A Importância de Políticas Linguísticas para a Letônia

Nos mais diversos contextos (mas com motivações sempre políticas), os Estados podem valer-se da implementação de projetos de lei concernentes à língua de seu país para protegê-la, difundi-la ou até modifica-la. Um exemplo é o Novo Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2009 nos países falantes de língua portuguesa, mas que só se tornou a única forma de escrita no ano passado. A unificação tem motivos de aumentar o prestígio da língua no internacionalmente, estreitar laços comerciais e trocas intelectuais, como o movimento de acadêmicos para realizar pesquisas, mas foi recebida com resistência por Portugal – ainda há aqueles em Portugal que afirmam que a forma correta da língua é a deles somente. O que podemos entender dessa situação, saltando para um nível mais geral, é que a língua de um país é um fator de particularização e é fortemente ligada à identidade nacional. Gravemente, vemos no percurso da História que uma das formas de reafirmar poder em um dado país é interferir na língua que é falada nele, e, silenciar uma língua é silenciar uma identidade. E é precisamente esse o cenário que vemos na Letônia.

A questão da língua é essencial para a Letônia e seu reestabelecimento como um Estado soberano. É um campo de fato muito sensível, pois, como afirmei antes, estamos falando da identidade de uma nação. Para entendermos melhor a situação, precisamos voltar na história da Letônia. Desde meados do século XII, a área que hoje corresponde à Letônia (não havia um Estado formado ainda) foi tomada pelos cavaleiros da Ordem Teutônica. Embora o povo leto já estivesse lá e já possuísse sua língua, o alemão entrou como a língua de prestígio, por ser a língua da elite. Assim, os letos, vistos como menores, eram privados de educação e qualquer privilégio social, e, com sua língua não seria diferente. O leto era visto como um idioma baixo, incapaz de se produzir boa literatura ou qualquer conhecimento intelectual que se valha nele. Por isso, os primeiros registros escritos do leto são tão tardios (em comparação com a própria história da língua leta e a de outras línguas indo-europeias), datando de meados do século XVI, e ainda assim, eram apenas de caráter religioso. Até haviam letos que conseguiam ascender socialmente e prosseguir com os estudos, mas para tanto deviam abdicar o leto e aprender o alemão.

A partir do século XVII, com o domínio russo, a situação somente se estreitou. A língua de prestígio somente mudou do alemão para o russo, mas aquele ainda era melhor recebido que o leto. Nas instâncias oficiais, o russo era o idioma a ser utilizado. Para agravar, o czar Alexandre III buscou implementar um projeto de intensa russificação da sociedade leta, incluindo até a transcrição do leto para o alfabeto cirílico, o utilizado pelo idioma russo. A proposta não se efetivou, porque os letos já estavam livres da servidão, e, com o crescente acesso ao conhecimento, passaram a valorizar a sua língua. Além disso, as condições de vida naquela época não eram boas, o que trazia grande descontentamento dos letos com o governo russo, o que levava a aversão popular. Mesmo assim, a marcante presença dos russos fez com que o russo se estabelecesse como língua de uso corrente nas cidades maiores.

Houve o primeiro período da tão sonhada independência, mas vieram os domínios germânico e russo outra vez. Nesse primeiro, a língua foi uma questão menor, e só foi implementada nas esferas institucionais. Porém, o domínio soviético não deixou de ser menos imperialista, e houveram muitas estratégias de russificação, que fazem sentir seus efeitos até hoje. Um fluxo migratório enorme de russos entrou na Letônia, e eles possuíam posição privilegiada na sociedade, por estarem alinhados com os ideais russos. Não tinham de aprender o leto, e até hoje não fazem questão – afinal, os letos, em sua maioria, são bilíngues, e com facilidade se vive, trabalha, compra e é atendido nas escolas e hospitais somente com o russo. Hoje em dia, a maioria dos empreendedores, comerciantes e empresários continuam sendo russos, por terem herdado essa condição do status quo da União Soviética.

Porcentagem de falantes de russo nas regiões da Letônia

Para a Rússia, seria muito vantajoso ter o russo como língua oficial num país da União Europeia, uma vez que, após a queda da União Soviética, somente a Bielorrússia, o Quirguistão e o Cazaquistão o adotaram como língua oficial ou co-oficial, países que hoje não possuem influência no cenário internacional. Os Estados Bálticos seriam como uma porta de entrada para a esfera de influência europeia, e também, dominá-los, para a Rússia, signficaria obter uma saída para o oceano, uma vez que o Estado russo não possui portos que saiam para o mar que não congelem sazonalmente, o que os causa grande ônus. Um dos meios mais propícios de possibilitar essa dominação seria pela língua, por ser uma mudança sutil: se o russo ganhar status oficial na Letônia, aos poucos o leto poderá perder a sua utilidade pois há uma alternativa mais conveniente no sentido de comunicação internacional – o leto é falado por aproximadamente 2 milhões de pessoas no mundo todo e os falantes do russo somam 260 milhões mundialmente -, e, com certeza, a Rússia pressionaria cada vez mais o uso do russo, por meio da população russófona, facilitando a imigração russa, e, mais uma vez, diluindo a etnia leta, de forma a fazer sentido juntar-se à Rússia outra vez.

São várias as nuanças que devemos levar em conta ao pensarmos a relação de língua e política. É uma relação que sempre pressupõe relações de poder, domínio ou afirmação. Estima-se que a cada 14 dias um idioma no mundo morre, por caírem em desuso, sendo tornados obsoletos por línguas mais “úteis”. O gesto de manter o leto como única língua oficial da Letônia é de resistência para que, no futuro, não seja esse o seu destino, como foi o do Livônio e outros idiomas da região báltica.

Bia Paes

Bia Paes

Letobrasileira, estudante de Letras na UNICAMP, com ênfase em pesquisa de tradução e linguística histórica e comparada. Voluntária da Associação.
Bia Paes

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