Resenha de Nameja gredzens: O Último Rei Pagão

     Em fevereiro de 2018 foi lançado um novo filme letão tratando de um tema de interesse garantido para qualquer um com laços com a Letônia: o anel de Nameisis, ou Namejs.

     Diz uma historieta popular na Letônia que no final do século XIII, por ocasião das cruzadas levadas a cabo pelos alemães no Báltico, Nameisis/Namejs, um rei dos Zemgálios – uma das tribos componentes do povo letão – usava um anel peculiar. Ao fugir dos alemães para as florestas do sul de Zemgale e no norte da Lituânia, todos os homens da tribo passaram a usar um anel igual, a fim de confundir os invasores. Com o tempo, o anel se tornaria um símbolo de etnicidade entre todos os letões no mundo.

     Esta história é uma construção moderna, tendo sido popularizada pelo romance Nameja gredzens de Aleksandrs Grīns, publicado em 1929. Como tantas outras supostas “tradições” em outros países (por exemplo, os tartans escoceses e irlandeses), autores nacionalistas modernos deram para seu povo símbolos que remetem ao passado para trazer um senso de identidade e pertencimento àqueles no futuro. (Aos interessado no tema, ou aos que estão duvidando do que acabamos de afirmar, recomendamos a leitura de “A invenção das tradições”, do historiador britânico Eric Hobsbawn).

     Desta forma, evidentemente o filme possui um atrativo a mais para os letões de hoje, entre os quais nos incluimos. Nosso entusiasmo inicial, no entanto, logo se tornou em  decepção.

     Seu diretor é Aivars Gruba, conhecido pela direção de diversos filmes e, principalmente, “Rīgas sargi” – os Defensores de Riga, de 2007, que trata sobre a luta travada pela independência da Letônia após 1918, com o final da Primeira Guerra Mundial. Com este curriculum, não é de se admirar que o diretor tenha experiência e interesse em trazer temas nacionais para a grande tela.

     A fotografia e a cinegrafia do filme são apuradas. As tomadas aéreas, em particular, trazem imagens estonteantes de florestas e pântanos da Letônia (provavelmente algumas das tomadas de pântanos tenham sido feitas na reserva nacional de Ķemeri) muitas vezes cobertos pela neblina, e as construções, de forma geral, são executadas com domínio impecável da técnica.

Mas os elogios ao filme já podem parar praticamente neste único parágrafo.

Tomada dos créditos iniciais de “The pagan king”.

     Uma primeira surpresa ao se assistir o filme é que o mesmo se passa inteiramente em inglês, ainda que hajam versões com legendas em letão e russo e uma versão dublada. Os interessados em ter mais contato com elementos genuínos nacionais já têm um início conturbado, portanto. Essa escolha da língua provavelmente influenciou o casting do filme, a começar pelo ator principal, que interpreta Nameisis. Edvin Endre, um ator de origem sueca, é mais conhecido internacionalmente por seu papel apagado na série Vikings, na qual foi o detestável personagem Erlendur.

Edvin Endre como “Erlendur” na série “Vikings”.

     Lauga, sua esposa, é interpretada pela mais agradável lituana Aistė Diržiūtė, enquanto que o vilão principal, Max von Buxhoeveden, pelo britânico James Bloor. Causa estranheza imediata, portanto, que um filme com temática tão letã não possua um letão dentre seus três personagens principais, ainda que os tenha em personagens secundários e terciários.

     A origem estrangeira do elenco não traz grandes acréscimos ao filme. Em relação ao filme anterior citado de Aivars Grauba, nota-se a diferença; se então parte considerável dos atores era de mais idade, formada ainda dos tempos da União Soviética e atuante no cinema letão (como os memoráveis Jānis Reinis e Elita Klaviņa nos papéis principais), de uma rica tradição cinematográfica que remonta a nomes como Serguei Eisenstein, o novo elenco é de atores internacionais da lista B, capazes de falar inglês, mas não necessariamente de entregar uma boa performance.

     As interpretações são, no mínimo, sofríveis, a começar pelo principal vilão, “Max”, um personagem monocromático que efetua maldades inomináveis a cada segundo com pouca justificativa para tanto que não seja o fato de ser o antagonista. Todos os maus recursos usados para caracterização de vilões em filmes B estão presentes, dos risos maléficos, olhos esbugalhados de raiva, súbitos assassinatos sem justificativa e uso de xingamentos e palavras de baixo calão constante.

Max, com sua expressão vilanesca padrão

     Os heróis principais não se salvam muito. Isto se deve não apenas à inabilidade dos autores, mas também à péssima escrita. Os diálogos são sofríveis, o texto é sofrível, os personagens são sofríveis, quando não terríveis. A divisão entre mocinhos e bandidos é monocromática; os alemães, cristãos, são 100% maus, e como tal se comportam. De fato, a primeira cena com diálogos do filme traz o papa de Roma, subitamente matando outra pessoa ao fazer tramóias com seu filho bastardo Max, que quer para si o território de Zemgale.

O papa matando subitamente alguém sem maiores explicações com uma facada na barriga,
aos 03:12 do filme. Max, seu filho bastardo, e os cavaleiros em volta parecem não notar.

     O vilão Max, já citado a pouco, é a ideia quintessencial trazida no filme de quão maus eram os alemães cruzados, apresentados sem qualquer nuance ou tentativa de credibilidade. Em uma cena próxima dos atos finais, por exemplo, há um único bom cristão, um monge de aspecto doentio, irmão do vilão Max (a prole do papa no filme parece ser imensa), que é encarado com ironia pelos demais por querer evangelizar os pagãos.

     Ao procurar impedir a luta entre alemães e zemgálios, ele é flechado pelos próprios alemães sem maiores problemas. Um uso no mínimo desonesto da parte do diretor das fontes escritas disponíveis, ignorando, por exemplo, os relatos da Crônica de Henri da Livônia e o exemplo de seu próprio personagem principal, que demonstra uma preocupação com o aspecto religioso das empreitadas, e apresenta outros seus antecessores que inclusive perderam a vida nas mesmas.

     Há de se notar que a casa dos Buxhoeveden de fato existiu (ainda que não Max, que provavelmente foi baseado pobremente em indivíduos que lutaram na guerra de zemgálios e lituanos contra os cruzados do final do século XIII) e teve de fato papel sangrento na conquista das tribos bálticas, mas dificilmente justifica a narrativa pobre em questão.

     Há de se notar que os cruzados alemães do filme dificilmente fazem jus ao poderio militar dos reais cruzados ocidentais, principalmente, mas não apenas compostos de alemães e escandinavos, que possuíam bestas, armas de sítio e cavalaria, enquanto que no filme usam arcos e armas simples em sua maioria e são bastante inábeis em combate. Em uma cena no pior estilo holywood (bolywood daria mais certo para descrevê-la), o herói Nameisis, preso pelos cruzados e amarrado, dá conta facilmente – sozinho e amarrado, repetimos – de toda a tripulação do barco, libertando-se e voltando para a terra a nado.

     Os zemgálios, por sua vez, com exceção de algumas tentativas de matizá-los, com conflitos internos, são apresentados de forma generosa quando não estão envolvidos em tramóias para derrubar o rei; usualmente sorridentes, agradáveis, exemplos de nobres selvagens praticando rituais puros que infelizmente não têm muita habilidade poĺitica.

     A retratação religiosa dos zemgálios deve muito à Dievturība, um movimento moderno que alega reconstruir a religião tradicional dos povos bálticos, mas que apresenta um resultado anacrônico e altamente idealizado.

     Uma exceção que merece ser citada aqui é a aparição de um “xamã”. Alguns autores pressupõem, parcialmente baseados na descrição de crônicas, da existência de um tipo de sacerdotes conhecidos como “Krive”, “Tulissones” ou “Ligaschones” dentre os povos bálticos, que poderia se assemelhar aos xamãs eurasiáticos, com seus tambores e ritos.

O “Krive” em “The pagan king”

     Não há menção qualquer no decorrer do filme de costumes zemgálios muito frequentes citados nas fontes escritas que possam denegrí-los como, por exemplo, a decapitação. Segundo a Crônica de Henri, os zemgálios iam para a batalha com carroças, que enchiam com cabeças dos inimigos ao final da batalha.

     Os conflitos internos entre personagens desejando a primazia entre os zemgálios são feitos de forma completamente formulaica, apresentando os opositores a Nameisis de forma negativa e estereotipada, e com o intuito de reforçar a mensagem nacionalista do filme – se os zemgálios não se unirem, serão conquistados.

     De fato, há uma escolha estética e estilística bastante evidente usada no filme que explica muito de suas decisões questionáveis; o diretor procurou sem qualquer limite ou autocrítica emular descaradamente os recursos usados na série “Vikings” (e, em menor grau, “Game of thrones” – há, por exemplo, um lobo que acompanha Lauba por toda a história). Como já citamos a pouco, o ator principal participou da mesma. No entanto, a emulação nem de longe pára por aí.

Um “zemgálio” na cena da batalha final

     A imitação dos personagens é descarada; Valdis (interpretado por Ivo Martinsons), o conselheiro principal de Nameisis, e de Viesturs antes dele, é uma imitação do personagem “Björn” da série vikings, a começar pela forma de cortar cabelo e barba, mas também na forma de falar, a intonação das frases, o sotaque e os trejeitos que, antes de tradicionais e baseados em reconstrução histórica, são invenções muito específicas de Michael Hirsch para a série “Vikings”.

Björn Ironside, na série “Vikings”
Valdis, em “The pagan king”

    Outros personagens são cópias completas da série, como o personagem Lemme, interpretado por Lauris Dzelzītis (finalmente um letão no elenco); exatamente as mesmas imitações usadas para Valdis/fake Björn ocorrem com este personagem. De fato, seu desafio a Namesis, ao invés de apresentar uma matização da desunião entre zemgálios, dando solidez à reconstrução histórica, é feita de forma a emular novamente a série Vikings, marcada por guerreiros fazendo bravata e criando brigas entre si em salões repletos de guerreiros e bebidas.

Ubba, Bjorn e Halfdan, em “Vikings”
Lemme, em “The Pagan king”

     Nameisis usa duas táticas de batalha; a tática da víbora (“viper”) e a tática do muro de escudos (“Shield wall”). Ambas, novamente copiadas do mundo Escandinavo. De fato, não apenas na série Vikings, mas também na mais embasada “The Last Kingdom”, já se tornou topos repetido à exaustão um grupo de vikings entrando em formação de combate, sob o grito de seu líder de “Shield wall”.

     As mulheres guerreiras (“Shieldmaidens”), um tópico de debate recorrente – e problemático – nos estudos vikings e escandinavos contemporâneos, e tão proeminente retratadas na série Vikings com as personagens Lagherta e Torvi, dentre outras, é emulada em “The pagan king”. Nas cenas de batalhas, inclusive na batalha final, há inúmeras guerreiras trajadas e penteadas de forma a imitar ao que é feito na série. Desnecessário dizer que não há fundamento histórico para seu uso.

     Por fim, no quesito de reconstrução histórica, outros deslizes e aberrações são frequentes. No campo de deslizes poderíamos citar o uso das vestimentas e, principalmente, armas, em sua grande maioria imitações de equipamentos usados na Escandinávia. As espadas, em particular, são imitações das espadas vikings de tipo “Ulfberht”, artigos raros no Báltico, encontradas com maior frequência dentre os Kurši, que tinham maior relação com a Escandinávia, mas nem de perto tão frequentes em Zemgale. Podem se encontrar cerca de apenas duas a três espadas de tal modalidade no museu de Liepaja, encontradas entre os Kurši.

     O cuidado com as vestimentas étnicas também é relativizado, procurando se inserir elementos com “jeito” escandinavo, diminuindo em parte as vestimentas mais notavelmente bálticas. Ainda assim, este quesito é possivelmente um dos aspectos com mais cara “báltica”, ao menos em personagens como Lauga e a rainha Rama, com uma ressalva importante – as vestimentas bálticas, como no caso do casamento, por exemplo, tem mais a ver com vestes de Latgale de dois séculos anteriores, do que propriamente Zemgale do século XIII.

     Os barcos e tudo a que eles se relacionam são cópias escandinavas, desde a cópia do famoso barco noruguês de Oseberg, datado de mais de três séculos anteriores, até o funeral do rei zemgálio Viesturs, no qual ocorre outra aberração histórica: a rainha Rama, enviuvada, sobe ao barco para morrer junto com o marido. Aqui há uma provável inspiração fora de lugar e de época no funeral escandinavo entre os Rus’ no qual uma concubina o acompanha ao além, descrito pelo cronista árabe Ahmed Ibn Al-Fadlan – novamente, um relato de mais de três séculos de diferença, e contexto étnico e geográfico muito distinto.

     Um anacronismo particularmente grotesco é a construção de um cenário extremamente semalhante a Stonehenge, da Inglaterra, como se fosse um lugar sagrado e secreto dos Zemgálios. Os cultos megalíticos datavam de milhares de anos antes dos eventos relatados, e não há no território letão construções no estilo de Stonehenge, ainda que rochas mais isoladas e esparsas sejam encontradas.

Nameisis no “Stonehenge” zemgálio

     Por fim, “The pagan king” é, senão uma desonestidade com o espectador, um insulto à sua inteligência, e uma boa oportunidade perdida. A excelência na fotografia e a evidente capacidade técnica demonstradas na execução do filme foram desperdiçadas em uma produção que se preocupa mais em parecer ocidental, ser cool e imitar exaustivamente blockbusters supostamente “históricos” do ocidente do que de fato executar um filme histórico ou de inspiração histórica.

     O cinema letão perdeu uma chance de divulgar sua cultura nacional e agora os historiadores têm mais um problema ao explicar para os desavisados sobre a origem do anel tão famoso e difundido. O diretor Aivars Grauba parece ter se esquecido do próprio lema que seus personagens repetem à exaustão: se os Bálticos deixarem de lado quem são, serão diluídos e perderão sua identidade.

Andre Muceniecks

Andre Muceniecks

Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br
Andre Muceniecks

Últimos posts por Andre Muceniecks (exibir todos)

Comments

comments

Publicado por

Andre Muceniecks

Pesquisador associado de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e professor de história eclesiástica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Contato: muceniecks@usp.br

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.