Feliz como um hobbit

Era uma segunda-feira nublada de agosto em Vecsaule, Bauska. Eu havia acordado cedo pois a empolgação não me deixara dormir mais: nós íamos colher cogumelos na floresta naquele dia, uma experiência totalmente nova para mim e muito aguardada.

Depois do café da manhã nos preparamos para a aventura: botas e capas de chuva, luvas de borracha, uma faca para cada um, câmera, sacos plásticos e um balde – estes dois últimos itens se mostraram bem insuficientes mais tarde. Nós estávamos parecendo dois Hobbits com nossos capuzes e capas nas cores azul, verde e marrom.

No caminho encontramos um letão muito satisfeito com uma cesta cheia de cogumelos recém-colhidos. Nossa aventura parecia muito promissora! Quando entramos na floresta, uma chuva fina e constante começou, mas estava muito agradável para caminhar; as copas das grandes árvores seguravam grande parte da água. Andamos muito, pisando em folhas velhas das estações passadas e em um tapete de musgo verde. As florestas da Letônia têm uma atmosfera imponente, mas leve ao mesmo tempo; como se fossem antigas e misteriosas, mas graciosas e solícitas: anfitriãs amáveis. Se você vem com bons pensamentos e boas intenções, você é bem-vindo. Paz e quietude estavam ao nosso redor. Os únicos barulhos eram os assobios suaves e intermitentes de pássaros escondidos e o quebrar de folhas secas e galhos caídos pelos nossos pés.

No início da aventura achamos apenas poucos cogumelos, em sua maioria Bērzu baravika (Boletus betulicola). Eu sou uma louca por cogumelos comestíveis, mas para a maioria dos brasileiros a paixão por cogumelos não se compara ao que os letões sentem. Brasileiros não têm o hábito de entrar na floresta para procurar por eles porque no Brasil existem muitos cogumelos venenosos (alguns realmente podem matar), que se parecem muito com as espécies comestíveis, então as pessoas têm medo de se confundir. A maioria dos cogumelos que temos disponíveis para comprar são cultivados e importados e, por isto, caros. A produção nacional tem aumentado, mas ainda é raro encontrar algo além do champignon (Agaricus bisporus), nativo da Europa e América do Norte, e os orientais Shimeji e Shiitake.

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

 

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Fiquei encantada ao ver que na Letônia podemos não só comprar cogumelos frescos em qualquer feira por preços muito bons, mas ainda colhê-los por livre e espontânea vontade. No livro O Senhor dos Anéis, Tolkien escreve que os Hobbits têm “uma paixão por cogumelos que supera até mesmo o gosto mais ávido das Pessoas Grandes”. Assim são os letões comparados com as pessoas de outros países. Nas cidades da Letônia, onde eu estive, cansei de ver durante a primavera e o outono pessoas carregando cestas de cogumelos frescos com muito cuidado – como se fosse um tesouro – com caras satisfeitas e felizes.

Cogumelos pequenos do tipo Boletus. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Paraíso dos cogumelos

Depois de duas horas e um saco plástico cheio até a metade, decidimos ir embora, mas eu fui um pouco mais a frente para dar uma última olhada. Ansiava por achar mais cogumelos. Eu olhei para a direita, nada; à minha frente, nada. Lancei um último olhar esperançoso para esquerda e lá estavam eles, escondidos: dois cogumelos enormes! Um estava fresco, o outro começando a apodrecer. Eu me aproximei deles e de repente comecei a ver cogumelos por toda a parte naquela direção: pequenos, médios, grandes e lindos! Era o Paraíso dos Cogumelos como nós brincamos! Eu fiquei tão feliz com a descoberta que cheguei a perder minhas luvas que estavam no bolso.
Os cogumelos que achamos naquele lugar eram em sua maioria Parastā apšubeka (Leccinum aurantiacum), um tipo muito delicioso. Ficamos ali por pelo menos mais duas  horas. Nosso balde e todos os sacos plásticos ficaram totalmente cheios. Tivemos que deixar muitos para trás, para outro apaixonado por cogumelos.

Maria Fernanda com três grandes cogumelos do tipo Boletus. Crédito: Andis Mikainis

Quando retornamos para casa, eu aprendi a limpá-los e prepará-los com a mãe do meu amigo. Nós fizemos vários potes de conserva de cogumelo e o restante comemos fritos, puros, com temperos, com vegetais, na sopa, no pão… uma delícia!

Mesa com uma parte da mesa cheia de cogumelos que foram colhidos nesse dia. O restante não coube na mesa. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

A senhora Dzintra Mikaina, moradora de Bauska, com uma parte dos cogumelos que foram colhidos no dia. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

A senhora Dzintra começando a limpar e preparar os cogumelos. Crédito: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

 

Existe um provérbio letão que diz: “Kas nestrādā, tam nebūs ēst” (“Aquele que não trabalha, não come”). A refeição tem um sabor diferente e melhor quando você se esforça para tê-la e a prepara você mesmo. É por isso que essa foi uma das experiências mais fascinantes e recompensadoras que eu já tive. Ver todos aqueles cogumelos e colhê-los com a floresta ao meu redor me fez sentir um respeito ainda maior pela natureza que nos fornece esses presentes deliciosos. Mesmo com a pressa do dia-a-dia e as facilidades do mundo moderno, o contato com a natureza não tem preço. E lá na Letônia isto ainda está muito vivo.

“Nas raras vezes em que a natureza revela seus segredos, a realidade é mais fantástica que a fábula.”

Maria Fernanda com os cogumelos. Crédito: Andis Mikainis

Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Maria Fernanda Stinghen Gottardi

Maria Fernanda Stinghen Gottardi é natural de Florianópolis/SC. É jornalista, sommelière de cervejas e escritora, com um livro publicado em 2010 sobre motociclismo. É apaixonada pela Letônia, onde já morou para estudar o idioma. No momento está escrevendo um novo livro sobre suas experiências na Letônia.
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