Semana da Pátria

Nos anos de 2016 e 2017 tive as ocasiões de ir para a Letônia, e as condições climáticas sempre me fascinaram em minhas viagens, em especial, o mês de Novembro, com o término do Outono e o início do Inverno. E ao desembarcar em um país europeu você terá certeza sobre qual estação do ano você está, pois as estações no hemisfério norte são muito bem definidas.

Para muitos de nós, Leto-Brasileiros, viajar para a Letônia no inverno, é um assunto um tanto assustador, pois diferente do “Verão Anual Brasileiro” a Letônia na maior parte do ano oferece temperaturas mais baixas do que em relação ao hemisfério Sul.

Por algumas semanas antes de embarcar, minha preocupação com o frio, não era diferente. O mês de Novembro é um dos meses mais sombrios e melancólicos do ano em partes da Europa, No entanto, para a Letônia e seu povo, é um momento de lembrança e celebração alegre, pois em Novembro é o mês das festividades da independência, e o período entre os dias 11/11 a 18/11, que é chamada de semana patriótica, ou semana da pátria.

Independente do cansaço da viagem, desembarquei em Riga com um sorriso no rosto, e no ônibus em direção ao centro, já reparei uma diferença, muitas árvores não tinham mais folhas nem verdes, nem laranjas, mas haviam várias bandeiras “Vermelho Branco Vermelho” hasteadas em vários pontos da cidade.

O evento que marca o Início desta semana Patriótica é a celebração do dia de “Lāčplēsis”, pois esta é a data da vitória final dos heroicos soldados da Letônia sobre o exército de “Bermondt” em 11 de novembro de 1919. Homenagens são realizadas em memória dos soldados que deram suas vidas pela liberdade da Letônia.

Há muito para o que se ver, desde “serviço devocional” na Catedral de Riga, homenagem com flores no cemitério dos soldados, Parada militar no monumento da liberdade, e o mais esperado por todos, acender velas de cores vermelhas e brancas no castelo de Riga e no monumento da liberdade.

“Mar de velas” ao lado do Castelo de Riga
Baiba Mekss, Laima Dimanta, Lucas Stepanow

 

 

 

 

 

 

 

11/11/2017

 

O Dia é um lembrete para cada cidadão, de que não se nasce um herói, porém se torna um herói por meio da coragem, e a lembrança de permanecerem vigilantes e proteger a independência do País todos os dias. Então, o 11 de novembro oferece uma boa oportunidade para que todos possam olhar para o próprio coração e se perguntarem: O que posso fazer para minha família, meu povo e nosso país?!

No decorrer da semana há vários concertos e corais se apresentando em Igrejas, Catedrais, e nos centros culturais, muitos desses eventos são de graça ao público. Outros artistas também escolhem as datas de inverno para fazerem suas apresentações musicais. Nesta semana em especial, muitos Letos usam também uma pequena fita nas cores da bandeira da Letônia em formato “V”, preso próximo do coração. Este símbolo traz a mensagem de vitória e que a “Letônia está no meu coração, não importa onde eu vá!”.  

Por vários anos as comunidades Letas ao redor do mundo se reúnem no dia 18 de Novembro para terem um tempo de comunhão em memória da terra natal. E vários anos eu me reuni com meus pais e outros Letos de Nova Odessa para ouvir o coral. E nunca imaginei que estaria em Riga dia 18 de Novembro de 2017, no 99 (nonagésimo nono) aniversário da Letônia, foi algo mágico, pela quantidade de coisas a presenciar em apenas 1 dia.

Logo pela manhã no dia 18 de novembro, houve uma grande parada militar na Krastmala, uma larga avenida na margem do Rio Daugava, com a presença de componentes Navais, Terrestres, aéreo, força militar e políticos como a do Presidente, Ministro da Defesa, e outros do parlamento.

No começo da noite por volta das 19:00, houve o “Lapu Gajiens”, uma caminhada com centenas de pessoas com tochas de fogo, marchando do monumento do ex-presidente Karlis Ulmanis, até o monumento da liberdade.

Desde a declaração da independência em 1918, a Letônia teve nove presidentes, cujos discursos ao lado do monumento da liberdade se tornaram tradição e indispensáveis para a celebração de cada ano na Letônia livre. Discursos estes, que são patrióticos e encorajadores a nação, o atual presidente Raimonds Vejonis, disse em seu discurso: “Vocês são os heróis que tornam nosso país mais forte e seguro a cada dia – vocês são a Letônia! Somos a Letônia! Deixe-nos agradecer e dizer alto em nossos corações. Celebramos livremente este dia com gratidão, felicidade e amor uns com os outros a nossa pátria!”

                          

 

Na semana patriótica também ocorre o “Staro Riga”, um festival de luzes e sons, vários edifícios ganham artes visuais. Até o monumento da liberdade, que após o discurso patriótico do presidente, houve uma arte visual com a música “Dvēseles Dziesma” (Canção da Alma) composta por Ēriks Ešenvalds.

        

E para finalizar com chave de ouro, as 21:00 na Krastmala, acontece a canção do hino nacional “Dievs Svētī Latviju” e a queima de fogos.

 

 

“Para os Letos, acreditar na Letônia é amar seu país. Ela precisa de nossa fé e amor. Porque sem isso, a Letônia não pode existir “,

Vaira Vīķe-Freiberga

O que é Saeima?

Se você já procurou ler algo da política da Letônia já deve ter lido este nome. A Letônia é um estado soberano, uma república democrática parlamentarista. Isso significa que não está sob o controle de outro estado, que o poder na Letônia pertence ao povo, significa que o poder legislativo pertence ao parlamento.  Este eleito pelo direito de voto dos cidadãos da Letônia. 

O nome do Parlamento da República da Letônia desde 1922 é Saeima, que significa “reunião”, “conselho”. (Sapulce). O nome “Saeima” é linguisticamente distinto e não possui nenhum vínculo histórico com seus correspondentes lituanos e poloneses.

Em contraste com o Brasil, que possui um poder Legislativo bicameral (Câmara baixa e a Câmara alta – a Câmara dos Deputados e o Senado, respectivamente). A Letônia é unicameral, ou seja, a legislatura é formada apenas pelo Parlamento, assim como a Dinamarca e Finlândia, por exemplo.

Uma sessão do Parlamento

O parlamento é constituído por 100 membros eleitos em representação proporcional, do voto popular. As eleições estão programadas para serem realizadas uma vez a cada quatro anos, normalmente no primeiro sábado de outubro. As eleições mais recentes foram realizadas em outubro de 2014. Os deputados são eleitos para representar um dos cinco círculos eleitorais: Kurzeme (13 deputados), Latgale (15 deputados), Riga (30 deputados), Vidzeme (27 deputados) e Zemgale (15 deputados).

O parlamento possui um “Porta-voz”, também chamado de “Presidente”, que mantém a ordem durante as sessões plenárias, bem como garante que a sessão seja realizada de acordo com o Regulamento Interno. Atualmente Ināra Mūrniece ocupa o cargo, ela foi eleita presidente do Saeima da República da Letônia em 4 de novembro de 2014. Ela representa a Nacionālā apvienība.

Antes de se envolver em política, durante 16 anos Ināra Mūrniece trabalhou na redação do maior jornal diário, Latvijas Avīze, reportando assuntos internos e assuntos de política externa, ela é formada em tradução. Em 2009, ela se formou na Faculdade de Línguas Modernas da Universidade da Letônia 

Mesa de reuniões do “Sarkanā zāle”

O que o Parlamento faz?

A principal tarefa do parlamento é adotar leis. Projetos de lei podem ser submetidos pelo Presidente, Ministros, Comissões e deputados. Além disso, os eleitores – cidadãos da Letônia – podem também apresentar projetos de lei.

Assim como no Brasil, O Saeima pode eleger, aprovar, indicar, liberar e dispensar muitos dos funcionários públicos – Presidente do Estado, membros do Governo, Presidente do Supremo Tribunal, juízes, presidente do Banco da Letónia, e outros funcionários. Os deputados de Saeima se reúnem com autoridades e delegações internacionais. O Saeima coopera com os parlamentos de outros países, pois  é um membro de organizações parlamentares internacionais.

Detalhes de Art Noveau

HISTORIA DO EDIFICIO

O edifício principal agora ocupado pelo Saeima foi construído entre 1863 e 1867 uma época em que partes da atual Letônia eram administradas pelo Império Russo para as necessidades da Cavalaria da Livônia que incluía a atual região norte da Letônia e uma grande parte do sul da Estônia, de acordo com o projeto feito por Robert Pflug, um arquiteto báltico-alemão, e Jānis Baumanis, o primeiro arquiteto letão educado academicamente. O exterior e o interior foram acabados em estilo eclético.

Depois que o Conselho do Povo declarou a independência da Letônia em 18 de novembro de 1918, o edifício serviu de casa, exceto pelo período durante 1919, quando o Congresso dos Deputados Operários Soviéticos da República Socialista Soviética da Letônia controlava Riga. Depois que a república socialista foi derrotada, o edifício tornou-se a sede da Assembléia Constituinte eleita em 1920. Em 17 de outubro de 1921, o prédio foi destruído pelo fogo. Foi restaurado de acordo com o projeto do arquiteto Eižens Laube. A restauração incluiu uma nova estátua do escultor Rihards Maurs de Lāčplēsis, o “matador de ursos”, substituindo a estátua de von Plettenberg, que foi destruída no incêndio. No momento da restauração do edifício, o salão principal foi modificado para atender às necessidades do Saeima da nova República da Letônia. A câmara de Saeima hoje ainda se aproxima deste projeto. A última reunião da Assembleia Constitucional, que escreveu a Constituição da Letonia, teve lugar no edifício restaurado em 3 de novembro de 1922.

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OCUPAÇAO

Durante a Segunda Guerra Mundial, depois que a Letônia foi ocupada, o prédio era o local do Conselho Supremo da República Soviética Socialista da Letônia sob os soviéticos e a sede da polícia para os territórios orientais sob a Alemanha nazista.

A Letônia permaneceu sob ocupação soviética após a guerra e o prédio serviu como local do Supremo Conselho Soviético da Letônia por quase meio século. No início dos anos 80, um dos pátios interiores foi murado para expandir o espaço do edifício, esta parte do edifício é agora conhecida como a Sala de Votação.

RESTAURAÇAO DA INDEPENDENCIA

Após a restauração da independência em 4 de maio de 1990, o prédio abrigava o Conselho Supremo da República da Letônia, que funcionava como um parlamento provisório até que a Constituição fosse restabelecida com a eleição do próximo Saeima. Desde 1993, é novamente o lar do parlamento da Letonia.

Faça uma visita!

Como visitar o Saeima?

Jēkaba ​​iela, Riga.

Excursões para o Saeima

Qualquer um pode visitar o Saeima conheça o seu trabalho diário. Todos podem se familiarizar com a arquitetura e a história do edifício Saeima.

  • As excursões para o Saeima ocorrem nos dias úteis das 09:00 h às 16:30 h.
  • Excursões são gratuitas.

Às quintas-feiras, os participantes do passeio a partir das 9h30 podem assistir à sessão do Saeima e observe o trabalho dos membros nele.

  • Cada passeio dura cerca de uma hora.

Os visitantes devem levar um documento de identificação pessoal. O documento da Casa Saeima deve ser apresentado ao guarda de segurança do Saeima. Os visitantes devem passar por uma verificação de segurança. No edifício Saeima é possível fotografar e filmar.

Há a possibilidade de um tour online por meio do link:

http://www.saeima.lv/Informacija/Ekskursija_EN/saeima.swf

Você deve se inscrever pelos telefones 67087485, 67087483 ou pelo e-mail: ekskursijas@saeima.lv.

13ª eleição para o parlamento Leto – Outubro de 2018

Como e porque devemos votar
A partir de informações compiladas por Ivars Ījabs, um analista político independente da 
Associação dos Letos Livres do Mundo. (PBLA)
A próxima eleição parlamentar nacional da Letônia ocorrerá no dia 06 de outubro.
A Letônia é um país democrático, assim cada cidadão tem o direito de votar nas eleições.
Em contraste com os países onde as  eleições são parlamentares e presidenciais separadas, a Letônia tem apenas uma eleição nacional, que determina o curso do governo para os próximos quatro anos. A eleição nacional da Letônia decide quais candidatos e partidos formarão o próximo governo (Saeima), eleito, o Saeima escolhe o presidente.
O sistema de votação Leto é único e a lista de candidatos e partidos é longa. É muito importante votar, pois os votos da Letónia no estrangeiro formam uma parte substancial do eleitorado. Na Letônia, onde a votação não é obrigatória, cada voto pode fazer uma grande diferença!
O parlamento (Saeima) é composto por 100 assentos  compostos pelas 5 regiões de eleitorado; cada região possui um número de assentos proporcional à população daquela região.
As regiões são Latgale, Kurzeme, Vidzeme, Zemgale e Riga. Mudanças na distribuição da população resultam em uma redistribuição. Para a próxima eleição, os números são:
Latgale (14), Kurzeme (12), Vidzeme (25), Zemgale (14), e Riga (35).
Desde as eleições anteriores, as três primeiras regiões perderam um lugar, enquanto Riga ganhou 3. Esta mudança pode ser explicada pelo fato dos votos dos letões residentes no estrangeiro estarem incluídos no eleitorado de Riga. Houve uma onda de emigração econômica nos últimos quatro anos.
Foi calculado que os letões estrangeiros têm o potencial para decidir 8 dos 100 assentos.
Isto pode fazer uma contribuição crítica para a formação e o tom do próximo governo da Letônia.
                        
O sistema de votação é baseado nas preferências partidárias. Há um boletim de voto separado para cada partido. Cada eleitor recebe um envelope de voto e vários boletins de voto, um para cada um dos participantes. O eleitor escolhe um dos boletins de voto, que é depois colocado no envelope e na urna. Os boletins de votos restantes são descartados. Antes de colocar o boletim de voto escolhido no envelope e na urna, o eleitor pode marcá-lo para indicar preferências entre os candidatos listados; isto influenciará se um determinado candidato na folha de preferência do partido realmente acaba com um assento no Saeima.
Um sinal de mais ao lado do nome do candidato indica um deslocamento positivo para esse candidato, uma linha através do nome do candidato move o candidato para baixo na lista.
Os que estão no topo da a lista entram no “Saeima”.
           
Partidos políticos
Existem muitos pequenos partidos políticos na Letônia. Para serem incluídos na eleição, os partidos devem  ter pelo menos 500 membros e já terem sido formados há 1 ano antes da data da eleição. Para entrar no Saeima, um partido político tem que pesquisar pelo menos 5% dos votos.
Para aumentar as chances de os candidatos de um pequeno partido ganharem assentos no Saeima, eles acordam com outro pequeno partido (ou partidos). Quando isto acontece, e uma parte combinada é formada, é interessante conhecer as políticas e ações de suas partes constituintes, antes de tomar uma decisão. A lista de candidatos para a eleição será finalizada no final de julho.
Aqui segue um breve resumo dos principais partidos. É mais provável que os principais intervenientes na próxima eleição letã sejam três partidos que já têm um histórico.
Estes são:
•    Social-democrata “Saskaņa”, 
•  “Zaļo um Zemnieku Savienība ”[ZZS] (União dos Agricultores Verdes) 
•  “Nacionālā Apvienība” (União Nacional) 
“Saskaņa” ocupa o maior número de assentos no parlamento desde 2010, mas não faz parte do governo. A principal base de apoio de “Saskaņa” é a população falante do russo da Letônia, mas também ganha votos de letões étnicos. O partido é ideologicamente diferente de todos os outros à medida que é contra o Letão ser a oficial língua da Letónia; tem uma postura pró-
soviética sobre a ocupação da Letônia e tem tendências geopolíticas pró-russas. Devido
a estas diferenças ideológicas básicas, é altamente improvável que “Saskaņa” seria capaz de formar uma aliança com qualquer uma das outras partes, por isso é mais provável que eles voltem a estar na oposição nesta eleição.
Zaļo un Zemnieku Savienība (ZZS) é atualmente o principal partido de governo da Letônia. Tem as suas raízes em áreas regionais fora de Riga e muitos dos seus candidatos são políticos do governo local. Este partido não tem uma base ideológica específica, mas confia no desejo pós-soviético por um “bom e honesto administrador” e também tem a
capacidade de atrair candidatos populares. Como o principal partido político no atual governo, ele foi responsável por iniciar as recentes reformas na área tributária e de saúde. Apesar de alguns de seus membros flertarem com a retórica antiocidental e antiamericana, é pouco provável
formar uma coalizão com “Saskaņā”.
A base de apoio para Nacionālā Apvienība é aquela para quem o letão-russo considera o
relacionamento de extrema importância. NA ostenta uma série de políticos populares e seus apoiantes parecem despreocupados com o crescente número de alegações de corrupção, nivelados com seus representantes.
“Vienotība” ganhou o segundo lugar nas eleições anteriores, mas agora caiu para 3-4% em classificações; portanto, poderiam estar completamente fora do próximo governo. Esta queda de classificações pode ser explicada pela incapacidade do partido de superar suas diferenças internas. Perdeu uma faixa de políticos, mas manteve um número de candidatos experientes e populares que trazem consigo uma sólida base de apoio. As políticas de “Vienotība” são européias, centradas e tecnocráticas. Não há garantia de que eles terão apoio suficiente para obter
assentos no próximo Saeima.
“Jaunā Konservatīvā partija” tem muito em comum com “Vienotība”. Seu foco atual é
anti-corrupção, que ele está buscando efetivamente. JKP não é um novo partido, mas foi vitalizado por candidatos novos e enérgicos, incluindo os defensores dos direitos humanos. Apesar de sua energia e excelentes habilidades de comunicação, eles não têm experiência política.
“Attīstībai / Par” é um novo partido, na esperança de atrair o eleitorado liberal de “Vienotības”. É liderado por políticos competentes, com experiência no governo. É apoiado predominantemente por eleitores jovens, educados e orientados para a Europa. As fraquezas deste partido são que
alguns de seus políticos são contaminados por relações públicas anteriores e que a esquerda ocidental nas políticas são muito populares na Letônia.
O KPV.LV é basicamente um partido de um homem só, liderado por Artus Kaimiņš.
Ele baseou sua carreira na política em apontar as falhas da elite existente do sistema, mas ainda está para fornecer políticas alternativas para lidar com essas falhas.
Latvijas Reģionu apvienība (União Regional da Letónia) é um aliado independente do ZZS,
que também atraiu alguns candidatos interessantes.
Latvijas Krievu savienība (União Russa da Letônia) é um partido abertamente pró-Moscow, que atrai o setor pró-russo radical do eleitorado. Este partido vê “Saskaņa” como sendo muito ocidental e conformista.

Filme leto da era soviética no festival de Cannes

   Četri balti krekli (“Quatro Camisas Brancas”) é um filme revolucionário, mas sutilmente crítico. Marcou uma juventude perdida pela censura soviética na Letônia. Originalmente publicado como Elpojiet dziļi (“Respire fundo”) em 1967, foi censurado e só exibido oficialmente em 1986. O filme é a marca de uma juventude não conformada e perdida para a opressão soviética na Letônia, e ironicamente retrata a censura e a proibição de obras de arte na época. Dirigido por Rolands Kalniņš, o filme é inspirado na peça Trīspadsmitā do dramaturgo leto Gunārs Priede, estrelando Uldis Pūcītis, Līga Liepiņa, Dina Kuple, Pauls Butkēvičs e outros.

   A quintessência do filme  é a busca por inovação, liberdade artística, e não-conformismo dos jovens.  A história gira em torno do jovem Cēzars Kalniņš, que é apaixonado pro música nas horas vagas, ele e sua banda “Optimisti” (Otimistas) tocam suas músicas. Em uma apresentação em um bar local, a comissária cultural (empregados do governo soviético responsáveis por “avaliar” o conteúdo das artes) Anita Sondore escreve um artigo ultrajante sobre a “frivolidade” das músicas do grupo e como eles não são adequados a juventude. A opinião de Sondere começa a mudar quando ela conhece Cēzars, mas o estrago já estava feito e seu artigo chega às autoridades. Uma reunião é feita e é decidido negar a liberdade ao grupo. O conflito é agravado entre Cēzars e seus colegas de banda, que preferem alterar o significado das músicas para aplacar as autoridades.

    O filme volta a ser estrelado na programação de clássicos do famoso festival de cinema de Cannes, em 2018, 51 anos após seu lançamento. Teóricos do cinema são fascinados pelo espírito vanguardista do filme e sua atenção as tendências dos anos 60, juntamente com o movimento francês Nouvelle Vague (New Wave).  “De uma certa forma, o fato que o filme de Rolands Kalniņš está incluso no programa dos (filmes) clássicos do festival de cinema mais importante do mundo testifica a aceitação mundial do movimento New Wave leto”, disse Dita Rietuma, crítica de cinema e diretora do Centro Nacional de Filmes da Letônia, em entrevista para a Latvian Public Broadcasting. O próprio diretor estará presente para assistir o filme

O filme completo está disponível no youtube:

Música

    A proibição do filme não foi capaz de impedir a popularidade das músicas – compostas pelo músico Imants Kalniņš no seu auge e escritas pelo poeta Māris Čaklais –  que se tornaram famosas entre os jovens da época e até inspiraram o clube de música “Četri balti krekli” em Riga. É o primeiro filme leto (e um dos primeiros de Europa) a considerar a trilha sonora e música como uma obra separada. O rock anos 60 se mistura com letras que escondem sutilezas críticas para os cidadãos conformados com a opressão da época. Preparamos uma pequena análise e tradução da música homônima do filme:

Četri balti krekli Quatro Camisas Brancas
Ja četri balti Krekli
Ir jaunam cilvēkam,
Tas iziet var caur dzīvi
Bez lielām pārdomām

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Tas pirmais –priekšniecībai
Kad vajag rādīties.
Un tad nu paša gribai
Vēl paliek nākamie.

Un tikai reiz pa reizei
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Balts krekls rīta pusē,
Bet melns jau pusdienā.
Bet trešais baltais krekls
Top uzvilkts vakarā.

Un atkal nezin kāpēc
Kāds atgādina viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām.

Var baltos kreklus mainīt,
Kā maina uzskatus.
Bet tad, kad vakars pienāks,
Tie visi melni būs.

Vai būs vēl kāda jēga
Tad atgādināt viņam,
Ka dziesma nav par krekliem,
Bet ir par sirdsapziņām? 

Se quatro camisas brancas
Tem o jovem
Ele pode passar pela vida
Sem muito pensamento.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

A primeira – para superiores
Quando você precisa aparecer.
E então é para sua vontade
Os próximos ainda estão lá.

E só de vez em quando
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Camisa branca pela manhã,
Mas já preta à tarde
Mas a terceira camisa branca
Se veste à noite

E de novo não sei porque
Alguém lembra ele
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência.

Pode mudar de camisas brancas
Como alterar as ideias
Mas a noite chegará
Todos eles serão pretos.

Haverá mais algum sentido
Em lembra-lo
Que essa música não é sobre camisas
Mas sobre consciência?

   A música traça um paralelo entre as camisas de um jovem e sua consciência ou seus princípios, e critica que há pessoas que trocam seus princípos como trocam de camisa, apenas para se favorecer. Há camisas usadas apenas para aparecer, para mostrar superioridade, há camisas que começam limpas, mas já estão sujas pelo uso, e há camisas que se vestem a noite, quando ninguém vê. De vez em quando, alguém o lembra que princípios e valores não são como camisas, mas se no final elas são todas pretas, de que adianta lembra-lo?
   Essa música reflete tanto a censura soviética e o apaziguamento dos cidadãos, que obedecem sem questionar, quanto acaba – ironicamente – criticando os colegas de banda, que desejam alterar o significado das músicas para atender à censura.

Galeria

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Biblioteca da Letônia está entre as melhores do mundo

Também conhecida como Gaismas Pils (Castelo de Luz), a Biblioteca Nacional da
Letônia (Latvijas Nacionālā bibliotēka) é um orgulho para os cidadãos do país.
Converse com algumas pessoas em Riga sobre como chegar lá e você sentirá a
reverência que os locais têm pela biblioteca. Letões têm grande respeito por livros e
leitura. Talvez seja um resquício do passado de dominação soviética, quando alguns
livros eram censurados e difíceis de conseguir. Hoje os letões têm à disposição no
Castelo de Luz – nome sugestivo –, 4,5 milhões de títulos.

Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Ieva Lūka

No ano em que o país completa 100 anos de independência, a Biblioteca da Letônia, que
foi fundada em 1919, um ano após a proclamação, está entre as finalistas do prêmio de
melhor biblioteca do ano promovido pela Feria do Livro de Londres (London Book
Fair) em parceria com a Associação de Editores do Reino Unido. Ela concorre com
outras três bibliotecas: da Noruega, da Dinamarca e de São Paulo, que foi aberta em
2010, na área da antiga penitenciária do Carandiru e que conta com um acervo de 43 mil
títulos.
Mas a intenção da London Book Fair é premiar bibliotecas que, muito mais que títulos,
ofereçam um incentivo a mais à leitura e à cultura. Na Biblioteca da Letônia, os
usuários têm acesso a coleções especiais, livros raros, manuscritos, coleções,
Enciclopédia da Letônia, Biblioteca Central Báltica, mapas, partituras, gravações de
som, publicações gráficas, efemérides e periódicos, além de promover eventos culturais,
como música, teatro e exposições.
A biblioteca também publica livros e organiza a digitalização da Herança Cultural da
Letônia. Sem contar que ela abriga um tesouro nacional: o Armário de Canções
Populares (Dainu skapis), localizado no quinto andar e que contém manuscritos de
canções folclóricas de toda a Letônia, estando listado no Registro da Memória do
Mundo da UNESCO.

Dainu Skāpis.
Foto: Evija Trifānova

Essas canções folclóricas, conhecidas como Latvju dainas, foram organizadas e
coletadas por Krišjānis Barons (1835-1923) e por Johann Gottfried Herder (1744-1803).
As canções mais antigas datam de 1584 e 1632. Existem mais de 1,2 milhão de Dainas,
com referências que vão desde peças teatrais até conversas do dia a dia.
História
A Biblioteca Nacional foi fundada em 29 de agosto de 1919. O prédio original ficava na
rua Krišjāņa Barona, no centro da cidade de Riga. Hoje o prédio moderno da nova
biblioteca fica na margem esquerda do rio Daugava,
A construção do prédio novo começou em 2008. O design surpreendente foi
desenvolvido pelo arquiteto letão-americano, Gunnar Birkerts. A Biblioteca tem 13
andades e 68 metros de altura. O prédio ficou pronto em 2014, ano em que a Letônia foi
a representante da Capital Europeia da Cultura.
Uma nação de leitores

Foto: Mirela Purim
Foto: Lucas Stepanow Eksteinas
Foto: Mirela Purim

 

A Letônia é a 9ª nação mais letrada do mundo, de acordo com pesquisa da Central
Connecticut State University, em 2016. Os cinco primeiros lugares são ocupados pelos
países escandinavos: Finlândia, Noruega, Islândia, Dinamarca e Suécia. O ranking mede
os comportamentos letrados (compreensão) das populações pesquisadas e não suas
habilidades de leitura (alfabetização).
Nesta mesma pesquisa, a Letônia ficou em segundo lugar na categoria Bibliotecas da
classificação por seu grande número de bibliotecas e o número de volumes dentro delas.
Além da Biblioteca Nacional, a Letônia tem 1.670 bibliotecas:
O resultado do prêmio para a melhor biblioteca do ano será anunciado no dia 10 de abril.

Serviço
Endereço: Mūkusalas iela 3, Rīga

Contato: lnb@lnb.lv
Horários (fechada nos feriados)
segunda-feira 09:00–20:00
terça-feira 09:00–20:00
quarta-feira 09:00–20:00
quinta-feira 09:00–20:00
sexta-feira 09:00–20:00
Sábado 10:00–17:00
Domingo 10:00–17:00

Visitantes que não têm cadastro na biblioteca devem pedir autorização para entrar.
Turistas devem pagar entrada de 2 Euros e podem visitar a biblioteca acompanhados de
guia. É proibido entrar na biblioteca com bolsas e mochilas, que devem ser deixados
nos armários ao custo de 1 Euro.

Conheça a Biblioteca Nacional da Letônia por meio de um Tour virtual pelo link: http://ture.lnb.lv/

e através das fotos abaixo.

Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Sala de Leitura de Ciências Humanas e Sociais.
Foto retirada do site da Biblioteca Nacional.
Foto: Indriķis Stūrmanis
Foto: Jānis Dripe
Vista da biblioteca nacional para o rio Daugava e a cidade velha de Riga. Foto retirada do site, BNN Baltic News Network.

Escola de férias da Universidade Tecnológica de Riga

   Em julho e agosto do ano passado, tive a oportunidade de participar como bolsista de um curso de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tecnológica de Riga (RTU). A primeira vez em que soube do curso foi por um e-mail que minha mãe recebeu anunciando que abriram as inscrições. Eu fiquei interessada e fui visitar o site do programa. A proposta do curso me chamou muito a atenção: o objetivo era que o aluno, em uma semana, elaborasse um projeto e na semana seguinte o construísse. Para mim, era uma proposta completamente nova, porque nunca tivemos a oportunidade de realmente construir um de nossos projetos na faculdade – o mais perto que chegamos foi em maquetes de papelão na escala 1:1, para pequenos projetos.

   Em suma, o que a Summer School of Architecture da RTU propõe é que alunos do mundo todo se juntem em um curso de duas semanas e projetem duas instalações com ajuda de tutores. Eram dois grupos, cada qual com seus tutores e uma instalação a ser projetada e construída. Outro aspecto que me chamou atenção no curso foi a escolha dos tutores: três eram fundadores de um escritório conhecido da Letônia e os outros três eram professores de Oxford com projetos internacionais. Além disso, os dois organizadores do curso eram professores da RTU e trabalhavam na área de urbanismo em várias cidades da Letônia, especialmente em Cēsis. As atividades propostas pelo curso incluíam desde palestras com profissionais de diversas áreas, workshops a atividades como canoagem e yoga.

   Porém, como era meu primeiro ano de faculdade, eu ainda não tinha os pré-requisitos para me candidatar para participar do curso. No ano seguinte, em 2016, abriram novamente as inscrições e dessa vez eu já tinha cumprido a carga horária mínima para poder me candidatar. O processo não foi muito difícil. Era necessário enviar um currículo e uma carta motivacional em inglês, uma foto e um portfolio. O currículo deveria ter uma página, a carta deveria ter no máximo 1000 palavras ou 3 páginas, e o portfiolio só poderia ter 3 páginas, sendo que nenhum arquivo poderia ultrapassar 5 Mb. São cerca de 250 inscritos para 20 ou 30 vagas.  

   Acredito que a carta motivacional seja a chave para ser aceito ou não no curso. Conversando com a organizadora, no dia em que chegamos, ela comentou que foi a carta motivacional que teve, de fato, um peso grande na decisão. É importante que ela contenha três informações importantes: quem você é (sem repetir o seu currículo), porque você quer fazer esse curso e porque você quer uma bolsa de estudos.

   Acredito que o curso foi importante para a minha formação profissional, além de me dar a oportunidade de ir para a Letônia e fazer novos amigos. Durante o processo de elaboração do projeto, tivemos contato com vários aspectos culturais e históricos da Letônia. Além disso, durante a construção e na inauguração, muitos moradores de Cēsis – e alguns turistas – ficaram curiosos e vieram perguntar sobre o projeto e o curso. É uma experiência muito boa que recomendo para quem tiver interesse.

Passo a passo para quem quiser ir também:

  1. Entrar no site abaixo e ficar atento as inscrições.
  2. Traduzir o seu currículo e fazer ser portfolio.
  3. Iniciar o processo de inscrição na data indicada (normalmente em março ou abril).
  4. Escrever sua carta motivacional.
  5. Enviar as inscrições.

Site do programa: http://www.rtusummerschool.lv/

Meu email para tirar dúvidas: mirelathaise@gmail.com

 

Fotos por Kaspars Kursišs

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Celebração de Līgo em Riga

No ano passado fiz um estágio na Letônia e tive a oportunidade de ir a uma celebração de Līgo ou Jāņi (o Solstício de Verão, o feriado mais popular do país) em Riga, no dia 23 de junho. As festas de Līgo mais tradicionais acontecem nas cidades do interior, mas para participar você precisa ser convidado, já que são festas familiares.

Poucos letões ficam na capital durante o feriado de Jāņi. Apesar disso, todo ano duas festas de solstício de verão são realizadas em Riga para quem não pode ir para o interior: uma na praça 11.Novembra, na parte velha da cidade, com DJs, performances teatrais, dançarinos e cantores folk, e outra no parque Dzegužkalns (Colina dos Cucos), a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade, meia hora de viagem de ônibus.

Eu optei pela última festa por considerar que esta teria um clima mais bucólico, tradicional e mais perto da natureza que no centro e porque a programação de Dzegužkalns oferecia bandas folk incríveis, como Iļģi, uma das bandas mais antigas da Letônia em atividade, e Auļi, que toca tambores e gaitas de fole.  E minha escolha foi muito acertada.

No centro a festa é mais para turistas. Muitos estrangeiros também vão à celebração no parque, mas são mais estrangeiros que moram na Letônia e já estão familiarizados com a cultura local. Além de famílias letãs, encontrei pessoas da Colômbia, Chile, Espanha, Alemanha, Índia… Além disso, é grande o número de russos. Como é uma festa aberta, os russos que moram no país marcam presença. O parque é lindo e grande, com muitas árvores, flores e pássaros e um rio.

A festa começou às 20:00 e havia muito para ver e fazer. Se a Letônia é conhecida como o país da música, no dia do Solstício de Verão há ainda mais canto e dança que de costume. As músicas folclóricas eram cantadas e dançadas tanto no palco, quanto na grama. Tinha gente de todas as idades e muita comida típica e cerveja boa com preço justo. Os letões estavam todos vestidos com roupas tradicionais e as mulheres com coroas de flores naturais e os homens com coroas de folhas de carvalho. Quem nunca tinha feito uma coroa podia aprender a confeccioná-las com flores colhidas nos campos da Letônia.

Também dava para comprar artesanato e aprender danças típicas. Quem se cansasse de dançar, era só estender um pano na grama, relaxar e observar as estrelas, mas nada de dormir! Diz a tradição que no Līgo todos têm que esperar o nascer do sol acordados e quem dorme antes não vai aproveitar o verão.

Ao entardecer uma grande fogueira foi acessa no centro e a partir dela, outras menores foram alimentadas e espalhadas pelo parque para quem sentisse frio. A temperatura estava amena, mas havia um vento gelado.

A festa foi linda e muito organizada. Passei 10 horas na celebração com pessoas desconhecidas que depois de alguma conversa pareciam velhos amigos; o calor humano era cativante. Quando o sol estava nascendo subimos uma das colinas do parque com a cantoria de músicas tradicionais comandada por um casal. Já no topo eles começaram a cantar mais alto, se revezando, e quem sabia as letras acompanhava. Quando o sol já estava alto, lá pelas 06:00, todos fizeram silêncio para apreciar a vista ou fazer reflexões. Casais se abraçavam. A maior parte das crianças começava a demonstrar sinais de sono. Aos poucos a multidão foi se dispersando, cada um indo para suas casas ou para continuar a festa no centro da cidade. Meu primeiro Solstício de Verão na Letônia foi inesquecível! Não tão legítimo, é verdade, por ter sido em Riga, mas ainda, sim, mágico!

 

Texto e fotos: Maria Fernanda Gottardi