Lieldienas – A Páscoa Leta

Páscoa é uma época do ano amada na Letônia. Durante o período, várias pessoas de diferentes idades, etnicidades e credos religiosos se reúnem para celebrar de sua própria forma. Os letos geralmente atendem o culto no domingo pela manhã e passam os próximos quatro dias do feriado visitando amigos e família.

Em leto, a páscoa é chamada de Lieldienas (em tradução literal, “Grandes dias”) – um jeito de chamar a chegada da primavera nas canções folclóricas.  Segundo as tradições, quando chega a páscoa, os dias passam a ser mais longos que as noites – sendo uma vitória simbólica da luz contra as trevas. Durante os séculos muitas tradições surgiram comemorando essa passagem.

Antigamente, na manhã da páscoa, era costume acordar antes do sol e lavar o rosto com águas de riachos que vão para o oeste, e em seguida reunir-se com a família para assistir o nascer do sol. Em vilas livônias as manhãs começavam com o acordar e chegada dos pássaros. Na Letônia, o feriado possui três dias: Sexta-feira da paixão, Sábado Santo e Domingo de Páscoa. A terça-feira anterior é chamada de “Terça-feira verde” por causa da palavra alemã “Gründonnerstag”.

Ovinhos decorados

Ovos de Páscoa

Famílias normalmente se reúnem para colorir seus próprios ovos de páscoa (olas), usando materiais naturais. O processo normalmente começa na noite anterior, com o preparo das tintas. É possível utilizar cascas de cebola, cebola roxa, alface, repolho – basta ferver em água por aproximadamente 15 minutos e deixar a água descansando.

Algumas ideias para colorir!

Em seguida, os letos saem pela natureza buscando flores, folhas, sementes, pedrinhas para decorar seus ovos. Primeiro o ovo é levemente molhado e então os enfeites são colocados em volta. Após isso, todo o conjunto é amarrado com um fio ou tecido fino (como gaze) e colocado para ferver na água preparada. A casca irá absorver a tinta, e a intensidade dependerá dos enfeites ao redor, criando desenhos.  Ainda é possível passar uma camada de manteiga ao redor do ovo, após esfria-los, para deixar o desenho mais brilhante.

Nós preparamos um vídeo explicando como você pode fazer seu próprio ovinho super rápido no Facebook. Dá uma olhada!

Brincadeiras de Páscoa

Há inúmeros jeitos de se divertir com os familiares e amigos na páscoa. Em Riga, muitas pessoas se reúnem no Museu Etnográfico ao Céu Aberto e se reúnem para cantar e brincar juntos. Lá é possível ver corridas de trenó, (afinal está acabando o inverno!), jogos de levar pedras com bastões e uma versão anciã de peões de madeira.

Além disso, famílias que prepararam seus ovinhos coloridos podem disputar em uma “batalha” amigável para ver quem possui o ovo mais resistente. Uma pessoa irá segurar o ovo na mão com força, enquanto a outra irá tentar quebrar o outro com o seu ovo. Ganha quem terminar com o ovo inteiro. Depois, é claro, todos estão livres para descascar e comer seus ovinhos cozidos.

Outra brincadeira comum para casais é se balançar em grandes balanços de madeira. Segundo o folclore, isso é para trazer boa saúde ao casal. Alguns letos, no entanto, brincam: é para afastar os mosquitos que chegarão no verão.

Cuidado para não cair.

Os Letos na Argentina

No dia 1º de março de 2016, eu tive o prazer de visitar Buenos Aires, capital da Argentina. A cidade, linda e dinâmica, encontra a antiga arquitetura europeia (mas bem cuidada) com modernos e altos edifícios. A população da Argentina é, em sua maioria, constituída por descendentes dos colonizadores espanhóis e por imigrantes e, embora alguns nomes de ruas tenham nomes indígenas, não há muitos deles. Não há muitos afro-descendentes, já que o “Rio da Prata” não era uma rota da escravidão africana. O maior grupo de imigrantes na Argentina foi, definitivamente, o de italianos.

Os primeiros letos chegaram na Argentina, antes da Primeira Guerra Mundial, por razões pessoais.

Foi o caso do Dr. Prof. Karlis Bergs, Investigador de Ciências Naturais (botânica e zoologia), da escritora Virginia Krasting Carreño, que chegou em 1912 e do aviador Otto Balodia, que chegou em 1927 e trabalhou como instrutor de vôo. O primeiro cônsul leto foi Karlis Bergs, de 1927 a 1931.

Porém, a segunda onda de imigração foi a mais importante, depois da Segunda Guerra Mundial (1948-1949). Durante o segundo governo do presidente populista argentino, Juan Domingo Perón, 89 letos chegaram em navios de guerra junto a outros 800 imigrantes da Áustria e Itália, através do Porto de Buenos Aires.

Calle Letonia

A primeira residência dos refugiados foi o Hotel dos Imigrantes, na região de Boedo, localizado perto do Porto de Buenos Aires, onde havia uma estação de trem e hoje é o Museu da Imigração na Argentina (http://untref.edu.ar/muntref/museo-de-la-inmigracion/). Graças ao Pregador e Padre Luis I García, os imigrantes organizaram uma colônia na cidade de San Miguel, da Província de Buenos Aires. Os primeiros pedaços de terra e casas foram compartilhados por grandes grupos de famílias de baixas condições financeiras. As condições eram tão precárias que os homens tinham que dormir no teto. A construção das novas casas era feita de uma maneira muito solidária; todos se ajudavam devido à falta de recursos. Este pregador era bem quisto pela comunidade leta por sua preocupação permanente em resolver problemas, encontrar terra para hospedagem, buscar trabalho para quem necessitava, ensinar a língua, etc. Pregador Garcia ajudou a fundar a congregação de “San Pablo”, em San Miguel. O primeiro culto com a participação dos letos aconteceu no dia 27 de março de 1949. Os artesãos letos ajudaram na construção do templo. Pregador Garcia conseguiu encontrar dois blocos de terra para 38 famílias. A rua onde estes blocos de terra estavam localizados é agora chamada de “Calle Letônia”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Durante três anos, o Pregador Garcia ajudou as famílias, mas havia a necessidade que os cultos fossem ministrados na língua leta. Em 1951, foi fundada a Congregação “La Reurrección”. O primeiro pregador da igreja foi Anroldo Liepins que junto a sua família, auxiliou durante 25 anos, os letos em Mendonza (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai).

Ele foi resgatado de um campo de pessoas deslocadas na Europa para encarregar-se da congregação em 1952, La Resurrección. Na congregação havia escola dominical e músicas tradicionais orquestradas ministradas pela pianista Elvira Vitolins de Liepins. Em 1953, foi fundada uma paróquia em Hurlingham, onde foi contruída uma igreja com a ajuda dos artesãos letos. Todas as atividades da congregação foram realizadas neste novo local. Desde seus 50 anos até a sua morte, o Pregador Liepins escreveu e imprimiu o boletim informativo “Vests”, trazendo informações sobre as atividades da Congregação, usando um mimeógrafo manual. Deste momento em diante, o crescimento da comunidade leta foi rápido. Os letos acharam trabalhos em diferentes áreas, de acordo com a formação: em oficinas de carpintaria, metalurgia, máquinas, serviços eletromecânicos, ensino, serviços domésticos, etc. Muitos construíram, pouco a pouco, suas próprias oficinas e lojas. Dos anos 50 aos anos 70, eles concentraram-se na confecção de têxteis plásticos. Estas atividades levaram os letos à classe média argentina em um período que a atividade industrial cresceu no país e havia muito trabalho.

A maior organização dos letos na Argentina foi a La Asociación de Letones Libres (Associação dos Letos Livres) e a Asociación de la Letonia Libre (PBLA – Associação da Letônia Livre), que prevalecem até hoje em torno da igreja. Por mais de 40 anos, eles praticam serviços mensais, seguidos de um almoço com a comunidade (a la canasta), quando os participantes conversam em leto e castelhano.

Este slideshow necessita de JavaScript.

A congregação de “La Resurrección” é conduzida hoje pelo Pregador David Calvo e pelo Presidente Ilgvars Ozols. Nas últimas décadas, o número de pessoas que frequentam as atividades da congregação diminuiu para cerca de 20 pessoas. A congregação celebra os principais feriados, como o dia 18 de novembro e o Natal, quando eles reúnem o maior número de letos na Argentina, concentrando mais de 70 pessoas, tendo a participação de músicos. Entre as celebrações estão o “Dia da fé cristã da Letônia” e o “Dia dos deportados da Letônia-Sibéria (1941-1949)”.

Reencontros

A relação entre os letos que viviam na Argentina com a Letônia começou a se reestabelecer em 1990, quando os navios mercantes soviéticos chegaram às águas argentinas para pescar e tratar lulas. As reuniões aconteceram pela iniciativa de alguns letos marinheiros e pescadores que procuravam contato com os argentinos. As reuniões, apesar da vigilância da polícia soviética, eram muito emocionadas. Isso aconteceu quando foi restabelecido um contato direto que havia sido quebrado há décadas. Os marinheiros participaram de vários eventos sociais e familiares durante a sua estadia. Porém, com o fim da URSS, houve enormes acordos de corrupção feitos por ex-funcionários do regime soviético e da máfia russa ligada à Argentina, que acabou com a frota de pesca, deixando os marinheiros e pescadores no Porto de Buenos Aires sem recursos para a sobrevivência. No ano de 1991, a Nova República da Letônia promoveu Adolfo Bruziks como o primeiro Cônsul Honorário da Letônia na Argentina. Ele, que nasceu na Letônia, assumiu a responsabilidade e arriscou muitos de seus pertences pessoais ao intermediar e resolver o problema da repatriação dos marinheiros. A congregação ainda tem contato com alguns deles e seus familiares.

Logo depois da nomeação de Bruziks, Mirdza Resbergs foi nomeada e começou a lidar com questões mais apropriadas para um Cônsul Honorário, como a emissão de passaportes para os primeiros imigrantes e seus descendentes, de tal forma que foram emitidos mais de 40 passaportes da Letônia para pessoas que participaram das eleições parlamentares nos anos 90. Desde 1991, muitos letos nativos viajaram da Letônia para visitar seus parentes, as gerações nascidas durante o exílio, e para reconhecer o que antes era propriedade deles.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O Consulado Honorário da Letônia na Argentina existe desde 2013 e, atualmente, está localizado em um edifício de advocacia. Lá trabalha o Dr. Andrés Ozols (Coordenador Social), que eu tive o prazer de conhecer em Buenos Aires e que também trabalha para a Câmara do Comércio e Indústria do Río de la Plata e Riga (http://ar.consuladoletonia.com). O Cônsul Hector Días Bastien vive na Espanha e visita a Argentina periodicamente para discutir questões ligadas à comunidade leta na Argentina. O trabalho de Bastíen torna-se difícil quando trata de questões legais, como o caso dos 20 letos presos por tráfico de drogas, as parcerias entre a administração dos portos na Letônia, a emissão de vistos temporários, desenvolvimento e renovação de passaportes, emissão de cidadania, intercâmbio comercial entre os países e a representação em eventos diplomáticos. Ele conta com a ajuda de Mercedes Benegas de Homblerg.

O Dr. Ozols foi gentil e concedeu-me algumas horas respondendo a algumas perguntas que eu tinha sobre os letos na Argentina. Ele também me deu um livro escrito pelo pai dele, Ilgvars Ozols, “Latviesi Argentina, Cile um Urugvaja” (2001), que descreve como o processo da imigração leta aconteceu nestes países e algumas cópias do boletim “Vests”, também escrito por Ilgvars, continuando o trabalho do Pregador Liepins.

Em novembro de 2015, o Escritório de Assuntos de Cidadania e Migração da Letônia emitiu 47 passaportes para os letos e seus descendentes na Argentina. Veja as imagens abaixo:

Este slideshow necessita de JavaScript.

Os letos mais velhos, que vivem na Argentina, estão comprometidos a manter a tradição leta, mas se preocupam que a nova geração Argentina-Leta que não se interessa muito pela cultura e a língua e, além disto, é difícil levá-los para eventos da congregação. Dr. Ozols, que é também um membro do Grupo de Biomateriais da “Facultad de Ingenieria de la Universidad de Buenos Aires”, tem trabalhado para tentar mudar esta situação. Ele tem cooperado para melhorar os programas de intercâmbio de estudantes entre as Universidade de Buenos Aires e RTU em Riga, principalmente no campo dos Biomateriais, mas tem um desejo de estender este programa para outras áreas de estudo.

Como um membro da Câmara do Comércio do Rio de La Plata (contempla Argentina, Uruguai e o Paraguai) e Riga, Dr. Ozols também trabalha para firmar os acordos de ciência e tecnologia entre os países. Tem um desejo de usar o Porto de Riga como uma ponte para produtos agrícolas da América do Sul para a Europa, com administração conjunta entre os Portos de Riga e o Porto de Corrientes. O Cônsul Hector Bastien estará na Argentina em abril para discutir esta questão.

Minha Saga Letoniana

Existe um dizer de que as nossas vidas duram trezentos anos. Elas começam cem anos antes de nosso nascimento e terminam cem anos após a nossa morte, afinal as ações das pessoas daquele período ou determinam quem somos, ou somos nós que as determinamos. No entanto, por décadas após a guerra, os autores e vítimas do capítulo mais obscuro da Europa do Século XX, foram incapazes de falar sobre suas experiências. Nós os observamos, nós os testemunhamos, nós os amamos, às vezes nos até os desgostamos. Mas eles sempre nos deixaram uma marca profunda, eles nos fizeram. Contudo, nós não entendemos ao certo quem eles realmente foram e, portanto, nós não entendemos quem nós somos.

– Roxana Spicer – The traitor’s daughter

   Há algum tempo passei a procurar sobre minhas origens.  Porém, existia uma lacuna na história da minha vida que não conseguia preencher. Pensava em várias hipóteses, mas não encontrava o caminho. Esta janela perdida no tempo estava diretamente relacionada com a tragédia humana da Segunda Guerra Mundial.

   Pesquisar sobre a família dos meus avós paternos, de origem portuguesa e já fincada no Brasil há séculos, foi fácil. Existe até um livro para contar as histórias de “Lagoa dos Gatos” e de Garanhuns, região onde faz frio no interior de Pernambuco e que tem fama pelos seus festivais de inverno. Minha avó paterna, escritora e poetisa, nasceu em Bezerros, cidade do agreste e famosa pelo carnaval de rua.

   A origem da minha avó materna também não foi difícil de ser levantada. Ela é neta de italianos e seu pai era um comerciante, do qual herdei alguns réis para a minha coleção de moedas. É possível, até, rastrear a época em que meus tataravós chegaram ao Brasil e se instalaram em Tremembé – SP.

   Já a história do meu avô materno era um mistério. Eu nunca soube muito sobre o seu passado. Quando era criança adorava ir a sua oficina brincar com as caixas de ferramentas. Naquela época, não fazia ideia sobre o seu país de origem, somente que ele tinha um sotaque engraçado. Infelizmente, não tivemos tempo suficiente de convivência para eu poder lhe perguntar sobre sua descendência, pois meu avô faleceu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Tudo o que sabia era que ele tinha vindo para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

   Em histórias de guerra, qualquer que seja o conflito, sempre é questionado qual foi o papel de uma pessoa e o que aconteceu com ela e sua família. Quando perguntava para a minha mãe a respeito, ela me contava as histórias da terra natal de seu pai com apenas pequenos fragmentos de sua vida. Dentre estes fatos, estavam momentos interessantes como quando ele atravessava um rio congelado para ir à escola,  ou quando andava descalço para não gastar o único par de sapatos que tinha.  Meu avô costumava cantar músicas folclóricas letas, como “Kur tu teci”, para os meus tios, mas nunca falava sobre a guerra. O único comentário que consigo me lembrar era que, entre as ruínas, os soldados pegavam objetos abandonados no caminho, apenas para largá-los posteriormente, pois não havia para onde levá-los. Não havia mais casa.

   Em 2004, quando a Letônia entrou na União Européia, fiz contato com o então Cônsul da Letônia no Brasil, João Grimberg. Na época, ele me disse que não havia nenhum processo em aberto para a emissão de passaporte leto para descendentes brasileiros, mas me orientou a checar essa informação de tempos em tempos para ver se algo mudava. E foi o que fiz.

   Em abril de 2015, me comuniquei com a atual Cônsul da Letônia no Brasil, a Sra. Daina Gutmanis, que me direcionou sobre o que era necessário para a solicitação da cidadania leta. Eu poderia dar entrada no processo mas, para isso, precisaria de alguma evidência, algum documento original, provando que meu avô era da Letônia. Ela me enviou uma lista de tudo o que precisava reunir e os dados do Departamento de Registro Civil da Letônia, o Dzimtsarakstu Departamenta Arhivs, que poderia me ajudar a encontrar algum dado sobre a origem de meu avô. Começava aí a minha saga báltica.

   Enquanto buscava um registro, estudei um pouco de história para entender em qual situação meu avô se encontrava durante sua juventude e levantei alguns fatos significativos: em 1934, a Letônia sofreu um golpe de Estado, tornando-se uma ditadura até 1940 e os alemães haviam sido expulsos de lá. Em 1939, o país foi forçado a aceitar um pacto de assistência à União Soviética. Até 1941, os soviéticos anexaram o território e muitos soldados e civis letonianos foram presos, mortos ou desertaram. Em Julho de 1941, os alemães invadiram a região e a ocupação durou até 1945.

   Logo no primeiro ano, o Holocausto matou 100 mil cidadãos na Letônia. Em 1943, Hitler ordenou o recrutamento de 180 mil homens letos para as forças auxiliares alemãs, os Legionários da Letônia. Os soldados da Letônia lutaram em lados opostos, a favor de alemães e russos e, na sua maior parte, contra suas próprias vontades. Existiu também um grupo chamado “Meža Brāļi” (Irmãos da Floresta) que tentou resistir de forma independente contra as duas forças. Esta era uma guerrilha que lutou encurralada nas florestas, em número inferior, com menos recursos e da qual morreram muitos heróis.

   O fato é que, de forma voluntária ou forçada, os letos estavam divididos na guerra. Inclusive, algumas batalhas eram travadas sob o comando letão em ambos os lados. Foram tempos terríveis. Li histórias como a dos irmãos Dums, que, apesar do vínculo familiar, foram obrigados a lutar em lados opostos.

   Mas a dúvida persistia: onde se encaixava meu avô nessa narrativa? Ainda não tinha nenhuma pista e, em busca de conhecimento, segui com meus estudos.

   Por curiosidade, procurei saber sobre a cultura do país e suas pessoas ilustres. Para a minha agradável surpresa, grande mentes saíram da Letônia. Lá foi descoberto o ácido cítrico (revolucionário na indústria alimentícia, higiênica e médica); de lá veio o homem que ajudou Levi Strauss a desenvolver o seu famoso jeans; lá foi desenvolvido o primeiro foguete com propulsão a óleo. O revolucionário da montagem do cinema, Sergejs Eisenstein, nasceu em Riga, assim como o famoso dançarino Baryshnikov. Aquela mini-câmera que todo espião usava, a “Minox”, era fabricada na Letônia e foi inventada por Walter Zapp. No esporte, representam a Letônia o famoso jogador de hockey da NHL Sandis Ozolins e o jogador de basquete Kristaps Porzingis da NBA. E por aí vai.

   Li sobre a cronologia do país, passando por Terra Mariana, Livonia, Cavaleiros Teutônicos, Liga Hanseática, a influência alemã, Reino da Polônia-Lituânia, Império Sueco, Império Russo, a independência por vinte e poucos anos, os bolcheviques, os nazistas, a União Soviética até chegar em 1991. Assisti vídeos sobre suas tradições culturais, religiosas e sociais e fui absorvendo, pouco a pouco, a sua riqueza histórica.

   Pesquisei em documentos, vi filmes e vídeos sobre pessoas, que como eu, procuravam por sua origem. Destaca-se o filme “Um passaporte húngaro” (2001), de Sandra Kogut, e a história da filha de uma espiã russa (Roxana Spicer) investigando o passado de sua mãe, “The traitor’s daughter”, de onde tirei o primeiro parágrafo deste texto. Me identifiquei com aquela citação pois realmente acho que vivemos mais do que os nossos dias mortais por meio de nosso sangue e tradição; assim como já existíamos antes mesmo de nosso nascimento, por conta deste elo.

   Mesmo com tanto estudo, ainda me faltavam dados sobre meu avô, Nikolajs. Eu precisava de algo mais concreto para avançar.

   Na Cédula de Identidade de Estrangeiro, emitida no Brasil, que minha avó me entregou, tinham os seguintes dados sobre ele: nome, nome dos pais e data de nascimento (02 de Março de 1926). De acordo com esse documento, meus bisavós eram Lina Butkus e Frocis Kavalieris.

A Cédula de Identidade de Estrangeiro

   Pesquisei em seguida, nos sites de busca de família http://ancestry.com/, www.myheritage.com.br e http://forebears.io/, e descobri um documento emitido na data em que meu avô chegou ao Brasil, em 1947. Este documento mostrava, pela primeira vez, o seu local de nascimento: Priekule.

   Assim, obtive a informação necessária para enviar meu pedido ao Registro Civil na Letônia, na esperança de achar algum documento original de meu avô. A atendente do Departamento do Registro Civil informou que seria dada uma resposta sobre a rastreabilidade do documento em duas ou três semanas. A única coisa que poderia dar errado, segundo a agente, é que durante e após a guerra muitos arquivos haviam sido queimados. Se o nome do meu avô tivesse sido apagado em algum momento, minha busca teria fim.

   Para minha sorte, o Departamento de Registro Civil da Letônia me enviou um e-mail, em junho de 2015, confirmando que haviam encontrado o registro de meu avô. Eles me enviaram um documento equivalente à sua Certidão de Nascimento, que, por obra do destino, acabou chegando no dia do aniversário da minha mãe, um belo presente. No papel estava escrito o nome “Koļa”, sem nenhum sinal de Nikolajs. Achei estranho e comentei à minha mãe, que me respondeu emocionada: “Meu pai sempre falou que este era o apelido dele!” Mal sabia eu que Koļa é o diminutivo de Nikolajs. Outro ponto que divergia das informações anteriores eram os nomes dos meus bisavós: Karoline Butkus Kavaliere (nascida na Lituânia) e Francis Fridrihs Kavalieris (nascido na Letônia). A partir desta Certidão, finalmente, eu tinha todos os documentos que precisava para enviar a minha solicitação da cidadania leta.

   O Cartão de Imigração que havia encontrado tinha outra pista muito importante: o local da última residência de meu avô – Bad Salzuflen, no norte da Alemanha. Esta observação me deixou quase certo de que meu avô tinha sido um soldado Legionário Leto que teve que fugir dos soviéticos e acabou em um Campo de Refugiados na Alemanha no final da guerra. Ele tinha apenas 17 anos em 1943, quando os alemães forçadamente recrutaram jovens letos para lutar contra o exército vermelho. Depois, acabei perguntando sobre isso à minha avó, que me confirmou que ele teve um breve momento no exército alemão durante a guerra, sem mais detalhes.

   Os Legionários da Letônia lutaram contra os russos e, após a guerra, conseguiram fugir da repressão soviética. Eles foram parar, em grande parte, na Alemanha, Áustria e Itália. Ao serem rendidos pelos Aliados, foram condenados a viver em exílio por longos anos. A terra natal estava perdida e, muitas vezes, os amigos e familiares também. Em 1947 a UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Administration) igualou os Legionários da Letônia aos soldados da Wermacht, forças armadas alemãs. Contudo, os Legionários letos não participaram de nenhum crime de guerra.

   Em 1950, o Congresso dos Estados Unidos declarou que as Unidades Bálticas da Waffen SS combatiam por ideologias, operações e objetivos próprios, e deveriam ser consideradas especiais, separadas das unidades da SS alemã. Os letos estavam organizados em 2 divisões da SS. Na época, o General das Forças Norte-Americanas, Coronel Whitton citou: “É difícil entender ou descrever o que ambas as unidades letas alcançaram face a esmagadora vantagem russa… Palavras não podem expressar o que eu quero dizer, mas diante destas duas corajosas divisões, eu curvo a minha cabeça.”

   Os letos que entraram voluntariamente na SS (fala-se em 20% do total de recrutas) tinham a esperança de se livrar dos russos. Eles não lutaram do lado dos Aliados pois temiam que estes ajudariam os russos a se manterem no controle. Já os que lutaram com os soviéticos, tinham a ilusão de que, uma vez terminada a guerra, uma vez expulsos os alemães, eles estariam livres novamente e os russos assegurariam a liberdade da Letônia. Mas aproximadamente 80% dos jovens envolvidos, de ambos os lados, estavam lá contra a sua vontade. Infelizmente, o resultado foram ilusões vindas de todos os lados e milhares de jovens vítimas.

   E o meu avô? Como ele conseguiu sobreviver a tudo isso, terminando seus dias na Europa em território alemão? Essa resposta demanda mais investigação e, talvez, nunca terei certeza sobre ela. Entretanto, o documentário “Latvian Legion” (com legendas em inglês no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=MHtcgaeC4T8), roteirizado pelo historiador Uldis Neiburgs, me deu uma boa ideia do que poderia ter acontecido. Em um momento do filme, um recruta da legião, Ilgonis Dambitis, conta como em 1944 eles receberam ordens de mobilização do exército alemão. Ele diz que perguntou a seu pai se era melhor fugir para a floresta ou ir junto com o exército. Por fim, ele acabou indo com o exército, receando retaliações contra ele ou sua família, e foi levado para a Alemanha de navio. Partindo pelo rio Daugava, cantaram “Dievs, svētī Latviju” com lágrimas nos olhos.

   Após a rendição da Alemanha pelos Aliados, as pessoas deslocadas pela guerra foram organizadas em campos de refugiados. Muitos do leste-europeu não puderam voltar aos seus países de origem, pois teriam que enfrentar o tratamento das autoridades soviéticas. A Alemanha, neste período, ficou dividida sob o controle da Grã-Bretanha ao norte, Estados Unidos ao centro, França ao sul e URSS ao leste.

   Por conta da cidade de Bad Salzuflen estar na Zona Britânica de controle, pesquisei documentos do Arquivo Nacional da Inglaterra (http://www.nationalarchives.gov.uk/). Um deles, um relatório sobre um campo de refugiados, descrevia que seus internos eram treinados em diversas profissões, como carpintaria, mecânica de carros, costura e engenharia elétrica, antes de serem realocados para outro país. Deve ter sido aí que meu avô aprendeu suas habilidades como mecânico.

   Tentando encontrar parentes vivos na Letônia, entrei em contato com Lauris Olups – Detetive de Famílias (http://familydetective.lv/). Ele conseguiu achar algumas pessoas, mas não obtive um retorno significativo delas. A princípio, não sabia se realmente eram relacionadas ao meu avô, apenas que o sobrenome Kavalieris não era muito comum na Letônia.

   Mas aí veio mais uma dúvida: se não era comum, qual era a sua origem? A principal hipótese que veio a mim é que o nome teve origem nos Cavaleiros Teutônicos, que dominaram a região entre os séculos XIII e XV e, dentre outras coisas, fundaram a cidade de Riga. Associei a palavra cavaleiro a Kavalieris, mas não tenho nenhum registro que confirme isso.

   Também descobri que alguns Kavalieris da Letônia foram extraditados para a Austrália em um navio saindo de Nápoles, na Itália, durante o pós-guerra. Tentei contato com eles, sem resposta. Identifiquei até um “semi-homônimo” meu, Andrejs Kavalieris, soldado da artilharia leta na Primeira Guerra Mundial e nada muito além disso.

 Após algum tempo, o detetive de famílias comunicou que conversou com um rapaz que disse já ter sido abordado por mim alguns anos antes (dado que me passou desapercebido) mas que, na época, havia sido orientado a nunca falar sobre os assuntos da família com um estranho. Depois disso, ele entrou em contato com uma jovem cuja bisavó tinha o mesmo nome que a minha. Ela chegou a me escrever dizendo simplesmente: “Sveiks!” (olá, em leto). Eu, por outro lado, escrevi um longo texto me apresentando e contando minha história. Porém, após escrever, só obtive silêncio.

Em paralelo às tentativas de contato com meus possíveis parentes, minha avó me entregou uma pilha de cartas que meu avô recebia de seus familiares da Letônia. Não havia mais dúvida, as pessoas que encontramos e as cartas eram do mesmo lugar: Liepaja e a região de Grobina.

   As cartas tinham nomes e eu finalmente estava descobrindo quem eram os irmãos, irmãs e outros parentes de meu avô: Karlis, Rihards, Vilma, Rudis, Valija. Apesar de não falar leto e das ferramentas de tradução online terem suas limitações, eu digitalizei as cartas e comecei a traduzi-las. Elas me deram a impressão de que nem todas eram recebidas e que nem sempre as histórias ali escritas contavam a realidade por completo. Fora o usual “…todo mundo manda oi!”, era comum encontrar frases como “…está tudo bem…”, “…nós estamos todos empregados…”, “…você não tem que se preocupar com nada…” e “…nós não recebemos notícias de você em tanto tempo!”.

   Mencionei sobre essa impressão com a Sra. Cônsul Daina Gutmanis e ela me disse que fazia sentido. Naquela época as pessoas na URSS não podiam dizer nada de mal sobre a situação em que viviam, já que todas as comunicações eram primeiramente lidas pelas autoridades soviéticas antes de chegarem ao seu destino – quando chegavam – e qualquer palavra mal escrita poderia acarretar em sérias represálias.

   As correspondências recebidas por meu avô eram sempre muito emotivas e a família parecia ser próxima. Tenho tentado descobrir se algum dos irmãos e irmãs de Koļa ainda estão vivos, mas, até o momento, não encontrei respostas.

   Durante minha extensa pesquisa, acabei me comunicando com o Arquivo Nacional Brasileiro (http://www.arquivonacional.gov.br/), o que resultou na descoberta do nome do navio que trouxe meu avó para o Brasil: General Stuart Heintzelman, procedente de Bremen. Este era um navio da Marinha Norte-Americana que levou milhares de pessoas de toda a Europa, partindo da Alemanha para o Canadá, EUA, Brasil e Austrália. O documento também mostrava onde meu avô foi deixado no país: a Ilha das Flores. Este era o principal ponto de chegada dos imigrantes no Rio de Janeiro.

O navio da marinha americana General Stuart Heintzelman

   Não sei exatamente quanto tempo Koļa ficou neste lugar, mas é certo que ele foi enviado para trabalhar em uma fazenda em São Bernardo do Campo chamada “Sítio Manaaí – Wilson Russo CIA.”, mais uma informação fornecida pelo Arquivo Nacional e confirmada pela minha avó.

   Koļa não falava uma palavra em português e foi aprendendo, aos poucos, lendo os jornais locais e a Bíblia.

   Após trabalhar na fazenda, ele se mudou para São Paulo, cidade que efervescia de oportunidades de emprego nos anos 50. Lá conheceu a minha avó e se casou em 1951. Durante este período, existia uma certa facilidade para a compra de terras. A Vila Zelina , na região da Vila Prudente, era um destes lugares em São Paulo. Até hoje, lá é um dos locais com maior concentração de imigrantes do Leste Europeu na cidade, e onde é celebrada, no primeiro domingo do mês, uma feira de artesanato e comidas tradicionais. Outras cidades emergentes também eram um destino atrativo. Koļa acabou indo para São José dos Campos, onde construiu sua casa, abriu sua oficina mecânica e criou sua família. Meu avô era muito respeitado na cidade por seu trabalho e ética, e tinha como principal lazer levar minha mãe e seus seis irmãos às praias do litoral norte.

Propaganda de terras para a Vila Zelina

   Koļa manteve contato com a comunidade leta no Brasil em Nova Odessa e Varpa. Mas, apesar das cartas que trocava com seus parentes na Letônia, não tinha nenhum contato verbal com a sua família. Dentre as correspondências recebidas, datadas entre 1947 e 1991, estavam algumas de um primo que acabou indo para o Canadá. Por coincidência, meus pais moraram no Canadá em 1984 e localizaram este primo, Žanis. Em uma visita deles a Žanis, meu avô, após quase 40 anos, pôde ouvir a voz de um membro de sua família por telefone. Sem dúvida foi um momento de muita comoção.

   Tentei achar algum contato atual deste primo durante muito tempo, sem encontrar.

   Enquanto pesquisava essas histórias, em Novembro de 2015, meus documentos para o passaporte foram aprovados pela Letônia. Enfim fui notificado sobre a confirmação da minha cidadania leta e meu objetivo havia sido alcançado!

Minha conquista. No Consulado da Letônia no Brasil

   Certo dia, assistindo a um jogo dos Cleveland Cavaliers na NBA pensei em pesquisar por Žanis Kavaliers e não Kavalieris e acabei encontrando a foto de seu túmulo no Canadá. Olhei novamente os envelopes das cartas trocadas e, em alguns, o nome realmente estava escrito desta forma: “Kavaliers”.

   Contei a história de Žanis para uma tia, que também já havia tentado contato com possíveis familiares na Letônia. Ela já tinha ouvido falar sobre ele por intermédio de um jovem com quem se correspondia há três anos. Lembram daquele rapaz que não podia falar sobre assuntos de família com estranhos? Pois é, descobrimos que Žanis era seu bisavô. Depois dessa revelação, o bisneto finalmente me ligou.

   Conversamos por uma hora e ele me contou que sua bisavó sempre procurou saber sobre o paradeiro de Žanis, que havia partido e nunca mais voltara. Aparentemente, ele e a bisavó do rapaz se encontraram na Alemanha por algumas vezes no pós-guerra, mas ela acabou voltando para a Letônia, enquanto ele foi para a Inglaterra. Pesquisando na internet, acabei achando o cartão de imigração dele da Inglaterra para o Canadá, em 1955.

   Assim como Žanis, Koļa nunca pôde voltar para a Letônia. Minha mãe me disse que ele costumava dizer: “…quando for possível para eu voltar para a Letônia, você vai comigo?”.  É claro que ela iria, mas em 1991 ele teve câncer de pulmão. Meu avô viveu o suficiente para ver seu país ficar independente da URSS, mas já não tinha forças para voltar e acabou falecendo em dezembro de 1991.

Trabalhadores da fazenda em São Bernardo do Campo. Meu avô Nikolajs está no topo esquerdo

   Toda essa história, coroada pelo sucesso na obtenção da minha cidadania leta, acabou me abrindo novas portas de relacionamento, além de ter gerado em mim um sentimento genuíno de nova identidade, sendo uma fonte de inspiração e efervescência criativa.

   Como sou formado em comunicação e estou planejando fazer um mestrado em Escrita Criativa na Europa, resolvi fazer contato com o jornal “The Baltic Times”. Perguntei se eles teriam o interesse em receber matérias da América Latina com foco nos temas Bálticos. A resposta foi positiva e logo fiz contato com Felipe e Renate Albretch, da Associação Brasileira de Cultura Leta (ABCL), para levantar dados sobre as matérias que enviaria para o jornal.

   O primeiro artigo que escrevi foi sobre a imigração dos Letos no Brasil (que pode ser lido em inglês aqui). Já a segunda matéria, fala sobre a imigração dos letos na Argentina. Fui recentemente a Buenos Aires a negócios e aproveitei a oportunidade para fazer contato com o pessoal do Consulado leto na cidade. Fui recebido pelo Coordenador Social, Dr. Andrés Ozols e ele me contou um pouco sobre a imigração por lá. Terminei o agradável café recebendo um presente especial,  um livro escrito por seu pai, contando sobre a imigração dos letos na Argentina, Uruguai e Chile, e alguns exemplares de um boletim informativo sobre as atividades da comunidade leta na Argentina.

   Como o Dr. Ozols também é professor de física na Universidade de Buenos Aires e membro da Câmara de Comércio do Rio da Prata e de Riga, promove intercâmbios de alunos para a RTU (Universidade Técnica de Riga), criando uma relação estreita entre as comunidades estudantis leta e argentina.

   O artigo sobre os letos na Argentina saiu em uma página inteira no jornal, mas como a matéria foi publicada apenas em mídia impressa, disponibilizei o texto também na internet neste link: http://bit.ly/1SC8g25

   Como o contato com ABCL tem sido muito proveitoso, me convidaram para escrever para a revista Raksti. Claro que aceitei e com o maior prazer! Espero que esta seja a primeira de muitas histórias que lhes contarei.

   Minhas descobertas sobre a Letônia e o apego por minha história familiar me fazem participar, sempre que possível, das programações da ABCL. Estou gostando muito das aulas de leto, dadas pela Renate Albretch, que têm ocorrido em São Paulo quinzenalmente. Nos meus planos de estudos na Europa está programada uma visita à Letônia e, um pouco mais próximo do que esta viagem, está a comemoração do Ligo, no dia 18 de Junho em Nova Odessa, da qual certamente farei parte.

   Apesar de estar no meu sangue desde sempre, hoje posso dizer que a Letônia faz parte de mim! Me sinto cada vez mais envolvido com a cultura do país e com as pessoas. Um pedaço do quebra-cabeça da minha história está se encaixando e novidades ainda estão por vir.

Grupo da Letônia visita escolas em Nova Odessa

Durante os dias 05 e 06 de Junho de 2018, o grupo de músicos da Letônia da festa Ligo 2018 – Laima Dimanta, Tenis Dimants e Janis Feldmanis – tiveram a oportunidade de visitar as escolas da rede municipal, ensinando sobre a cultura leta.

As visitas são promovidas pela Associação Brasileira de Cultura Leta desde 2016 com a visão de ensinar a cultura, história da Letônia para os alunos, abordando também temas como cidadania e respeito às diferenças. Neste ano, dez escolas do ensino público em Nova Odessa (SP) e uma em Americana (SP) foram visitadas.

Os músicos – sempre acompanhados por um tradutor voluntário da Associação – se apresentam às crianças e ensinam as músicas e danças típicas, que retribuem com atenção e entusiasmo

Esperamos continuar levando cultura e cidadania para mais e mais escolas a cada ano.

Fotos: Lucas Stepanow Eksteinas

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

Este slideshow necessita de JavaScript.

   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

Este slideshow necessita de JavaScript.

   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.

Crocodilo Dundee era Leto

Você já ouviu falar do Crocodilo Dundee? Não?!

Foto: Paramount Pictures

E agora?
Sim! Crocodilo Dundee foi aquele filme de ficção super famoso dos anos 80 no qual um caipirão Australiano, caçador de crocodilos e amante da natureza vai para uma viagem de férias em Nova Iorque, cometendo várias gafes e se metendo em situações super engraçadas.

E o que isto a ver com a Letônia? Tudo!

Antes de fazer a correlação, vamos voltar para o ano de 1925 no povoado de Dundaga, norte da Letônia. Dundaga é uma cidade medieval, na região da Kurzeme que data do século 13. Feche os olhos agora e imagine aquelas cidadezinhas bem medievais, com um castelo bem antigo no centro, um lago e ruelas bem estreitas que convergem para a igreja principal da cidade. Esta é Dundaga!

Foto: Gabi Strautmann
Foto: Gabi Strautmann

 

 

 

 

 

 

E foi nesta vilinha que nasceu o personagem principal do nosso artigo – Arvids Blumentals. Arvids tinha o título de Barão Arvid Von Blumental, mas após a II Guerra Mundial perdeu seu título. Em 1951, Arvids decidiu mudar radicalmente a sua vida, trocando a paz e a calmaria de Dundaga pela selvagem Austrália.

Foto: Google/Reprodução

 

Lá na terra dos cangurus, Arvids descobriu novos talentos: lavar minério de ouro, pescar, caçar cangurus e o mais impressionante… caçar crocodilos com as mãos!
Reza a lenda que Arvids matou mais de 10.000 crocodilos em 13 anos de “carreira’’. Como seu nome era bem diferente e com fonemas inexistentes no inglês, lá pelas bandas dos coalas, Arvids tornou-se Harry. E assim nasceu um personagem – Crocodile Harry.

 

E as excentricidades de Harry não pararam por ai! Sua casa era chamada de “Ninho do Crocodilo Harry’’. No ninho do Harrys havia várias cartas de amor pregadas nas paredes, além de numerosas calcinhas (isso mesmo, calcinhas!) de mulheres que o admiravam. Ele era tão criativo que fez vários grafittis tribais e fez várias esculturas estranhas tentando expressar suas fantasias e pensamentos. Dê uma olhada:

Foto: Google/Reprodução

Voltando ao título do nosso artigo, tudo leva a crer que os autores de Hollywood se inspiraram no nosso Crocodille-leto- Harry para fazer o filme Crocodilo Dundee. Hoje, quem visita Dundaga pode ver uma enorme réplica de crocodilo bem em frente à casa onde Harry morava. A casa funciona como museu e tem várias informações e utensílios do seu ilustre ex-morador.

E aí, gostou dessa história? Tem algo interessante pra contar sobre o Harry? Já visitou o museu dele em Dundaga? Conte pra nos!

Um abraço e até mais!

Revisora: Claudia Klava

Essa é parte da história – Uma entrevista com V.A. Purim

Ninguém que viu os verdadeiros primórdios do Rio Novo está vivo para contar a história, mas para quem está disposto a ouvir resta o mais inusitado e rico dos testemunhos.” – Paulo Brabo

Em uma pequena e calma chácara localizada nos arredores de Curitiba, cercada de flores e livros – alguns desses mais que centenários – um homem apenas cuida do maior acervo de fotos e cartas dos letos no Brasil. Esse homem é Viganth Arvido Purim. Com muito zelo e diligência, seu trabalho de organizar, escanear e traduzir cartas, documentos e fotos durante anos foi o que possibilitou que muitos brasileiros hoje pudessem encontrar seus antepassados.

Nascido em 1933 na primeira colônia leta no Brasil – Rio Novo (SC), fundada em 1889 – Arvido é o segundo de 7 irmãos. Já cedo ajudava seu pai na roça e participava da sociedade da colônia. Só veio a aprender português tardiamente, e até hoje conserva seu cantado sotaque catarinense. Ele saiu de Rio Novo em 1953, quando foi sozinho trabalhar como ajudante de mecânico em Urubici. Ele, com sua dedicação, avançou nos postos da garagem, e depois das empresas, se aposentando como Gerente Regional de Peças pela General Motors. Suas viagens de trabalho possibilitaram que ele conhecesse muitos outros letos espalhados pelo Brasil.

Desde 2009, ele mantém o blog rionovo, onde consegue publicar posts sobre cartas, atas, livros, fotos e acontecimentos da colônia – que através de muita dedicação traduziu do leto original. Fomos a sua chácara conversar sobre sua experiência com a conservação e divulgação dessas memórias.

Arvido e sua esposa, Edith

Entrevista

Letônia Brasil – Você é o criador do blog rionovo.wordpress. Quando ele foi criado? E por qual razão? Quantas publicações já?

Viganth Arvido – Graças aos meus filhos e outros, consegui aprender a mexer nessas coisas informáticas, e foi aí que comecei a montar algo parecido com a história dos letos de Rio Novo. Comecei a trabalhar nisso por volta de 88 e 89 e depois gostei muito mais de guardar no computador, pois é mais limpo e fácil de achar digitalmente. Não sei quantas publicações, nunca contei, mas por volta de 618. Para mim, o blog é o defensor dos letos no Brasil e defensor da memória da colônia de Rio Novo.

LB – Como as cartas foram guardadas? E onde estão agora? E os livros e atas?

VA – Infelizmente muita coisa foi perdida. Meu pai e meu tio Reynaldo guardavam tudo, mas olha, gostaria de ter guardado mais. As cartas hoje estão lá em Riga (Capital da Letônia), no Arquivo Nacional, lá eles trabalham com cuidado e são especializados para isso. Há os livros e atas da igreja, da juventude, da sociedade missionária, há revistas e jornais antigos também.

LB – Parece que, conforme você pesquisou e criou o blog, descobriu ainda mais coisas não só sobre a Letônia mas como várias outras curiosidades; qual foi a coisa mais inusitada que já aconteceu?

VA – Um belo dia, eu estava em um Congresso Leto em Nova Odessa sentado do lado de fora da igreja quando um Anderman idoso (que eu nem conhecia) perguntou meu nome e disse que havia algo para me dar – nessa época o blog nem tinha começado. Ele me deu um calhamaço de cadernos da história completa da família Anderman, contando desde a chegada do Karlis Anderman em Rio Novo até a ida do filho dele, Júlio Anderman, para a guerra na Itália (com a Força Expedicionária Brasileira). Ele disse “guarde bem isso”. Bom, alguns já estão publicados no blog.

LB – Como eram as notícias recebidas da Letônia independente?  E sobre a ocupação soviética (1940-1941 e 1944-1991) na Letônia, como eram as notícias que chegavam?

VA – Os imigrantes já trocavam cartas desde que chegaram (1889) até 1917. Durante a guerra (primeira guerra mundial e guerra da independência) sabíamos que a Letônia passou por apuros e muitas pessoas perderam suas casas e famílias. Na mesa de refeição meu pai falava para comer tudo pois haviam crianças passando fome na Letônia. Soubemos da ocupação soviética por jornais (de cunho comunista) que agora a Letônia havia sido “retomada” (invadida na segunda guerra) pela União Soviética e falavam da estatização das fazendas, mas nós sabíamos que não era bem assim, as cartas chegavam ao Brasil censuradas e inclusive um dos primos do meu pai desapareceu e nunca mais respondeu as cartas. Além disso, os letos que conseguiram fugir da ocupação e foram para os Estados Unidos e Brasil “sentavam o pau” sobre os invasores.

LB – Durante grande parte do século XX, os letos no Brasil ficaram sem contato nenhum com a Letônia. O que você achou disso? Foi muito prejudicial para a comunidade?

VA – Muito. Muitos dos descendentes que nasceram depois não aprenderam a falar leto e nem sabiam direito onde era a Letônia. As pessoas hoje ficam impressionadas que eu ainda falo em leto, quase como se fosse um herói. Estávamos sem esperança de ter um contato maior, mas sempre que eu podia ler algo em leto, eu lia.

LB – E agora sobre a Letônia em si. Antes dela ser independente, qual era sua ideia sobre ela? Como você achava que era a vida lá?

VA – Por volta do final dos anos 80 havia uma agitação nos países da cortina de ferro contra a ocupação soviética e eu tinha esperança que a Letônia entrasse na jogada. A primeira vez que eu vi um vídeo de uns letos de São Paulo que conseguiram ir visitar a Letônia nessa época, quando eu vi o primeiro leto falando em leto eu pensava “puxa vida, eles existem mesmo!”. Se não duvidar, eu ainda tenho a fita (VHS) dessa primeira viagem.

Arvido em frente ao Monumento da Liberdade, em Riga

LB – Sua primeira visita (à Letônia) foi em 2014. Como foi voltar para a terra dos seus ancestrais?

VA – Gostei de tudo. O meu maior problema foram os taxistas russos, mas mesmo asssim depois eu ligava para eles e eles já exclamavam “Arvids! Arvids!”.  Eu lembro quando desembarquei em Amsterdã para fazer a conexão e quando cheguei no guichê para Riga eu já escutava eles falando em leto, rindo em leto! Mas eu realmente fiquei emocionado, era uma sensação diferente. O museu da ocupação na Letônia me deixou muito atordoado também.

LB – E os letos no brasil hoje? Como você vê a comunidade e os jovens letos do século XXI?

VA – Eu fico animado, algumas pessoas realmente se sobressaem em resgatar e cuidar da memória dos letos hoje. E eu fico feliz que meu trabalho possa ser bem utilizado.

Link para o site rionovo.wordpress: https://rionovo.wordpress.com/

A festa do Līgo

A festa do Līgo – também chamada comumente de Jāņi – é certamente o mais popular dos feriados letos. Celebrada na Letônia durante a noite mais curta do ano (o solstício de verão), no dia 23 ao 24, durando só das 23h às 3h, a festa é comemorada com muita dança, música e comidas típicas ao redor de uma fogueira.

Embora a época do Līgo, na Letônia,  seja também a das chuvas (os letos dizem com frequência para os dias chuvosos līst kā pa Jāņiem, “chove como se fosse o Jāņi”), isso não impede que multidões se reúnam nas principais cidades para celebrar. Para participar, apenas é preciso ter disposição e alegria. A festa é uma grande celebração da cultura e ancestralidade leta; várias tradições anciãs são preservadas.

História

A celebração da festa do Līgo vem desde os tempos imemoriais da cultura leta, quando os trabalhadores rurais se reuniam comemoravam a chegada do solstício verão e boas colheitas. Associava-se a celebração com as forças e divindades da natureza na mitologia leta – para celebrar o período entre a plantação e a colheita, para atrair felicidade e espantar o azar.

Na verdade, o solstício de verão acontece no dia 21 de junho, mas com a cristianização, as celebrações foram prorrogadas para o dia 23 para ficar mais perto do dia de São João (24), e daí temos o nome Jāņi. Além disso, os nomes Jānis e Līga estão entre os mais populares na Letônia, e são comemorados nos dias 24 e 23, respectivamente.

A celebração do Līgo é de grande importância para a cultura leta. Com o desenvolver da História, as celebrações foram proibidas, como na União Soviética, mas o povo continuava a se reunir para celebrar a identidade leta nos kolkhozes. Hoje em dia, o feriado é muito importante por celebrar a tradição e herança cultural leta.

Resultado de imagem para Jani latvia

Os preparativos

O Līgo começa com a preparação das casas e saunas letas, os arredores são limpos: Lavagem, corte de grama, estocamento de lenha. É comum passar o feriado nas áreas rurais do país, com a natureza e as fogueiras – Mas nas grandes cidades também são organizadas celebrações e eventos especiais, como a venda de plantas medicinais, ervas, temperos, coroas de folhas, queijo, cerveja e muitas outras coisas para que os letos possam aproveitar a noite da melhor forma possível

A Coroa (Vainagi)

A coroa circular do Līgo simboliza o sol. Na confecção das coroas, os homens usam ramos de carvalho, e a coroa das mulheres é entrelaçada com uma variedade de flores dos pastos – As mulheres casadas também colocam folhas de carvalho em meio as flores, e todas as coroas são tecidas com muito esmero.

Colocar a coroa na cabeça de um amigo é sinal de uma relação forte e sincera.

As Ervas (Jāņuzāles)

Pela manhã, decora-se os cômodos com galhos de carvalho e bétula, margaridas e vidoeiro. Todas as flores, ervas e árvores de flor neste dia são consideradas “Jāņuzāles”, na tradição popular, acredita-se que as ervas coletadas ao nascer do sol possuem poder medicinal, e por isso nesta época são populares os chás naturais.

Com estas ervas também são criadas guirlandas e o portão do sol – um a oeste (rietumi) e outro a leste (austrumi), para simbolizar o nascer e pôr-do-sol.

As comidas (Ēdiens)

Além das ervas e chás medicinais, também são comidas populares no Līgo são os pīrāgi e o queijo de alcaravia (cuja cor simboliza o sol). Além disso normalmente é festejado com bebidas – mantenha sua bebida favorita estocada. Sem isso, você não está celebrando o solstício!

A Fogueira (Ugunskurs)

A fogueira do Līgo é comumente queimada do pôr-do-sol até o nascer do sol, no lugar mais alto, assim iluminando a área para haver luz e não trevas. A tradição popular é saltar sobre a fogueira, simbolicamente limpando tudo que é supérfluo. Os casais pulam a fogueira de mãos dadas para fortalecer o relacionamento, e saem para os bosques para procurar pela flor de samambaia – que só floresce na noite do Jāņi – mas talvez isso seja só um pretexto para namorarem em paz.

A Sauna (Pirts)

Também faz parte da tradição fazer saunas. Tipicamente, as saunas letas são decoradas com ramos de folhas de carvalho e bétula para relaxar e limpar tudo aquilo que não é bom. Depois, todos vão nadar num rio ou num lago por perto. As tradições são divertidos e fortalecem os laços entre família e amigos.

O Līgo no Brasil

O Līgo é uma das principais festas culturais letas que sobreviveu pelas eras, e ainda hoje é comemorada com muita diversão e alegria por todos. No Brasil, não viramos a noite, mas dançamos e cantamos muito, e comemos comidas típicas – celebrando a cultura e tradição viva em nós. Aliás, criamos até a nossa própria tradição para acender o fogo: todo ano um membro da comunidade é escolhido para levar a tocha até a fogueira. Você também pode participar da festa com as comunidades típicas em Nova Odessa (SP) e Ijuí (RS). Veja aqui como foi a festa do ano passado! Venha e participe!