Lāčplēsis – A lenda e a nação

A literatura na formação de uma nação

Na formação de uma nação, a literatura sempre possui um papel importante a exercer: por meio dela, são transmitidas ideias e  valores para uma geração e outras que se seguirão. Ela pode alegrar, entreter, alarmar, ilustrar situações reais de maneira contundente, de forma que uma mensagem é melhor recebida e assimilada quando vem pela literatura. Na construção da identidade de um povo, levantam-se herois para levar a bandeira à frente, para representar o espírito, a bravura e singularidade desse povo. A obra que conta a sua história, cantos épicos, se torna símbolo cultural, ou melhor, uma face para a sua cultura. Temos a Ilíada, de Homero, para a cultura helênica, a Eneida, de Virgílio, para os romanos, Os Lusíadas, de Camões, para Portugal e seu reino em expansão marítima, A Divina Comédia, de Dante, para o povo italiano, Os miseráveis, de Victor Hugo, para os franceses, e assim vai. Se quiser conhecer melhor a cultura desses povos, um ótimo início é investir nessas obras. No Brasil, durante a primeira fase modernista (década de 20), este era o grande empreendimento: um herói que seria emblemático da cultura brasileira. Mário de Andrade então escreve Macunaíma, buscando apreender o caráter miscigenado e vibrante de nosso povo, para romper com a ótica europeia sobre nossa realidade. Com a Letônia, não seria diferente, e digo que o papel que Lāčplēsis, o poema épico de Andrejs Pumpurs, desempenhou foi ainda mais determinante para a unidade cultural leta.

Lāčplēsis

Lāčplēsis foi publicado em 1888, e seu autor foi um militar e teve proeminência no movimento intelectual conhecido como Jaunlatvieši (jovens letos), que faz parte do primeiro despertar nacional que levou a consciência de nação leta. Ele cresceu às margens do Daugava a ouvir as narrativas míticas, que buscou reunir nesse trabalho. O poema conta a jornada de Lačplesis (matador de ursos), um jovem que foi escolhido pelos deuses para proteger o povo leto. Vários mitos letos são introduzidos na epopeia, como o do castelo de cristal (Gaismas Pils) que está submersmo, mas, quando Lačplesis passa uma noite nele, ele vem à tona outra vez, como canta-se nas canções folclóricas. No decorrer da trama, Kangars, um traidor que conspira com os cruzadores alemães, arma uma guerra com os estonianos, e Lačplesis luta com o gigante Kalapuisis (uma referência ao poema épico estoniano Kalevipoeg), pela mão de Laimdota. Lačplesis ganha, e ambos os lados fazem as pazes e se juntam para lutarem contra o inimigo em comum, os alemães. Até hoje kangars é um sinônimo para traidores na Letônia, como se usaria também o nome iago, da peça shakespeariana Otelo.

O poema épico se tornou forte presença no imaginário social leto e continua tendo influência nos dias atuais: está representado na base do Monumento da Liberdade em Riga, foi o nome da mais alta condecoração militar dada entre 1920 e 1928 (Ordem de Lačplesis), ganhou selos, adaptações musicais e cinematográficas, e, no dia 11 de novembro, se comemora o dia de Lačplesis, para lembrar da maior vitória militar da Letônia contra o exército alemão em Riga, nessa mesma data em 1920, vitória esta que não somente liberou a capital e posteriormente a Letônia, mas aumentou a confiança do povo num Estado leto, e honrar a memória dos combatentes dessa batalha.

A obra Lačplesis, assim, continua a realizar o que propôs Pumpurs em primeiro momento: divulgar, enaltecer e fortalecer a cultura leta. Se você deseja conhecer um pouco mais dessa cultura, como dito anteriormente, com certeza será válida a experiência de ler esse poema épico. Neste link, se lhe interessar, há a versão em inglês realizada por Arthur Cropley, que é uma adaptação dos versos livres de Pumpurs para a tradição poética da épica em língua inglesa: Boa leitura!

1. Lacplesis

 

Bia Paes

Bia Paes

Letobrasileira, estudante de Letras na UNICAMP, com ênfase em pesquisa de tradução e linguística histórica e comparada. Voluntária da Associação.
Bia Paes

Comments

comments

Deixe uma resposta