Os Letos na Argentina

No dia 1º de março de 2016, eu tive o prazer de visitar Buenos Aires, capital da Argentina. A cidade, linda e dinâmica, encontra a antiga arquitetura europeia (mas bem cuidada) com modernos e altos edifícios. A população da Argentina é, em sua maioria, constituída por descendentes dos colonizadores espanhóis e por imigrantes e, embora alguns nomes de ruas tenham nomes indígenas, não há muitos deles. Não há muitos afro-descendentes, já que o “Rio da Prata” não era uma rota da escravidão africana. O maior grupo de imigrantes na Argentina foi, definitivamente, o de italianos.

Os primeiros letos chegaram na Argentina, antes da Primeira Guerra Mundial, por razões pessoais.

Foi o caso do Dr. Prof. Karlis Bergs, Investigador de Ciências Naturais (botânica e zoologia), da escritora Virginia Krasting Carreño, que chegou em 1912 e do aviador Otto Balodia, que chegou em 1927 e trabalhou como instrutor de vôo. O primeiro cônsul leto foi Karlis Bergs, de 1927 a 1931.

Porém, a segunda onda de imigração foi a mais importante, depois da Segunda Guerra Mundial (1948-1949). Durante o segundo governo do presidente populista argentino, Juan Domingo Perón, 89 letos chegaram em navios de guerra junto a outros 800 imigrantes da Áustria e Itália, através do Porto de Buenos Aires.

Calle Letonia

A primeira residência dos refugiados foi o Hotel dos Imigrantes, na região de Boedo, localizado perto do Porto de Buenos Aires, onde havia uma estação de trem e hoje é o Museu da Imigração na Argentina (http://untref.edu.ar/muntref/museo-de-la-inmigracion/). Graças ao Pregador e Padre Luis I García, os imigrantes organizaram uma colônia na cidade de San Miguel, da Província de Buenos Aires. Os primeiros pedaços de terra e casas foram compartilhados por grandes grupos de famílias de baixas condições financeiras. As condições eram tão precárias que os homens tinham que dormir no teto. A construção das novas casas era feita de uma maneira muito solidária; todos se ajudavam devido à falta de recursos. Este pregador era bem quisto pela comunidade leta por sua preocupação permanente em resolver problemas, encontrar terra para hospedagem, buscar trabalho para quem necessitava, ensinar a língua, etc. Pregador Garcia ajudou a fundar a congregação de “San Pablo”, em San Miguel. O primeiro culto com a participação dos letos aconteceu no dia 27 de março de 1949. Os artesãos letos ajudaram na construção do templo. Pregador Garcia conseguiu encontrar dois blocos de terra para 38 famílias. A rua onde estes blocos de terra estavam localizados é agora chamada de “Calle Letônia”.

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Durante três anos, o Pregador Garcia ajudou as famílias, mas havia a necessidade que os cultos fossem ministrados na língua leta. Em 1951, foi fundada a Congregação “La Reurrección”. O primeiro pregador da igreja foi Anroldo Liepins que junto a sua família, auxiliou durante 25 anos, os letos em Mendonza (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai).

Ele foi resgatado de um campo de pessoas deslocadas na Europa para encarregar-se da congregação em 1952, La Resurrección. Na congregação havia escola dominical e músicas tradicionais orquestradas ministradas pela pianista Elvira Vitolins de Liepins. Em 1953, foi fundada uma paróquia em Hurlingham, onde foi contruída uma igreja com a ajuda dos artesãos letos. Todas as atividades da congregação foram realizadas neste novo local. Desde seus 50 anos até a sua morte, o Pregador Liepins escreveu e imprimiu o boletim informativo “Vests”, trazendo informações sobre as atividades da Congregação, usando um mimeógrafo manual. Deste momento em diante, o crescimento da comunidade leta foi rápido. Os letos acharam trabalhos em diferentes áreas, de acordo com a formação: em oficinas de carpintaria, metalurgia, máquinas, serviços eletromecânicos, ensino, serviços domésticos, etc. Muitos construíram, pouco a pouco, suas próprias oficinas e lojas. Dos anos 50 aos anos 70, eles concentraram-se na confecção de têxteis plásticos. Estas atividades levaram os letos à classe média argentina em um período que a atividade industrial cresceu no país e havia muito trabalho.

A maior organização dos letos na Argentina foi a La Asociación de Letones Libres (Associação dos Letos Livres) e a Asociación de la Letonia Libre (PBLA – Associação da Letônia Livre), que prevalecem até hoje em torno da igreja. Por mais de 40 anos, eles praticam serviços mensais, seguidos de um almoço com a comunidade (a la canasta), quando os participantes conversam em leto e castelhano.

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A congregação de “La Resurrección” é conduzida hoje pelo Pregador David Calvo e pelo Presidente Ilgvars Ozols. Nas últimas décadas, o número de pessoas que frequentam as atividades da congregação diminuiu para cerca de 20 pessoas. A congregação celebra os principais feriados, como o dia 18 de novembro e o Natal, quando eles reúnem o maior número de letos na Argentina, concentrando mais de 70 pessoas, tendo a participação de músicos. Entre as celebrações estão o “Dia da fé cristã da Letônia” e o “Dia dos deportados da Letônia-Sibéria (1941-1949)”.

Reencontros

A relação entre os letos que viviam na Argentina com a Letônia começou a se reestabelecer em 1990, quando os navios mercantes soviéticos chegaram às águas argentinas para pescar e tratar lulas. As reuniões aconteceram pela iniciativa de alguns letos marinheiros e pescadores que procuravam contato com os argentinos. As reuniões, apesar da vigilância da polícia soviética, eram muito emocionadas. Isso aconteceu quando foi restabelecido um contato direto que havia sido quebrado há décadas. Os marinheiros participaram de vários eventos sociais e familiares durante a sua estadia. Porém, com o fim da URSS, houve enormes acordos de corrupção feitos por ex-funcionários do regime soviético e da máfia russa ligada à Argentina, que acabou com a frota de pesca, deixando os marinheiros e pescadores no Porto de Buenos Aires sem recursos para a sobrevivência. No ano de 1991, a Nova República da Letônia promoveu Adolfo Bruziks como o primeiro Cônsul Honorário da Letônia na Argentina. Ele, que nasceu na Letônia, assumiu a responsabilidade e arriscou muitos de seus pertences pessoais ao intermediar e resolver o problema da repatriação dos marinheiros. A congregação ainda tem contato com alguns deles e seus familiares.

Logo depois da nomeação de Bruziks, Mirdza Resbergs foi nomeada e começou a lidar com questões mais apropriadas para um Cônsul Honorário, como a emissão de passaportes para os primeiros imigrantes e seus descendentes, de tal forma que foram emitidos mais de 40 passaportes da Letônia para pessoas que participaram das eleições parlamentares nos anos 90. Desde 1991, muitos letos nativos viajaram da Letônia para visitar seus parentes, as gerações nascidas durante o exílio, e para reconhecer o que antes era propriedade deles.

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O Consulado Honorário da Letônia na Argentina existe desde 2013 e, atualmente, está localizado em um edifício de advocacia. Lá trabalha o Dr. Andrés Ozols (Coordenador Social), que eu tive o prazer de conhecer em Buenos Aires e que também trabalha para a Câmara do Comércio e Indústria do Río de la Plata e Riga (http://ar.consuladoletonia.com). O Cônsul Hector Días Bastien vive na Espanha e visita a Argentina periodicamente para discutir questões ligadas à comunidade leta na Argentina. O trabalho de Bastíen torna-se difícil quando trata de questões legais, como o caso dos 20 letos presos por tráfico de drogas, as parcerias entre a administração dos portos na Letônia, a emissão de vistos temporários, desenvolvimento e renovação de passaportes, emissão de cidadania, intercâmbio comercial entre os países e a representação em eventos diplomáticos. Ele conta com a ajuda de Mercedes Benegas de Homblerg.

O Dr. Ozols foi gentil e concedeu-me algumas horas respondendo a algumas perguntas que eu tinha sobre os letos na Argentina. Ele também me deu um livro escrito pelo pai dele, Ilgvars Ozols, “Latviesi Argentina, Cile um Urugvaja” (2001), que descreve como o processo da imigração leta aconteceu nestes países e algumas cópias do boletim “Vests”, também escrito por Ilgvars, continuando o trabalho do Pregador Liepins.

Em novembro de 2015, o Escritório de Assuntos de Cidadania e Migração da Letônia emitiu 47 passaportes para os letos e seus descendentes na Argentina. Veja as imagens abaixo:

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Os letos mais velhos, que vivem na Argentina, estão comprometidos a manter a tradição leta, mas se preocupam que a nova geração Argentina-Leta que não se interessa muito pela cultura e a língua e, além disto, é difícil levá-los para eventos da congregação. Dr. Ozols, que é também um membro do Grupo de Biomateriais da “Facultad de Ingenieria de la Universidad de Buenos Aires”, tem trabalhado para tentar mudar esta situação. Ele tem cooperado para melhorar os programas de intercâmbio de estudantes entre as Universidade de Buenos Aires e RTU em Riga, principalmente no campo dos Biomateriais, mas tem um desejo de estender este programa para outras áreas de estudo.

Como um membro da Câmara do Comércio do Rio de La Plata (contempla Argentina, Uruguai e o Paraguai) e Riga, Dr. Ozols também trabalha para firmar os acordos de ciência e tecnologia entre os países. Tem um desejo de usar o Porto de Riga como uma ponte para produtos agrícolas da América do Sul para a Europa, com administração conjunta entre os Portos de Riga e o Porto de Corrientes. O Cônsul Hector Bastien estará na Argentina em abril para discutir esta questão.

André Kavalieris

André Kavalieris

Leto-brasileiro, comunicador e empresário. Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP. Atualmente estudando na Suécia, no programa de mestrado de Transnational Creative Writing da Stockholms Universitet. Dono de empresa de representação comercial e engenharia.
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