Uma Primavera em Chernobyl

Em 26 de abril de 1986, uma série de falhas humanas e erros técnicos transformaram o que seria um simples teste de rotina na Usina Nuclear V.I. Lenin – em Chernobyl, na União Soviética – no maior acidente nuclear da história. Uma bola de fogo engoliu o reator 4, que explodiu, lançando para a atmosfera 120 toneladas de Urânio-235 e 900 toneladas de grafite.

Uma fumaça de contaminantes – incluindo isótopos de plutônio, com meia vida de 23360 anos – pairaram nos céus por dias. Dentro de horas, a fumaça já estava sendo espalhada por correntes de vento pela Ucrânia, Bielorrússia, e finalmente, a Letônia.

Mapa da radiação pela Europa em 3 de Maio de 1986.

A catástrofe só foi anunciada três dias depois pelo governo soviético – pois Suécia detectou a fumaça tóxica e ameaçou enviar um alerta a Agência Internacional de Energia Nuclear. Os habitantes da região começaram a ser diagnosticados com doses letais de radiação.  O material ejetado na atmosfera era quatrocentas vezes mais radiativo que as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

A União Soviética convocou quase meio milhão de homens e mulheres – bombeiros, militares, médicos  – “liquidadores” (ou também, “descontaminadores”) para limpar a bagunça.  Centenas morreram, enquanto outros milhares sofreram com os efeitos da radiação.

Aproximadamente 10 mil letos foram mandados à Chernobyl.

Salaspils

Comando do reator nuclear IRT-1000 de Salaspils.

Até então, as notícias do acidente eram abafadas na União Soviética. Apenas um aviso de 20 segundos na televisão indicava o perigo, e a agência de notícias soviética insistia em discutir o acidente nuclear de Three Miles Island, nos EUA, que ocorrera 7 anos antes. As rádios se programaram para tocar música clássica, que sempre antecedia anúncios de tragédia na União Soviética.

Os primeiros a descobrirem a gravidade da situação na Letônia foram os cientistas no Instituto de Pesquisa Nuclear de Salaspils, na época, um dos mais renomados centros de pesquisa da União Soviética. Do seu laboratório, Jānis Guntis Bērziņš e seu time perceberam a fumaça tóxica na atmosfera. Em uma entrevista para o The Baltic Times, Bērziņš recontou a experiência.

“A primeiro momento não foi tão chocante. Mas aos poucos percebemos que o depósito era grande, e a catástrofe era imensa.” Os sensores de Salaspils detectaram o aumento de césio e urânio no ar, e dentro de duas semanas, os níveis eram alarmantes.

“Mandamos os resultados imediatamente para Riga, e pedimos para enviar para Moscou. Eles falaram que Moscou não queria saber. Jogaram todo o nosso trabalho fora. Descartaram nossos testes.” Ainda demoraria mais três meses para que fossem revelados os impactos ambientais do desastre. E as notícias foram horríveis. Havia toxina no chão, na água, na pia, nas flores, irradiando da terra, caindo pelo ar. O próprio rio Daugava estava contaminado.

A sociedade soviética e europeia ficaram paranoicas. Mães alertavam seus filhos para não brincarem do lado de fora. “Fomos sortudos que não choveu. Abril e Maio são meses secos, a nuvem só passou por cima de nós. Se chovesse, todos aqueles produtos de fissão nuclear seriam despejadas em nós.”

Jānis Guntis Bērziņš (1936 – 2017)

Bērziņš foi bem incisivo em descrever como o governo soviético cuidou do desastre. Quase como se a incompetência de Moscou fosse esperada. Talvez fosse, para ele. 

Após a queda da União Soviética, Bērziņš foi representante da Academia de Ciências da Letônia. Faleceu em 2017, com 81 anos de idade. 

Hoje o Centro de Pesquisa Nuclear de Salaspils faz parte da do Centro de Pesquisa Nuclear. Apesar do alto custo, há planos de desativar o reator nucelar por causa do perigo ambiental. A Universidade da Letônia planeja construir um síncrotron no lugar.

O Médico

Dentre os milhares de Letos que ajudaram em Chernobyl, estava o jovem médico Valdis Zlaters. Junto com outros doutores, Zatlers foi enviado para a área de exclusão de Chernobyl. “A universidade mais importante que já graduei na minha vida. Nossa tarefa – não muito realista – era limpar toda a área de 30km que rodeava a Usina.”

A tarefa dos médicos era monitorar a segurança, ajudar os afetados pela radiação e impedir a ingestão dos alimentos contaminados. Zatlers passou mais de dois meses em Chernobyl, mas diz não sofrer de nenhum efeito até hoje.

Zatlers deixando flores no momumento aos Liquidadores, em Chernobyl.

Zatlers foi eleito Presidente da Letônia em 2007, sucedendo Vaira Vīķe-Freiberga. Ele retornou a Chernobyl em 2008, 22 anos depois do acidente. “É surreal ver a Usina Nuclear. Está nas mesmas condições que décadas atrás. Terra abandonada. Sem futuro pelos próximos 300 anos.” Apesar da experiência com a catástrofe, Zatlers defende o uso de Energia Nuclear.

O Químico

No dia 13 de Maio de 1986, Andris Abramenkovs e outras centenas de reservistas do exército vermelho foram empurrados em trens e enviados a Chernobyl. Dois dias antes, ele desfrutava do café da manhã com sua esposa e filha de dois anos quando recebeu a ordem da Defesa Civil. Ele lideraria um time para descontaminar a Usina.

“Eu fui sortudo.” Dois anos depois de retornar de Chernobyl, o químico nuclear desenvolveu sinais de câncer. “Eu tive apenas alguns problemas de saúde por três ou quatro anos. Com tratamento intensivo, fiquei melhor.”

“Eu discuti minha situação com os radiologistas, na Letônia. Eles falaram que eu fui afetado por alta quantidade de radiação alfa. Tive infecções. Sangue, ossos e outras coisas. Minha temperatura ficou 39ºC por semanas. Fui levado para o hospital”. Pelos anos seguintes, Andris passou por quimo e radioterapia. Os sintomas eventualmente diminuíram e o câncer ficou remissivo.

Abramenkovs, ao meio, em 2004.

“Eu sou formado em química nuclear. Enquanto trabalhava em Chernobyl, podia analisar a radiação no meu corpo e sabia como deixar o nível baixo. Se eu não soubesse, minha condição seria muito pior.” De fato, os problemas de Abramenkovs são pequenos comparados a outros que morreram em agonia no hospital de Kiev. Mas para a maioria, os efeitos vieram depois.

“Era uma situação terrível. Muitos homens lá tinham vinte anos ou menos. Eles começaram a sentir que sua via estava no fim. Desistiram da ideia de terem uma família, um futuro. Deixaram tudo em Chernobyl.” Vários dos homens que Andris liderava voltaram para casa em caixões.

“Esses garotos eram jovens e ingênuos. Eles não estavam qualificados para desintoxicar um ambiente tão potente. Eles não tinham ideia de como lidar com material radioativo. Eu tinha um motorista de táxi na minha unidade, marinheiros, pescadores, um estudante de 18 anos. Todos enviados.”

Ninguém tinha muita noção dos efeitos da radiação. Mas as regulações soviéticas não ajudavam. Apenas oficiais possuíam detectores de radiação, e doses eram calculadas sem muita precisão. Não é surpreendente que muitos sofram com problemas de saúde, mas para Andris, o mais trágico eram os problemas psicológicos.

“Perdemos membros. Depois que voltamos, eles começaram a se embebedar. Me falavam que sentiam suas vidas acabando” Os sobreviventes sofrem de Transtorno do Estresse Pós-Traumático. “Dois dos meus homens – funcionários da saúde pública de 27 anos – se mataram. Outros dois se enforcaram”.

Andris atualmente é o Chefe do Departamento de Meio Ambiente, Geologia e Meteorologia da Letônia e foi chefe da Agência de Gestão de Resíduos Perigosos. Dedicou a vida para o descarte de material nuclear.

Cena da série “Chernobyl”, da HBO.

Felizmente, pesquisas mais recentes na Letônia indicam que o risco de câncer nos “liquidadores”  hoje é igual a de uma pessoa normal. Chernobyl continua a ser o maior desastre nuclear e é uma história de falhas humanas, erros técnicos, incompetência política. Mas também uma história de sacrifício e bravura de pessoas ordinárias lutando juntos pelo bem comum.

Andreis Purim

Andreis Purim

Técnico em Eletrônica (UTFPR) e estudante de Engenharia da Computação na UNICAMP. Entusiasta da Cultura e História Leta.
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