10 Coisas que você não sabia sobre os Letos do Brasil

Tem muito leto para um mundinho tão pequeno – essa é a única explicação. Desde que os primeiros imigrantes da Letônia colocaram os pés em terras brasileiras em 1889, muita coisa aconteceu – muita coisa mesmo. Hoje há grupos letos espalhados pelo sul e sudeste do país. Há médicos, engenheiros, professores. Há muitas histórias; será que você já escutou todas? Por isso mesmo reunimos uma lista de 10 coisas que você (provavelmente?) não sabia sobre os Letos do Brasil. Não foi fácil, mas vale a leitura:

1. Trouxemos um chocolate delicioso para o Brasil

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Achou que a Kopenhagen era dinamarquesa? Achou errado…

A Kopenhagen é uma empresa brasileira, mas com um detalhe importante: foi fundada por dois letos. Davi Kopenhagen era um estudante de medicina que abandonou o curso e Anna, uma pianista. Ambos migraram para o Brasil em 1928, seguindo um grande fluxo de letos que foram para a colônia de Varpa (SP), fundada em 1922. Anna e Davi, no entanto, optaram por ir à capital paulista, onde começaram a produção de marzipã na cozinha de sua casa.

Acredita-se que a receita de marzipã dos Kopenhagens tenha sido inspirada na famosa marca de chocolate leta Laima, fundada primeiramente em 1870. O paladar leto, no entanto, prefere chocolates mais amargos, enquanto a Kopenhagen atende ao “docinho” brasileiro. Anna e Davi abriram sua primeira loja em 1929, e o resto é história.

2. Fizemos a pista de pouso mais elevada do Brasil

Verner Grinberg (1910 – 2006) e seu avião

O vilarejo turístico na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, Monte Verde, foi fundado por Verner Grinberg, que nasceu na Letônia em 1910 e veio para o Brasil em 1913. Primeiro, ele morou em Pariquera-Açu (SP) e depois em São José dos Campos – juntando-se aos outros letos que moravam lá. Em 1934 se casou com sua amada Emília Grinberg, que veio, em 1922, para a colônia de Varpa. Mudou-se em 1938 para “Campos do Jaguary”. Ali adquiriu terras, iniciando a formação de uma fazenda. Com o passar do tempo, outros letos se interessaram na compra de terras nessa região, e, em 1950, Monte Verde foi oficialmente formada.

Amante da aviação – um traço aparentemente comum entre os letos – Verner pilotou seu avião até chegar perto dos seus noventa anos de idade e diz que nunca fez sequer um arranhão nele. Fundou em Monte Verde o aeroporto mais alto do país: 1.600 metros acima do nível do mar com pista de 1.100 metros de comprimento. Falando em aviação…

3. O terreno do ITA foi doado por letos

ITA

Foto aérea do ITA

A ideia de trazer colonos letos para São José dos Campos é graças – principalmente – à Julio Malvess, que descobriu terras boas perto da Estrada de Ferro Central do Brasil. Vieram para São José várias famílias letas antes da Primeira Guerra Mundial, entre elas, Schause, Strauss, e Pusplatais.

As terras da família Schause foram, em grande parte, doadas para o Ministério da Aeronáutica e compõem a área do renomado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1950, dentro do CTA (Centro de Tecnologia da Aeronáutica), das quais eram vizinhos os Pusplatais. Os eucaliptos às margens da Rodovia Pres. Dutra foram plantados por Arvido Schause. O loteamento de casas na região preservou a memória dessas famílias: um dos bairros adjacentes ao CTA é denominado “Vila Letônia”.

E não acaba por aí: existem, em São José dos Campos, a Associação Beneficente André Pusplatais (ABAP – Hoje renomeada para Associação Beneficiente de Ajuda ao Próximo) fundada 1996 e a Escola Ilga Pusplatais (EMEF).

(Agradeço a Arnaldo Ceruks pelas contribuições)

4. Nós temos a nossa própria Milda

A Milda de Varpa (SP)

Sabe aquela carismática estátua no centro de Riga (capital da Letônia) de uma figura feminina segurando três estrelas? O nome oficial dela é Brīvības Piemineklis (Monumento da Liberdade), e as três estrelas são as três regiões originais da Letônia (Kurzeme, Latgale e Vidzeme). Ela foi carinhosamente apelidada de Milda.

Ela é tão estimada que a colônia leta de Varpa (SP) decidiu construir sua própria versão na rotatória principal da cidade. Claro, não possui o mesmo tamanho que a Milda original, mas nós gostamos dela mesmo assim.

5. Gostamos de coro e dança

O grupo de dança Staburags, de Ijuí (RS)

Diz-se que os letos são, por natureza, um povo poético e cantor. A cada 5 em 5 anos, desde 1873, a Letônia inteira se mobiliza para realizar o Festival de Música e Dança (Vispārējie latviešu Dziesmu un Deju svētki). Ele é considerado um dos maiores eventos de corais do mundo – contando com milhares de músicos, coristas e dançarinos – e foi nomeado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

O Festival de 2018, no entanto, será mais especial: comemorando os 100 anos da República da Letônia, 12 mil coristas e 17 mil dançarinos (sem contar os músicos) irão participar, e é claro que os letos do Brasil não iriam deixar a oportunidade passar. O Coro Leto Misto de São Paulo e Nova Odessa e o Grupo de Dança Staburags (Ijuí – RS) irão representar os letos do Brasil nesta festividade.

6. Temos também o Indiana Jones Brasileiro

Retrato do Professor Butler

Uma vez já chamado de uma espécie de Coronel Fawcett, Guilherme Butler (Vilis Butler) veio ao Brasil para professor da escola da Colônia Leta de Rio Novo (SC) em 1900. Mentor exímio, transformou a escola de tal forma que o Governador Vidal Ramos a visitou em 1905 e elogiou como uma das melhores de Santa Catarina. Mudou-se mais tarde para Curitiba. Sua casa na Rua Westphalen hoje é patrimônio histórico da cidade e é utilizada como centro cultural, que é onde o Grupo Leto de Curitiba se reúne a cada última sexta-feira do mês.

Foi professor de Alemão e Inglês no Colégio Estadual do Paraná. Quando não estava na sala de aula, viajava ao Sertão, Amazônia, Mato Grosso e Goiás numa época que a malária era o menor dos perigos lá e suas jornadas eram relatadas em páginas de jornais (“A minha viagem de férias à Amazônia”, O Dia, 1934). Coletou as águas de inúmeros rios brasileiros também, como o Negro e o Tapajós e estas amostras existem até hoje sob os cuidados da sua filha, Dra. Helen.

Quando se aposentou, foi convidado para ser paraninfo e seu discurso “As características de uma pessoa educada” foi publicado na íntegra na edição da Gazeta do Povo de 14 de dezembro de 1950. Hoje existe até uma escola com seu nome em Curitiba. Sua filha é igualmente impressionante, mas  sobre isso, vamos falar em outra oportunidade

7. Nós inauguramos a nova Arena da Baixada

Escanteio Brasileiro, Time da Letônia ao fundo

Ok, ok, o jogo oficial de inauguração do Estádio Joaquim Américo Guimarães (Curitiba – PR) mesmo foi em 24 de junho de 1999 com o jogo Atlético Paranaense contra o paraguaio Cerro Porteño. O primeiro jogo entre seleções, contudo, foi dois dias depois – Brasil contra a Letônia, no dia 26 de Junho.

O resultado foi 3 a 0 para a seleção brasileira – precisamos admitir ,  infelizmente, que o forte da Letônia não é o futebol. A torcida da Letônia contava com o Grupo Leto de Curitiba e outras figuras locais – até mesmo Dra. Helen Butler foi lá torcer! O jogo inclusive contou com a presença do Ministro do Esporte e Turismo do Brasil da época, Rafael Greca. Falando em visitas importantes…

8. Nós recebemos a visita de políticos importantes

Foto

A presidente Vaira Vīķe-Freiberga no Brasil

Do mesmo jeito que nós gostamos de visitar a Letônia, eles também gostam de nos visitar. A famosa presidente Vaira Vīķe-Freiberga já visitou a comunidade leta no Brasil duas vezes. Em uma das ocasiões, até recebeu uma camisa do Clube Atlético Paranaense como lembrança daquele jogo entre as seleções dos dois países.

O Vice-Chanceler Andris Teikmanis veio fazer uma visita em 2010. Em 2011, o Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis. O Ministro da Defesa e medalhista de Peso Olímpico Raimonds Bergmanis esteve aqui em 2016; nesta ocasião, chegou a levantar alguns voluntários da Associação no braço. Além destas visitas consideradas mais oficiais, todos os anos algum grupo de músicos da Letônia vem para alegrar a nossa festa do Līgo.

9. Nós estamos também na Bolívia

O Colégio de Rincón del Tigre

A missão de Rincón del Tigre na Bolívia é uma iniciativa fundada em 1946 pelos batistas da Colônia de Varpa (SP). Cercada por uma floresta densa e com difícil acesso, Rincón serve como base para inúmeros projetos sociais e evangelísticos na fronteira Bolívia – Brasil.

Há também uma escola, fundada em 1955. Como é a única em um raio de mais de 70km, muitas famílias pediam para a missão abrigar seus filhos. Para cuidar de todos os alunos de lugares tão distantes, Rincón mantém este internato gratuito com pelo menos 120 alunos a cada ano, provendo acomodação, comida, roupas limpas, passadas, e cuidado médico sem custo para os estudantes.

10. Mas nós estamos em tudo quanto é lado!

Bandeiras do Brasil e Letônia no topo do morro do Anhangava (PR). Março de 2015

 

Parece sociedade secreta: uma pessoa pode ser atendida por um médico leto, ter aula com professores letos e não ter a mínima ideia disso. O Brasil é grande, mas nós demos conta de nos espalhar bem – como eu disse, tem muito leto para um mundinho tão pequeno. Formando uma rota de mais de 4 mil km – os letos já andaram e viveram por:

Rio Grande do Sul – Ijuí
Santa Catarina – Rio Novo, Joinville, Florianópolis, Orleans, Criciúma e Urubici.
Paraná – Curitiba, Quatro Barras, Araucária, Campina Grande do Sul, Balsa Nova, Porto Amazonas, Foz do Iguaçu e Porto União
São Paulo – São Paulo, Nova Odessa, Campinas, Hortolândia, Varpa, Paraguaçu-Paulista, Pirassununga, São José dos Campos, Bragança Paulista, Nova Europa e Monte-Mor
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Minas Gerais – Monte Verde

Isso sem mencionar centenas de outros letos morando em diferentes cidades e estados. Conhece mais alguma cidade? Mais algum leto? Já avisou para ele ficar antenado na página da Associação no facebook? Pois vem uma novidade tamanho Brasil por aí…

Sabe mais alguma curiosidade? Algum fato desconhecido? Mande um email para AndreisPurim@gmail.com contando o que você sabe!

Andreis Purim

Andreis Purim

Técnico em Eletrônica (UTFPR) e estudante de Engenharia da Computação na UNICAMP. Entusiasta da Cultura e História Leta.
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