Eu queria tanto, ainda viver

Por volta de meus 15 anos, quando eu estava começando a me interessar por minhas raízes, sempre fazia perguntas para meus familiares e conhecidos sobre “como era a Letônia e o motivo pelo o qual os letos teriam saído de lá”. Certo dia, minha avó revirando seus pertences, me presenteou com um livro que talvez seria de meu interesse, pois se tratava de um livro com detalhes históricos da Letônia.

Confesso que nunca fui “amante de livros”, porém aquele tinha me despertado uma vontade na leitura. Disse minha avó que o livro era curto, que ela teria lido em 1 tarde enquanto trabalhava em sua loja de artesanatos.

Fui presenteado com o livro “Eu queria tanto ainda viver”, em leto, “Vēl tā gribejas dzīvot”, manuscrito traduzido por Yolanda Mirdza Krievin e publicado pela Comunidade Evangélica Luterana Leta do Brasil, em 1982.

Capa do Livro em língua portuguesa

O livro relata a história de Ruta Ūpe, uma jovem Leta de 14 anos de idade, levada à força junto aos milhares de pessoas às taigas e aos campos de trabalho forçado, sujeitos a torturas e humilhações nos confins da Sibéria.

Ruta descreve em suas memórias os momentos da triste perda de sua liberdade e vida, as condições escravas exaustivas e desumanas enfrentando o frio siberiano, a falta de uma moradia digna e de assistência médica, a luta pelo pão de cada dia e a perda de familiares no decorrer do passar do tempo. Por meio de anotações em um diário, Ruta pode manter-se forte e mentalmente sã, registrando todos os horrores pelos quais passava, junto de parentes e amigos.

Com o passar de alguns anos, tive a oportunidade de visitar a Letônia pela primeira vez, e  lá, visitei museus que me proporcionaram as explicações de minha dúvida: “Por que tudo aquilo aconteceu na vida de Ruta”?  “O que ela ou sua família tivera feito para merecer aquilo”?

Descobri que não apenas a Letônia, mas as três províncias Bálticas (inluindo Estônia e Lituânia) foram dominadas pelos Soviéticos. Para que a ideologia Socialista fosse aplicada sem grande perturbação dos opositores, aqueles que tinham conhecimentos acadêmicos, não concordavam com as práticas do sistema e que não queriam abrir mão de seus bens privados, constituíram aquela grande congregação de sofredores inocentes; alguns com feridas que jamais cicatrizaram.

Desenho que retrata as deportações da Letônia para a Sibéria
Crianças dentro dos trens de deportação

 

 

 

 

 

 

Itinerário seguido pelos Letões escravizados pelos comunistas, a caminho da Sibéria.

Hoje, com uma cabeça mais madura, eu reli o livro, e pude prestar atenção em informações que me fizeram arrepiar, e às vezes chorar, pois passei por lugares na Letônia onde Ruta esteve.

Rio Obi, mencionado na obra de Ruta atravesando a cidade de Novosibirsky
Cidade de Bauska, onde Ruta morou depois de retornar a Letônia.

O livro “Eu queria tanto ainda viver” é uma obra valiosa assim como “O Diário de Anne Frank”, obra rica em informações sobre como aquelas pessoas sofreram as consequências de um regime totalitário e injusto. As deportações da população dos países bálticos para a Sibéria é um acontecimento recente, sendo que no ano de 2018 estará completando apenas 77 anos. A publicação deste livro foi uma das últimas vontades de Ruta antes de partir deste mundo, pois queria sua vingança e mostrar ao mundo que o sangue inocente dos mortos letões clama também por vingança. Este livro deve ser para nós a memória viva de todos os acontecimentos do passado, que jamais serão esquecidos, por mais que nosso mundo tente esquecer e esconder.

Ruta conclui suas memórias com palavras do Poeta Skalbe: “Foram muitos os teus mártires, minha pequena Pátria”.  

“Mais uma vida que se juntou às sombras dos mártires que morreram, uma vida que teve de trilhar o longo trajeto das outras e depois morrer, embora fosse tão grande a sua vontade de viver”.

Revisora: Cláudia Klava

Essa é parte da história – Uma entrevista com V.A. Purim

Ninguém que viu os verdadeiros primórdios do Rio Novo está vivo para contar a história, mas para quem está disposto a ouvir resta o mais inusitado e rico dos testemunhos.” – Paulo Brabo

Em uma pequena e calma chácara localizada nos arredores de Curitiba, cercada de flores e livros – alguns desses mais que centenários – um homem apenas cuida do maior acervo de fotos e cartas dos letos no Brasil. Esse homem é Viganth Arvido Purim. Com muito zelo e diligência, seu trabalho de organizar, escanear e traduzir cartas, documentos e fotos durante anos foi o que possibilitou que muitos brasileiros hoje pudessem encontrar seus antepassados.

Nascido em 1933 na primeira colônia leta no Brasil – Rio Novo (SC), fundada em 1889 – Arvido é o segundo de 7 irmãos. Já cedo ajudava seu pai na roça e participava da sociedade da colônia. Só veio a aprender português tardiamente, e até hoje conserva seu cantado sotaque catarinense. Ele saiu de Rio Novo em 1953, quando foi sozinho trabalhar como ajudante de mecânico em Urubici. Ele, com sua dedicação, avançou nos postos da garagem, e depois das empresas, se aposentando como Gerente Regional de Peças pela General Motors. Suas viagens de trabalho possibilitaram que ele conhecesse muitos outros letos espalhados pelo Brasil.

Desde 2009, ele mantém o blog rionovo, onde consegue publicar posts sobre cartas, atas, livros, fotos e acontecimentos da colônia – que através de muita dedicação traduziu do leto original. Fomos a sua chácara conversar sobre sua experiência com a conservação e divulgação dessas memórias.

Arvido e sua esposa, Edith

Entrevista

Letônia Brasil – Você é o criador do blog rionovo.wordpress. Quando ele foi criado? E por qual razão? Quantas publicações já?

Viganth Arvido – Graças aos meus filhos e outros, consegui aprender a mexer nessas coisas informáticas, e foi aí que comecei a montar algo parecido com a história dos letos de Rio Novo. Comecei a trabalhar nisso por volta de 88 e 89 e depois gostei muito mais de guardar no computador, pois é mais limpo e fácil de achar digitalmente. Não sei quantas publicações, nunca contei, mas por volta de 618. Para mim, o blog é o defensor dos letos no Brasil e defensor da memória da colônia de Rio Novo.

LB – Como as cartas foram guardadas? E onde estão agora? E os livros e atas?

VA – Infelizmente muita coisa foi perdida. Meu pai e meu tio Reynaldo guardavam tudo, mas olha, gostaria de ter guardado mais. As cartas hoje estão lá em Riga (Capital da Letônia), no Arquivo Nacional, lá eles trabalham com cuidado e são especializados para isso. Há os livros e atas da igreja, da juventude, da sociedade missionária, há revistas e jornais antigos também.

LB – Parece que, conforme você pesquisou e criou o blog, descobriu ainda mais coisas não só sobre a Letônia mas como várias outras curiosidades; qual foi a coisa mais inusitada que já aconteceu?

VA – Um belo dia, eu estava em um Congresso Leto em Nova Odessa sentado do lado de fora da igreja quando um Anderman idoso (que eu nem conhecia) perguntou meu nome e disse que havia algo para me dar – nessa época o blog nem tinha começado. Ele me deu um calhamaço de cadernos da história completa da família Anderman, contando desde a chegada do Karlis Anderman em Rio Novo até a ida do filho dele, Júlio Anderman, para a guerra na Itália (com a Força Expedicionária Brasileira). Ele disse “guarde bem isso”. Bom, alguns já estão publicados no blog.

LB – Como eram as notícias recebidas da Letônia independente?  E sobre a ocupação soviética (1940-1941 e 1944-1991) na Letônia, como eram as notícias que chegavam?

VA – Os imigrantes já trocavam cartas desde que chegaram (1889) até 1917. Durante a guerra (primeira guerra mundial e guerra da independência) sabíamos que a Letônia passou por apuros e muitas pessoas perderam suas casas e famílias. Na mesa de refeição meu pai falava para comer tudo pois haviam crianças passando fome na Letônia. Soubemos da ocupação soviética por jornais (de cunho comunista) que agora a Letônia havia sido “retomada” (invadida na segunda guerra) pela União Soviética e falavam da estatização das fazendas, mas nós sabíamos que não era bem assim, as cartas chegavam ao Brasil censuradas e inclusive um dos primos do meu pai desapareceu e nunca mais respondeu as cartas. Além disso, os letos que conseguiram fugir da ocupação e foram para os Estados Unidos e Brasil “sentavam o pau” sobre os invasores.

LB – Durante grande parte do século XX, os letos no Brasil ficaram sem contato nenhum com a Letônia. O que você achou disso? Foi muito prejudicial para a comunidade?

VA – Muito. Muitos dos descendentes que nasceram depois não aprenderam a falar leto e nem sabiam direito onde era a Letônia. As pessoas hoje ficam impressionadas que eu ainda falo em leto, quase como se fosse um herói. Estávamos sem esperança de ter um contato maior, mas sempre que eu podia ler algo em leto, eu lia.

LB – E agora sobre a Letônia em si. Antes dela ser independente, qual era sua ideia sobre ela? Como você achava que era a vida lá?

VA – Por volta do final dos anos 80 havia uma agitação nos países da cortina de ferro contra a ocupação soviética e eu tinha esperança que a Letônia entrasse na jogada. A primeira vez que eu vi um vídeo de uns letos de São Paulo que conseguiram ir visitar a Letônia nessa época, quando eu vi o primeiro leto falando em leto eu pensava “puxa vida, eles existem mesmo!”. Se não duvidar, eu ainda tenho a fita (VHS) dessa primeira viagem.

Arvido em frente ao Monumento da Liberdade, em Riga

LB – Sua primeira visita (à Letônia) foi em 2014. Como foi voltar para a terra dos seus ancestrais?

VA – Gostei de tudo. O meu maior problema foram os taxistas russos, mas mesmo asssim depois eu ligava para eles e eles já exclamavam “Arvids! Arvids!”.  Eu lembro quando desembarquei em Amsterdã para fazer a conexão e quando cheguei no guichê para Riga eu já escutava eles falando em leto, rindo em leto! Mas eu realmente fiquei emocionado, era uma sensação diferente. O museu da ocupação na Letônia me deixou muito atordoado também.

LB – E os letos no brasil hoje? Como você vê a comunidade e os jovens letos do século XXI?

VA – Eu fico animado, algumas pessoas realmente se sobressaem em resgatar e cuidar da memória dos letos hoje. E eu fico feliz que meu trabalho possa ser bem utilizado.

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