Do Gulag ao Nobel: Lidija Doroņina-Lasmane

Isto é o mais sagrado,
Não se esqueça:
Ascendendo ao céu,
Ou mergulhando nas profundezas do mar,
Dividindo a alegria com os amigos,
Ou enfrentando seus oponentes sozinho,
Você é a Letônia.
– O.Vācietis

   Sentada em sua sala, rodeada de livros e desenhos de crianças, uma senhora de grandes e expressivos olhos azuis recita, com uma voz calma e pausada, poesia para seus netos. Assim como o livro de poesia de Ojārs Vācietis, acomodado em seu colo, ela também havia sido censurada. Suas mãos rudes – fruto dos Gulags soviéticos – seguram-o com terneza, quase como se abraçassem centenas de velhos amigos, perdidos pelo totalitarismo.  

   Essa senhora de olhos azuis e voz calma é Lidija Lasmane-Doroņina. Apesar de não gostar muito dos holofotes – prefere livros e netos – há poucos na Letônia que não a conheçam. Foi a protagonista do documentário “Lidija” (2017), de Andrejs Verhoustinskis.

A Família e a Guerra

   Lidija nasceu em 28 de julho de 1925 na bucólica vila costeira de Ulmales. Sua família era batista, com três irmãos (um veio a falecer cedo) e ela cresceu em uma atmosfera de amor, que moldaria seu caminho pelo resto da vida. Lidija se batizou na igreja batista de Saka aos 13 anos, um ano antes da Segunda Guerra Mundial.

   A região de Ulmales, Kurzeme, é igual a vila descrita: plana, campestre, bucólica. Mas não seria assim por muito tempo. Em 1940, a Letônia foi ocupada pela União Soviética, que logo começou as deportações em massa de elementos “contra-revolucionários”: políticos, pastores, professores e quem mais pudesse desafiar a nova ordem.

   A situação mudou novamente quando a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética em 1941 – e com ela, a Letônia – trazendo seus aparatos de censura, perseguição e execução.

   “No outono, os nazistas vieram  e abateram todos os judeus de Pavilosta quase na frente dos nossos olhos. Havia também meus colegas de escola, a garota com quem eu brincava. Eu percebi que [o totalitarismo] era uma insanidade tão grande que se tinha que abandonar uma parte de si mesmo, sob nenhuma circunstância deveria sucumbir a ela”,  relatou Lidija ao compartilhar suas memórias.

   Em 1944, 200.000 tropas alemãs, recuando após sucessivas derrotas no front, foram cercadas pelo Exército Vermelho em Kurzeme. Sem ter para onde recuar, as tropas nazistas e o exército soviético transformaram a região em uma zona de total desolação e destruição.

A Ocupação

   A jovem Lidija decidiu que faria de tudo para salvar vidas. Em 1946 começou a estudar em uma escola de enfermagem em Riga. Nessa época, a União Soviética, após ocupar novamente a Letônia, continuou com a “limpeza” de opositores. Em novembro do mesmo ano, Lidija e sua família foram presas por abrigarem e fornecerem curativos para um grupo de letos que resistiam à ocupação.

   “Eu cresci na velha Letônia, formada com meu país e seu espírito. Eu não podia aceitar ocupação, era inteiramente contrária a minha natureza. Esses grandes países não tinham o direito de nos conquistar. Deus deu a cada um a sua terra onde morar e servi-lo.”

   Lidija e sua família foram levadas pelo serviço secreto soviético, a Tcheka (precursora da KGB) para serem interrogados na sede do serviço em Riga, na stūra māja. A jovem de 21 anos foi condenada a, no mínimo, 5 anos de prisão e mais 3 de retenção de direitos por “traição à pátria”. Seu pai foi condenado a 10 anos e sua mãe, 3 anos em um hospital psiquiátrico.

   Durante os primeiros anos de prisão, Lidija era obrigada a carregar troncos, e ficou doente com tuberculose e quase morreu. Em 1951 foi transferida para a infame prisão de Vorkuta, o maior campo de trabalhos forçados da União Soviética, onde os inimigos e dissidentes políticos eram obrigados a minerar carvão. Em 1953, o ditador soviético Stalin morreu e seu sucessor, Krushev, concedeu perdão a alguns presos políticos, entre eles, Lidija.

 

A Traficante de Livros

Lidija com alguns dos livros proibidos.

   Lidija retornou a Letônia, mas não tinha lugar para morar; sua família havia perdido tudo. Nos anos seguintes, começou a guardar e redistribuir livros que haviam sido proibidos pela censura, o que a levou a ser presa novamente em 1970. Passou dois anos na prisão feminina de Riga. “Quando fui presa, não tive medo, pois defendia algo justo. Eu tinha certeza de que eles estavam errados. Mas havia a sensação de que havia muito a se fazer, muito a planejar, mas eu estava lá, sem sentido”.

   Após sair da prisão, continuou seu trabalho com fervor ardente, recolhendo não só músicas, livros e filmes proibidos, como também memórias de outros prisioneiros políticos e exilados.

   Sua resistência trouxe a polícia secreta mais uma vez até sua porta na manhã de 6 de janeiro de 1983. Lidija reconta que o jovem que a interrogou sobre o livro que havia distribuído, Piecas Dienas (do escritor Anšlavs Eglītis), era também um leto: “O investigador me disse ‘Está escrito aqui, e você o leu e divulgou, como se a Letônia estivesse ocupada, como se em 1941 tais e tais pessoas tivessem sido deportadas. O que você pode dizer sobre isso?’ Eu digo a ele, ‘o que devo dizer sobre isso? Somos dois letos. Você não nasceu ontem e sabe bem que a Letônia está ocupada.’ Mas ele não tinha nada para dizer.”

   Lidija foi detida novamente e deportada para a Mordóvia, onde dividiu cela com outros criminosos, prostitutas e ladrões, mas nada disso jamais a fez perder a esperança. No natal, ela e outros prisioneiros cortavam panos verdes para simular pinheiros e todos os prisioneiros entoavam os hinos que lembravam. “Eu nunca senti ódio por aqueles que me torturaram. Absolutamente não. Fiquei com vergonha deles porque me humilharam”, conta Lidjia.

   Em 1987, Lidija e outros prisioneiros foram perdoados no Glasnost de Gorbachev. Lidija visitou a Suécia e viu centenas de refugiados letos cantando hinos proibidos e segurando fotos de prisioneiros políticos, inclusive fotos suas.

A Vitória

   Depois da independência, Lidija começou a visitar antigos lugares da KGB e recolher documentos de assassinatos e execuções. Ela conta que uma vez achou entre os documentos a foto do delator que possibilitou sua prisão: “como pode fazer isso? Ele morreu e eu não pude saber. Se pudéssemos falar, poderíamos nos reconciliar. É fácil perdoar na mente, mas, para sentir isso no coração, foi necessário tempo”.

   Lidija participou ativamente do Centro de Documentação do Totalitarismo, atendendo também outras vítimas de perseguição. Em 1994, ela foi premiada com a Ordem das Três Estrelas (Triju Zvaigžņu ordenis) pelo seu trabalho, mas decidiu recusar. Segundo ela, há prêmios muito maiores do que medalhas.

   Participou também do trabalho “Akcija dzīvībai”, em que atendia mulheres afligidas com gravidez indesejada, muitas vezes sofrendo também de depressão e estigma social. Por sua luta contra totalitarismo e seus trabalhos, Lidija é uma das indicadas para o prêmio Nobel da Paz de 2018.

   “Hoje posso cantar de coração: Dievs, svētī Latviju! Eu tenho uma filha e três netos, mas também inúmeros outros ‘netos’ pelo mundo que buscam justiça. Eu tenho uma igreja maravilhosa, e moro em um país livre, a Letônia. Espero que agora as pessoas aprendam a amar uns ao outros, não importem as circunstâncias. E espero que aqueles que estão no poder saibam usá-lo com sabedoria”.

Lidija em sua igreja em Riga, a Mateja Baptistu Draudze

———–

Trechos retirados do periódico “Tikšanās”, de dezembro de 2001 a janeiro de 2009. Traduzidos livremente por Andreis Purim.

Leia também nosso artigo sobre o Livro “Eu queria tanto ainda viver”

Minha Saga Letoniana

Existe um dizer de que as nossas vidas duram trezentos anos. Elas começam cem anos antes de nosso nascimento e terminam cem anos após a nossa morte, afinal as ações das pessoas daquele período ou determinam quem somos, ou somos nós que as determinamos. No entanto, por décadas após a guerra, os autores e vítimas do capítulo mais obscuro da Europa do Século XX, foram incapazes de falar sobre suas experiências. Nós os observamos, nós os testemunhamos, nós os amamos, às vezes nos até os desgostamos. Mas eles sempre nos deixaram uma marca profunda, eles nos fizeram. Contudo, nós não entendemos ao certo quem eles realmente foram e, portanto, nós não entendemos quem nós somos.

– Roxana Spicer – The traitor’s daughter

   Há algum tempo passei a procurar sobre minhas origens.  Porém, existia uma lacuna na história da minha vida que não conseguia preencher. Pensava em várias hipóteses, mas não encontrava o caminho. Esta janela perdida no tempo estava diretamente relacionada com a tragédia humana da Segunda Guerra Mundial.

   Pesquisar sobre a família dos meus avós paternos, de origem portuguesa e já fincada no Brasil há séculos, foi fácil. Existe até um livro para contar as histórias de “Lagoa dos Gatos” e de Garanhuns, região onde faz frio no interior de Pernambuco e que tem fama pelos seus festivais de inverno. Minha avó paterna, escritora e poetisa, nasceu em Bezerros, cidade do agreste e famosa pelo carnaval de rua.

   A origem da minha avó materna também não foi difícil de ser levantada. Ela é neta de italianos e seu pai era um comerciante, do qual herdei alguns réis para a minha coleção de moedas. É possível, até, rastrear a época em que meus tataravós chegaram ao Brasil e se instalaram em Tremembé – SP.

   Já a história do meu avô materno era um mistério. Eu nunca soube muito sobre o seu passado. Quando era criança adorava ir a sua oficina brincar com as caixas de ferramentas. Naquela época, não fazia ideia sobre o seu país de origem, somente que ele tinha um sotaque engraçado. Infelizmente, não tivemos tempo suficiente de convivência para eu poder lhe perguntar sobre sua descendência, pois meu avô faleceu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Tudo o que sabia era que ele tinha vindo para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

   Em histórias de guerra, qualquer que seja o conflito, sempre é questionado qual foi o papel de uma pessoa e o que aconteceu com ela e sua família. Quando perguntava para a minha mãe a respeito, ela me contava as histórias da terra natal de seu pai com apenas pequenos fragmentos de sua vida. Dentre estes fatos, estavam momentos interessantes como quando ele atravessava um rio congelado para ir à escola,  ou quando andava descalço para não gastar o único par de sapatos que tinha.  Meu avô costumava cantar músicas folclóricas letas, como “Kur tu teci”, para os meus tios, mas nunca falava sobre a guerra. O único comentário que consigo me lembrar era que, entre as ruínas, os soldados pegavam objetos abandonados no caminho, apenas para largá-los posteriormente, pois não havia para onde levá-los. Não havia mais casa.

   Em 2004, quando a Letônia entrou na União Européia, fiz contato com o então Cônsul da Letônia no Brasil, João Grimberg. Na época, ele me disse que não havia nenhum processo em aberto para a emissão de passaporte leto para descendentes brasileiros, mas me orientou a checar essa informação de tempos em tempos para ver se algo mudava. E foi o que fiz.

   Em abril de 2015, me comuniquei com a atual Cônsul da Letônia no Brasil, a Sra. Daina Gutmanis, que me direcionou sobre o que era necessário para a solicitação da cidadania leta. Eu poderia dar entrada no processo mas, para isso, precisaria de alguma evidência, algum documento original, provando que meu avô era da Letônia. Ela me enviou uma lista de tudo o que precisava reunir e os dados do Departamento de Registro Civil da Letônia, o Dzimtsarakstu Departamenta Arhivs, que poderia me ajudar a encontrar algum dado sobre a origem de meu avô. Começava aí a minha saga báltica.

   Enquanto buscava um registro, estudei um pouco de história para entender em qual situação meu avô se encontrava durante sua juventude e levantei alguns fatos significativos: em 1934, a Letônia sofreu um golpe de Estado, tornando-se uma ditadura até 1940 e os alemães haviam sido expulsos de lá. Em 1939, o país foi forçado a aceitar um pacto de assistência à União Soviética. Até 1941, os soviéticos anexaram o território e muitos soldados e civis letonianos foram presos, mortos ou desertaram. Em Julho de 1941, os alemães invadiram a região e a ocupação durou até 1945.

   Logo no primeiro ano, o Holocausto matou 100 mil cidadãos na Letônia. Em 1943, Hitler ordenou o recrutamento de 180 mil homens letos para as forças auxiliares alemãs, os Legionários da Letônia. Os soldados da Letônia lutaram em lados opostos, a favor de alemães e russos e, na sua maior parte, contra suas próprias vontades. Existiu também um grupo chamado “Meža Brāļi” (Irmãos da Floresta) que tentou resistir de forma independente contra as duas forças. Esta era uma guerrilha que lutou encurralada nas florestas, em número inferior, com menos recursos e da qual morreram muitos heróis.

   O fato é que, de forma voluntária ou forçada, os letos estavam divididos na guerra. Inclusive, algumas batalhas eram travadas sob o comando letão em ambos os lados. Foram tempos terríveis. Li histórias como a dos irmãos Dums, que, apesar do vínculo familiar, foram obrigados a lutar em lados opostos.

   Mas a dúvida persistia: onde se encaixava meu avô nessa narrativa? Ainda não tinha nenhuma pista e, em busca de conhecimento, segui com meus estudos.

   Por curiosidade, procurei saber sobre a cultura do país e suas pessoas ilustres. Para a minha agradável surpresa, grande mentes saíram da Letônia. Lá foi descoberto o ácido cítrico (revolucionário na indústria alimentícia, higiênica e médica); de lá veio o homem que ajudou Levi Strauss a desenvolver o seu famoso jeans; lá foi desenvolvido o primeiro foguete com propulsão a óleo. O revolucionário da montagem do cinema, Sergejs Eisenstein, nasceu em Riga, assim como o famoso dançarino Baryshnikov. Aquela mini-câmera que todo espião usava, a “Minox”, era fabricada na Letônia e foi inventada por Walter Zapp. No esporte, representam a Letônia o famoso jogador de hockey da NHL Sandis Ozolins e o jogador de basquete Kristaps Porzingis da NBA. E por aí vai.

   Li sobre a cronologia do país, passando por Terra Mariana, Livonia, Cavaleiros Teutônicos, Liga Hanseática, a influência alemã, Reino da Polônia-Lituânia, Império Sueco, Império Russo, a independência por vinte e poucos anos, os bolcheviques, os nazistas, a União Soviética até chegar em 1991. Assisti vídeos sobre suas tradições culturais, religiosas e sociais e fui absorvendo, pouco a pouco, a sua riqueza histórica.

   Pesquisei em documentos, vi filmes e vídeos sobre pessoas, que como eu, procuravam por sua origem. Destaca-se o filme “Um passaporte húngaro” (2001), de Sandra Kogut, e a história da filha de uma espiã russa (Roxana Spicer) investigando o passado de sua mãe, “The traitor’s daughter”, de onde tirei o primeiro parágrafo deste texto. Me identifiquei com aquela citação pois realmente acho que vivemos mais do que os nossos dias mortais por meio de nosso sangue e tradição; assim como já existíamos antes mesmo de nosso nascimento, por conta deste elo.

   Mesmo com tanto estudo, ainda me faltavam dados sobre meu avô, Nikolajs. Eu precisava de algo mais concreto para avançar.

   Na Cédula de Identidade de Estrangeiro, emitida no Brasil, que minha avó me entregou, tinham os seguintes dados sobre ele: nome, nome dos pais e data de nascimento (02 de Março de 1926). De acordo com esse documento, meus bisavós eram Lina Butkus e Frocis Kavalieris.

A Cédula de Identidade de Estrangeiro

   Pesquisei em seguida, nos sites de busca de família http://ancestry.com/, www.myheritage.com.br e http://forebears.io/, e descobri um documento emitido na data em que meu avô chegou ao Brasil, em 1947. Este documento mostrava, pela primeira vez, o seu local de nascimento: Priekule.

   Assim, obtive a informação necessária para enviar meu pedido ao Registro Civil na Letônia, na esperança de achar algum documento original de meu avô. A atendente do Departamento do Registro Civil informou que seria dada uma resposta sobre a rastreabilidade do documento em duas ou três semanas. A única coisa que poderia dar errado, segundo a agente, é que durante e após a guerra muitos arquivos haviam sido queimados. Se o nome do meu avô tivesse sido apagado em algum momento, minha busca teria fim.

   Para minha sorte, o Departamento de Registro Civil da Letônia me enviou um e-mail, em junho de 2015, confirmando que haviam encontrado o registro de meu avô. Eles me enviaram um documento equivalente à sua Certidão de Nascimento, que, por obra do destino, acabou chegando no dia do aniversário da minha mãe, um belo presente. No papel estava escrito o nome “Koļa”, sem nenhum sinal de Nikolajs. Achei estranho e comentei à minha mãe, que me respondeu emocionada: “Meu pai sempre falou que este era o apelido dele!” Mal sabia eu que Koļa é o diminutivo de Nikolajs. Outro ponto que divergia das informações anteriores eram os nomes dos meus bisavós: Karoline Butkus Kavaliere (nascida na Lituânia) e Francis Fridrihs Kavalieris (nascido na Letônia). A partir desta Certidão, finalmente, eu tinha todos os documentos que precisava para enviar a minha solicitação da cidadania leta.

   O Cartão de Imigração que havia encontrado tinha outra pista muito importante: o local da última residência de meu avô – Bad Salzuflen, no norte da Alemanha. Esta observação me deixou quase certo de que meu avô tinha sido um soldado Legionário Leto que teve que fugir dos soviéticos e acabou em um Campo de Refugiados na Alemanha no final da guerra. Ele tinha apenas 17 anos em 1943, quando os alemães forçadamente recrutaram jovens letos para lutar contra o exército vermelho. Depois, acabei perguntando sobre isso à minha avó, que me confirmou que ele teve um breve momento no exército alemão durante a guerra, sem mais detalhes.

   Os Legionários da Letônia lutaram contra os russos e, após a guerra, conseguiram fugir da repressão soviética. Eles foram parar, em grande parte, na Alemanha, Áustria e Itália. Ao serem rendidos pelos Aliados, foram condenados a viver em exílio por longos anos. A terra natal estava perdida e, muitas vezes, os amigos e familiares também. Em 1947 a UNRRA (United Nations Relief and Rehabilitation Administration) igualou os Legionários da Letônia aos soldados da Wermacht, forças armadas alemãs. Contudo, os Legionários letos não participaram de nenhum crime de guerra.

   Em 1950, o Congresso dos Estados Unidos declarou que as Unidades Bálticas da Waffen SS combatiam por ideologias, operações e objetivos próprios, e deveriam ser consideradas especiais, separadas das unidades da SS alemã. Os letos estavam organizados em 2 divisões da SS. Na época, o General das Forças Norte-Americanas, Coronel Whitton citou: “É difícil entender ou descrever o que ambas as unidades letas alcançaram face a esmagadora vantagem russa… Palavras não podem expressar o que eu quero dizer, mas diante destas duas corajosas divisões, eu curvo a minha cabeça.”

   Os letos que entraram voluntariamente na SS (fala-se em 20% do total de recrutas) tinham a esperança de se livrar dos russos. Eles não lutaram do lado dos Aliados pois temiam que estes ajudariam os russos a se manterem no controle. Já os que lutaram com os soviéticos, tinham a ilusão de que, uma vez terminada a guerra, uma vez expulsos os alemães, eles estariam livres novamente e os russos assegurariam a liberdade da Letônia. Mas aproximadamente 80% dos jovens envolvidos, de ambos os lados, estavam lá contra a sua vontade. Infelizmente, o resultado foram ilusões vindas de todos os lados e milhares de jovens vítimas.

   E o meu avô? Como ele conseguiu sobreviver a tudo isso, terminando seus dias na Europa em território alemão? Essa resposta demanda mais investigação e, talvez, nunca terei certeza sobre ela. Entretanto, o documentário “Latvian Legion” (com legendas em inglês no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=MHtcgaeC4T8), roteirizado pelo historiador Uldis Neiburgs, me deu uma boa ideia do que poderia ter acontecido. Em um momento do filme, um recruta da legião, Ilgonis Dambitis, conta como em 1944 eles receberam ordens de mobilização do exército alemão. Ele diz que perguntou a seu pai se era melhor fugir para a floresta ou ir junto com o exército. Por fim, ele acabou indo com o exército, receando retaliações contra ele ou sua família, e foi levado para a Alemanha de navio. Partindo pelo rio Daugava, cantaram “Dievs, svētī Latviju” com lágrimas nos olhos.

   Após a rendição da Alemanha pelos Aliados, as pessoas deslocadas pela guerra foram organizadas em campos de refugiados. Muitos do leste-europeu não puderam voltar aos seus países de origem, pois teriam que enfrentar o tratamento das autoridades soviéticas. A Alemanha, neste período, ficou dividida sob o controle da Grã-Bretanha ao norte, Estados Unidos ao centro, França ao sul e URSS ao leste.

   Por conta da cidade de Bad Salzuflen estar na Zona Britânica de controle, pesquisei documentos do Arquivo Nacional da Inglaterra (http://www.nationalarchives.gov.uk/). Um deles, um relatório sobre um campo de refugiados, descrevia que seus internos eram treinados em diversas profissões, como carpintaria, mecânica de carros, costura e engenharia elétrica, antes de serem realocados para outro país. Deve ter sido aí que meu avô aprendeu suas habilidades como mecânico.

   Tentando encontrar parentes vivos na Letônia, entrei em contato com Lauris Olups – Detetive de Famílias (http://familydetective.lv/). Ele conseguiu achar algumas pessoas, mas não obtive um retorno significativo delas. A princípio, não sabia se realmente eram relacionadas ao meu avô, apenas que o sobrenome Kavalieris não era muito comum na Letônia.

   Mas aí veio mais uma dúvida: se não era comum, qual era a sua origem? A principal hipótese que veio a mim é que o nome teve origem nos Cavaleiros Teutônicos, que dominaram a região entre os séculos XIII e XV e, dentre outras coisas, fundaram a cidade de Riga. Associei a palavra cavaleiro a Kavalieris, mas não tenho nenhum registro que confirme isso.

   Também descobri que alguns Kavalieris da Letônia foram extraditados para a Austrália em um navio saindo de Nápoles, na Itália, durante o pós-guerra. Tentei contato com eles, sem resposta. Identifiquei até um “semi-homônimo” meu, Andrejs Kavalieris, soldado da artilharia leta na Primeira Guerra Mundial e nada muito além disso.

 Após algum tempo, o detetive de famílias comunicou que conversou com um rapaz que disse já ter sido abordado por mim alguns anos antes (dado que me passou desapercebido) mas que, na época, havia sido orientado a nunca falar sobre os assuntos da família com um estranho. Depois disso, ele entrou em contato com uma jovem cuja bisavó tinha o mesmo nome que a minha. Ela chegou a me escrever dizendo simplesmente: “Sveiks!” (olá, em leto). Eu, por outro lado, escrevi um longo texto me apresentando e contando minha história. Porém, após escrever, só obtive silêncio.

Em paralelo às tentativas de contato com meus possíveis parentes, minha avó me entregou uma pilha de cartas que meu avô recebia de seus familiares da Letônia. Não havia mais dúvida, as pessoas que encontramos e as cartas eram do mesmo lugar: Liepaja e a região de Grobina.

   As cartas tinham nomes e eu finalmente estava descobrindo quem eram os irmãos, irmãs e outros parentes de meu avô: Karlis, Rihards, Vilma, Rudis, Valija. Apesar de não falar leto e das ferramentas de tradução online terem suas limitações, eu digitalizei as cartas e comecei a traduzi-las. Elas me deram a impressão de que nem todas eram recebidas e que nem sempre as histórias ali escritas contavam a realidade por completo. Fora o usual “…todo mundo manda oi!”, era comum encontrar frases como “…está tudo bem…”, “…nós estamos todos empregados…”, “…você não tem que se preocupar com nada…” e “…nós não recebemos notícias de você em tanto tempo!”.

   Mencionei sobre essa impressão com a Sra. Cônsul Daina Gutmanis e ela me disse que fazia sentido. Naquela época as pessoas na URSS não podiam dizer nada de mal sobre a situação em que viviam, já que todas as comunicações eram primeiramente lidas pelas autoridades soviéticas antes de chegarem ao seu destino – quando chegavam – e qualquer palavra mal escrita poderia acarretar em sérias represálias.

   As correspondências recebidas por meu avô eram sempre muito emotivas e a família parecia ser próxima. Tenho tentado descobrir se algum dos irmãos e irmãs de Koļa ainda estão vivos, mas, até o momento, não encontrei respostas.

   Durante minha extensa pesquisa, acabei me comunicando com o Arquivo Nacional Brasileiro (http://www.arquivonacional.gov.br/), o que resultou na descoberta do nome do navio que trouxe meu avó para o Brasil: General Stuart Heintzelman, procedente de Bremen. Este era um navio da Marinha Norte-Americana que levou milhares de pessoas de toda a Europa, partindo da Alemanha para o Canadá, EUA, Brasil e Austrália. O documento também mostrava onde meu avô foi deixado no país: a Ilha das Flores. Este era o principal ponto de chegada dos imigrantes no Rio de Janeiro.

O navio da marinha americana General Stuart Heintzelman

   Não sei exatamente quanto tempo Koļa ficou neste lugar, mas é certo que ele foi enviado para trabalhar em uma fazenda em São Bernardo do Campo chamada “Sítio Manaaí – Wilson Russo CIA.”, mais uma informação fornecida pelo Arquivo Nacional e confirmada pela minha avó.

   Koļa não falava uma palavra em português e foi aprendendo, aos poucos, lendo os jornais locais e a Bíblia.

   Após trabalhar na fazenda, ele se mudou para São Paulo, cidade que efervescia de oportunidades de emprego nos anos 50. Lá conheceu a minha avó e se casou em 1951. Durante este período, existia uma certa facilidade para a compra de terras. A Vila Zelina , na região da Vila Prudente, era um destes lugares em São Paulo. Até hoje, lá é um dos locais com maior concentração de imigrantes do Leste Europeu na cidade, e onde é celebrada, no primeiro domingo do mês, uma feira de artesanato e comidas tradicionais. Outras cidades emergentes também eram um destino atrativo. Koļa acabou indo para São José dos Campos, onde construiu sua casa, abriu sua oficina mecânica e criou sua família. Meu avô era muito respeitado na cidade por seu trabalho e ética, e tinha como principal lazer levar minha mãe e seus seis irmãos às praias do litoral norte.

Propaganda de terras para a Vila Zelina

   Koļa manteve contato com a comunidade leta no Brasil em Nova Odessa e Varpa. Mas, apesar das cartas que trocava com seus parentes na Letônia, não tinha nenhum contato verbal com a sua família. Dentre as correspondências recebidas, datadas entre 1947 e 1991, estavam algumas de um primo que acabou indo para o Canadá. Por coincidência, meus pais moraram no Canadá em 1984 e localizaram este primo, Žanis. Em uma visita deles a Žanis, meu avô, após quase 40 anos, pôde ouvir a voz de um membro de sua família por telefone. Sem dúvida foi um momento de muita comoção.

   Tentei achar algum contato atual deste primo durante muito tempo, sem encontrar.

   Enquanto pesquisava essas histórias, em Novembro de 2015, meus documentos para o passaporte foram aprovados pela Letônia. Enfim fui notificado sobre a confirmação da minha cidadania leta e meu objetivo havia sido alcançado!

Minha conquista. No Consulado da Letônia no Brasil

   Certo dia, assistindo a um jogo dos Cleveland Cavaliers na NBA pensei em pesquisar por Žanis Kavaliers e não Kavalieris e acabei encontrando a foto de seu túmulo no Canadá. Olhei novamente os envelopes das cartas trocadas e, em alguns, o nome realmente estava escrito desta forma: “Kavaliers”.

   Contei a história de Žanis para uma tia, que também já havia tentado contato com possíveis familiares na Letônia. Ela já tinha ouvido falar sobre ele por intermédio de um jovem com quem se correspondia há três anos. Lembram daquele rapaz que não podia falar sobre assuntos de família com estranhos? Pois é, descobrimos que Žanis era seu bisavô. Depois dessa revelação, o bisneto finalmente me ligou.

   Conversamos por uma hora e ele me contou que sua bisavó sempre procurou saber sobre o paradeiro de Žanis, que havia partido e nunca mais voltara. Aparentemente, ele e a bisavó do rapaz se encontraram na Alemanha por algumas vezes no pós-guerra, mas ela acabou voltando para a Letônia, enquanto ele foi para a Inglaterra. Pesquisando na internet, acabei achando o cartão de imigração dele da Inglaterra para o Canadá, em 1955.

   Assim como Žanis, Koļa nunca pôde voltar para a Letônia. Minha mãe me disse que ele costumava dizer: “…quando for possível para eu voltar para a Letônia, você vai comigo?”.  É claro que ela iria, mas em 1991 ele teve câncer de pulmão. Meu avô viveu o suficiente para ver seu país ficar independente da URSS, mas já não tinha forças para voltar e acabou falecendo em dezembro de 1991.

Trabalhadores da fazenda em São Bernardo do Campo. Meu avô Nikolajs está no topo esquerdo

   Toda essa história, coroada pelo sucesso na obtenção da minha cidadania leta, acabou me abrindo novas portas de relacionamento, além de ter gerado em mim um sentimento genuíno de nova identidade, sendo uma fonte de inspiração e efervescência criativa.

   Como sou formado em comunicação e estou planejando fazer um mestrado em Escrita Criativa na Europa, resolvi fazer contato com o jornal “The Baltic Times”. Perguntei se eles teriam o interesse em receber matérias da América Latina com foco nos temas Bálticos. A resposta foi positiva e logo fiz contato com Felipe e Renate Albretch, da Associação Brasileira de Cultura Leta (ABCL), para levantar dados sobre as matérias que enviaria para o jornal.

   O primeiro artigo que escrevi foi sobre a imigração dos Letos no Brasil (que pode ser lido em inglês aqui). Já a segunda matéria, fala sobre a imigração dos letos na Argentina. Fui recentemente a Buenos Aires a negócios e aproveitei a oportunidade para fazer contato com o pessoal do Consulado leto na cidade. Fui recebido pelo Coordenador Social, Dr. Andrés Ozols e ele me contou um pouco sobre a imigração por lá. Terminei o agradável café recebendo um presente especial,  um livro escrito por seu pai, contando sobre a imigração dos letos na Argentina, Uruguai e Chile, e alguns exemplares de um boletim informativo sobre as atividades da comunidade leta na Argentina.

   Como o Dr. Ozols também é professor de física na Universidade de Buenos Aires e membro da Câmara de Comércio do Rio da Prata e de Riga, promove intercâmbios de alunos para a RTU (Universidade Técnica de Riga), criando uma relação estreita entre as comunidades estudantis leta e argentina.

   O artigo sobre os letos na Argentina saiu em uma página inteira no jornal, mas como a matéria foi publicada apenas em mídia impressa, disponibilizei o texto também na internet neste link: http://bit.ly/1SC8g25

   Como o contato com ABCL tem sido muito proveitoso, me convidaram para escrever para a revista Raksti. Claro que aceitei e com o maior prazer! Espero que esta seja a primeira de muitas histórias que lhes contarei.

   Minhas descobertas sobre a Letônia e o apego por minha história familiar me fazem participar, sempre que possível, das programações da ABCL. Estou gostando muito das aulas de leto, dadas pela Renate Albretch, que têm ocorrido em São Paulo quinzenalmente. Nos meus planos de estudos na Europa está programada uma visita à Letônia e, um pouco mais próximo do que esta viagem, está a comemoração do Ligo, no dia 18 de Junho em Nova Odessa, da qual certamente farei parte.

   Apesar de estar no meu sangue desde sempre, hoje posso dizer que a Letônia faz parte de mim! Me sinto cada vez mais envolvido com a cultura do país e com as pessoas. Um pedaço do quebra-cabeça da minha história está se encaixando e novidades ainda estão por vir.

A segunda independência da Letônia

   Apesar de existir desde tempos antigos, a Letônia se tornou um país independente pela primeira vez em 1918, aproveitando uma era de apogeu cultural e econômico seguindo o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). No entanto, não demorou muito para ser invadida pela Alemanha Nazista e depois, e logo depois pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), ambas disputando o mesmo território. Deportações, censura, guerra e o Holocausto foram alguns dos muitos crimes cometidos contra os povos das pequenas nações Bálticas. Após a Guerra, os países haviam perdido mais de meio milhão de habitantes.

   Ao final da guerra, no entanto, o mundo virou as costas para os países bálticos. O ditador soviético Joseph Stalin havia sido um aliado importante contra os nazistas, e assim as pequenas nações e seus povos foram esquecidos sob o punho de ferro da censura soviética. Pelos próximos 50 anos, quem ousasse falar contra haveria de receber uma visita da KGB, a polícia secreta.

   A União Soviética, no entanto, não iria durar muito. Ao final da década de 70 sofria com estagnação econômica, burocracia elevada e uma população cansada. Em 1985 Mikhail Gorbachev assumiu o posto de Secretário Geral da União Soviética – e em uma tentativa de revitalizar o país – promoveu a política de glasnost (abertura política) and perestroika (abertura econômica).

   Em 1986 os letos criaram o grupo “Helsinki-86” para a defesa dos direitos humanos e liberdade. Este grupo procurava lembrar também as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Em 1987 foi convocada a primeira manifestação pública contra a ocupação, em junho de 1988 a União dos Escritores também criticou o regime e clamou por mudanças.

   Em 23 de agosto de 1989 foi organizado o famoso Baltijas ceļš, o Caminho Báltico, uma manifestação pacífica formando uma corrente humana de 2 milhões de pessoas através de 675.5 quilometros através dos países bálticos. Essa manifestação chamou a atenção mundial e ajudou a formar uma opinião pública pela independência desses países. Após a queda do comunismo, essa data se transformou no dia da memoria das vítimas do Stalinismo e do Nazismo.

 

   Após essa demonstração, as autoridades soviéticas não tinham mais como negar a autonomia para os povos bálticos. Foi decidido que as repúblicas bálticas teriam eleições (apesar de controladas). Em Março de 1990 a Frente Popular Leta venceu o Partido Comunista. Em 21 de Abril milhares de pessoas se reuniram em Riga pedindo que o novo governo tomasse as medidas para a independência.

O 4 de Maio

   No entanto, a Frente Popular ocupava apenas 131 cadeiras das 201 no Supremo Conselho¹, enquanto eram necessários pelo menos 132 votos para declarar a independência. Após uma acirrada campanha e deliberação, repleta com tentativas do bloco soviético de impedir a votação, o povo se organizou com a sua campanha “Par!” (“A favor!”) pela independência, e o dia da votação escolhido foi 4 de Maio de 1990.

   Com o povo ansioso nas ruas e o conselho lotado de jornalistas, 138 deputados votaram a favor, 1 se absteve e os outros – visto que estavam em minoria – se retiraram da votação. Assim foi aprovada a  declaração “Sobre a Restauração da Independência da República da Letônia”. As pessoas comemoravam nas ruas, o presidente do Supremo Conselho Anatolijs Gorbunovs foi recebido com flores, e vários deputados foram carregados nas mãos do povo jubilante.

Este slideshow necessita de JavaScript.

   Na prática, reconquistar a independência não seria tão fácil. O Partido Comunista condenou a declaração e pediu a intervenção de Gorbachev – afirmando que a declaração violava a constituição soviética. Várias tentativas de desestabilizar o recém-formado governo foram feitas. As demais repúblicas bálticas estavam sofrendo a mesma pressão.

    As forças especiais soviéticas (OMON) e os setores mais radicais do regime soviético, planejavam atacar a capital Riga e acabar com o novo governo. Em 11 de Janeiro de 1991 o exército vermelho atacou a capital lituana, Vilnius. Antecipando o mesmo, o governo leto chamou o povo às ruas defender a sua capital com barricadas. Pontes foram fechadas com carros, caminhões e tratores, ruas foram entulhadas com mesas e cadeiras. Quando a OMON chegou, Riga era uma fortaleza que só seria derrubada com muito sangue. Do dia 13 de Janeiro ao dia 27 as forças estiveram em um impasse – os líderes soviéticos temiam retaliação ocidental.

Este slideshow necessita de JavaScript.

   Sem exército e estrutura – apenas com o apoio e amor do povo – a Letônia resistiu a sua última ocupação. E agora, cabe a nós defende-la dia após dia.

   Dievs, svētī Latviju (“Deus abençoe a Letônia”)

Baltā galdauta svētki

A toalha de mesa branca

    O Ministério da Cultura da Letônia convida todos a celebrarem o Baltā galdauta svētki (A Celebração da Toalha de Mesa Branca) para comemorar a restauração da independência. O objetivo é fortalecer a celebração de se reunir com família, amigos e vizinhos à mesa no dia 4 de Maio. Cada pessoa traz consigo algo para a adicionar para a festa e a mesa. A celebração é uma lembrança de como a restauração da independência foi o resultado do esforço e da união de todos os letos pelo mundo.

Grande é a nossa Liberdade – para toda a Letônia. Todos nós, as pessoas desta nação, carregamos a responsabilidade. E uma parte disto pertence a nós – pertence a de cada um.

Somos obrigados a tomar responsabilidade por nossa liberdade? Não! É um trabalho prazeroso. Assim com um jardim pode dar paz e harmonia pois você cuidou, regou e o protegeu. Assim como nós fazemos, e devemos fazer.

Nossa Liberdade nos protege, e nós protegemos nossa Liberdade

    Cada pessoa pode organizar sua celebração com sua família e grupos locais. Nós recomendamos:

  • Celebrar ao redor de uma mesa, junto de sua família, vizinhos, amigos de longe e de perto, colegas, conhecidos e comunidade.
  • Utilizar a Toalha Branca como um símbolo de união, força interna e dignidade
  • Invista seu tempo conversando, trocando memórias. Fale sobre o significado de liberdade e lembranças.
  • Documente a celebração por fmeio otos, audio, stories, vídeos – assim poderemos preservar os testemunhos do nosso 4 de Maio. Compartilhe suas recordações usando as hashtag #LV100 #briviba

   Tenha um ótimo e feliz dia 4 de Maio!

 

¹ O Supremo Conselho da República Soviética da Letônia, também chamado de Supremo Soviete. Espécie de “Câmera dos deputados” ou Parlamento das Repúblicas Soviéticas. No entanto, até o Glasnost as eleições não eram livres e as reuniões eram pouco frequentes, podendo ser até duas vezes por ano. Normalmente, o Supremo Soviete funcionava apenas para carimbar as ordens do Partido Comunista.

Eu queria tanto, ainda viver

Por volta de meus 15 anos, quando eu estava começando a me interessar por minhas raízes, sempre fazia perguntas para meus familiares e conhecidos sobre “como era a Letônia e o motivo pelo o qual os letos teriam saído de lá”. Certo dia, minha avó revirando seus pertences, me presenteou com um livro que talvez seria de meu interesse, pois se tratava de um livro com detalhes históricos da Letônia.

Confesso que nunca fui “amante de livros”, porém aquele tinha me despertado uma vontade na leitura. Disse minha avó que o livro era curto, que ela teria lido em 1 tarde enquanto trabalhava em sua loja de artesanatos.

Fui presenteado com o livro “Eu queria tanto ainda viver”, em leto, “Vēl tā gribejas dzīvot”, manuscrito traduzido por Yolanda Mirdza Krievin e publicado pela Comunidade Evangélica Luterana Leta do Brasil, em 1982.

Capa do Livro em língua portuguesa

O livro relata a história de Ruta Ūpe, uma jovem Leta de 14 anos de idade, levada à força junto aos milhares de pessoas às taigas e aos campos de trabalho forçado, sujeitos a torturas e humilhações nos confins da Sibéria.

Ruta descreve em suas memórias os momentos da triste perda de sua liberdade e vida, as condições escravas exaustivas e desumanas enfrentando o frio siberiano, a falta de uma moradia digna e de assistência médica, a luta pelo pão de cada dia e a perda de familiares no decorrer do passar do tempo. Por meio de anotações em um diário, Ruta pode manter-se forte e mentalmente sã, registrando todos os horrores pelos quais passava, junto de parentes e amigos.

Com o passar de alguns anos, tive a oportunidade de visitar a Letônia pela primeira vez, e  lá, visitei museus que me proporcionaram as explicações de minha dúvida: “Por que tudo aquilo aconteceu na vida de Ruta”?  “O que ela ou sua família tivera feito para merecer aquilo”?

Descobri que não apenas a Letônia, mas as três províncias Bálticas (inluindo Estônia e Lituânia) foram dominadas pelos Soviéticos. Para que a ideologia Socialista fosse aplicada sem grande perturbação dos opositores, aqueles que tinham conhecimentos acadêmicos, não concordavam com as práticas do sistema e que não queriam abrir mão de seus bens privados, constituíram aquela grande congregação de sofredores inocentes; alguns com feridas que jamais cicatrizaram.

Desenho que retrata as deportações da Letônia para a Sibéria
Crianças dentro dos trens de deportação

 

 

 

 

 

 

Itinerário seguido pelos Letões escravizados pelos comunistas, a caminho da Sibéria.

Hoje, com uma cabeça mais madura, eu reli o livro, e pude prestar atenção em informações que me fizeram arrepiar, e às vezes chorar, pois passei por lugares na Letônia onde Ruta esteve.

Rio Obi, mencionado na obra de Ruta atravesando a cidade de Novosibirsky
Cidade de Bauska, onde Ruta morou depois de retornar a Letônia.

O livro “Eu queria tanto ainda viver” é uma obra valiosa assim como “O Diário de Anne Frank”, obra rica em informações sobre como aquelas pessoas sofreram as consequências de um regime totalitário e injusto. As deportações da população dos países bálticos para a Sibéria é um acontecimento recente, sendo que no ano de 2018 estará completando apenas 77 anos. A publicação deste livro foi uma das últimas vontades de Ruta antes de partir deste mundo, pois queria sua vingança e mostrar ao mundo que o sangue inocente dos mortos letões clama também por vingança. Este livro deve ser para nós a memória viva de todos os acontecimentos do passado, que jamais serão esquecidos, por mais que nosso mundo tente esquecer e esconder.

Ruta conclui suas memórias com palavras do Poeta Skalbe: “Foram muitos os teus mártires, minha pequena Pátria”.  

“Mais uma vida que se juntou às sombras dos mártires que morreram, uma vida que teve de trilhar o longo trajeto das outras e depois morrer, embora fosse tão grande a sua vontade de viver”.

Revisora: Cláudia Klava