias. Se quiser fazer uma doação ou ajudar financeiramente, entre em contato pelo email  ou pelo Whatsapp +37126740578.

 

Arte de fundo: Luiz Schneid
Vídeos, Poster e Fotos: César Liepkaln

Andreis Purim

Andreis Purim

Técnico em Eletrônica (UTFPR) e estudante de Engenharia da Computação na UNICAMP. Entusiasta da Cultura e História Leta.
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