As Mulheres que Construíram a Letônia

Todo mundo já leu ou ouviu falar que as mulheres letas são as mais altas do mundo (em uma média de 169.80 cm, superando os 168.72cm das holandesas). Talvez você também tenha lido que a Letônia possui um dos maiores índices de modelos per capita (ficando próximo de 4º lugar no mundo), e que as mulheres letas são muito bonitas. Isso tudo é verdade. Sim. Mas seria um engano achar que é só isso. Um erro muito grande.

A Primeira Poetisa

Infelizmente, durante o caminhar da humanidade, as mulheres receberam poucas menções nos livros de história (na Wikipédia, por exemplo, apenas 17.49% das biografias são sobre mulheres). O mesmo aconteceu na Letônia. Algumas fontes citam histórias sobre governadoras mulheres nas antigas tribos e místicas guerreiras, mas pouco se sabe. Após as Cruzadas do Norte, no final da Idade Média, as mulheres seriam sujeitas ao regime feudal, e seus direitos eram poucos – e assim seria por vários e vários séculos.

Mas isso veio a mudar com a Revolução Industrial. Aos poucos a servidão (o regime quase escravocrata ao qual os letos eram submetidos) foi formalmente abolida. Logo homens e mulheres estavam indo à escola, à universidade. Nas cidades, uma nova camada social surgiu. Esses recém-libertos camponeses logo ascenderam, tornando-se filósofos, engenheiros, pensadores e artistas letos.

A mais proeminente mulher dessa época foi Elza Rozenberga. Nascida em Jelgava, 1865, foi uma das primeiras escritoras e dramaturgas leta. Adotou o pseudônimo Aspazija antes de publicar seus primeiros poemas, em 1887. Após alguns anos, mudou-se para Riga. Lá lutou pela educação das mulheres e sua participação na política. As personagens de suas peças normalmente eram mulheres que ousavam criticar problemas sociais e defender seus direitos. Passou os anos de 1897 até 1903 em exílio na Sibéria.

“Aspazija” vem de Aspasija, uma influente e educada mulher da Grécia Antiga.

Após o seu retorno, se envolveu com grupos sociais-democratas. Após a revolução de 1905, suas obras foram vistas pelas autoridades como uma afronta ao Czar e precisou fugir com o seu amado (e igualmente famoso) poeta Rainis para a Suíça. Conseguiu retornar apenas em 1920, sendo eleita para a Primeira Assembléia Constituinte da Letônia. Faleceu em 1943 em Dubulti.

A Pequena Paris

O período entre-guerras foi especialmente favorável às mulheres letas. A Letônia foi um dos primeiros países do mundo a garantir o voto feminino, em sua constituição em 1918. Durante os anos 20, mais e mais mulheres tinham acesso à educação e passavam a trabalhar. Muitas iam direto à efervescente capital Riga, a “Pequena Paris” do norte. A art-deco estava em moda e logo surgia a figura da femme-fatale nos filmes noir. Nessa época, surgiram nomes internacionais de cinema como Elza Radziņa e Anta Klinte.

Mulheres aproveitando os verões em Jurmala, nos arredores de Riga.

 

Apesar da crise econômica, os anos 30 se iniciaram com mais força ainda. Riga entrou em sua “era de ouro” – que recentemente foi retradada no filme leto “Homo Novus”. Centenas e centenas de mulheres passeavam as ruas da capital, participavam de desfiles, se graduavam na universidade (A Letônia possuiu um índice altíssimo de mulheres médicas na época).

Isso tudo veio a acabar em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial. Logo a Letônia seria invadida e arrasada pela Alemanha Nazista e pela União Soviética, e infelizmente muito do que as mulheres vieram a conquistar foi perdido.

Mas não sem uma boa luta.

As Guerreiras

Algumas enfermeiras letas da Primeira Guerra Mundial.

A guerra não era algo incomum para as mulheres letas. Muitas já haviam participado durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e durante a Guerra de Independência (1918 – 1920). Fosse trabalhando nas fábricas, ou fosse atendendo feridos em meio às batalhas. Há até uma anedota qual mulheres letas enganavam os invasores alemães, apontando os caminhos errados pelas florestas.

Seja como for, quando a Segunda Guerra Mundial bateu às portas, muitas mulheres decidiram lutar. Quando os nazistas vieram, diversas mulheres se tornaram franco-atiradoras no 201º Regimento de Fuzileiros Letos. O combate se tornou ainda mais brutal com a volta do domínio soviético, que fazia de tudo para esmagar a resistência.

Franco-Atiradora na frente oriental.

Essas mulheres guerreiras permaneceram no imaginário popular, apesar da repressão soviética. Aos poucos surgiu uma lenda urbana na Rússia sobre franco-atiradoras mercenárias letas combatendo as tropas soviéticas na década de 80, as baltās zeķbikses (“Meias-Calças Brancas”). Real ou não, a lenda persiste até os dias de hoje, principalmente após o canal de televisão russo “Life” (Лайф) reportar as míticas franco-atiradoras na Ucrânia.

Além disso, após a guerra, o Reino Unido criou o programa “Baltic Swans” (Baltijas gulbēni) – com o objetivo de receber 5.000 doutoras e enfermeiras letas que estavam fugindo do domínio soviético. Esse episódio pouco conhecido da história leta aparecerá na série Sarkanais mežs, que estreará esse ano.

Atualmente

A Letônia ainda exporta muitos nomes femininos famosos – principalmente nos esportes. Elizabete Limanovska e Nava Starr são duas campeãs que seguram títulos de xadrez. Uļjana Semjonova (com imensos 2,15m de altura) dominou o cenário de basquete mundial durante os anos 70 e 80. Jeļena Ostapenko esteve nas notícias recentemente, ao conquistar o Grand Slam de Tênis.

Uljana Semjonova (atrás) roubando a bola da italiana Stefania Passaro.

Além disso, o mundo das artes é dominado por mulheres. A mezzo-soprano Elīna Garanča conquistou o mundo das óperas, enquanto a violinista Baiba Skride viaja continentes com Filarmônicas famosas. A diretora de cinema Laila Pakalniņa está sempre competindo em Cannes, Veneza e outros festivais. Outra estrela recente é a jovem de 16 anos Aleksandra Špicberga, que recebeu o prêmio de melhor vocalista da Europa em 2015.

Não podemos deixar de citar o crescente número de mulheres no poder. 56% das administradoras e gerentes da Letônia são mulheres, superando todos os países da Europa. Além disso, A Presidente mais famosa e amada da Letônia é uma mulher, Vaira Vike-Freiberga. O recém-eleito parlamento é 31% feminino, superando a média européia de 29,7%.

Nas ciências, as mulheres são 60% das estudantes de medicina (1º lugar da Europa), 52% das pesquisadoras e 65,2% das graduandas.

Vaira passou grande parte da sua vida no Canadá, após sua família fugir da União Soviética.

Se engana quem acha que as mulheres letas-brasileiras são muito diferentes. Não é a toa que o Grande Coral do I Festival de Cultura Leta foi dominado quase inteiramente por mulheres e regentes femininas. Elas também possuem uma boa bagagem na história do Brasil, mas isso é um artigo para outro dia…

Sveicam sieviešu dienā!

O que é Saeima?

Se você já procurou ler algo da política da Letônia já deve ter lido este nome. A Letônia é um estado soberano, uma república democrática parlamentarista. Isso significa que não está sob o controle de outro estado, que o poder na Letônia pertence ao povo, significa que o poder legislativo pertence ao parlamento.  Este eleito pelo direito de voto dos cidadãos da Letônia. 

O nome do Parlamento da República da Letônia desde 1922 é Saeima, que significa “reunião”, “conselho”. (Sapulce). O nome “Saeima” é linguisticamente distinto e não possui nenhum vínculo histórico com seus correspondentes lituanos e poloneses.

Em contraste com o Brasil, que possui um poder Legislativo bicameral (Câmara baixa e a Câmara alta – a Câmara dos Deputados e o Senado, respectivamente). A Letônia é unicameral, ou seja, a legislatura é formada apenas pelo Parlamento, assim como a Dinamarca e Finlândia, por exemplo.

Uma sessão do Parlamento

O parlamento é constituído por 100 membros eleitos em representação proporcional, do voto popular. As eleições estão programadas para serem realizadas uma vez a cada quatro anos, normalmente no primeiro sábado de outubro. As eleições mais recentes foram realizadas em outubro de 2014. Os deputados são eleitos para representar um dos cinco círculos eleitorais: Kurzeme (13 deputados), Latgale (15 deputados), Riga (30 deputados), Vidzeme (27 deputados) e Zemgale (15 deputados).

O parlamento possui um “Porta-voz”, também chamado de “Presidente”, que mantém a ordem durante as sessões plenárias, bem como garante que a sessão seja realizada de acordo com o Regulamento Interno. Atualmente Ināra Mūrniece ocupa o cargo, ela foi eleita presidente do Saeima da República da Letônia em 4 de novembro de 2014. Ela representa a Nacionālā apvienība.

Antes de se envolver em política, durante 16 anos Ināra Mūrniece trabalhou na redação do maior jornal diário, Latvijas Avīze, reportando assuntos internos e assuntos de política externa, ela é formada em tradução. Em 2009, ela se formou na Faculdade de Línguas Modernas da Universidade da Letônia 

Mesa de reuniões do “Sarkanā zāle”

O que o Parlamento faz?

A principal tarefa do parlamento é adotar leis. Projetos de lei podem ser submetidos pelo Presidente, Ministros, Comissões e deputados. Além disso, os eleitores – cidadãos da Letônia – podem também apresentar projetos de lei.

Assim como no Brasil, O Saeima pode eleger, aprovar, indicar, liberar e dispensar muitos dos funcionários públicos – Presidente do Estado, membros do Governo, Presidente do Supremo Tribunal, juízes, presidente do Banco da Letónia, e outros funcionários. Os deputados de Saeima se reúnem com autoridades e delegações internacionais. O Saeima coopera com os parlamentos de outros países, pois  é um membro de organizações parlamentares internacionais.

Detalhes de Art Noveau

HISTORIA DO EDIFICIO

O edifício principal agora ocupado pelo Saeima foi construído entre 1863 e 1867 uma época em que partes da atual Letônia eram administradas pelo Império Russo para as necessidades da Cavalaria da Livônia que incluía a atual região norte da Letônia e uma grande parte do sul da Estônia, de acordo com o projeto feito por Robert Pflug, um arquiteto báltico-alemão, e Jānis Baumanis, o primeiro arquiteto letão educado academicamente. O exterior e o interior foram acabados em estilo eclético.

Depois que o Conselho do Povo declarou a independência da Letônia em 18 de novembro de 1918, o edifício serviu de casa, exceto pelo período durante 1919, quando o Congresso dos Deputados Operários Soviéticos da República Socialista Soviética da Letônia controlava Riga. Depois que a república socialista foi derrotada, o edifício tornou-se a sede da Assembléia Constituinte eleita em 1920. Em 17 de outubro de 1921, o prédio foi destruído pelo fogo. Foi restaurado de acordo com o projeto do arquiteto Eižens Laube. A restauração incluiu uma nova estátua do escultor Rihards Maurs de Lāčplēsis, o “matador de ursos”, substituindo a estátua de von Plettenberg, que foi destruída no incêndio. No momento da restauração do edifício, o salão principal foi modificado para atender às necessidades do Saeima da nova República da Letônia. A câmara de Saeima hoje ainda se aproxima deste projeto. A última reunião da Assembleia Constitucional, que escreveu a Constituição da Letonia, teve lugar no edifício restaurado em 3 de novembro de 1922.

Este slideshow necessita de JavaScript.

OCUPAÇAO

Durante a Segunda Guerra Mundial, depois que a Letônia foi ocupada, o prédio era o local do Conselho Supremo da República Soviética Socialista da Letônia sob os soviéticos e a sede da polícia para os territórios orientais sob a Alemanha nazista.

A Letônia permaneceu sob ocupação soviética após a guerra e o prédio serviu como local do Supremo Conselho Soviético da Letônia por quase meio século. No início dos anos 80, um dos pátios interiores foi murado para expandir o espaço do edifício, esta parte do edifício é agora conhecida como a Sala de Votação.

RESTAURAÇAO DA INDEPENDENCIA

Após a restauração da independência em 4 de maio de 1990, o prédio abrigava o Conselho Supremo da República da Letônia, que funcionava como um parlamento provisório até que a Constituição fosse restabelecida com a eleição do próximo Saeima. Desde 1993, é novamente o lar do parlamento da Letonia.

Faça uma visita!

Como visitar o Saeima?

Jēkaba ​​iela, Riga.

Excursões para o Saeima

Qualquer um pode visitar o Saeima conheça o seu trabalho diário. Todos podem se familiarizar com a arquitetura e a história do edifício Saeima.

  • As excursões para o Saeima ocorrem nos dias úteis das 09:00 h às 16:30 h.
  • Excursões são gratuitas.

Às quintas-feiras, os participantes do passeio a partir das 9h30 podem assistir à sessão do Saeima e observe o trabalho dos membros nele.

  • Cada passeio dura cerca de uma hora.

Os visitantes devem levar um documento de identificação pessoal. O documento da Casa Saeima deve ser apresentado ao guarda de segurança do Saeima. Os visitantes devem passar por uma verificação de segurança. No edifício Saeima é possível fotografar e filmar.

Há a possibilidade de um tour online por meio do link:

http://www.saeima.lv/Informacija/Ekskursija_EN/saeima.swf

Você deve se inscrever pelos telefones 67087485, 67087483 ou pelo e-mail: ekskursijas@saeima.lv.