Os Letos na Argentina

No dia 1º de março de 2016, eu tive o prazer de visitar Buenos Aires, capital da Argentina. A cidade, linda e dinâmica, encontra a antiga arquitetura europeia (mas bem cuidada) com modernos e altos edifícios. A população da Argentina é, em sua maioria, constituída por descendentes dos colonizadores espanhóis e por imigrantes e, embora alguns nomes de ruas tenham nomes indígenas, não há muitos deles. Não há muitos afro-descendentes, já que o “Rio da Prata” não era uma rota da escravidão africana. O maior grupo de imigrantes na Argentina foi, definitivamente, o de italianos.

Os primeiros letos chegaram na Argentina, antes da Primeira Guerra Mundial, por razões pessoais.

Foi o caso do Dr. Prof. Karlis Bergs, Investigador de Ciências Naturais (botânica e zoologia), da escritora Virginia Krasting Carreño, que chegou em 1912 e do aviador Otto Balodia, que chegou em 1927 e trabalhou como instrutor de vôo. O primeiro cônsul leto foi Karlis Bergs, de 1927 a 1931.

Porém, a segunda onda de imigração foi a mais importante, depois da Segunda Guerra Mundial (1948-1949). Durante o segundo governo do presidente populista argentino, Juan Domingo Perón, 89 letos chegaram em navios de guerra junto a outros 800 imigrantes da Áustria e Itália, através do Porto de Buenos Aires.

Calle Letonia

A primeira residência dos refugiados foi o Hotel dos Imigrantes, na região de Boedo, localizado perto do Porto de Buenos Aires, onde havia uma estação de trem e hoje é o Museu da Imigração na Argentina (http://untref.edu.ar/muntref/museo-de-la-inmigracion/). Graças ao Pregador e Padre Luis I García, os imigrantes organizaram uma colônia na cidade de San Miguel, da Província de Buenos Aires. Os primeiros pedaços de terra e casas foram compartilhados por grandes grupos de famílias de baixas condições financeiras. As condições eram tão precárias que os homens tinham que dormir no teto. A construção das novas casas era feita de uma maneira muito solidária; todos se ajudavam devido à falta de recursos. Este pregador era bem quisto pela comunidade leta por sua preocupação permanente em resolver problemas, encontrar terra para hospedagem, buscar trabalho para quem necessitava, ensinar a língua, etc. Pregador Garcia ajudou a fundar a congregação de “San Pablo”, em San Miguel. O primeiro culto com a participação dos letos aconteceu no dia 27 de março de 1949. Os artesãos letos ajudaram na construção do templo. Pregador Garcia conseguiu encontrar dois blocos de terra para 38 famílias. A rua onde estes blocos de terra estavam localizados é agora chamada de “Calle Letônia”.

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Durante três anos, o Pregador Garcia ajudou as famílias, mas havia a necessidade que os cultos fossem ministrados na língua leta. Em 1951, foi fundada a Congregação “La Reurrección”. O primeiro pregador da igreja foi Anroldo Liepins que junto a sua família, auxiliou durante 25 anos, os letos em Mendonza (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai).

Ele foi resgatado de um campo de pessoas deslocadas na Europa para encarregar-se da congregação em 1952, La Resurrección. Na congregação havia escola dominical e músicas tradicionais orquestradas ministradas pela pianista Elvira Vitolins de Liepins. Em 1953, foi fundada uma paróquia em Hurlingham, onde foi contruída uma igreja com a ajuda dos artesãos letos. Todas as atividades da congregação foram realizadas neste novo local. Desde seus 50 anos até a sua morte, o Pregador Liepins escreveu e imprimiu o boletim informativo “Vests”, trazendo informações sobre as atividades da Congregação, usando um mimeógrafo manual. Deste momento em diante, o crescimento da comunidade leta foi rápido. Os letos acharam trabalhos em diferentes áreas, de acordo com a formação: em oficinas de carpintaria, metalurgia, máquinas, serviços eletromecânicos, ensino, serviços domésticos, etc. Muitos construíram, pouco a pouco, suas próprias oficinas e lojas. Dos anos 50 aos anos 70, eles concentraram-se na confecção de têxteis plásticos. Estas atividades levaram os letos à classe média argentina em um período que a atividade industrial cresceu no país e havia muito trabalho.

A maior organização dos letos na Argentina foi a La Asociación de Letones Libres (Associação dos Letos Livres) e a Asociación de la Letonia Libre (PBLA – Associação da Letônia Livre), que prevalecem até hoje em torno da igreja. Por mais de 40 anos, eles praticam serviços mensais, seguidos de um almoço com a comunidade (a la canasta), quando os participantes conversam em leto e castelhano.

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A congregação de “La Resurrección” é conduzida hoje pelo Pregador David Calvo e pelo Presidente Ilgvars Ozols. Nas últimas décadas, o número de pessoas que frequentam as atividades da congregação diminuiu para cerca de 20 pessoas. A congregação celebra os principais feriados, como o dia 18 de novembro e o Natal, quando eles reúnem o maior número de letos na Argentina, concentrando mais de 70 pessoas, tendo a participação de músicos. Entre as celebrações estão o “Dia da fé cristã da Letônia” e o “Dia dos deportados da Letônia-Sibéria (1941-1949)”.

Reencontros

A relação entre os letos que viviam na Argentina com a Letônia começou a se reestabelecer em 1990, quando os navios mercantes soviéticos chegaram às águas argentinas para pescar e tratar lulas. As reuniões aconteceram pela iniciativa de alguns letos marinheiros e pescadores que procuravam contato com os argentinos. As reuniões, apesar da vigilância da polícia soviética, eram muito emocionadas. Isso aconteceu quando foi restabelecido um contato direto que havia sido quebrado há décadas. Os marinheiros participaram de vários eventos sociais e familiares durante a sua estadia. Porém, com o fim da URSS, houve enormes acordos de corrupção feitos por ex-funcionários do regime soviético e da máfia russa ligada à Argentina, que acabou com a frota de pesca, deixando os marinheiros e pescadores no Porto de Buenos Aires sem recursos para a sobrevivência. No ano de 1991, a Nova República da Letônia promoveu Adolfo Bruziks como o primeiro Cônsul Honorário da Letônia na Argentina. Ele, que nasceu na Letônia, assumiu a responsabilidade e arriscou muitos de seus pertences pessoais ao intermediar e resolver o problema da repatriação dos marinheiros. A congregação ainda tem contato com alguns deles e seus familiares.

Logo depois da nomeação de Bruziks, Mirdza Resbergs foi nomeada e começou a lidar com questões mais apropriadas para um Cônsul Honorário, como a emissão de passaportes para os primeiros imigrantes e seus descendentes, de tal forma que foram emitidos mais de 40 passaportes da Letônia para pessoas que participaram das eleições parlamentares nos anos 90. Desde 1991, muitos letos nativos viajaram da Letônia para visitar seus parentes, as gerações nascidas durante o exílio, e para reconhecer o que antes era propriedade deles.

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O Consulado Honorário da Letônia na Argentina existe desde 2013 e, atualmente, está localizado em um edifício de advocacia. Lá trabalha o Dr. Andrés Ozols (Coordenador Social), que eu tive o prazer de conhecer em Buenos Aires e que também trabalha para a Câmara do Comércio e Indústria do Río de la Plata e Riga (http://ar.consuladoletonia.com). O Cônsul Hector Días Bastien vive na Espanha e visita a Argentina periodicamente para discutir questões ligadas à comunidade leta na Argentina. O trabalho de Bastíen torna-se difícil quando trata de questões legais, como o caso dos 20 letos presos por tráfico de drogas, as parcerias entre a administração dos portos na Letônia, a emissão de vistos temporários, desenvolvimento e renovação de passaportes, emissão de cidadania, intercâmbio comercial entre os países e a representação em eventos diplomáticos. Ele conta com a ajuda de Mercedes Benegas de Homblerg.

O Dr. Ozols foi gentil e concedeu-me algumas horas respondendo a algumas perguntas que eu tinha sobre os letos na Argentina. Ele também me deu um livro escrito pelo pai dele, Ilgvars Ozols, “Latviesi Argentina, Cile um Urugvaja” (2001), que descreve como o processo da imigração leta aconteceu nestes países e algumas cópias do boletim “Vests”, também escrito por Ilgvars, continuando o trabalho do Pregador Liepins.

Em novembro de 2015, o Escritório de Assuntos de Cidadania e Migração da Letônia emitiu 47 passaportes para os letos e seus descendentes na Argentina. Veja as imagens abaixo:

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Os letos mais velhos, que vivem na Argentina, estão comprometidos a manter a tradição leta, mas se preocupam que a nova geração Argentina-Leta que não se interessa muito pela cultura e a língua e, além disto, é difícil levá-los para eventos da congregação. Dr. Ozols, que é também um membro do Grupo de Biomateriais da “Facultad de Ingenieria de la Universidad de Buenos Aires”, tem trabalhado para tentar mudar esta situação. Ele tem cooperado para melhorar os programas de intercâmbio de estudantes entre as Universidade de Buenos Aires e RTU em Riga, principalmente no campo dos Biomateriais, mas tem um desejo de estender este programa para outras áreas de estudo.

Como um membro da Câmara do Comércio do Rio de La Plata (contempla Argentina, Uruguai e o Paraguai) e Riga, Dr. Ozols também trabalha para firmar os acordos de ciência e tecnologia entre os países. Tem um desejo de usar o Porto de Riga como uma ponte para produtos agrícolas da América do Sul para a Europa, com administração conjunta entre os Portos de Riga e o Porto de Corrientes. O Cônsul Hector Bastien estará na Argentina em abril para discutir esta questão.

Chuteira no pé, Esperança no coração

Durante dois anos, crianças de famílias carentes de Bolderaja, um bairro afastado de Riga, se reuniam para treinar futebol. Dois anos, independentemente do clima no dia, do inverno ao verão. Dois anos, seja na chuva, na neve – na hora do treino, o céu se abria. Não perderam um só dia de jogo. Você acredita que uma simples esperança pode mudar o mundo? Um homem acredita.

Tjago, com j mesmo, Professor Tjago, para falar a verdade. É assim que o carioca de 33 anos Thiago Bonfim da Silva é conhecido na Letônia. Formado em Educação Física, técnico e treinador de futebol – além de outras conquistas profissionais -, Thiago também é veterano de diversos projetos evangelísticos, e hoje usa o futebol para resgatar as crianças das regiões mais carentes do país.

Amor à primeira vista, apesar do clima

Ouviu falar pela primeira vez do longínquo e gelado país báltico em 2005, após seu chamado para missões. A Letônia havia se classificado para a Eurocopa de 2006, não possuía uma opinião formada, mas algo especial foi crescendo no seu coração. Desembarcou em Rīga 19 de maio de 2010 – foi um choque cultural muito forte – mas foi amor à primeira vista.

Dar o primeiro chute ao gol, no entanto, nem sempre é fácil. Seu primeiro trabalho missionário com futebol foi no “Day Center” no bairro de Bolderaja, em Rīga, patrocinado pela Igreja Luterana da cidade. Mesmo após o término do projeto, Thiago continuou, o sonho era forte demais, era hora de ir além. Ir além era Karosta.

Karosta (em leto, “porto de guerra”) é um bairro localizado no norte da cidade costeira de Liepāja. Foi construída para ser uma base naval do Império Russo, e durante a ocupação soviética foi convertida em base militar e prisão militar. O bairro mistura palacetes e catedrais czaristas com blocos habitacionais soviéticos abandonados. Após a queda da união soviética e desativação do complexo militar vários prédios foram abandonados e a região se tornou problemática com desemprego, crimes e abuso de álcool.

Thiago, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolveram o Karosta Futbols resgatando crianças que sofrem problemas de criminalidade e abusos. O projeto está quebrando o ciclo da violência, crianças estão sendo salvas. Só para ter uma idéia: muitas dessas crianças nunca haviam saído de Karosta, hoje disputam torneios em outras cidades. Eles possuem um novo futuro para chamar de seu.

Torneio em Nica

Ainda assim, há muitas dificuldades. No começo, Thiago trabalhava em 3 empregos diferentes para poder se sustentar, uma vez que não recebe nada pelo projeto. No início deste mês precisou se afastar do projeto para poder sustentar sua família e atender ao novo filho que está por chegar ao time. Mas não ele não pendurou as chuteiras, pois ainda há muito jogos por vir, e muitas vidas para mudar.

Nós tomamos um pouquinho do seu tempo para perguntar sobre sua vida, seus projetos, ambições, dificuldades. Veja um trecho da entrevista abaixo:


Entrevista

Letonia Brasil: Qual sua formação, Thiago? Quais projetos você participou antes de vir para a Letônia?

Thiago Bonfim: Sou formado em Educação Física, Pós-graduado em Ciências do Futebol e Futsal. Sou treinador formado pela ABTF em 2006, pela CBF – A em 2013 e UEFA-B em 2015. Sobre missões, participei dos projetos missionários do movimento estudantil Alfa e Ômega, projeto missionário em Juiz de Fora em 2007. Todo o treinamento para missionário em campos universitários em 2007 e 2008. Também fiz o curso para missionário através do Esporte pelo CEFLAL- 2009. Diversos treinamentos e projetos missionários na área esportiva e também outras áreas. De 2008 até 2010, participei da capelania prisional no presídio Moniz Sodré em Bangu, junto com os missionários Carlos Serejos e Clotildes Moraes da Igreja Batista do Méier. Também fiz parte do projeto “Igreja no Trem”, onde eu pregava diariamente nos trens do Ramal de Campo Grande no Rio de Janeiro. Fiz parte do projeto Luz nas Calçadas por 5 meses, onde subíamos a comunidade da Mangueira e pregávamos o evangelho para os traficantes e usuários desta comunidade, inclusive frequentando a boca de fumo para a ação evangelística.

LB: Como é sua vida aí? Quais foram suas maiores dificuldades lá?

Thiago, sua esposa Zanda, e seu filho Timotejs


TB: Minha vida na Letônia é um ato de redescobrimento de quem eu sou. Do meu melhor e do meu pior. Sem pai, sem mãe, sem amigos por perto, fora da cultura, é preciso estar próximo de Deus e muito forte para superar. Como você notou na resposta anterior, eu andava pelos piores lugares de uma das cidades mais violentas do Brasil, a paz e segurança da Letônia é um ponto muito forte e positivo, e foi o que mais gostei daqui. Junto com a beleza e a tranquilidade do país. Minhas maiores dificuldades na Letônia foram com a desconfiança, alimentação, cultura e o clima. Se você vem visitar a Letônia, você não vai vivenciar nenhuma intolerância, talvez, se tiver uma pele mais escura, algumas pessoas vão ficar te olhando, mas não há preconceito. O problema acontece quando você vem morar e trabalhar aqui, mas não entende o “jogo de interesses”. As portas se fecham em várias áreas. Na minha área, por exemplo, demorei 6 anos para receber um salário normal.

LB: Como foi seu trabalho com o futebol lá? Os letos são bons no futebol? [risos]

TB: Os letos tem grande potencial, porém a questão climática e cultural atrapalha muito, já que o hockey e o basquete ainda são as grandes paixões, mas o futebol vem crescendo no país. Meu trabalho com futebol de forma missionária aconteceu mais no “Day Center” em Bolderaja, em Riga, com a parceria da Igreja Luterana de Riga que nos patrocinava, uma vez por semana nós alugávamos um campo de futebol no centro – Arkadija Stadions – e as crianças saiam de bolderaja para o campo onde ministrava os treinos de futebol. Após o fim do projeto com a Igreja Luterana de Riga, ainda continuei indo por mais um ano voluntariamente, porém, desta vez fazíamos o futebol em uma praça próximo ao “Day Center”. Agora em Liepaja, junto com o Pr. Marcis Dejus e o Missionário Mikelis Mazis, desenvolvemos o Karosta Futbols, para trabalhar e pregar o evangelho através do futebol para as crianças de karosta, que é um dos piores lugares da Letônia, com os piores índices educacionais, de desenvolvimento e violência. Esse trabalho tem o suporte de dois “Day Centers”, o que é liderado pelo Pr. Sergejs e outro pelo “Hope Kids”. Porém, no início deste mês tive que sair do projeto por um período, pois está havendo um conflito político, tendo em vista que eu trabalho no clube da cidade, o qual recebe verba da prefeitura, e o Karosta Futbols por ser um projeto que também é social, começou a receber ajuda da prefeitura, e esta questão política por eu estar nos dois, me colocou em uma situação de ficar em um ou outro, e como no Karosta Futbols não recebo nenhum salário e todo meu salário vem do FK Liepaja, e como não tenho nenhum outro suporte, a não ser meu salário e uma ajuda familiar, tive que optar pelo meu emprego.

LB: Quais os principais problemas da Letônia? E como é o bairro de Karosta?

TB: A Letônia sofre muito com o Alcoolismo e com secularismo. Karosta é um local lindo, mas como foi invadida, tem muitos problemas familiares! Minha esposa trabalha com as famílias e visitando as pessoas em suas casas, e é muito triste o relato que ela dá. Pessoas pobres, imundas, muita violência doméstica e estupros entre familiares é muito comum. Os orfanatos da Letônia estão cheios de órfãos de pais vivos, e o de Liepaja não foge a regra. Boa parte destas crianças são oriundas de Karosta.

Crianças do Karosta Futbols com o missionário Mikelis

LB: Como o seu trabalho pode ajudar a mudar essa realidade? Quais são suas metas?

TB: Nosso trabalho é extremamente relevante, as vidas que vemos sendo transformadas são nossas alegrias. Algumas das crianças com 9 anos já chegam para nós com histórico de fumo, furto e uso de álcool, com 9 anos de idade! Hoje nos encontramos 2 vezes por semana, (1 vez comigo e 1 vez com Pr. Marcis) mas o objetivo é para que um futuro consigamos fazer isso diariamente. Para essas crianças falta um exemplo masculino positivo na vida delas. Os pais quase sempre ausentes e alcoolizados, frequentemente agridem suas parceiras em suas casas. No final, se não houver uma quebra do ciclo, a tendência é que essas crianças repitam os mesmos erros. Hoje no projeto já temos crianças que já aceitaram a Jesus, que oram conosco e que frequentam a Igreja. Próximos passos são os batismos (alguns anos) mas algumas já estão sendo discipuladas. Estamos falando de crianças com histórico de violência familiar. Isso é extremamente importante e relevante. Infelizmente, sem patrocínio ou apoio, ainda é muito pouco o que podemos fazer. Nossas metas é de termos patrocino para que eu possa abandonar meu trabalho e dedicar-me 100% ao Karosta Fubols, e abrir outras categorias, do Sub-8 até o adulto, para fazer a integração com os pais da região. Infelizmente, hoje ainda um sonho muito distante.

LB: Que tipo de apoio ou ajuda você recebe? Que tipo de apoio você gostaria de receber? Como isso pode ser feito?

TB: Infelizmente, nenhum apoio, apenas meu salário e um suporte familiar. Gostaria de receber um apoio integral para que pudéssemos nos dedicar 100% ao Karosta Futbols e as crianças daqui. Talvez até recebermos alguns voluntários brasileiros ou missionários locais para nos ajudar no decorrer do crescimento do Projeto.
Isso pode ser feito através da mobilização dos irmãos Letos do Brasil. Levantar sustento na Letônia é quase impossível, as Igrejas são muito pequenas, e o que recebem de oferta é para a manutenção da Igreja e do Pastor.

LB: Que mensagem você gostaria de deixar para os letos-brasileiros?

TB: A Letônia é um país lindo, de pessoas maravilhosas, mas fomos chamados para a Letônia para tratarmos os doentes, de ir onde ninguém vai, de cuidar de quem ninguém cuida, de dar esperança para os que nada tem. Nosso projeto pode causar um impacto positivo muito grande neste local. Sei que muitos dos irmãos tem uma visão romântica da Letônia, que não é falsa, mas nós vivemos e convivemos com o que há de pior aqui. Nossa família vive em um dos locais com maiores índices de violência da Letônia. Queremos que todos os letos do Brasil nos adotem em orações, e não esqueça de nós em nenhum dia, pois é isso que nos sustenta aqui, é a oração que nos faz caminhar e vivenciar os milagres.

Que Deus abençoe a todos e a nossa Letônia.

Crianças orando antes do treino.

 

Se você se sentiu tocado pelo trabalho que Tjago realiza, você pode enviar seu número para o email tchebonfim@gmail.com e receber notícias. Se quiser fazer uma doação ou ajudar financeiramente, entre em contato pelo email  ou pelo Whatsapp +37126740578.

 

Arte de fundo: Luiz Schneid
Vídeos, Poster e Fotos: César Liepkaln

O que é Saeima?

Se você já procurou ler algo da política da Letônia já deve ter lido este nome. A Letônia é um estado soberano, uma república democrática parlamentarista. Isso significa que não está sob o controle de outro estado, que o poder na Letônia pertence ao povo, significa que o poder legislativo pertence ao parlamento.  Este eleito pelo direito de voto dos cidadãos da Letônia. 

O nome do Parlamento da República da Letônia desde 1922 é Saeima, que significa “reunião”, “conselho”. (Sapulce). O nome “Saeima” é linguisticamente distinto e não possui nenhum vínculo histórico com seus correspondentes lituanos e poloneses.

Em contraste com o Brasil, que possui um poder Legislativo bicameral (Câmara baixa e a Câmara alta – a Câmara dos Deputados e o Senado, respectivamente). A Letônia é unicameral, ou seja, a legislatura é formada apenas pelo Parlamento, assim como a Dinamarca e Finlândia, por exemplo.

Uma sessão do Parlamento

O parlamento é constituído por 100 membros eleitos em representação proporcional, do voto popular. As eleições estão programadas para serem realizadas uma vez a cada quatro anos, normalmente no primeiro sábado de outubro. As eleições mais recentes foram realizadas em outubro de 2014. Os deputados são eleitos para representar um dos cinco círculos eleitorais: Kurzeme (13 deputados), Latgale (15 deputados), Riga (30 deputados), Vidzeme (27 deputados) e Zemgale (15 deputados).

O parlamento possui um “Porta-voz”, também chamado de “Presidente”, que mantém a ordem durante as sessões plenárias, bem como garante que a sessão seja realizada de acordo com o Regulamento Interno. Atualmente Ināra Mūrniece ocupa o cargo, ela foi eleita presidente do Saeima da República da Letônia em 4 de novembro de 2014. Ela representa a Nacionālā apvienība.

Antes de se envolver em política, durante 16 anos Ināra Mūrniece trabalhou na redação do maior jornal diário, Latvijas Avīze, reportando assuntos internos e assuntos de política externa, ela é formada em tradução. Em 2009, ela se formou na Faculdade de Línguas Modernas da Universidade da Letônia 

Mesa de reuniões do “Sarkanā zāle”

O que o Parlamento faz?

A principal tarefa do parlamento é adotar leis. Projetos de lei podem ser submetidos pelo Presidente, Ministros, Comissões e deputados. Além disso, os eleitores – cidadãos da Letônia – podem também apresentar projetos de lei.

Assim como no Brasil, O Saeima pode eleger, aprovar, indicar, liberar e dispensar muitos dos funcionários públicos – Presidente do Estado, membros do Governo, Presidente do Supremo Tribunal, juízes, presidente do Banco da Letónia, e outros funcionários. Os deputados de Saeima se reúnem com autoridades e delegações internacionais. O Saeima coopera com os parlamentos de outros países, pois  é um membro de organizações parlamentares internacionais.

Detalhes de Art Noveau

HISTORIA DO EDIFICIO

O edifício principal agora ocupado pelo Saeima foi construído entre 1863 e 1867 uma época em que partes da atual Letônia eram administradas pelo Império Russo para as necessidades da Cavalaria da Livônia que incluía a atual região norte da Letônia e uma grande parte do sul da Estônia, de acordo com o projeto feito por Robert Pflug, um arquiteto báltico-alemão, e Jānis Baumanis, o primeiro arquiteto letão educado academicamente. O exterior e o interior foram acabados em estilo eclético.

Depois que o Conselho do Povo declarou a independência da Letônia em 18 de novembro de 1918, o edifício serviu de casa, exceto pelo período durante 1919, quando o Congresso dos Deputados Operários Soviéticos da República Socialista Soviética da Letônia controlava Riga. Depois que a república socialista foi derrotada, o edifício tornou-se a sede da Assembléia Constituinte eleita em 1920. Em 17 de outubro de 1921, o prédio foi destruído pelo fogo. Foi restaurado de acordo com o projeto do arquiteto Eižens Laube. A restauração incluiu uma nova estátua do escultor Rihards Maurs de Lāčplēsis, o “matador de ursos”, substituindo a estátua de von Plettenberg, que foi destruída no incêndio. No momento da restauração do edifício, o salão principal foi modificado para atender às necessidades do Saeima da nova República da Letônia. A câmara de Saeima hoje ainda se aproxima deste projeto. A última reunião da Assembleia Constitucional, que escreveu a Constituição da Letonia, teve lugar no edifício restaurado em 3 de novembro de 1922.

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OCUPAÇAO

Durante a Segunda Guerra Mundial, depois que a Letônia foi ocupada, o prédio era o local do Conselho Supremo da República Soviética Socialista da Letônia sob os soviéticos e a sede da polícia para os territórios orientais sob a Alemanha nazista.

A Letônia permaneceu sob ocupação soviética após a guerra e o prédio serviu como local do Supremo Conselho Soviético da Letônia por quase meio século. No início dos anos 80, um dos pátios interiores foi murado para expandir o espaço do edifício, esta parte do edifício é agora conhecida como a Sala de Votação.

RESTAURAÇAO DA INDEPENDENCIA

Após a restauração da independência em 4 de maio de 1990, o prédio abrigava o Conselho Supremo da República da Letônia, que funcionava como um parlamento provisório até que a Constituição fosse restabelecida com a eleição do próximo Saeima. Desde 1993, é novamente o lar do parlamento da Letonia.

Faça uma visita!

Como visitar o Saeima?

Jēkaba ​​iela, Riga.

Excursões para o Saeima

Qualquer um pode visitar o Saeima conheça o seu trabalho diário. Todos podem se familiarizar com a arquitetura e a história do edifício Saeima.

  • As excursões para o Saeima ocorrem nos dias úteis das 09:00 h às 16:30 h.
  • Excursões são gratuitas.

Às quintas-feiras, os participantes do passeio a partir das 9h30 podem assistir à sessão do Saeima e observe o trabalho dos membros nele.

  • Cada passeio dura cerca de uma hora.

Os visitantes devem levar um documento de identificação pessoal. O documento da Casa Saeima deve ser apresentado ao guarda de segurança do Saeima. Os visitantes devem passar por uma verificação de segurança. No edifício Saeima é possível fotografar e filmar.

Há a possibilidade de um tour online por meio do link:

http://www.saeima.lv/Informacija/Ekskursija_EN/saeima.swf

Você deve se inscrever pelos telefones 67087485, 67087483 ou pelo e-mail: ekskursijas@saeima.lv.

Grupo da Letônia visita escolas em Nova Odessa

Durante os dias 05 e 06 de Junho de 2018, o grupo de músicos da Letônia da festa Ligo 2018 – Laima Dimanta, Tenis Dimants e Janis Feldmanis – tiveram a oportunidade de visitar as escolas da rede municipal, ensinando sobre a cultura leta.

As visitas são promovidas pela Associação Brasileira de Cultura Leta desde 2016 com a visão de ensinar a cultura, história da Letônia para os alunos, abordando também temas como cidadania e respeito às diferenças. Neste ano, dez escolas do ensino público em Nova Odessa (SP) e uma em Americana (SP) foram visitadas.

Os músicos – sempre acompanhados por um tradutor voluntário da Associação – se apresentam às crianças e ensinam as músicas e danças típicas, que retribuem com atenção e entusiasmo

Esperamos continuar levando cultura e cidadania para mais e mais escolas a cada ano.

Fotos: Lucas Stepanow Eksteinas

 

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10 Coisas que você não sabia sobre os Letos do Brasil

Tem muito leto para um mundinho tão pequeno – essa é a única explicação. Desde que os primeiros imigrantes da Letônia colocaram os pés em terras brasileiras em 1889, muita coisa aconteceu – muita coisa mesmo. Hoje há grupos letos espalhados pelo sul e sudeste do país. Há médicos, engenheiros, professores. Há muitas histórias; será que você já escutou todas? Por isso mesmo reunimos uma lista de 10 coisas que você (provavelmente?) não sabia sobre os Letos do Brasil. Não foi fácil, mas vale a leitura:

1. Trouxemos um chocolate delicioso para o Brasil

Imagem relacionada
Achou que a Kopenhagen era dinamarquesa? Achou errado…

A Kopenhagen é uma empresa brasileira, mas com um detalhe importante: foi fundada por dois letos. Davi Kopenhagen era um estudante de medicina que abandonou o curso e Anna, uma pianista. Ambos migraram para o Brasil em 1928, seguindo um grande fluxo de letos que foram para a colônia de Varpa (SP), fundada em 1922. Anna e Davi, no entanto, optaram por ir à capital paulista, onde começaram a produção de marzipã na cozinha de sua casa.

Acredita-se que a receita de marzipã dos Kopenhagens tenha sido inspirada na famosa marca de chocolate leta Laima, fundada primeiramente em 1870. O paladar leto, no entanto, prefere chocolates mais amargos, enquanto a Kopenhagen atende ao “docinho” brasileiro. Anna e Davi abriram sua primeira loja em 1929, e o resto é história.

2. Fizemos a pista de pouso mais elevada do Brasil

Verner Grinberg (1910 – 2006) e seu avião

O vilarejo turístico na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, Monte Verde, foi fundado por Verner Grinberg, que nasceu na Letônia em 1910 e veio para o Brasil em 1913. Primeiro, ele morou em Pariquera-Açu (SP) e depois em São José dos Campos – juntando-se aos outros letos que moravam lá. Em 1934 se casou com sua amada Emília Grinberg, que veio, em 1922, para a colônia de Varpa. Mudou-se em 1938 para “Campos do Jaguary”. Ali adquiriu terras, iniciando a formação de uma fazenda. Com o passar do tempo, outros letos se interessaram na compra de terras nessa região, e, em 1950, Monte Verde foi oficialmente formada.

Amante da aviação – um traço aparentemente comum entre os letos – Verner pilotou seu avião até chegar perto dos seus noventa anos de idade e diz que nunca fez sequer um arranhão nele. Fundou em Monte Verde o aeroporto mais alto do país: 1.600 metros acima do nível do mar com pista de 1.100 metros de comprimento. Falando em aviação…

3. O terreno do ITA foi doado por letos

ITA
Foto aérea do ITA

A ideia de trazer colonos letos para São José dos Campos é graças – principalmente – à Julio Malvess, que descobriu terras boas perto da Estrada de Ferro Central do Brasil. Vieram para São José várias famílias letas antes da Primeira Guerra Mundial, entre elas, Schause, Strauss, e Pusplatais.

As terras da família Schause foram, em grande parte, doadas para o Ministério da Aeronáutica e compõem a área do renomado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1950, dentro do CTA (Centro de Tecnologia da Aeronáutica), das quais eram vizinhos os Pusplatais. Os eucaliptos às margens da Rodovia Pres. Dutra foram plantados por Arvido Schause. O loteamento de casas na região preservou a memória dessas famílias: um dos bairros adjacentes ao CTA é denominado “Vila Letônia”.

E não acaba por aí: existem, em São José dos Campos, a Associação Beneficente André Pusplatais (ABAP – Hoje renomeada para Associação Beneficiente de Ajuda ao Próximo) fundada 1996 e a Escola Ilga Pusplatais (EMEF).

(Agradeço a Arnaldo Ceruks pelas contribuições)

4. Nós temos a nossa própria Milda

A Milda de Varpa (SP)

Sabe aquela carismática estátua no centro de Riga (capital da Letônia) de uma figura feminina segurando três estrelas? O nome oficial dela é Brīvības Piemineklis (Monumento da Liberdade), e as três estrelas são as três regiões originais da Letônia (Kurzeme, Latgale e Vidzeme). Ela foi carinhosamente apelidada de Milda.

Ela é tão estimada que a colônia leta de Varpa (SP) decidiu construir sua própria versão na rotatória principal da cidade. Claro, não possui o mesmo tamanho que a Milda original, mas nós gostamos dela mesmo assim.

5. Gostamos de coro e dança

O grupo de dança Staburags, de Ijuí (RS)

Diz-se que os letos são, por natureza, um povo poético e cantor. A cada 5 em 5 anos, desde 1873, a Letônia inteira se mobiliza para realizar o Festival de Música e Dança (Vispārējie latviešu Dziesmu un Deju svētki). Ele é considerado um dos maiores eventos de corais do mundo – contando com milhares de músicos, coristas e dançarinos – e foi nomeado patrimônio da humanidade pela UNESCO.

O Festival de 2018, no entanto, será mais especial: comemorando os 100 anos da República da Letônia, 12 mil coristas e 17 mil dançarinos (sem contar os músicos) irão participar, e é claro que os letos do Brasil não iriam deixar a oportunidade passar. O Coro Leto Misto de São Paulo e Nova Odessa e o Grupo de Dança Staburags (Ijuí – RS) irão representar os letos do Brasil nesta festividade.

6. Temos também o Indiana Jones Brasileiro

Retrato do Professor Butler

Uma vez já chamado de uma espécie de Coronel Fawcett, Guilherme Butler (Vilis Butler) veio ao Brasil para professor da escola da Colônia Leta de Rio Novo (SC) em 1900. Mentor exímio, transformou a escola de tal forma que o Governador Vidal Ramos a visitou em 1905 e elogiou como uma das melhores de Santa Catarina. Mudou-se mais tarde para Curitiba. Sua casa na Rua Westphalen hoje é patrimônio histórico da cidade e é utilizada como centro cultural, que é onde o Grupo Leto de Curitiba se reúne a cada última sexta-feira do mês.

Foi professor de Alemão e Inglês no Colégio Estadual do Paraná. Quando não estava na sala de aula, viajava ao Sertão, Amazônia, Mato Grosso e Goiás numa época que a malária era o menor dos perigos lá e suas jornadas eram relatadas em páginas de jornais (“A minha viagem de férias à Amazônia”, O Dia, 1934). Coletou as águas de inúmeros rios brasileiros também, como o Negro e o Tapajós e estas amostras existem até hoje sob os cuidados da sua filha, Dra. Helen.

Quando se aposentou, foi convidado para ser paraninfo e seu discurso “As características de uma pessoa educada” foi publicado na íntegra na edição da Gazeta do Povo de 14 de dezembro de 1950. Hoje existe até uma escola com seu nome em Curitiba. Sua filha é igualmente impressionante, mas  sobre isso, vamos falar em outra oportunidade

7. Nós inauguramos a nova Arena da Baixada

Escanteio Brasileiro, Time da Letônia ao fundo

Ok, ok, o jogo oficial de inauguração do Estádio Joaquim Américo Guimarães (Curitiba – PR) mesmo foi em 24 de junho de 1999 com o jogo Atlético Paranaense contra o paraguaio Cerro Porteño. O primeiro jogo entre seleções, contudo, foi dois dias depois – Brasil contra a Letônia, no dia 26 de Junho.

O resultado foi 3 a 0 para a seleção brasileira – precisamos admitir ,  infelizmente, que o forte da Letônia não é o futebol. A torcida da Letônia contava com o Grupo Leto de Curitiba e outras figuras locais – até mesmo Dra. Helen Butler foi lá torcer! O jogo inclusive contou com a presença do Ministro do Esporte e Turismo do Brasil da época, Rafael Greca. Falando em visitas importantes…

8. Nós recebemos a visita de políticos importantes

Foto
A presidente Vaira Vīķe-Freiberga no Brasil

Do mesmo jeito que nós gostamos de visitar a Letônia, eles também gostam de nos visitar. A famosa presidente Vaira Vīķe-Freiberga já visitou a comunidade leta no Brasil duas vezes. Em uma das ocasiões, até recebeu uma camisa do Clube Atlético Paranaense como lembrança daquele jogo entre as seleções dos dois países.

O Vice-Chanceler Andris Teikmanis veio fazer uma visita em 2010. Em 2011, o Primeiro Ministro Valdis Dombrovskis. O Ministro da Defesa e medalhista de Peso Olímpico Raimonds Bergmanis esteve aqui em 2016; nesta ocasião, chegou a levantar alguns voluntários da Associação no braço. Além destas visitas consideradas mais oficiais, todos os anos algum grupo de músicos da Letônia vem para alegrar a nossa festa do Līgo.

9. Nós estamos também na Bolívia

O Colégio de Rincón del Tigre

A missão de Rincón del Tigre na Bolívia é uma iniciativa fundada em 1946 pelos batistas da Colônia de Varpa (SP). Cercada por uma floresta densa e com difícil acesso, Rincón serve como base para inúmeros projetos sociais e evangelísticos na fronteira Bolívia – Brasil.

Há também uma escola, fundada em 1955. Como é a única em um raio de mais de 70km, muitas famílias pediam para a missão abrigar seus filhos. Para cuidar de todos os alunos de lugares tão distantes, Rincón mantém este internato gratuito com pelo menos 120 alunos a cada ano, provendo acomodação, comida, roupas limpas, passadas, e cuidado médico sem custo para os estudantes.

10. Mas nós estamos em tudo quanto é lado!

Bandeiras do Brasil e Letônia no topo do morro do Anhangava (PR). Março de 2015

 

Parece sociedade secreta: uma pessoa pode ser atendida por um médico leto, ter aula com professores letos e não ter a mínima ideia disso. O Brasil é grande, mas nós demos conta de nos espalhar bem – como eu disse, tem muito leto para um mundinho tão pequeno. Formando uma rota de mais de 4 mil km – os letos já andaram e viveram por:

Rio Grande do Sul – Ijuí
Santa Catarina – Rio Novo, Joinville, Florianópolis, Orleans, Criciúma e Urubici.
Paraná – Curitiba, Quatro Barras, Araucária, Campina Grande do Sul, Balsa Nova, Porto Amazonas, Foz do Iguaçu e Porto União
São Paulo – São Paulo, Nova Odessa, Campinas, Hortolândia, Varpa, Paraguaçu-Paulista, Pirassununga, São José dos Campos, Bragança Paulista, Nova Europa e Monte-Mor
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Minas Gerais – Monte Verde

Isso sem mencionar centenas de outros letos morando em diferentes cidades e estados. Conhece mais alguma cidade? Mais algum leto? Já avisou para ele ficar antenado na página da Associação no facebook? Pois vem uma novidade tamanho Brasil por aí…

Sabe mais alguma curiosidade? Algum fato desconhecido? Mande um email para AndreisPurim@gmail.com contando o que você sabe!

Filme leto da era soviética no festival de Cannes

   Četri balti krekli (“Quatro Camisas Brancas”) é um filme revolucionário, mas sutilmente crítico. Marcou uma juventude perdida pela censura soviética na Letônia. Originalmente publicado como Elpojiet dziļi (“Respire fundo”) em 1967, foi censurado e só exibido oficialmente em 1986. O filme é a marca de uma juventude não conformada e perdida para a opressão soviética na Letônia, e ironicamente retrata a censura e a proibição de obras de arte na época. Dirigido por Rolands Kalniņš, o filme é inspirado na peça Trīspadsmitā do dramaturgo leto Gunārs Priede, estrelando Uldis Pūcītis, Līga Liepiņa, Dina Kuple, Pauls Butkēvičs e outros.

   A quintessência do filme  é a busca por inovação, liberdade artística, e não-conformismo dos jovens.  A história gira em torno do jovem Cēzars Kalniņš, que é apaixonado pro música nas horas vagas, ele e sua banda “Optimisti” (Otimistas) tocam suas músicas. Em uma apresentação em um bar local, a comissária cultural (empregados do governo soviético responsáveis por “avaliar” o conteúdo das artes) Anita Sondore escreve um artigo ultrajante sobre a “frivolidade” das músicas do grupo e como eles não são adequados a juventude. A opinião de Sondere começa a mudar quando ela conhece Cēzars, mas o estrago já estava feito e seu artigo chega às autoridades. Uma reunião é feita e é decidido negar a liberdade ao grupo. O conflito é agravado entre Cēzars e seus colegas de banda, que preferem alterar o significado das músicas para aplacar as autoridades.

    O filme volta a ser estrelado na programação de clássicos do famoso festival de cinema de Cannes, em 2018, 51 anos após seu lançamento. Teóricos do cinema são fascinados pelo espírito vanguardista do filme e sua atenção as tendências dos anos 60, juntamente com o movimento francês Nouvelle Vague (New Wave).  “De uma certa forma, o fato que o filme de Rolands Kalniņš está incluso no programa dos (filmes) clássicos do festival de cinema mais importante do mundo testifica a aceitação mundial do movimento New Wave leto”, disse Dita Rietuma, crítica de cinema e diretora do Centro Nacional de Filmes da Letônia, em entrevista para a Latvian Public Broadcasting. O próprio diretor estará presente para assistir o filme

O filme completo está disponível no youtube:

Música

    A proibição do filme não foi capaz de impedir a popularidade das músicas – compostas pelo músico Imants Kalniņš no seu auge e escritas pelo poeta Māris Čaklais –  que se tornaram famosas entre os jovens da época e até inspiraram o clube de música “Četri balti krekli” em Riga. É o primeiro filme leto (e um dos primeiros de Europa) a considerar a trilha sonora e música como uma obra separada. O rock anos 60 se mistura com letras que escondem sutilezas críticas para os cidadãos conformados com a opressão da época. Preparamos uma pequena análise e tradução da música homônima do filme:

Četri balti krekli Quatro Camisas Brancas
Ja četri balti Krekli
Ir jaunam cilvēkam,
Tas iziet var caur dzīvi
Bez lielām pārdomām

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Tas pirmais –priekšniecībai
Kad vajag rādīties.
Un tad nu paša gribai
Vēl paliek nākamie.

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Balts krekls rīta pusē,
Bet melns jau pusdienā.
Bet trešais baltais krekls
Top uzvilkts vakarā.

Un atkal nezin kāpēc
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Var baltos kreklus mainīt,
Kā maina uzskatus.
Bet tad, kad vakars pienāks,
Tie visi melni būs.

Vai būs vēl kāda jēga
Tad atgādināt viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām? 

Se quatro camisas brancas
Tem o jovem
Ele pode passar pela vida
Sem muito pensamento.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

A primeira – para superiores
Quando você precisa aparecer.
E então é para sua vontade
Os próximos ainda estão lá.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Camisa branca pela manhã,
Mas já preta à tarde
Mas a terceira camisa branca
Se veste à noite

E de novo não sei porque
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Pode mudar de camisas brancas
Como alterar as ideias
Mas a noite chegará
Todos eles serão pretos.

Haverá mais algum sentido
Em lembra-lo
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência?

   A música traça um paralelo entre as camisas de um jovem e sua consciência ou seus princípios, e critica que há pessoas que trocam seus princípos como trocam de camisa, apenas para se favorecer. Há camisas usadas apenas para aparecer, para mostrar superioridade, há camisas que começam limpas, mas já estão sujas pelo uso, e há camisas que se vestem a noite, quando ninguém vê. De vez em quando, alguém o lembra que princípios e valores não são como camisas, mas se no final elas são todas pretas, de que adianta lembra-lo?
   Essa música reflete tanto a censura soviética e o apaziguamento dos cidadãos, que obedecem sem questionar, quanto acaba – ironicamente – criticando os colegas de banda, que desejam alterar o significado das músicas para atender à censura.

Galeria

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Crocodilo Dundee era Leto

Você já ouviu falar do Crocodilo Dundee? Não?!

Foto: Paramount Pictures

E agora?
Sim! Crocodilo Dundee foi aquele filme de ficção super famoso dos anos 80 no qual um caipirão Australiano, caçador de crocodilos e amante da natureza vai para uma viagem de férias em Nova Iorque, cometendo várias gafes e se metendo em situações super engraçadas.

E o que isto a ver com a Letônia? Tudo!

Antes de fazer a correlação, vamos voltar para o ano de 1925 no povoado de Dundaga, norte da Letônia. Dundaga é uma cidade medieval, na região da Kurzeme que data do século 13. Feche os olhos agora e imagine aquelas cidadezinhas bem medievais, com um castelo bem antigo no centro, um lago e ruelas bem estreitas que convergem para a igreja principal da cidade. Esta é Dundaga!

Foto: Gabi Strautmann
Foto: Gabi Strautmann

 

 

 

 

 

 

E foi nesta vilinha que nasceu o personagem principal do nosso artigo – Arvids Blumentals. Arvids tinha o título de Barão Arvid Von Blumental, mas após a II Guerra Mundial perdeu seu título. Em 1951, Arvids decidiu mudar radicalmente a sua vida, trocando a paz e a calmaria de Dundaga pela selvagem Austrália.

Foto: Google/Reprodução

 

Lá na terra dos cangurus, Arvids descobriu novos talentos: lavar minério de ouro, pescar, caçar cangurus e o mais impressionante… caçar crocodilos com as mãos!
Reza a lenda que Arvids matou mais de 10.000 crocodilos em 13 anos de “carreira’’. Como seu nome era bem diferente e com fonemas inexistentes no inglês, lá pelas bandas dos coalas, Arvids tornou-se Harry. E assim nasceu um personagem – Crocodile Harry.

 

E as excentricidades de Harry não pararam por ai! Sua casa era chamada de “Ninho do Crocodilo Harry’’. No ninho do Harrys havia várias cartas de amor pregadas nas paredes, além de numerosas calcinhas (isso mesmo, calcinhas!) de mulheres que o admiravam. Ele era tão criativo que fez vários grafittis tribais e fez várias esculturas estranhas tentando expressar suas fantasias e pensamentos. Dê uma olhada:

Foto: Google/Reprodução

Voltando ao título do nosso artigo, tudo leva a crer que os autores de Hollywood se inspiraram no nosso Crocodille-leto- Harry para fazer o filme Crocodilo Dundee. Hoje, quem visita Dundaga pode ver uma enorme réplica de crocodilo bem em frente à casa onde Harry morava. A casa funciona como museu e tem várias informações e utensílios do seu ilustre ex-morador.

E aí, gostou dessa história? Tem algo interessante pra contar sobre o Harry? Já visitou o museu dele em Dundaga? Conte pra nos!

Um abraço e até mais!

Revisora: Claudia Klava

Essa é parte da história – Uma entrevista com V.A. Purim

Ninguém que viu os verdadeiros primórdios do Rio Novo está vivo para contar a história, mas para quem está disposto a ouvir resta o mais inusitado e rico dos testemunhos.” – Paulo Brabo

Em uma pequena e calma chácara localizada nos arredores de Curitiba, cercada de flores e livros – alguns desses mais que centenários – um homem apenas cuida do maior acervo de fotos e cartas dos letos no Brasil. Esse homem é Viganth Arvido Purim. Com muito zelo e diligência, seu trabalho de organizar, escanear e traduzir cartas, documentos e fotos durante anos foi o que possibilitou que muitos brasileiros hoje pudessem encontrar seus antepassados.

Nascido em 1933 na primeira colônia leta no Brasil – Rio Novo (SC), fundada em 1889 – Arvido é o segundo de 7 irmãos. Já cedo ajudava seu pai na roça e participava da sociedade da colônia. Só veio a aprender português tardiamente, e até hoje conserva seu cantado sotaque catarinense. Ele saiu de Rio Novo em 1953, quando foi sozinho trabalhar como ajudante de mecânico em Urubici. Ele, com sua dedicação, avançou nos postos da garagem, e depois das empresas, se aposentando como Gerente Regional de Peças pela General Motors. Suas viagens de trabalho possibilitaram que ele conhecesse muitos outros letos espalhados pelo Brasil.

Desde 2009, ele mantém o blog rionovo, onde consegue publicar posts sobre cartas, atas, livros, fotos e acontecimentos da colônia – que através de muita dedicação traduziu do leto original. Fomos a sua chácara conversar sobre sua experiência com a conservação e divulgação dessas memórias.

Arvido e sua esposa, Edith

Entrevista

Letônia Brasil – Você é o criador do blog rionovo.wordpress. Quando ele foi criado? E por qual razão? Quantas publicações já?

Viganth Arvido – Graças aos meus filhos e outros, consegui aprender a mexer nessas coisas informáticas, e foi aí que comecei a montar algo parecido com a história dos letos de Rio Novo. Comecei a trabalhar nisso por volta de 88 e 89 e depois gostei muito mais de guardar no computador, pois é mais limpo e fácil de achar digitalmente. Não sei quantas publicações, nunca contei, mas por volta de 618. Para mim, o blog é o defensor dos letos no Brasil e defensor da memória da colônia de Rio Novo.

LB – Como as cartas foram guardadas? E onde estão agora? E os livros e atas?

VA – Infelizmente muita coisa foi perdida. Meu pai e meu tio Reynaldo guardavam tudo, mas olha, gostaria de ter guardado mais. As cartas hoje estão lá em Riga (Capital da Letônia), no Arquivo Nacional, lá eles trabalham com cuidado e são especializados para isso. Há os livros e atas da igreja, da juventude, da sociedade missionária, há revistas e jornais antigos também.

LB – Parece que, conforme você pesquisou e criou o blog, descobriu ainda mais coisas não só sobre a Letônia mas como várias outras curiosidades; qual foi a coisa mais inusitada que já aconteceu?

VA – Um belo dia, eu estava em um Congresso Leto em Nova Odessa sentado do lado de fora da igreja quando um Anderman idoso (que eu nem conhecia) perguntou meu nome e disse que havia algo para me dar – nessa época o blog nem tinha começado. Ele me deu um calhamaço de cadernos da história completa da família Anderman, contando desde a chegada do Karlis Anderman em Rio Novo até a ida do filho dele, Júlio Anderman, para a guerra na Itália (com a Força Expedicionária Brasileira). Ele disse “guarde bem isso”. Bom, alguns já estão publicados no blog.

LB – Como eram as notícias recebidas da Letônia independente?  E sobre a ocupação soviética (1940-1941 e 1944-1991) na Letônia, como eram as notícias que chegavam?

VA – Os imigrantes já trocavam cartas desde que chegaram (1889) até 1917. Durante a guerra (primeira guerra mundial e guerra da independência) sabíamos que a Letônia passou por apuros e muitas pessoas perderam suas casas e famílias. Na mesa de refeição meu pai falava para comer tudo pois haviam crianças passando fome na Letônia. Soubemos da ocupação soviética por jornais (de cunho comunista) que agora a Letônia havia sido “retomada” (invadida na segunda guerra) pela União Soviética e falavam da estatização das fazendas, mas nós sabíamos que não era bem assim, as cartas chegavam ao Brasil censuradas e inclusive um dos primos do meu pai desapareceu e nunca mais respondeu as cartas. Além disso, os letos que conseguiram fugir da ocupação e foram para os Estados Unidos e Brasil “sentavam o pau” sobre os invasores.

LB – Durante grande parte do século XX, os letos no Brasil ficaram sem contato nenhum com a Letônia. O que você achou disso? Foi muito prejudicial para a comunidade?

VA – Muito. Muitos dos descendentes que nasceram depois não aprenderam a falar leto e nem sabiam direito onde era a Letônia. As pessoas hoje ficam impressionadas que eu ainda falo em leto, quase como se fosse um herói. Estávamos sem esperança de ter um contato maior, mas sempre que eu podia ler algo em leto, eu lia.

LB – E agora sobre a Letônia em si. Antes dela ser independente, qual era sua ideia sobre ela? Como você achava que era a vida lá?

VA – Por volta do final dos anos 80 havia uma agitação nos países da cortina de ferro contra a ocupação soviética e eu tinha esperança que a Letônia entrasse na jogada. A primeira vez que eu vi um vídeo de uns letos de São Paulo que conseguiram ir visitar a Letônia nessa época, quando eu vi o primeiro leto falando em leto eu pensava “puxa vida, eles existem mesmo!”. Se não duvidar, eu ainda tenho a fita (VHS) dessa primeira viagem.

Arvido em frente ao Monumento da Liberdade, em Riga

LB – Sua primeira visita (à Letônia) foi em 2014. Como foi voltar para a terra dos seus ancestrais?

VA – Gostei de tudo. O meu maior problema foram os taxistas russos, mas mesmo asssim depois eu ligava para eles e eles já exclamavam “Arvids! Arvids!”.  Eu lembro quando desembarquei em Amsterdã para fazer a conexão e quando cheguei no guichê para Riga eu já escutava eles falando em leto, rindo em leto! Mas eu realmente fiquei emocionado, era uma sensação diferente. O museu da ocupação na Letônia me deixou muito atordoado também.

LB – E os letos no brasil hoje? Como você vê a comunidade e os jovens letos do século XXI?

VA – Eu fico animado, algumas pessoas realmente se sobressaem em resgatar e cuidar da memória dos letos hoje. E eu fico feliz que meu trabalho possa ser bem utilizado.

Link para o site rionovo.wordpress: https://rionovo.wordpress.com/

Castelo de Bauska

Caminhar pela cidade letã de Bauska, que fica a 66 quilômetros da capital Riga, é como entrar em um livro de História: a cidade ainda preserva casas centenárias de madeira e construções do período soviético. Eu estava indo para o Castelo de Bauska (Bauskas Pils), construído no século 15 pelos alemães da Ordem da Livônia, um ramo da Ordem Teutônica militar medieval. No caminho passei por um parque cheio de flores e um memorial em homenagem às vítimas do regime soviético.

Parte restaurada do castelo

Enquanto caminhava, podia ver a minha direita a bela vista de onde os rios Mūsa e Mēmele formam o rio Lielupe. Continuei caminhando até finalmente poder ver no topo da colina verde a parte recentemente restaurada do castelo, que estava pintado com diferentes tons de bege: lindo e sóbrio. Por trás, as ruínas do castelo antigo formam um magnífico contraste. Antigamente havia uma fortaleza dos Semigalianos (um dos povos originais do Báltico) no topo da mesma colina. O Castelo de Bauska começou a ser construído entre 1443 e 1456. A construção continuou até o final do século XVI.

Rio Lielupe que corre através da colina

Eu estava tomando café em um copo de papel para me esquentar do frio, mas ele mesmo acabou ficando frio: esqueci-me de continuar tomando de tão animada que fiquei com a vista. As paredes da parte não restaurada estavam em ruínas colapsadas; elas certamente foram atingidas com muita força. Eu podia ver os buracos de onde os defensores podiam disparar flechas. O castelo e a cidade sofreram fortemente nos séculos 17 e 18 durante a Guerra Polonesa-Sueca e a Grande Guerra do Norte. Uma grande torre de vigia, paredes grossas, uma prisão, escadas estreitas… Está tudo lá formando uma beleza desgrenhada capaz de fazer um amante de História tremer de entusiasmo. Depois de uma longa subida, passei muitos minutos na torre, respirando o ar frio e tendo uma visão completa do castelo e de seu complexo abaixo. Eu estava sob uma bandeira da Letônia dançando ao vento. Cheguei a imaginar os exércitos ao redor daquela colina. Quando fui embora, olhei para trás para ter uma última visão do castelo.

Colina do Castelo Velho
Pátio do Castelo Velho

O pôr do sol estava sobre mim e eu podia sentir o cheiro de grama pisada debaixo dos meus pés. A última imagem permanece em minha mente: 457 anos desde o fim da Ordem da Livônia, a bandeira nacional da Letônia treme em cima da torre, um reconfortante sinal de liberdade.

 

Castelo Velho


Informações úteis 

Bauska
Distância de Riga: 66 km
Somente ônibus vão para Bauska. Tem ônibus para lá diariamente, geralmente de meia em meia hora. De Bauska para Riga também tem ônibus diariamente.
Para consultar horários: www.autoosta.lv
Preço ida: 3.05 € (euros)
Duração da viagem: 1 hora e 15 minutos
Endereço da estação: Slimnīcas iela, 11. A estação de ônibus fica a 2 km do castelo.

Castelo de Bauska
Endereço: Pilskalna iela, 40
Mais informações: www.bauskaspils.lv
Idiomas oferecidos nas visitas guiadas: Inglês, letão, russo e alemão
Horários de funcionamento:
De maio a setembro: de segunda a domindo, das 09h00 às 19h00
Outubro: de segunda a domingo, das 09h00 às 18h00
De novembro a abril: de terça a domingo, das 11:00 às 17:00
Preço: 4.00 € (euros)
Aceitam dinheiro e cartão

 

Fotos: Autora
Revisão: Cláudia Klava

 

A festa do Līgo

A festa do Līgo – também chamada comumente de Jāņi – é certamente o mais popular dos feriados letos. Celebrada na Letônia durante a noite mais curta do ano (o solstício de verão), no dia 23 ao 24, durando só das 23h às 3h, a festa é comemorada com muita dança, música e comidas típicas ao redor de uma fogueira.

Embora a época do Līgo, na Letônia,  seja também a das chuvas (os letos dizem com frequência para os dias chuvosos līst kā pa Jāņiem, “chove como se fosse o Jāņi”), isso não impede que multidões se reúnam nas principais cidades para celebrar. Para participar, apenas é preciso ter disposição e alegria. A festa é uma grande celebração da cultura e ancestralidade leta; várias tradições anciãs são preservadas.

História

A celebração da festa do Līgo vem desde os tempos imemoriais da cultura leta, quando os trabalhadores rurais se reuniam comemoravam a chegada do solstício verão e boas colheitas. Associava-se a celebração com as forças e divindades da natureza na mitologia leta – para celebrar o período entre a plantação e a colheita, para atrair felicidade e espantar o azar.

Na verdade, o solstício de verão acontece no dia 21 de junho, mas com a cristianização, as celebrações foram prorrogadas para o dia 23 para ficar mais perto do dia de São João (24), e daí temos o nome Jāņi. Além disso, os nomes Jānis e Līga estão entre os mais populares na Letônia, e são comemorados nos dias 24 e 23, respectivamente.

A celebração do Līgo é de grande importância para a cultura leta. Com o desenvolver da História, as celebrações foram proibidas, como na União Soviética, mas o povo continuava a se reunir para celebrar a identidade leta nos kolkhozes. Hoje em dia, o feriado é muito importante por celebrar a tradição e herança cultural leta.

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Os preparativos

O Līgo começa com a preparação das casas e saunas letas, os arredores são limpos: Lavagem, corte de grama, estocamento de lenha. É comum passar o feriado nas áreas rurais do país, com a natureza e as fogueiras – Mas nas grandes cidades também são organizadas celebrações e eventos especiais, como a venda de plantas medicinais, ervas, temperos, coroas de folhas, queijo, cerveja e muitas outras coisas para que os letos possam aproveitar a noite da melhor forma possível

A Coroa (Vainagi)

A coroa circular do Līgo simboliza o sol. Na confecção das coroas, os homens usam ramos de carvalho, e a coroa das mulheres é entrelaçada com uma variedade de flores dos pastos – As mulheres casadas também colocam folhas de carvalho em meio as flores, e todas as coroas são tecidas com muito esmero.

Colocar a coroa na cabeça de um amigo é sinal de uma relação forte e sincera.

As Ervas (Jāņuzāles)

Pela manhã, decora-se os cômodos com galhos de carvalho e bétula, margaridas e vidoeiro. Todas as flores, ervas e árvores de flor neste dia são consideradas “Jāņuzāles”, na tradição popular, acredita-se que as ervas coletadas ao nascer do sol possuem poder medicinal, e por isso nesta época são populares os chás naturais.

Com estas ervas também são criadas guirlandas e o portão do sol – um a oeste (rietumi) e outro a leste (austrumi), para simbolizar o nascer e pôr-do-sol.

As comidas (Ēdiens)

Além das ervas e chás medicinais, também são comidas populares no Līgo são os pīrāgi e o queijo de alcaravia (cuja cor simboliza o sol). Além disso normalmente é festejado com bebidas – mantenha sua bebida favorita estocada. Sem isso, você não está celebrando o solstício!

A Fogueira (Ugunskurs)

A fogueira do Līgo é comumente queimada do pôr-do-sol até o nascer do sol, no lugar mais alto, assim iluminando a área para haver luz e não trevas. A tradição popular é saltar sobre a fogueira, simbolicamente limpando tudo que é supérfluo. Os casais pulam a fogueira de mãos dadas para fortalecer o relacionamento, e saem para os bosques para procurar pela flor de samambaia – que só floresce na noite do Jāņi – mas talvez isso seja só um pretexto para namorarem em paz.

A Sauna (Pirts)

Também faz parte da tradição fazer saunas. Tipicamente, as saunas letas são decoradas com ramos de folhas de carvalho e bétula para relaxar e limpar tudo aquilo que não é bom. Depois, todos vão nadar num rio ou num lago por perto. As tradições são divertidos e fortalecem os laços entre família e amigos.

O Līgo no Brasil

O Līgo é uma das principais festas culturais letas que sobreviveu pelas eras, e ainda hoje é comemorada com muita diversão e alegria por todos. No Brasil, não viramos a noite, mas dançamos e cantamos muito, e comemos comidas típicas – celebrando a cultura e tradição viva em nós. Aliás, criamos até a nossa própria tradição para acender o fogo: todo ano um membro da comunidade é escolhido para levar a tocha até a fogueira. Você também pode participar da festa com as comunidades típicas em Nova Odessa (SP) e Ijuí (RS). Veja aqui como foi a festa do ano passado! Venha e participe!