Os tesouros da Língua Leta

Uma língua é muito mais do que uma forma de comunicação adotada por um determinado povo – sua estrutura é como uma tapeçaria dos movimentos históricos e culturais que caracterizam esse povo, o que a torna chave para a sua identificação e unidade como tal. Com o leto, não seria diferente. Pelo contrário: essa é uma das línguas mais antigas ainda vivas, apesar dos primeiros registros em escrito nela serem tardios (1546, uma tradução da oração Pai Nosso), e, o fato de ter sobrevivido a tantas invasões e dominações basicamente pela tradição oral e pela força de vontade de seus falantes diz muito sobre o papel central que ocupa na identificação do povo leto.
O leto faz parte do grupo das línguas bálticas, dentro da família indo-europeia, distinto de outros grupos como o germânico (o grupo da língua alemã) e românico (o da língua portuguesa). É considerado uma rica fonte para estudos históricos por conservar características arcaicas que foram se perdendo em outras línguas indo-europeias, sendo, portanto, muito importante para a reconstrução do idioma do qual as línguas que hoje se falam na Europa e Ásia Menor teriam derivado, o proto-indo-europeu. Das línguas bálticas, hoje só possuem status oficial o leto e o lituano.

Apesar de ser uma língua de forte tradição oral, pois assim permaneceu até o século XVI, consolidou-se no leto um intrincado sistema gramatical: é uma língua flexiva (em que as indicações de tempo, pessoa e número estão na própria palavra), como o português, e apresenta sistema de declinação de casos nominais (mudanças são feitas na palavra de acordo com a função que ela desempenha numa frase), sendo eles sete: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, instrumental, locativo e vocativo  e seis conjugações. Essas características podem tornar o estudo do leto mais complicado, mas não menos recompensador.

Atualmente, devido aos processos históricos de dominação que marcaram a Letônia, 80% da população do país falam o leto, enquanto, destes, 56% o possuem como língua materna e a língua utilizada no lar. O governo leto coloca em prática muitas políticas de incentivo ao uso da língua do Estado, e várias atividades culturais são promovidas para esse fim. Anualmente, o Centro Estatal de Linguagem promove o Gimalajiešu superlācis, um concurso para avaliar os erros ortográficos e estilísticos em leto mais cômicos.

Aprender a língua leta é um passo essencial para quem deseja conhecer profundamente a cultura e história leta, por ela mesma ser uma rica herança para o povo leto. Sua estrutura possibilita formas de expressão únicas, próprias para a cultura leta. Como exemplos, veja esses ditados populares: pūst pīlītes significa literalmente “soprar patinhos”, mas figurativamente quer dizer “falar coisas sem sentido”, como seria o nosso “falar abobrinhas”, e ej bekot literalmente é “vá colher cogumelos”, enquanto figurativamente diz “vá embora”, como o nosso “vá catar coquinho”. Mais do que aprender uma nova língua, aprender o leto é herdar um tesouro cultural.

Bia Paes

Bia Paes

Letobrasileira, estudante de Letras na UNICAMP, com ênfase em pesquisa de tradução e linguística histórica e comparada. Voluntária da Associação.
Bia Paes

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