Os Letos e a Revolução Federalista

Um dos episódios mais curiosos e esquecidos da história dos letos no Brasil é a Revolução Federalista, que pegou de surpresa os colonos recém-chegados, que viam o Brasil de então como uma terra pacífica de novas oportunidades. Foi nesse momento inicial que os colonos se juntaram para orquestrar a defesa do seu novo lar e experimentaram as mais variadas engenhosidades para impedir que a colônia fosse atacada. E conseguiram.

A Colônia
    Resumidamente, Rio Novo foi a primeira colônia leta no Brasil, fundada oficialmente em 1889. Os planos da colonização leta vinham sendo desenhados nos anos finais do Império por entusiastas e estudiosos que viam o Brasil como uma terra fértil onde os letos – que até então estavam sob domínio do Império Russo e tinham difícil acesso as terras – poderiam se desenvolver.
Rio Novo se localiza aproximadamente 12 Km de distância do centro do município de Orleans, na região litorânea no sul do Estado de Santa Catarina. A região montanhosa se tornaria passagem para as tropas gaúchas avançarem ao norte, tomando Florianópolis (na época, Nossa Senhora do Desterro), Curitiba e avançar para São Paulo. Apesar disso, entre Rio Novo e Orleans havia uma região de mata pela qual apenas os colonos sabiam o caminho
Entretanto, no mesmo ano de fundação da colônia, o Brasil Imperial foi derrubado e a República foi proclamada. Esse novo governo republicano nasceu sem forte apoio e logo as intrigas políticas e insatisfações das elites locais se transformaram em embates políticos, que culminaria, na revolução. O apoio do projeto de imigração européia criado pelo governo imperial também ruiria, deixando a colônia – nesses anos iniciais – sem apoio algum do governo.

Vista da cidade de Orleans

A Revolução
    O país estava sem constituição, sob censura e o congresso, fechado. Os primeiros presidentes da república foram marechais militares, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, mas diversos setores ainda tentavam tomar o vácuo de poder. No Rio de Janeiro, a Armada (a Marinha brasileira), sob liderança de Custódio de Melo e Saldanha da Gama, exigia eleições e houve batalhas entre a guarda nacional e os revoltosos.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, a disputa política entre o governador positivista Júlio de Castilhos (líder do Partido Republicano Rio-Grandense)  e seu rival Gaspar da Silveira Martins, um ex-político monarquista e líder do Partido Federalista, se aquecia para o confronto. Castilhos e seus apoiadores (chamados de pica-paus) apoiavam o governo federal de Floriano Peixoto. A constituição estadual permitia vários poderes quase ditatoriais para Castilhos e como o voto não era secreto, as manipulações eram frequentes. Silveira Martins, por outro lado, defendia o parlamentarismo e uma revisão das leis estaduais; seus apoiadores ficaram conhecidos como Maragatos.
O movimento Maragato começou a ameaçar a estabilidade do governo Rio-Grandense, e por fim, do novo regime republicano no País – pois os opositores de Floriano os apoiavam. Os federalistas obtiveram vitórias inicialmente em 1893, avançando para Santa Catarina e chegando até o Paraná, onde a decisiva batalha da Lapa (PR) tornou possível o contra-ataque dos republicanos.
Em meio a tudo isso, existia uma pequena colônia de Letos.

Líderes Maragatos

A Defesa
    A colônia leta, assim como a população civil, estava às mercês das tropas que passavam. O conflito estava se tornando sangrento e cada vez mais cruel, os soldados capturados eram degolados, casas eram saqueadas, animais e pertences eram tomados. Os colonos, temerosos e sem nenhum meio de defender sua terra, começaram a bolar planos para enganar os soldados que viriam.
Registra-se que o primeiro sino da Igreja Batista de Rio Novo (pois o primeiro templo não possuía torre) foi criado nessa ocasião e colocado em uma posição estratégica para quando alguma força militar fosse avistada perto da colônia fosse tocado e todos os habitantes escondessem seus animais no mato. No ano seguinte, 1894, foi construído o segundo templo da igreja batista, o famoso “templo de lascas”.
Como a colônia era relativamente afastada e o acesso era conhecido apenas pelos locais, os letos começaram, com a ajuda de um polonês que falava bem português, a espalhar histórias sobre a colônia “dos russos” (eles eram chamados assim pois a Letônia ainda fazia parte do Império Russo), que eram numerosos e preparavam emboscadas para os soldados que adentrassem no caminho até a colônia, inclusive com explosivos e pelotões de colonos em patrulha.
Rio novo estava apreensiva. Os colonos sabiam blefar, mas, caso descobertos, a mentira cairia por terra e entrariam em problemas. . E na cidade, ocupada pelos federalistas, a curiosidade dos soldados sobre esses semibarbaros “russos” aumentava.

O soldado
    Uma das histórias contadas pelos letos de Rio Novo é sobre um leto que – em uma madrugada – foi a Orleans comprar mantimentos, e logo foi identificado pelos soldados perto como um dos “russos”. Foi ao armazém e logo voltou ao caminho de casa. Entretanto, percebeu que um dos soldado estava o seguindo. Atravessou a barra do Rio Novo, logo dobraria a direita pelo vale do Rio Novo. Essa era a estrada mais próxima e vigiada,  mas não queria arrumar confusão, tentou pegar um caminho alternativo pelo Rio Tubarão e depois pelo Rio Laranjeiras, entretanto, não foi capaz de despistar o soldado, que o seguia a distância.
Precisava fazer alguma coisa.
Ele carregava consigo uma espingarda pica-pau calibre 24 (na época, muitas espingardas ainda eram carregadas pela boca, onde era preciso colocar o chumbo, a pólvora e ainda empurra-las com uma vara metálica para o fundo do cano da arma). Fingindo estar trocando as mercadorias de ombro, carregou em sua espingarda 3 chumbos e a pólvora, entretanto, não teve tempo de empurra-los com a vara. Logo na primeira curva, se escondeu no mato e terminou de carregar a arma.
Apenas um tiro já foi suficiente para matar o soldado federalista. Com o uniforme ensanguentado e o fuzil Mannlicher (provavelmente um Mannlicher M1888), agora era preciso se livrar da encrenca. O colono suspeitava que o soldado tivesse sido designado para achar um caminho para a colônia, e logo poderia chegar um expedição de busca.
O corpo foi escondido em uma vala cavada na estrada, junto com o fuzil, e depois coberta com folhagem para disfarçar. A região onde ele supostamente foi enterrado era chamada de “Bukovina” e pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.
O nome do colono, apesar de algumas teorias, nunca foi confirmado.

Apesar das forças contrárias, a revolução Federalista terminou em 1895 com a vitória de Júlio de Castilhos e o governo republicano, e, graças a coragem e sagacidade dos colonos, a colônia sobreviveu.

Skaidas Baznica/O templo de Lascas, construído em 1894

Fontes:
PURIM, V. A. Os revolucionários passaram a ser chamados de Maragatos e os Legalistas eram os Picapaus. rionovo.wordpress, 2012. Disponível em: <https://rionovo.wordpress.com/2012/10/04/os-revolucionarios-passaram-a-ser-chamados-maragatos-e-os-legalistas-eram-os-picapas/>. Acesso em: 24 dez. 2017.
LOTTIN, Jucely. Os Letos Orleanenses. Santa Catarina: Elbert, 2002.

 

Andreis Purim

Andreis Purim

Técnico em Eletrônica (UTFPR) e estudante de Engenharia da Computação na UNICAMP. Entusiasta da Cultura e História Leta.
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