O Grupo de Dança Staburags

Encrustada em um planalto no noroeste das terras gauchas se localiza a cidade de Ijuí. Suas histórias merecem alguns artigos por si só: ocupada primeiramente pelos Letos das Linhas 4,5 e 6 Oeste em 1892 e depois complementada com colonos de Rio Novo em 1893, é considerada a terceira colônia leta no Brasil. Ijuí hoje também é o lar para mais outras diversas etnias, sendo conhecida como Capital da Cultura do Rio Grande do Sul. E é nesta sopa cultural que nasceu o grupo de dança Staburags.

Staburags é uma história lendária para os letos sobre uma menina de luto que transformou-se em pedra. Tratava-se de uma rocha rica em cal de quase vinte metros de altura nos bancos do Rio Daugava, perto de Jaunjelgava. Sua porosidade natural permitia que a água das chuvas fosse armazenada e saísse pelos poros – como se a pedra chorasse. Staburags, infelizmente, foi submergida em 1965 pelos soviéticos para a construção da hidrelétrica de Pļaviņas, mas esse não foi seu fim: hoje vive na memória de milhares de letos pelo mundo.

Entre eles, claro, o nosso Staburags. O grupo surgiu em 1989, após a construção da Casa Leta (do Centro Cultural Leto de Ijuí), tendo como responsável pela criação e organização a senhora Liana Arais Pydd, e buscou chamar os descendentes de letos, inclusive aqueles que não estavam muito ligados à comunidade. Foi de responsabilidade de Liana Arais Pydd como coordenadora e diretora Cultural contratar Lorena Cossetin como primeira coreógrafa e delegar ao casal Māra e Jonas Sāla como corresponsáveis pelo grupo. De lá para cá o grupo cresceu: de uma única fita VHS com danças típicas que eles possuíam para aprender a dançar, hoje o grupo está na Letônia para participar do Festival de Música e Dança da Letônia (Não conhece ainda? Dê uma lida aqui).

Tivemos a chance de entrevistar Sandro Roberto Medeiros, atual coreógrafo e um dos organizadores do grupo hoje. Veja um pouco da nossa conversa com ele:

Entrevista

Letônia Brasil – Como foi a formação do grupo de dança? Quem foram os responsáveis? Qual a relação com a comunidade de Ijuí?
Sandro Medeiros – O grupo, assim como os outros grupos da Casa Leta (O Centro Cultural Leto de Ijuí), foram criados em 1989 sob liderança da dona Liana Pydd. Buscou-se chamar os descendentes, inclusive aqueles que não estavam muito ligados a comunidade. a que contrataram Lorena, uma professora de dança para ser a coreógrafa do grupo.

LB – Houve mudança em como o grupo de dança opera com o passar dos anos? Inclusão de novos membros? Novas idéias e caminhos? Como?
SM – Depois de Lorena, foi contratado um novo coreógrafo Gerson, que ficou mais de dez anos. Com ele foram criados o grupo jovem e o grupo infantil. O Gerson fez um trabalho incrível, pois na época ainda havia muito pouco contato com a Letônia, tínhamos apenas uma fita VHS com danças de um grupo leto dos EUA. A partir dali tivemos que trabalhar e inventar coisas nossas. Então, nessa primeira configuração do grupo, dançávamos ora danças bem tradicionais, com um pouco das que nós mesmo inventamos. A Coordenadora Liana (Pydd) me chamou em 2003 para ser o novo coreógrafo. Nesta época já havíamos acesso a internet a e o trabalho de pesquisar ficou mais fácil. Começamos a ter um contato maior com outros grupos em 2005 e a partir daí começamos fazemos danças 100% típicas.

LB – E quanto a não-descendentes? Como é a entrada deles? Você sabe quais razões para despertar os interesses neles?
SM – A comunidade em sí é muito pequena (em relação as outras da cidade), então achar dançarinos descendentes é um trabalho mais difícil. Muitas pessoas que assistem as nossas apresentações (e não são descendentes) se tornam “letos de coração” e vêm participar. Eles se apaixonam pela cultura. Hoje temos dançarinos que estão há mais de 20 anos no grupo e são “letos de coração”. Esse amor pela Letônia deles ajuda a fortificar o Staburags.

LB – Qual as relações do grupo de dança com a cultura leta? Há ensino da língua? Da história?
SM – Procuramos, sempre que estamos apresentando alguma dança nova, também explicar a cultura da Letônia. Trocamos várias experiências com pessoas que já foram para a Letônia ou pessoas da Letônia que já vieram aqui. O ensino da Língua começou dois anos atrás com o Edmar Grimm Berg, mas infelizmente não conseguimos ter um público muito grande por causa dos horários. O Dr. (Armindo) Pydd sempre faz questão de apresentar números e outras informações sobre a Letônia nos eventos que realizamos, assim todos os dançarinos ficam à par sobre a Letônia.

LB – Quantas apresentações já fizeram? Onde? Há alguma história interessante por trás delas?
SM – Olha, se eu te desse um número, provavelmente estaria errando [risos]. Mas já fomos para diversos lugares, São Paulo, Santa Catarina, Buenos Aires, quase todo o estado do RS. Uma história curiosa foi quando fomos participar pela primeira vez do festival de Nova Petrópolis, ainda naquela época era aos moldes de encontro de grupos alemães. Nesse ano específico nós fomos de “intrusos”, e eles ficaram muitos surpresos com nós lá, perguntaram várias vezes quem nós éramos e de onde viemos.

LB – Como foi o processo (para serem escolhidos)? Como foi a notícia que vocês iriam? Como estão sendo os preparos?
SM – Foi um longo processo. Começou lá em 2013 quando colocamos isso como objetivo, nos encontramos com a Ministra da Cultura e ela disse que gostaria de nos ver no festival de 2018. De volta ao Brasil, começamos a nos planejar para ir. Começamos a fazer levas de pizza uma vez por mês e ainda ajudamos na lancheria da Casa Leta para conseguimos custear. Na primeira avaliação não fomos muito bem, mas tivemos a chance de fazer novamente com a ajuda da coreógrafa Inga (Liepiņa) de Campinas, que veio com a Consul Daina Gutmanis. Nesse meio tempo ainda tivemos a ajuda de outros coreógrafos da Letônia, e conseguimos ser aprovados.
Foram muitos domingos a tarde, segundas a noite e muitos outros ensaios para nos prepararmos. Felizmente já estamos aqui na Letônia. Queremos estar aqui e vestir a camisa e representar a Letônia. Todos do grupo que estão aqui, mesmo sem descendência leta, possuem o sangue ardente para participar do Festival.

 

 

 

Andreis Purim

Andreis Purim

Técnico em Eletrônica (UTFPR) e estudante de Engenharia da Computação na UNICAMP. Entusiasta da Cultura e História Leta.
Andreis Purim

Últimos posts por Andreis Purim (exibir todos)

Comments

comments

Deixe uma resposta